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quarta-feira, 6 de julho de 2011

Clubes, selecções e os interesses da FIFA

Como é sabido, o FC Porto tem quatro jogadores – Falcao, Guarín, Álvaro Pereira e Cristian Rodriguez – a quem paga principescamente e que, em vez de estarem integrados no plantel portista a preparar a próxima época, estão nesta altura a disputar pelas suas selecções a 43.ª edição da Copa América.

A primeira pergunta que me ocorre fazer é por que razão é que a Copa América é disputada no mês de Julho, de 1 a 24, e não no mês de Junho?

Comparativamente, o Mundial de 2010 na África do Sul, que envolveu 32 equipas (incluindo 8 americanas – Brasil, Argentina, Honduras, México, Estados Unidos, Chile, Paraguai e Uruguai), implicando muitíssimos mais jogos e um calendário mais extenso que a Copa América, decorreu entre 11 de Junho e 11 de Julho. Ou seja, não vejo qualquer razão válida para que a Copa América não pudesse ter começado três semanas mais cedo e terminado no início de Julho.

Mas pior que a Copa América é o calendário do Mundial de Sub-20, competição onde irão estar Iturbe e James Rodriguez, e que será disputado na Colômbia, entre 29 de Julho e 20 de Agosto!

Ora, faz algum sentido que uma competição mundial para jogadores seniores (até 20 anos de idade), organizada pela FIFA, tenha um calendário que em grande parte se sobrepõe ao arranque das competições oficiais de clubes (pelo menos na Europa)?

Recordo que no caso do FC Porto o primeiro jogo oficial é no dia 7 de Agosto (Supertaça nacional), mas há clubes que terão de disputar pré-eliminatórias das competições europeias (provas organizadas pela UEFA) em finais de Julho.

O futebol há muito que deixou de ser apenas um mero desporto e os jogadores de topo (que são os que jogam nas respectivas selecções) são profissionais especializados cada vez mais caros, cuja preparação para a alta competição (feita nos clubes!) leva anos e envolve treinadores, médicos, nutricionistas, fisioterapeutas, etc. Contudo, no binómio de interesses selecções-clubes, as federações continuam a usar os jogadores a seu belo prazer e com a agravante das receitas geradas irem, essencialmente, para os bolsos das federações/UEFA/FIFA, enquanto que os custos continuam a ser suportados pelos clubes. Isto algum dia vai ter de acabar.

Se há actividade profissional em que a globalização foi levada ao extremo é no futebol, mas cada vez é mais claro que a regulação não funciona, ou funciona mal.

P.S. Não tendo sido convocado para disputar a Copa América (supostamente por problemas físicos), alguém sabe por que razão é que Jorge Fucile não está a treinar no Olival?

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Quem não tem Hulk caça com Pato


"Mano Menezes deixou o estádio de La Plata decepcionado. O técnico classificou como "ruim" a estreia da seleção na Copa América e, embora não descarte mudanças para a partida contra o Paraguai, no próximo sábado, disse que não vai mudar radicalmente."
Folha de S. Paulo, 04/07/2011


O seleccionador brasileiro achou que não precisava de Hulk para atacar a Copa América e não convocou o avançado para o torneio. Para Mano Menezes, o Pato, o Ganso, o Neymar e o Robinho são os melhores jogadores para a frente de ataque e serão o que o Brasil precisa para vencer. Este foi só o primeiro jogo e, por isso, ainda é cedo para tirar conclusões mas quem viu o jogo de ontem contra a Venezuela (que acabou empatado a zero) percebe que não é só com esta equipa de aves domésticas que o Brasil (super favorito) lá vai. Veremos.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Um “Verão Quente” para AVB gerir

Por Miguel Lourenço Pereira


Numa época que arranca com uma Copa América e termina com um Europeu de Futebol, a vida dos clubes torna-se mais complicada. Quanto maior o clube, maiores os problemas. E o FC Porto, com o seu status de potência europeia definitivamente consolidado, vai encontrar-se com os mesmos dilemas logísticos dos grandes. Se todos sabemos que uma boa pré-época é meio caminho andado para o sucesso, André Villas-Boas deve estar a dar voltas à cabeça para resolver este puzzle que se adivinha de complexa solução.

Enquanto a FIFA não unificar critérios, o futebol viverá sempre momentos como este. No espaço de um ano, os principais clubes de futebol verão os seus jogadores disputar seis torneios de selecções. Primeiro o Europeu de sub-21 e a Golden Cup, durante este mês de Junho. Depois, em Julho, a Copa América, seguida em Agosto do Mundial de sub-20 (antigo Mundial de Juniores). Em Janeiro é a vez da CAN africana e em Junho de 2012 o Europeu. Muitos jogos nas pernas, que se acumulam aos encontros das provas europeias, ligas nacionais, taças e taças da liga.

Os dragões têm já oficializados 42 jogos para a próxima temporada, incluindo os 30 da Liga, os seis da fase de grupos da Champions League, três da Taça da Liga, a primeira eliminatória da Taça de Portugal e as Supertaças Europeia e Portuguesa. Mas esse número, dependendo das prestações dos azuis e brancos, pode estender-se a um máximo de 57 encontros oficiais. Em 2010/11 o clube disputou 58 jogos, essencialmente graças à campanha europeia e fisicamente mostrou estar sempre a bom nível. Espelho de um óptimo trabalho do staff técnico na pré-temporada. Mas com este calendário sobrecarregado Villas-Boas terá de fazer contas.

O clube volta de férias no inicio de Julho e o primeiro jogo oficial é um mês depois, a 6 de Agosto, frente ao Vitória de Guimarães. Vinte dias depois estará no Mónaco para defrontar o Barcelona na Supertaça Europeia e entre fins de Agosto e princípios de Setembro arrancam igualmente Liga e Champions League.

Se houve algo que marcou o sucesso da época 2010/11 foi o arranque implacável dos homens de azul e branco. A vitória clara sobre o Benfica na Supertaça foi o tónico, mas a eliminatória com o Genk e as primeiras jornadas da Liga deixaram claro que este projecto tinha pernas para ir longe. E felizmente, então, estavam todos os jogadores à disposição de Villas-Boas. Isso permitiu-lhe gerir bem o crescimento de James, com Varela como titular (será que Iturbe e Kelvin terão a mesma sorte?) ou a adaptação de Otamendi.

Este ano a situação será bem diferente. A partir de 1 de Julho arranca a Copa América na Argentina. A prova irá prolongar-se até 24 do mesmo mês e as presenças de Falcao, Guarin, Alvaro Pereira, Fucile e Rodriguez estão confirmadas. Elementos fundamentais na estrutura do técnico – principalmente os dois colombianos – que terão de realizar uma pré-temporada alternativa. Com os perigos que isso sempre acarreta. Veja-se o caso de Diego Forlan, melhor jogador do passado Mundial, que chegou sem férias à Supertaça Europeia que o Atlético de Madrid ganhou ao Inter de Milão, para depois passar uma época marcada por problemas físicos, como consequência de uma má preparação. E exemplos não faltam.

Além do mais, para piorar as contas, quando o quinteto da Copa América chegar (para começar a sua recuperação) saem James Rodriguez, Iturbe e Sérgio Oliveira, presenças seguras no Mundial de sub-20, que irá decorrer entre o 29 de Julho e o 20 de Agosto na Colômbia. O mais provável é que só em meados de Setembro – se as lesões não aparecerem – é que o técnico poderá contar com todos os seus efectivos. Por essa altura a Liga já terá algumas jornadas e a Champions League prepara-se para arrancar.

A aposta na última meia dúzia de anos no mercado sul-americano trouxe os seus frutos mas, neste arranque de época, transformou-se também num problema. Felizmente para Villas-Boas tanto Helton como Otamendi, Bellushi e, sobretudo, Hulk, ficaram fora das contas dos seleccionadores, senão a razia podia ter sido bem pior.

Villas-Boas terá para as Supertaças uma equipa bastante limitada (o Barcelona, pelo contrário, estará na máxima força) e cansada. Em 2003/04, no segundo ano de Mourinho, não houve provas de Verão para importunar a preparação. E na altura o plantel era composto, maioritariamente, por portugueses. O leque de lusos do plantel (Moutinho, Rolando, Micael, Varela) terão outro problema, lá mais para o final do ano. É o velho sindroma de “não meter o pé” quando a convocatória para o Europeu se comece a aproximar. Outro problema de balneário, para AVB gerir à sua maneira.

O certo é que dificilmente veremos o mesmo FC Porto acutilante no inicio deste novo ano. Uma equipa sem os golos de Falcao, a visão de Guarin, a improvisação de James, corrida de Alvaro ou a segurança de Fucile é, claramente, menos equipa do que a que completou um Poker histórico. O mercado até Julho pode trazer novidades específicas para colmatar estes problemas, mas existe a possibilidade do FC Porto chegar a Agosto apenas com um lateral (Sapunaru), um extremo (Varela) e um avançado (Hulk) para os dois primeiros troféus da época. Veremos como o staff técnico e a equipa directiva prepara o importantíssimo mês de Julho. Será mais um desafio para Villas-Boas, talvez mais complicado do que muitas das vitórias conquistadas na passada temporada.


Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao Miguel Lourenço Pereira a elaboração deste artigo.