Por Filipe Sousa
Dois jogadores que não são figuras de proa do nosso campeonato, espelham bem a diferença que separa actualmente o Porto e o Clube do Regime (CR): Airton e Prediger. O primeiro, muito poucos sabem de onde veio e quanto custou; o segundo chegou da Argentina rotulado de craque, e custou, mais coisa menos coisa, 4 milhões de euros. A questão dos preços, embora não totalmente irrelevante, é a menos importante neste cenário. Importante sim, é o facto de o Airton ter chegado cá no mercado de transferências de Janeiro (ou seja, já com a época a decorrer), Prediger ter chegado ainda no Verão, e neste momento, um entrou sem sobressaltos na equipa titular do CR, numa final, contra um adversário de nível idêntico – estou aqui a ser muito simpático… - e outro, depois de alguns jogos em que nem contra adversários do calibre do Leixões ou Estoril, conseguiu demonstrar algo que justificasse o investimento de 1 milhão de euros no seu passe (quanto mais 4 milhões!), voltou para debaixo da pedra debaixo da qual o foram desenterrar há uns meses atrás.
Aqui, não é de menosprezar o papel de ambos os treinadores. Jorge Jesus (JJ) é um simplório, com apenas um objectivo em mente: vencer; Jesualdo, um professor, assemelha-se mais um funcionário da SAD que dá umas indicações aos jogadores, deixando-os entregues a si próprios quando os adversários são de alto calibre, do que propriamente a um treinador, pelo que se percebe que esteja mais focado nos lucros do que propriamente em golos e vitórias. Daí resulta que o Airton, pedido por JJ ou oferecido pela direcção do CR, chegue e jogue; e o Prediger, aceite por Jesualdo ou imposto pela SAD do Porto, nem com 4 ou 5 meses de “laboratório” sirva para o banco.
Salvo casos raríssimos, se um jogador é bom, “veni, vidi, vinci”. Caso contrário, nenhum “laboratório”, nenhuma “assimilação de processos”, ou “período de adaptação” por mais longo que seja, transformará algum dia um Tomás Costa num Messi. Mas pode transformar um válido Rúben Micael, num inútil zombie ao serviço das “transições ofensivas” e da “ocupação de espaços”.
Goste-se ou não, a verdade é que os olheiros do CR, são excelentes. Infelizmente para o CR, e felizmente para nós, adversários (e em especial, o Porto), dir-se-ia que os seus dirigentes têm (ou tinham) como objectivo único até há pouco tempo, minar esse excelente trabalho. Os dirigentes do Porto, por outro lado, sempre souberam aproveitá-lo, graças ao precioso contributo dos pasquins que servem de órgãos oficiais do Regime – Bola e Record.
Esta época porém, algo mudou. Os até aqui incompetentes dirigentes do CR, acordaram. As lutas intestinas que amiúde minam o trabalho da equipa foram erradicadas, todos se uniram em torno de um objectivo claro, foi feito um trabalho cuidado na preparação da equipa e da época e os resultados estão à vista. Por outro lado, os dirigentes do Porto, abandalharam-se. Tratando-se de pessoas com reconhecida capacidade, torna-se óbvio que a explicação para os desempenhos díspares de ambas as equipas esta época, se deve essencialmente a um défice de profissionalismo - excesso de confiança? e pergunto até que ponto questões do foro pessoal dos dirigentes terão tido influência.
Basta ver as contratações realizadas esta época, em particular aquelas que não foram avalizadas pelos olheiros do CR, e também os negócios relacionados com passes de jogadores que já faziam parte do plantel da época passada, para se perceber que, mais do que a “lesão” provocada à equipa com a ausência forçada do Hulk, mais do que as arbitragens, ou incapacidade do treinador, foram os erros grosseiros do corpo directivo da SAD do Porto, que ditaram esta época vergonhosa.
Esta não é porém, uma situação nova. Antes da chegada de Mourinho, a situação era basicamente a mesma: cofres depauperados, uma equipa quebrada. A questão é: serão os dirigentes da SAD capazes de “começar de novo”, sem a ajuda de alguém com a capacidade de Mourinho? Terão a coragem de contratar alguém que tenha, no mínimo, o mesmo espírito? Eu quero acreditar que sim, mas a trabalhar da forma como o fizeram este ano, será difícil, senão mesmo impossível.
Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao Filipe Sousa a elaboração de mais este artigo.Foto: A Bola