sábado, 14 de dezembro de 2013

Não, não foi azar

«O azar e a sorte intrometem-se frequentemente no jogo, ora para nosso desespero ora para nossa alegria. Neste jogo com o Atlético de Madrid nada correu bem, mas temos de convir que foram cometidos alguns erros capitais que não devemos escamotear, porque aconteceram e são recorrentes. (…) Com o Nacional e o Belenenses, foi a mesma história. Foram falhas e não tiveram nada a ver com a sorte ou o azar.»
Mário Faria, in ‘Frustração!


Desde o início da época que eu acompanho, com alguma curiosidade, a linha editorial de O JOGO, nomeadamente no que diz respeito ao treinador escolhido por Pinto da Costa para suceder ao mal amado Vítor Pereira. Em termos de desculpas e atenuantes tem havido de tudo e, desta vez, parece que a culpa da derrota (mais uma!) foi dos ferros das balizas do Vicente Calderón.

Não, por mais que O JOGO e outras pessoas queiram passar essa ideia, não foi por causa dos ferros, nem por azar, que o FC Porto perdeu em Madrid.

Não, não foi azar, bem pelo contrário, o Atletico Madrid já ter o 1º lugar do grupo assegurado e, por isso, ter alinhado de início com várias segundas escolhas - Aranzubia, Alderweireld, Manquillo, Insúa e Óliver Torres.

Não, não foi por azar que o FC Porto sofreu um golo ao minuto 14, na sequência de um lançamento lateral (!) do adversário.

Não, não foi por azar que o FC Porto sofreu um golo ao minuto 37, marcado por Diego Costa, o qual, sozinho contra a “linha” defensiva do FC Porto, se isolou e bateu Helton facilmente (numa jogada que foi quase uma fotocópia de outra que, qual aviso, tinha ocorrido ao minuto 29).

Não, não foi azar a forma passiva como toda a defesa do FC Porto, ao minuto 45, ficou a assistir à troca de bola entre jogadores do Atletico e que só não culminou no 3º golo dos colchoneros porque Helton defendeu o cabeceamento de Adrián feito à queima roupa.

Não, não foi azar (foi uma enorme sorte!) Diego Simeone ter trocado ao intervalo o bad boy Diego Costa pelo inconsequente David Villa.

Não, não foi azar, bem pelo contrário, Diego Costa (atualmente o melhor avançado do campeonato espanhol) só ter jogado 45 dos 180 minutos, nos dois jogos entre dragões e colchoneros.

Não, não foi azar, nem por culpa do Austria Viena (o qual fez a sua parte e a 40 minutos do final do Atletico Madrid x FC Porto já ganhava ao Zenit por 3-1), que o FC Porto ficou fora dos oitavos final da Liga dos Campeões.


Durante várias semanas, fomos bombardeados com a tese dos erros individuais…
O facto dos “erros individuais” terem sido cometidos, não por um jogador desconcentrado ou em má forma, mas serem recorrentes e cometidos por vários jogadores - Helton, Danilo, Otamendi, Mangala, Alex Sandro e Herrera, só para falar nos mais óbvios e com consequências diretas em golos sofridos -, não mereceu qualquer reflexão dos responsáveis, nem análise aos problemas coletivos que estavam na sua origem.

Depois veio a tese mirabolante da equipa quase perfeita, a que só faltava afinar a finalização…

Agora querem convencer-nos que a culpa é do azar.

Capas de O JOGO após as derrotas em casa frente ao Atletico Madrid e Zenit

Senhor diretor de O JOGO (e não só), a realidade é a seguinte: o FC Porto só ganhou UM dos SEIS jogos que disputou para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Azar? É mesmo, um azar do caraças…

É óbvio que seguir por este caminho, o caminho das desculpas esfarrapadas (azar, inexperiência, azar, erros individuais, azar, postes das balizas, azar,…) e das vitórias morais (a capa de O JOGO após a derrota em casa frente ao Zenit encheu-me a alma destroçada), não vai levar a nada de positivo. Contudo, se há pessoas que acham que o problema deste FC Porto de Paulo Fonseca é de azar e mau olhado, contrate-se um bruxo…

P.S. Este artigo foi elaborado e agendado há dois dias atrás e só não foi publicado antes por uma questão de agendamento de artigos de outros co-autores do 'Reflexão Portista'.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

As receitas da SAD

Num artigo anterior comentei, muito por alto, as contas da SAD no passado ano. Passo agora a alguns dados mais especifícos, começando neste artigo pelos proveitos (receitas).

Os proveitos da SAD (excluindo vendas de jogadores) mantiveram-se em 12/13 grosso modo estáveis em relação ao ano anterior (sem grande surpresa).

À primeira vista, estes aumentaram 6M€ em 12/13; na realidade, aumentaram 1,5M€ ou cerca de 2% (o aumento de 4.5M€ em Corporate Hospitality é devido a uma mudança de tratamento contabilístico, tendo havido um aumento idêntico do lado dos custos). Isto deveu-se acima de tudo a um aumento de 6M€ nas receitas da UEFA (a época anterior tinha sido má nesse aspecto).

A crise económica que tem assolado o país tem servido no futebol como um bode expiatório para resultados menos bons (também pelos nossos dirigentes). Mas não passa mesmo de um bode expiatório, já que como se vê pelo lado das receitas não tem havido grande problema, tendo estas subido nos últimos anos (aliás, são hoje uns 40% mais altas do que há 5 anos atrás, cerca de 20M€ extra/ano). O futebol é um mundo aparte. Mas porque é que digo isto?

As rubricas que têm um mínimo de relevância e que são claramente atingidas pela crise económica são - acima de tudo - o merchandising, quotas e a bilheteira (incl. Dragon Seats). 

Ora acontece que estes proveitos da SAD – de 9M€ no total - correspondem a uns meros 6% do total dos proveitos, ou 12% se excluirmos as mais-valias nas vendas de jogadores (que são muito variáveis, mas não têm sido minimamente afectadas pela crise – isto devido a um bom trabalho da SAD nas vendas mas também devido a um contexto favorável, já que os clubes europeus em geral e em média têm gasto tanto ou mais em compras de jogadores do que há uns anos atrás).

Já os principais proveitos para a SAD não têm sido minimamente afectados, aliás têm subido a bom ritmo. Antes de mais temos as receitas da UEFA (20M€ em 12/13), que têm vindo a aumentar paulatinamente – não porque tenhamos feito nos últimos anos melhores campanhas europeias do que no passado, mas pura e simplesmente porque a UEFA tem aumentado o «bolo» a dividir pelos clubes, sendo hoje quase o dobro de há poucos anos atrás (e isto não porque esteja mais generosa, mas sim porque as suas receitas de TV e patrocínios têm aumentado).

Em seguida temos as receitas (nacionais) de TV, que têm aumentado consideravelmente, fruto do contrato progressivo com a Olivedesportos. Foram 13M€ em 12/13 (bem mais do que merchandising, quotas e bilheteiras juntos) e serão ainda mais milhões esta época (18M€, salvo erro). A longo prazo poderá eventualmente haver um risco (mas também uma oportunidade...), mas nos próximos 3 anos não há por onde preocupar por aqui, bem pelo contrário.

Temos também entre os principais proveitos o Corporate Hospitality (camarotes e outros serviços para empresas) que se tem mantido estável (15M€ em 12/13 com mudança contabilística). Parece-me que (sem grande surpresa) ou estas empresas clientes da SAD têm sido em geral pouco afectadas pela crise, ou então esta é uma despesa de que não querem prescindir. Esta poderá ser uma rubrica sob alguma pressão, mas não me acredito que possa haver aqui uma grande quebra no futuro: quanto muito estagnação ou uma pequena quebra (não mais do que um par de M€).

Finalmente, temos entre os principais proveitos os patrocínios e publicidade (13M€ em 12/13). Estes têm-se mantido estáveis nos últimos 5 anos e penso que muito dificilmente terão uma grande quebra (mas também é pouco provável que aumentem bastante no futuro).

Só depois temos a bilheteira e quotas, que baixaram de 10.6M€ para 6.5M€ em 12/13. Em parte esta quebra deveu-se um pouco à crise (e a uma certa desilusão com as exibições), mas em grande parte (2.5M€) deveu-se também a uma iniciativa dos sócios (que eu defendia há muito) que levou a % de quotas atribuída à SAD a baixar dos 75% para os 25%, ficando o clube com o restante. 

Isto seria um balão de ar para as modalidades... não fosse o facto de que a Direção da SAD decidiu tirar mais ao clube com a mão esquerda do que os sócios tinham decidido dar com a mão direita – nomeadamente, ao passar a atribuir à SAD na totalidade as receitas relacionadas com suportes publicitários para as modalidades, num montante de cerca de 3M€ em 12/13, ficando o clube ainda pior do que antes (gostava de saber com que raio de lógica – a única comunicação que houve sobre isto foi uma curta nota de passagem na página 97 do R&C da SAD). Muito sinceramente, isto parece-me claramente um «chico-espertismo» e um pequeno escândalo que passou totalmente despercebido entre os sócios, e mais um sinal de que para os dirigentes os sócios parecem ser apenas meros consumidores e fontes de receita. Mas se alguém souber mais sobre isto, agradecia que comentassem.

Finalmente temos os restantes proveitos, que pouco mais são do que erros de arredondamento (até porque muitos deles têm custos consideráveis como a outra face da moeda)... começando pelo merchandising – que com receitas de 2.8M€ em 12/13 (já agora, a Porto Comercial deu um lucro de uns meros 600mil euros) coloca o FCP como um autêntico pigmeu face à esmagadora maioria dos clubes europeus de grande e média dimensão. E isto quando o FCP tem das camisolas oficiais mais caras da Europa... Quanto ao Dragon Tour, tem custos praticamente idênticos aos proveitos.

Há, finalmente, as mais-valias nas vendas de jogadores (e um valor absoluto total de 120M€ em 12/13, pulverizando o recorde anterior, graças a Hulk, A. Pereira, James e Moutinho). Disto já se falou muito anteriormente, incluindo no meu artigo anterior sobre as contas.

Análise

Parece-me que os proveitos (excl. nas vendas de jogadores) estão no cômputo geral de boa saúde, melhor do que nunca, sendo o mais provável que se mantenham estáveis nos próximos 3 anos apesar de uma ou outra queda marginal (como bilheteira), compensada por um aumento nas receitas de TV; com a ressalva natural de que para tal presumo que teremos performances europeias na média dos últimos 10 anos, i.e. indo em média aos 1/8s de final da LC. 

Quanto aos proveitos nas vendas de jogadores, parece-me claramente que haverá tendência para uma quebra pronunciada para, quanto muito, valores próximos da média dos últimos 10 anos (cerca de 30M€/ano de mais-valias, contra 76M€ na época passada), senão mesmo mais baixos - até porque é pouco credível que o FCP vá vender mais do que 3 titulares/época. Mais: parece-me que tal é mesmo em certa medida desejável (se for para vender um pouco menos jogadores/ano), já que é muito arriscado estar tão dependente como estamos das grandes vendas, para mais com a entrada em força das regras de Fairplay financeiro. Avancei as razões para tal raciocínio no artigo anterior sobre as contas. E isto já presume que o FCP irá continuar a descobrir e «fazer» ano após ano Moutinhos, James e Hulks...

Não me parece que a SAD possa fazer muito melhor do lado das receitas, sinceramente (há apenas uma área em que acho que poderia fazer muito melhor, que é explorar o vector multimédia incluindo por exemplo jogos, Apps e outros conteúdos – mas penso que mesmo esta área, quando explorada com excelência, não irá render mais do que um punhado de milhões/ano - e em menor medida o merchandising, incluindo e-commerce para o estrangeiro). 

No cômputo geral penso que a SAD tem, do lado dos proveitos, feito um trabalho muito bom na globalidade (mesmo que haja sempre oportunidades para fazer ainda melhor).

Sendo assim a conclusão só poderá ser que de forma a ter as contas equilibradas (que não o estão) a SAD terá forçosamente que cortar nos custos (não drasticamente - a la SCP - mas uns bons 10 a 20%). Mas isso já é assunto para o próximo artigo sobre as contas...

Para concluir: obviamente, o objectivo de ter contas equilibradas não é um fim em si mas apenas um meio para outros fins, nomeadamente uma competitividade desportiva sustentada. Até porque, como se costuma dizer, «sem dinheiro não há palhaços»...

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Frustração!


É nas alturas complicadas que devemos ser mais sensatos, mas é difícil face à enormidade de erros cometidos pela equipa. Tudo acontece. Pior: quando pensámos que já vimos de tudo, acontece algo ainda pior. E esta derrota confirma o pesadelo desta passagem pela CL: o FCP não conseguiu quebrar esta onda de maus resultados e fica com o seu pior registo de sempre. A equipa rendeu-se a esse malfadado destino que lhe serve de desculpa ou desresponsabilização. Lamento, mas não sou capaz de negar o descontentamento, só porque se deve apoiar a equipa nos maus momentos. Nesta fase apoiar, significa não aceitar a resignação; a fase do conformismo para dar tempo a que a situação se arrume, já não é prudente. 

O azar e a sorte intrometem-se frequentemente no jogo, ora para nosso desespero ora para nossa alegria. Neste jogo com o Atlético de Madrid nada correu bem, mas temos de convir que foram cometidos alguns erros capitais que não devemos escamotear, porque aconteceram e são recorrentes. No primeiro golo, é estranho que um lançamento de bola fora executado pelo adversário, que se sabe consegue colocar a bola bem dentro da nossa área, não tenha merecido a atenção e a concentração dos homens nessa zona nevrálgica. A bola partiu, Maicon foi impotente para travar o movimento do atacante e o remate; Helton foi surpreendido e aparentemente mal batido, enquanto uma boa parte dos jogadores nas redondezas se limitaram a assistir à jogada; algo semelhante aconteceu no segundo golo: uma série de erros e Maicon parado, incapaz de acorrer ao lançamento em profundidade, por falta de reacção e de velocidade. Com o Nacional e o Belenenses, foi a mesma história. Foram falhas e não tiveram nada a ver com a sorte ou o azar.

Se o AM estava confortável com as linhas baixas e bem agrupadas à espera do erro para o qual labutavam como formiguinhas chatas e incansáveis, com o primeiro golo, mais confortável ficou. Geriu o jogo como quis e venceu bem. Como no Dragão, em que se contentava com o empate.

Nas estatísticas demos um baile de bola, só que mais uma vez ficámos bem longe nos quilómetros percorridos; na primeira parte com o jogo aparentemente controlado, sofremos um golo da primeira vez que o AM chegou próximo da nossa baliza; perdemos uma gp, tal como tinha acontecido com AAC. As palavras de PF, no final do jogo, foram uma clara demonstração da sua impotência, e do estado de espírito instalado na equipa, que não acredita nas suas capacidades e raramente parece capaz de mudar o rumo dos acontecimentos.

Individualmente destaco os bons desempenhos de Fernando, Defour, Martinez e Danilo; Varela esteve esforçado e Mangala razoável, mas distante dos registos da época passada ; Maicon e Alex Sandro estiveram desinspirados. Josué falhou. Helton esteve bem mas facilitou no primeiro golo. Os que entraram estiveram sofríveis: Licá que entrou bem, foi perdendo fulgor. Herrera e Ghilas nada acrescentaram. Faltou raiva e intensidade à equipa.

O Austria de Viena, pasme-se, perdeu com o FCP a possibilidade de chegar aos oitavos, e o FCP, com esse golo no Dragão, garantiu a Liga Europa. Aliás, é justo destacar que em Viena fomos muito felizes. Hoje, tivemos tudo para ser felizes, mas não fomos capazes ou não soubemos. Algo tem que mudar. Gostaria que o treinador e a equipa fossem capaz de reverter a intranquilidade que tomou a equipa. Mas tenho muitas dúvidas: tem a palavra a SAD.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Eu confesso que...


...fiquei satisfeito (o que é bem diferente de "contente") que as gaivotas ontem tenham ganho.

E fiquei satisfeito não devido a qualquer sentimento de patrotismo (isto é uma competição de clubes, e não há nenhum clube em competição na LC de que goste menos do que as gaivotas - já para representar Portugal temos a seleção nacional), mas sim porque nao fez diferença nenhuma para eles no apuramento (vão para a LE na mesma) mas os pontos dão jeito ao ranking de Portugal na UEFA (estamos a fazer uma época miserável, já agora). Para mais contra um clube de um pais concorrente directo (França).


E o ranking interessa porque dá jeito ao FCP que nos mantenhamos (Portugal) numa posição de ter 2 clubes apurados para a fase de grupos da LC (mais um no play-off de apuramento). Nada nos garante (longe disso) que o FCP seja sempre campeão nos proximos anos, ano após ano...


Mais: as receitas da LC dão mais jeito do que nunca. No ano passado os 20M€ que recebemos foram cerca de 3 vezes mais (!!) do que as receitas de bilheteira, Dragon Seat, merchandising e quotas todas juntas....


Sendo assim não me importo que as gaivotas continuem a amealhar pontos na LE (aliás, isso tambem serve de distração para o campeonato, tal como eventual fonte de desgaste e lesões), pelo menos até princípios de Março. Afinal de contas, quero muitíssimo mais o melhor para o meu clube do que o mal para eles... Dito isto, a partir dessa fase da competição a coisa «pia mais fino» e em princípio desejo-lhes a derrota.


Quanto ao nosso FCP e o jogo de logo, bem, a esperança é a última coisa a morrer mas em princípio será mais para cumprir calendário que outra coisa (até porque mesmo que ganhássemos o motivadíssimo Zenit teria que perder pontos). Só peço que o treinador e jogadores honrem e suem a camisola - e estou na expectativa de ver se o treinador começa a ficar mais esclarecido, ou se vai continuar a insistir nos seus equívocos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A sucessão de D. Moutinho

I. Moutinho, o peso morto

«[o FC Porto] não só bancou 11 milhões, mais 25% numa futura transferência, como perdoou 2,5 milhões que o Sporting ainda devia de Postiga e, mais que tudo, acrescentou-lhe o passe de Nuno André Coelho. Quanto valerá o passe de Nuno André Coelho? Eu não sei, mas sei isto: o João Moutinho está em regressão há dois ou três anos: é um jogador regular, acertadinho, mas sem rasgo e, até ver, de progressão falhada; quanto a Nuno André Coelho, para mim, é a grande promessa para vir a ser o melhor central português do futuro. Eu não trocaria um pelo outro: o FC Porto trocou e ainda lhe acrescentou 13,5 milhões. Ou seja, por mais que se desvalorize o passe actual de Nuno André Coelho, a verdade é que, contas feitas, Pinto da Costa bateu a cláusula de rescisão de João Moutinho: 22,5 milhões. (...) Às vezes, há negócios (e só falo dos recentes) feitos pelo FC Porto que eu não consigo entender, que não como súbitos ataques de generosidade. João Moutinho é um deles»
Miguel Sousa Tavares, A BOLA, 06-07-2010 (aquando da contratação)


«Continuo a achar que, excepção feita a este jogo da Luz, Moutinho aparece regularmente como um jogador muito pouco decisivo no futebol da equipa: não marca golos, não assiste para golos, não é jogador de virar jogos ou comandar vitórias
Miguel Sousa Tavares, A BOLA, 26-04-2011 (época 2010/11)


«e Moutinho, o tão louvado Moutinho, é um jogador que não vai além de um futebol lateral e curto, de apoio e organização, que pode ser muito útil para quem joga recuado, mas é um peso morto como médio criativo e ofensivo, a quem se deve exigir o contrario disso: um futebol vertical e comprido, capaz de assumir o risco e romper com a organização»
Miguel Sousa Tavares, A BOLA, 08-11-2011 (época 2011/12)


«A propósito de João Moutinho, já aqui falei dos jogadores cuja verdadeira importância no jogo só se avalia bem ao vivo e não na televisão, por maior que seja o ecrã. Moutinho é um desses jogadores, sobre o qual mudei radicalmente de opinião, e para muito melhor, quando o vi jogar no estádio.»
Miguel Sousa Tavares, A BOLA, 27-11-2012 (época 2012/13)


O portista Miguel Sousa Tavares (MST), cronista de A BOLA, pelos vistos demorou alguns anos até ver Moutinho jogar ao vivo… Após isso acontecer, MST mudou radicalmente de opinião sobre o “peso morto”. Assim, depois de em Maio passado Moutinho ter feito parte de um negócio de 70 milhões, MST pôde voltar à carga com o seu discurso habitual (e que tem seguidores), de que todos os anos o FC Porto vende os seus craques e a SAD só compra “lixo” para os substituir…


II. Moutinho, o insubstituível

«o FC Porto perdeu João Moutinho, ventrículo direito e esquerdo da equipa»
José Manuel Ribeiro, O JOGO, 07-10-2013

José Manuel Ribeiro, O JOGO, 07-10-2013

O portista José Manuel Ribeiro, diretor de O JOGO, entende que Moutinho é praticamente insubstituível (imagino que não seja fácil substituir o ventrículo direito e esquerdo simultaneamente…). Mas, tal como MST, também deve ter mudado de opinião, porque não me lembro de ter lido idêntica opinião da sua parte (como atenuante para o treinador), aquando do Málaga x FC Porto ou Sporting x FC Porto da época passada…


III. O meio campo portista no pós-Moutinho

Ao contrário das teses miguelistas do “peso morto”, eu sempre fui grande admirador do Moutinho, cuja influência no bom desempenho do FC Porto nas últimas três épocas considero indiscutível. Contudo, também não alinho na tese do quase insubstituível e, por isso, logo após a sua transferência para o AS Monaco, escrevi o seguinte:
«A saída de um jogador do calibre de João Moutinho (a “maçã podre” de Alvalade, lembram-se?) é, obviamente, uma perda significativa em termos desportivos mas, como portista, estou mais preocupado em saber como vão ser colmatadas as carências óbvias que existem no ataque (extremos, avançados e pontas-de-lança) porque, em termos de médios, penso que há matéria-prima suficiente para, na próxima época, o FC Porto voltar a ter um meio-campo forte.»

De facto, o treinador do FC Porto tem à sua disposição um extenso lote de médios – Fernando, Defour, Herrera, Lucho, Carlos Eduardo, Josué, Quintero –, cuja qualidade, em termos globais, é bem acima da existente nos últimos anos, ao ponto de Paulo Fonseca ter dispensado Castro e Tiago Rodrigues.

Ah, mas não há um “Moutinho 2”. Pois não, como não houve um “Deco 2”, um “Maniche 2” ou um “Lucho 2”, após as respetivas saídas do FC Porto, entre as de muitos outros médios (Diego, Anderson, Raul Meireles, Guarín, etc.) que saíram nos últimos anos.

Ora, não havendo no plantel um “Moutinho 2”, compete ao treinador reestruturar o meio-campo, tirando o melhor possível dos bons jogadores que tem à sua disposição. Foi isso que aconteceu na 2ª parte do último FC Porto x SC Braga, em que o meio campo portista foi formado por Defour, Herrera e Carlos Eduardo e o que se viu foi o melhor FC Porto desta época. Dinâmica, intensidade, pressão alta, dois golos e mais quatro oportunidades flagrantes, tudo isto em 45 minutos sem Fernando, Lucho e… Quintero.

Carlos Eduardo, FC Porto x SC Braga

Depois destes 45 minutos à Porto (que se seguiram aos piores 135 minutos dos últimos dois anos), o que esperar daqui para a frente?
Na próxima jornada, em Vila do Conde, Paulo Fonseca terá coragem para deixar as “vacas sagradas” no banco e voltar a apostar nos “patinhos feios”?

domingo, 8 de dezembro de 2013

Depois da tempestade .....


Foi  uma boa vitória num jogo com duas partes distintas. No primeiro tempo o SCB apareceu muito bem posicionado com uma defesa subida, com os jogadores muito próximos e um meio campo que cobriram de vermelho. Salvo os 10 minutos finais, vivemos muito espartilhados e sem iniciativa; a falta de confiança da equipa e um Lucho claramente incapacitado não ajudaram. Houve insuficiências da nossa parte: não conseguimos jogar para as costas do SCB, ganhar as segundas bolas e perdemos muitos passes, por mérito do processo do adversário e muita tremedeira nossa. Apesar de tudo, o SCB não ameaçou e o FCP esteve mais perto do golo, em duas jogadas de bom envolvimento. Apesar disso, o FCP foi claramente dominado pelo catenaccio na zona central,  montado pelo SCB e que os seus jogadores interpretaram e executaram muito bem,  com um bloqueio que perturbou as nossas saídas para o ataque . Há que saber reconhecer o mérito do adversário e trabalhar para que a equipa reaja mais rapidamente e não permita tanta iniciativa ao adversário. Compreendo as hesitações e os medos, porque o momento não é fácil. Só há um remédio: trabalhar para melhorar.

No segundo tempo, a entrada de Carlos Eduardo que esteve em muito bom nível, e os excelentes desempenhos de Defour,  Herrera, Varela e Martinez desfizeram o nó : conseguimos vencer e tivemos excelentes momentos. O FCP exibiu-se em bom nível  e com alta intensidade. Ainda se notou alguma confusão no processo defensivo, mas a equipa vinha de um mau período. Esta vitória é muito importante se os demónios que ainda habitam aquelas cabecinhas forem exorcizados. PF ganhou tempo: espero que o aproveite bem e que os jogadores o acompanhem na recuperação. Porque nada está perdido e o desespero é o pior conselheiro. Acho que os portistas estão um pouco mais aliviados e que o fim de semana lhes vai saber melhor.

Não gostei nem um bocadinho da arbitragem que não serviu o futebol. Ao mínimo contacto dos  nossos jogadores o apito funcionava sem hesitações; esse critério empurrou-nos para trás e ajudou que o SCB se mantivesse confortavelmente instalado no meio campo; no segundo tempo conseguiu com o mesmo critério uma sucessão de faltas que constituíram sempre o meio mais rápido dos bracarenses chegarem à nossa área, porque dificilmente chegavam de outra forma. Os dois amarelos que nos foram mostrados foram excessivos. Em suma: uma arbitragem habilidosa.

sábado, 7 de dezembro de 2013

As contas da SAD

Após ter finalmente arranjado algum tempo para consultar o R&C de 12/13 (e do 1o trimestre de 13/14), aqui ficam as primeiras impressões que daí retirei sobre a saúde financeira da SAD.

Antes de mais, para o adepto comum foi surpreendente e uma desilusão que o lucro tenha sido de apenas 20M€ após as vendas (no período em causa) de A. Pereira, Hulk, J. Moutinho e James num total de 120M€ (brutos). No entanto para quem seguir estas coisas com alguma atenção não houve enorme surpresa, já que:
      
    1)      Uma coisa é uma venda bruta e outra muito diferente é as mais-valias daí resultantes (digamos, de uma forma muito grosseira e para simplificar, «lucro»), que é o que interessa para a demonstração de resultados – e para isso há que descontar o custo (amortizado) do passe, a % do passe que não detemos, e comissões de intermediação (e por vezes direitos de formação)

   2)      A gestão corrente da SAD tem um défice crónico considerável, já que as despesas «normais» são consideravelmente mais elevadas do que as receitas «normais».

Gosto de começar por olhar para o indicador-mor da evolução da saúde estrutural da SAD (que basicamente nos diz até que ponto estamos dependentes das vendas): quais seriam os resultados se não tivéssemos feito mais-valias? Ora bem, se formos a ver as coisas por esse prisma estamos um bocadinho melhor do que um ano antes: -56M€ vs -65M€ um ano antes. Menos mau.

Continuamos no entanto numa situação complicada, e por várias razões (já agora, a média na última década para esse indicador tem andado pelos -30M€, pelo que ultimamente temos andado muito mais dependentes de grandes vendas).

     1)      Repare-se que nas 4 grandes vendas acima mencionadas (num total de 120M€) as mais-valias foram 76M€ no total, ou seja 63% do valor bruto da venda. Supondo que teremos +- o mesmo rácio nas próximas grandes vendas, seria preciso fazer mais ou menos 90M€ brutos em vendas até 30 de Junho para não fazermos prejuízo em 13/14, o que não me parece minimamente provável.

      2)      Parece-me que o potencial do plantel actual para fazer mais-valias é claramente mais baixo do que há um ano (mesmo especulando que um ou outro se vai valorizar ainda muito, como por ex um Quintero entre outros). Primeiro porque o custo de muitos dos jogadores foi elevado (vários deles avaliados aquando da compra em 10M€ ou perto disso, alguns até mais), segundo porque só detemos parte do passe de alguns dos mais valiosos (por ex Mangala 57%, Quintero 50%, Iturbe 45% - e já agora o mais provável é que Fernando acabe por sair a custo zero se não for vendido no Natal); e terceiro porque parece-me que desportivamente o top 5 de jogadores pura e simplesmente não vale o mesmo que o top 5 de há uns 2 anos atrás. 

     3)      Se por um lado as receitas de TV vão aumentar este ano alguns milhões, por outro lado outras receitas têm tendência a descer este ano - como bilheteira, merchandising e LC - fazendo com que as receitas no total (excluindo mais-valias) se mantenham mais ou menos estáveis; isto enquanto as despesas não param de aumentar, ainda que de forma mais suave que nos anos anteriores.

     4) Ainda por cima, parece-me que ofertas como as do Zenit ou Mónaco por Hulk e Moutinho/James são cada vez mais a excepção e não a regra, ainda por cima com as regras de Fair Play financeiro da UEFA a entrar em força.

     O outro indicador «top line» que me interessa (e que mais interessa à SAD na gestão corrente) é o saldo de curto prazo entre activos e passivos, i.e. a diferença entre o que temos a pagar nos próximos 12 meses e o que temos a receber no mesmo período em função dos compromissos assumidos.

A 1 de Outubro esse saldo era de 59M€ negativos – exactamente o mesmo que um ano antes. Esse «buraco» terá que ser coberto como de costume com um misto de:

       a)      Primeiras prestações de eventuais vendas de jogadores,
       b)      receitas de LC/LE não orçamentadas (que este ano certamente não vão chegar a 15M€, já excluindo o prémio de presença na fase de grupos que já estava previsto) tal como de bilheteira,
       c)       e novos empréstimos (a taxa de juro média dos que andamos a pagar, já agora, anda nos 8.5%).

Parece-me por essa perspectiva que a situação está bastante apertada, mas longe de desesperada. Parece-me extremamente provável que em grande parte teremos que recorrer a novos empréstimos, de uma ou outra forma (i.e. bancário, obrigacionista ou terceiros).

Para este artigo não ficar demasiado longo, deixo para um segundo artigo as impressões sobre dados mais detalhados do R&C.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Que queremos para o nosso Porto?

É nos momentos mais dificeis que os grandes clubes se fazem sentir. Quando a crise bate à porta, seja ela grande ou pequena, de resultados ou de jogo, de ideias ou de apoio externo, os grandes clubes sabem sempre encontrar a fórmula de reinventar-se. E nós, Futebol Clube do Porto, somos um grande clube.

Temos a imensa sorte de viver o ciclo de ouro da história do nosso clube. Não se enganem.
Quando este ciclo acabar - e pode acabar daqui a dois anos ou daqui a dez - será irrepetível tudo aquilo que vivemos. É parte da história. Não significa que deixaremos de ganhar, de celebrar. Mas seguramente não tantas vezes. E quando o façamos será mais difícil. Mais sofrido. Como no passado. Passou a todos. O Barcelona viveu nos anos 60 e 70 um hiato abismal. Teve um pequeno ciclo deprimente a final dos anos oitenta e na viragem do século. Voltou sempre mais forte. O Liverpool reinou durante 30 anos sobre o futebol inglês. Agora está há mais de vinte à espera da sua oportunidade. O Sporting já foi a maior potência portuguesa. Há mais de meio século. E o Benfica, até ao 25 de Abril, jogava num mundo à parte. Agora têm dois títulos de campeão nacional por década nos últimos vinte anos. Algum dia fomos nós, algum dia podermos voltar a sê-lo. Vale por isso bem celebrar o momento. Celebrar as pessoas que o conseguiram. Celebrar os adeptos que fizeram o clube crescer. Mas celebrar, desfrutar e sentir-se grande não chega. Os ciclos só se perduram no tempo porque quem está no topo continua a evoluir para não ser apanhado. Se não tivesse chegado Mourinho, talvez o ciclo tivesse acabado com o Penta. Mas não. Fomos mais longe. E quando ele e meia equipa se foram e um título se perdeu sem se saber como, a nossa resposta foi, bem, ganhar mais quatro seguidos. E agora vamos a caminho do mesmo. Vamos?

Este artigo não é um ataque a ninguém.
Nem aos dirigentes, nem ao staff técnico, nem aos jogadores nem aos adeptos. É o oposto. Uma consciencialização do que estamos a viver e do que nos espera. Do que queremos fazer para manter este ciclo vivo. Porque se os adeptos não têm o poder neste clube (e cada vez menos, em geral, no mundo do futebol) é nosso dever apontar o caminho, dizer bem alto o que queremos e esperar que nos levem a sério. Quando Pedroto e Pinto da Costa ajudaram os andrades a libertarem-se das correias psicológicas para transformarem-se em dragões, criaram um pequeno "monstro", exigente e eternamente insatisfeito. É bom sinal. Os adeptos do Real Madrid, do Barcelona, do Manchester United e do Bayern Munchen também o são. É o sinal de que vencer é o nosso destino e o como - e sobretudo, o como - importa. As equipas que ganham pouco contentam-se em ganhar. As que repetem e repetem querem diferenciar as suas vitórias em algo. Durante os anos 80 foi um grito de guerra contra o Sul. Na década de 90 foi o triunfo de um modelo de negócio. Na última década foi o sucesso europeu que nos diferenciou em toda a Europa. E agora, entrada nesta década, que nos espera?



O FC Porto tem um grande presidente, um dos maiores da história deste desporto.
Tem também uma massa adepta fiel, instalações top, conexões privilegiadas com mercados importantes, uma rede de scouting espantosa e desfruta de uma hegemonia interna nunca vista em Portugal. Foi preciso lutar muito para chegar até aqui, construir tudo isso. Dormir à sombra da bananeira não nos levará a nenhum lado. Procurar crescer sim. Como o podemos fazer?

A SAD, na preparação para as últimas temporadas, tem colocado o ênfase em três objectivos:
- reduzir o passivo através da venda cíclica de jogadores
 vencer o título nacional e, se possível, uma prova interna a eliminar
- alcançar os oitavos de final da Champions League

Esta tem sido a nossa rota, estabelecida desde os escritórios do Dragão. É para ela que se trabalha, é pensando em nela que se preparam os planteis e se define o staff técnico. Há condicionantes que a motivam, a começar pelo significativo passivo que temos e que aumenta a passo de caracol. Há também a vontade imensa da maioria dos jogadores de utilizar o clube como um poiso temporal. E também o aparecimento de fortunas por toda a Europa que preenchem os papeis de favoritos para ir mais além na Europa. Muito bem, são argumentos com a sua lógica e com muitos (e legítimos) defensores entre os adeptos.

No entanto, a situação que estamos a viver actualmente, e que tanto critica tem levantado, parte precisamente dessa política desportiva.
Temos um staff técnico inexperiente porque essa tem sido a nossa linha recente (desde 1995 o FC Porto teve oito treinadores - em onze - quase sem experiência: António Oliveira, Fernando Santos, Octávio Machado, José Mourinho, José Couceiro, André Villas-Boas, Vitor Pereira e Paulo Fonseca). Não há qualquer novidade nessa escolha e se Paulo Fonseca for campeão nacional - que pode perfeitamente sê-lo - encaixará no padrão. O que não elimina que seja um treinador muito fraco, muito fraco!

Contamos com um plantel com muitas falhas, especialmente nas faixas, tanto nas laterais (não há suplentes pós-exclusão Fucile, que era a única opção) como nos extremos. Não há uma alternativa a um número 6 que acaba contrato e já disse por activa e por passiva que não vai renovar. E no entanto há 18 milhões gastos em dois rookies mexicanos, um dos quais sem minutos de jogo e outro que já demonstrou precisar de amadurecer o seu jogo. Um overbooking posicional na medular onde se acumulam projectos de jogador (que entram nessa política de comprar e vender rapidamente, desde Reyes e Mangala a Herrera a Quintero) que denunciam que muitas das compras do FC Porto são feitas primeiro como uma oportunidade de negócio futuro e só depois como uma necessidade real do plantel (quem não trocaria o Reyes por um extremo?). Mais uma vez, uma continuação da política recente (e que tantos frutos tem dado nas vendas, cada vez menos nas compras já que os preços têm encarecido muito), sem novidades. E claro, se o Ghilas custava 8 milhões a 100% de passe jogando no despromovido Moreirense (nós só pagamos metade, menos mal...irony mode on) então resta saber se alguém aqui ainda procura realmente jogadores do perfil de Cissokho (e os benditos 600 mil euros que custou). Talvez não! Ou se calhar não são rentáveis!

E por fim, a questão dos títulos. O FC Porto continua a ser, para mim, o máximo favorito para ser campeão, nem que seja por defeito. Não vejo o Sporting ainda com plantel para ambicionar com algo tão grande e o Benfica encontra-se numa situação similar internamente. E na Europa o resultado negativo até ao momento não é tão diferente do que temos vivido. Vitor Pereira falhou o apuramento no seu primeiro ano, Villas-Boas nem sequer teve a oportunidade de disputar a prova pela péssima última época de Jesualdo e desde 2009 que os oitavos não se ultrapassam.



Dito isto, parece-me claro que o cenário actual não é tão diferente do que temos vivido nos últimos seis, sete anos.
2011 foi uma overdose. A Liga Europa foi uma prova menos difícil de conquistar do que a nostalgia nos faz lembrar, as vitórias (goleada e reviravolta incluída) com o Benfica deram uma aura especial ao sucesso e a qualidade de jogo em grande parte do ano foi de alto nível. E já está. Tanto o antes como o depois tem-se pautado por bases similares, a base em que se move o FC Porto. Joga-se muito mal este ano? Joga-se. O staff técnico parece ser indigno da cadeira de sonho? Sem dúvida. O plantel tem lacunas? Claro que tem. A desorganização dentro e fora de campo tem sido maior? Claro que sim. E que temos a dizer em relação a isso. É essa a base de clube que queremos, como adeptos, ou está na altura de mudar algo e esta situação não é mais do que um alarme de despertar para todos?

Paulo Fonseca parece-me um fraco líder, um fraco técnico e uma opção errada da SAD.
O mesmo me pareceu Fernando Santos, Jesualdo Ferreira e Vitor Pereira. Mas venceram. Porque a máquina azul-e-branca sabe vencer apesar de e não por culpa de. O plantel tem falhas mas é melhor que muitos dos que Jesualdo teve nas mãos e tem mais opções (outra coisa é que não as usem ou que tenham sido demasiado caras para o que são) que o do ano passado. Continuam-se a perfilar vendas interessantes no Verão e seguramente haverá já miúdos apalavrados para o seu lugar. E o ciclo continua. E continuará se não quisermos algo diferente. Algo que não se enfoque tanto na gestão empresarial do plantel (não do clube). Algo que não mudará até que um treinador com mais poder (não todo o poder, cuidado) possa desenhar um projecto desportivo mais sólido. Algo que recupere o espírito de jogadores da casa, uma linha medular estável que faça de ponte entre os jovens que entram e as estrelas que saem. Não é necessário que sejam portugueses, da formação mas que estejam lá quando Helton e Lucho nos faltem. E, sobretudo, temos de pensar em novos desafios. Vencer já não chega e isso tem de ser encarado entre todos como um bom sinal. Ninguém pode apontar nada a uma liderança que tenta e falha.

Manter o título português é uma obrigação tal como está o futebol português mas se um remate de um puto brasileiro no minuto 92 não entrar não é preciso pedir cabeças imediatamente. Sonhar em ser algo mais na Europa sim, devia ser parte do nosso plano. Não uma obrigação mas uma ambição. Para isso é preciso trabalhar bem e a médio prazo, algo que há muito tempo que não se faz. Encontrar um rumo dentro do balneário entre técnico e jogadores de um perfil que carecemos. Fazer das fraquezas, forças. Se não temos o orçamento do Zenit, Shaktar, PSG ou Monaco, usemos a nossa experiência, a nossa fortaleza doméstica e montemos um onze sólido, não apenas composto por jogadores com a cabeça noutro lado. Se não procuramos esses desafios, vamos entrar num ciclo fechado e perigoso. Nunca estaremos contentes com nada do que se ganhe em Portugal porque saberá a pouco. Estaremos nas mãos de treinadores inexperientes e que duram dois anos até dar o turno ao próximo e continuaremos a ter de esquecer rapidamente o nome dos jogadores que queremos memorizar tão rápido se vão. Acho que o nosso modelo de negócio agora chegou a uma encruzilhada.

Nem tudo mal e o trabalho feito não pode ser deitado pela borda fora. Mas desta vez, talvez, como passou em 2006, 2002, em 1995, em 1985 ou em 1977, ao chegar a este cruzamento, mais vale seguir pela direcção que ninguém espera. Só assim fintaremos uma rotina que pode acabar por ser auto-destrutiva a curto prazo e subiremos outro degrau para fazer com que este ciclo seja mais longo do que qualquer um de nós poderia alguma vez sonhar!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Inflexível até ao fim?


"Tenho de continuar a acreditar nas minhas ideias. Não acredito em mudanças repentinas ou momentâneas. Quando mudamos as coisas, tudo tem de ser trabalhado. Não prevejo muitas alterações porque é nisto que eu acredito.
(…)
Os jogos são todos difíceis. Quero ver um Porto determinado, concentrado e ambicioso. Estamos focados no que temos de melhorar. Acredito que a equipa vá dar uma boa resposta. Queremos reforçar o nosso primeiro lugar."

Paulo Fonseca, 29-11-2013 (na antevisão ao jogo Académica x FC Porto)


Aquilo que já toda a gente viu, menos o treinador: o modelo táctico que Paulo Fonseca anda a tentar implementar desde o início da época não funciona.

Em primeiro lugar, porque a colocação de um jogador ao lado de Fernando para formar um “duplo pivot” confunde e tira efectividade à acção do Polvo, que sozinho com os seus tentáculos consegue anular a maior parte das investidas do adversário. Nesta equação do meio campo é importante referir também a enorme falta que João Moutinho faz à equipa do FC Porto. Sem o box-to-box e com o seu substituto sempre “amarrado” a Fernando e sem a mesma capacidade técnica do agora jogador do Mónaco, o FC Porto não consegue sair a jogar e, são invariavelmente os defesas centrais quando pressionados pelos adversários, que mandam “chutão” para a frente. Além disso, Lucho Gonzalez está sempre 20 metros à frente de onde devia jogar (ou pelo menos começar a jogar), quase numa posição de apoio ao ponta-de-lança. Com o desenrolar do jogo e as evidentes dificuldades da equipa em sair a jogar, Lucho acaba por se ver forçado a recuar para vir buscar jogo e ensaiar passes de calcanhar que muitas vezes dão perdas de bola. Não há futebol apoiado e solidário, nem dinâmicas, nem sequer um modelo de jogo.

Em segundo lugar, o sector defensivo tem estado muito mais inseguro que no passado, com os mesmos jogadores mais desconcentrados e a cometerem erros infantis com graves consequências. Grande parte desta mudança é uma consequência do estilo táctico que o treinador quer implementar. Fernando perde referência com outro jogador a seu lado e é obrigado, pela primeira vez desde que chegou ao FC Porto, a pensar o jogo ofensivo da equipa quando a sua missão sempre foi a de recuperar bolas e entrega-las aos colegas o mais rápido possível. Não tendo ninguém a quem passar a bola (ainda por cima todos parecem esconder-se) e com Lucho muito mais à frente, Fernando (ou o outro médio, seja Defour ou Herrera) passa a bola para trás obrigando os defesas centrais ao trabalho que deveria ser feito pelos médios e laterais. Os adversários aperceberam-se disso e colocam 3 a 4 jogadores a pressionar a defensiva portista. Daí ao pânico generalizado é um pequeno passo.


Em suma, o cerne do problema táctico está no posicionamento de Fernando e de Lucho Gonzalez. A solução a curto prazo seria voltar de imediato a um 4-3-3 clássico, com extremos rápidos como o Kelvin, por exemplo (o tal que na opinião de Paulo Fonseca não faz o suficiente nos treinos), com o Polvo sozinho no papel de trinco e com Lucho mais recuado com o mesmo papel de outros tempos. Mas este é apenas um dos muitos problemas que Paulo Fonseca não tratou de acautelar e foi empurrando até ao limite. Entretanto os jogadores perderam a confiança no líder, estão altamente desmotivados, arrastam-se em campo, e têm tido um comportamento pouco profissional e até indigno da camisola que vestem.

O treinador queixa-se da qualidade dos extremos, tendo já sido noticiado o regresso de Quaresma… No início da época PF dispensou Iturbe (ou terá sido Antero Henrique?), que tinha sido apenas um dos melhores jogadores da pré-época (e tem 'facturado' com frequência pelo Verona) e praticamente não tem dado hipóteses a Kelvin, constantemente relegado para a equipa B. As últimas exibições do FC Porto demonstram uma equipa sem profundidade nas alas, que afunila o jogo pelo miolo e que não tem rapidez para fazer transições ofensivas, preferindo parar o jogo e devolver para trás para (mais) uma troca de bolas entre os defesas centrais. É ridículo!

É necessária uma mudança urgente de Paulo Fonseca. Outros no passado também se renderam às evidências. Lembram-se certamente de Co Adriaanse, que depois de um empate em Vila do Conde e de sofrer grande ‘contestação’, alterou o esquema táctico colocando Paulo Assunção a fazer de pivot e central em situações ofensivas e defensivas, respectivamente, arrancando em definitivo para o título de Campeão. Poderá não ser assim desta vez, mas pelo menos Paulo Fonseca deveria esgotar todas as possibilidades à sua disposição, porque se está a fazer tarde.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Dezenas de milhões «investidos»... fora de campo

Dizia eu no artigo anterior que o facto de termos dezenas de milhões de euros (e não é só os passes, é também os salários) «empatados» no banco, na bancada ou na equipa B é uma das razões práticas para não haver correspondência entre a diferença orçamental do FCP para com os adversários que tem defrontado e as exibições em campo (havendo claro outras, de que já muito se falou). Falava eu nomeadamente das 4 contratações mais caras de 2013, nomeadamente Reyes, Herrera, Quintero e Ghilas.

Ora a meu ver, se isso acontece tem que ser apenas e só porque a resposta a (pelo menos) uma das perguntas seguintes é um claro «sim»:

1) Comprámos gato por lebre (i.e. a um preço claramente inflacionado)?
2) Demos prioridade no investimento às posições menos prioritárias?
3) Os jogadores são mesmo bons mas o treinador não sabe/pode tirar usufruto disso?
4) A «concorrência» desses jogadores (na luta por um lugar na equipa) tem surpreendido pela positiva, excedendo as expectativas iniciais?
5) Os jogadores estão a demorar bastante tempo a adaptar-se?

Pessoalmente acho que a verdade é uma mistura de 1), 2), 3) e em menor medida 5), dependendo do caso específico.

Comecemos por aquilo que acho claramente que não é: 4).

Muito sinceramente, não me parece que se esses quatro jogadores não jogam é porque os outros colegas que lhes estão a «roubar» o lugar (como Defour ou Josué) tenham estado até agora a um nível excepcional, superando as expectativas do início da época.

Do ponto 3) já muito aqui se falou, nomeadamente de uma insuficiência do treinador em potencializar a valia de jogadores. Por exemplo: penso que Herrera e Quintero poderão ser em parte vítima da confusão de ideias para o meio-campo; Ghilas poderia talvez ser aproveitado num 4-4-2 (tal como Quintero, aliás, jogando a nr 10 à frente de Lucho e Josué/Herrera, e Fernando mais atrás), ou pelo menos fazendo muitos mais minutos para descansar Jackson e coloca'-lo 'em sentido'.

Quanto ao ponto 5), isso poderá explicar muito parcialmente as situações de Herrera e Reyes em particular, chegados do México. Digo «muito parcialmente» porque - a este nível e num FCP, que nao e' um Barcelona receado de estrelas - um jogador que vale 10M ou perto disso não precisa de mais de 5 meses para começar a demonstrar qualidades de forma a ganhar algum espaço claro nas escolhas principais, mesmo que a adaptação ainda não tenha terminado.

Quanto ao ponto 1), sem haver dados definitivos (muito longe disso) parece-me que Herrera e Ghilas em particular terão custado bem mais do que valiam na altura (e valem) - mesmo que possam eventualmente valorizar-se no futuro (mas isso, a bem dizer, podem todos, pelo menos os que ainda nao atingiram o pico de carreira).

Quanto ao ponto 2), penso que é o factor que melhor explica a situação de Reyes, e em menor medida Quintero e Ghilas. Investiu-se muito pouco em extremos – posições claramente deficitárias no fim da época, principalmente se a ideia era para continuar com um 4-3-3, ainda que «envergonhado» - em detrimento de uma posição em que já estávamos claramente bem servidos (central) e outra em que a concorrência era considerável começando pelo «dono» natural do lugar (Lucho, mas também Carlos Eduardo e Josué). Da mesma forma dá jeito ter um suplente de qualidade para Jackson, mas já é discutível que seja preciso ter alguém no banco que custe tanto ou quase como o PDL titular (que dá garantias, estando no top10 europeu para a sua posição).

Ainda sobre o ponto 2), eu até compreendo que se queira precaver o futuro (por ex antecipando uma venda futura de Mangala ou Jackson), mas nunca descurando o presente ao ponto das 4 contratações mais caras de 2013 serem todas «de futuro» (se tanto).

Mais: se porventura a razao para este desequilíbrio na balança presente/futuro for (ainda que parcialmente) não uma decisão deliberada mas sim um desajustamento entre o que o treinador quer (tactica- e individualmente) e o que esses jogadores oferecem, entao sera' caso para pensar para os meus botões que das duas uma:

1) Ou a SAD toma ela própria a iniciativa nas grandes contratações (como parece à primeira vista ser regra geral o caso) e nesse caso terá que dar um pouco menos de autonomia ao treinador, impondo-lhe um ou outro ponto fundamental na táctica ou na composição da equipa (o que implica por sua vez contratar treinadores dispostos a tal, o que exclui tipicamente treinadores com palmarés e CV - e à partida seria de esperar que PF fosse um desses treinadores mais «moldáveis», sendo muito jovem e chegando com um CV muito modesto);

2)... ou então a SAD envereda por oferecer uma grande autonomia ao treinador no seu trabalho, mas nesse caso terá que lhe dar a principal palavra nas contratações (começando pelas mais caras).

O que já não fará para mim sentido é enveredar - como parece estar a ser o caso - por uma postura a meio caminho que «nem é carne nem peixe»: a Direção tomar a iniciativa nas grandes contratações, mas depois dar autonomia quase total ao treinador no seu trabalho. A consequência mais provável de tal postura é um desperdício de recursos (leia-se $$$$) com enorme custo de oportunidade (i.e. o dinheiro teria sido mais bem gasto em outras posições/jogadores que estivessem mais de acordo com as ideias do treinador) e/ou o desvalorizar de alguns dos seus melhores activos.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O caso Ghilas

A 24 de Junho escrevi aqui o seguinte sobre Ghilas:


Pois bem, como escrevi na altura defendi a contratação de Ghilas presumindo que os valores de que se falavam na imprensa estavam (aproximadamente) correctos. Mal sabia eu que afinal gastámos 3.8M em apenas 50% do passe, a que se tem que se acrescentar ainda uma % indeterminada de 2M, que foi o total gasto em comissões e prémio de assinatura nas contratações de Ghilas e Quintero (ao contrário do que tem sido habitual, desta vez a SAD não explicitou esses valores por jogador – não sei se será mera coincidência... – logo não é possível saber qual a parcela específica que diz respeito à compra de Ghilas).

Ora estes valores deixaram-me boquiaberto, e por várias razões.

1)      Os valores em questão são muitíssimo mais altos do que se falava na imprensa (falando-se na altura numa cláusula de rescisão de 3M ou perto disso, tendo o SCP desistido por não terem capacidade financeira para tanto, andando eles na falência como andam).

2)      Os valores em questão não correspondem de todo ao que se espera de um jogador com o CV de Ghilas. Basta assinalar que fiou avaliado em valores próximos dos de um Jackson, Falcão ou Moutinho quando foram contratados; ou que por valores muito mais baixos a SAD não quis contratar (há não muitos anos) um Lima ou um Éderzito.

3)      É inaudito pagar-se tanto dinheiro por um jogador de um clube pequeno do campeonato português (veja-se aliás o que pagou um Braga por Éderzito). Estamos a falar do Moreirense, um clube com um orçamento ANUAL que deverá ter andado por uns 3M enquanto andou pela 1ª divisão, e que ao descer de divisão ainda mais faminto ficou de fazer algum dinheiro em vendas. Alguém se acredita que iriam recusar uma oferta por metade destes valores que fosse, se a alternativa fosse ficar com o jogador no plantel na 2ª Liga?

4)      Mesmo que, hipoteticamente falando, tenha aparecido de repente algum clube rico estrangeiro a oferecer muito dinheiro por Ghilas (algo que me parece implausível - e de que aliás não se ouviu o mínimo eco na imprensa), custa-me a acreditar que a SAD não tenha desistido então da corrida. Até porque - como já dei a entender mais acima – havia e há avançados no mercado com tantas provas ou potencial demonstrado como Ghilas a custar menos.

Resumindo e concluindo: este foi um negócio incompreensível e com uma história extremamente mal contada.

Entretanto e de uma perspectiva mais geral, o que se vê é que pelos vistos e para esta época em apenas 4 jogadores (já excluindo as outras compras) a SAD gastou 28.5M (e para compras parciais de passes, nomeadamente: 50% Ghilas e Quintero, 80% Herrera e 95% Reyes); jogadores que foram utilizados em média... menos de 10min/jogo até agora (e ao fim de 4 meses de competição oficial).  

(Também) por aqui se percebe porque é que a vasta superioridade orçamental do FCP (perante os adversários internos que temos defrontado, ou um A. Viena) não se vislumbra na prática nos terrenos de jogo... Mas isto já outro assunto, que fica para amanhã em artigo àparte.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Treinador - Mudar ou não mudar, eis a questão!

É a primeira derrota para o campeonato. Quem cresceu com o FC Porto nos anos 80 e 90 sabe perfeitamente que os campeonatos ganham-se com vitórias, empates e também com derrotas. Todos as vivemos. Mas a geração pós-Gelsenkirchen cresceu noutro mundo. Para isso contribuiu, sobretudo, a anemia de qualidade do nosso futebol. Nos últimos anos dois clubes - FC Porto e SL Benfica - quase nunca perdem, raramente empatam e dominam a belo prazer o campeonato decidindo, quase sempre entre si, o título. A péssima situação do Sporting, a incapacidade do Braga de dar o salto e a ausência de uma versão real do Boavista entre 1992-2004 ajuda a explicar essa situação. Mas não só. A diferença de orçamentos exige, praticamente, que FC Porto e SL Benfica não percam. Nunca as diferenças com o resto foram tão grandes na qualidade individual, nos planteis disponíveis, nos ingressos e nos gastos. Por isso hoje, para um adepto do FC Porto, perder um jogo tornou-se num drama. Pode não haver margem de manobra.

Pessoalmente sou contra o despedimento de treinadores durante a temporada.
Acho que quem arranca o barco deve levá-lo até ao fim, passe o que passar. Sobretudo porque a responsabilidade é de muitos, não só sua. Num clube como o FC Porto, onde muitas das decisões são tomadas sem ter em conta (ou em muitos casos, apesar da opinião do) o que pensa o treinador. Mas o futebol é o que é e não sou eu quem o vai mudar e muitas vezes a mudança de um só homem tem o condão de despertar outros 25. No nosso caso com particular sucesso...no ano seguinte!

Remontando-me apenas à era Pinto da Costa, houve apenas 4 treinadores despedidos durante a época (não conto aqui, naturalmente, com Del Neri e Adriaanse porque estavamos no defeso em ambos casos). A primeira vez foi com Quinito. Despedido à 11º jornada em 1988, nesse ano o FC Porto foi treinado brevemente por Murça antes de confirmar-se o regresso do "rei Artur". O FC Porto não foi campeão (o título foi para o Benfica) mas preparou-se para mais um título na temporada seguinte com o nosso primeiro campeão europeu. Depois foi a vez de Ivic, em 1993. O sérvio, voltou ás Antas sem sucesso. Quando saiu o FC Porto era terceiro no campeonato e para o seu lugar chegou Bobby Robson, recém-despedido de um líder Sporting. Com o inglês não só se ultrapassou o Sporting como se desenhou a base do que seria o Penta. A terceira vez sucedeu com Octávio Machado. Conseguiu passar o Natal mas não sobreviveu a Janeiro e com ele vivemos outro ano negro, terminando a época em 3º apenas graças a um grande sprint liderado por...José Mourinho. Não é preciso explicar o resto. Só por uma vez, a última, o homem que substituiu o treinador despedido não funcionou na época seguinte. Porque não estava lá. Victor Fernandez foi campeão do Mundo mas os maus jogos no Dragão e a irregularidade de uma equipa de campeões europeus e contratações de luxo custou-lhe o lugar. José Couceiro não fez melhor, o titulo perdeu-se no último dia e o treinador foi-se embora abrindo caminho a um novo Tetra, conquistado entre Adriaanse e Jesualdo.

Quer isto dizer que mudar de treinador, no FC Porto, além de ser algo raro (Carlos Alberto Silva, Fernando Santos, Jesualdo Ferreira e Vitor Pereira sofreram contestação dos adeptos, tal como Paulo Fonseca, durante a época mas o presidente não os deixou cair e o resultado foi positivo, salvo com Fernando Santos!) só dá resultados à posteriori. Mudar hoje de treinador não garante, portanto, tendo em base a nossa experiência, um passaporte automático para o sucesso. Claro que há uma primeira vez para tudo.
O último campeão nacional português que chegou com a época a meio foi Augusto Inácio, com o Sporting, em 2000. É preciso recuar décadas para encontrar um exemplo similar. E não é por acaso.



Não acho que Paulo Fonseca tenha perfil de treinador para o FC Porto. Acho que é parte do problema, não o todo. E que centrar-nos exclusivamente na sua incompetência - que é evidente - não nos permite ver todo o problema em que estamos envolvidos. Mas isso fica para outro debate que trarei. Até porque o actual treinador do FC Porto é o primeiro em muito tempo que me faz pensar que mudar agora pode ser mais benéfico que prejudicial.

Em primeiro lugar porque não existe uma grande desvantagem com os rivais. Quem quer que chegue começará praticamente do zero em pontuação com Benfica e Sporting. Por outro lado, a paragem do Natal permitirá tempo para aclimatar-se ao clube, ao plantel e preparar os necessários ajustes - porque terá de haver algum ajuste - em Janeiro. E por último, olhando para o plantel - onde carecem figuras que inspiram liderança - não vejo força emocional para dar a volta à situação desde dentro como sucedeu no primeiro ano de Vitor Pereira, por exemplo. Há demasiados jovens, demasiadas caras novas e jogadores sem perfil para pensar que vão ser os jogadores a dar a cara e a salvar um treinador com o qual não estão cómodos. Os sinais da directiva, no final do jogo de Coimbra, também não são positivos. Quando Vitor Pereira esteve com a corda ao pescoço, a presença de Pinto da Costa ao seu lado calou os rumores e mandou uma mensagem ao balneário. Paulo Fonseca saiu sozinho do Municipal de Coimbra. É assim que ele está, apesar de ter sido uma aposta muito pessoal de Antero Henriques, que até há bem pouco tempo lhe deu todo o seu apoio.

Sabemos então que no FC Porto pouco se muda a meio da época e quando sucede os resultados só sucedem à posteriori. Sabemos também que o timing agora é o ideal e que o plantel e a direcção não parecem estar com o treinador. Mas que alternativas podemos manejar?

O FC Porto é um grande clube, mas é um clube dirigido desde dentro. Um clube que nunca se sentiu cómodo com a ideia de um treinador de personalidade forte. Mesmo Mourinho fez-se dentro do clube, não chegou como o "Special One" e Villas-Boas preferiu não ter de descobrir o que ia suceder num segundo ano depois de uma época perfeita. Portanto, toda a Europa sabe como o FC Porto se move e poucos são os treinadores de topo interessados nesse tipo de gestão. Sobram poucas opções, entre portugueses e estrangeiros.

Portugueses:
Marco Silva - Para muitos o homem que devia ter sucedido a Paulo Fonseca. É adepto confesso do Benfica, o que poderia ter jogado contra si, e com o Estoril tem feito um excelente trabalho. Continua a fazer a sua equipa jogar bem, mesmo com várias baixas, mas não parece apresentar nada de novo e há o receio, natural, que seja um Paulo Fonseca II.

Domingos Paciência - É um nome falado há muito tempo, não só pelo seu passado dragão mas pela excelente temporada que fez com o Braga. Desde então a sua carreira tem sido um desastre, tanto com o Sporting como com o Deportivo (onde foi colocado pela pressão de Jorge Mendes e onde se acabou por ir embora por não conseguir lidar com a pressão). Está sem clube.

Pedro Emanuel - Durante dois anos foi considerado por muitos como o próximo André Villas-Boas. Agora está no Arouca. Não é propriamente um grande cartão de visita e não tem demonstrado confirmar as suspeitas positivas que se tinha dele.

Leonardo Jardim - Para alguns adeptos seria a escolha ideal mas está comprometido com o Sporting e tem uma oportunidade histórica de recuperar o prestigio do leão. Não irá sair de Alvalade.

Nuno Capucho - Está a ser preparado pela direcção mas ninguém quer queimar etapas. Desde que tomou controlo das equipas de formação que muitos vêm nele o perfil ideal para liderar a primeira equipa e os resultados dão-lhe razão. Tem um perfil calmo, tranquilo e um conhecimento táctico surpreendente. Será treinador do FC Porto mas não quererá pegar numa equipa "queimada" tão cedo salvo se não existir outra opção.

André Villas-Boas - Tem a corda ao pescoço em Inglaterra mas, ao contrário de Artur Jorge, não acredito que queira voltar tão cedo ao seu clube, mesmo desempregado. Seria a escolha número 1 de todos os adeptos.

Estrangeiros
Marcelo Bielsa - Apenas o cito porque foi alvo de comentários no RP. Não é opção pura e simplesmente porque não é do perfil da direcção e não é o treinador que goste de ser controlado.

Mano Menezes - Paixão antiga da SAD, esteve desempregado até há poucas semanas, depois de uma má época com o Flamengo. Acabou de assinar pelo Corinthians e não vai abandonar o clube.

Muricy Ramalho - Na mesma situação de Menezes. Outra paixão antiga, foi muito questionado pelo São Paulo este ano e está ligeiramente acima da linha de despromoção. Contestado, poderia ser tentado por uma boa oferta.

Tite - Provavelmente o melhor treinador do futebol brasileiro nos últimos quatro anos. Acabou um ciclo memorável no Corinthinas, incluindo o título mundial, e está sem emprego. Hipótese interessante para os que querem uma conexão sul-americana.

Pepe Mel - Um dos melhores treinadores do futebol espanhol. Está com a corda ao pescoço no Real Bétis mas tem perfil para um clube de alto nível.



O cenário é este:
Mudar ou não mudar? 
A história do clube diz-nos que mudar não é habitual a opção da direcção e quando isso sucede o resultado só é visível na época seguinte. A situação actual no entanto dá a sensação de que Paulo Fonseca está só (sem plantel ao seu lado, sem o apoio da direcção e na mira dos adeptos) e que não tem capacidade para dar a volta por cima. O pior que pode suceder (perder o título) pode suceder com ele ou com qualquer outro treinador mas uma cara nova chegará com uma diferença pontual mínima e tempo para lutar pelo título até ao fim.

Se mudamos, quem ocupará o seu lugar?
Artur Jorge, Bobby Robson e José Mourinho foram três opções que tiveram resultados excelentes. José Couceiro a que correu mal. Actualmente só André Villas-Boas teria um perfil similar ao dos três primeiros. Todos os outros nomes despertam dúvidas, ora pela inexperiência e ausência de resultados sonantes (Pedro Emanuel, Marco Silva, Nuno Capucho, o passado recente de Domingos) ou porque despertam receio de uma conexão com o mercado brasileiro, quando muito raramente um treinador canarinho triunfa no futebol europeu.

O debate, na caixa de comentários!

PS: Não acredito que, actualmente, existam muitos adeptos do lado de Paulo Fonseca. O que não se admite é que uns meninos mal educados e que deviam ter passado uma noite nos calabouços recebam a equipa como receberam. Não sei se a manobra foi, oficialmente, dos SD ou iniciativa individual de quase 300 "adeptos". Nem me interessa. Há uma cultura de adeptos que só aceita a vitória. Que não entendo que o amor a um clube deve ser unidirecional. Se o clube devolve alegrias, tanto melhor. Se não, não se troca o amor por um soco só porque as coisas correm mal. Viveremos dias muito piores que estes, mais tarde ou mais cedo. Espero que muitos dos portistas de hoje sejam portistas então. Provavelmente os que receberam a equipa desta forma não estejam entre eles!

sábado, 30 de novembro de 2013

Paulo Fonseca, o papa recordes

Há muitos portistas que nunca tinham visto o seu clube perder com a Académica, num jogo em Coimbra para o campeonato. A última vez tinha sido no dia 15-11-1970, antes da revolução de Abril... e antes de Pedroto e Pinto da Costa terem "enterrado" os andrades e despertado o dragão.

Há 43 anos (!), na Académica jogavam Artur Correia, Carlos Alhinho, Gervásio (cap.), Vítor Campos, Manuel António...
E no FC Porto jogavam Rolando, Pavão (cap.), Nóbrega, Custódio Pinto, Lemos...
Em 1970/71, o FC Porto era treinado por António Teixeira (José Maria Pedroto era treinador do Vitória Setúbal) e chegou ao final desse campeonato com 16 vitórias, 5 empates e 5 derrotas.

Mais recentemente, nos últimos três campeonatos, o FC Porto (treinado por André Villas-Boas e Vítor Pereira) perdeu apenas uma vez. Foi no dia 29-01-2012, na 17ª jornada da época 2011/12, num célebre Gil Vicente x FC Porto, com uma arbitragem escandalosa de... Bruno Paixão.
Depois desse jogo, disputaram-se 53 jogos para o campeonato, sem os dragões conhecerem o sabor amargo da derrota, mas hoje, ao 54º, o FC Porto voltou a ser derrotado (e, desta vez, sem poder queixar-se da equipa de arbitragem).


As coisas há muito que não estavam bem, particularmente na Liga dos Campeões, mas os maus resultados estenderam-se também ao campeonato e, nos últimos três jogos (que, convém notar, foram contra os "colossos" Belenenses, Nacional e Académica), o FC Porto somou apenas dois pontos em nove possíveis, correspondentes a dois empates e uma derrota.
Alguém se lembra, há quantas épocas é que o FC Porto estava três jogos seguidos do campeonato sem ganhar?

Pior. Nos últimos seis jogos oficiais, o FC Porto venceu apenas um, para... a Taça de Portugal.
Aliás, Paulo Fonseca não estará a mentir se disser que, esta época, o FC Porto ainda não perdeu qualquer jogo para a Taça de Portugal e para a Taça da Liga...

Chegados a este ponto, de nada interessa dizer "eu bem avisei", mas tenho uma dúvida: até onde irá este descalabro?

Contestação de adeptos portistas no final do Académica x FC Porto

P.S. Não fosse o excelente relacionamento que existe entre a Direção do FC Porto e as claques, particularmente com os Super Dragões e, nesta altura, o nível de contestação e os problemas seriam bem maiores.

P.S.2 Afinal...
«Enorme tensão à chegada do F. C. Porto ao Estádio do Dragão, após a derrota, por 1-0, com a Académica, em Coimbra. Cerca de 250 adeptos portistas esperaram pela comitiva e atiraram três tochas e um petardo contra o autocarro dos dragões, quando este se dirigia para a garagem do anfiteatro azul e branco. Foi nesse momento que um polícia de serviço sofreu ferimentos, ao ser atingido, na face, por uma das tochas. Os adeptos, insatisfeitos com os últimos resultados da equipa, mostraram toda a sua indignação, com cânticos de "joguem à bola, palhaços". O mesmo já se tinha registado à saída de Coimbra, mas apenas através de palavras dirigidas ao treinador e aos jogadores.», in JN.pt

P.S.3 Aguardo com alguma expectativa a capa do jornal O JOGO de amanhã (domingo) e o que irá escrever o respetivo diretor, José Manuel Ribeiro.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Carlos Eduardo e os intocáveis

Que me lembre, dentro do modelo 4-3-3, Paulo Fonseca já experimentou, em diferentes momentos dos jogos, os seguintes trios no meio campo portista:
i) Fernando – Defour – Lucho
ii) Fernando – Herrera – Lucho
iii) Fernando – Josué – Lucho
iv) Fernando – Lucho – Quintero

Mas, cinco meses após o arranque da época, o meio campo portista continua em “obras” e continua a ser um dos problemas da equipa azul e branca.

De fora das opções tem estado Carlos Eduardo (ex-Estoril), um médio ofensivo brasileiro que tem dado boas respostas quando é chamado à equipa B. Foi o caso na passada quarta-feira, no Oliveirense x FC Porto (1-4).


Oliveirense x FC Porto (O JOGO, 28-11-2013)

Contudo, Carlos Eduardo não fez parte da lista de 21 jogadores inscritos na Liga dos Campeões e as oportunidades dadas por Paulo Fonseca nos dez jogos do campeonato já realizados limitaram-se a 17 minutos (14 minutos no FC Porto x Guimarães e 3 minutos no Belenenses x FC Porto).

Pelo que se tem visto, quer nos jogos da equipa A, quer nos da equipa B, penso que Carlos Eduardo mais do que justifica uma oportunidade a sério na equipa principal.
O problema é que Lucho parece ser intocável, Defour avisou que precisa de jogar (para manter a titularidade na seleção belga) e, no caso de Herrera, a SAD investiu 8 milhões em 80% do passe.
E já nem falo em Josué e em Quintero que, devido ao excesso de candidatos a um dos três lugares no meio campo (os outros dois “pertencem” a Fernando e Lucho), têm sido remetidos, à vez, para uma das alas do trio de ataque.

Quando as coisas não funcionam, talvez não fosse má ideia experimentar alternativas, em vez de continuar a apostar nas mesmas receitas e nos mesmos “intocáveis”.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O silêncio das cadeiras vazias

Nas horas e dias seguintes ao FC Porto x Austria Viena, a comunicação social fez eco dos assobios e, principalmente, dos lenços brancos dirigidos a Paulo Fonseca (algo semelhante ao que já tinha acontecido uns dias antes, no final do FC Porto x Nacional).

Lenços brancos no FC Porto x Austria Viena

Eu percebo que, para a comunicação social, acenar com lenços brancos ao treinador do FC Porto seja notícia. Contudo, mais do que o folclore dos lenços brancos (de que não sou grande apreciador), a mim o que me impressiona é o silêncio, cada vez mais ensurdecedor, que vem das dezenas de milhares de cadeiras vazias do Estádio do Dragão.

24809 espectadores, os números oficiais do FC Porto x Austria Viena, são a pior assistência de sempre no Estádio do Dragão em jogos para a Liga dos Campeões (o anterior recorde negativo era de 27603 espectadores, no FC Porto x Dinamo Zagreb da época passada).
Descontando os austríacos, as ofertas, os convites dos sponsors e os lugares anuais, quantos bilhetes terão sido realmente vendidos para este decisivo FC Porto x Austria Viena?
Pior. Quantos portistas, que investiram o seu (pouco) dinheiro em lugares anuais, preferiram ficar em casa?
E não estamos a falar de um jogo que seja uma excepção.
No jogo anterior, FC Porto x Nacional, estiveram apenas 26404 espectadores (números oficiais).

Eu sei que há a crise, mas nunca, como nesta época, houve tantas iniciativas, campanhas e promoções para levar mais gente aos jogos disputados no Estádio do Dragão.

A Administração da SAD deve tirar as suas ilações.