Eu sou portista porque, basicamente, gosto de futebol, e porque tive a ventura de nascer no Porto e lá ter sido criado. E, gostando de futebol, sempre aprendi a apreciar e aplaudir os grandes jogadores, simpatias ou antipatias nacionais e/ou clubísticas à parte.
Na minha vida de seguidor do futebol, tive o privilégio de ver jogar, ao vivo ou na televisão, Pelé, Johan Cruyff, Diego Maradona, George Best e, claro, o grande Eusébio. Vivi os anos sessenta do século XX, do grande domínio nacional e afirmação internacional do SL Benfica. Não alinho no côro daqueles que dizem que o Benfica ganhava por causa do regime ou - ridículo dos ridículos - por causa do Salazar. Fazê-lo seria equivalente a alinhar agora com o discurso dos Vieiras e quejandos, que nunca reconhecem mérito às vitórias do FC Porto. Sem dúvida que o Benfica tinha benefícios na estrutura do futebol - e os desgraçados seus vizinhos iam colhendo uns restos - mas tal como nós somos hoje em dia um clube muito mais profissional e organizado que eles, também eles o eram nesse tempo.
Na hora do passamento de Eusébio deixo aqui três momentos da sua carreira que ainda hoje me marcam. Todos presenciei - o primeiro na televisão e os outros dois ao vivo no Estádio das Antas:
1. 1966, Goodison Park, Liverpool, Quartos-de-Final do Campeonato do Mundo
Aos 20 minutos ou meia-hora (pouco importa para o caso), Portugal perdia supreendentemente com a Coreia do Norte por 3-0. O belo sonho que passara por uma vitória sobre o Brasil por 3-1, também em Goodison Park, parecia esboroar-se. Um homem, contudo, estava entre Portugal e a eliminação pouco lustrosa. Eusébio, um rapaz simpes e humilde de Moçambique, deu a volta ao resultado - sim, pode dizer-se que foi obra dele. Portugal ganhou por 5-3 e ele marcou quatro golos - dois deles de penalty, é certo, mas ambos cometidos sobre ele. Absolutamente fantástico! No final, o público de Goodison Park tributou-lhe um longo aplauso.
2. Época de 1967/68, Estádio das Antas
Estávamos perto do fim do campeonato, e o Benfica era já praticamente campeão, mas ganhar-lhe era questão de honra. A cinco minutos do fim, o FC Porto inaugura o marcador, golo do Djalma. Pois bem: o Eusébio ainda arranjou tempo e arte para empatar o jogo, num fabuloso tiro de fora da área. Que desilusão!
3. Época de 1968/69, Estádio das Antas
Em Dezembro o FC Porto recebeu e venceu o Benfica por 1-0, golo de Custódio Pinto aos 15 minutos. O Eusébio atravessava um período de baixa de forma e acabaria substituído a meio da segunda parte. Chovia copiosamente. Saiu debaixo de um enorme côro de assobios - provavelmente a maior vaia da sua carreira - mas o futebol é assim mesmo. Nas Antas e em Alvalade, Eusébio da Silva Ferreira não era propriamente uma figura muito popular. Eu, do alto dos meus 14 anos, tive pena do homem: ainda me lembrava das suas façanhas em Inglaterra!
Paz à sua alma.
Foto: Eusébio deixa o relvado de Wembley, consolado pelo seleccionador nacional Manuel da Luz Afonso, após a derrota contra a Inglaterra nas meias-finais do Mundial de 1966.















