
Pela voz de um conhecido promotor castelhano de espectáculos de circo, F. Perez, a peregrina ideia da “Superliga Europeia” voltou à “actualidade noticiosa”. Uma coisa me deixa logo de pé atrás quando se fala desta competição: é que, curiosamente, tanto o Sr. Perez como todos aqueles que antes ou agora defendem esta ideia, nunca o fazem alegando benefícios de ordem desportiva. É de facto bizarro a ideia de uma competição desportiva ser apenas defendida com base em argumentos de ordem financeira. Decerto isto significa que, desportivamente, pouco há a dizer em abono de uma prova desta natureza. E, de facto, uma coisa é vermos algumas vezes por época pela televisão as principais equipas europeias a defrontarem-se, ou recebê-las no nosso estádio, outra bem diferente seria isso passar a ser um acontecimento semanal. Estou em crer que, passada a novidade, o sucesso da prova não seria assim tão retumbante. O que torna a Liga dos Campeões especialmente apetecível é também o facto de se “fazer rogar”, de não ser uma rotina semanal. Para isso existe o “rame-rame” semanal dos campeonatos nacionais.

O conceito da “Superliga Europeia” fora enterrado com o alargamento da Liga dos Campeões, garantindo às ligas mais fortes quatro presenças na competição. Ninguém tem voltado ao assunto nos últimos anos, tendo a ideia apenas regressado à superfície, como referido no início, pela boca do mencionado empresário de espectáculos circenses. Mas não me parece que tenha, neste momento, pés para andar, ainda para mais vinda de quem vem, um personagem olhado de esguelha pela maioria dos outros principais clubes da Europa.
A mais grave consequência previsível da criação desta competição seria a morte das ligas nacionais, pelo menos tal como agora existem. O futebol não pode sobreviver sem a solidez da sua "pirâmide". Se a base ruir, o topo cairá também.
Nós portistas gostamos de atacar Benfica e Sporting e de vê-los pelas ruas da amargura, mas, no fundo, sentiríamos a falta deles se deixássemos de jogar contra eles regularmente. Precisamos deles um pouco como o Mouzinho precisava do Gungunhana em Chaimite, é verdade, mas também é dessas rivalidades que se alimenta o futebol. Basta ver, por exemplo, que, na Premier League, os grandes derbies de Liverpool, Manchester e Londres têm regularmente maiores assistências que a maioria dos jogos em casa das equipas inglesas na Liga dos Campeões, e, mesmo por cá, temos melhores assistências contra o Benfica e o Sporting que em muitos jogos da LC. Uma coisa é o gozo que dá ganhar a esses clubes, outra, bem diferente, seria ganhar a Man. U., Real Madrid ou Milan: saboroso, sem dúvida, mas sem aquele gozo interior que transborda à 2ª feira de manhã para o colega de trabalho que tem o azar de ser benfiquista ou sportinguista. E mesmo sob o ponto de vista estritamente financeiro, se tal competição nos permitiria alcançar maiores receitas, também, provavelmente, ela serviria para cavar ainda mais o fosso que nos separa dos clubes mais ricos da Europa, pois nada faz crer que a distribuição das receitas provenientes dos direitos televisivos viesse a ser feita de modo diferente do actual, isto é, privilegiando os clubes de países mais populosos e com, consequentemente, maiores mercados televisivos.
Na minha opinião, aqueles que, por essa Europa fora, possam achar que o futuro do futebol está numa superliga, podem perceber muito de cifrões e de marketing, mas não percebem nada das paixões e dos valores desportivos de quem gosta mesmo de futebol. Acho que, ao deixarem-se fascinar pelos milhões que uma superliga poderia dar a ganhar aos seus clubes, estão essencialmente a olhar para o curto prazo e para o seu umbigo, esquecendo o futuro do futebol em geral.




















