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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Atacar bem? Comecem por defender bem!

Nos últimos 30 anos do futebol houve dois treinadores que mudaram radicalmente os conceitos de jogo, duas referências máximas do futebol ofensivo de alto quilate. Ambos vão passar à história porque as suas equipas jogam de forma atractiva, ofensiva, sem piedade do rival quando aumentam o ritmo para uma velocidade que mais ninguém aguenta. E no entanto, para ambos, o êxito do ataque parte sempre de um excelente trabalho na defesa. Querem atacar bem? Então preocupem-se sempre por garantir que a equipa sabe, antes que tudo, defender melhor. Sacchi e Guardiola sabem perfeitamente do que falam. As suas equipas partiram sempre de um principio básico. São equipas de treinador até ao último terço, equipas de jogadores no último. Este FC Porto dista muito desses princípios.

José Peseiro não é nem Arrigo Sacchi nem Pep Guardiola, está claro. Mas é, e sempre foi, um treinador que pensa de outra forma. As suas equipas são de tracção dianteira. As suas linhas defensivas sofrem muito e com regularidade pelo posicionamento em campo do seu 4-2-3-1. Peseiro começa a pensar o jogo com a bola no circulo central. Trabalha bem - tem-se apreciado evidentemente a diferença - o jogo ofensivo, sobretudo as sobreposições entre os interiores e os extremos no complemento ao ataque. Mas o jogo dos médios defensivos, laterais e centrais peca de ingénuo. A sua filosofia de "se o rival marca dois, eu marco três", lembra muito o futebol sul-americano ou a realidade europeia pre-anos 70 mas está bastante desfasada da realidade. Até uma equipa de estrelas absolutas e inquestionáveis como o Real Madrid da primeira geração dos "Galácticos" percebeu isso quando o génio da sua linha avançado pagou ano após ano os erros tácticos a que a sua linha defensiva estava exposta. Não, o modelo Peseiro - e de alguns treinadores da sua escola - hoje em dia pode ser atractivo em momentos concretos do jogo mas é pouco fiável. Tudo porque o seu enfoque de jogo parte da premissa que a defesa é um elemento secundário na coordenação colectiva. O jogo começa mais rápido, desde atrás, menos pensado e a cada perda de bola os jogadores da linha mais recuada encontram-se, quase sempre, mal posicionados. Tal é a vocação ofensiva que muitas vezes não existe um fio de conexão entre os centrais e os laterais, por um lado, e os laterais e os médios interiores, por outro. Nesse cenário não é difícil, sobretudo a equipas que jogam no espaço e aproveitam a velocidade para contra-atacar - como são quase todos os clubes da liga portuguesa - encontrar oportunidades para marcar. Depois é um jogo de roleta russa. A eficácia do rival, a eficácia própria, a capacidade emocional de resposta, o fluxo ofensivo criado, tudo entra numa equação perigosa. O triunfo sobre o Moreirense - por 3-2 com uma reviravolta de dois golos desfavoráveis - é o perfeito exemplo desse puzzle. Peseiro pode sentir-se triunfal porque a sua ideia prevaleceu (o rival marca dois, eu marco três), mas o seu esquema parte de um principio perigoso. É altamente provável que te marquem sempre mas não podes garantir que tu vais marcar sempre mais um. A derrota antes da à visita à Luz com o Arouca - que pode ter sido decisiva em contas para o título - é o perfeito exemplo disso mesmo.



O maior defeito que os adeptos apontavam - e muitos com razão - a Vitor Pereira e a Julen Lopetegui (mais no seu caso que tinha melhor matéria-prima) era a tremenda dificuldade de passar de uma boa organização defensiva a um jogo ofensivo eficaz e vertical. Eram o modelo oposto de Peseiro. Para ambos os treinadores - claramente da escola Sacchi/Guardiola - as suas equipas começavam a pensar-se desde o momento em que o guarda-redes colocava a bola em jogo. Era importante, não, fundamental, uma boa coesão defensiva e articulação entre sectores, um avanço progressivo das tropas antes de explodir o rastilho final no último terço.
Quando bem executado o modelo propiciou grandes jogos colectivos mas se Vitor Pereira quase nunca teve arsenal ofensivo com essa inteligência de jogo e talento (no seu primeiro ano teve de abdicar do poder de explosão de Hulk para colocá-lo como referência ofensiva e no segundo faltou-lhe o brasileiro para conectar com Jackson), já Lopetegui pecou de erros próprios na concepção de jogo colectivo. No entanto, ambos perfilavam a ideia de que a equipa tinha de funcionar como um todo nos primeiros três quartos de campo para depois permitir a explosão do talento individual no último terço. A defesa, nos dias de Vitor Pereira, era absolutamente tremenda na ocupação do espaço e no controlo da zona e com Lopetegui - apesar de Fabiano, Marcano, Maicon ou Indi, jogadores de perfil muito inferior - foi uma das melhores de todas as ligas europeias enquanto que na Champions, não fosse pelo massacre de Munique - um erro de gestão técnica tremendo - teria igualmente terminado o torneio nas menos batidas. Não esperem ver o mesmo com Peseiro.

Tem culpa o treinador do Porto dos golos sofridos recentemente? Sim e não.
A Peseiro não lhe podemos apontar o dedo na concepção do plantel - responsabilidade da SAD e de Lopetegui - nem nos reajustes de Janeiro - responsabilidade da SAD. Ao técnico foram-lhe dados ovos para trabalhar - poucos e podres - e a situação de Maicon (ainda por explicar) apenas piorou o cenário forçando-o a recrutar para as convocatórias dois jogadores com idade de júnior, Chidozie e Verdasca. Nesse cenário - múltiplas lesões, suspensões e reajustes - era absolutamente lógico e natural que houvesse maior permeabilidade defensiva. No entanto o grave nesse cenário é que Peseiro - que quer ser fiel aos seus princípios - uniu às baixas e ao plantel de pobre qualidade uma radical mudança táctica que rasga os princípios assimilados durante ano e meio. Peseiro quer tirar o Lopetegui de dentro da cabeça dos jogadores (olhando para Herrera, como melhor exemplo, está a conseguir) e a sacar o máximo potencial de jogadores que em 4-3-3 posicional renderiam muito pouco (a prova está em Suk, tem tudo para ser um novo Pena, esforçado mas excessivamente dependente do espaço e dos lances divididos para se evidenciar) no sector ofensivo. A consequência é abdicar da segurança defensiva, da estabilidade do jogo desde a retaguarda e dos naturais desajustes no miolo que provocam perdas de bola e contra-ataques do rival. A pré-época não serve apenas para preparar os jogadores fisicamente. É o único momento do ano em que o treinador tem três ou quatro semanas para aplicar as bases da sua ideia que são melhoradas com treinos pontuais. A partir do inicio da temporada o ciclo não permite a implementação de uma nova ideia táctica com êxito assegurado. As sessões de treino medem-se entre recuperação esforço, preparação tendo em conta o rival, garantir estabilidade dos níveis físicos e algum que outro dia dedicado a lances estudados. Não há tempo (nem força, física e mental) para uma pre-epoca em Fevereiro. O clube sabe isso, o treinador sabe isso e os jogadores sabem isso de modo que tudo o que estamos a viver no presente vai contra toda a lógica da gestão de um grupo. E só é possível devido ao desnorte da direcção - que forçou a mudança sem ter um plano B coerente - e o desespero total da falta de rumo que permite acreditar que mudando tudo o que estava feito os resultados, forçosamente, serão diferentes.



O 4-2-3-1 e as ideias de Peseiro, com uma boa pre-epoca, podem triunfar ainda que o mais provável é que sofram nos momentos chave a consequência do poder do controlo de jogo do futebol moderno. De certo modo Peseiro quer parecer-se mais a Paulo Fonseca do que a Vitor Pereira ou AVB. Agora tem todo o crédito do mundo porque nenhum adepto vai reclamar nada a um treinador-bombeiro sem perfil e que chegou num momento de desespero. Mas é preciso ter-se cuidado quando se brinca com o fogo. Velha é a história contada por Sacchi do dia em que van Basten, irritado por tanto trabalho táctico, lhe atirou à cara que ele era a estrela da companhia e que o êxito do Milan dependia dos seus golos. Sacchi sorriu e pactou um desafio. Se van Basten, Gullit, Ancelloti e Donadoni fossem capazes de superar o seu quarteto defensivo numa sequência de ataque a partir do meio campo, dar-lhe-ia razão. Mas se a defesa recuperasse a bola, teriam de voltar a começar o ataque do zero. Durante duas horas a defesa de Sacchi levou a melhor linha de ataque ao desespero. Não marcaram nenhum golo. Van Basten aprendeu a lição. Algo similar fez Guardiola em Barcelona, reforçando sempre às suas estrelas ofensivas que tudo começava a partir da conexão Valdés-Pique-Puyol-Busquets. Ninguém espera um golpe de génio táctico de um treinador com dez anos de fracassos acumulados às costas mas jogos como o do último fim-de-semana também não podem surpreender ninguém. Com um plantel de remendos querer jogar no fio da navalha pode provocar doses de adrenalina que o jogo dormido e pausado do 4-3-3 de Vitor Pereira (sem jogadores de ataque válidos) ou de Lopetegui (sem ideias) eram incapazes de transmitir. Mas a navalha acabará sempre por deixar as suas marcas.



quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Filosofia Guardiola para Tótós


Há muitos aprendizes da Filosofia Guardiola (ou da filosofia de jogo do FC Barcelona, para ser mais correcto) por essa Europa do futebol. Os problemas surgem porque as cópias são de má qualidade. Em minha opinião, actualmente os piores intérpretes deste modelo são Julen Lopetegui, treinador do FC Porto e Louis Van Gaal, treinador do Manchester United. Neste último caso não admira que esteja prestes a levar guia de marcha dada a escassa paciência dos ingleses para um futebol pastoso e improdutivo.

O video abaixo contém uma apresentação recente de Thierry Henry, ex-avançado do Arsenal e do Barcelona, sobre a filosofia de jogo de Pep Guardiola. Em traços gerais o modelo resume-se aos 3 P's: Play (joga), Possession (posse de bola), Position (posicionamento). É pedido aos jogadores que joguem e troquem a bola entre si, mantendo a posse, respeitando a sua posição original (nunca cedendo à tentação de ir procurar bola) e confiando que os companheiros de equipa conseguem pôr a bola na posição desejada ("trust your teammate"). Depois, a partir do último terço do terreno de jogo, quando se acercam com perigo da baliza contrária, é dada liberdade ("freedom") aos jogadores para aparecerem na zona de finalização. O resultado final é por demais conhecido: uma equipa inteligente e letal.



Os aprendizes de Guardiola não entendem que este modelo (ou um modelo com princípios de jogo semelhantes) exige que um plantel possua jogadores exímios no jogo interior. O FC Porto de Villas-Boas e Vítor Pereira teve jogadores como um João Moutinho, um Guarín ou um Belluschi que se davam bem jogando "por dentro". O mérito também foi desses treinadores, que conseguiram moldar e adaptar as características dos atletas.

No actual plantel do FC Porto, André André e Danilo têm capacidade para o jogo interior mas aquele que aparentemente seria a melhor opção  Imbula  custou 20 milhões e nem sequer faz parte das convocatórias. E o dado mais importante: Lopetegui implementa um modelo de jogo de forma cega sem se preocupar com a habilidade dos jogadores para o interpretarem e o porem em prática.
   

terça-feira, 14 de abril de 2015

Desculpas antecipadas e… medo

No dia 21 de Outubro de 2014, o Bayern München deslocou-se a Roma, para enfrentar o vice-campeão italiano.

O onze titular e os suplentes do Bayern nesse jogo, para a fase de grupos da Liga dos Campeões, foram os seguintes:

Os 18 jogadores convocados para o AS Roma x Bayern (fonte: zerozero)

Ou seja, apesar de…
Ribéry ter sido suplente;
Schweinsteiger não ter feito parte do lote dos convocados;
Pepe Reina não ter feito parte do lote dos convocados;
Thiago Alcântara não ter feito parte do lote dos convocados (estava lesionado);
Javi Martínez não ter feito parte do lote dos convocados (estava e continua lesionado);

… no final, o Bayern saiu do estádio Olímpico com um resultado esclarecedor: AS Roma 1, Bayern München 7

Ora, oito dos onze titulares desse AS Roma x Bayern – Manuel Neuer, Philipp Lahm, Jérôme Boateng, Bernat, Mario Götze, Xabi Alonso, Thomas Muller, Lewandowski – estão no Porto e disponíveis para jogar.
A que se juntam mais alguns “mancos”, como Pepe Reina, Rafinha, Dante, Badstuber, Thiago Alcântara ou Claudio Pizarro.

Aliás, quem fala muito nos lesionados do Bayern, esquece-se, convenientemente, de referir que Philipp Lahm e Thiago Alcântara, após vários meses de ausência, voltaram a estar à disposição de Pep Guardiola.

Perante estes factos, é ridículo o choradinho do treinador e dirigentes do Bayern. Quem os ouvir falar e estiver distraído, até é capaz de pensar que Guardiola tem poucos jogadores de top à sua disposição, para utilizar nestes quartos-de-final da Liga dos Campeões.

Mas, ainda mais ridículo, é o papel, entre o sonsa e o coninhas, que a comunicação social portuguesa (?) está a fazer, só compreensível numa estratégia de desculpas antecipadas e de estar a “preparar o terreno” para qualquer eventualidade.

Correio da Manhã (capa) de 14-04-2015

Isto é, se o FC Porto conseguir um bom resultado, a explicação (preparada antecipadamente nas redacções de Lisboa) é simples: o Bayern, coitadinho, estava desfalcado e muito fraquinho.

Se acontecer o que todos, ou quase todos, prevêem (incluindo as casas de apostas) – a vitória do super favorito Bayern – então, a mesma comunicação social irá dizer que Lopetegui (o principal alvo a atingir) foi incapaz de aproveitar uma “oportunidade única” para derrotar um Bayern “fragilizado”.

Se eu não soubesse o que está por detrás desta estratégia de comunicação, diria que são maus profissionais, ou que andam distraídos. Assim, limito-me a dizer que são uns tristes.

E, após tantos anos e tantos exemplos, ainda há portistas que embarcam nesta conversa…


P.S. A RTP, a estação de serviço público, preparou uma peça sobre a chegada da comitiva do Bayern ao aeroporto do Porto (que tem vindo a repetir desde ontem à noite), em que o foco principal são os jogadores ausentes. Mas, o melhor desta peça jornalística de “alto quilate” é a referência à ausência de seis habituais titulares, incluindo nesta lista Ribéry (o qual tem menos de 1000 minutos na Bundesliga, sendo apenas o 14º jogador do plantel do Bayern neste ranking) e Javi Martínez que, devido a uma grave lesão, esta época tem zero minutos na Bundesliga e na Liga dos Campeões. Ou seja, dois “habituais titulares”…

P.S.2 Apesar do “cataclismo” de lesões que se abateu sobre o plantel à disposição de Guardiola, as casas de apostas desportivas - Bet365, Bwin e Betfair - não dão favoritismo ao FC Porto no jogo da 1ª mão e muito menos na passagem às meias-finais da Liga dos Campeões. Para o jogo do Estádio do Dragão, a vitória do FC Porto vale entre 4.50 a 5.20 por cada euro apostado, o empate entre 3.75 e 3.80 e uma vitória do Bayern Munique entre 1.70 e 1.82. Já a passagem dos dragões às meias-finais da competição, vale entre 6 a 7.60, sendo a «odd» mais alta de qualquer equipa ainda na Liga dos Campeões, enquanto que o apuramento do colosso da Baviera vale entre 1.10 a 1.14 e é a «odd» mais baixa. Por que será?

terça-feira, 15 de julho de 2014

Ainda o Mundial

Há quem queira ver na chegada do Guardiola à Bundesliga, a razão maior para a vitória da Alemanha no Mundial - uma busca por "guardiola alemanha mundial" permite ter uma noção de como essa ideia está disseminada, sendo inclusive defendida por alguns alemães.

Eu simpatizo com o Guardiola, acho-o um grande treinador, mas daí a afirmar que num ano consegue ter tal influência, parece-me não só um exagero, mas até mesmo uma falta de respeito, para com, por exemplo, o Joachim Löw, que comanda a selecção há uns seis anos - e com resultados que só não foram melhores, unicamente por causa da Espanha.

Espanha, essa sim, influenciada por Guardiola, assim como o Barcelona, e o Bayern de Munique - em diferentes escalas; porém a primeira teve uma péssima prestação no Mundial; o segundo não fez uma época muito melhor, e o Bayern, apesar de campeão de forma inquívoca, falhou com estrondo na Liga dos Campeões.

É natural que a selecção alemã, em grande parte, "fornecida" pelo Bayern seja influenciada por Guardiola, mas daí a apelidá-la de "Alemanha de Guardiola", parece-me demasiado, considerando a longevidade da actual equipa técnica, e o número de anos que o núcleo de jogadores partilham juntos.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

FC Porto, o novo Real Madrid?

Em 2009 todos descobrimos a lua. Não viajamos até lá. Ela veio até nós sob a forma do Barcelona treinado por Guardiola. Era uma equipa que enchia qualquer medida futebolística possível. Uma equipa agressiva mas elegante. Uma equipa com uma qualidade individual impressionante mas que funcionava como colectivo. Uma equipa onde os baixinhos (Xavi, Iniesta, Messi) jogavam com os raçudos (Etoo, Pedro, Touré, Puyol), com os inteligentes (Pique, Busquets, Henry) sem que qualquer um de nós fosse capaz de os excluir das outras características principais. Provavelmente tivemos a sorte de ver uma das grandes equipas da história do futebol moderno. Mais, tivemos a sorte de que o nosso FC Porto fosse comparado, lá fora, com essa máquina de futebol.

Historicamente o FCP sempre se associou ao FC Barcelona.
Clubes de segundas cidades, burguesas, mercantis, marítimas, rebeldes contra o poder do centralismo e, também é preciso dizê-lo, clubes que viveram as suas maiores secas desportivas de forma similar (durante os anos 60 e quase todos os 70) e que renasceram nos anos 80 para tornarem-se na maior força desportiva do seu país. O FCP com um presidente, o FC Barcelona com um ideólogo chamado Johan Cruyff. Ambos ganhamos provas europeias desde então (mais que o respectivo rival), ambos ganhamos ligas (mais que o respectivo rival) e ambos ganhamos a admiração do Mundo. Nós por sermos o eterno underdog sobrevivente na elite europeia, capaz de encontrar pérolas no meio do Amazonas e transformá-los em diamantes, e eles por serem os herdeiros dessa escola danubiana mítica. Para qualquer portista era um motivo de orgulho a comparação. A associação de futebol de posse, de qualidade técnica e táctica, de gestão desportiva com o Barça seguia os mesmos padrões que a comparação Real Madrid-Benfica dos anos 50 e 60, ambas equipas alimentadas pela máquina estatal, habituadas a ser o símbolo da propaganda de regime ditatoriais e com duas grandes gerações que coincidiram no tempo e espaço.

Nos anos AVB e VP a comparação permaneceu.
O Barcelona de 2013 já não é o mesmo de 2009. A própria evolução de Guardiola introduziu matizes importantes. Messi passou a ser o falso-nove, a equipa passou a jogar mais em função do génio argentino e a procura de alternativas estancou com o modelo original. Com o passar dos anos a agressividade e o pressing na hora da recuperação que tinham sido marca de identidade do primeiro Pep Team tornou o Barcelona uma equipa mais previsível, salva recorrentemente pelo génio superlativo de alguns dos melhores futebolistas da história. O FCP, que com AVB teve um ano similar ao do primeiro Pep Team, seguiu um trajecto similar. No nosso caso o problema foi a falta de opções condicionada pelo mercado e pelo desejo de jogadores importantes em sair. Sem Belluschi e Guarin o ritmo do meio-campo seria sempre diferente. Sem Hulk e Falcao a eficácia ofensiva baixaria sempre com o tempo. Com Varela a cair de forma, James a nunca explodir verdadeiramente e com Fucile, Rolando e Alvaro Pereira em quarentena (primeiro) e fora de contas (depois) o processo obrigou a uma reconstrução durante dois anos que interrompeu a ascensão da qualidade de jogo. Mas a matriz permaneceu, mesmo nesses momentos, a mesma.
O 4-3-3 era inegociável, a segurança defensiva o primeiro passo para o sucesso (como foi com Pep) e o controlo de jogo a obrigatoriedade máxima para quem subia em campo. É certo que o ritmo de jogo era vitima das opções e tinha baixado muitas rotações. As transições eram mais lentas, a agressividade esfumou-se e a qualidade individual também. Mas quem tinha visto jogar os homens de AVB reconhecia o mesmo padrão com VP da mesma forma que entre as diferenças que existem entre Guardiola, Vilanova e Martino não impedem que o Barcelona continua a ser o Barcelona.



Agora podem dizer o mesmo?
Não!

Desde Agosto que a matriz dos últimos três anos foi abandonada por completo.
É o direito legitimo de qualquer treinador escolhido pela direcção de impor o seu estilo e modelo de jogo. Se o faz, imagino que seja de acordo com quem o contrata que é quem responde aos sócios e accionistas. Eles são conscientes do que custou criar essa matriz, do que significa manter um modelo ao largo dos anos a nível de estabilidade futebolista e de gestão de balneário. Se aprovam a mudança - não só do desenho táctico mas dos princípios básicos do jogo - saberão porque o fazem. Mas agora na Europa ninguém se lembraria de associar este FC Porto ao Barcelona. Como muito poderiam fazer uma comparação que é, para muitos portistas, odiosa: com o Real Madrid.
A equipa da capital espanhola é reconhecida mundialmente por não ter modelo de jogo. Vive para onde o vento sopra. A cada presidente e treinador que chega tudo muda. O importante são os jogadores, quanto mais mediáticos e caros, melhor. Bale custa 100 milhões, logo vale mais que Ozil que só custou 15, pensam muitos adeptos e dirigentes do clube espanhol. Com o esquema de jogo é o mesmo. Não há um modelo desde o fim da Quinta del Buitre, nos anos 80. A táctica muda, os princípios mudam, os jogadores mudam, os treinadores mudam. As vitórias só aparecem porque o valor individual e o dinheiro metido no plantel assim o ditam. De futebol, muito pouco.
Actualmente em Portugal passamos pelo mesmo cenário. O FC Porto ganha muitos jogos porque é o FC Porto. Não porque jogue bem, não porque tenha um padrão de jogo, não porque saiba o que faz. Ganha-o simplesmente porque Jackson é o melhor avançado da liga, porque Lucho coxo é melhor que a maioria dos médios do campeonato. Porque Mangala-Otamendi ainda é uma dupla que supera qualquer outra. Porque os frangos ocasionais de Helton não empalidecem comparados com os de Artur, Eduardo e Patricio. Porque ganhar no Dragão é impossível e defender com dez homens dentro da área nos jogos fora nem sempre resulta. Ganhamos por inércia da mesma forma que o Real Madrid ganha muitos dos seus jogos. Não pela qualidade do projecto que PF tenha a apresentar. E isso é, sobretudo, o mais preocupante.

Eu quero que o FC Porto tenha um modelo que seja válido hoje, com PF, e amanhã com o treinador X.
Para isso é preciso duas coisas.
Ter a direcção decidida a apostar fielmente nesse modelo de jogo (em vez de se preocupar tanto com modelos de negócio, que não é o mesmo) e contratar sempre treinadores e jogadores para cumprir esse preceito colectivo como tem feito o Barcelona (noutra escala, obviamente) ou então apostar como há muito defendo num nome sério para o banco. Num nome consagrado, com uma cultura futebolística suficientemente alta para manejar distintas situações e saber o que está a fazer, sem parecer um puto de olhar perdido. Falou-se muito em Pellegrini, um treinador que cumpre esse preceito, mas entendo que entre o Dragão e o City of Manchester, o dinheiro tenha falado mais alto. Mas o chileno não é o único dentro desse grupo de treinadores que sabem muito de futebol e colocam sempre as suas equipas a jogar muito bem e de forma coerente. A SAD prefere-os inexperientes, jovens e ambiciosos e está no seu direito. Acertou duas vezes. Mas se o faz, pelo menos que tenha o cuidado de escolher nomes que se enquadrem numa ideia colectiva que faça parte do nosso próprio ADN. De alguém que saiba onde vai entrar, que rotinas há que saber manter, que processos há que assimilar e que estruturas são fundamentais para manter o equilíbrio.



Em quatro meses a estabilidade defensiva de três anos desapareceu.
A organização na construção de jogo também. A equipa é mais vertical mas menos coerente. Os jogadores estão perdidos porque os que já cá estavam tinham rotinas bem treinadas que agora não podem por em prática e os novos ainda não entenderam o que se lhes pede.
Provavelmente todos eles gostariam de jogar como no ano de AVB, e os adeptos também não se importariam de rever esses jogos no presente. Mas para chegar aí não basta apenas ter opções individuais (e este plantel tem mais opções que o dos últimos dois anos). É fundamental ter alguém que siga um modelo, que seja fiel ao nosso ADN.

Em Madrid, Carlo Ancelotti - um treinador de títulos, onde é que já ouvi isso - não sabe a que joga. Nem ele nem ninguém. E a sua equipa é penosa. Em Barcelona, chegado do outro lado do Atlântico e sem experiência europeia, Tata Martino herdou uma ideia que apenas tem de gerir e controlar. Ás vezes é mais dificil não mexer do que inventar. PF tem, como Ancelotti, procurado inventar. Sem sucesso. Tem sido salvo pelos jogadores e pela inércia mas isso não durará para sempre quando for a doer. Talvez devesse ter sido mais humilde, como Martino, e procurar ver o bom naquilo que o precede antes de procurar melhorar a máquina já montada e oleada. Tem tempo para isso? Tem. Mas precisa de saber dar um passo atrás. Devolver aos jogadores a confiança nos processos de jogo perdidos (e isto vai muito mais longe do que só recuar Fernando e voltar ao 4-3-3) e a partir de aí procurar introduzir novas variantes que nos façam mais imprevisíveis e, portanto, mais fortes. Caso contrário até podemos ser Tetracampeões, vencer a Taça de Portugal e a Taça da Liga. Muitos adeptos irão para as ruas celebrar. Mas teríamos ganho por motivos que, mais tarde ou mais cedo, vão-se revelar mais um problema do que uma solução!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Um treinador e duas equipas para a História

A razão é simples: quatro anos desgastam muito. Quatro anos no Barça são uma eternidade. Esgotei-me e preciso preencher-me. No final de Dezembro comuniquei ao presidente que acreditava que o final da minha etapa estava próximo. Mas não podia fazê-lo publicamente, nem sequer aos meus jogadores. Porque tinha de continuar com o meu trabalho de treinador. Já tinha tomado a minha decisão há muito tempo. Não queria gerar esta situação e, provavelmente, foi um erro. Lamento a incerteza em relação à minha continuidade. Foi um erro, assumo-o.

Estas declarações foram feitas por Josep Guardiola, na sala de imprensa do Camp Nou quando, apesar dos muitos apelos, anunciou publicamente que não ia renovar e continuar a ser o treinador do FC Barcelona


Quando, vindo da equipa B, Pep Guardiola substituiu o holandês Frank Rijkaard, penso que ninguém terá imaginado que, nas quatro épocas seguintes – 2008/09 a 2011/12 – o Barça iria ganhar 14 em 18 títulos possíveis, sagrando-se pelo meio tricampeão espanhol, bicampeão europeu e bicampeão mundial! E fê-lo com um futebol de encantar, com exibições memoráveis, como os 2-6 em Maio de 2009, ou os 1-3 em Dezembro de 2010, ambas em pleno Santiago Bernabéu, humilhando em sua própria casa o arqui-rival Real Madrid.

Para muitos, o Barça de Guardiola é a melhor equipa de todos os tempos, superando o Honved de Puskas (e dos mágicos magiares), o Real Madrid de Di Stéfano, o Santos de Pelé, o Ajax Cruyff, entre outras grandes equipas que marcaram uma época e ficaram para a história do futebol.

Mas o legado de Guardiola não se esgota no colosso da Catalunha (onde se tornou o treinador mais bem sucedido da história do clube). Basta ver a constituição e a forma como joga La Roja, para se perceber que tem o mesmo ADN que Pep incutiu no Barça.



Não sei quando voltarei a treinar. Agora tenho interesse por outras coisas. A vida vai dizer-me o meu caminho. Há coisas mais importantes na vida do que o futebol.”, Pep Guardiola

Infografia: record.pt

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Sr. Guardiola, o Porto precisa de um treinador...

«Acho que o clube acertou. É uma pessoa com capacidade, os jogadores conhecem-no, conhecem o perfil dele. Eu dava voz às ideias conjuntas dele e minhas.»

Estas palavras foram proferidas a 27 de abril, mas podiam ter sido proferidas a 21 de Junho último - em ambas as ocasiões, um "número 2" é promovido a treinador principal e não havendo surpresas, o resultado será desastroso.


Presidente, embora me conte entre os "defensores" do Vítor Pereira - leia-se "adepto que sabe que o treinador, mesmo que seja o Vítor Pereira, não é o principal responsável pelos desaires desta época" - acho que o senhor anda há um ano a dever-nos um treinador a sério. Esta é a sua oportunidade!



«Carta a Sandro Rosell»

Caro Senhor,

Antes de mais, devo dizer-lhe que estou muito feliz com a louca decisão que tomou: é a prova provada de que só as vitórias do FCP têm eco no país vizinho (e provavelmente no resto da Europa e no Mundo); sorte nossa, os erros crassos têm perna curta, e nem da fronteira passam. Caso contrário, o senhor não subiria a parada relativamente à decisão precipitada do sr. Pinto da Costa, ao oferecer ao seu até aqui treinador-adjunto, a liderança da equipa técnica.

Porque é louca a sua decisão? É simples: se promover a treinador principal o adjunto de uma equipa recheada de vencedores da Liga Europa, craques colombianos já consagrados em França, e titularíssimos da selecção do Uruguai, já é só por si uma má decisão, fazê-lo numa equipa recheada de campeões da Europa, do Mundo e ao quais se junta o Messi, é completamente insano. Por alguma razão, em alguns exércitos (ou até em todos), quando um soldado é promovido a oficial, é também transferido de pelotão (ou coisa do género) para evitar que os companheiros não respeitem a nova patente. Por muito boas que sejam as capacidades do Tito Vilanova na gestão de Recursos Humanos - e não se engane, este é ponto fulcral - os jogadores nunca o verão como mais do que o "adjunto do Guardiola". E em menos de nada, poderá ter um motim entre mãos.

Naturalmente há também que ter em conta a real capacidade do indivíduo para ser treinador principal - um grande adjunto não faz necessariamente um grande treinador, e o facto de ter estado até aqui numa "segunda linha" não só pode ter mantido na obscuridade as suas qualidades (ou a falta delas) mas também os seus defeitos. É óbvio que a questão não é "uma vez treinador-adjunto, para sempre treinador-adjunto" mas esta não é a forma mais segura para chegar a treinador principal.

A juntar a isto, há também que considerar outros efeitos secundários da sua decisão: ao não optar por um treinador com currículo, ou pelo menos com alguma notoriedade, que impacto causará isso nos jogadores? Quantos não optarão também por sair, mudar de ares? A época ainda não começou e já se entrou em poupanças? Está preparado para se contentar apenas com a vitória no campeonato? Quem acha que ficará mal na fotografia se, por exemplo, o Barcelona não passar da fase de grupos da Liga dos Campeões? Acha isso impossível? Pense melhor.

É quase certo que também o senhor se precipitou - embora, como em tudo na vida (mas especialmente no Futebol) «só os tolos têm certezas» - e que os resultados dessa precipitação serão penosos, e bem piores que os resultantes da escolha do Vítor Pereira para treinador do FCP. Eu sei que o campeonato espanhol não tem ponta de competitividade, e que o título só é disputado pelo seu Barcelona e pelo Real Madrid, mas ainda assim isso não torna a sua decisão menos arriscada, se bem que uma coisa é ter o melhor treinador do Mundo no banco do nosso maior rival, e outra é ter o José Mourinho. De qualquer forma, desejo-lhe felicidades mas não muitas. Se daqui a um ano ainda estiver satisfeito com a decisão que tomou, isso poderá significar que afinal Pinto da Costa não errou; o adjunto que promoveu é que não esteve à altura do desafio - seguir-se-á o Rui Quinta?

Com os melhores cumprimentos,
Filipe Sousa.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Eu vi jogar o Barça de Guardiola


Hoje, aqui, aprendemos a jogar futebol. Levámos uma lição. O Barcelona ensinou como se joga futebol
Neymar, o craque do Santos, após a derrota (0-4) na final do Mundial de clubes


Muitas equipas atingiram o sucesso a nível internacional, mas foram poucas as que entraram na galeria das equipas imortais: o Honved de Puskas, o Santos de Pelé, o Real Madrid de Di Stéfano e o Ajax de Cruyff estão nesse lote restrito.

Quem as viu jogar, diz que estas equipas aliavam a eficácia à beleza, quase magia, com que os seus jogadores trocavam a bola e deliciavam os amantes do futebol, mesmo que fossem adeptos de outros clubes.

Daqui a uns anos/décadas, aqueles de entre nós que ainda forem vivos, irão fazer parte dos privilegiados que poderão dizer: Eu vi jogar o Barça de Guardiola (e dos “baixinhos” Messi, Xavi e Iniesta).

domingo, 11 de dezembro de 2011

Provavelmente...


... o melhor treinador do Mundo.


Nota: Com a devida vénia à Carlsberg.

domingo, 29 de novembro de 2009

Rock versus sinfonia de Beethoven


«A leitura mais certeira sobre o descalabro do Inter de Milão em Barcelona veio de Johan Cruyff, segundo o qual, "no futebol, é possível comprar músculo, fama e talento, mas não há dinheiro que pague o estilo". (...)
Mourinho foi muito importante no início da década, pelos contributos que deu ao futebol nacional e pela forma como contribuiu para o crescimento táctico do futebol inglês. Terá para sempre também um lugar cimeiro em qualquer enciclopédia mundial do pontapé da bola. A diferença é que as suas equipas são de rock puro, por vezes mais barulhento do que afinado, enquanto este Barcelona resulta mais numa sinfonia de Beethoven ou numa opereta de Plácido Domingo.»
Bruno Prata
in PÚBLICO, 27/11/2009