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quinta-feira, 6 de julho de 2017

“Se não fosse o caso do túnel, teríamos sido campeões”

O caso do túnel na capa do jornal A BOLA de 06-07-2017

Numa entrevista ao jornal A BOLA, Jesualdo Ferreira falou sobre o tristemente célebre caso do Túnel da Luz, em que dois jogadores do FC Porto – Hulk e Sapunaru – foram alvo de suspensões nunca antes vistas no futebol português.

Em quatro anos [como treinador do FC Porto] só uma vez é que não cumpri um objetivo. Cumpri sete. (...) E estou convencido ainda hoje que se não fosse esse caso teríamos sido campeões [na época 2009/2010]. O FC Porto teria feito o penta e eu teria feito o tetra. Esse episódio do túnel foi decisivo. (…)
Não, não foi justa [a decisão]. A forma como os meus jogadores foram tratados, como o FC Porto foi tratado, a forma como as coisas aconteceram... Não foi verdade. E digo isto cara a cara, quer as pessoas gostem ou não gostem. Quem sentiu na pele fui eu, estive lá e vi. E também senti durante um ano como as coisas aconteceram.

A revolta do plantel e o Somos Porto (20-02-2010)

Não foi a primeira vez que Jesualdo Ferreira (um homem que foi treinador dos três “Grandes” do futebol português) falou da injustiça deste caso.
Em 12 de Fevereiro de 2010, Jesualdo Ferreira disse o seguinte:

O Hulk é um jogador revoltado. O estado de espírito dele é de revolta, porque não pode trabalhar e fazer aquilo que gosta. Nós, internamente, também estamos revoltados porque temos um profissional bem pago e que não está a ajudar a equipa como devia em função do contrato que tem. Acho que quando erramos temos de ser penalizados, mas temos de ser penalizados na justa medida do erro que cometemos, e temos de ser penalizados de forma a não voltar a errar. Agora, isto tudo não deixa de ser uma coisa incompreensível para as pessoas.


Em 24 de Março de 2010, o Conselho de Justiça (CJ) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), instância de recurso, reduziu drasticamente o castigo que tinha sido aplicado a Hulk e a Sapunaru pela Comissão Disciplinar (CD) da Liga, à época presidida pelo célebre benfiquista de Canelas, o dr. Ricardo Costa.
Em vez de quatro e seis meses de suspensão, o CJ da FPF reduziu os castigos de Hulk e Sapunaru para três e quatro jogos respetivamente, indo de encontro ao enquadramento disciplinar, para estes dois casos, que foi defendido pelo FC Porto.

4 meses de suspensão
(O JOGO de 20-02-2010)
Se a suspensão decretada pelo dr. Ricardo Costa tivesse sido cumprida na totalidade, o FC Porto teria sido obrigado a disputar 23 jogos sem Hulk. Em função desta decisão do Conselho de Justiça da FPF, foram “só” 17 jogos oficiais sem o melhor jogador do campeonato português...

Recordar o caso ‘Túnel da Luz – Hulk’ é recordar o tempo em que Ricardo Alberto Santos Costa foi presidente da Comissão Disciplinar da Liga de Clubes (entre Outubro de 2006 e Julho de 2010).

É recordar a atuação do dr. Ricardo Costa neste caso, mas também nos casos ‘Apito Final’ ou ‘Diabo de Gaia’, entre outros menos mediáticos.

É recordar o impacto desportivo e financeiro que estes casos tiveram.

É recordar um tempo que não foi positivo, nas palavras de Fernando Gomes à Agência Lusa, após ter sido eleito para a presidência da Liga Portuguesa de Futebol Profissional.

É, tal como referi em “Ando a falar da benfiquização do futebol português há anos”, sublinhar que o “polvo encarnado” não nasceu em 2013. O “polvo” começou a ser criado muito antes (Os tentáculos do SLB), tendo sido decisivo em vários momentos dos últimos 14 anos (*)

(*) Luís Filipe Vieira foi eleito presidente do SLB a 3 de Novembro de 2003.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

A figura da época - I

Em cada dez épocas, Pinto da Costa será a figura-chave, em oito ou nove. Porém, desta vez, ao contrário do que é habitual, é a figura da época pelos piores motivos.

Como nunca desde meados da década de 90, a concorrência está mais forte, organizada e consistente - em particular, o SLB - mas isso não chega para justificar a pior época em décadas. A par da qualidade decrescente dos plantéis nos anos mais recentes - há 3 anos atrás, o Porto tinha nas suas fileiras, só para citar alguns: Falcao, Hulk e Moutinho; hoje não tem nenhum (ou se quisermos colocar a questão de outra forma: quantos titulares do SLB teriam lugar no Porto, há 3 anos atrás? E hoje?) - que tem vindo a ser disfarçada com uma maior variedade de opções, o Porto decidiu "convidar" um treinador campeão a sair, isto ainda antes do final da sua segunda temporada ao comando equipa. É a segunda vez que tal acontece nos tempos mais recentes, sempre(?) que o SLB se "agiganta": o Porto falha a conquista do campeonato, o responsável (único) é o treinador, logo deve ser substituído. É curioso que há uns anos atrás, Fernando Santos, contando com Jardel no plantel, e uma concorrência muito mais macia, também falhou ... mas manteve o lugar.


Ainda que o Porto tivesse falhado a conquista do (tri ou) bicampeonato, teria lutado até à última jornada; a opção mais simples seria reforçar a equipa, e não começar tudo de novo, o que só beneficiaria (e beneficiou) a concorrência. Este foi o primeiro erro.

Para substituir Vítor Pereira, foi escolhido Paulo Fonseca (PF), naquilo que na aparência tinha tudo para ser uma reedição dos fenómenos André Villas-Boas e José Mourinho. Só na aparência. Embora PF tivesse um currículo ligeiramente melhor que os outros dois à chegada, tinha muitíssimo menos experiência, e acima de tudo havia quase ou nenhum conhecimento mútuo entre o Porto e PF. Terá o selo de qualidade "Jorge Mendes" sido quanto bastou?

Apesar do início promissor, PF, vitimado pela sua inexperiência, e talvez até pelo deslumbramento natural de quem, em cerca de 4 anos chega do Pinhalnovense ao campeão nacional, sem nunca ter tido um dissabor, insistiu num modelo de jogo estranho à equipa, que não tardou a originar uma série de maus resultados, que permitiram ao SLB, não só recuperar uma desvantagem de 5 pontos, como chegar ao primeiro lugar e distanciar-se na pontuação. Pese embora a contestação dos adeptos, PF manteve-se no cargo até Março, tendo dirigido a equipa pela última vez, frente ao Vitória SC, em Guimarães (2-2), e numa fase da época em que a sua substituição no cargo, já de pouco ou nada serviria na luta pela revalidação do título de campeão nacional. Este foi o segundo erro.

Para tentar salvar alguma coisa da época, numa altura em que o Porto ainda tinha aspirações (legítimas) em provas como a Taça de Portugal e a Taça da Liga, e algumas esperanças na Liga Europa, Luís Castro (LC), foi promovido da equipa B a treinador principal. No papel, esta opção tinha boas possibilidades de sucesso: ao contrário do seu antecessor, LC já conhecia o clube, os jogadores, o nível de exigência, e sendo-lhe oferecida a oportunidade única na sua carreira, de orientar uma equipa de alto nível, seria expectável que tudo fizesse para se mostrar como uma opção de continuidade, para agarrar definitivamente o lugar. Na realidade, saiu tudo ao contrário. De novo, após um início promissor, uma série de más opções e um incompreensível temor perante o SLB, ditaram o afastamento de todas as provas que o Porto poderia pensar em conquistar. É injusto apontar a nomeação de LC como um erro, mas a verdade é que se revelou uma aposta completamente gorada.

(continua)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Um “plantel fraco”


É assumido e faz parte do modelo de gestão desportivo-financeira da SAD a valorização de jogadores e a posterior venda dos respectivos direitos económicos. Aliás, as mais-valias resultantes das transferências de jogadores têm sido, ao longo dos últimos anos, a principal rubrica em termos de receitas (quase “operacionais”) da SAD.

Sendo esta a regra (conhecida por treinadores, jogadores e adeptos), não foi surpresa que, no defeso entre a época 2008/2009 e a época 2009/2010, a FC Porto SAD tenha vendido os passes de alguns dos principais jogadores da equipa. No caso, os jogadores transferidos foram o lateral esquerdo Cissokho, o médio Lucho Gonzalez e o avançado Lisandro López.
Para tentar colmatar estas saídas, foram contratados Álvaro Pereira (ao Cluj), Fernando Belluschi (ao Olympiakos) e Radamel Falcao (ao River Plate).

Entre os adeptos portistas, não faltou quem dissesse que, perante estas saídas e entradas, o plantel da época 2009/2010 era mais fraco que o da época anterior, sendo essa uma das razões apontadas para o FC Porto ter terminado esse campeonato na 3ª posição.

Um ano depois a história repetiu-se. No defeso entre as épocas 2009/2010 e 2010/2011, a FC Porto SAD voltou a alienar dois dos “esteios” da equipa - o defesa central Bruno Alves e o médio Raul Meireles -, tendo sido contratados o argentino Otamendi e João Moutinho.

Mais uma vez, entre os adeptos portistas, não faltou quem torcesse o nariz, alegando que, além do plantel ter ficado “obviamente mais fraco”, tinha também sido amputado de duas das suas referências (um deles o capitão Bruno Alves).
Hoje é fácil dizer que Moutinho é “insubstituível”, mas eu recordo que, no Verão de 2010, Raul Meireles era considerado o melhor médio da Seleção, enquanto que a “maçã podre” nem sequer fez parte do lote dos 23 que, nesse Verão, representaram Portugal no Mundial da África do Sul.

Vejamos então:
Se o plantel da época 2010/2011 era pior que o da época 2009/2010, o qual, por sua vez, já era pior que o da época 2008/2009;
se do plantel da época 2010/2011 faziam parte jogadores como Sapunaru, Maicon, Guarín ou Varela, entre outros, a quem, na época anterior, não era reconhecido valor para terem sido contratados e integrarem o plantel do FC Porto;
como é que foi possível, com estes jogadores e um “plantel fraco”, alcançar os inesquecíveis sucessos desportivos que foram obtidos na época 2010/2011?
Deve haver alguma explicação...


Chegados a 2013/2014, e seguindo um raciocínio semelhante ao que foi efectuado nos defesos que antecederam as épocas 2009/2010 e 2010/2011, há novamente quem diga que o plantel desta época é fraco. Pois eu discordo.

Defour, Herrera, Josué, Carlos Eduardo ou Quintero, entre outros, são fraquinhos e não têm valor para integrar o plantel do FC Porto?
Eu discordo.

Reconheço que, esta época, quase todos parecem muito maus mas, daqui a um ano, veremos se a opinião da maioria dos adeptos portistas em relação aos jogadores que fazem parte do plantel 2013/2014 é a mesma.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O desempenho do FC Porto à 17ª jornada...

Recuando até à época 2006/2007, quando o número de equipas na I Liga foi reduzido de 18 para 16 (para abrir caminho à Taça da Liga...) e o campeonato passou a ter 30 jornadas, o desempenho do FC Porto nas primeiras 17 jornadas tem sido o seguinte:

Primeiras 17 jornadas da época 2012/2013 (fonte: zerozero)

Primeiras 17 jornadas da época 2011/2012 (fonte: zerozero)

Primeiras 17 jornadas da época 2010/2011 (fonte: zerozero)

Primeiras 17 jornadas da época 2009/2010 (fonte: zerozero)

Primeiras 17 jornadas da época 2008/2009 (fonte: zerozero)

Primeiras 17 jornadas da época 2007/2008 (fonte: zerozero)

Primeiras 17 jornadas da época 2006/2007 (fonte: zerozero)

Os números e as exibições (!) indicam que este FC Porto de Paulo Fonseca é uma das piores equipas (chamar ao que temos visto "equipa" é uma força de expressão) que o FC Porto teve neste século e, notoriamente, está num patamar qualitativo muito abaixo da EQUIPA organizada, compacta, pressionante e altamente competitiva que herdou de Vítor Pereira.



Não podendo comparar-se com o treinador que o antecedeu, os números dizem que, à 17ª jornada, o FC Porto de Paulo Fonseca está ao nível das equipas de Jesualdo nas épocas 2008/2009 e 2009/2010.

Claro que há o "pequeno pormenor" de Jesualdo ter sempre superado a fase de grupos da Liga dos Campeões e de, na época 2008/2009, ter mesmo chegado aos quartos-de-final da principal competição mundial de clubes, mas isso são outras contas, em que Paulo Fonseca também fica a perder (e por muito) nas comparações com os treinadores que o antecederam.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O slb de JJ contra o FCP

Jorge Jesus (JJ) vai na sua 5ª época como treinador do slb e não se pode dizer que, nas quatro épocas anteriores, se tenha superiorizado nos confrontos directos com o FC Porto, bem pelo contrário.
De facto, entre as épocas 2009/10 a 2012/13, descontando a Taça da Liga (que é, claramente, a competição menos importante do panorama futebolístico português) e também retirando destas contas a derrota dos encarnados na Supertaça e a eliminação nas meias-finais da Taça de Portugal, ambas na época 2010/2011, nos oito jogos para a principal competição nacional - o CAMPEONATO -, Jorge Jesus apenas venceu o FC Porto uma vez.

E, há que o lembrar, essa única vitória, pela margem mínima, foi manchada por episódios tristes.
Dentro do campo, na jogada do único golo do desafio, há um fora-de-jogo "quilométrico" de Urreta (comparado com este, o contestadíssimo fora-de-jogo de Maicon é uma brincadeira), que não foi assinalado.
Após o final do jogo, ocorreram os célebres incidentes envolvendo stewards do slb e jogadores do FC Porto, que motivaram a suspensão de Hulk e Sapunaru durante três meses.

Em resumo, em jogos para o campeonato, o saldo de Jorge Jesus era o seguinte:
- 1 vitória (por 1-0), no seu primeiro clássico contra o FC Porto;
- 2 empates e 5 derrotas, nos sete jogos seguintes.

Jogos para o campeonato entre o slb de JJ e o FC Porto (fonte: zerozero)

Mais. Nestes sete jogos para o campeonato (épocas 2009/10 a 2012/13), contra o slb de JJ, o FC Porto obteve um total de 19 golos e marcou sempre, pelo menos, dois golos por jogo!

No domingo passado, mais de quatro anos após a anterior e única derrota (para o campeonato) contra o slb de JJ, não foi apenas a exibição da equipa azul-e-branca que foi uma nulidade. O marcador, do lado dos andrades (a jogar desta forma nem sombra de dragões), também voltou a ficar a zero.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Treinador - Mudar ou não mudar, eis a questão!

É a primeira derrota para o campeonato. Quem cresceu com o FC Porto nos anos 80 e 90 sabe perfeitamente que os campeonatos ganham-se com vitórias, empates e também com derrotas. Todos as vivemos. Mas a geração pós-Gelsenkirchen cresceu noutro mundo. Para isso contribuiu, sobretudo, a anemia de qualidade do nosso futebol. Nos últimos anos dois clubes - FC Porto e SL Benfica - quase nunca perdem, raramente empatam e dominam a belo prazer o campeonato decidindo, quase sempre entre si, o título. A péssima situação do Sporting, a incapacidade do Braga de dar o salto e a ausência de uma versão real do Boavista entre 1992-2004 ajuda a explicar essa situação. Mas não só. A diferença de orçamentos exige, praticamente, que FC Porto e SL Benfica não percam. Nunca as diferenças com o resto foram tão grandes na qualidade individual, nos planteis disponíveis, nos ingressos e nos gastos. Por isso hoje, para um adepto do FC Porto, perder um jogo tornou-se num drama. Pode não haver margem de manobra.

Pessoalmente sou contra o despedimento de treinadores durante a temporada.
Acho que quem arranca o barco deve levá-lo até ao fim, passe o que passar. Sobretudo porque a responsabilidade é de muitos, não só sua. Num clube como o FC Porto, onde muitas das decisões são tomadas sem ter em conta (ou em muitos casos, apesar da opinião do) o que pensa o treinador. Mas o futebol é o que é e não sou eu quem o vai mudar e muitas vezes a mudança de um só homem tem o condão de despertar outros 25. No nosso caso com particular sucesso...no ano seguinte!

Remontando-me apenas à era Pinto da Costa, houve apenas 4 treinadores despedidos durante a época (não conto aqui, naturalmente, com Del Neri e Adriaanse porque estavamos no defeso em ambos casos). A primeira vez foi com Quinito. Despedido à 11º jornada em 1988, nesse ano o FC Porto foi treinado brevemente por Murça antes de confirmar-se o regresso do "rei Artur". O FC Porto não foi campeão (o título foi para o Benfica) mas preparou-se para mais um título na temporada seguinte com o nosso primeiro campeão europeu. Depois foi a vez de Ivic, em 1993. O sérvio, voltou ás Antas sem sucesso. Quando saiu o FC Porto era terceiro no campeonato e para o seu lugar chegou Bobby Robson, recém-despedido de um líder Sporting. Com o inglês não só se ultrapassou o Sporting como se desenhou a base do que seria o Penta. A terceira vez sucedeu com Octávio Machado. Conseguiu passar o Natal mas não sobreviveu a Janeiro e com ele vivemos outro ano negro, terminando a época em 3º apenas graças a um grande sprint liderado por...José Mourinho. Não é preciso explicar o resto. Só por uma vez, a última, o homem que substituiu o treinador despedido não funcionou na época seguinte. Porque não estava lá. Victor Fernandez foi campeão do Mundo mas os maus jogos no Dragão e a irregularidade de uma equipa de campeões europeus e contratações de luxo custou-lhe o lugar. José Couceiro não fez melhor, o titulo perdeu-se no último dia e o treinador foi-se embora abrindo caminho a um novo Tetra, conquistado entre Adriaanse e Jesualdo.

Quer isto dizer que mudar de treinador, no FC Porto, além de ser algo raro (Carlos Alberto Silva, Fernando Santos, Jesualdo Ferreira e Vitor Pereira sofreram contestação dos adeptos, tal como Paulo Fonseca, durante a época mas o presidente não os deixou cair e o resultado foi positivo, salvo com Fernando Santos!) só dá resultados à posteriori. Mudar hoje de treinador não garante, portanto, tendo em base a nossa experiência, um passaporte automático para o sucesso. Claro que há uma primeira vez para tudo.
O último campeão nacional português que chegou com a época a meio foi Augusto Inácio, com o Sporting, em 2000. É preciso recuar décadas para encontrar um exemplo similar. E não é por acaso.



Não acho que Paulo Fonseca tenha perfil de treinador para o FC Porto. Acho que é parte do problema, não o todo. E que centrar-nos exclusivamente na sua incompetência - que é evidente - não nos permite ver todo o problema em que estamos envolvidos. Mas isso fica para outro debate que trarei. Até porque o actual treinador do FC Porto é o primeiro em muito tempo que me faz pensar que mudar agora pode ser mais benéfico que prejudicial.

Em primeiro lugar porque não existe uma grande desvantagem com os rivais. Quem quer que chegue começará praticamente do zero em pontuação com Benfica e Sporting. Por outro lado, a paragem do Natal permitirá tempo para aclimatar-se ao clube, ao plantel e preparar os necessários ajustes - porque terá de haver algum ajuste - em Janeiro. E por último, olhando para o plantel - onde carecem figuras que inspiram liderança - não vejo força emocional para dar a volta à situação desde dentro como sucedeu no primeiro ano de Vitor Pereira, por exemplo. Há demasiados jovens, demasiadas caras novas e jogadores sem perfil para pensar que vão ser os jogadores a dar a cara e a salvar um treinador com o qual não estão cómodos. Os sinais da directiva, no final do jogo de Coimbra, também não são positivos. Quando Vitor Pereira esteve com a corda ao pescoço, a presença de Pinto da Costa ao seu lado calou os rumores e mandou uma mensagem ao balneário. Paulo Fonseca saiu sozinho do Municipal de Coimbra. É assim que ele está, apesar de ter sido uma aposta muito pessoal de Antero Henriques, que até há bem pouco tempo lhe deu todo o seu apoio.

Sabemos então que no FC Porto pouco se muda a meio da época e quando sucede os resultados só sucedem à posteriori. Sabemos também que o timing agora é o ideal e que o plantel e a direcção não parecem estar com o treinador. Mas que alternativas podemos manejar?

O FC Porto é um grande clube, mas é um clube dirigido desde dentro. Um clube que nunca se sentiu cómodo com a ideia de um treinador de personalidade forte. Mesmo Mourinho fez-se dentro do clube, não chegou como o "Special One" e Villas-Boas preferiu não ter de descobrir o que ia suceder num segundo ano depois de uma época perfeita. Portanto, toda a Europa sabe como o FC Porto se move e poucos são os treinadores de topo interessados nesse tipo de gestão. Sobram poucas opções, entre portugueses e estrangeiros.

Portugueses:
Marco Silva - Para muitos o homem que devia ter sucedido a Paulo Fonseca. É adepto confesso do Benfica, o que poderia ter jogado contra si, e com o Estoril tem feito um excelente trabalho. Continua a fazer a sua equipa jogar bem, mesmo com várias baixas, mas não parece apresentar nada de novo e há o receio, natural, que seja um Paulo Fonseca II.

Domingos Paciência - É um nome falado há muito tempo, não só pelo seu passado dragão mas pela excelente temporada que fez com o Braga. Desde então a sua carreira tem sido um desastre, tanto com o Sporting como com o Deportivo (onde foi colocado pela pressão de Jorge Mendes e onde se acabou por ir embora por não conseguir lidar com a pressão). Está sem clube.

Pedro Emanuel - Durante dois anos foi considerado por muitos como o próximo André Villas-Boas. Agora está no Arouca. Não é propriamente um grande cartão de visita e não tem demonstrado confirmar as suspeitas positivas que se tinha dele.

Leonardo Jardim - Para alguns adeptos seria a escolha ideal mas está comprometido com o Sporting e tem uma oportunidade histórica de recuperar o prestigio do leão. Não irá sair de Alvalade.

Nuno Capucho - Está a ser preparado pela direcção mas ninguém quer queimar etapas. Desde que tomou controlo das equipas de formação que muitos vêm nele o perfil ideal para liderar a primeira equipa e os resultados dão-lhe razão. Tem um perfil calmo, tranquilo e um conhecimento táctico surpreendente. Será treinador do FC Porto mas não quererá pegar numa equipa "queimada" tão cedo salvo se não existir outra opção.

André Villas-Boas - Tem a corda ao pescoço em Inglaterra mas, ao contrário de Artur Jorge, não acredito que queira voltar tão cedo ao seu clube, mesmo desempregado. Seria a escolha número 1 de todos os adeptos.

Estrangeiros
Marcelo Bielsa - Apenas o cito porque foi alvo de comentários no RP. Não é opção pura e simplesmente porque não é do perfil da direcção e não é o treinador que goste de ser controlado.

Mano Menezes - Paixão antiga da SAD, esteve desempregado até há poucas semanas, depois de uma má época com o Flamengo. Acabou de assinar pelo Corinthians e não vai abandonar o clube.

Muricy Ramalho - Na mesma situação de Menezes. Outra paixão antiga, foi muito questionado pelo São Paulo este ano e está ligeiramente acima da linha de despromoção. Contestado, poderia ser tentado por uma boa oferta.

Tite - Provavelmente o melhor treinador do futebol brasileiro nos últimos quatro anos. Acabou um ciclo memorável no Corinthinas, incluindo o título mundial, e está sem emprego. Hipótese interessante para os que querem uma conexão sul-americana.

Pepe Mel - Um dos melhores treinadores do futebol espanhol. Está com a corda ao pescoço no Real Bétis mas tem perfil para um clube de alto nível.



O cenário é este:
Mudar ou não mudar? 
A história do clube diz-nos que mudar não é habitual a opção da direcção e quando isso sucede o resultado só é visível na época seguinte. A situação actual no entanto dá a sensação de que Paulo Fonseca está só (sem plantel ao seu lado, sem o apoio da direcção e na mira dos adeptos) e que não tem capacidade para dar a volta por cima. O pior que pode suceder (perder o título) pode suceder com ele ou com qualquer outro treinador mas uma cara nova chegará com uma diferença pontual mínima e tempo para lutar pelo título até ao fim.

Se mudamos, quem ocupará o seu lugar?
Artur Jorge, Bobby Robson e José Mourinho foram três opções que tiveram resultados excelentes. José Couceiro a que correu mal. Actualmente só André Villas-Boas teria um perfil similar ao dos três primeiros. Todos os outros nomes despertam dúvidas, ora pela inexperiência e ausência de resultados sonantes (Pedro Emanuel, Marco Silva, Nuno Capucho, o passado recente de Domingos) ou porque despertam receio de uma conexão com o mercado brasileiro, quando muito raramente um treinador canarinho triunfa no futebol europeu.

O debate, na caixa de comentários!

PS: Não acredito que, actualmente, existam muitos adeptos do lado de Paulo Fonseca. O que não se admite é que uns meninos mal educados e que deviam ter passado uma noite nos calabouços recebam a equipa como receberam. Não sei se a manobra foi, oficialmente, dos SD ou iniciativa individual de quase 300 "adeptos". Nem me interessa. Há uma cultura de adeptos que só aceita a vitória. Que não entendo que o amor a um clube deve ser unidirecional. Se o clube devolve alegrias, tanto melhor. Se não, não se troca o amor por um soco só porque as coisas correm mal. Viveremos dias muito piores que estes, mais tarde ou mais cedo. Espero que muitos dos portistas de hoje sejam portistas então. Provavelmente os que receberam a equipa desta forma não estejam entre eles!

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Roubos de capela

"Criámos sempre grandes dificuldades. E aqui começaram alguns problemas de falta de coerência de João Capela e que mancharam o seu trabalho e retiraram oportunidades de ganhar. O Sporting poderia ter estado onze contra dez por expulsão de Maxi Pereira e grande penalidade para o Sporting. (...)
Há um conjunto de fatores que têm de ser analisados. Não tenho dúvida que o Sporting foi melhor do que o Benfica, repito. Conseguimos mais cantos, mais posse, nem houve grandes ocasiões de golo. Quando tivemos essa agressividade creio que os lances não foram bem analisadas pelo menos em quatro ações na área. Esses lances podiam ter alterado o jogo."
Jesualdo Ferreira

"estava a ver as imagens na televisão e os comentários. Não percebo o que é uma visão larga do jogo, não sei o que quer dizer. Na reunião antes do jogo disse que achava que iam estar três grandes equipas em campo, mas saí com a nítida sensação que só estiveram em campo duas grandes equipas. A outra não acho que tenha sido nada benéfica para o jogo. Quando se diz que o Benfica é mais forte no final, também é mais fácil. Os nossos nunca conseguiam rematar, acabavam sempre por sofrer falta. É a opinião de alguém que tenha dois olhos na cara. Perdemos, mas a verdade dos factos é que errar é humano. Errar sempre para o mesmo lado não me parece tão humano. Não é fácil digerir e compreender como é que isto acontece."
Bruno Carvalho, presidente do Sporting


O senhor Capela é o mesmo árbitro que, há apenas uma semana, na final da Taça da Liga, não teve dúvidas em assinalar penalty contra o FC Porto e em expulsar Abdoulaye, num lance em que o bracarense Mossoró fez uma extraordinária encenação.
Desta vez, o senhor Capela teve um "critério mais largo" (palavras do comentador da SportTv Pedro Henriques) e, em quatro (!) lances na área do slb, não viu motivos para assinalar qualquer grande penalidade.

Os adeptos portistas mais velhos lembrar-se-ão dos célebres "erros de arbitragem", que ocorriam frequentemente nos anos 70 e início dos anos 80 do século passado, sempre a favor do clube do regime, e que José Maria Pedroto, sem papas na língua, denunciava em voz alta e rotulava de roubos de igreja.

Perante a escandaleira de ontem (mais uma, neste campeonato inclinado desde o seu início), no derby da 2ª circular, a primeira pessoa de que me lembrei foi do grande Zé do Boné. Que saudades da sua frontalidade, desassombro e coragem em denunciar a podridão e em chamar os bois pelos nomes.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Os mal amados

Com excepção de Pedroto (que foi bem mais que um treinador no FCP) todos os restantes, uns mais do que outros, foram sujeitos a contestação por parte dos adeptos, do balneário ou de ambos.
Nem Robson escapou. Uma das críticas que lhe era dirigida frequentemente era sua incapacidade de ser mais interventivo no banco e, nessa perspectiva, gerir melhor “quem substitui quem” e o timing mais adequado para produzir essas mudanças. Rui Barros passou, a partir de certa altura, a ser o sacrificado da ordem e acho que o foi numa grande parte dos jogos. Também não foi muito bem entendido que tivesse recebido os “russos” do SLB e os tenha colocado a jogar de imediato e posto no banco o Domingos. Também não foi muito bem aceite, que tivesse sido eliminado da taça com o Marítimo e, pior, que tivesse levado 3-0 e um banho de bola do SCP de Octávio, na Supertaça em Paris. Estava no aeroporto quando a comitiva do FCP chegou de Paris e fiquei revoltado com a forma como foi recebida, tendo havido confrontos entre alguns dos palermas que lá se encontravam e alguns jogadores. Recordo que Vítor Baía e João Manuel Pinto eram dos mais inconformados com aquela estúpida recepção, depois de terem sido campeões com inteiro mérito.

Artur Jorge foi sempre muito contestado, e toda essa contestação começou no balneário e tinha como principal protagonista o Fernando Gomes, que queria a continuidade do António Morais no comando da equipa. Aliás, na época que vencemos a Taça dos Campeões perdemos o campeonato para o SLB e fomos eliminados da Taça pelo SCP, nas Antas. Artur Jorge trouxe modernidade ao futebol português e alguns conceitos novos, nomeadamente a “concentração” competitiva que exigia aos seus jogadores em todos os momentos de jogo. Octávio foi mais que um treinador adjunto, porque foi capaz de ser e fazer aquilo que Artur Jorge não era capaz, ou seja, assumir o lado desagradável do comando e ser duro e intransigente relativamente à disciplina dentro e fora do campo, ao que consta. Desse tempo vem as desavenças com Fernando Gomes e os Oliveira.

Ivic ganhou tudo no FCP, menos a Taça dos Campeões. Os sócios detestavam-no ainda mais que ao actual treinador e não foi por acaso que foi embora e substituído pelo Quinito, que fez haraquiri quando disse que o FCP era Gomes mais dez: ficou refém do balneário e sem mão na rapaziada. Depois foi o que se viu: uma equipa sem rumo do pior que tivemos nestes longos anos em que PdC comandou o clube.

Quanto ao actual treinador não alinho em muitas críticas que lhe são feitas, onde entra tudo, particularmente o que é suposto faltar-lhe: carácter, competência e experiência, um murcão como, de forma sucinta, alguns adeptos o qualificam. Estou em desacordo frequentemente com o treinador porque não “faz” como acho melhor, mas estaria com qualquer outro desde que não cumprisse o que eu acho melhor. No jogo com o SC Braga (para o campeonato) benzi-me quando meteu Kléber no fecho do jogo e não é que fomos ganhar por 2-0. No segundo, também não fez o que esperava que fizesse: meter mais gente no meio campo para equilibrar o jogo naquela zona, mas o brinde quem o deu foi Danilo, como antes Fernando tinha provocado uma grande penalidade com um claro erro individual. Quem ganha os jogos são os jogadores quem os perde é sempre o treinador, e nessa não alinho porque não é justo. A responsabilidade tem de ser partilhada, nomeadamente quando há erros individuais que influenciam o resultado final, por muito que se se especule que a desgraça já vinha a caminho. Acho que alguma coisa mudou desde o primeiro jogo com o SC Braga: Vítor Pereira apareceu muito tenso na entrevista após o jogo, pelo que – tendo em conta a cara muito zangada de Lucho quando saiu – se deva ter passado algo de desagradável no banco. Espero que se ajustem, se deixem de amuos e saibam dialogar.

Uma das criticas que têm feito ao nosso treinador é a eventual desvalorização dos activos do FCP, desde que VP tomou posse como treinador principal. Afinal, assim parece não acontecer a atentar na seguinte notícia:

“O plantel do FC Porto é o 18º mais valioso do mundo num ranking com 200 equipas, de acordo com um estudo efetuado pela empresa brasileira Pluri Consultoria, especializada em marketing desportivo, que lhe atribui um valor de mercado de 180 milhões de euros (ME) e 6,9 milhões (valor médio) a cada um dos 26 futebolistas”.

Por fim, considero que o Vítor Pereira se excedeu na rotação do jogo da Taça de Portugal, reagiu tarde quando Castro foi expulso e deixou James tempo demais em campo, já que era tempo de rodar os que haveria a proteger. Dito isto, considero que há jogadores que têm de “merecer tratamento especial”. Danilo e Alex porque estiveram nos Jogos Olímpicos, Moutinho, Varela, James e Martinez por causa das horas extra nas selecções, o Fernando porque saiu de uma lesão, voltou e teve uma recaída, logo no momento em que anunciou que gostava de sair, o Lucho porque é dos que corre mais e é quase um veterano. Nesse particular, dou o benefício da dúvida ao treinador, embora considere, insisto, que decidiu a rotação num laivo de deslumbramento que não é nada aconselhável.

Depois de Vercauteren e de avaliar a forma como tem dirigido o SCP, acho que devo continuar a conceder o benefício da dúvida a VP.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O 32ª treinador mundial

O crescimento do FC Porto com Vitor Pereira ao leme não é só uma questão de percepção. É um dado real.
Estatisticamente falando, o técnico azul já é considerado como o 32º melhor treinador mundial. Num desporto ainda bastante tradicionalista, ao contrário dos desportos mais populares nos Estados Unidos, a estatística ainda é olhada com suspeita/desprezo pelos adeptos, analistas e muitos dirigentes. Mas parece-me a mim que é cada vez mais a melhor forma de apalpar a realidade, sem falsas questões pelo meio. A subida de Vitor Pereira nesse ranking diz muito do que o espinhense tem logrado.

O ranking, como conto aqui, chama-se Football Coach World Ranking e é organizado pela Institute of Football Coaching Statistics, uma organização holandesa que se dedica a trabalhar com agências de apostas, clubes, federações e sites especializados e que fornece dados estatísticos actualizados sobre o trabalho desenvolvido por treinadores de 40 países. O ranking tem as suas regras e os jogos, naturalmente, não valem o mesmo, o que dá ainda mais destaque a quem está na parte alta da tabela classificativa. A lista é liderada por outro ex-treinador do FC Porto, José Mourinho, se bem que este só chegou ao primeiro lugar em Outubro, depois de seis meses em que Pep Guardiola não somou qualquer ponto.


O caso de Vitor Pereira é significativo e ameaça tornar-se num dos case studies da organização que gere o site. A 5 de Dezembro do ano passado estava na posição 159 na tabela, perdido entre maus resultados domésticos, uma eliminação precoce na Champions League e muitas dúvidas sobre o seu futuro. Em Maio, quando conquistou o título nacional, VP tinha trepado ao 55º posto, mesmo assim uma posição bastante modesta para quem se acabava de sagrar vencedor de uma das seis ligas mais cotadas do ranking. Meio ano depois, está às portas do top 30 e se contabilizamos apenas os treinadores das ligas europeias (o ranking é mundial), Pereira seria o 21º. À sua frente estariam nomes como Lucescu, Garde, Pellegrini, Stevens, Allegri, Mazzari, Klopp, Wenger, Mancini ou Emery em muitos dos casos apenas e só porque, como sucede com a Bota de Ouro, os pontos somados variam de liga para liga, conforme a sua importância e todos estes trabalham em competições melhor valoradas que a Liga Sagres.

Vitor Pereira pode ser um treinador questionado pela sua falta de capacidade de comunicar, pela sua falta de aura como "manager" e até por algumas questões futebolísticas, do sistema aos jogadores que utiliza. Mas como o meu colega José Correia mencionou há uns dias, parece-me evidente que a pouco e pouco começa a tomar controlo do balneário e a dar forma à equipa com base na sua filosofia de jogo. Os jogos na Champions League, repletos de autoridade, eficácia e maturidade, são um bom exemplo de como transformar estes dados estatísticos em sensações.

Se repetir o título de liga, como seria natural, e realizasse uma Champions League à altura das expectativas do clube (apuramento para os Quartos de Final, na minha óptica), agora que o apuramento para a próxima fase está matematicamente assegurado, não duvido que Vitor Pereira chegará a Junho como um dos 10 técnicos mais valorizados do mundo. Deve-o à estrutura do FC Porto - que apostou nele, manteve-o quando era difícil - mas também o deve a si mesmo, depois de ter sobrevivido à perda de metade da equipa que venceu a Europe League em 2011 (Fucile, Alvaro, Sapunaru, Hulk, Falcao, Bellushi, Guarin) e ter forjado um projecto cada vez mais sólido.

PS: A título de mera curiosidade, o ranking inclui ainda os últimos treinadores que passaram pelo FCP. Já sabemos que Mourinho vai à frente (e assim continuará durante largos meses), enquanto AVB está actualmente na posição 58º (chegou a ser o 4º em Maio de 2011). Jesualdo quase que fecha o top 100 (está no lugar 98), Adriaanse encontra-se no 515º posto e claro, o mestre da táctica, Jorge Jesus, aparece perdido no 48º lugar sendo que o melhor que logrou no ranking foi um sétimo posto. 

sábado, 1 de setembro de 2012

"Falcao é também produto do trabalho de Jesualdo"

“Cheguei ao Porto na época passada e o treinador que tinha era obcecado com a recepção. Todos os treinos dizia-me como devia fazer para receber bem a bola, para aparecer no segundo poste. Às vezes era estranho, porque durante todo o treino ele falava constantemente comigo. Ele era um dos duros e eu dizia: sim, sim senhor. Mas a verdade é que nos jogos tudo o que ele me dizia acabava por acontecer.”
Falcao, em entrevista à FOX Sports da Argentina, 31/05/2011


“No Porto, [Falcao] encontrou Jesualdo Ferreira, o que foi decisivo. É o seu pai futebolístico. Teve muita sorte, porque não deve haver muitos treinadores profissionais que percam tempo a ensinar os seus jogadores. Pedem coisas, mas não ensinam. Jesualdo não é assim e Falcao estar-lhe-á sempre agradecido. Corrigia-o muito, contava-me ele todos os dias. O Falcao de hoje é também produto do trabalho de Ferreira
Radamel García, pai e empresário de Radamel Falcao, em entrevista ao jornal espanhol AS, 06/10/2011



«Já aqui falei dos muitos problemas que afetam o plantel do Chelsea, entre os quais avulta o do monumental flop que foi a contratação de Fernando Torres. Deste modo, este hipotético cenário, referido pelo Daily Star, é algo que a concretizar-se só me surpreende por tardio.
À partida, Falcao no Chelsea e novamente sob o comando de André Villas-Boas e El Niño de regresso ao seu clube do coração, juntamente com mais uns bons milhões, é um cenário que deve agradar a todas as partes envolvidas.»


«Dois fantásticos golos de Radamel Falcao, aos 7 e aos 34 minutos, abriram caminho à vitória (3-0) do Atlético de Madrid na final da Liga Europa.
Para além de ser o quinto jogador a marcar por dois clubes diferentes na final da Taça UEFA/Liga Europa, com estes dois golos Falcao foi, novamente, o melhor marcador desta competição. Em quinze jogos, o ex-avançado dos dragões marcou doze golos. Mais. Pela primeira vez o mesmo jogador foi o melhor marcador em duas edições consecutivas.
Na temporada passada, Falcao apontou 17 tentos ao serviço do FC Porto, estabelecendo a melhor marca de sempre numa edição da Taça UEFA/Liga Europa - bateu o recorde de Jurgen Klinsmann, que fez 15 tentos pelo Bayern Munique, em 1995/96.»


El Tigre brilhou no campeonato português, brilha no campeonato espanhol, brilha nas competições europeias, foi o jogador decisivo das duas últimas finais da Liga Europa e, agora, um fantástico hat trick na Supertaça Europeia, precisamente perante o Chelsea (ironia do destino), que é "apenas" o atual campeão europeu.

Repito uma pergunta que fiz várias vezes na época passada: o que é que o melhor ponta-de-lança mundial da actualidade está a fazer no Atletico Madrid?
Os "tubarões" europeus - Chelsea, Real Madrid, Barcelona, PSG, ... - estão à espera de quê?

P.S. O acordo entre o FC Porto e o Atlético Madrid prevê «o pagamento de uma remuneração variável, pelo que o montante global a receber poderá atingir os 47.000.000 € (quarenta e sete milhões de euros)».
O número de jogos que Falcao fez com a camisola do Atletico Madrid, o número de golos que marcou (no campeonato espanhol e Liga Europa) e, principalmente, as conquistas da Liga Europa e da Supertaça Europeia por parte dos colchoneros farão parte dos objectivos indexados aos 7 milhões de euros da remuneração variável?

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Um campeão na Grécia

"Não há presidente desde Novembro de 2010, também não há diretor desportivo desde a saída do Carlos Freitas [para o Sporting], há um ano, e mantivemo-nos assim. Há dificuldades financeiras e uma grande indefinição sobre aquilo que pode ser o futuro... estamos aqui um bocado a navegar em mar escuro"
Jesualdo Ferreira, em declarações à TSF


Nesta altura, o Panathinaikos é o líder do campeonato grego com cinco pontos de avanço sobre o segundo classificado, o Olympiakos.
Nada mau, para um clube sem presidente, sem o diretor desportivo que o escolheu e levou para a Grécia, com pouco dinheiro e cheio de indefinições.

Ao serviço do FC Porto, Jesualdo ganhou três campeonatos e duas taças de Portugal, mas se com estas condições for campeão na Grécia, isso será um feito ainda mais assinalável (e para se ter ideia do grau de dificuldade recordo que o Olympiakos ganhou 13 dos últimos 15 campeonatos).

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

53 jogos sem perder

No sábado, em Alvalade, o FC Porto atingiu o 53º jogo consecutivo sem perder no campeonato, igualando o recorde do clube que, sob o comando de Bobby Robson, já tinha alcançado idêntica marca entre 14 de Outubro de 1994 e 23 Março de 1996.




Os treinadores, datas, adversários e resultados do actual ciclo de 53 jogos consecutivos sem perder, são os seguintes:

Época 2009/10 (Jesualdo Ferreira)
06/03 Olhanense (C) E 2-2
13/03 Académica (F) V 2-1
28/03 Belenenses (F) V 3-0
03/04 Marítimo (C) V 4-1
10/04 Rio Ave (F) V 1-0
18/04 V. Guimarães (C) V 3-0
24/04 V. Setúbal (F) V 5-2
02/05 slb (C) V 3-1
08/05 U. Leiria (F) V 4-1

Época 2010/11 (André Villas-Boas)
14/08 Naval (F) V 1-0
22/08 Beira-Mar (C) V 3-0
29/08 Rio Ave (F) V 2-0
11/09 SC Braga (C) V 3-2
20/09 Nacional (F) V 2-0
25/09 Olhanense (C) V 2-0
04/10 V. Guimarães (F) E 1-1
25/10 U. Leiria (C) V 5-1
30/10 Académica (F) V 1-0
07/11 slb (C) V 5-0
14/11 Portimonense (C) V 2-0
27/11 SCP (F) E 1-1
06/12 V. Setúbal (C) V 1-0
19/12 Paços Ferreira (F) V 3-0
08/01 Marítimo (C) V 4-1
16/01 Naval (C) V 3-1
22/01 Beira-Mar (F) V 1-0
26/01 Nacional (C) V 3-0
06/02 Rio Ave (C) V 1-0
13/02 SC Braga (F) V 2-0
26/02 Olhanense (F) V 3-0
05/03 V. Guimarães (C) V 2-0
14/03 U. Leiria (F) V 2-0
20/03 Académica (C) V 3-1
03/04 slb (F) V 2-1
10/04 Portimonense (F) V 3-2
27/04 SCP (C) V 3-2
01/05 V. Setúbal (F) V 4-0
08/05 Paços Ferreira (C) E 3-3
14/05 Marítimo (F) V 2-0

Época 2011/12 (Vítor Pereira)
14/08 V. Guimarães (F) V 1-0
19/08 Gil Vicente (C) V 3-1
06/09 U. Leiria (F) V 5-2
09/09 V. Setúbal (C) V 3-0
18/09 Feirense (F) E 0-0
23/09 slb (C) E 2-2
02/10 Académica (F) V 3-0
23/10 Nacional (C) V 5-0
28/10 Paços Ferreira (C) V 3-0
05/11 Olhanense (F) E 0-0
27/11 SC Braga (C) V 3-2
11/12 Beira-Mar (F) V 2-1
18/12 Marítimo (C) V 2-0
07/01 SCP (F) E 0-0

Resumo:
Época J V E D GOLOS
2009/10 9 8 1 0 27-8
2010/11 30 27 3 0 73-16
2011/12 14 10 4 0 32-8
Total: 53 45 8 0 132-32


Nota: As imagens são do Suplemento JN Desporto "Penta Campeões" e foram obtidas no blogue 'Pobo do Norte'.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O pai futebolístico de Falcao


El Oporto lo trajo a Europa. ¿Qué aprendió en Portugal?

Allí se encontró con Jesualdo Ferreira, algo decisivo. Es como su padre futbolístico. Tuvo mucha suerte porque no suele haber muchos entrenadores profesionales que pierdan el tiempo enseñando a sus jugadores. Te piden cosas, pero no te enseñan. Jesualdo no es así. Falcao siempre le estará agradecido. Le corregía mucho, me lo contaba todos los días. El Falcao de hoy es también producto del trabajo de Ferreira.

Estas declarações são de Radamel Garcia, pai de Falcao, e foram feitas numa entrevista ao jornal espanhol AS.

Há cerca de um ano atrás, no dia 27 de Outubro de 2010, um outro extraordinário jogador recebeu o Dragão de Ouro. Na hora dos agradecimentos, Hulk afirmou:
É um orgulho receber este prémio. Estou agradecido por tudo. Agradeço sobretudo a Jesualdo Ferreira, que me ajudou bastante quando cheguei e me ajudou a ser melhor jogador.

Jesualdo Ferreira chegou ao FC Porto uns dias antes do início do campeonato 2006/07 (após a deserção de Co Adriaanse) e, durante grande parte do tempo, trabalhou num contexto particularmente difícil. Como é sabido, perante o impacto tremendo do Apito Dourado, e com o presidente “amordaçado”, foi ele que deu o peito às balas e protegeu o grupo de trabalho, inclusive quando houve a ameaça do clube ser excluído da Liga dos Campeões.

Contudo, e apesar dos sucessos desportivos que alcançou, Jesualdo nunca entrou nos corações dos portistas e para muitos era mesmo um mal-amado.

Saiu do FC Porto como um Senhor, respeitando o clube e sem nunca fazer (até agora) uma única declaração desagradável. Atrás de si deixou um rasto de títulos e um grupo de jogadores que ensinou e ajudou a crescer.

O tempo se encarregará de lhe fazer justiça, mas é bom ver o tributo público que lhe é prestado pelos seus ex-jogadores.


P.S. Em Maio de 2008, Jesualdo Ferreira foi a Lisboa, receber um Globo de Ouro da SIC. As palavras que proferiu, perante uma plateia maioritariamente hostil, ficam para a história:

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O professor mestre e o aprendiz

As opiniões que se seguem são de um leigo de preparação física, recuperação física e coisas que tais, são opiniões de quem meramente vê futebol e gosta de ver futebol e que acha que há caminhos melhores que outros. (isto dito assim na 3ª pessoa até parece o Jardel a falar :-D)

Todos os anos todos os treinadores, falam em respeito pelo adversário e coisas que tal, mas há jogos em que não há volta a dar-lhe, há que gerir o plantel. E gerir o plantel tem dois objectivos: fazer descansar alguns jogadores e dar oportunidades a jogadores menos (ou nunca) utilizados.

Há aqueles com o professor mestre que acham que dar oportunidades a jogadores menos (ou nunca) utilizados é pô-los todos juntinhos a jogarem contra os Torreenses destas taças e mandá-los para o banco ou bancada no jogo seguinte, até à próxima eliminatória onde vão voltar a jogar todos juntinhos no mesmo 4-3-3 nem que o Guarín tenha de ser extremo direito.

O resultado desta visão, é que os jogadores sabem que são 2ªs escolhas, sabem que voltam à bancada, os jogos são pobres, ninguém se destaca, e assim o treinador está salvaguardado com o seu 11 habitual que joga no seu habitual 4-3-3, tem sempre a desculpa: deu-lhes uma oportunidade contra o Torreense e não a aproveitaram. Não largas vezes nos últimos anos ouvimos esta "desculpa".

Mas também há aqueles - mesmo que sejam aprendizes - que acham que dar oportunidades a jogadores menos (ou nunca) utilizados é manter uma base em qualquer jogo e em qualquer competição, e fazer 3-4 alterações. São menos a terem uma oportunidade, mas têm uma verdadeira oportunidade - no sentido de que jogam com os habituais titulares, entram numa equipa que tem rotinas - mas que também as molda para tirar o melhor partido dos jogadores, e se derem sinais positivos a seguir têm oportunidades nos jogos verdadeiramente importantes.  Faz-se um gestão jogando, responsabilizando, mantendo um plantel envolvido e pronto a entrar em acção, nem que seja 20 minutos para mostrar a ambição e não dar sinais de conformismo.

Pegando, por exemplo, no James. Se hoje é uma alternativa credível, sê-lo-ia se nos jogos, em que teve as tais oportunidades, tivesse ao seu lado Mariano, Walter, Rúben, Souza, Ukra, Castro, ...? Eu sinceramente duvido.

Obviamente que nem tudo são rosas e às vezes podem surgir grandes contratempos, como a lesão do Rafa.


Eu como adepto, prefiro mil vezes que os nossos treinadores corram estes riscos, mas que tenham um plantel - no verdadeiro sentido da palavra - pronto a responder, do que não correr estes riscos e ver sempre os mesmos 11 a jogar, estejam ou não em forma. Sinceramente não acho que seja por acaso que o Mourinho, que pensa da mesma forma que o aprendiz - ou o contrário, tenha chegado onde chegou, mas que tenha sobretudo os jogadores sempre do seu lado.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Zapping de madrugada

«[Fucile] deve a sua chegada ao FC Porto a Jesualdo Ferreira, pois foi a primeira contratação do professor, quando chegou ao Dragão, na época 2006/2007. O agora treinador do Panathinaikos, da Grécia, descobriu o lateral num jogo da seleção uruguaia na LG Cup, na Tunísia, enquanto fazia um “zapping”, numa madrugada de 2006.»
in record.pt

É o que dá (e ainda bem) não ter sono...

domingo, 12 de dezembro de 2010

O recorde


Não, este texto não é sobre o diário desportivo do grupo Cofina. É antes um pequeno apontamento sobre a série de 34 jogos oficiais sem perder que o FC Porto atingiu, após vencer o Juventude Évora.

Conforme a comunicação social não se cansou de lembrar, o máximo anterior tinha sido estabelecido por José Mourinho, entre 5 de Outubro de 2003 e 28 de Março de 2004 - 33 jogos sem perder.

"Este recorde deve-se em muito a Jesualdo Ferreira e ao que ele deixou aqui", André Villas-Boas

Fica bem a AVB recordar o homem que o antecedeu no comando técnico do FC Porto. De facto, esta série de 34 jogos foi iniciada no final da época passada, com 10 vitórias consecutivas, a que AVB juntou mais 21 vitórias e três empates. Mas, conforme reconhece o actual treinador do FC Porto, o contributo de Jesualdo Ferreira para este recorde não é "apenas" as 10 vitórias. É também tudo aquilo que ele deixou de positivo.

Quando, por exemplo, vemos o desempenho actual de Hulk e Guarin, é inevitável lembrar o trabalho especifico que Jesualdo desenvolveu com estes jogadores e a que AVB está a dar continuidade, potenciando o seu rendimento, e de outros jogadores, no colectivo muito forte que construiu esta época.

Mas voltando ao recorde, e sem querer minimizar este feito, temos de reconhecer que é mais fácil manter a invencibilidade competindo na Liga Europa, do que se estivéssemos no nosso lugar natural, isto é, a disputar a Liga dos Campeões.

sábado, 4 de dezembro de 2010

O Homem do Leme ideal não existe (II)

Por Miguel Lourenço Pereira

(1ª parte)

Nas Antas ainda se lembra com saudade o espirito gentleman e determinado do fleumático Bobby Robson, que também saiu a mal com o clube mas que deixou uma imagem imborrável de um técnico de ataque, comprometido e que deixou escola (Mourinho e Villas-Boas que o digam).

No lado oposto dessa devoção estão certamente Fernando Santos e Jesualdo Ferreira, a quem o sucesso não foi nunca suficiente para entrar na galeria dos grandes. Também porque, o passado ligado ao Benfica acabou por ser um lastro nunca perdoado pelos adeptos em ambos casos.
O actual técnico do Panatinaikhos cometeu o feito histórico de ser tricampeão, algo a que o seu talento não estará alheio, mas nem isso lhe permitiu o mais leve elogio dos adeptos, incapazes de entender a sua postura esfingica no banco e fora dele.
Pior sorte sofreu o engenheiro do Penta, que chegou a sofrer na pele o desagravo dos adeptos depois de uma derrota frente ao Torreense. Dois anos sem vitórias e todo o seu passado foi questionado e o nome borrado da memória de quem vibrou com uma das equipas mais eficazes do futebol português dos anos 90.

Nem os titulados e imensamente talentosos Tomislav Ivic e Carlos Alberto Pereira, técnicos campeões, simpáticos e populares à época sobreviveram ao passar do tempo e hoje são poucos os que se lembram deles à hora de compilar a galeria dos grandes monstros dos bancos azuis e brancos. Perfis apagados que costrastam com a imagem guerreira que os dragões gostam de relembrar nas suas gestas.

No lado oposto estão incluidos os ódios de estimação de muitos em que se tornaram Octávio Machado (um caso de regressão progressiva, de jogador a técnico principal) e o holandês Co Adriaanse (ódio à primeira vista, com agressão fisica incluida pelo sector ultra dos adeptos furiosos após uma derrota em Vila do Conde) e até Victor Fernandez, espanhol e velho amor de Pinto da Costa que se tornou talvez no técnico campeão do Mundo menos respeitado pelos próprios adeptos.

Caso à parte para os portistas merece António Oliveira, imensa e polémica glória dentro e fora dos relvados. Há quem fique com o seu estilo guerreiro e insubmisso ao estilo da velha guarda e os que não esquecem quando se ajoelhou na Luz ou as suas túrbias relações com a empresa do irmão e o mundo da noite do Porto.

Os adeptos azuis e brancos não são diferentes dos demais, por muito especial que o clube nos pareça. Todos querem um treinador competente, talentoso, ganhador e com atitude, capaz de criar empatia com os jogadores, com a massa adepta e de impor respeito aos rivais. Talvez por isso a chegada do jovem André Villas-Boas, filho da casa, discipulo avantajado de dois grandes professores e um homem forjado no mundo da alta competição tenha encontrado uma empatia nas bancadas do Dragão que há muito não se via. Mas muitos dos que agora elogiam AVB podem acabar por sofrer o mesmo efeito provocado por Mourinho há seis anos, que rapidamente passou de bestial a besta. Porque o adepto segue um ideário colectivo e reage mal à afirmação individual. Passou isso no passado com aquele que é, provavelmente, a maior figura da história do clube.

Os que hoje talvez vetariam a Mourinho, os que num futuro possam fazer o mesmo com AVB caso siga o mesmo caminho, talvez fossem os mesmos que vetaram um tal de José Maria Pedroto, quando o seu “eu” individual, directo e frontal entrou em choque com a mentalidade da direcção e massa adepta de 1967. O mesmo que teve de ver a suspensão revogada antes de dar inicio ao FC Porto, abrindo a escola dos reis Artur, Jorge e (se possível) André que se seguiram. É impossível agradar a todos, os adeptos são assim.

Haverá algum dia um técnico azul e branco que consiga ser lembrado apenas pelo seu talento e não tanto pela sua postura de vida, atitude fora do campo ou passado clubistico? Uma tarefa bem mais dificil do que podemos imaginar, afinal somos todos humanos.


Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao Miguel Lourenço Pereira a elaboração deste artigo.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O teste do algodão

No início desta época, presidente e treinador do slb enchiam o peito (e parangonas nos jornais) com afirmações bombásticas. Ele era os objectivos mais altos de sempre, o contrato que previa a conquista da Champions, a definição dos quartos-de-final como meta mínima, etc. E um sorteio extremamente favorável até parecia que ia ajudar a concretizar tamanhas ambições. De facto, um grupo sem "tubarões", com um Schalke 04 irreconhecível, a vegetar durante N jornadas na zona de despromoção da Bundesliga, e um Lyon a anos-luz da equipa que dominou o Championnat durante sete anos (entre 2001/02 e 2007/08), faziam prever um passeio encarnado pela fase de grupos da Liga dos milhões. Mas a realidade foi bem diferente e até um estreante Hapoel se revelou um obstáculo inultrapassável.

Disputar a competição de clubes mais importante do Mundo é uma ambição natural para muitos dos clubes europeus, mas é também o teste do algodão para jogadores, treinadores e dirigentes.
Nem todos passam neste teste e os sportinguistas perceberam-no, de forma muito dolorosa, nos oitavos-de-final da época 2008/09, quando o Bayern esmagou o Sporting de Paulo Bento nos dois jogos, atingindo um acumulado de 12-1 (!).
Do outro lado da 2ª circular, Leonor Pinhão não precisou de assistir à goleada em Telavive. Percebeu-o há duas semanas atrás, a seguir aos 5-0 no Dragão, tendo avisado os benfiquistas na sua crónica de A Bola de 11 de Novembro, “Quanto à Liga dos Campeões, esqueça-se já. Concentremo-nos na Liga Europa onde tudo pode sempre acontecer.”.

A Liga dos Campeões não é uma prova qualquer. É para clubes com dirigentes capazes, treinadores competentes e jogadores com estofo. Exige experiência e qualidade. Foi isso que o FC Porto de Jesualdo demonstrou nas últimas quatro épocas onde, sem fanfarronices, atingiu por três vezes os oitavos e uma vez os quartos-de-final. E fê-lo reconstruindo a equipa azul-e-branca todas as épocas, após a saída de jogadores de categoria indiscutível e com peso na equipa/balneário – Vítor Baía, Anderson, Pepe, Bosingwa, Paulo Assunção, Quaresma, Pedro Emanuel, Lucho, Cissokho e Lisandro. Para o mal amado professor Jesualdo, nunca serviram explicações condescendentes do género “Ramires e Di Maria” e muito menos ele recorreu a desculpas esfarrapadas do tipo “os jogadores chegaram tarde do mundial/europeu”.

Ao assistir às declarações que Jesus fez na Terra Santa, em que justificou os 0-3 com a sorte e explicações quase metafísicas, lembrei-me do professor Jesualdo e das conversas que mantive com amigos portistas acerca da sua seriedade e competência. Compreendo o desagrado de muitos portistas em relação ao futebol que a equipa praticava durante o consulado de Jesualdo, mas o tempo e o distanciamento fazem-nos olhar para os factos de outra maneira. Estou certo que é o que irá acontecer daqui a uns anos, em que irá ser feita justiça relativamente ao trabalho efectuado por Jesualdo Ferreira no comando técnico do FC Porto, em condições por vezes muito difíceis.
E perante aquilo que foi o desempenho do actual campeão português na LC 2010/11, reafirmo aquilo que disse aquando da sua saída: obrigado professor!


P.S.1: Para que não fiquem dúvidas, sou da opinião que não havia condições no universo portista para Jesualdo ter continuado no FC Porto após o final da época passada e estou muito satisfeito com o desempenho do FC Porto de André Villas-Boas.

P.S.2: «Os contratos prendem as carcaças dos jogadores aos clubes, mas não há cláusulas que lhes engaiolem os espíritos. Esses, já dizia o grande poeta e humanista Ernâni Lopes, só com carcanhol. Ao ritmo dos títulos e das primeiras chamadas à selecção, sopram-lhes lá de fora salários descomunais, ou quando não sopram os salários, bufa a Imprensa um compêndio de Chelseas e Reais Madrids. E quando não sopram os salários nem bufa a Imprensa, telefona o Di María: "Mi hermanito, hoy tive de alugar una Hiace para trazer do banco aquela plata toda, que desgracia, pobrecito de mi." (…) Nenhum clube que se considere o maior do mundo pode formular um raciocínio que sugira a existência de outros melhores ainda. Não deixou sair quem desesperava por isso, nem lhes comprou a permanência.»
José Manuel Ribeiro, O Jogo, 25/11/2010

sábado, 13 de novembro de 2010

A metamorfose de Belluschi

O PUBLICO de ontem publicou um artigo de opinião de Bruno Prata, cujo título é ‘A metamorfose de Belluschi, um "oito" que vale mais do que um "dez"’, onde é feita uma análise que, globalmente, me parece equilibrada e correcta.


«Há jogadores que têm o condão de se reinventar e de contrariar ideias feitas. Belluschi parece ser um desses casos de metamorfose radical, tendo passado a fazer parte de um reduzido lote de exemplos capazes de surpreender boa parte dos críticos (grupo em que, de resto, nos incluímos). (…)
Qual libélula que de um dia para o outro ganhou asas, o argentino desenvolveu-se e deixou de ser um "dez" que, por força do desenho táctico (4x3x3), tinha de jogar a "sete" ou a "oito", com tudo o que isso acarretava em termos de prejuízo para a equipa como para ele próprio. Hoje, Belluschi conserva o que já o distinguia - classe pura, técnica, remate e visão de jogo. Mas acrescentou-lhe, por exemplo, sentido posicional raro e capacidade guerreira, tudo qualidades que os analistas consideravam não integrar o seu ADN. Sabe-se agora que elas estavam lá, só que camufladas e por revelar. (…)

Belluschi sempre foi visto como um médio-ofensivo, alguém que rendia claramente mais nas costas dos avançados, servindo de interface entre o miolo e o ataque. Foi assim no Newells"s Old Boys, onde deu os primeiros passos como profissional, ganhou os seus primeiros títulos e somou as suas duas primeiras e, até ao momento, únicas internacionalizações. E continuou a ser assim quando, quatro anos depois, foi chamado a ajudar a substituir Gallardo e Lucho (que se havia mudado precisamente para o FC Porto) no River Plate. As boas exibições levaram o Olympiakos a pagar por ele 7,4 milhões de euros (por metade do passe), na reabertura do mercado em 2008. Na Grécia, continuou a vender talento, mesmo que com várias intermitências exibicionais, jogando a "dez". (…)

As suas qualidades agradaram a Jesualdo Ferreira, que há um ano deu o aval à sua contratação como potencial substituto de Lucho, vendido ao Marselha por 17 milhões de euros. (…)
Na época passada, Belluschi alinhou em 27 das 30 jornadas do campeonato, quase sempre a titular. Marcou quatro golos, mas esteve longe de conseguir afastar o sentimento de orfandade pelo compatriota Lucho. Essa foi, de resto, uma das razões apontadas para o menor rendimento e para a época fracassada que levou à saída de Jesualdo. (…)

Até por isso, não deixou de ser sintomático que Villas-Boas tenha apostado em Belluschi desde a primeira hora. Fê-lo mesmo contra a expectativa dos adeptos, crentes de que esta seria a época da afirmação definitiva de Rúben Micael. E continuou a fazê-lo mesmo depois de Pinto da Costa ter provado por que há muito dizia que Moutinho era um jogador à FC Porto... Aqui há que dar mérito ao técnico portista. Ele percebeu, melhor e mais rápido do que todos nós, que Belluschi tinha predicados que estavam ocultos e à espera de serem desvendados. (…)
A transfiguração de Belluschi já tinha sido patente em Coimbra. O pantanal em que se tinha transformado o relvado não impediu o argentino de se manter à tona da água e de terminar como um dos melhores em campo. De resto, Belluschi segue surpreendentemente como o portista que conseguiu mais recuperações de bola (81) nas dez jornadas do campeonato, claramente à frente de João Moutinho (65). Esta sua nova faceta já tinha começado a ser notória no termo da época passada, quando foi quem mais correu na final da Taça de Portugal.

Os jogadores sul-americanos melhoram substancialmente o rendimento após o segundo ano na Europa. Belluschi chegou a Portugal após vários anos na Grécia, mas pode também estar a beneficiar de uma primeira fase de adaptação às singularidades do futebol português. Mas, mais importante do que isso, foi certamente o facto de ter passado a jogar ao lado de Moutinho, cuja inteligência táctica e posicional contribui para que tudo funcione com maior harmonia em seu redor.

Belluschi já foi deixando algumas explicações para a sua metamorfose. Por um lado, reconhece ser "mérito da equipa e do treinador", que o libertou e lhe deu confiança. Nesse ponto, vale a pena acrescentar uma passagem de uma outra entrevista em que diz que o FC Porto é agora uma equipa mais parecida com o Barcelona na forma de jogar, o que, depreende-se, beneficia as suas características. Mas onde Belluschi deve mesmo ter acertado na mouche foi quando afirmou: "É mérito meu também, que me propus estar melhor e trabalhar mais do que na época passada". Nota-se.»

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Na minha opinião, mais do que uma metamorfose (*) radical da época passada para a actual, o que vejo em Belluschi é uma evolução significativa que, conforme refere Bruno Prata, “já tinha começado a ser notória no termo da época passada, quando foi quem mais correu na final da Taça de Portugal”.

Os factos desmentem alguns mitos. Por exemplo, de que Belluschi raramente era aposta de Jesualdo, ou de que não fez um único bom jogo na época passada. Basta lembrar a exibição notável (com duas assistências e um golo do outro mundo) contra o slb na 29ª jornada, a melhor que fez até agora com a camisola do FC Porto, com a equipa reduzida a 10 jogadores durante praticamente toda a 2ª parte.

Por tudo isto, reduzir esta “metamorfose radical” de Belluschi apenas aos inegáveis méritos de André Villas-Boas, parece-me algo muito simplista e redutor. São várias as razões e, penso, estão bem descritas no artigo anterior.


Nota 1: O artigo completo do Bruno Prata pode ser lido aqui.

Nota 2: Os destaques no texto a negrito são da minha responsabilidade.

(*) mudança de forma; mudança completa no estado ou no carácter de uma pessoa.