É humanamente impossível pensar que, depois de uma noite europeia histórica, há pernas e cabeça para que uma equipa se consiga concentrar como se exige para um jogo do campeonato em casa.
José Mourinho, que não é suspeito, disse em 2004 que para que o seu FC Porto pudesse ambicionar ir à final da Champions League era necessário um colchão pontual importante para evitar essa tensão e as suas consequências. Onze anos depois estamos em boas condições de voltar a umas meias-finais mas, ao mesmo tempo, temos três pontos de atraso (e alguns golos) do rival do jogo de domingo a oito dias. Antes da Luz há uma super-desgastante viagem a Munique (ninguém duvida que o Bayern vai vender cara qualquer derrota) e um jogo fundamental contra a Académica. O jogo seguinte.
“Partido a partido” foi a máxima do Atlético de Madrid para ganhar a maratona ligueira contra o Real e o Barcelona e ainda assim chegar à final da Champions. Não tinham como adversário um rival com dez pontos de borla como se um cupão de descontos do Lidl fosse mas sim duas hiper-equipas (uma delas também tiveram de eliminar na Champions). Essa mentalidade não era só uma questão semântica. O sucesso passa pela capacidade de concentração e crença. Uma equipa não pode ou deve ligar e desligar porque algum dia pode confundir-se nos botões. Uma cultura de vitória é precisamente aquela que olha para cada jogo como se fosse o mais importante. E é isso que o FC Porto tem de fazer neste ciclo infernal e no que venha depois se tudo correr bem.
Não deixa de ser verdade que para o jogo no Dragão contra a Académica há importantes condicionantes. Fisicamente o plantel sofreu com alguns desajustes e lesões que forçaram jogadores a acumular minutos (as ausências de um Adrian ou Tello, a ida de Brahimi à CAN). Um descanso – se queremos repetir o mesmo desgaste na Alemanha e na Luz – é inevitável para pernas cansadas como as de Herrera, Oliver e um recuperado Jackson. Também há o temor dos amarelos – e Duarte Gomes inspira genuinamente temor – sobretudo no caso de Danilo que jogará seguramente (não vai a Munique), mas que tem o fantasma pendente de não ir também a Lisboa.
Temos de dar por garantido que a forma como o Belenenses já se despiu e deitou na cama em posição adequada com a série de ausências que recorda a vergonha da primeira volta dará não só três pontos como vários golos (e os golos vão ser importantes, acreditem) ao rival. Nós só podemos fazer o nosso trabalho, a saber, somar seis pontos e um goal-average superior nos próximos 180 minutos de campeonato. Nada mais. Quem jogou como jogou na quarta-feira é seguramente capaz de o lograr. Outra coisa é que o consiga fazer.
É nessa dinâmica que o trabalho de Lopetegui – que saiu hiper-reforçado do jogo da passada quarta-feira – é fundamental. Tem de convencer os que vão jogar, de entre os titulares habituais, no sábado, que é um jogo tão importante como qualquer outro. É verdade mas digam lá isso a miúdos que só querem brilhar na Champions e voltar aos seus clubes de origem ou assinar os contratos da sua vida. Não será fácil mas é nesses momentos que os “pastores de homens”, como dizia Homero, se mostram realmente. Lopetegui tem também de saber motivar os menos habituais, os que seguramente não vão jogar mais neste ciclo de três jogos de que a sua participação contra a Académica é tão importante para o clube como a de ontem. Muitos terão uma decisiva oportunidade, outros terão de responder à confiança do mister.
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| Lopetegui na conferência de imprensa antes do FC Porto x Académica |
Vencer a Académica em casa devia ser quase uma garantia mas com muitas cabeças na noite de ontem e na de terça-feira (ou até no domingo a oito) claro que todos se lembram de tropeções históricos do passado. Chegar á Luz com possibilidade de passar à frente é tudo aquilo que se pode exigir a uma equipa roubada desde o primeiro minuto do campeonato do seu legitimo direito de aspirar a um título que merece muito mais que o seu rival.
Tendo em conta as ausências em Munique – Danilo, Alex Sandro – e a importância do jogo com o Bayern (não se enganem, a eliminatória vai a meio, um 2-0 não é um resultado tão improvável mas a 90 minutos de fazer história e sabendo a roubalheira que nos espera na Luz, o normal é mudar o chip) Lopetegui deverá apostar num onze que misture o melhor de dois mundos. Marcano, Danilo e Alex devem jogar com Reyes a fechar no centro. Ruben deveria ser titular como trinco – jogamos em casa e é a Académica – e Evandro e Quintero devem terminar por fechar o meio-campo. Para o colombiano pode (deve) ser a ultima oportunidade. Hernâni e Aboubakar são fixos no ataque e eu, pessoalmente, jogaria com Gonçalo. Dois avançados, intenção clara: marcar golos e dominar em casa.
Essa poupança de pernas permitia aos jogadores que sim vão ser titularíssimos em Munique descansar e não tirar a cabeça dos alemães e aos restantes membros do plantel demonstrarem que esta é uma equipa unida e que todos remam em conjunto, ainda que com tarefas divididas. No final as medalhas ao peito têm de valer por algo e há ali nomes que precisam de dar o seu contributo de forma definitiva. Não há melhor momento que agora.
Vencer a Académica garante um Jorge Jesus cagado na Luz. Um Jorge Jesus que vai passar a vergonha histórica de defender em casa um empate miserável que depois o resto dos seus amigos de negro confirmem que a diferença pontual se mantém vigente até ao fim da liga. Um Jorge Jesus que está eufórico com o desgaste físico desta eliminatória esquecendo-se de que o prestigio acumulado em noites europeias como estas valem mais que todas as suas pseudo-finais de UEFA e títulos de liga encomendados. Mentalidades pequenas pensam sempre da mesma forma.
O FC Porto tem no seu ADN o futebol europeu a cores e 3D e a vitória histórica de quarta-feira abre as portas a uma meia-final inesperada. Em casa temos de ser fiéis a nós próprios e competentes. Vencer a Académica garante um “showdown” na Luz, já com a questão alemã resolvida (para bem ou para mal). É por isso um jogo fundamental.
Uma vitória encherá a equipa de confiança, de vontade de vencer não só o Bayern mas também o Benfica. Uma sensação de dever cumprido que ajuda sempre ao ego. Uma sensação de – nem todos derrotados nos conseguem fazer perder o rumo – tão à Porto. Uma derrota ou empate, pelo contrário, condiciona a corrida ao título de forma definitiva e pode ser um golpe psicológico e um acrescento de pressão para Munique que a equipa não precisa nem merece. Resolver a equação matando o jogo de sábado cedo é fundamental. Se o Dragão ajudar como na quarta-feira, muito melhor.
No entanto, cuidado. Num campeonato viciado, ninguém poderá apontar o dedo se no meio deste ciclo de jogos de alto nível haja no plantel quem pense mais nas estrelas e nos hinos de glória que outros nunca ouvem do que em dar tudo contra uma equipa que na Luz foi amiga, amiga, para depois encontrar-se com os dados viciados na esquina seguinte. Este FC Porto pode não vencer nenhum titulo em Maio, mas já fez mais em meia dúzia de jogos que outras equipas em cinco anos. Essa memória não deixaremos que se apague.












