domingo, 12 de outubro de 2014

O melhor “golo” de Ronaldo

Paris, 12 de Outubro de 2014, Conferência de Imprensa da Seleção Nacional


[Jornalista da CMTV]: Boa tarde Ronaldo, em direto para a CMTV, queria-lhe perguntar…

[Cristiano Ronaldo]: Para onde?

[Jornalista da CMTV]: CMTV.

[Cristiano Ronaldo]: Que é isso, CMTV?

[Assessor de imprensa da FPF]: É a televisão do Correio da Manhã.

[Cristiano Ronaldo]: Ah, então esqueça, que eu não vou responder.

[Jornalista da CMTV]: Sobre o jogo com a Dinamarca…

[Cristiano Ronaldo]: Não vale a pena.

[Assessor de imprensa da FPF]: Então passamos à próxima pergunta…

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Em 2011, Cristiano Ronaldo processou o Correio da Manhã.
Três anos depois, em Julho deste ano, um tribunal criminal de Lisboa deu razão ao melhor jogador do Mundo e condenou um grupo de jornalistas do Correio da Manhã por devassa da vida privada agravada.

Hoje, em Paris, numa sala cheia de jornalistas portugueses (e não só), o capitão da Seleção Nacional de Futebol (com a saída de Paulo Bento e a entrada de Fernando Santos, a Seleção voltou a ser nacional), mostrou a sua fibra e humilhou, em direto, a televisão da Cofina (Grupo empresarial proprietário do Correio da Manhã, Record, Jornal de Negócios, etc.).

Com o guarda Abel “reformado”, espero que esta atitude de Ronaldo sirva de exemplo ao Universo portista e, particularmente, a treinadores e jogadores do FC Porto, quando estiverem em conferências de imprensa.

Parabéns, Ronaldo!
Hoje marcaste o melhor “golo” da tua carreira.


Zeinal Bava (PT), Paulo Fernandes (Cofina) e Octávio Ribeiro (CMTV) (fonte: Meios e Publicidade)

P.S. Em vez de andarem a “chafurdar” na vida privada das pessoas, tinha muito mais interesse jornalístico, o Correio da Manhã dizer aos portugueses, quantos milhões de euros é que a PT/MEO, outrora a maior empresa de Portugal, já “enterrou” na CMTV.

P.S.2 Um dos assalariados do Grupo Cofina, o pseudo jornalista Eugénio Queirós, já reagiu no seu blogue:
«Ao negar-se a responder a uma pergunta da CMTV, Cristiano Ronaldo conseguiu a proeza de unir o país dos moralistas e ressabiados, entre os quais muitos jornalistas que abominam a “cultura CM” mas que não teriam lugar na redação do mesmo nem na condição de paquetes de 2.ª categoria.»
É assim que eu gosto de os ver, a espumar de raiva.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

"Aqui jaz Bruno de Carvalho, abatido pelo ridículo"


Há sensivelmente um ano(!) escrevi:

Ia escrever qualquer coisa acerca do Bruno de Carvalho, e o seu estilo desbocado, as tiradas irónicas à la Pinto da Costa - eles odeiam o homem, mas não conseguem deixar de o imitar - o confronto aberto com o FCP e os seus dirigentes, e alegria com que se vem gabando que será mal recebido no Dragão. Mas não vou fazer nada disso. O presidente do SCP, clube que "não é dado a frutas" mas que aposta mais nos cheques, é irritante - ele deve inspirar-se no provérbio africano que diz "se pensas que és demasiado pequeno para fazer a diferença, tenta dormir num quarto fechado com um mosquito" - mas é em igual medida irrelevante (e esquece-se que um mosquito, por muito incómodo que seja, acaba invariavelmente "esborrachado"). Assim, e já que não é possível pedir a todos os Portistas que no próximo domingo, não recebam mal o sr. Bruno Carvalho, mas que lhe mostrem o mais perfeito desinteresse, faço aqui o desafio para que lhe ofereçam um ramo de flores, com um cartãozinho a dizer "seja muito bem vindo ao Estádio do Dragão!". Apresentem registos fotográficos da entrega do dito ramo, e da cara do indivíduo, e eu pago a despesa (até €20, vamos lá com calma!) - está prometido.

Considere-se o desafio de há um ano renovado.

O sr. Bruno de Carvalho tem direito a não gostar do presidente Pinto da Costa, até a não gostar do homem Pinto da Costa ou mesmo do FCP; o que ele não tem direito é de insultar toda a gente. Como descer ao nível dele é contraproducente - a experiência do homem nesse estado é por demais evidente - sejamos civilizados e "mortificantemente" simpáticos lançando-lhe flores, confetis e - porque não? - até beijos. Tudo, menos aquilo que ele quer.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O banco bom e o banco mau

João Gonçalves deixou um novo comentário na sua mensagem "Impressões sobre Julen Lopetegui, parte II":

«(…) A rotatividade é fantástica para o espírito de grupo e para a competitividade interna... com Lopetegui, todos os jogadores sabem que amanhã podem jogar... com VP todos os jogadores sabiam quem ia jogar amanhã... uma pequena diferença mas que demonstra claramente a razão de quando não jogavam o núcleo de 12/13 jogadores a equipa simplesmente não rendia. (…)»


Sinceramente, não me apetece voltar ao tema “Vítor Pereira” e muito menos à discussão acerca dos méritos e deméritos que Vítor Pereira evidenciou durante os três anos em que fez parte da equipa técnica do FC Porto, dois deles como treinador principal.

Contudo, há algo que é por demais evidente e que não pode ser ignorado. O “banco de suplentes” que Lopetegui tem à sua disposição (um “banco bom”), não tem nada a ver com o que existia na época passada, ou há duas épocas atrás (um “banco mau”).

Por exemplo, no recente Sporting x FC Porto, Lopetegui não pôde contar com Maicon (estava castigado) e, mesmo assim, veja-se qual foi o onze inicial e as alternativas que tinha no banco à sua disposição…

Onze inicial e suplentes do FC Porto, no Sporting x FC Porto da época 2014/2015 (fonte: zerozero.pt)

… e compare-se com o banco de suplentes portista, no Sporting x FC Porto de há duas épocas atrás:

Onze inicial e suplentes do FC Porto, no Sporting x FC Porto da época 2012/2013 (fonte: zerozero.pt)

Melhor ainda, compare-se com as opções que Vítor Pereira tinha no banco, no Benfica x FC Porto da época 2012/2013:

Onze inicial e suplentes do FC Porto, no Benfica x FC Porto da época 2012/2013 (fonte: zerozero.pt)

Ou seja, Lopetegui recorre à rotatividade, porque quer e pode.
Com o plantel que tinha à sua disposição, como é que Vítor Pereira poderia, mesmo que quisesse, promover uma rotatividade alargada?

Impressões sobre Julen Lopetegui, parte II


Gosto deste treinador e acho que tem feito um bom trabalho.

Tem gerido bem o grupo e a rotatividade parece-me natural, face à carga a que os jogadores foram e vão ser submetidos: campeonato, champions, taças e selecções. Tello, Óliver, Alex Sandro e Casemiro já estiveram de baixa e a presente época vai ser dura, se nos mantivermos nas principais provas.

Salvo o resultado do jogo com o Boavista, temos ultrapassado as dificuldades de forma positiva, dadas as circunstâncias, nas quais se incluem muitos factores: a qualidade dos adversários, a inspiração, a sorte, a arbitragem e os famosos detalhes que são imprevisíveis e que os treinadores ainda não comandam, felizmente.

Espero que o Lopetegui se mantenha pelo período de vigência do seu contrato.

O que mais temo, neste momento, não é a exigência dos adeptos porque isso é natural: o que me chateia é intransigência que noto nas bancadas. Há uma má vontade contra Lopetegui que extravasa o bom senso e que radica, na minha perspectiva, numa ilusão que se vem construindo que ao treinador basta puxar os cordelinhos e que os jogadores, feitos marionetes, vão cumprir de forma eficiente.

O treinador competente, segundo as regras,  comanda pela via de um esquema ideal que optimiza os recursos da equipa e neutraliza a capacidade do adversário. É tudo muito fácil: enquadrar os jogadores, estudar o adversário, definir as linhas e os processos em que o jogo interior se casa com a exploração dos corredores e quais os artistas que vão habitar o espaço entre linhas que funcionará como uma espécie de cavalo de Troia pronto a dinamitar as fortalezas defensivas edificadas pelo adversário. E definir as zonas de pressão,  como se realizam  as transições e se garantem os equilíbrios e a ocupação dos espaços.

Terça-feira, num programa desportivo em que participa VP como comentador, foram feitas algumas críticas ao treinador Lopetegui usando a mesma argumentação de pendor geométrico que o ex-técnico do FCP denunciou na condição de treinador, de forma muito convicta e justa.

Percebe-se este posicionamento: os treinadores comentadores têm de manter a ilusão da sua condição de cientistas magos para resolver o pontapé na bola em cheio no alvo e ficam reféns de uma retórica que visa apenas explicar melhor as incidências do jogo. O que era suposto ajudar  a uma melhor interpretação de factos ocorridos desportivamente, transformou-se em doutrina  que se  cristalizou como regra maior. Um espécie de pensamento único.

Quando os homens no terreno se deixam engolir no léxico dominante do pontapé que os comentadores usam ao desbarato, estão a desvalorizar a sua função e torna-la matéria fácil e acessível a qualquer bom observador, quando a sua função principal é bem menos escrutinada e habitada: a do treino, da gestão do grupo e das expectativas. E não são capazes, lamentavelmente, de expressar algo diferente e com as mais valias da experiência  com o cheiro e a experiência do balneário.

Concluindo: dei por mim a confiar no treinador Julen Lopetegui e a considerar que o devo apoiar. Tem um discurso diferente, é teimoso, bom profissional, luta pelas suas ideias, não se encolhe, é desafiante e pouco humilde. Diferente do habitual que se revê nessa condição primeira “de respeito pela nossa identidade”, seja lá o que isso for e em banais frases feitas do "jogo a jogo" ao do "levantar a cabeça", que agrada a toda gente, porque nada dizem e é politicamente correcta. E ajuda a ter boa imprensa o que é muito útil.

Boa sorte, Julen.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

“Guerrilha” entre a SAD e o Clube azul

Como é sabido, a partir do aumento de capital feito no segundo semestre de 2001, o Futebol CLUBE do Porto deixou de ter (somando as participações direta e indiretas) a maioria no capital social e direitos de voto da FC Porto SAD.

Eu sempre fui contra esta situação. Como adepto e sócio do Futebol Clube do Porto, a minha posição é que o Clube deve ser sempre maioritário no capital social e direitos de voto da SAD. Assim sendo, naturalmente, fiquei satisfeito por, após 13 anos, a Direção do Clube ter mudado de opinião (terá alguma coisa a ver com a substituição de Angelino Ferreira por Fernando Gomes?) e definido como estratégico o Futebol Clube do Porto ter uma maioria confortável na FC Porto SAD.

Para ilustrar o que pode acontecer, quando um clube está muito enfraquecido e é “obrigado” a deixar de mandar na “sua” SAD, veja-se o exemplo do histórico clube dos azuis de Belém.

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«Na assembleia-geral extraordinária, realizada domingo, 4 de Novembro, a proposta de alienar a um grupo de investidores, liderado por Rui Pedro Soares, a maioria do capital da SAD foi aprovada com 197 votos a favor, 20 contra e 27 abstenções (…).
Com essa votação os associados do clube do Restelo deram carta branca ao presidente António Soares para finalizar as negociações para a cedência da maioria do capital da sociedade gestora do futebol profissional à Codecity Players Investment, fundo de investimento liderado por Rui Pedro Soares. (…)
Rui Pedro Soares, citado pela Lusa, mostrou-se “feliz” com o desfecho da reunião, ainda que compreenda alguma tristeza dos sócios belenenses, pelo facto de aprovarem a perda da maioria de capital da SAD. “O Belenenses é um dos primeiros clubes em Portugal [depois de Estoril e Beira-Mar] que não terá a maioria do capital da sua sociedade desportiva, mas muitos outros o farão a partir de agora. Esperamos corresponder às expectativas. Compreendo a tristeza dos sócios, mas foi uma inevitabilidade e espero que lembrem este dia como o dia que marcou uma viragem”.»


«Depois de ter recebido luz-verde para comprar a SAD do Belenenses, e de ter comprado 46,93% do capital da sociedade desportiva de Belém por 0,1 cêntimos por acção, Rui Pedro Soares lançou esta quinta-feira uma OPA (Oferta Pública de Aquisição) sobre o restante capital. (…)
A oferta [OPA] é geral e obrigatória, já que depois de ter comprado os 46,93% a isso ficou obrigada. Além disso, a Codecity tem um acordo com o clube Belenenses para lhe comprar parte dos 15% que hoje detém e que é a percentagem obrigatória no âmbito da lei das SAD. No entanto, com a alteração aprovada em conselho de ministros recentemente, os clubes vão passar a ser obrigados a ter um mínimo de 10%. E é essa a percentagem que o Belenenses vai ter, já que no âmbito do contrato de compra e venda feito com a Codecity se comprometeu a alienar 5% “logo que a lei que regula as sociedades anónimas desportivas permita que o clube fundador tenha uma percentagem mínima de 10% do capital social da respectiva Sociedade Anónima Desportiva e no prazo máximo de 30 dias após ter sido notificado pelo oferente para cumprir essa promessa”.
Além dos 46,93% já detidos pela Codecity e os 15% detidos pelo clube, o capital da SAD Belenenses está ainda em 32,5% no empresário Joaquim Oliveira e os restantes 6,5% estão dispersos.»


«É já na próxima segunda-feira, 23 de Junho, que se inicia a oferta pública de aquisição (OPA) da Codecity Sports Management, de Rui Pedro Soares, sobre o capital da sociedade anónima desportiva Os Belenenses. Uma operação avaliada em 380,52 euros.
A Codecity, que detém 51,93% do capital da SAD da equipa de Belém, quer adquirir os restantes 38,07% do capital e respectivos direitos de voto. Há 10% que a empresa não pode adquirir porque, segundo o regime jurídico das sociedades desportivas, têm de ficar na titularidade do clube de futebol fundador.
Assim, são 380.517 acções que Rui Pedro Soares se propõe a comprar por 0,1 cêntimos cada. (…) O preço da contrapartida foi, aliás, um aspecto que congelou a operação, anunciada em Dezembro de 2012, há ano e meio – quando a Codecity obteve mais de dois terços dos direitos de voto, o que faz com que a OPA fosse obrigatória.»


Declarações do atual presidente do Belenenses, António Soares, feitas no passado dia 16 de Setembro, por ocasião da entrega da lista que encabeça às eleições do próximo dia 18 de outubro:

… acho que a dimensão do Belenenses leva a que, idealmente, a gestão do futebol profissional esteja no clube. E vamos tentar isso”.

Temos de respeitar o que está a ser feito na SAD, o que não invalida que ache que qualquer presidente do Belenenses deve ter presente a possibilidade de recomprar a SAD e trazer novamente a gestão do futebol profissional para o clube”.

Há um esfriamento [nas relações entre clube e SAD], isso é um facto, é verdade. Mas acima de tudo, os momentos de maior tensão surgem apenas por duas questões: dinheiro, coisas nas quais nós não nos entendemos, em questões de fluxos económicos entre o clube e a SAD, e utilização das instalações, da qual o último exemplo foi a realização do Festival Panda no Restelo. Tirando esses dois momentos, essas duas questões, não há, de facto, situações em que haja uma postura hostil, ou um ódio de um lado ou do outro. O clube não participa na gestão da SAD, é um facto, e gostaria de participar. Não é esse o entendimento do acionista maioritário, temos de respeitar”.


No dia 25 de Setembro, em carta aberta dirigida aos sócios do Belenenses, Patrick Morais de Carvalho, candidato à presidência do clube do Restelo, mostrou-se apreensivo com o «clima de guerrilha institucional permanente, não só entre os Órgãos Sociais do clube mas também, e sobretudo, entre o clube e a atual administração da SAD, que lidera o futebol profissional».

No dia 4 de Outubro, o mesmo Patrick Morais de Carvalho, comentando a anunciada intenção do atual presidente do Belenenses recomprar a SAD, afirmou:

Esta direção tem feito piruetas nesse assunto. Primeiro, entregou a SAD praticamente à revelia dos sócios. Depois, incompatibilizaram-se com a SAD, agora já estão bem outra vez. Dizem que recomprar a SAD é uma das prioridades da Lista B, no entanto, isso não vai ser possível porque os próprios elementos da SAD dizem que as ações não estão à venda... Com o acordo parassocial, as duas janelas de oportunidade ficaram inviabilizadas. Está-nos impossibilitada a compra da SAD, a nós e a qualquer pessoa, porque a SAD não está à venda”.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Impressões provisórias sobre o «Lopes»

Aquando do anúncio da contratação de Lopetegui partilhei aqui as minhas reservas, devido à sua enorme inexperência a nível de clubes. 

Passados 3 meses de trabalho é tempo de fazer um primeiro balanço, ainda que muito provisório: como disse também aqui, penso que serão precisos bastantes meses para ter uma  opinião verdadeiramente formada.

Começo pelo estilo, que longe de ser o mais importante também tem o seu interesse.

Agrada-me a sua postura, nomeadamente um homem que parece ser carismático, frontal e directo (não se escudando em declarações para «encher chouriços», tão típicas em Portugal); a forma energética como segue os jogos do banco; e a forma decisiva como parece ter encarado a Direção (aquando da formação do plantel) e os jogadores (como por ex quando «castigou» Quaresma após uma atitude pouco abonatória ao ser substituído). Isso nem sempre é bom (ás vezes pode roçar a casmurrice ou precipitação, como poderá ter sido eventualmente o caso com Hélton e a história dos GRs), mas em geral parece-me positivo - e comparado com o predecessor, é mesmo uma lufada de ar fresco.

Passando ao mais importante, que é o seu trabalho como treinador.

Começando pelo trabalho na formação do plantel, parece-me que Lopetegui quis arriscar muito pouco, calculando que 1. após um 3o lugar num clube que está habituado a ganhar, não iria haver muita margem de manobra para maus resultados na sua 1a época no FCP, e 2. estava a embarcar pela primeira vez num clube de alto nível e para mais num ambiente estrangeiro com que não estava familiarizado. A sua atitude peremptória - junto com os maus resultados da época anterior - terão levado a que a Direção lhe tenha feito muitas (que não todas) das vontades.

Resultado: uma autêntica revolução no plantel, recorrendo acima de tudo ao mercado espanhol que conhecia melhor e apostando muito pouco na formação da casa (Ruben Neves sendo a notória excepcão). Algumas contratações muito bem vistas, outras que me pareceram exageradas (como a de Andrez Fernandez), e outras ainda que não percebi mas que não terão sido por insistência de Lopetegui (como Adrian Lopez). De qualquer forma parece-me que se formou um plantel de valor, e equilibrado (e se isso eventualmente trouxer problemas financeiros, a responsabilidade não é do treinador, não é ele quem gere as contas da SAD e se deve preocupar com essas coisas).

As expectativas iniciais geradas entre alguns adeptos de que se iria apostar mais na formação (sendo esse o background de Lopetegui) ficaram portanto goradas. Penso no entanto que é inevitável que se tenha que fazer isso mais no futuro, e quero acreditar que - após uma eventual 1a época vitoriosa no FCP, que se deseja - Lopetegui se sinta mais seguro para começar a trabalhar e explorar a sério essa vertente (a aposta em Ruben Neves, ainda que um bocado caída do céu, parece-me demonstrar que não tem preconceitos nesse aspecto); e o background dele deve de facto ajudar a que isso possa ser feito de forma eficaz, muito mais do que com outros treinadores.

Quanto ao trabalho táctico e na preparação dos jogos, parece-me que Lopetegui ainda está em fase de aprendizagem, os meus sentimentos são muito mistos... Pela positiva, parece-me que já demonstrou alguma inteligência (e capacidade de aprender com os seus erros) - como se denota por ex nas substituições, em geral bem feitas - e deu sinais de flexibilidade; e o tipo de futebol apoiado que quer para a equipa parece-me, em geral, ter tudo para poder ser eficaz (além de ser mais atraente para os adeptos). 

Por outro lado parece-me que ainda não percebeu que em 80% dos jogos do campeonato português não faz sentido apresentar um figurino inicial tão cauteloso como o tem feito quase sempre; dá para ver nas movimentações da equipa que tanto vários jogadores como ele próprio estão ainda na tal fase de aprendizagem; não me agrada que demore tanto tempo em encontrar uma equipa-tipo, o que é fundamental para acelerar essa tal fase de aprendizagem (haverá imensas oportunidades mais para a frente de fazer uma rotatividade adequada do plantel); e finalmente, em certas alturas ainda não demonstrou a flexibilidade necessária em função do contexto (penso em particular na insistência no futebol apoiado quando por exemplo contra um Boavista as circumstâncias eram propícias à utilização de 2 PDLs com um futebol muito mais directo na última meia hora de jogo).

Finalmente, um ponto de interrogação inicial dizia respeito à sua capacidade para lidar com jogadores experientes e com os egos num contexto de clube (onde, ao contrário das seleções, um jogador pode fazer birra para ir para outro lado). Pois bem, os sinais iniciais são positivos, mas não tenho ilusões de que este é um ponto que só será verdadeiramente testado mais para a frente, e nomeadamente à medida q as semanas e meses passam e alguns jogadores vêem as suas expectativas iniciais defraudadas. É que, seja qual fôr o treinador, é normal que nos primeiros tempos os jogadores evitem fazer ondas e mantenham esperanças que só mais tarde serão desfeitas.

Resumindo e concluindo: a nota inicial é positiva mas para já não estou nem entusiasmado nem defraudado com o trabalho de Lopetegui. A ter de lhe dar uma nota de 0 a 20, iria por um 13 ou perto disso. Mas sendo ainda relativamente cedo para concluir o que quer seja, o que é certo é que tenho muito mais confiança que os pontos a melhorar e/ou corrigir sejam trabalhados adequadamente do que tinha com o seu predecessor há um ano atrás. A ver vamos... Esperemos que tudo lhe corra bem, e seria óptimo que tivéssemos aqui treinador para uns 4 anos.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Os penalties de Pedro Henriques

No tristemente célebre Vitória Guimarães x FC Porto (por ter sido um jogo recheado de casos), a opinião de Pedro Henriques (ex-árbitro da AF Lisboa), acerca do penalty assinalado contra o FC Porto, foi a seguinte:

«Grande penalidade bem assinalada. Jackson aborda o lance de forma negligente e, com o pé direito, toca e derruba André André.»


Ora, o mesmo Pedro Henriques, a propósito do lance entre Alex Sandro e Rúben Micael no jogo de ontem (FC Porto x SC Braga), diz o seguinte:

«Alex Sandro não é rasteirado, ele força a entrada e manda-se para o chão antes de qualquer contacto, simulando uma grande penalidade e sendo corretamente advertido.»

Tribunal de O JOGO, FC Porto x SC Braga

Deixa cá ver se eu percebi.
No penalty que foi assinalado contra o FC Porto em Guimarães, “Jackson abordou o lance de forma negligente” e, como tocou no adversário (ao de leve, mas tocou), zás, toma lá um penalty que assim para a próxima tens mais cuidado.
Ontem, num lance em que é notório a forma ostensiva como o bracarense Rúben Micael mete a perna e toca em Alex Sandro, para o “especialista” Pedro Henriques, já não houve negligência, mas sim uma simulação do jogador portista…

Possível penalty (não assinalado) no FC Porto x SC Braga

Isto é que é ser coerente…

Aliás, a “coerência” (ia dizer enviesamento) com que o lisboeta Pedro Henriques analisa os lances polémicos dos jogos do FC Porto, é algo que já na semana passada tinha ficado claro, a propósito de um outro possível penalty (não assinalado), por mão de Maurício, ao minuto 89 do Sporting x FC Porto.

Possível penalty (não assinalado) no Sporting x FC Porto

Tribunal de O JOGO, Sporting x FC Porto

Mas eu percebo. Quem já colaborou com o Sporting e, atualmente, trabalha para a TVI, tem de manter este tipo de “coerência”…

domingo, 5 de outubro de 2014

Um jogo “espectacular”

FC Porto x SC Braga (fonte: LUSA)

O FC Porto marcou dois golos; o SC Braga marcou um;
O FC Porto enviou uma bola à trave; o SC Braga enviou uma bola ao poste;
O FC Porto teve mais 4 ou 5 situações que poderiam ter dado golo; o SC Braga teve mais 2 ou 3 situações que poderiam ter resultado em golo;
E houve, ainda, quatro situações duvidosas de possível penalty, duas na área do SC Braga e outras tantas na área do FC Porto.

Enfim…
para quem gosta de jogos de bola cá, bola lá;
para quem gosta de jogos com muitas oportunidades para ambas as equipas;
para quem gosta de jogos de resultado incerto até ao último segundo;
então deve ter achado este jogo “espectacular”.

Eu, pelo contrário e tal como o ex-treinador Vítor Pereira, prefiro ganhar por 1-0 do que por 5-4, prefiro jogos “monótonos”, em que o FC Porto marca “apenas” um golo, mas em que a equipa adversária nem “cheira”, isto é, quase não chega à área portista e termina o jogo sem uma única oportunidade flagrante.

Não gosto de ver uma equipa do FC Porto partida em campo; gosto, sim, de ver uma equipa do FC Porto equilibrada em todas as situações do jogo.

É preocupante ver a equipa azul-e-branca, qual “passador”, sofrer contra-ataques perigosos, a partir de situações em que grande parte dos jogadores estão junto à área adversária (tal como, aliás, já se tinha visto na Ucrânia, após a marcação de dois cantos a favor do FC Porto…)

Mais. Acho muito preocupante que a equipa do FC Porto tenha sofrido 4 golos nos últimos três jogos, todos eles OFERECIDOS, por diferentes jogadores portistas (Rúben Neves, Óliver, Maicon e Brahimi), em situações de perda de bola no 1º terço do campo!

O FC Porto ganhou, manteve a distância para o 1º lugar, mas eu saí do Estádio do Dragão preocupado.
Já vi, em jogos anteriores, este FC Porto de Lopetegui bastante mais organizado e mais coeso.


P.S. No final do jogo, Lopetegui afirmou: “Ao lado do Quintero jogamos com um rapaz de 17 anos [Ruben Neves] e outro da geração de 94 [Oliver Torres]. A equipa é jovem”.
Bem, se uma das explicações para a tremideira/desacerto que se viu é o excesso de juventude, particularmente no meio-campo portista, por que razão José Campaña (21 anos) jogou pela B e Rúben Neves (17 anos) jogou pela A?
Por que razão o médio mais experiente - Evandro (28 anos) -, que sempre que é chamado tem dado boa conta do recado, só entrou a 14 minutos do fim?

Equipa Ab “esmaga” Olhanense

Recorrendo, de novo, a sete (7) jogadores do plantel principal – Ricardo (GR), Diego Reyes, José Campaña, Tiago Rodrigues, Otávio, Ricardo Pereira e Kelvin – a equipa do FC Porto que disputa a II Liga, recebeu e venceu o Olhanense por 7-0!

E, tal como aconteceu das anteriores vezes em que a equipa B foi reforçada com vários jogadores da equipa A, André Silva, Francisco Ramos, Rafa e Tomás Podstawski ficaram no banco de suplentes, ou nem sequer foram convocados, e apenas Ivo (que hoje marcou 3 golos!) fez parte do onze inicial.
Falo destes cinco jogadores, porque todos eles se sagraram vice-campeões europeus de Sub-19 em Julho passado e, supostamente, são do melhor que a formação portista produziu nos últimos anos.

Relativamente ao que vi no jogo de hoje, duas confirmações:

José Campaña é um Nº 6 de muito boa qualidade. Tem um estilo parecido ao de Javi Garcia (ironicamente, tão assobiado no regresso ao estádio da Luz com a camisola do Zenit…), mas é muito menos caceteiro que o ex-benfiquista.
Por aquilo que vi dele, neste e noutros jogos, surpreende-me que, para o FC Porto x SC Braga de hoje, na ausência de Casemiro, Lopetegui prefira adaptar Iván Marcano à posição de médio defensivo.

Otávio é mesmo craque.
Parece-me que este ex-jogador do Internacional de Porto Alegre está a ser trabalhado para ser uma alternativa a Óliver (que deverá regressar a Madrid na próxima época) e, talvez por isso, hoje jogou uns metros mais atrás.
Mas, tal como o jogador emprestado pelo Atletico Madrid, este menino, de apenas 19 anos, tem muito futebol nos pés (na cabeça!) e joga como um Senhor!

Após os primeiros 10 jogos do campeonato da II Liga, já se podem tirar algumas ilações.

Em termos de resultados, o FCP B tem 4 vitórias, 1 empate e 5 derrotas. Contudo, das quatro vitórias, apenas uma foi obtida sem recorrer a jogadores do plantel principal (contra o Feirense, último classificado, que em 9 jogos disputados tem 0 vitórias…).

Mais. Dos 15 golos que a equipa B marcou nos 10 jogos já disputados, 10 desses golos foram apontados nos três jogos em que jogaram 6 ou 7 jogadores do plantel principal. Ou seja, nos outros sete jogos, o FCP B marcou apenas cinco golos…

Na próxima jornada, o FCP B vai jogar à Vila das Aves. Para preparar convenientemente esse jogo, o treinador do Desportivo das Aves terá de telefonar a Luís Castro (ou será a Lopetegui?) e perguntar que FCP B irá enfrentar…

sábado, 4 de outubro de 2014

O incendiário e as lágrimas de crocodilo

Eu sou assim, os outros são hipócritas. Os outros são uns rufias que andam no futebol.

Não se enxergam e nem a idade lhes dá vergonha. Tive que aturar estes rufias há tão pouco tempo. Refiro-me ao comportamento do presidente do FC Porto no Estádio de Alvalade.

Todo aquele comportamento, com aquele olhar dele, que sou muito bem educado...


Estas são algumas das declarações provocatórias e até ofensivas feitas pelo presidente do Sporting Clube de Portugal, ao canal do clube, tendo, mais uma vez, como alvo o presidente do Futebol Clube do Porto.

Já há muito que toda a gente percebeu, que Bruno de Carvalho, à falta de melhor, não hesita em recorrer a ataques e insultos para dar nas vistas.
Os dirigentes do Futebol Clube do Porto, e muito bem, têm-no deixado a falar sozinho.

Mas, perante sucessivas afirmações deste teor, as quais, para além de contribuírem para agravar o mau relacionamento existente entre os dois clubes, irão criar um clima de alta tensão nos próximos jogos entre dragões e leões, os responsáveis do futebol português não têm nada a dizer?

E o Governo, quer através do Secretário de Estado do Desporto, quer do Conselho Nacional contra a Violência no Desporto, vai continuar, impávido e sereno, a assistir a este tipo de declarações incendiárias?

Meus senhores, daqui a duas semanas, no dia 18 de Outubro, vai disputar-se um FC Porto x Sporting para a Taça de Portugal.
Se, nesse dia, ocorrerem desacatos, ou mesmo cenas de violência envolvendo adeptos dos dois clubes, por favor, poupem-nos ao fingimento de virem para as televisões chorar lágrimas de crocodilo.


E, quanto à comunicação social do regime, que reproduz e amplifica, sem qualquer comentário crítico (por onde andam os editoriais inflamados?), os ataques e declarações ofensivas do presidente do Sporting, espero que não tenham a desfaçatez de vir dizer, que eventuais cenas de violência são da responsabilidade dos dirigentes dos dois clubes.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Distribuição do capital da FC Porto SAD

Ao longo do dia de ontem, primeiro os accionistas da FC Porto SAD e depois os associados do Futebol Clube do Porto foram confrontados com diferentes cenários, em termos da distribuição de capital e direitos de voto na FC Porto SAD.

Os quadros seguintes retratam essa sequência de cenários e visam clarificar uma evolução que, para alguns, poderá estar ainda pouco clara.




«... ao Futebol Clube do Porto passou a ser imputável um total de 9.078.035 direitos de voto inerentes a 9.078.035 acções representativas de 60,52% dos direitos de voto e do capital social da Sociedade, incluindo, para além dos 8.818.185 direitos de voto inerentes a 8.818.185 acções representativas do capital social da Sociedade de que o Futebol Clube do Porto é titular, 250.000 direitos de voto inerentes a 250.000 acções representativas do capital social da Sociedade da titularidade de Jorge Nuno Lima Pinto da Costa e 9.850 direitos de voto inerentes a 9.850 acções representativas do capital social da Sociedade da titularidade de Reinaldo da Costa Teles Pinheiro, Presidente e Vice-presidente do Futebol Clube do Porto, respectivamente»



Se bem percebi a explicação do Dr. Fernando Gomes na Assembleia Geral, o facto do Clube ter ultrapassado os 50% dos direitos de voto e do capital social da FC Porto SAD, além de obrigar ao lançamento de uma OPA, irá fazer com que as novas 7500000 acções preferenciais sem voto, sejam convertidas em acções ordinárias. E, daí, resulta ao Futebol Clube do Porto passar a ser imputável acções representativas de cerca de 74% dos direitos de voto e do capital social da FC Porto SAD.


Nota: Se existir algum erro nos quadros anteriores, agradeço que usem a caixa de comentários para poder proceder à respectiva correcção.

Somague, OPA e Aumento de Capital

Ontem à noite, na sua intervenção inicial na Assembleia Geral Extraordinária do Clube, o Dr. Fernando Gomes comunicou aos Associados presentes, que o Futebol Clube do Porto tinha, horas antes, chegado a acordo com o segundo maior acionista da SAD (a Somague) para a aquisição da sua participação (18,79%) no capital social da Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD.

Em consequência deste negócio, e de acordo com o seguinte Comunicado de Participação Qualificada, «ao Futebol Clube do Porto passou a ser imputável um total de 9.078.035 direitos de voto inerentes a 9.078.035 acções representativas de 60,52% dos direitos de voto e do capital social da Sociedade, incluindo, para além dos 8.818.185 direitos de voto inerentes a 8.818.185 acções representativas do capital social da Sociedade de que o Futebol Clube do Porto é titular, 250.000 direitos de voto inerentes a 250.000 acções representativas do capital social da Sociedade da titularidade de Jorge Nuno Lima Pinto da Costa e 9.850 direitos de voto inerentes a 9.850 acções representativas do capital social da Sociedade da titularidade de Reinaldo da Costa Teles Pinheiro, Presidente e Vice-presidente do Futebol Clube do Porto, respectivamente».

Esta operação teve duas consequências:

Em primeiro lugar, devido a ter ultrapassado 50% dos direitos de voto e do capital social da FC Porto SAD, o Clube foi obrigado a lançar uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) sobre a totalidade das acções ordinárias representativas do capital social da Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD.
Os termos desta OPA podem ser consultados no respectivo Anúncio Preliminar.

Em segundo lugar, e de acordo com o que foi explicado aos Associados pelo Dr. Fernando Gomes, as 7.500.000 acções preferenciais sem voto, escriturais e nominativas, que o Clube irá subscrever no próximo aumento do capital social da Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD, no montante de 37.500.000 Euros, deixam de ter as limitações inicialmente previstas e, nomeadamente, passam a ter direito de voto.

Assim sendo, após estas duas operações – Aquisição da participação da Somague Imobiliária, S.A. e Somague - Engenharia, S.A + Aumento de Capital da FC Porto SAD – o Clube passará de uma posição minoritária (40%) para uma posição largamente maioritária no capital da SAD (de acordo com o que foi dito pelo Dr. Fernando Gomes, o Clube passará a deter cerca de 74% dos direitos de voto e do capital social da Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD).


Nota final: Gostaria de salientar a total disponibilidade e a forma cordial como o Dr. Fernando Gomes respondeu a todas as questões que foram colocadas pelos Associados do Futebol Clube do Porto.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

“Devolver o Clube aos Sócios”



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Logo à noite, vai realizar-se uma Assembleia Geral Extraordinária do Futebol CLUBE do Porto.

Com a devida vénia, reproduzo, a seguir, extracto de um artigo da autoria de um dos colaboradores (“Norte”) do blogue ‘Bibó Porto, carago!!’, a propósito de uma outra Assembleia Geral do Clube, realizada em Outubro de 2012.

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«Faço em Fevereiro próximo, 28 anos de sócio do clube. Nos últimos 13 anos, falhei uma AG. Nunca nestes anos estive presente numa assembleia com tão poucos sócios (30, no máximo), com uma demonstração tão grande de desinteresse e distanciamento dos assuntos de interesse do clube. Às 20:30h, hora do suposto início da reunião magna, estavam presentes 6, repito, 6 associados.
Foi a primeira vez que nenhum associado interveio na meia-hora de discussão sobre assuntos do clube! Há demonstração de desinteresse maior? Mau demais! Dá mesmo vontade de perguntar se seria à porta fechada.

Responsabilidades?

Dos associados, pois fartam-se de na mesa dos cafés, no emprego, nos blogs, etc., dar palpites sobre o dia-a-dia do clube, criticar o que lhes apetece, dizerem as maiores asneiras, defenderem o indefensável, afirmarem coisas como se fossem verdades indesmentíveis, e chega-se ao dia de saberem a verdade sobre o clube, e não aparecem. É uma atitude tão respeitável como outra qualquer, mas faz-me lembrar aqueles que, quando os jogos são com o Paços de Ferreira ou o Moreirense, “tá frio”, “é tarde”, “é caro”, mas quando é com os menstruados, faça chuva ou faça sol, seja às 19h ou às 21:30h, são os primeiros a chegar e estão na primeira fila a vibrar.

Responsabilidade da direcção, porque insiste em fazer uma divulgação antiquada de um evento deveras importante. Cumprir estatutariamente o que está definido (anunciar com a devida antecipação a assembleia em 2 jornais de grande tiragem), não é razoável na era da comunicação e do desenvolvimento.

Anunciar no site, menos de 24h antes, é manifestamente pouco, ocorrendo isto na era digital, onde poucos lêem jornais em papel, e onde os sites das instituições são veículos essenciais para transmitir o quotidiano das referidas instituições.
Mais, no dia anterior, houve jogo da Liga dos Campeões em casa... porque não ter anunciado o acontecimento nos ecrãs do estádio? Fica a ideia (mesmo que errada) que o clube não mostra interesse na presença dos associados nestes locais, e não é a primeira vez que o digo.»
in ‘Bibó Porto, carago!!’, 01-11-2012

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Ao (re)ler este texto, lembrei-me do lema do Programa de Jorge Nuno Pinto da Costa quando, pela primeira vez, se candidatou à presidência do Futebol Clube do Porto: “Devolver o Clube aos Sócios”.

Sessão de esclarecimento, 1982

Momento da votação do sócio e candidato Pinto da Costa, 17-04-1982

Tomada de posse de Pinto da Costa como presidente da Direcção, 23-04-1982

Um dos pontos que, para mim, é essencial é que o Futebol Clube do Porto não perca a sua história, não renegue o seu passado, não perca a alma que tem, que lhe vem dos sócios
Jorge Nuno Pinto da Costa


32 anos depois de ter sido eleito Presidente do Futebol Clube do Porto, esta afirmação de Pinto da Costa está mais atual do que nunca e eu subscrevo-a inteiramente.

Por isso, faço um último apelo aos associados do Futebol Clube do Porto: se puderem, não faltem à Assembleia Geral Extraordinária de logo à noite (marcada para as 20:30).

Vão ser discutidos assuntos importantes (muito importantes!) para o futuro do Futebol Clube do Porto, que envolvem o relacionamento entre o Clube e a SAD.

Independentemente da opinião que possam ter, não deixem que outros decidam por vocês.


Fotos deste artigo: ‘Os Filhos do Dragão

Futebol Clube Caridade?

Os dirigentes do FCP têm, na última década, tentando separar as águas entre assuntos do clube e assuntos da (Futebol) SAD o mais possível, no que diz respeito a AGs (frequentemente recusando-se a falar sobre o futebol nas AGs do clube).

Pessoalmente parece-me uma atitude bastante cínica, já que o futebol é de longe a principal actividade do clube, ainda que indirectamente (numa SAD em que o clube só detém 40% de acções e direito de voto), e o que lá acontece tem enorme impacto para o próprio clube.

Mas pelos vistos para os nossos dirigentes (e presidente da AG) o que diz respeito ao futebol não é para ser discutido com os sócios, apenas com os restantes accionistas.

Bem, se é assim que querem  - e tendo também em conta que em esclarecimentos a sócios já foi dito que a venda de 50% do estádio não será hoje discutida na AG do clube, pelo menos por iniciativa dos dirigentes - então ainda mais simples é a decisão com que os sócios se vão deparar logo à noite na AG do clube, que basicamente é esta:

Deve o clube meter 37.5M€ a fundo perdido na SAD, a troco de nada?

Olhem direito para o que está escrito na ordem de trabalhos, e para mais nada (esqueçam portanto discussões sobre o estádio, fazendo a vontade à Direcção, que pelos vistos pensa que isso é assunto só para eles)... é que é mesmo essa a proposta que a Direção pede aos sócios que seja aprovada, por outras palavras.

Sim, porque a proposta é que esses 37.5M€ sejam «investidos» - e os parêntsis são de propósito - em acções sem direito de voto, o que faz com que não valham rigorosamente nada na prática.

Quem achar portanto que é no interesse próprio do clube e dos seus sócios doar uma quantia extremamente avultada para as suas possibilidades a uma SAD... 

1) em que só detém 40% (com os restantes accionistas a terem uma «free ride», não metendo um tostão no aumento de capital mas sem perderem qualquer poder), e 

2) que tem muito mais fontes de rendimento do que o próprio clube

...que esteja à vontade para votar a favor, de consciência tranqulia.

Ah, então e se os sócios votarem contra... quais as alternativas para a SAD?

Consigo pensar em várias, começando por uma óbvia (que pode e deve ser discutida já nesta AG): um cenário em que o clube investe sim senhor nessas novas acções, mas... com direito de voto, ainda que de forma indirecta através de por ex uma SGPS ou outra «engenharia financeira» qualquer (ver artigo abaixo). Será aliás interessante ouvir da boca dos nossos dirigentes a razão para não ser essa a proposta hoje apresentada.

De qualquer forma, isto sei eu: fazendo a vontade aos nossos dirigentes em querer separar as águas, discutir as alternativas parece-me um excelente assunto para (mais) uma AG extraordinária da... SAD, a convocar para as próximas semanas (i.e. no cenário dos sócios chumbarem a proposta feita na AG do clube). Isso é assunto da SAD e não do clube, certo?

Ah, mas poucas horas antes da AG do clube já tinha havido uma AG da SAD em que se tinha aprovado o aumento de capital? Verdade, mas isso não constitui um «facto consumado» (ao contrário do que possa vir dado a entender por alguns), já que estaria sempre condicional à aprovação da proposta na AG do clube. A consequência será, como disse, trabalho de casa para os dirigentes da SAD e mais uma AG extraordinária da SAD.

Uma salgalhada? Sem dúvida, mas resolúvel - e certamente não são os sócios que têm culpa dos dirigentes terem colocado a «carroça à frente dos bois» (i.e. convocar as duas AGs na ordem errada)...

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Acções preferenciais sem direito de voto

Amanhã realizam-se as Assembleias Gerais Extraordinárias da Futebol Clube do Porto Futebol SAD (“SAD”) e do Futebol Clube do Porto (“Clube”).

A AG Extraordinária do Clube está marcada para as 20h30 e tem como Ordem de Trabalhos: (i) discutir e deliberar sobre o reforço da participação do Clube no capital da SAD mediante a aquisição de novas acções e (ii) mandatar a Direcção do Clube para praticar todos os actos e subscrever todos os documentos necessários ao bom cumprimento da deliberação constante do ponto um.

A AG Extraordinária da SAD está marcada para as 15h00 e tem a seguinte Ordem de Trabalhos:


A AG do accionista principal da SAD, que é o Clube, vai realizar-se depois da AG da sua participada, o que não deixa de ser curioso, mas demonstra (falta de) cuidado da Direcção do Clube para com o seu stakeholder nº1: os sócios.

As operações a realizar devem ser analisadas de um ponto de vista “macro”. Em bom rigor, esta mais não é do que uma transferência de 50% do Estádio do Dragão para a SAD com o objectivo de repor os seus Capitais Próprios em níveis positivos. A gestão da SAD delapidou o património da sociedade nos últimos exercícios e agora chama os seus accionistas, ou melhor, apenas parte deles, a reforçarem os capitais. Este reforço será realizado sob a forma de emissão de acções preferenciais sem direito de voto, mas poderia – deveria – ser feito sob a forma de emissão de acções ordinárias, diluindo assim a estrutura accionista até agora vigente. Dado que o Clube vai injectar 37,5m€ na SAD, então, a sua participação deveria ser registada ao preço de mercado (0,60 €, a 10 Set. 2014, dia do comunicado à CMVM desta operação). Ficaria o Clube, desta forma, com 62,5m de acções ordinárias, ao invés de 7,5m de acções preferenciais sem voto.


"As acções preferenciais constituem uma categoria de acções especiais prevista no Código das Sociedades Comerciais que se caracteriza pelo acréscimo de direitos patrimoniais e pela preterição do direito de voto. Entende-se que os accionistas preferenciais não têm interesse na condução dos negócios societários, interessando-lhes quase exclusivamente a remuneração do seu investimento. Não obstante, os accionistas preferenciais são verdadeiros accionistas, assistindo-lhes todos os direitos inerentes às acções, à excepção do direito de voto, o qual se encontra suspenso, só sendo adquirido em situações pontualíssimas. (…) Sob o ponto de vista do adquirente de acções preferenciais sem direito de voto, normalmente sócios investidores, estes podem, com muita facilidade, ver em tal aquisição a possibilidade de receber dividendo superior ao juro que receberiam numa aplicação financeira junto de uma instituição financeira, uma vez que a lei consagra um mínimo legal para a atribuição de dividendo prioritário, o qual não pode ser inferior a 5% do valor nominal da acção."

Cria-se, pois, a expectativa de que o Clube irá receber dividendos prioritários, no montante de 5% do valor da acção, i.e 25 cêntimos por acção, o que representa 1,875 milhões de euros por ano.

No entanto, a SAD pretende alterar os seus Estatutos com aprovação do último ponto da Ordem de Trabalhos (ponto 6) para, registe-se, restringir o direito de voto do detentor das acções preferenciais caso estas venham a adquirir esse direito no futuro. No regime jurídico previsto para este tipo de acções especiais, o legislador associa a privação do direito de voto à atribuição de outros privilégios patrimoniais. Não satisfeitos esses privilégios, o accionista preferencial pode recuperar os direitos de voto.

"A recuperação do direito de voto surge no momento em que é deliberada a aprovação do relatório de gestão, das contas de exercício e da afectação de resultados, que demonstrem não haver lucro distribuível suficiente para acautelar o pagamento integral do dividendo prioritário por relação a dois exercícios consecutivos."
J.J. Vieira Peres, “Acções preferenciais sem voto”

A proposta de alteração do nº 3 do Artº 7º dos Estatutos da SAD diz o seguinte:
"3 - Caso as acções preferenciais sem voto emitidas pela sociedade venham a conferir direito de voto, ao abrigo do artigo 342.º, n.º 3 do Código das Sociedades Comerciais, durante esse período temporal não serão considerados os votos emitidos por um accionista, em nome próprio ou como representante de outro, nos termos dos artigos 20.º e 21.º do Código dos Valores Mobiliários, que excedam mais de um terço da totalidade dos votos correspondentes ao capital social."

Antecipando o incumprimento na atribuição do dividendo prioritário ao Clube, a SAD pretende limitar-lhe os direitos de voto a “um terço da totalidade dos votos correspondentes ao capital social”. Esta redacção deixa-me dúvidas, nomeadamente a que votos se refere. Ora, o Clube detém directamente 40% dos votos. No caso de incumprimento da SAD no pagamento do dividendo prioritário em dois exercícios consecutivos, o Clube ficaria limitado a 33,33% dos votos ou ficaria limitado a 40% dos votos mais os votos de 33,33% de 7,5 milhões de acções?

Seria mais sensato optar pela seguinte redacção do nº3:
3 - Caso as acções preferenciais sem voto emitidas pela sociedade venham a conferir direito de voto, ao abrigo do artigo 342.º, n.º 3 do Código das Sociedades Comerciais, durante esse período temporal não serão considerados os votos emitidos por um accionista, em nome próprio ou como representante de outro, nos termos dos artigos 20.º e 21.º do Código dos Valores Mobiliários, que excedam mais de um terço da totalidade dos votos correspondentes a esta categoria de acções.

O que me parece mais relevante neste ponto 6 é a forma como o Clube, enquanto accionista de 40% do capital da SAD, se autolimita os seus próprios direitos no caso de votar favoravelmente esta proposta. A Direcção do Clube não estará, nesse caso específico, a defender intransigentemente os superiores interesses da instituição Futebol Clube do Porto.