Na Europa os erros pagam-se caro. O FC Porto foi melhor durante 90 minutos mas isso não chega. As faltas sem sentido de Josué e Mangala permitiram ao Atlético vencer um jogo que os dragões tinham controlado desde o principio. Dois livres, dois lances estudados, anularam o grande trabalho colectivo dos azuis. Uma derrota amarga no Dragão, injusta por critérios futebolísticos mas natural entre uma equipa que sabe a que joga (e mesmo quando não joga, sabe como dar a volta à situação) e uma equipa verde, mentalmente, capaz de deitar por terra o excelente trabalho conseguido.
O Atlético não venceu por ser melhor. Venceu por ser mais inteligente. Venceu por saber resolver os seus problemas com engenho. Por estudar cada jogo com detalhe cirúrgico. E porque entre os erros infantis de Mangala e Josué e a eterna incapacidade de transformar a posse e as oportunidades em golos, condenou o FC Porto a ter de somar um duplo resultado positivo com o Zenit para seguir em frente. A liderança do grupo está praticamente fora de questão.
A primeira parte do jogo lembrou a excelente exibição dos dragões contra o Málaga, no ano passado.
Uma equipa confiante, autoritária, dominadora e desejosa de impor o seu modelo de jogo sob o rival. Foi o melhor FCP da era Fonseca, de longe. A equipa movia-se bem, era capaz de trocar a bola com segurança e dominava claramente os destinos do encontro. Simeone surpreendeu pela negativa, com uma equipa ainda mais defensiva do que se esperava, com Koke - o melhor jogador da equipa no último mês e meio, a par de Diego Costa, ausente por suspensão - no banco. No seu lugar jogou Leo Baptistão, uma jovem promessa brasileira, que passou totalmente ao lado do jogo. O Atleti foi mais defensivo e especulativo do que se podia esperar, sobretudo porque rapidamente os azuis e brancos os encostaram ás cordas e raramente os deixaram aproximar-se da baliza de Helton, um espectador durante quase todo o jogo.
Com Arda e Baptistão fora de jogo, Villa esteve demasiado só para criar perigo e Defour e Fernando entenderam-se perfeitamente com Alex Sandro e Danilo (excelente jogo) para apertar as linhas dos
colchoneros para bem dentro da sua área. Aí começavam as combinações com Varela, Josué e Lucho. Entre eles cozinharam-se os problemas dos espanhóis mas, tal como tinha sucedido contra o Málaga, o domínio da posse de bola e a melhor qualidade de jogo não se traduziu em oportunidades de golo. O tento de Jackson Martinez - que continua a marcar, a marcar e a marcar - surgiu num lance pouco habitual, um livre bem estudado que apanhou desprevenida a defesa rival. Era um golo mais do que justo e que premiava uma excelente exibição colectiva.
O segundo tempo começou com outra dinâmica. E apareceram os erros que custaram a vitória.
Simeone abdicou do seu único avançado e lançou o
Cebolla Rodriguez para povoar ainda mais o meio-campo. Com esse sopro de ar fresco o Atlético conseguiu, por minutos, o controlo do jogo e soltou-se da pressão de um FC Porto que entrou meio a dormir. Nesses dez minutos a equipa espanhola aplicou aos homens de Fonseca o mesmo remédio, empurrou-os para a área e começou a criar perigo.
Num lance igualmente estudado, como se esperava aliás, empatou o jogo. Josué cometeu uma falta infantil (e livrou-se do segundo amarelo) e Godin desviou o centro para as redes de um Helton que tinha salvado duas ocasiões saindo da área mas que, desta vez, não foi ajudado pelos centrais que deixaram o uruguaio cabecear. Era um golo que premiava o esforço dos espanhóis nesses escassos minutos mas injusto no computo global do encontro onde o FCP continuava a ser claramente a melhor equipa. Demonstrou-o reagindo muito bem. Voltou a tomar conta da bola, do ritmo de jogo e empurrou os espanhóis para trás, conseguindo algumas combinações interessantes, ainda que, como sempre, inconsequentes. A saída de Lucho - quando saiu o jogo perdeu-se - permitiu a entrada de Quintero que, com Licá, também ele lançado para o lugar de Josué (o mais apagado talvez), outro sopro de ar fresco. Mas as oportunidades escasseavam e era o Atlético - cada vez mais duro nas entradas (Juanfran podia ter sido perfeitamente expulso) quem era capaz de criar os lances de maior perigo em contra-ataques rápidos. E foi num desses lances que surgiu o segundo erro infantil.
Uma falta de Mangala numa zona proibida, e um posicionamento defensivo do livre que ignora por completamente a cartilha de Diego Simeone, um treinador que procura sempre a originalidade. Gabi enganou toda a gente, isolou Arda à frente de Helton e o turco disparou o tiro de morte. Com ele caiu o Dragão, por culpa própria!

O empate do Zenit em casa com o FK Austria foi a melhor noticia possível num dia histórico, pela negativa. É com os russos que se vai decidir o apuramento, algo que já se suspeitava nas últimas semanas. Ninguém pensaria que, jogando como jogou, o FC Porto fosse perder em casa um encontro controlado. É um aviso sério para os jogos em São Petersburgo e Madrid. E sobretudo, para a visita do Zenit, o jogo do tudo ou nada. Nos últimos anos, com qualquer treinador, o estádio do Dragão tinha sido um forte. Foi assim com Vitor Pereira contra os milhões do PSG, Málaga, Zenit e Shaktar. Foi assim com Jesualdo Ferreira na esmagadora maioria dos seus anos (para não falar na etapa AVB, numa competição menor). Esta derrota doi, emocionalmente, mas, lamentavelmente, não surpreende. Pelos motivos contrários, é certo. Mas não surpreende. Infantilidades como as de hoje repetidas podem ser fatais. Injustas, mas determinantes.
PS:
Hoje estavam 34 mil adeptos no Dragão. Era o segundo jogo mais importante do ano em casa, depois do duelo com o Benfica. Lembro-me quando nos jogos da Champions não se baixavam dos 40 mil. Há a crise, é certo, mas também há um desencanto com esta equipa. A exibição de hoje podia dar um balão de oxigénio ao crédito de Paulo Fonseca porque, apesar do resultado, não se jogou tão mal. Mas os erros dos jogadores e a falta de capacidade do banco em mudar a situação não auguram um mês fácil.