Por Pedro Carriço (*)
Desde 2005 que resido no Brasil e, sempre que posso, tento acompanhar o futebol em Portugal. Recentemente, e apesar de já ter passado muito tempo desde a minha última visita ao dragão, consegui acompanhar mais o clube do
que nos primeiros tempos por cá. Há coisas que estão a mudar, por conta do fenómeno da Internet, que teve abertura explosiva há uma década e cujo potencial era essencialmente desconhecido mas que criou uma onda de especulação generalizada sobre o Mundo que seria, nessa altura, para o dia do amanhã. O que sucedeu foi que a uma expectativa tão elevada de mudança repentina do Mundo como o conhecíamos, sucedeu um balde fria que foi a constatação que por muito rápida que viesse a ser, não seria tanto quanto já imaginariam aqueles analistas de acções que olhavam para as tecnológicas, dos media e telecomunicações.
Na verdade o Mundo mudou, e tem mudado de forma rápida, talvez não tanto como se previa nos idos anos de 1999 ou 2000 mas foi rápida o suficiente. Eu, sem assinar a SportTv, ou algum canal por cabo, tenho assistido regularmente a jogos do Porto, não com a qualidade de um LCD que recebe o sinal directamente da box, mas para lá caminha. A única coisa que eu tenho é uma fiável ligação à Internet e depois uns cabos que passam o sinal para a TV. Quase me sinto como em tempos, quando combinava com uns amigos para ver uma partida no café mais próximo. O que é curioso é que apesar da extensa oferta de futebol neste lado do Atlântico, raramente me sinto motivado para ver um jogo de um Corinthians, ou um do Cruzeiro ou, para falar da região em que resido, de um Bahia ou de um Vitória. Consigo explicar isso porque a relação que tenho com o futebol toca em questões de emoção antes ainda do simples espectáculo. Não é assim com toda a gente, mas é concerteza assim comigo. A emoção às vezes ultrapassa o clube mas muitas vezes é por relação com ele, diria por exemplo que via o Flamengo quando lá jogava (e bem) o Ibson, ou então também vejo hoje com prazer Lyon ou Marselha por causa de jogadores que tanto dizem ao Porto.
O que me parece mais do que evidente é que se o mundo mudou de forma tão clara em tempos recentes, haverá ainda muito mais mudança para ver nos próximos anos. Daí que faça sentido alinhar estratégias de gestão para um Mundo muito diferente do que o conhecemos hoje. Não querendo ser profeta, diria que o modelo de gestão de qualquer um dos clubes lusos já é ultrapassado. Tem dado para sobreviver, mas não sei se por muito tempo. Apesar disso, cada um dos três grandes tem tido resultados muito desanimadores e não fossem receitas extraordinárias, teríamos já tido falências, e no caso do Benfica essa situação foi até evitada por um aumento do capital. A lógica de sustentabilidade tem passado por um papel de intermediação de activos (jogadores) entre clubes de menor capacidade financeira e os outros. Manter essa lógica significará uma de duas coisas – ou um clube se torna uma referência absolutamente atípica e brutalmente competente em qualquer canto do mundo, ou então caminhará para o definhamento.
No outro dia via referências de que o Porto sondou o Grêmio de Porto Alegre sobre um tal de Mário Fernandes – defesa central de 19 anos – oriundo do Estado de São Paulo, mas já com um ano e alguma coisa no Grêmio. O preço seria, segundo diz a imprensa, de 13 milhões de euros. Um valor absurdamente alto se pensarmos com valores de há alguns anos, ainda que possa vir a ser uma estrela e valer ainda mais. Mas existe sempre o risco de tal não acontecer. Efectivamente algo está a suceder no mundo macroeconómico global que dita novas orientações. O Brasil, típico exportador de estrelas que dariam potenciais bons negócios, vai crescer mais de 5% este ano, e tem mantido um diferencial positivo bem generoso de crescimento face às economias na Europa e em particular face a Portugal nestes últimos 6/8 anos. Para além disso, falamos de crescimentos em moeda local e descontando a inflação. Ora se pensarmos que o euro valia quase quatro reais em 2005 (agora vale 2,4), se pensarmos que a inflação tem sido em média 4/5% aqui e ainda pusermos em cima o crescimento maior no Brasil, rapidamente chegamos à conclusão que o valor de 13 milhões de euros seria o equivalente a uns 5/6 há apenas quatro anos. Não é por acaso que estrelas como o Robinho ou o Ronaldo tenham vindo para cá, ainda que para o primeiro creio ter sido por empréstimo. O que quero dizer é que, se há alguns anos era possível vir e escolher e não arriscar muito, com menos dinheiro dava para comprar os melhores, dos mais importantes clubes e que já sentiam a pressão do campeonato brasileiro e da libertadores, agora para conseguir bons negócios é preciso conhecer campeonatos estaduais, arriscar mais e, possivelmente, ficar mais refém ainda do que os empresários podem oferecer. Parece-me muito arriscado.

Voltando ao início e tentando aproveitar as novas formas de negócio, creio ser tempo de mudar o paradigma; é fácil falar, mas creio que apenas um modelo de negócio que consiga sustentabilidade sem os resultados extraordinários pode sobreviver. O cálculo financeiro é simples e aplica-se a qualquer empresa – quando se investe, projectam-se os cash-flows que ele vai gerar no futuro e desconta-se para o presente. Se o valor descontado for positivo, depois de deduzido o investimento, então vale a pena, se estivermos a pensar na revenda para dar lucro, receio cada vez mais estarmos a dar tiros nos pés.
(*) Pedro Carriço é um portista de 38 anos, de Coimbra, que vive desde 2005 em Salvador, no Brasil. É portista desde os 5 anos por influência do irmão mais velho. Depois de acabar o curso, viveu no Porto dois anos, de 1997 a 1999. Nessa altura fez-se sócio e frequentava as piscinas das Antas. Foi também nessa altura que via mais jogos no estádio. Mais tarde, quando saiu do Porto, esteve num grupo que formava o núcleo portista de Coimbra - "os dragões de Coimbra". Neste ano, e graças à Internet, conseguiu voltar a ver a equipa a jogar com regularidade e isso motivou-o a procurar notícias e a aparecer em blogs, dos quais o ‘Reflexão Portista’ é parada obrigatória todos os dias.Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao Pedro Carriço a elaboração deste artigo. Fotos: Mário Fernandes e gráfico com os valores das maiores transferências.