Numa época que arranca com uma Copa América e termina com um Europeu de Futebol, a vida dos clubes torna-se mais complicada. Quanto maior o clube, maiores os problemas. E o FC Porto, com o seu
status de potência europeia definitivamente consolidado, vai encontrar-se com os mesmos dilemas logísticos dos grandes. Se todos sabemos que uma boa pré-época é meio caminho andado para o sucesso, André Villas-Boas deve estar a dar voltas à cabeça para resolver este
puzzle que se adivinha de complexa solução.
Enquanto a FIFA não unificar critérios, o futebol viverá sempre momentos como este. No espaço de um ano, os principais clubes de futebol verão os seus jogadores disputar seis torneios de selecções. Primeiro o Europeu de sub-21 e a Golden Cup, durante este mês de Junho. Depois, em Julho, a Copa América, seguida em Agosto do Mundial de sub-20 (antigo Mundial de Juniores). Em Janeiro é a vez da CAN africana e em Junho de 2012 o Europeu. Muitos jogos nas pernas, que se acumulam aos encontros das provas europeias, ligas nacionais, taças e taças da liga.
Os dragões têm já oficializados 42 jogos para a próxima temporada, incluindo os 30 da Liga, os seis da fase de grupos da Champions League, três da Taça da Liga, a primeira eliminatória da Taça de Portugal e as Supertaças Europeia e Portuguesa. Mas esse número, dependendo das prestações dos azuis e brancos, pode estender-se a um máximo de 57 encontros oficiais. Em 2010/11 o clube disputou 58 jogos, essencialmente graças à campanha europeia e fisicamente mostrou estar sempre a bom nível. Espelho de um óptimo trabalho do staff técnico na pré-temporada. Mas com este calendário sobrecarregado Villas-Boas terá de fazer contas.
O clube volta de férias no inicio de Julho e o primeiro jogo oficial é um mês depois, a 6 de Agosto, frente ao Vitória de Guimarães. Vinte dias depois estará no Mónaco para defrontar o Barcelona na Supertaça Europeia e entre fins de Agosto e princípios de Setembro arrancam igualmente Liga e Champions League.
Se houve algo que marcou o sucesso da época 2010/11 foi o arranque implacável dos homens de azul e branco. A vitória clara sobre o Benfica na Supertaça foi o tónico, mas a eliminatória com o Genk e as primeiras jornadas da Liga deixaram claro que este projecto tinha pernas para ir longe. E felizmente, então, estavam todos os jogadores à disposição de Villas-Boas. Isso permitiu-lhe gerir bem o crescimento de James, com Varela como titular (será que Iturbe e Kelvin terão a mesma sorte?) ou a adaptação de Otamendi.
Este ano a situação será bem diferente. A partir de 1 de Julho arranca a Copa América na Argentina. A prova irá prolongar-se até 24 do mesmo mês e as presenças de Falcao, Guarin, Alvaro Pereira, Fucile e Rodriguez estão confirmadas. Elementos fundamentais na estrutura do técnico – principalmente os dois colombianos – que terão de realizar uma pré-temporada alternativa. Com os perigos que isso sempre acarreta. Veja-se o caso de Diego Forlan, melhor jogador do passado Mundial, que chegou sem férias à Supertaça Europeia que o Atlético de Madrid ganhou ao Inter de Milão, para depois passar uma época marcada por problemas físicos, como consequência de uma má preparação. E exemplos não faltam.

Além do mais, para piorar as contas, quando o quinteto da Copa América chegar (para começar a sua recuperação) saem James Rodriguez, Iturbe e Sérgio Oliveira, presenças seguras no Mundial de sub-20, que irá decorrer entre o 29 de Julho e o 20 de Agosto na Colômbia. O mais provável é que só em meados de Setembro – se as lesões não aparecerem – é que o técnico poderá contar com todos os seus efectivos. Por essa altura a Liga já terá algumas jornadas e a Champions League prepara-se para arrancar.
A aposta na última meia dúzia de anos no mercado sul-americano trouxe os seus frutos mas, neste arranque de época, transformou-se também num problema. Felizmente para Villas-Boas tanto Helton como Otamendi, Bellushi e, sobretudo, Hulk, ficaram fora das contas dos seleccionadores, senão a razia podia ter sido bem pior.
Villas-Boas terá para as Supertaças uma equipa bastante limitada (o Barcelona, pelo contrário, estará na máxima força) e cansada. Em 2003/04, no segundo ano de Mourinho, não houve provas de Verão para importunar a preparação. E na altura o plantel era composto, maioritariamente, por portugueses. O leque de lusos do plantel (Moutinho, Rolando, Micael, Varela) terão outro problema, lá mais para o final do ano. É o velho sindroma de “não meter o pé” quando a convocatória para o Europeu se comece a aproximar. Outro problema de balneário, para AVB gerir à sua maneira.
O certo é que dificilmente veremos o mesmo FC Porto acutilante no inicio deste novo ano. Uma equipa sem os golos de Falcao, a visão de Guarin, a improvisação de James, corrida de Alvaro ou a segurança de Fucile é, claramente, menos equipa do que a que completou um Poker histórico. O mercado até Julho pode trazer novidades específicas para colmatar estes problemas, mas existe a possibilidade do FC Porto chegar a Agosto apenas com um lateral (Sapunaru), um extremo (Varela) e um avançado (Hulk) para os dois primeiros troféus da época. Veremos como o staff técnico e a equipa directiva prepara o importantíssimo mês de Julho. Será mais um desafio para Villas-Boas, talvez mais complicado do que muitas das vitórias conquistadas na passada temporada.