domingo, 8 de Novembro de 2009

Crónica de um pesadelo anunciado


Não foi pesadelo, foi mesmo real. O FC Porto foi à ilha da Madeira “oferecer” a vitória ao Marítimo, com um “prego” de Rolando a ditar o resultado final. Um golo solitário e insólito, mas que só levantará duvidas sobre a justiça do marcador para quem não assistiu ao encontro. Os insulares controlaram quase sempre as operações, podendo ficar a dever a si próprios a razão de não terem conseguido uma vantagem mais confortável. O Dragão, esse, conseguiu a proeza de ser um conjunto mais pálido do que aquilo que já vinha evidenciando nos últimos encontros.

Como já referido, a equipa Madeirense mostrou em largos períodos saber como manter sob rédea curta este Porto de pacotilha, pelo que desde cedo começou a pegar no jogo, criando perigo a partir de incursões laterais, tentando servir o móvel avançado Baba. Em 2 momentos esteve perto de marcar. O infortúnio (ou será melhor dizer o previsível?) aconteceu, com o auto-golo do central portista. Nem assim os homens de Jesualdo espevitaram.



O Dragão, mergulhado numa letargia profunda, não sabia o que fazer com a bola. Na verdade, a equipa portista parece que caiu num buraco negro, sem qualquer processo de jogo definido, ou construção de jogadas vindas do laboratório de ensaio. O número de passes errados, demonstra como os jogadores estão à deriva, sem uma linha orientação de equipa abrangente, ou pontos de referência em seu redor. Cada jogador está por sua conta, quando a bola lhe cai nos pés. Não admira que tudo saia mastigado e aos repelões. Ou então, vai um pontapé longo em busca de um milagre.

A falta de criatividade, fantasia e espontaneidade desta equipa torna-se gritante, o que facilita, e de que maneira, a vida aos adversários. A linha do meio campo que iniciou o encontro, bem como toda trupe da zona intermédia que foi a combate no decorrer do mesmo, só tem características e está formatada para pensar o jogo no domínio de ocupação dos espaços, Mas nem isso souberam fazer convenientemente. Nenhum dos que actuaram poderiam vir a causar desequilíbrios, pois não têm engenho para tal. Foi este o caminho que Jesualdo escolheu para tentar dar a volta ao rumo dos acontecimentos. Não admira, pois, que em 90 minutos, o FC Porto tenha apenas criado uma única situação de golo iminente, tornando-se presa fácil para o Marítimo.



A fórmula esgotou-se, e há elementos da equipa que demonstram alguma dificuldade em lidar com as contrariedades, ou sem estofo para assumir as operações. Chegou o momento de o Professor definir outro rumo ao processo de jogo da sua equipa, pois com este, está visto que a probabilidade de voltar a perder pontos é enorme. As lesões de alguns jogadores, a baixa de forma de outros não explicam tudo, porque o que se viu esta noite, não tem ponta por onde se lhe pegue.

Fotos: Agência Lusa, uefa.com

No poupar está o ganho?

Para mim é claro que estamos financeiramente melhor do que os nossos rivais portugueses. Será isto razão para não nos preocuparmos de todo com este aspecto? Penso que não, já que quanto mais fortes estivermos financeiramente, maior a vantagem competitiva a médio prazo - tanto ao nível nacional, como internacional (não nos esqueçamos da Liga dos Campeões). Além disso continuamos dependentes de mais-valias superiores a 35 milhões/ano para ficar no "zero", e não se pode contar eternamente que os substitutos dos vendidos estarão à altura do desafio (e já agora, cada ano que passa temos uma % menos elevada dos passes dos jogadores mais valiosos).

Penso que do lado das receitas não há muito que fazer, o trabalho da SAD nesta área parece-me muito bom. Sim, haverá algum potencial para crescimento em patrocínios (naming do estádio, anyone?) e merchandising, mas é bastante limitado.

Já do lado dos custos penso que há muito para dizer; vejo potencial para poupar uns 15 a 20 milhões €/ano sem colocar em causa a competividade desportiva - pelo contrário, se tivéssemos esta quantia para re-investir desportivamente (por ex vendendo menos um titular por ano) acho que a podíamos mesmo aumentar.

Começa pelos salários dos jogadores - em 08/09 gastámos 28,5 milhões (subida de 4 milhões em relação ao ano anterior). Todos os anos vejo dirigentes e adeptos a dizer "este ano é que vai baixar com a saída de Postiga/Diego/Quaresma/Lucho/emprestados etc" mas o que eu vejo é que continua a subir - e subidas de 2 dígitos (em percentagem), ano após ano. Que fazer nesta área? Renegociar contratos para baixo é pouco menos que impossível, esqueçam (até por causa do acordão Bosman). Cortar nos salários dos excedentários? Pode ajudar um pouco, mas não muito - não mais que 1 a 2 milhões/ano no máximo dos máximos.

Onde se pode fazer alguma coisa a sério nesta área é não ter o banco repleto de jogadores a ganhar dezenas de milhares de euros/mês (já nem digo titulares) - estou convencido que perdíamos muitíssimo pouco desportivamente se tivéssemos no banco mais prata da casa em vez de jogadores contratados no estrangeiro (ou, como 2a opção, jogadores saídos do campeonato português q hoje têm um salário muito baixo nos seus clubes pobretanas; estou certo que Varela ganha muito menos que Guarín, por exemplo). Aqui acho que podíamos facilmente poupar 2-3 milhões/ano, se tivéssemos uns 5 jogadores da casa no plantel, mesmo q fosse acima de tudo para o banco.
Mas o maior impacto da prata da casa nem seria nos salários, mas sim nas amortizações de passes - ou se quiserem o custo de aquisição. Aqui podia-se poupar uns quantos milhões por ano tendo um bocadinho mais de contenção nas aquisições, e sem colocar em causa a contratação de jogadores que têm um CV de qualidade e para posições em q não estamos lá muito bem servidos para titular (como no caso da contratação de um Rodriguez ou Belluschi). Repare-se que o valor contabilístico do plantel (que reflecte os custos de aquisição do passe, ainda que amortizados) tem vindo sempre a subir, e muito pouca gente vai dizer que a valia geral do plantel (desportivamente falando) tem subido constantemente de ano para ano. A 1 de Julho de 2009 o plantel "valia" 58 milhões, contra 51 um ano antes. O mesmo tinha acontecido no ano anterior. Isto é consequencia de duas coisas: as contratações para titular têm sido cada vez mais caras (agora compra-se jogadores que valem 10 milhões como se fosse uma coisa natural, quando há 3 ou 4 anos nenhuma contratação chegava a esse valor), e o banco tem sido gradualmente repleto de jogadores que custaram vários milhões de euros cada um (quando antes tínhamos no banco um Cech, um Tarik, um R Costa, um Jorginho, até mesmo um Ibson, etc, jogadores que tinham custado muito menos).

Ah, mas não será isso fruto de uma inflação generalizada do mercado? Olhando para as contratações no panorama internacional constato que não, a média internacional não tem aumentado (terá até mesmo diminuído). É fruto sim de um esvaziamento do plantel do FCP de prata da casa (custo zero) ou de jogadores baratos saídos acima de tudo do campeonato português (e por favor não me queiram convencer q um Benitez veio ganhar o mesmo q um Areias, ou que um Prediger ou Guarin veio ganhar o mesmo q um Jorginho). Se eu até concordo q todos os anos se compre um par de jogadores por 10 milhões (se continuarmos com vendas muito boas), já me faz impressão que se contrate mais 5 a 10 atletas por 2 a 5 milhões cada um. 3 ou 4 ainda compreendo, tantos não (ainda mais quando há continuidade de treinador).

Continuando a falar dos custos com pessoal, passo aos administrativos: entre "órgãos sociais" e "técnicos e administrativos", aumentámos os custos anuais para os 13 milhões (contra 10 um ano antes), 30%. 13 milhões é uma pequena fortuna (quase METADE do que gastamos nos salários dos jogadores todos sob contrato!). O nr de funcionários voltou a aumentar (uma constante dos últimos anos, quando cá fora no mundo "normal" das empresas só se vê downsizing); já excluindo os vendedores das lojas (24 funcionários que um ano antes não pertenciam ao quadro do FCP), temos 44 (!!) treinadores e treinadores-auxiliares, e 106 (!!) directores e outros funcionários da SAD. Desculpem lá, mas há ali gente a ganhar muito mais do que ganharia num cargo equivalente noutra empresa qualquer da mesma dimensão - e não falo sequer dos administradores, há vários directores e outros funcionários muitíssimo bem pagos na esfera SAD, na Porto Estádio, na Porto Comercial etc., que não têm nada a ver com o futebol directamente.

A propósito, já mencionei que todas as empresas satélites (Porto Comercial, Porto Multimédia, Porto Seguros, Porto Estádio) dão... prejuízo? Se não servem para contribuir com lucro para a SAD, servem para quê ao certo? Enfim, nesta área (custos com pessoal excluindo jogadores) estou certo que havendo vontade podia-se cortar até uns 5 milhões por ano (baixando para uns "meros" 8 milhões) sem beliscar o funcionamento eficiente daquilo que conta, que é o desempenho da equipa de futebol.


Falta falar de duas áreas dos custos: FSE (Fornecimentos e Serviços Externos) e serviço da dívida (custos financeiros). Começo pelo último, que é mais simples: gastamos 5,5 milhões/ano em juros, e acho q num prazo de 3 anos - de repente, não - podia-se poupar uns 3 milhões/ano abatendo-se gradualmente o passivo correspondente a empréstimos).

Falta portanto apenas abordar os FSE, onde os custos subiram de 16,8 para os 20 milhões (há 3 ou 4 anos não chegava aos 10 milhões...). À primeira vista, parece-me q sem uma enorme dificuldade se podia arranjar maneira de poupar uns, digamos, 3 milhões/ano nesta área. Como? Menores encargos com advogados, mais apertado controlo de custos em várias das vertentes que englobam esta rubrica (só para dar um pequeníssimo exemplo: o clube fica a ganhar alguma coisa na prática por fazer publicidade às crónicas do Labaredas no site d'O Jogo como tenho visto? Qual é a vantagem para o FCP que haja eventualmente mais umas quantas centenas de portistas a visitar essas crónicas por terem visto esse anúncio? Ou será que o anúncio é de borla por o Labaredas atacar tão sistematicamente outro jornal desportivo concorrente?).

Para terminar, assinalo apenas que este é um ponto de partida para discussão, uns meros bitaites de um adepto razoavelmente informado - mas que não se arroga conhecer os detalhes ao nível de quem está lá dentro, nem pouco mais ou menos.

Quer esta última frase dizer que quem está lá dentro está certo em tudo? Não necessariamente. Pode haver uma certa falta de cultura de controlo de custos (entre os mais altos dirigentes só Fernando Gomes terá alguma experiência e know-how neste aspecto); um certo síndroma que o que é de fora é que é bom com um certo empolgamento nos DVDs (nas contratações vs prata da casa); uma certa cultura de clientelismo que leve a uma distribuição de benesses mais do que desejável; o não querer "chatear-se" com certos amigos; uma certa complacência fruto das vitórias e das grandes vendas. Não seria de admirar por aí além que alguns destes elementos estivessem presentes, já que os nossos dirigentes são seres humanos como qualquer pessoa, com as suas virtudes e as suas fraquezas.

sábado, 7 de Novembro de 2009

2003 versus 2009, descubra as diferenças

Na época 2002/03 o onze-base construído por José Mourinho integrou quatro jogadores novos - Paulo Ferreira, Nuno Valente, Maniche e Derlei - e um regressado - Jorge Costa - relativamente à época anterior.
Com uma equipa nova – 50% dos jogadores de campo diferentes - o FC Porto ganhou o campeonato, a Taça de Portugal e teve um excelente comportamento nas competições europeias, deixando pelo caminho equipas como o Panathinaikos e a Lazio, tendo culminado com a vitória na Taça UEFA perante o Celtic.

Fruto do bom desempenho da equipa, no final da época vários dos jogadores do FC Porto estavam na agenda dos principais clubes europeus. Contudo, a SAD resistiu às ofertas e apenas saiu um jogador não essencial - Postiga - tendo entrado um melhor (e que já conhecia o clube) para o seu lugar - McCarthy.
Nota: Postiga marcou 14 golos no campeonato 2002/03, enquanto que McCarthy marcou 20 golos no de 2003/04.

Entre os jogadores com mercado mas que não saíram, esteve a dupla fundamental do modelo de jogo de Mourinho em termos ofensivos: Deco e Derlei.
Nota: Derlei foi o melhor marcador da equipa e um dos melhores da competição na Taça UEFA 2002/03.


Apenas com as mais-valias da transferência de Helder Postiga, o Relatório & Contas da SAD da época 2002/03 apresentou resultados fortemente negativos.

Seis anos depois...
Na época 2008/09 o onze-base construído por Jesualdo Ferreira integrou cinco jogadores novos - Rolando, Cissokho, Fernando, Rodriguez e Hulk - e um que mudou de posição - Fucile (de lateral-esquerdo para lateral-direito) - relativamente à época anterior.
Com uma equipa nova – 60% dos jogadores de campo diferentes - o FC Porto ganhou o campeonato, a Taça de Portugal e teve um excelente comportamento nas competições europeias, deixando pelo caminho equipas como o Fenerbahçe, o Dinamo Kiev e o Atlético Madrid, tendo chegado aos quartos-de-final da Liga dos Campeões onde foi eliminado (dificilmente) pelo tri-campeão inglês e campeão europeu em título – Manchester United.

Fruto do bom desempenho da equipa, no final da época vários dos jogadores do FC Porto estavam na agenda dos principais clubes europeus. Contudo, a SAD resistiu às ofertas e apenas saiu um jogador não essencial - Cissokho - tendo entrado uma boa alternativa (talvez melhor) para o seu lugar - Álvaro Pereira.

Entre os jogadores com mercado mas que não saíram, esteve a dupla fundamental do modelo de jogo adoptado por Jesualdo nas épocas 2008/09, 2007/08 e 2006/07 - Lucho e Lisandro.
Nota: Lisandro foi o melhor marcador da equipa e um dos melhores da competição na Liga dos Campeões 2008/09.


Apenas com as mais-valias da transferência de Ricardo Quaresma (efectuada em 01/09/2008), o Relatório & Contas da SAD da época 2008/09 apresentou resultados negativos.

É impressionante o paralelismo mas, conforme sabemos, a história da época 2008/09 teve um final diferente. Há, aliás, um exemplo que é elucidativo. No final da época 2002/03, a SAD teve argumentos para segurar Deco mais uma época (apesar do pré-acordo que o mágico tinha com o Barcelona) e todos sabemos como ele era fundamental na equipa e foi fundamental na caminhada para Gelsenkirchen. Contudo, no final da época 2008/09 a SAD já não teve argumentos, ou não quis, segurar o também fundamental esteio do meio-campo – o capitão Lucho Gonzalez -, apesar do próprio el comandante ter dado fortíssimas indicações de que via com bons olhos a sua permanência na Invicta e do Marselha não ter o “sex-appeal” do colosso catalão.

O que mudou na politica desportivo-financeira da SAD e que, ao contrário de Mourinho em 2003/04, impediu Jesualdo em 2009/10 de beneficiar da continuidade do trabalho de maturação da equipa que tão bem tinha construído na época anterior?

Será que a administração da SAD não acreditou no potencial da equipa que em Março de 2009 calou Old Trafford?


É pena que a SAD não tenha arriscado (reconheço que não vender Lucho e Lisandro seria um risco) e feito uma aposta semelhante à que fez há seis anos atrás, porque eu estou convencido que essa equipa tinha uma boa margem de progressão e, com uns retoques, poderia esta época voltar a levar-nos a uma meia-final ou final da LC.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Abram os "trincos", por favor


Fernando,

Não acredito que já não te recordes dos tempos de criança, dos tempos do futebol de rua, do lado de lá do Atlântico.
Lembras-te de como todos queriam jogar na frente e mandavam os mais gorditos ou mais desajeitados para a baliza?

Certamente que te recordas.
Aliás, estou em crer que foi por essa altura que alimentaste o sonho de ser futebolista quando fosses grande. Futebolista profissional.
Tenho a certeza que era a coisa que mais gostavas de fazer na vida:
Cada hora livre era sinónimo de bola.

E conseguiste mesmo.
Aliás, conseguiste bem mais do que sonhavas: selecção primeiro e depois um grande clube da Europa.

O que eu te pergunto é: agora que cimentaste o teu lugar de titular absoluto do FCP, e por toda a gente são reconhecidas as tuas brilhantes capacidades de "tampão" às incursões adversárias, como é que consegues passar épocas inteiras sem te aventurares, um bocadinho que seja, no outro lado do campo?
Mas será que é mesmo possível, alguém que ama o futebol como tu, conseguir passar horas e horas e não ter nunca o desejo de completar a outra metade da sua função, ou seja, atacar?



Eu sei que isso tem muito de "ordens superiores", mas onde fica, então, o fascínio do risco e da aventura, que são a beleza deste desporto, inigualável por qualquer outro?

Vai lá à frente, tal como fazias nos joguinhos com os teus amigos, mostra o que vales e vais ver que nenhum treinador pode fazer nada contra. Isto quando existe mesmo qualidade.

Em bem sei que a posição de trinco é sobrevalorizada, mesmo quando só se faz metade do trabalho, qual jogador de andebol, mas não te deixes levar pela cantiga da sereia: nos outros campeonatos de mais alto nível, exigem bem mais a um "trinco" do que apenas saber defender.

Fernando, meu amigo, viste aquele jogão do Essien contra nós em Londres?
Não acredito que não seja tua meta jogar assim um dia.


Olha que de Carlos Paredes, está o futebol cheio.

Dá uma saltada ao youtube na net (nem precisas da RTP Memória) e vê lá uns resumitos dos jogos mais marcantes do FCP na década de 80.

Sim, esse André que vês a jogar bem próximo da área adversária era também ele um "trinco" como tu.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

A fuga para a frente no seu esplendor - parte II

Este artigo aborda uma comparação entre a saúde financeira das SADs do FCP e do slb (que publicou agora as suas contas referentes a 08/09, com um prejuízo de 34,9 milhões de €).

Uma frase que tenho ouvido por várias vezes desde o Verão é: "nada de novo, o slb estica a corda ano após ano e vai-se safando". Ora antes de mais isto é um mito que convém arrumar: aquilo a que estamos a assistir não é, de todo, "business as usual".

Nas 4 épocas anteriores (i.e. desde que fomos campeões europeus, e grosso modo desde que o LFV está à frente do clube, até Junho do ano passado) a slb SAD por acaso tinha feito melhores resultados financeiros do que a FCP SAD: os resultados acumulados nesse período foram de 21 milhões de prejuízo no nosso caso e 8,3 milhões de lucro no caso deles. Não se pode portanto dizer que seja normal que o slb "estique a corda" financeiramente.

O que o adepto comum por vezes se esquece é que se nós temos encaixado muito mais dinheiro em vendas de jogadores, também temos tido um défice crónico (devido a salários, etc) bem mais elevado, além de também termos re-investido grandes quantias em novos passes de jogadores.

Estaríamos, portanto, mais ou menos com a mesma saúde financeira que o slb aqui há uns meses (pelo menos a nível de SAD; já a nível de clubes estávamos e estamos em muito melhor situação). No entanto, este Verão as duas SADs tomaram duas direcções bastante opostas, com o slb a encetar uma autêntica "fuga para a frente" drástica - sobre isso falei logo no fim de Julho.

É o tudo ou nada de LFV. Com a publicação das contas do slb, ficamos hoje a conhecer melhor a dimensão do "gap" que se abriu entre eles e nós.

Comecemos pela tesouraria: a 1 de Julho, o saldo entre dívidas e créditos de curto prazo (i.e. com prazo até Junho próximo) era negativo de 46 milhões no nosso caso. Entretanto deve já ter entrado em caixa uns 15 a 20 milhões de euros das vendas de Lisandro, Cissokho e Ibson; tendo ainda em conta que pelos vistos vamos emitar novo empréstimo obrigacionista (que deve andar, imagino, pelos 20 milhões), adiando parte da dívida, e que mais alguma tranche das vendas de Verão deve chegar nos próximos 9 meses, concluo que ficamos com uma situação que dá para respirar até Junho próximo.

Já no caso da slb SAD o "gap" de curto prazo era, a 1 de Julho, de 96 milhões (!). Entretanto contrataram mais um ou outro jogador e não venderam ninguém. Terão eventualmente encaixado até cerca de 30 milhões com a venda de uma % considerável de passes a um misterioso fundo de investimentos, mas sobra ainda um "gap" de pelo uns bons 60 milhões de € que não estão previstos em lado nenhum. O mais provável é que assista a um rollover das dívidas ou receitas futuras antecipadas da parte de uma Centralcer qualquer, mas a situação fica de qualquer forma muito mais apertada para o futuro.

Passando à demonstração de resultados, é interessante verificar a evolução da situação estrutural das duas SADs. Nos anos anteriores o FCP precisou sempre de encaixar bastante mais dinheiro em mais-valias (nas vendas de jogadores) do que o slb para não fazer prejuízo (por ex, em 07/08 nós precisávamos de mais-valias de 27,3 milhões para não fazer prejuízo, enquanto o valor equivalente no caso do slb era de 12,8 milhões), mas em Junho ultrapassaram-nos: os valores em 08/09 eram respectivamente de 34,9 milhões no nosso caso, e 40,4 no caso deles. Como atenuante, reconheça-se no entanto que devemos ter encaixado cerca de 10 milhões a mais do que eles na Europa, mas mesmo assim... a partir de agora têm que vender tanto como nós, ou mais.

Olhando para os detalhes, isto é devido em parte a uma estagnação nas receitas do slb, já excluindo vendas de jogadores (em 08/09 foram mais baixas do que em qualquer um dos 3 anos anteriores), enquanto as nossas aumentaram 30% (em parte porque fomos aos 1/4s da LC, mas não só); e acima de tudo devido a uma progressão muito mais rápida do que nós nos "custos com pessoal" (salários,...) - passaram de 27 para 37 milhões em 2 anos - amortizações de passes de jogadores - subiu 7,5 milhões no espaço de 1 ano - e em menor medida aumentos em FSE (3 milhões) e juros (1 milhão).

Entre outros pormenores deliciosos em 08/09 de que ficámos agora a saber, destaco a compra de 50% do passe de Mantorras por 2 milhões (provavelmente para fazer grande lucro quando o venderem por 90, como outrora apregoado), e 2 milhões de indemnizações a Quique & equipa técnica.

Concluindo, a não-qualificação para a Liga dos Campeões na próxima época deixará o slb em muitos maus lençóis. É caso para dizer que não há luz ao fundo do túnel...

Quanto a nós, como já disse anteriormente há 3 semanas, se não estamos propriamente mal acho que podíamos estar melhor, principalmente nos custos - afinal de contas, o défice estrutural até aumentou no último ano, logo se estamos ok até Junho, não estamos lá muito precavidos para o futuro. Analizando em detalhe as nossas contas, penso que poderíamos poupar 10 a 15 milhões/ano nos custos sem comprometer a competitividade desportiva (pelo contrário, esses valores poderiam ser reinvestidos nessa mesma competitividade - imaginem se pudéssemos praticamente evitar cada ano a venda de um Lucho, ou equivalente). Continuamos a ter, por exemplo, custos com pessoal cerca de 10 milhões/ano superiores ao do slb.

Mas temos neste momento uma estratégia muitíssimo menos arriscada do que eles, comparativamente falando. Se o eventual afastamento da LC poderia fazer alguma mossa no nosso caso, no caso deles seria uma enorme machadada. Ou muito me engano ou daqui a 2 ou 3 anos vou ver a maioria dos benfiquistas a dizer cobras e lagartos de LFV, da mesma forma que mudaram de opinião do reinado de V&A depois de... ele sair.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Oitavos vezes 4


Há clubes portugueses para os quais a disputa das pré-eliminatórias de acesso à Liga dos Campeões (LC) é um semi-sucesso e a participação na fase de grupos é vista como um feito que merece ser assinalado.

Há mesmo clubes para quem a miragem de uma participação na maior competição de clubes do Mundo justifica a utilização de todos os meios, incluindo a tentativa de apuramento via secretaria. Vocês sabem de quem é que eu estou a falar...

No caso do FC Porto, cliente habitual desta Liga milionária, há muito que a mera participação na LC deixou de ser vista como algo a relevar. Mais. Para uma fatia significativa dos adeptos portistas, cujo nível de exigência é cada vez maior, a participação na fase de grupos e a passagem aos oitavos-de-final é quase uma obrigação.

De facto, desde que Jesualdo Ferreira assumiu o comando técnico do FC Porto tornou-se um hábito o FC Porto ficar em 1º ou 2º lugar do grupo, mas nem sempre foi assim. Vejamos qual é o historial do desempenho do FC Porto na Liga dos Campeões:

1992/93 - 1ª fase
1993/94 - Meias-finais (1)
1995/96 - 1ª fase
1996/97 - Quartos-de-final (2)
1997/98 - 1ª fase
1998/99 - 1ª fase
1999/00 - Quartos-de-final (3)
2001/02 - 2ª fase (3)
2003/04 - VENCEDOR
2004/05 - Oitavos-de-final
2005/06 - 1ª fase
2006/07 - Oitavos-de-final
2007/08 - Oitavos-de-final
2008/09 - Quartos-de-final
2009/10 - Oitavos-de-final (ainda em prova)

(1) Em 1993/94 o FC Porto apurou-se directamente da fase de grupos para as meias-finais.

(2) Em 1996/97, passar a primeira fase (fase de grupos) correspondeu ao apuramento para os quartos-de-final.

(3) Em 1999/2000 e em 2001/02, passar a 1ª fase de grupos valeu a qualificação para uma segunda fase de grupos e na primeira ocasião o FC Porto passou esta 2ª fase e chegou aos quartos-de-final.


Eu imagino o que se diria se Sporting ou Benfica tivessem atingido, pela quarta vez consecutiva (!), os oitavos-de-final da Liga dos Campeões.

Fonte: PÚBLICO

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Apuramento garantido

O FC Porto venceu esta noite o Apoel Nicosia por 1-0 e apurou-se para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. O apuramento portista à 4ª jornada é um feito notável que contrasta com as descoloridas exibições dos pupilos de Jesualdo no grupo D da liga milionária.

Vindo de um empate caseiro acrescido de recentes exibições medíocres, exigia-se um Porto com mais atitude, mais velocidade e capaz de pressionar. Se é justo dizer que os jogadores apresentaram-se mais motivados, o futebol praticado continuou a ser mastigado, sem imaginação e à base de golpes fortuitos. Do lado contrário, o Apoel não supreendeu, mostrando-se forte na defesa, mas muito inexperiente nestas andanças milionárias revelando pouca capacidade para ameaçar o FC Porto.

A exibição foi apagada e o jogo aborrecido com alguns momentos de registo, destancando-se a perdida inacreditável de Hulk isolado frente ao guarda-redes Chiotis. O mais preocupante nesta situação é que já esta época Hulk teve uma perdida idêntica e é preocupante que a equipa técnica não seja capaz de identificar estes defeitos do futebol do jovem brasileiro, de modoa poderem treinar especificamente estes pormenores pequenos mas importantes. Noutras situações e com outros protagonistas, estes falhanços isolados já nos custaram vitórias nesta mesma competição.

Falcão também voltou a falhar um golo aparentemente fácil, redimindo-se já no final da partida, aos 83 minutos, onde mostrou todo os seus dotes de avançado. Uma recepção de bola que tira o adversário da frente e um remate cruzado e rasteiro à entrada da área, como mandam os livros. Um grande e decisivo golo, aproveitando o empate entre Atlético e Chelsea em Madrid.

A vitória é justa e o apuramento premeia a segurança, experiência e paciência demonstrada pelo FC Porto nos jogos contra o Atlético e Apoel. Esperemos que o resultado obtido traga mais confiança e força à equipa e que o apuramento crie condições para vermos um Porto atacante, solto e descomprometido contra o Chelsea e Atlético. Mas para já, voltamos ao muito trabalho que temos pela frente para vencer na Madeira.

Bolsa de apostas - IV

Para o jogo de hoje, com o APOEL, as casas de apostas vêem as coisas assim:

Probabilidade de Vitória do FC Porto: 56%
Empate: 26%
Derrota: 18%
O resultado mais provável é 0-1 (15,4%), com golo de Falcao (43,4%), com o Hulk a aparecer pela 1ª vez como a grande alternativa.

Ao intervalo o mais provável (33,9%) é que se fique pelo 0-0. Mas a probabilidade de estarmos a ganhar ao intervalo e também o fazermos no final do jogo é muito parecida (33%).

Entretanto a nossa probabilidade de qualificação aumentou de 68,4% para 88%, mas a probabilidade de ganharmos o grupo é somente de 16,3%.

Continuando a simular a aposta de € 1,00 sempre a favor do FCP, a coisa está assim:



segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Mudar de paradigma

Não concebo que uma equipa com a grandeza do FCP baseie o seu modelo de jogo nas transições rápidas. Nem acho que JF limite a estrutura táctica do FCP a uma mera situação conjuntural do jogo.

Parece-me que qualquer táctica prevê um conjunto de acções que favoreçam situações de vantagem para delas tirar o máximo de proveito. As transições rápidas - o contra ataque – é uma dessas expressões. Que a equipa as saiba provocar é absolutamente essencial. Nada contra isso, portanto.

Mas a organização de jogo do FCP não pode estar refém do modelo, porque aos adversários não é assim tão difícil contrariar um sistema que se rotina excessivamente. Defender é muito mais fácil e um autocarro em frente da baliza é sempre complicado para ultrapassar. O FCP aparece frequentemente apático, com baixa intensidade de jogo e raramente cumpre os 90 minutos ao nível exigido a um campeão.

E parece que ou o FCP corre pouco ou então corre mal. No último jogo com o Belenenses pude verificar uma situação insólita e ridícula : Farías a correr de um lado para o outro a tentar pressionar a defensiva adversária de forma absolutamente isolada. Nenhum colega o acompanhou, nem a equipa foi capaz de subir e de encurtar o espaço entre linhas. O que é isto ? Para que serve ? Como ganhar bolas se não se consegue colocar qualquer problema ao adversário, que se fortalece à medida que o tempo passa, mesmo que seja muito fraco.

Também no jogo com o Belenenses acompanhei a movimentação de Beluschi e não percebo como se pode ter posto a jogar alguém que me pareceu fisicamente tão em baixo. Quase sempre colado ao Fernando, não foi capaz de subir e criar desequilíbrios e muito menos de pressionar. Foi uma jogador a menos. Já basta o Fernando que é um excelente tampão, mas ainda falha muitos passes e raramente se aventura para além do meio campo.

Como exemplo de desperdício, de mau aproveitamento ou de dificuldade de integração, destacaria a escolha de Prediger que contra o Sertanense jogou devagar, devagarinho e parado e não saiu do seu meio campo. Não falhou passes, mas foram sempre curtos e laterais. Será que este jovem só é capaz de cumprir este tipo de tarefas ? Foi táctico ? Para que serve um tal reforço ? É este o perfil de jogador que procuramos para o meio campo ? Custou 3,5m€, não deveria ser um pouco melhor ou estamos apenas a treiná-lo para regressar à Argentina na condição de emprestado como Bollati ?

Nesse jogo, gostei bem mais do miúdo dos juniores que jogou no meio campo. Bons pés, boa movimentação, atrevido e com visão de jogo. Um jogo é pouco para tirar conclusões, mas é tempo de ser arrojado e dar aos miúdos oportunidades, nomeadamente quando os ditos consagrados criam pouco e correm menos.

Quando comecei a ver futebol, as equipas jogavam num 3X2X5, todos ao ataque e fé em Deus. Os ingleses trataram de introduzir o WM como via para um maior equilíbrio entre as acções ofensivas e defensivas, com o clássico 3-4-3 ou mais especificamente o 3-2-2-3, porque mantinha três jogadores na defesa, três no ataque, com quatro homens no meio campo (dois auxiliando a defesa; dois, o ataque. O 4x4x2 chegou a Portugal com Otto Glória e Yustrich. Em Itália o Herrera consolidou o catennacio, um 5X4X1 com um libero para apagar os fogos. A Laranja Mecânica da selecção holandesa revolucionou o futebol com o seu “carrossel” onde os jogadores não guardavam posições e faziam passar a bola de pé em pé até chegar ao golo. O 4x3x3, o 4x4x2, o 4x2x3x1, os 3x3x4 ou 3x4x3 do nosso Adriaanse, são alguns dos modelos tácticos que evoluíram dos que estiveram na moda no passado e lhes serviram como fonte de inspiração. Hoje, são o 4x3x3, o 4x4x2 (que inclui a sua versão de 4x4x2 losango) os modelos preferidos. Iremos continuar a evoluir na continuidade. Não prevejo revoluções, nem mesmo grandes novidades.

No futebol não há muitos segredos e a evolução incide mais na metodologia de treino, na gestão do esforço , na recuperação da fadiga e na sofisticação dos processos para melhorar a componente física. Contudo, há uma certa tendência de ver na táctica e na mão do treinador todas as soluções. Não estão ! JF é sério, competente, rigoroso, profissional e inteligente. Falta-lhe, provavelmente, o "instinto matador" e sentir o grau de reconhecimento que dá confiança e auto-estima, que um líder passa e partilha com os comandados.
Reconheço que é frequente o FCP exibir-se bastante mal e perante adversários teoricamente muito mais fracos. Os últimos jogos no Dragão foram muito mauzinhos. Só resiste à sonolência e insiste em estar presente no Dragão quem o faz com espírito de missão, por ser postista.

Em defesa de JF diria que o FCP tem um plantel curto neste momento, para um a prestação equilibrada nas diversas frentes. Poucos avançados e muitos lesionados trouxeram problemas acrescidos ao treinador. Há muita acomodação na equipa do FCP. De qualquer forma, considero que o ciclo JF se esgotou, porque provavelmente se esgotou o aval da direcção, a disciplina dos subordinados e a paciência dos sócios.

Óculos de Penafiel encarnados


"Depois de ter sofrido o golo, o Benfica foi à procura do empate e conseguiu-o pelo Luisão. O golo foi legal, e só não foi real porque o árbitro o invalidou. Já vi as imagens várias vezes"
Jorge Jesus

"Para ganhar ao Benfica, para além de suarem muito, as equipas precisam de ajuda"
Luisão

"Anularam-nos um golo. Não sei porque é que o anularam"
Aimar

As imagens do pretenso golo anulado ao SLB já foram repetidas N vezes pelo canal que transmitiu o jogo (SportTv) - nisso Jesus tem razão - e mostram, de forma claríssima, a falta de Cardozo (está a agarrar a camisola de Leone). É um daqueles lances em que não há qualquer margem para dúvidas, como aliás é reconhecido, de forma unânime, pelo 'Tribunal de O JOGO'.

"Foi um lance muito bem avaliado pelo árbitro. Cardozo, com a mão esquerda, agarrou a camisola de Leone, inviabilizando que este saltasse e conseguisse jogar o esférico. Não pode nem deve haver polémica alguma quanto à decisão do árbitro."
Jorge Coroado

"Cardozo puxa a camisola a André Leone e Luisão empurra-o. Foram duas infracções numa só, tratando-se por isso de uma decisão certa."
Rosa Santos

"Podemos observar que Cardozo, com a mão esquerda, puxou a camisola do adversário. Conseguiu o árbitro ver o lance e, como tal, considerou infracção do jogador do Benfica."
António Rola


Eu bem sei que este "Benfica triturador" está viciado no doping do apito encarnado. Ele é as faltas sacadas nas imediações da área adversária, os penalties à moda de Aimar ou Saviola, os amarelos e expulsões de jogadores da outra equipa, etc. Mas, ao contrário de Leiria, em que ganharam à custa de um erro de arbitragem, desta vez o árbitro Jorge Sousa estava atento e não se deixou enganar pelos especialistas da simulação. Azar!
Mas não desanimem, é tudo uma questão de voltarem à estratégia vieirista de fazer as coisas por outro lado, de modo a que o amigo Vítor Pereira nomeie árbitros mais "compreensivos"...

Até lá, e para evitarem cair no ridículo, recomendo ao Jesus e seus muchachos que tirem os óculos encarnados, ou serão óculos de Penafiel?

P.S. «Quando o árbitro apitou para o intervalo, Di María chutou a bola contra o banco bracarense e cuspiu na direcção de Domingos», in Record
Será que Jesus viu esta atitude do seu craque argentino? E o Dr. Ricardo Costa, continua a ver os jogos do seu SLB com óculos encarnados?
Ficamos à espera de saber se esta atitude de Di Maria vai ter alguma consequência disciplinar ou, tal como o penalty simulado por Aimar no SLB x Nacional, se também vai ficar impune.

domingo, 1 de Novembro de 2009

Modelos e expectativas


A propósito da saída do Lucho e do Lisandro, publiquei um artigo no dia 8 de Julho com o título ‘A melhor dupla de tango argentino’, em que escrevi o seguinte:

«Por melhor que sejam as adaptações dos novos jogadores, nem daqui a um ano vai ser fácil atingir o nível de entendimento que existia na dupla Lucho-Lisandro, os quais já jogavam de olhos fechados, qual maravilhoso par argentino a deslizar sobre tapetes verdes dançando o tango.
Inclusivamente, não sei se Jesualdo não terá de rever o seu 4-3-3 baseado em transições rápidas, visto que Lucho e Lisandro eram interpretes fundamentais para este modelo de jogo.»

Dois dias depois, a 10 de Julho, publiquei um outro artigo sobre o novo camisola 8 do FC Porto e anunciado sucessor de Lucho, em que escrevi:

«Sinceramente, não estou à espera que o Belluschi atinja o nível do Lucho. Por alguma razão o Marselha preferiu gastar 18 milhões num jogador de 28 anos, em vez de “apenas” 5 milhões num de 25 anos.»

No início do campeonato, a 22 de Agosto, publiquei um artigo premonitório a que chamei ‘Uma equação de resolução complicada’ e, em termos daquilo que eu já na altura entendia serem os principais problemas, está lá tudo:
1) a saída da melhor dupla argentina que passou pelo futebol português
2) o substituto do Lucho e o modelo de jogo
3) as revoluções sucessivas no plantel
4) a difícil integração dos jogadores sul-americanos
5) as implicações dos jogos e viagens das Selecções

A tudo isto, que escrevi há meses atrás, acrescentei mais alguns aspectos no artigo ‘O cabo das tormentas’, que publiquei nesta semana, nomeadamente a vaga de lesões que assolou o plantel.

Todos estes argumentos servem para desculpabilizar as más exibições (piores que os resultados) que a equipa tem tido neste início de época?
Não, mas servem para enquadrar e para ajudar a explicar algo que a todos os portistas custa a aceitar: provavelmente, esta época o grupo de trabalho (este treinador + este plantel) não reúne as condições necessárias para que o FC Porto renove o seu título de Tetra-campeão.
E não é por causa da euforia encarnada que o digo porque, de forma reiterada, já tinha chamado à atenção para os problemas no arranque da época e no início do campeonato.

Muitos portistas, incluindo vários dos meus amigos, não têm dúvidas: Jesualdo Ferreira é o principal, senão único, responsável por tudo o que de mau a equipa tem feito nesta época.
Mais. Há quem vá ao ponto de dizer que o sucesso alcançado por Jesualdo nas três últimas épocas não foi mérito dele, mas sim dos grandes jogadores que integravam o plantel.
Mas então Bruno Alves, Meireles, Rodriguez, Hulk, Belluschi, Falcao, entre outros de menor nomeada, não são craques a sério, pagos a peso de ouro e com mercado (leia-se clubes interessados)?
Um orçamento superior a 80 milhões de euros, o mais elevado de sempre do futebol português, não pressupõe que o plantel seja composto por grandes jogadores, ou será que a SAD comprou “gato por lebre”?

Tal como fiz noutras alturas, não tenho dúvidas em afirmar que o principal responsável pelo comportamento da equipa é o treinador mas, dizer-se que o mérito dos sucessos foi sempre dos jogadores e a culpa dos fracassos é unicamente do treinador, parece-me um contra-senso insanável, a não ser que entendamos que o Jesualdo desaprendeu e está a ficar senil.


E os jogadores, são apenas vitimas do “tenebroso” modelo de jogo do Jesualdo?
Se assim é, porque razão Meireles, Rodriguez e Hulk estão esta época a jogar muito pior e a ter menos influência na equipa do que tinham na época passada? O modelo de jogo não é o mesmo?
E o que se passa com Falcao que, aparentemente, nos primeiros jogos se deu às mil maravilhas com o modelo de jogo da equipa (ao ponto de Pinto da Costa ter agradecido aos olheiros do SLB...) e nos últimos três – APOEL, Académica e Belenenses – esteve absolutamente desastrado, falhando golos fáceis com a baliza escancarada?

O treinador, reafirmo, é o responsável número um e, concerteza, que terá muitas culpas, nomeadamente por não ter sabido adaptar o sistema/modelo de jogo da equipa à fase pós-Lucho. Mas, nesta altura da época, não seria de esperar mais de vedetas principescamente pagas como Meireles, Hulk, Rodriguez, Falcao ou Belluschi?

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Miséria


Hoje foi o corolário lógico de uma série de jogos a jogar um péssimo futebol. Foi penoso demais para o adepto ir ao Dragão ver os três últimos jogos. Agora já não desculpas. Já não serve de justificação às paupérrimas exibições a desculpa das lesões, nem o cliché da “equipa em construção”, nem a saída de jogadores nucleares, nem a má forma física de alguns jogadores. Simplesmente não há mais desculpas. O modelo de jogo de Jesualdo faliu. E já faliu há muito tempo, com a particularidade de terem sido os jogadores de grande nível a disfarçar a pobreza do jogo de Jesualdo Ferreira.
Não há capacidade para criar jogo ofensivo, não há pressing sobre o adversário, não há movimentações e combinações ofensivas, não há meio-campo dominador, não há eficácia nas bolas paradas, não há nada a não ser bola nos centrais e pontapé para a frente. É o deserto total de ideias. Assim nem com um orçamento de 80 milhões vamos lá. Temos um plantel cheio de craques e não jogamos nada. Se o modelo é assim tão imutável como Jesualdo tem feito crer publicamente então mude-se o treinador no fim da época. Esta forma de jogar e de ver o futebol já deu o que tinha a dar.

Quem brinca com o fogo...


Jesualdo Ferreira, nas considerações que fez à anterior partida do campeonato, diante da Académica, reconheceu que a equipa teve uma má prestação na 1ª parte nesse encontro, sendo que tal situação não poderia voltar a repetir-se. Perante esta observação do treinador portista, é inconcebível que os seus jogadores voltem a cometer o mesmo pecado no jogo de ontem com o Belém, volvidos que estão apenas 5 dias da partida transacta. Parece que naquele balneário não se aprende com os erros.

Tal como no Domingo passado, os primeiros 45 minutos do FC Porto na noite passada foram enfadonhos, lentos, previsíveis, sem ritmo, velocidade, dinâmica. Em suma, sem qualquer adjectivo bom que se possa classificar. Pelo contrário. Para aquele 1º tempo, a equipa e seu treinador mereciam ouvir das bancadas do Dragão o mais requintado português de salão tão querido nos bairros mais carismáticos da nossa cidade Invicta. Nem o retorno – pouco feliz – de Belluschi foi suficiente para incutir mais magia ao jogo azul e branco. Este FC Porto revela na sua génese uma gritante falta espontaneidade.



E quando não se retira ensinamentos com erros passados, eis que Lima, logo no recomeço do 2º tempo, mostra aos homens de Jesualdo o quão caro se pode pagar com as mesmas falhas. O Dragão, a frio, fica em desvantagem no marcador. E se a tarefa com um empate já parecia complicada, o murro no estômago que FC Porto levou, tornou a missão ainda mais complexa. Falcão por esta altura já fazia companhia a Farias na área. Com o resultado adverso, Jesualdo prescindiu do lateral menos ofensivo, Sapunaru, para alargar mais a frente de ataque com Rodriguez. O Porto carregou no pedal um pouco, mostrou como este Belém ate é fácil de contornar, chegando ao empate. Havia tempo para dar a volta ao marcador. E engenho?

Até ao final o Dragão jogou muito com o coração, mas com pouca objectividade. O perigo rondou a baliza de Nelson, mas sempre à custa de lances mais ou menos previsíveis, cruzamentos disparatados e intensidade desconexa. A verdade é que estes jogadores parecem não se estar a dar bem com a fórmula que Jesualdo implementou desde que chegou ao FC Porto. Os intérpretes agora são outros, com características bem distintas, pelo que poderá ter chegado a hora de o Professor começar seriamente a ponderar a implementação de um novo modelo que vá mais de encontro ao seu actual plantel.



Fica para o fim desta crónica, mas ate poderia ser no inicio, a marca que a equipa de Olegário Benquerença deixa neste jogo ao minuto 25. A anulação do golo a Farias nunca poderia ter acontecido, pois o Argentino, apesar de estar em posição de fora de jogo, recebe a bola proveniente do corte do defesa central do Belenenses Gavilan. Claro que isto é assunto que não será objecto de menção dos pasquins do costume. Infelizmente nem merece ser, porque se este FC Porto quer ganhar os seus jogos, tem de fazer muito mais do que fez esta noite.

Fotos: uefa.com, Getty Images

SMS do dia - LXXXIV

Exercício de matemática: 4 + 3 + 3 = Zero

Repetir 3x


PS: Alguém viu um treinador tetracampeão por aí?

Passadeira encarnada


Benfica x Marítimo
1 penalty (quando o resultado estava em 0-1)
6 cartões amarelos

V. Guimarães x Benfica
1 penalty (quando o resultado estava em 0-0)
4 cartões amarelos
2 expulsões (ambas por acumulação de amarelos)

Benfica x V. Setúbal
1 penalty
6 cartões amarelos

Belenenses x Benfica
2 cartões amarelos

U. Leiria x Benfica
1 penalty (quando o resultado estava em 1-1)
3 cartões amarelos

Benfica x Leixões
1 penalty
7 cartões amarelos
1 cartão vermelho directo
2 expulsões (uma por acumulação de amarelos)

Paços Ferreira x Benfica
3 cartões amarelos

Benfica x Nacional
2 penalties
8 cartões amarelos
2 expulsões (ambas por acumulação de amarelos)


7 penalties a favor do SLB, juntamente com 39 cartões amarelos e 6 expulsões de jogadores das equipas adversárias, são números que poderão ter muitas interpretações.

Significa isto que os encarnados estão a ser levados ao colo?
Há quem diga que sim. Eu, para já, limito-me a constatar factos que retratam a realidade ao fim de oito jornadas.
É cedo para tirar conclusões definitivas, mas não é normal que uma equipa beneficie de praticamente um penalty por jogo e, simultaneamente, os adversários sejam penalizados com tantos cartões e expulsões.

Nota: Se houver algum erro nestes números, agradecia que o mesmo nos fosse reportado para que pudéssemos corrigir.