A propósito de um artigo recente do José Rodrigues sobre os naming rights do novo museu do FCP, abriu-se um interessante debate sobre o passo a seguir. Inevitavelmente, a discussão sobre a venda dos direitos do nome do Estádio do Dragão.
Eu pertenço a um grupo que se auto-intitula Against Modern Football e que não concebe sequer que isso possa vir a suceder.
Sou um romântico confesso, um adepto que sente uma identificação especial com um emblema, umas cores, um espaço físico uma história. Se me mudam o emblema, se me alteram as cores, se rompem com o espaço físico e a aura que me rodeiam, só me fica a história. Só fica o passado. Muitos clubes recentemente têm sofrido metamorfoses tremendas, a maioria por culpa da venda a milionários de várias proveniências. É estranho que um emblema controlado pelos próprios adeptos permita que o clube mude de emblema, mude as cores do equipamento ou que venda o nome do seu estádio. Muito estranho.
Essencialmente isso sucede porque o adepto gosta de sentir-se parte de algo. Quando os nomes do quotidiano desaparecem para dar lugar a marcas, algo se perde. A muitos custou-lhe a chegada dos patrocinios nas camisolas. Quando eu nasci essa realidade já lá estava, não pude lutar contra ele. Mas confesso que parte do meu apoio ao Barcelona e ao Athletic Bilbao, com quem sempre me identifiquei, desapareceu no dia em que a Unicef/Qatar Fundation e Petronor ocuparam o espaço central das suas camisolas. O FC Porto teve o mérito comercial de se antecipar em Portugal a todos os outros. Mais do que isso, criou uma cultura de adepto com o seu próprio patrocínio, perpetuando o nome Revigres durante quase duas décadas. Para os dragões, a associação fez da empresa portuguesa parte da família. A chegada da PT (e as suas variantes) foi para muitos um golpe. Respeito todas as posturas mas custa-me entender - como adepto - como alguém pode estar disposto a vender partes dessa identidade. E o estádio é uma delas!
Agora vem o debate do Dragão!
O espaço das modalidades - antigamente conhecido pelo nome do presidente Américo de Sá - foi criado com uma parceria com a Caixa Geral de Depósitos e chama-se Dragão Caixa. A natureza arquitectónica do edifício permite que o nome do patrocinador se enquadre com o que o espaço é. Não existe uma invasão sonora do "Mini-Dragão" como se fosse chamado Dragão Sonae ou algo do estilo. O novo museu, criado também numa parceria com uma entidade bancária, terá o by BMG como alusão aos anglicanismos que parecem sempre ficar bem. Rompe totalmente com a ideia por detrás do Dragão Caixa, ainda para mais num espaço que devia reflectir a herança moral do clube. Não conheço outro clube no mundo (se conhecerem, apontem na caixa de comentários) que tenha vendido o nome do seu museu assim, tão impunemente. Sinal dos tempos desta nova gestão mercantilista, onde nada está a salvo e tudo é permitido. Não me lembro dos sócios terem sido consultados. Não me lembro do assunto ter sido levantado em AG. É uma espécie de quero, posso e mando habitual de quem está há tantos anos no poder que com o seu impacto social e moral conseguiu transformar um clube de sócios individuais numa dinastia inquestionável. O preço do sucesso dirão alguns.

Mas o estádio é algo diferente.
O estádio é onde nos reunimos. O estádio é onde sofremos. O estádio é onde os visitantes chegam e testemunham a nossa natureza, a nossa fome de vitórias. É onde celebramos, onde choramos e onde nos abraçamos a desconhecidos. É tão nosso como o azul e branco, o dragão do emblema com o escudo da cidade. O estádio nunca deveria estar à venda e no entanto há gente, entre sócios, adeptos e dirigentes, que parecem estar só à espera do momento ideal para dar a estocada final num dos símbolos de qualquer clube: o seu lar.
Quando construído, pensou-se em vários nomes para o novo lar dos portistas. Houve quem pensasse em José Maria Pedroto, como homenagem à máxima figura história do clube. Os mais pintocostistas evocaram o nome de Jorge Nuno como opção, não conhecendo a sua figura, incapaz de permitir algo
bernabeuiano. Ficou Dragão. Uma escolha perfeita, com um timing exacto. Antes tinha existido o estádio das Antas (oficialmente estádio Futebol Clube do Porto) e o estádio da Constituição, hoje vendido também à marca Vitalis, que a história para alguns tem sempre um preço e não é tão caro quanto isso.
A moda da venda dos naming rights dos estádios começou nos Estados Unidos, onde tudo está à venda. Na Europa existia um respeito com a tradição que vai desaparecendo. Há pessoas que acham que a alma se vende por uns trocos. Imagino que os mesmos que defendem a venda do nome do estádio não tenham problemas em vender o nome do clube (como sucede com o Red Bull Leipzig, Salzburg, New York ou o Pão de Açúcar Goiaba do Brasil) porque o seu argumento é só um: continuamos a chamar pelo nome que queremos e já está. Assim se resolve o problema.
Talvez chegaremos ao dia em que as pessoas vão ao registo civil e vendam o seu nome por uns tostões (podem passar a chamar-se Sony João Almeida) sob o mesmo pressuposto. Pode parecer ridículo mas para os nossos pais também era ridículo vender o nome do estádio do seu clube e aí estão eles, a fazer contas à vida. O ridículo de hoje parece ser a inevitabilidade do amanhã.
No panorama internacional europeu, a venda de naming rights ainda não é uma realidade aceite pela maioria dos adeptos. Com todo o sentido. Aliás, só clubes com grandes problemas financeiros ou onde os adeptos não têm voto na matéria se têm atrevido a dar esse passo.
Foi o caso dos clubes alemães, quando estalou a bolha financeira do império Kirch. As dividas do Dortmund levaram o Wellfastadion a ser o Signal Iduna, as do Hamburgo a transformar o Vondalkspark em Imtech e os negócios do Schalke 04 transformaram o Gelsenkirchen Arena em Veltins Arena. Quase todos estádio construidos desde o zero para o Mundial 2006 (o que é importante porque, segundo vários estudos sobre o tema, o valor do naming de um estádio com história é inferior a um recinto novinho em folha).
Só o Bayern Munchen, sempre um passo à frente nestas questões, o fez por vontade própria. Mas o Bayern é gerido como uma multinacional desde os anos 70 e também por isso é um clube que gera tanto desprezo no mundo do futebol. Não surpreende ninguém o passo. Em Inglaterra, o outro país onde se começam a verificar a venda de nomes de estádios este sucederam, habitualmente, quando o clube parte para a construção do novo recinto e utiliza os naming rights para pagar o estádio, com um contrato de duração determinada até ao ponto em que pensam que o recinto está pago. Foi assim com o Ashburton Grove do Arsenal (hoje Emirates), do City of Manchester (hoje Ethiad Stadium) ou do Burnden Way (hoje Reebok Stadium). Aí a venda dos direitos é utilizada como crédito bancário para evitar um maior prejuízo na construção do estádio. Não é o nosso caso.
Para que pode querer o FC Porto vender os naming rights do estádio?
É difícil imaginar uma empresa internacional a querer pagar dinheiro para dar o nome ao estádio de um clube português. Não vejo nas empresas portuguesas alguém com poder suficiente para arcar com esses gastos. O FC Porto não precisa do dinheiro para pagar o estádio. Não precisa desse dinheiro para investir no plantel. O orçamento actual para as ambições do clube é mais do que suficiente. Já temos o orçamento mais elevado (ou o 2º, em alguns anos, muito perto do primeiro) para manter a hegemonia nacional. Para as provas europeias o discurso habitual dos Oitavos de Final também se adequa com o nosso orçamento pelo que a venda dos naming rights não alteraria muito o cenário.
Os jogadores vão olhar sempre para um clube da periferia europeia como sitio de passo para outro nível, por isso vender o nome do estádio não implicaria criar uma super-equipa da noite para o dia. Então, para quê?
O Arsenal recebeu 100 milhões da Emirates num contrato de 15 anos. Estamos a falar de 6,6 milhões de libras ao ano (cerca de 10 milhões de euros). O negócio do City envolve valores muito mais elevados (400 milhões por 10 anos) mas a empresa que os paga está associada aos donos do clube, pelo que no fundo é um circuito fechado para contornar a regra do Financial Fair Play. O Dortmund recebe 5 milhões ao ano pelo nome Signal Iduna Park no seu estádio.
Estamos a falar de clubes das ligas de topo com valores acordes à sua realidade (da mesma forma que o patrocínio dos equipamentos parte de outros valores de mercado que os nossos). E no entanto, são números quase insignificantes. No caso do FC Porto, seria difícil conseguir um negócio melhor que o Dortmund (que é só o estádio que mais assistências tem na Europa), pelo que estaríamos a falar de 5 milhões ao ano. O que é isso para as contas do clube?
Permite acabar ou diminuir fortemente o passivo?
Não.
Permite contratar um grande jogador internacional ao ano e pagar-lhe o salário?
Não
Permite reforçar o plante com dois ou três jogadores de qualidade média alta e pagar-lhe o salário?
Não.
Permite contratar duas ou três promessas a mais das que já contratamos?
Não.
Permite aumentar realmente a massa salarial do plantel para evitar saídas precipitadas?
Não.
Honestamente, 5-10 milhões ano, que é o máximo que qualquer clube que não seja do top 10 europeu pode ambicionar pelo seu estádio, justifica abdicar da herança história, da alma do clube? Está realmente tudo à venda? Somos adeptos de um clube de futebol (uma instituição de interesse público) ou de uma multinacional? Tanto faz se amanhã aparece a Coca-Cola com 50 milhões de euros para nos equipar de vermelho? É igual que o estádio se chame Dragão ou Optimus ou Coronita? Somos um clube em quebra financeira (como o Sporting), que precisa de uma injecção urgente de capital para ser competitivos? Temos princípios ou somos um entreposto comercial?
A minha resposta a todas essas perguntas é clara. O Futebol Clube do Porto não precisa de vender os naming rights do Dragão da mesma forma que não precisava de o fazer com o museu. O FCP não precisa de vender o nome do clube ao melhor postor (porque o estádio também é o nome do clube, em cimento) nem preciso de enganar os seus sócios e adeptos de tantos anos de devoção com um negócio cujo o seu valor real de mercado para a nossa realidade é insignificante. O que o FCP pode e dever fazer é optimizar ao máximo os seus recursos, procurar novas formas de négocio dentro da sua estrutura, reduzir perdas desnecessárias e controlar o seu passivo sem abdicar de ter uma equipa competitiva. E isso não é incompatível com que o estádio continue a ser apenas e só, nosso. Do Dragão!