Quando Jurgen Klopp assinou contrato com o Liverpool, interrompendo o seu ano sabático, a cidade dos Beatles celebrou o feito como um regresso às origens - tácticas e emocionais - e a imprensa local, sempre desejosa de tecer comparações com a sua herança musical declarou que tinha voltado o "Rock and Roll" a Anfield Road. Klopp tinha-se celebrizado com o seu modelo vertical, ofensivo e de pressão alta no Dortmund, o "Gegenpressing", e nos últimos dezoito meses logrou repetir o modelo de jogo em Inglaterra. Salvas as (imensas) diferenças que (ainda) existem entre Klopp e Conceição e entre os plantéis de Dortmund e Liverpool com o FC Porto, não é no entanto descabido olhar para esta pré-temporada a que falta apenas um jogo, e assumir que o Rock and Roll também voltou à Invicta.
O termo de comparação ajuda.
Quem sobreviveu a Nuno Espirito Santo está preparado para desfrutar e ver o lado positivo de tudo. O jogo pastelento, sem ideias, defensivo e primário de NES é felizmente passado mas isso não impede de que ver que o salto qualitativo para Conceição seja real. Olhando para a equipa, nestes últimos encontros, há uma evidente aura a anos noventa que não podemos ignorar. O jogo com dois avançados que se complementam a lembrar a verticalidade da dupla Domingos-Kostadinov ou, numa comparação simpática e distante, entre Jardel (Aboubakar) e Artur (Soares). Com a bola, o posicionamento da equipa convida a um jogo ofensivo pelas alas - com a abertura dos laterais e o jogo combinativo interior dos extremos e médios com a dupla de ataque - não muito distante do clássico 442 utilizado até à chegada de António Oliveira, com a equipa a jogar, efectivamente, muitas vezes num 4-1-3-2. E depois está a evidente garra e o dinamismo físico que recorda os melhores anos de Robson, de uma equipa sempre disposta a jogar simples e fácil mas com uma ideia vertical de jogo. Poucos passes, futebol menos rendilhado mas extremamente mais eficaz, com o esférico a ser conduzido em direcções concretas para gerar constante superioridade na zona de finalização. Rock and roll com chuteiras.
A realidade do futebol português, demonstrada na última década, pede um modelo assim.
O futebol mais pensado e pausado, de controlo do esférico e do espaço mas com poucos homens a aparecer na zona de definição que marcou os anos de Vitor Pereira e Lopetegui pode funcionar até melhor na Europa - onde a qualidade dos rivais é muito superior e há mil variações tácticas a ter em conta - mas no campeonato português, como Jesus, Villas-Boas, Jardim, Marco Silva e Vitória entenderam perfeitamente - por oposição a Paulo Fonseca, Nuno Espirito Santo e companhia - o que conta em 90% dos jogos não é a posse nem o controlo do jogo desde o dominio do espaço mas sim o sufoco ofensivo de forçar o erro ao contrário ocupando os espaços de finalização e tentanto chegar até lá com o menor tempo de posse possivel para aproveitar a desorganização contrária. Dois avançados sempre móveis na área, extremos que se incorporam, laterais que esticam o campo e interiores com remate, foram marcas das equipas do Benfica e de Villas-Boas e mostraram funcionar perfeitamente para um enquadramento onde a imensa maioria dos rivais joga posicionando os seus homens atrás da linha do meio campo a esperar possíveis contra-ataques. Rendilhar o jogo pode ser desesperante e exige paciência e muito talento, sobretudo individual, para quebrar esses muros. Atacar sucessivamente, de diferentes formas e com muita gente é um modelo que sendo menos controlador, na posse, tem mais opções de levar ao erro do contrário e é um atalho mais rápido para o golo. Conceição, ao contrário de NES, sabe-o perfeitamente dos seus dias no Minho, onde as suas equipas sempre procuravam em momentos de ataque surpreender o rival pela acumulação de efectivos ofensivos mesmo que isso ás vezes também significasse que a equipa ficava partida nos momentos de perda. Com um plantel superior e uma força moral por detrás do escudo do Dragão, tem ficado claro que empurrar os rivais contra as cordas - a sua área - e dedicar-se a aplicar golpe atrás de golpe - remates de todos os enquadramentos, acumulação de jogadores em zonas de finalização - mais tarde ou mais cedo vai provocar um KO. Se Vitor Pereira ou Lopetegui jogavam para ganhar o combate aos pontos, se NES jogava para não perder o combate aos pontos, Conceição joga para o KO. Fazia falta esta lufada de ar fresco.
Há ainda muito trabalho táctico pela frente - um mês de trabalho colectivo não é nada - mas as ideias estão lá e nota-se, sobretudo, que os jogadores entenderam o plano A do treinador (falta por ver se existe e qual é o plano B e C) e que há uma clara sintonia do banco para o campo.
É normal que no início tudo seja amor. Os jogadores querem triunfar e estão, quase sempre, predispostos a abraçar novas ideias se isso significar vencer. Os laços são verdadeiramente testados ao primeiro tropeção, nos dias frios de Inverno ou quando mais tempo de banco signifique menos tempo de jogo para alguns. É aí que a liderança de Conceição será realmente testada mas até agora as impressões são claramente afirmativas. No discurso, na atitude no banco, no trabalho da equipa e na motivação dos jogadores.
A recuperação de Aboubakar - que complemente a Soares e Brahimi melhor do que André Silva, que sendo melhor jogador e avançado não tem a presença física do camaronês, que abre outras modalidades de jogo a ser exploradas - é um dos seus primeiros grandes méritos e não foi necessário afastar um Brahimi que é sempre determinante, durante uns meses, para mostrar quem manda. Conceição sabe que não há dinheiro para reforços (mas para as comissões de Vaná, seguramente sobra algo quando o que sobra realmente é o jogador, como Conceição tem deixado claro ao manter José Sá como número 2 de Casillas) e fez dos descartados Hernani, Marega, Aboubakar e Ricardo Pereira apostas seguras em distintos momentos. Não tem havido demasiado espaço para as afirmações da formação. Rafa sofre com o overbooking á esquerda de Alex e Layun (se há necessidade de vender, realmente, esta é a oportunidade de ouro para que um deles saía) e a Dalot passa-lhe o mesmo à direita onde Maxi deixou claro já que será importante para o balneário mas que em campo não oferece o mesmo que Ricardo. Conceição, melhor do que ninguém, uma vez que também foi lateral e extremo, sabe o que sacar do jogador e o futebolista tem demonstrado que é dificil encontrar um lateral ofensivo melhor que ele na ala direita em Portugal. A sua amplitude ofensiva tem-se revelado fundamental para o apoio a Corona e a possibilidade de o utilizar à frente do próprio Maxi revela bem a fartura de opções para as alas que Conceição vai procurar utilizar (Brahimi, Ricardo, Hernani, Corona e o próprio Layun, sem esquecer Otávio) ao largo da temporada.
No ataque a dupla Aboubakar-Soares é uma certeza já e ainda que seja dificil imaginar que Marega possa causar o mesmo impacto, estando em campo - e Rui Pedro continua a ter escassos minutos para provar o seu real valor - não seria de surpreender que não venha mesmo mais nenhum reforço, pelo menos até Janeiro. Se o ritmo goleador se mantiver - e com Conceição o positivo é que com tantos jogadores em zona de finalização vamos ver futebolistas pouco habituais na lista dos marcadores - pode até ser que não faça falta.
O que sim vai ser curioso ver é a conjugação dos nomes do miolo.
O modelo de pressão alta de Sérgio Conceição parte de um 4-1-3-2 em posse, onde os extremos fecham as laterais formando um losango na perda da bola, o que obriga um maior sacrificio de Corona e Brahimi. Em principio há poucas dúvidas que os vértices serão entregues a Danilo e Oliver. São os melhores jogadores para as respectivas posições. No caso do internacional luso nota-se que chega tarde e que precisa de recuperar o tom físico e beber das ideias do técnico mas tem valia suficiente para se fazer com um lugar que, curiosamente, teria assentado como uma luva no modelo de jogo de Ruben Neves, em que o pivot defensivo não é apenas um polvo mas tem a responsabilidade dupla de iniciar a criação da jogada - algo que Neves fazia melhor que Danilo - e também muitas vezes aparecer à entrada da área em posição de remate ou de último passe - algo que Neves também fazia melhor que Danilo. A ajuda constante dos laterais em posição de posse e a pressão uns metros mais acima do habitual com NES, com a linha de quatro da frente a exercer o primeiro bloco de pressão, liberta muito das funções do pivot defensivo o seu trabalho de estar em todas partes e isso tem-se feito notar. Talvez por isso SC tenha igualmente tentado colocar André André ou Herrera nessa posição mas a qualidade do passe de ambos faz-se notar demasiado tanto na saída da bola no início da jogada como no momento final da conclusão. Servem para correr e ocupar espaço, colaborar na pressão, mas Conceição pede mais ao "6" do que isso, ao contrário do modelo primário de NES. E no plantel, actualmente, ninguém pode oferecer essa função. No outro lado está Oliver, mais completo que Otávio em tudo, com essa pausa chave para permitir que as restantes peças do tabuleiro se mexam e com essa facilidade do primeiro toque que desbloqueia situações de um para um e gera superioridade. Será fundamental no modelo de Conceição, um autêntico Deco que muitas vezes seja liberto da pressão pela ajuda de um dos avançados para depois receber em recuperação a bola em melhor posição e aplicar a sua magia. Nenhum modelo de jogo favorece mais as suas características de uma forma pro-activa que este. Terá de o aproveitar.
Sem embandeirar em arco - afinal de contas, o FC Porto sabe que parte para mais um campeonato que não se joga só em campo e onde ser muito competente pode não ser suficiente - as melhorias são evidentes. Com menos Conceição tem feito mais do que os seus últimos predecessores e resta agora saber se esse mais será capaz de o fazer em jogos a doer e contra rivais de caracteristicas distintas. O processo de crescimento é acumulativo e a equipa, como um todo, terá de evoluir com as novas ideias do técnico mas no Dragão respira-se já outro ar. Esperam-se jogos mais verticais, mais espectaculares - talvez mais sofridos também em alguns momentos de organização defensiva onde Casillas e a frieza Marcano-Filipe serão chave, como tem sido hábito - e um FC Porto sobretudo mais pro-activo á procura de resolver cedo o marcador e de ampliar cedo o resultado a margens confortáveis de gestão de espaços para aplicar depois a sua velocidade com o decorrer do encontro. Salvas as distâncias - até porque não há Hulk, Falcao, Moutinho, James ou Belluschi - este é o modelo mais similar ao visto na época de AVB e todos sabemos como isso resultou. Na altura Pinto da Costa fez precisamente referência a que um treinador com esse talento tinha de ganhar sim ou sim de forma espectacular. Conceição tem a ideia de jogo e o modelo mas não tem o mesmo plantel. Será capaz de por o Dragão a dançar ao ritmo frenético das suas guitarras eléctricas?
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segunda-feira, 31 de julho de 2017
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Não, não vou por aí...
“O meio-campo continua sem explorar devidamente o espaço interior, o que não deixa de ser preocupante … O fabulástico Herrera voltou à normalidade com uma exibição a roçar o zero … De resto, foi um jogo (mais um) relativamente fraco em termos colectivos … Pelo que vi, fiquei envergonhado por esta vitória e por esta arbitragem … Qualidade individual que farta e qualidade colectiva pobre … Mas não se critica um treinador e um modelo de jogo que força o mesmo Brahimi a estar esgotado porque jogo sim, jogo não ele tem que resolver sozinho o que o treinador não tem capacidade para criar em jogo colectivo … Eu pergunto-me o que fazem os jogadores durante a semana com este treinador? … Eu também gosto muito do Oliver. Mas acho que ele se prende demasiado ao que o treinador lhe pede … a saída de bola pelos centrais continua fraca. Jogue Indi, Maicon ou Marcano, são todos fraquinhos neste aspecto … Falta-lhe (a Casemiro) cultura de posição, tudo aquilo que poderíamos ter com Rúben Neves...”
Estes foram alguns comentários que li no RP sobre o jogo entre o FCP e o Rio Ave. Opinião muito qualificada e em alguns escritos a demonstração de uma maneira de ser portista que não consta do meu registo, talvez porque nunca tenha sido jogador de futebol, treinador ou atleta, para além dos gloriosos campeonatos da FNAT/INATEL em que participei, cheio de reumatismo. E muito menos olheiro ou comentador encartado.
Mas, o pior não é a opinião que gosta de conversar, é a presunção de sapiência que se retira dos comentários e que assenta na convicção do domínio absoluto do jogo e das regras que o conformam, sustentados na ortodoxia da retórica estabelecida pelos experts que pululam os canais televisivos e não admite tergiversações.
Essa elite de comentadores define o modelo, a estratégia, a táctica, os processos, escolhe e classifica os jogadores, separa os bons dos maus procedimentos e trata por tu as rotinas que devem ser rotinadas (o pleonasmo é para dar força à coisa) para se chegar ao êxito. Mas, não fica por aí: deprecia tudo e chega ao limite de se envergonhar com a última vitória do FCP.
Considero que o meu clube teve alguns apagões no último jogo no Dragão, que me exasperaram, mas ao contrário dos meus ilustres colegas tenho para mim que as razões foram bem mais individuais que colectivas: Brahimi esteve irreconhecível e perdeu muita bola e Herrera deu um estouro que se ouviu na bancada e quando o Rio Ave reagiu ao golo sofrido a equipa do FCP, em função desse défice, reagiu mal na transição defensiva, foi menos coesa e tremeu. Nessa altura, o treinador mexeu bem e a equipa recompôs-se a tempo.
Para terminar: sinto sempre a necessidade de vir a este fórum fazer a defesa do treinador e dizer que tem feito um bom trabalho, na minha perspectiva. E enquanto tiver essa convicção, só espero que continue e se mantenha corajoso e lúcido no comando. Não alinho nos julgamentos primários feitos aos últimos treinadores do FCP e Lopetegui tem sido bombardeado de críticas contundentes, tanto de dentro como de fora e com demasiado e suspeito vigor. É estranho: não, não vou por aí…
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
FC Porto, o novo Real Madrid?
Em 2009 todos descobrimos a lua. Não viajamos até lá. Ela veio até nós sob a forma do Barcelona treinado por Guardiola. Era uma equipa que enchia qualquer medida futebolística possível. Uma equipa agressiva mas elegante. Uma equipa com uma qualidade individual impressionante mas que funcionava como colectivo. Uma equipa onde os baixinhos (Xavi, Iniesta, Messi) jogavam com os raçudos (Etoo, Pedro, Touré, Puyol), com os inteligentes (Pique, Busquets, Henry) sem que qualquer um de nós fosse capaz de os excluir das outras características principais. Provavelmente tivemos a sorte de ver uma das grandes equipas da história do futebol moderno. Mais, tivemos a sorte de que o nosso FC Porto fosse comparado, lá fora, com essa máquina de futebol.
Historicamente o FCP sempre se associou ao FC Barcelona.
Clubes de segundas cidades, burguesas, mercantis, marítimas, rebeldes contra o poder do centralismo e, também é preciso dizê-lo, clubes que viveram as suas maiores secas desportivas de forma similar (durante os anos 60 e quase todos os 70) e que renasceram nos anos 80 para tornarem-se na maior força desportiva do seu país. O FCP com um presidente, o FC Barcelona com um ideólogo chamado Johan Cruyff. Ambos ganhamos provas europeias desde então (mais que o respectivo rival), ambos ganhamos ligas (mais que o respectivo rival) e ambos ganhamos a admiração do Mundo. Nós por sermos o eterno underdog sobrevivente na elite europeia, capaz de encontrar pérolas no meio do Amazonas e transformá-los em diamantes, e eles por serem os herdeiros dessa escola danubiana mítica. Para qualquer portista era um motivo de orgulho a comparação. A associação de futebol de posse, de qualidade técnica e táctica, de gestão desportiva com o Barça seguia os mesmos padrões que a comparação Real Madrid-Benfica dos anos 50 e 60, ambas equipas alimentadas pela máquina estatal, habituadas a ser o símbolo da propaganda de regime ditatoriais e com duas grandes gerações que coincidiram no tempo e espaço.
Nos anos AVB e VP a comparação permaneceu.
O Barcelona de 2013 já não é o mesmo de 2009. A própria evolução de Guardiola introduziu matizes importantes. Messi passou a ser o falso-nove, a equipa passou a jogar mais em função do génio argentino e a procura de alternativas estancou com o modelo original. Com o passar dos anos a agressividade e o pressing na hora da recuperação que tinham sido marca de identidade do primeiro Pep Team tornou o Barcelona uma equipa mais previsível, salva recorrentemente pelo génio superlativo de alguns dos melhores futebolistas da história. O FCP, que com AVB teve um ano similar ao do primeiro Pep Team, seguiu um trajecto similar. No nosso caso o problema foi a falta de opções condicionada pelo mercado e pelo desejo de jogadores importantes em sair. Sem Belluschi e Guarin o ritmo do meio-campo seria sempre diferente. Sem Hulk e Falcao a eficácia ofensiva baixaria sempre com o tempo. Com Varela a cair de forma, James a nunca explodir verdadeiramente e com Fucile, Rolando e Alvaro Pereira em quarentena (primeiro) e fora de contas (depois) o processo obrigou a uma reconstrução durante dois anos que interrompeu a ascensão da qualidade de jogo. Mas a matriz permaneceu, mesmo nesses momentos, a mesma.
O 4-3-3 era inegociável, a segurança defensiva o primeiro passo para o sucesso (como foi com Pep) e o controlo de jogo a obrigatoriedade máxima para quem subia em campo. É certo que o ritmo de jogo era vitima das opções e tinha baixado muitas rotações. As transições eram mais lentas, a agressividade esfumou-se e a qualidade individual também. Mas quem tinha visto jogar os homens de AVB reconhecia o mesmo padrão com VP da mesma forma que entre as diferenças que existem entre Guardiola, Vilanova e Martino não impedem que o Barcelona continua a ser o Barcelona.
Agora podem dizer o mesmo?
Não!
Desde Agosto que a matriz dos últimos três anos foi abandonada por completo.
É o direito legitimo de qualquer treinador escolhido pela direcção de impor o seu estilo e modelo de jogo. Se o faz, imagino que seja de acordo com quem o contrata que é quem responde aos sócios e accionistas. Eles são conscientes do que custou criar essa matriz, do que significa manter um modelo ao largo dos anos a nível de estabilidade futebolista e de gestão de balneário. Se aprovam a mudança - não só do desenho táctico mas dos princípios básicos do jogo - saberão porque o fazem. Mas agora na Europa ninguém se lembraria de associar este FC Porto ao Barcelona. Como muito poderiam fazer uma comparação que é, para muitos portistas, odiosa: com o Real Madrid.
A equipa da capital espanhola é reconhecida mundialmente por não ter modelo de jogo. Vive para onde o vento sopra. A cada presidente e treinador que chega tudo muda. O importante são os jogadores, quanto mais mediáticos e caros, melhor. Bale custa 100 milhões, logo vale mais que Ozil que só custou 15, pensam muitos adeptos e dirigentes do clube espanhol. Com o esquema de jogo é o mesmo. Não há um modelo desde o fim da Quinta del Buitre, nos anos 80. A táctica muda, os princípios mudam, os jogadores mudam, os treinadores mudam. As vitórias só aparecem porque o valor individual e o dinheiro metido no plantel assim o ditam. De futebol, muito pouco.
Actualmente em Portugal passamos pelo mesmo cenário. O FC Porto ganha muitos jogos porque é o FC Porto. Não porque jogue bem, não porque tenha um padrão de jogo, não porque saiba o que faz. Ganha-o simplesmente porque Jackson é o melhor avançado da liga, porque Lucho coxo é melhor que a maioria dos médios do campeonato. Porque Mangala-Otamendi ainda é uma dupla que supera qualquer outra. Porque os frangos ocasionais de Helton não empalidecem comparados com os de Artur, Eduardo e Patricio. Porque ganhar no Dragão é impossível e defender com dez homens dentro da área nos jogos fora nem sempre resulta. Ganhamos por inércia da mesma forma que o Real Madrid ganha muitos dos seus jogos. Não pela qualidade do projecto que PF tenha a apresentar. E isso é, sobretudo, o mais preocupante.
Eu quero que o FC Porto tenha um modelo que seja válido hoje, com PF, e amanhã com o treinador X.
Para isso é preciso duas coisas.
Ter a direcção decidida a apostar fielmente nesse modelo de jogo (em vez de se preocupar tanto com modelos de negócio, que não é o mesmo) e contratar sempre treinadores e jogadores para cumprir esse preceito colectivo como tem feito o Barcelona (noutra escala, obviamente) ou então apostar como há muito defendo num nome sério para o banco. Num nome consagrado, com uma cultura futebolística suficientemente alta para manejar distintas situações e saber o que está a fazer, sem parecer um puto de olhar perdido. Falou-se muito em Pellegrini, um treinador que cumpre esse preceito, mas entendo que entre o Dragão e o City of Manchester, o dinheiro tenha falado mais alto. Mas o chileno não é o único dentro desse grupo de treinadores que sabem muito de futebol e colocam sempre as suas equipas a jogar muito bem e de forma coerente. A SAD prefere-os inexperientes, jovens e ambiciosos e está no seu direito. Acertou duas vezes. Mas se o faz, pelo menos que tenha o cuidado de escolher nomes que se enquadrem numa ideia colectiva que faça parte do nosso próprio ADN. De alguém que saiba onde vai entrar, que rotinas há que saber manter, que processos há que assimilar e que estruturas são fundamentais para manter o equilíbrio.
Em quatro meses a estabilidade defensiva de três anos desapareceu.
A organização na construção de jogo também. A equipa é mais vertical mas menos coerente. Os jogadores estão perdidos porque os que já cá estavam tinham rotinas bem treinadas que agora não podem por em prática e os novos ainda não entenderam o que se lhes pede.
Provavelmente todos eles gostariam de jogar como no ano de AVB, e os adeptos também não se importariam de rever esses jogos no presente. Mas para chegar aí não basta apenas ter opções individuais (e este plantel tem mais opções que o dos últimos dois anos). É fundamental ter alguém que siga um modelo, que seja fiel ao nosso ADN.
Em Madrid, Carlo Ancelotti - um treinador de títulos, onde é que já ouvi isso - não sabe a que joga. Nem ele nem ninguém. E a sua equipa é penosa. Em Barcelona, chegado do outro lado do Atlântico e sem experiência europeia, Tata Martino herdou uma ideia que apenas tem de gerir e controlar. Ás vezes é mais dificil não mexer do que inventar. PF tem, como Ancelotti, procurado inventar. Sem sucesso. Tem sido salvo pelos jogadores e pela inércia mas isso não durará para sempre quando for a doer. Talvez devesse ter sido mais humilde, como Martino, e procurar ver o bom naquilo que o precede antes de procurar melhorar a máquina já montada e oleada. Tem tempo para isso? Tem. Mas precisa de saber dar um passo atrás. Devolver aos jogadores a confiança nos processos de jogo perdidos (e isto vai muito mais longe do que só recuar Fernando e voltar ao 4-3-3) e a partir de aí procurar introduzir novas variantes que nos façam mais imprevisíveis e, portanto, mais fortes. Caso contrário até podemos ser Tetracampeões, vencer a Taça de Portugal e a Taça da Liga. Muitos adeptos irão para as ruas celebrar. Mas teríamos ganho por motivos que, mais tarde ou mais cedo, vão-se revelar mais um problema do que uma solução!
Historicamente o FCP sempre se associou ao FC Barcelona.
Clubes de segundas cidades, burguesas, mercantis, marítimas, rebeldes contra o poder do centralismo e, também é preciso dizê-lo, clubes que viveram as suas maiores secas desportivas de forma similar (durante os anos 60 e quase todos os 70) e que renasceram nos anos 80 para tornarem-se na maior força desportiva do seu país. O FCP com um presidente, o FC Barcelona com um ideólogo chamado Johan Cruyff. Ambos ganhamos provas europeias desde então (mais que o respectivo rival), ambos ganhamos ligas (mais que o respectivo rival) e ambos ganhamos a admiração do Mundo. Nós por sermos o eterno underdog sobrevivente na elite europeia, capaz de encontrar pérolas no meio do Amazonas e transformá-los em diamantes, e eles por serem os herdeiros dessa escola danubiana mítica. Para qualquer portista era um motivo de orgulho a comparação. A associação de futebol de posse, de qualidade técnica e táctica, de gestão desportiva com o Barça seguia os mesmos padrões que a comparação Real Madrid-Benfica dos anos 50 e 60, ambas equipas alimentadas pela máquina estatal, habituadas a ser o símbolo da propaganda de regime ditatoriais e com duas grandes gerações que coincidiram no tempo e espaço.
Nos anos AVB e VP a comparação permaneceu.
O Barcelona de 2013 já não é o mesmo de 2009. A própria evolução de Guardiola introduziu matizes importantes. Messi passou a ser o falso-nove, a equipa passou a jogar mais em função do génio argentino e a procura de alternativas estancou com o modelo original. Com o passar dos anos a agressividade e o pressing na hora da recuperação que tinham sido marca de identidade do primeiro Pep Team tornou o Barcelona uma equipa mais previsível, salva recorrentemente pelo génio superlativo de alguns dos melhores futebolistas da história. O FCP, que com AVB teve um ano similar ao do primeiro Pep Team, seguiu um trajecto similar. No nosso caso o problema foi a falta de opções condicionada pelo mercado e pelo desejo de jogadores importantes em sair. Sem Belluschi e Guarin o ritmo do meio-campo seria sempre diferente. Sem Hulk e Falcao a eficácia ofensiva baixaria sempre com o tempo. Com Varela a cair de forma, James a nunca explodir verdadeiramente e com Fucile, Rolando e Alvaro Pereira em quarentena (primeiro) e fora de contas (depois) o processo obrigou a uma reconstrução durante dois anos que interrompeu a ascensão da qualidade de jogo. Mas a matriz permaneceu, mesmo nesses momentos, a mesma.
O 4-3-3 era inegociável, a segurança defensiva o primeiro passo para o sucesso (como foi com Pep) e o controlo de jogo a obrigatoriedade máxima para quem subia em campo. É certo que o ritmo de jogo era vitima das opções e tinha baixado muitas rotações. As transições eram mais lentas, a agressividade esfumou-se e a qualidade individual também. Mas quem tinha visto jogar os homens de AVB reconhecia o mesmo padrão com VP da mesma forma que entre as diferenças que existem entre Guardiola, Vilanova e Martino não impedem que o Barcelona continua a ser o Barcelona.
Agora podem dizer o mesmo?
Não!
Desde Agosto que a matriz dos últimos três anos foi abandonada por completo.
É o direito legitimo de qualquer treinador escolhido pela direcção de impor o seu estilo e modelo de jogo. Se o faz, imagino que seja de acordo com quem o contrata que é quem responde aos sócios e accionistas. Eles são conscientes do que custou criar essa matriz, do que significa manter um modelo ao largo dos anos a nível de estabilidade futebolista e de gestão de balneário. Se aprovam a mudança - não só do desenho táctico mas dos princípios básicos do jogo - saberão porque o fazem. Mas agora na Europa ninguém se lembraria de associar este FC Porto ao Barcelona. Como muito poderiam fazer uma comparação que é, para muitos portistas, odiosa: com o Real Madrid.
A equipa da capital espanhola é reconhecida mundialmente por não ter modelo de jogo. Vive para onde o vento sopra. A cada presidente e treinador que chega tudo muda. O importante são os jogadores, quanto mais mediáticos e caros, melhor. Bale custa 100 milhões, logo vale mais que Ozil que só custou 15, pensam muitos adeptos e dirigentes do clube espanhol. Com o esquema de jogo é o mesmo. Não há um modelo desde o fim da Quinta del Buitre, nos anos 80. A táctica muda, os princípios mudam, os jogadores mudam, os treinadores mudam. As vitórias só aparecem porque o valor individual e o dinheiro metido no plantel assim o ditam. De futebol, muito pouco.
Actualmente em Portugal passamos pelo mesmo cenário. O FC Porto ganha muitos jogos porque é o FC Porto. Não porque jogue bem, não porque tenha um padrão de jogo, não porque saiba o que faz. Ganha-o simplesmente porque Jackson é o melhor avançado da liga, porque Lucho coxo é melhor que a maioria dos médios do campeonato. Porque Mangala-Otamendi ainda é uma dupla que supera qualquer outra. Porque os frangos ocasionais de Helton não empalidecem comparados com os de Artur, Eduardo e Patricio. Porque ganhar no Dragão é impossível e defender com dez homens dentro da área nos jogos fora nem sempre resulta. Ganhamos por inércia da mesma forma que o Real Madrid ganha muitos dos seus jogos. Não pela qualidade do projecto que PF tenha a apresentar. E isso é, sobretudo, o mais preocupante.
Eu quero que o FC Porto tenha um modelo que seja válido hoje, com PF, e amanhã com o treinador X.
Para isso é preciso duas coisas.
Ter a direcção decidida a apostar fielmente nesse modelo de jogo (em vez de se preocupar tanto com modelos de negócio, que não é o mesmo) e contratar sempre treinadores e jogadores para cumprir esse preceito colectivo como tem feito o Barcelona (noutra escala, obviamente) ou então apostar como há muito defendo num nome sério para o banco. Num nome consagrado, com uma cultura futebolística suficientemente alta para manejar distintas situações e saber o que está a fazer, sem parecer um puto de olhar perdido. Falou-se muito em Pellegrini, um treinador que cumpre esse preceito, mas entendo que entre o Dragão e o City of Manchester, o dinheiro tenha falado mais alto. Mas o chileno não é o único dentro desse grupo de treinadores que sabem muito de futebol e colocam sempre as suas equipas a jogar muito bem e de forma coerente. A SAD prefere-os inexperientes, jovens e ambiciosos e está no seu direito. Acertou duas vezes. Mas se o faz, pelo menos que tenha o cuidado de escolher nomes que se enquadrem numa ideia colectiva que faça parte do nosso próprio ADN. De alguém que saiba onde vai entrar, que rotinas há que saber manter, que processos há que assimilar e que estruturas são fundamentais para manter o equilíbrio.
Em quatro meses a estabilidade defensiva de três anos desapareceu.
A organização na construção de jogo também. A equipa é mais vertical mas menos coerente. Os jogadores estão perdidos porque os que já cá estavam tinham rotinas bem treinadas que agora não podem por em prática e os novos ainda não entenderam o que se lhes pede.
Provavelmente todos eles gostariam de jogar como no ano de AVB, e os adeptos também não se importariam de rever esses jogos no presente. Mas para chegar aí não basta apenas ter opções individuais (e este plantel tem mais opções que o dos últimos dois anos). É fundamental ter alguém que siga um modelo, que seja fiel ao nosso ADN.
Em Madrid, Carlo Ancelotti - um treinador de títulos, onde é que já ouvi isso - não sabe a que joga. Nem ele nem ninguém. E a sua equipa é penosa. Em Barcelona, chegado do outro lado do Atlântico e sem experiência europeia, Tata Martino herdou uma ideia que apenas tem de gerir e controlar. Ás vezes é mais dificil não mexer do que inventar. PF tem, como Ancelotti, procurado inventar. Sem sucesso. Tem sido salvo pelos jogadores e pela inércia mas isso não durará para sempre quando for a doer. Talvez devesse ter sido mais humilde, como Martino, e procurar ver o bom naquilo que o precede antes de procurar melhorar a máquina já montada e oleada. Tem tempo para isso? Tem. Mas precisa de saber dar um passo atrás. Devolver aos jogadores a confiança nos processos de jogo perdidos (e isto vai muito mais longe do que só recuar Fernando e voltar ao 4-3-3) e a partir de aí procurar introduzir novas variantes que nos façam mais imprevisíveis e, portanto, mais fortes. Caso contrário até podemos ser Tetracampeões, vencer a Taça de Portugal e a Taça da Liga. Muitos adeptos irão para as ruas celebrar. Mas teríamos ganho por motivos que, mais tarde ou mais cedo, vão-se revelar mais um problema do que uma solução!
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
O 4-2-3-1 de Paulo Fonseca... (III Parte)
Concluídas as duas primeiras jornadas do campeonato está na altura de revisitar os excelentes artigos do Miguel Lourenço Pereira de 12 e 13 de Agosto, aqui no Reflexão Portista, sobre o esquema táctico 4-2-3-1 do treinador Paulo Fonseca:
O 4-2-3-1 de Paulo Fonseca...entender o conceito! (I Parte)
O 4-2-3-1 de Paulo Fonseca...entender o conceito! (II Parte)
O FC Porto apresentou-se com a mesma equipa titular nas duas partidas da Liga: Helton, Danilo, Mangala, Otamendi, Alex Sandro, Fernando, Defour, Lucho, Josué, Jackson e Licá, o que significa que Paulo Fonseca encontrou um "onze base", tendo em conta que o titular Varela, lesionado, foi substituído por Josué.
Nos referidos artigos o Miguel descreveu os princípios básicos do novo esquema táctico relativamente ao conhecido 4-3-3: (i) a criação do conceito de número 10, Lucho, (ii) a mudança do conceito defensivo, de um jogador fixo de marcação para a divisão de tarefas entre dois jogadores, Fernando e Defour e (iii) o maior espaçamento de linhas para a obtenção de um futebol mais vertical. Além disso chamou a atenção para os principais defeitos e virtudes do 4-2-3-1: "este modelo, na teoria, coloca um homem extra no ataque, o tal 10, e portanto, mais poder de fogo. Mas ao não ter um dos dois médios mais recuados com um papel fixo, como tampão, corre o risco de haver uma atrapalhação na movimentação do miolo e a equipa ficar mais frágil no momento da perda de bola. (…) [o adversário pode] lançar um passe a rasgar entre-linhas, os dois médios estão em linha (ou muito próximos disso), ligeiramente afastados da defesa e é nesse espaço que surge o rival".
No primeiro jogo, em Setúbal, a equipa acusou falta de entrosamento e permitiu vários lances perigosos aos sadinos, incluindo o do golo, sendo que o perigo foi aparecendo de situações que o Miguel previra: o "duplo pivot" estava em linha e sem uma noção clara de quem deveria marcar e foram surgindo passes para as costas da nossa defesa. Por outro lado a articulação entre os jogadores das linhas ofensivas não foi a melhor, o que gerou mais dificuldades de penetração na defesa contrária e criação de lances de perigo. Lucho não conseguiu ser o número 10, Defour não foi box-to-box e Fernando não foi… Fernando. Valeu Quintero, que substituiu Defour, e mal entrou mandou uma bomba para resolver o jogo.
No segundo jogo, na estreia da equipa esta época no Dragão, tudo foi diferente. O FC Porto submeteu o Marítimo a forte pressão desde o início, com um futebol rápido, alegre e mais vertical. Na vertente defensiva Mangala e Otamendi estiveram muito bem na antecipação e na anulação das investidas do adversário e o "duplo pivot" Fernando-Defour funcionou bem, o primeiro libertando-se do seu típico jogo de recuperação e varrimento e o segundo conseguindo ser um box-to-box mais influente. Não foi Moutinho, mas esteve no campo todo. Vi pela primeira vez o Fernando a avançar no terreno com a bola controlada e a procurar linhas de passe, fazendo-o com maior à vontade e segurança que em partidas anteriores. Contrariamente ao que afirmou o Miguel, parece-me agora que o Fernando poderá ser um dos mais beneficiados com este estilo de jogo porque terá mais bola e terá de pensar mais o jogo, o que o tornará num jogador mais valioso. Às suas características de trinco puro, poderá juntar características de distribuidor e tornar-se um médio mais completo.
Apesar da boa exibição e dos golos achei que a equipa, pelas características de Licá e Josué, que não são extremos puros, afunilou demasiado o jogo, tendo abusado do jogo interior, perdendo profundidade. Poderá, eventualmente, ser ideia do treinador usar momentaneamente os laterais Danilo e Alex Sandro como extremos, com o apoio e as dobras do "duplo pivot" em caso de perda de bola e (principalmente) Licá como segundo ponta-de-lança, dando ao Lucho tempo e liberdade para deambular no meio campo e no ataque.
A este esquema sobram ainda Herrera e Quintero – que deverão competir com Defour e Lucho, respectivamente, por um lugar no "onze" – e Carlos Eduardo como alternativas para o meio campo e Kelvin e Iturbe como jokers para os lugares de extremo. Ghilas deverá ser a alternativa a Jackson Martinez dado que, em jogos oficiais, creio que não foram experimentados simultaneamente.
À pergunta final do Miguel, "será este o modelo ideal para esta época?", respondo, para já, com um sim porque a equipa tem dado sinais de que o consegue assimilar e o plantel tem variadas opções e de grande qualidade para substituir ou complementar os jogadores que neste momento integram o "onze base". Tanto o “duplo pivot” como a defesa, na generalidade, estiveram bem melhor no jogo contra o Marítimo. Que a equipa e o treinador continuem a evoluir e a proporcionar bons espectáculos de futebol (com vitórias!).
O 4-2-3-1 de Paulo Fonseca...entender o conceito! (I Parte)
O 4-2-3-1 de Paulo Fonseca...entender o conceito! (II Parte)
O FC Porto apresentou-se com a mesma equipa titular nas duas partidas da Liga: Helton, Danilo, Mangala, Otamendi, Alex Sandro, Fernando, Defour, Lucho, Josué, Jackson e Licá, o que significa que Paulo Fonseca encontrou um "onze base", tendo em conta que o titular Varela, lesionado, foi substituído por Josué.
Nos referidos artigos o Miguel descreveu os princípios básicos do novo esquema táctico relativamente ao conhecido 4-3-3: (i) a criação do conceito de número 10, Lucho, (ii) a mudança do conceito defensivo, de um jogador fixo de marcação para a divisão de tarefas entre dois jogadores, Fernando e Defour e (iii) o maior espaçamento de linhas para a obtenção de um futebol mais vertical. Além disso chamou a atenção para os principais defeitos e virtudes do 4-2-3-1: "este modelo, na teoria, coloca um homem extra no ataque, o tal 10, e portanto, mais poder de fogo. Mas ao não ter um dos dois médios mais recuados com um papel fixo, como tampão, corre o risco de haver uma atrapalhação na movimentação do miolo e a equipa ficar mais frágil no momento da perda de bola. (…) [o adversário pode] lançar um passe a rasgar entre-linhas, os dois médios estão em linha (ou muito próximos disso), ligeiramente afastados da defesa e é nesse espaço que surge o rival".
No primeiro jogo, em Setúbal, a equipa acusou falta de entrosamento e permitiu vários lances perigosos aos sadinos, incluindo o do golo, sendo que o perigo foi aparecendo de situações que o Miguel previra: o "duplo pivot" estava em linha e sem uma noção clara de quem deveria marcar e foram surgindo passes para as costas da nossa defesa. Por outro lado a articulação entre os jogadores das linhas ofensivas não foi a melhor, o que gerou mais dificuldades de penetração na defesa contrária e criação de lances de perigo. Lucho não conseguiu ser o número 10, Defour não foi box-to-box e Fernando não foi… Fernando. Valeu Quintero, que substituiu Defour, e mal entrou mandou uma bomba para resolver o jogo.
No segundo jogo, na estreia da equipa esta época no Dragão, tudo foi diferente. O FC Porto submeteu o Marítimo a forte pressão desde o início, com um futebol rápido, alegre e mais vertical. Na vertente defensiva Mangala e Otamendi estiveram muito bem na antecipação e na anulação das investidas do adversário e o "duplo pivot" Fernando-Defour funcionou bem, o primeiro libertando-se do seu típico jogo de recuperação e varrimento e o segundo conseguindo ser um box-to-box mais influente. Não foi Moutinho, mas esteve no campo todo. Vi pela primeira vez o Fernando a avançar no terreno com a bola controlada e a procurar linhas de passe, fazendo-o com maior à vontade e segurança que em partidas anteriores. Contrariamente ao que afirmou o Miguel, parece-me agora que o Fernando poderá ser um dos mais beneficiados com este estilo de jogo porque terá mais bola e terá de pensar mais o jogo, o que o tornará num jogador mais valioso. Às suas características de trinco puro, poderá juntar características de distribuidor e tornar-se um médio mais completo.
Apesar da boa exibição e dos golos achei que a equipa, pelas características de Licá e Josué, que não são extremos puros, afunilou demasiado o jogo, tendo abusado do jogo interior, perdendo profundidade. Poderá, eventualmente, ser ideia do treinador usar momentaneamente os laterais Danilo e Alex Sandro como extremos, com o apoio e as dobras do "duplo pivot" em caso de perda de bola e (principalmente) Licá como segundo ponta-de-lança, dando ao Lucho tempo e liberdade para deambular no meio campo e no ataque.
A este esquema sobram ainda Herrera e Quintero – que deverão competir com Defour e Lucho, respectivamente, por um lugar no "onze" – e Carlos Eduardo como alternativas para o meio campo e Kelvin e Iturbe como jokers para os lugares de extremo. Ghilas deverá ser a alternativa a Jackson Martinez dado que, em jogos oficiais, creio que não foram experimentados simultaneamente.
À pergunta final do Miguel, "será este o modelo ideal para esta época?", respondo, para já, com um sim porque a equipa tem dado sinais de que o consegue assimilar e o plantel tem variadas opções e de grande qualidade para substituir ou complementar os jogadores que neste momento integram o "onze base". Tanto o “duplo pivot” como a defesa, na generalidade, estiveram bem melhor no jogo contra o Marítimo. Que a equipa e o treinador continuem a evoluir e a proporcionar bons espectáculos de futebol (com vitórias!).
terça-feira, 13 de agosto de 2013
O 4-2-3-1 de Paulo Fonseca...entender o conceito! (II Parte)
Está claro que o Paulo Fonseca teve pouco a dizer nas contratações mas terá muito pelo que responder com aquilo que o seu plantel pode oferecer durante o ano.
Desde Fernando Santos - aquele 4-2-3-1 com Paulinho+Chainho atrás de Deco, com Alenitchev no banco - que a equipa se habituou ao 4-3-3 como modelo base, salvo pelo segundo ano de Mourinho e o 3-4-3 de Adriaanse. É um modelo formatado, assimilado e que faz todo o sentido. Mas também é uma táctica para a qual o plantel oferece poucas opções individuais. A ausência de extremos desequilibradores (que já foi um problema no ano passado, depois da saída de Hulk e da situação com Atsu) afunilava em excesso a equipa, com James a meter a marcha para dentro e Varela muitas vezes a encostar-se a Jackson num 4-1-2-1-2. Este ano não houve mudanças radicais nesse capitulo. E portanto o plantel continua a oferecer poucas opções individuais.
O 4-2-3-1, pelo contrário, encaixa melhor nos jogadores disponíveis. E é o modelo que o técnico utilizou no Paços, que conhece bem. Quer entrar com cautela, jogando pelo seguro. É compreensível, mas também é preciso lembrar que a defesa do Paços não jogava tão alta como deverá jogar a nossa, o que implica que os espaços entre linhas eram menores e, portanto, o risco de descompensação zonal entre-linhas inferior.
Nesta imagem fica claro o que vamos ver este ano.
4 defesas em linha, com os laterais com ordem para subir. Um avançado fixo, dois extremos abertos e um jogador livre. E dois box-to-box que se têm forçosamente que complementar no meio-campo. Ora é aí precisamente que geramos um considerável over-booking.
Para as alas o "mister" sabe que tem o Varela, o Ricardo, o Licá e o Kelvin (não sei onde o Iturbe ou o Ismailov encaixam aqui, já veremos o que passa). Dois extremos puros (Ricardo, Varela), um batalhador que vai ser muito útil (Licá) e o joker, Kelvin. No ataque contamos, finalmente, com duas opções válidas em Jackson e Ghilas. É no meio-campo que está o busílis.
Quintero chegou e triunfará, mas precisa de tempo (como Anderson, como James). Lucho fará o posto de 10 desde o início e a transição será progressiva. Se a táctica fosse o 4-3-3, o argentino teria problemas em jogar, porque como se viu no ano passado, o 4-3-3 exige muito do trio do meio-campo fisicamente. E Lucho já não está para isso, enquanto Quintero ainda é verde para esse ritmo. "El Comandante" é o grande beneficiado desta metamorfose táctica. Vai permitir manter-se vivo e activo mais tempo do que poderíamos imaginar. Fernando é o grande prejudicado.
"O Polvo" tem sido fundamental desde que substituiu o Paulo Assunção a tapar todos os buracos que apareciam na linha defensiva. Sempre funcionou melhor varrendo do que com um jogador ao seu lado. Por estatuto será titular mas tenho as minhas dúvidas que se sinta cómodo. O contrato acaba este ano, até ao fim do mês ainda pode sair ou, eventualmente, pensando já no futuro, o técnico procura um modelo para o que tem. E como não há outro Fernando no plantel, acha mais adequado apostar num modelo onde sim funcionam todos os outros médios de que dispõe.
Este 2-1, este triângulo invertido, encaixa bem no perfil de Defour, de Herrera, de Carlos Eduardo, de Josué (que também pode fazer o 10) e de Castro. Apostando neste modelo, o técnico garante que terá jogadores a quem pode distribuir minutos, rentabilizando as suas características técnicas e tácticas ao máximo em vez de as forçar a um modelo que dependia em excesso de Fernando para funcionar realmente.
Portanto, o 4-2-3-1 é o modelo ideal para esta época?
Como em tudo, tem aspectos positivos e negativos.
Defensivamente causa muitos mais problemas do que o 4-3-3 e nos jogos europeus, sobretudo, a segurança defensiva é absolutamente fundamental. Podemos nesse jogo voltar, pontualmente, ao 4-3-3?
Podemos e, talvez, devemos. É também um sistema que não saca o melhor de um dos melhores jogadores do plantel, Fernando, e que gera sérios riscos nos jogos em casa contra rivais claramente inferiores.
É um modelo cauteloso, com dois médios sempre no apoio (e ás vezes vai fazer falta um desses médios lá à frente) e que funciona melhor em equipas onde o meio-campo é uma zona curta de passagem, mais de contra-golpe do que de futebol de posse constante.
No entanto, não se pode dizer que seja, exclusivamente, um modelo defensivo mas sim que se adapta melhor a equipas mais pequenas, que queiram ter menos tempo a bola e procurem mais as transições rápidas e as linhas próximas entre si (numa zona do terreno mais recuada).
O 3-2-3-1 vai permitir ter sempre um segundo homem na área. Vai gerar maior dinamismo nas transições, quebrando o ritmo "pastelento" do ano passado. Em momentos de posse, pode tornar-se num 2-4-1-2, com a subida dos dois laterais para a linha do 2-1 no meio-campo, mas isso só funcionará se as linhas estiverem para lá da linha de meio-campo. Permite sacar o melhor de um grande jogador, que é Lucho, e de outro que seguramente o será, Quintero. E adapta-se melhor ao plantel desenhado para a temporada.
Será um ano largo.
Ninguém pode antecipar que durante os jogos o próprio técnico faça mudanças que permitam oscilar entre um modelo e outro. Não é uma mudança demasiado radical (como foi o 3-4-3 de Adriaanse), não é um modelo estranho aos adeptos. É uma interrogante mais, a par do treinador e de muitas das caras novas. Esperamos que, em Maio, a nota positiva se aplique aos três e que a nova variante permita contornar os problemas que tínhamos o ano passado sem, por sua vez, criar outros já resolvidos.
O 4-2-3-1 de Paulo Fonseca...entender o conceito! (I Parte)
Desde Fernando Santos - aquele 4-2-3-1 com Paulinho+Chainho atrás de Deco, com Alenitchev no banco - que a equipa se habituou ao 4-3-3 como modelo base, salvo pelo segundo ano de Mourinho e o 3-4-3 de Adriaanse. É um modelo formatado, assimilado e que faz todo o sentido. Mas também é uma táctica para a qual o plantel oferece poucas opções individuais. A ausência de extremos desequilibradores (que já foi um problema no ano passado, depois da saída de Hulk e da situação com Atsu) afunilava em excesso a equipa, com James a meter a marcha para dentro e Varela muitas vezes a encostar-se a Jackson num 4-1-2-1-2. Este ano não houve mudanças radicais nesse capitulo. E portanto o plantel continua a oferecer poucas opções individuais.
O 4-2-3-1, pelo contrário, encaixa melhor nos jogadores disponíveis. E é o modelo que o técnico utilizou no Paços, que conhece bem. Quer entrar com cautela, jogando pelo seguro. É compreensível, mas também é preciso lembrar que a defesa do Paços não jogava tão alta como deverá jogar a nossa, o que implica que os espaços entre linhas eram menores e, portanto, o risco de descompensação zonal entre-linhas inferior.
Nesta imagem fica claro o que vamos ver este ano.
4 defesas em linha, com os laterais com ordem para subir. Um avançado fixo, dois extremos abertos e um jogador livre. E dois box-to-box que se têm forçosamente que complementar no meio-campo. Ora é aí precisamente que geramos um considerável over-booking.
Para as alas o "mister" sabe que tem o Varela, o Ricardo, o Licá e o Kelvin (não sei onde o Iturbe ou o Ismailov encaixam aqui, já veremos o que passa). Dois extremos puros (Ricardo, Varela), um batalhador que vai ser muito útil (Licá) e o joker, Kelvin. No ataque contamos, finalmente, com duas opções válidas em Jackson e Ghilas. É no meio-campo que está o busílis.
Quintero chegou e triunfará, mas precisa de tempo (como Anderson, como James). Lucho fará o posto de 10 desde o início e a transição será progressiva. Se a táctica fosse o 4-3-3, o argentino teria problemas em jogar, porque como se viu no ano passado, o 4-3-3 exige muito do trio do meio-campo fisicamente. E Lucho já não está para isso, enquanto Quintero ainda é verde para esse ritmo. "El Comandante" é o grande beneficiado desta metamorfose táctica. Vai permitir manter-se vivo e activo mais tempo do que poderíamos imaginar. Fernando é o grande prejudicado.
"O Polvo" tem sido fundamental desde que substituiu o Paulo Assunção a tapar todos os buracos que apareciam na linha defensiva. Sempre funcionou melhor varrendo do que com um jogador ao seu lado. Por estatuto será titular mas tenho as minhas dúvidas que se sinta cómodo. O contrato acaba este ano, até ao fim do mês ainda pode sair ou, eventualmente, pensando já no futuro, o técnico procura um modelo para o que tem. E como não há outro Fernando no plantel, acha mais adequado apostar num modelo onde sim funcionam todos os outros médios de que dispõe.
Este 2-1, este triângulo invertido, encaixa bem no perfil de Defour, de Herrera, de Carlos Eduardo, de Josué (que também pode fazer o 10) e de Castro. Apostando neste modelo, o técnico garante que terá jogadores a quem pode distribuir minutos, rentabilizando as suas características técnicas e tácticas ao máximo em vez de as forçar a um modelo que dependia em excesso de Fernando para funcionar realmente.
Portanto, o 4-2-3-1 é o modelo ideal para esta época?
Como em tudo, tem aspectos positivos e negativos.
Defensivamente causa muitos mais problemas do que o 4-3-3 e nos jogos europeus, sobretudo, a segurança defensiva é absolutamente fundamental. Podemos nesse jogo voltar, pontualmente, ao 4-3-3?
Podemos e, talvez, devemos. É também um sistema que não saca o melhor de um dos melhores jogadores do plantel, Fernando, e que gera sérios riscos nos jogos em casa contra rivais claramente inferiores.
É um modelo cauteloso, com dois médios sempre no apoio (e ás vezes vai fazer falta um desses médios lá à frente) e que funciona melhor em equipas onde o meio-campo é uma zona curta de passagem, mais de contra-golpe do que de futebol de posse constante.
No entanto, não se pode dizer que seja, exclusivamente, um modelo defensivo mas sim que se adapta melhor a equipas mais pequenas, que queiram ter menos tempo a bola e procurem mais as transições rápidas e as linhas próximas entre si (numa zona do terreno mais recuada).
O 3-2-3-1 vai permitir ter sempre um segundo homem na área. Vai gerar maior dinamismo nas transições, quebrando o ritmo "pastelento" do ano passado. Em momentos de posse, pode tornar-se num 2-4-1-2, com a subida dos dois laterais para a linha do 2-1 no meio-campo, mas isso só funcionará se as linhas estiverem para lá da linha de meio-campo. Permite sacar o melhor de um grande jogador, que é Lucho, e de outro que seguramente o será, Quintero. E adapta-se melhor ao plantel desenhado para a temporada.
Será um ano largo.
Ninguém pode antecipar que durante os jogos o próprio técnico faça mudanças que permitam oscilar entre um modelo e outro. Não é uma mudança demasiado radical (como foi o 3-4-3 de Adriaanse), não é um modelo estranho aos adeptos. É uma interrogante mais, a par do treinador e de muitas das caras novas. Esperamos que, em Maio, a nota positiva se aplique aos três e que a nova variante permita contornar os problemas que tínhamos o ano passado sem, por sua vez, criar outros já resolvidos.
O 4-2-3-1 de Paulo Fonseca...entender o conceito! (I Parte)
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
O 4-2-3-1 de Paulo Fonseca...entender o conceito! (I Parte)
Parece claro que Paulo Fonseca não vai abdicar do seu 4-2-3-1.
O tempo dirá se a sua opção é a mais acertada, sobretudo em jogos radicalmente diferentes aos da pré-época e da Supertaça. Em Aveiro o sistema funcionou perfeitamente também porque o rival foi macio, muito macio. Na véspera do jogo o treinador tomou a palavra na sala de imprensa para responder a um jornalista que sugeriu o modelo como mais defensivo. Paulo Fonseca não gosta dessa ideia (apesar de ser um sistema muito mais utilizado por equipas de contra-golpe do que de ataque continuado).
Vou tentar explicar o que penso ser o seu ponto de vista e a minha percepção sobre o que vai significar a aplicação do modelo ao longo do ano, os seus pontos fortes e fracos. E, sobretudo, a sua adequabilidade ao plantel, no seu todo, e a alguns jogadores, em particular.
No final, podemos chegar à conclusão se o sistema é mais ou menos defensivo que o 4-3-3 standard da última década, se mais parecido ao modelo de Fernando Santos em 2001 ou ao Borussia de Dortmund de Klopp (de quem Paulo se lembrou na conferência de imprensa).
Basicamente há três grandes alterações conceptuais com este modelo.
A inversão do triângulo do meio-campo gera duas situações novas:
- a criação do conceito de número 10, que no 4-3-3 não tem lugar (ou é um extremo adaptado, como foi James, ou é um médio centro reconvertido, como muitas vezes joga Iniesta)
- a mudança do conceito defensivo, de um jogador fixo de marcação para a divisão de tarefas entre dois jogadores, ambos com ordens para subir e descer, alternando-se sucessivamente
No primeiro caso, a ideia de Paulo Fonseca parece-me evidente.
O número 10 está liberto de carga táctica. Marca menos o rival, corre menos, ocupa mais os espaços livres e aproxima-se ao avançado. Ele tem a missão de criar superioridade ofensiva na área, ajudar Jackson nas suas movimentações e oferecer-se sempre como alternativa de passe.
No segundo caso, implica ter uma equipa muito mais móvel, sem nenhum jogador com uma missão fixa todo o encontro, o que exige mais fisicamente dos dois jogadores, que terão de ser muito mais flexíveis.
A terceira alteração passa pelo maior espaçamento de linhas.
Com o 4-3-3 era muito habitual ver as linhas muito próximas entre si, com a equipa a subir em campo de forma compacta, em posse, muitas vezes num ritmo mais lento e previsível. O médio mais defensivo ficava ancorado entre os centrais, os laterais subiam (ora um, mais raramente, os dois) e os dois médios da parte superior do triângulo pautavam o ritmo. Agora nota-se claramente a existência de duas linhas, e cabe aos dois jogadores mais recuados do triângulo pautar o ritmo, permitindo sempre a 3 ou 4 jogadores estarem perto da área sem a bola, à espera de que a combinação entre os restantes jogadores a faça chegar até eles o mais rápido possível.
Nesta imagem pode ver-se qual é o desenho táctico standard em campo:
Um dos médios sai com a bola permitindo aos defesas abrirem-se para cada lado oferecendo linhas de passe e possibilitando aos laterais abrir o campo. O segundo médio está perto, numa zona próxima, para servir de apoio imediato. Mais à frente, os dois extremos jogam abertos e o número 10 e o avançado próximos um do outro, para puxar a marcação e abrir espaços nas costas e, em caso de recepção de bola, poderem combinar entre si de imediato.
Com esta ideia, o Paulo Fonseca quer claramente uma equipa mais vertical, mais dinâmica e trabalhada fisicamente e mais opções para o remate, com a presença constante de um segundo elemento perto da baliza.
Nesta outra imagem, num movimento ofensivo, podemos ver como o Lucho aparece quase como um 2º avançado (na sombra do médio defensivo do Vitória, ele está lá!), na mesma linha que os dois extremos (bem abertos), com o Jackson a prender um dos centrais. Essa situação garante quase uma igualdade numérica em movimentos ofensivos (4 para 5, em vez do 3-5 habitual do ano passado). Vemos os dois centrais a fechar a linha, uma vez mais os laterais abertos, neutralizando os extremos e os dois médios centro com a função de criar desde o primeiro instante.
Pode ser este um sistema mais defensivo do que o 4-3-3, como se tem sugerido?
Depende sobretudo do rival.
Em teoria, uma equipa que utilize um jogador como "número" 10 ou dois avançados, é uma equipa mais ofensiva por natureza. O problema está onde se movem. O 4-3-3 permitia a aproximação regular de dois jogadores do meio-campo à entrada da área, a que se juntavam os três da frente e, eventualmente, os laterais. Este modelo, na teoria, coloca um homem extra no ataque, o tal 10, e portanto, mais poder de fogo. Mas ao não ter um dos dois médios mais recuados com um papel fixo, como tampão, corre o risco de haver uma atrapalhação na movimentação do miolo e a equipa ficar mais frágil no momento da perda de bola. O 4-2-3-1 pode não ser mais defensivo que o 4-3-3, mas é um sistema bastante mais frágil.
O FC Porto vai jogar, para a Liga, com equipas que vão estacionar o autocarro e aproveitar falhas para lançamentos rápidos de contra-ataque. Foi assim que se perderam muitos pontos no ano passado. Lançamentos rápidos da defesa, diagonais no meio-campo, aproveitando processos defensivos desorganizados por uma rápida perda de bola. O 4-3-3 garantia, na teoria, que a presença de um médio mais defensivo na ajuda aos centrais, podia tapar essas iniciativas de contra-ataque com mais facilidade, o que leve a uma maior contenção da dupla e menos ajuda no movimento atacante.
O 4-2-3-1 é um modelo que sofre muito mais nessa circunstância.
Aliás, o Paulo Fonseca deve saber, grande parte dos golos sofridos por equipas como Dortmund e Real Madrid (que no ano passado usaram esse sistema) surgiram de situações assim, diagonais entre os dois médios centros, perdidos em campo, aproveitando os espaços disponíveis entre linhas para ganhar segundos preciosos, suficientes para armar o remate que a presença de uma sombra na zona evitaria (o que faz Busquets em Barcelona, por exemplo).
Nos jogos da pré-época, e na Supertaça, já se verificaram essas situações.
Um médio rival (ou defesa) tem a bola, lança um passe a rasgar entre-linhas, os dois médios estão em linha (ou muito próximos disso), ligeiramente afastados da defesa e é nesse espaço que surge o rival. Isso vai suceder regularmente durante o ano. Contra equipas mais exigentes, que vão ter a bola tanto ou mais tempo que nós (jogos de Champions, sobretudo), essa situação vai ser ainda mais habitual porque esse espaço livre é uma mina de ouro para explorar. Não há um jogador que varra o lance.
Nesta imagem estamos perante essa situação.
Uma perda de bola do ataque, contra-golpe do rival. O número 10 é o último, o que não corre e o avançado e os extremos estão todos muito próximos. Um dos laterais (Fucile), está pendente do extremo e longe da linha defensiva. Os restantes elementos da defesa estão em linha. Mas os dois médios estão expectantes, na mesma zona. Neste momento o Defour não está a marcar ninguém, é um jogador passivo na acção. O Fernando cumpre o seu papel (o que faz melhor) e aproxima-se do homem com a bola, que pode colocar um passe em diagonal para o avançado nas costas do meio-campo.
Não deixa de ser uma movimentação de jogadores que pode ser trabalhada durante o ano. Mas é um risco.
Não há sistemas perfeitos, o 4-3-3 desde já não o era. Mas defensivamente era muito mais seguro do que este modelo. Claro que o trabalho dos jogadores será fundamental para que este ou qualquer outro modelo funcione. E de aí vamos ao segundo ponto da análise.
Faz o 4-2-3-1 mais sentido que o 4-3-3 com este plantel e estes jogadores?
(continua)
O tempo dirá se a sua opção é a mais acertada, sobretudo em jogos radicalmente diferentes aos da pré-época e da Supertaça. Em Aveiro o sistema funcionou perfeitamente também porque o rival foi macio, muito macio. Na véspera do jogo o treinador tomou a palavra na sala de imprensa para responder a um jornalista que sugeriu o modelo como mais defensivo. Paulo Fonseca não gosta dessa ideia (apesar de ser um sistema muito mais utilizado por equipas de contra-golpe do que de ataque continuado).
Vou tentar explicar o que penso ser o seu ponto de vista e a minha percepção sobre o que vai significar a aplicação do modelo ao longo do ano, os seus pontos fortes e fracos. E, sobretudo, a sua adequabilidade ao plantel, no seu todo, e a alguns jogadores, em particular.
No final, podemos chegar à conclusão se o sistema é mais ou menos defensivo que o 4-3-3 standard da última década, se mais parecido ao modelo de Fernando Santos em 2001 ou ao Borussia de Dortmund de Klopp (de quem Paulo se lembrou na conferência de imprensa).
Basicamente há três grandes alterações conceptuais com este modelo.
A inversão do triângulo do meio-campo gera duas situações novas:
- a criação do conceito de número 10, que no 4-3-3 não tem lugar (ou é um extremo adaptado, como foi James, ou é um médio centro reconvertido, como muitas vezes joga Iniesta)
- a mudança do conceito defensivo, de um jogador fixo de marcação para a divisão de tarefas entre dois jogadores, ambos com ordens para subir e descer, alternando-se sucessivamente
No primeiro caso, a ideia de Paulo Fonseca parece-me evidente.
O número 10 está liberto de carga táctica. Marca menos o rival, corre menos, ocupa mais os espaços livres e aproxima-se ao avançado. Ele tem a missão de criar superioridade ofensiva na área, ajudar Jackson nas suas movimentações e oferecer-se sempre como alternativa de passe.
No segundo caso, implica ter uma equipa muito mais móvel, sem nenhum jogador com uma missão fixa todo o encontro, o que exige mais fisicamente dos dois jogadores, que terão de ser muito mais flexíveis.
A terceira alteração passa pelo maior espaçamento de linhas.
Com o 4-3-3 era muito habitual ver as linhas muito próximas entre si, com a equipa a subir em campo de forma compacta, em posse, muitas vezes num ritmo mais lento e previsível. O médio mais defensivo ficava ancorado entre os centrais, os laterais subiam (ora um, mais raramente, os dois) e os dois médios da parte superior do triângulo pautavam o ritmo. Agora nota-se claramente a existência de duas linhas, e cabe aos dois jogadores mais recuados do triângulo pautar o ritmo, permitindo sempre a 3 ou 4 jogadores estarem perto da área sem a bola, à espera de que a combinação entre os restantes jogadores a faça chegar até eles o mais rápido possível.
Nesta imagem pode ver-se qual é o desenho táctico standard em campo:
Um dos médios sai com a bola permitindo aos defesas abrirem-se para cada lado oferecendo linhas de passe e possibilitando aos laterais abrir o campo. O segundo médio está perto, numa zona próxima, para servir de apoio imediato. Mais à frente, os dois extremos jogam abertos e o número 10 e o avançado próximos um do outro, para puxar a marcação e abrir espaços nas costas e, em caso de recepção de bola, poderem combinar entre si de imediato.
Com esta ideia, o Paulo Fonseca quer claramente uma equipa mais vertical, mais dinâmica e trabalhada fisicamente e mais opções para o remate, com a presença constante de um segundo elemento perto da baliza.
Nesta outra imagem, num movimento ofensivo, podemos ver como o Lucho aparece quase como um 2º avançado (na sombra do médio defensivo do Vitória, ele está lá!), na mesma linha que os dois extremos (bem abertos), com o Jackson a prender um dos centrais. Essa situação garante quase uma igualdade numérica em movimentos ofensivos (4 para 5, em vez do 3-5 habitual do ano passado). Vemos os dois centrais a fechar a linha, uma vez mais os laterais abertos, neutralizando os extremos e os dois médios centro com a função de criar desde o primeiro instante.
Pode ser este um sistema mais defensivo do que o 4-3-3, como se tem sugerido?
Depende sobretudo do rival.
Em teoria, uma equipa que utilize um jogador como "número" 10 ou dois avançados, é uma equipa mais ofensiva por natureza. O problema está onde se movem. O 4-3-3 permitia a aproximação regular de dois jogadores do meio-campo à entrada da área, a que se juntavam os três da frente e, eventualmente, os laterais. Este modelo, na teoria, coloca um homem extra no ataque, o tal 10, e portanto, mais poder de fogo. Mas ao não ter um dos dois médios mais recuados com um papel fixo, como tampão, corre o risco de haver uma atrapalhação na movimentação do miolo e a equipa ficar mais frágil no momento da perda de bola. O 4-2-3-1 pode não ser mais defensivo que o 4-3-3, mas é um sistema bastante mais frágil.
O FC Porto vai jogar, para a Liga, com equipas que vão estacionar o autocarro e aproveitar falhas para lançamentos rápidos de contra-ataque. Foi assim que se perderam muitos pontos no ano passado. Lançamentos rápidos da defesa, diagonais no meio-campo, aproveitando processos defensivos desorganizados por uma rápida perda de bola. O 4-3-3 garantia, na teoria, que a presença de um médio mais defensivo na ajuda aos centrais, podia tapar essas iniciativas de contra-ataque com mais facilidade, o que leve a uma maior contenção da dupla e menos ajuda no movimento atacante.
O 4-2-3-1 é um modelo que sofre muito mais nessa circunstância.
Aliás, o Paulo Fonseca deve saber, grande parte dos golos sofridos por equipas como Dortmund e Real Madrid (que no ano passado usaram esse sistema) surgiram de situações assim, diagonais entre os dois médios centros, perdidos em campo, aproveitando os espaços disponíveis entre linhas para ganhar segundos preciosos, suficientes para armar o remate que a presença de uma sombra na zona evitaria (o que faz Busquets em Barcelona, por exemplo).
Nos jogos da pré-época, e na Supertaça, já se verificaram essas situações.
Um médio rival (ou defesa) tem a bola, lança um passe a rasgar entre-linhas, os dois médios estão em linha (ou muito próximos disso), ligeiramente afastados da defesa e é nesse espaço que surge o rival. Isso vai suceder regularmente durante o ano. Contra equipas mais exigentes, que vão ter a bola tanto ou mais tempo que nós (jogos de Champions, sobretudo), essa situação vai ser ainda mais habitual porque esse espaço livre é uma mina de ouro para explorar. Não há um jogador que varra o lance.
Nesta imagem estamos perante essa situação.
Uma perda de bola do ataque, contra-golpe do rival. O número 10 é o último, o que não corre e o avançado e os extremos estão todos muito próximos. Um dos laterais (Fucile), está pendente do extremo e longe da linha defensiva. Os restantes elementos da defesa estão em linha. Mas os dois médios estão expectantes, na mesma zona. Neste momento o Defour não está a marcar ninguém, é um jogador passivo na acção. O Fernando cumpre o seu papel (o que faz melhor) e aproxima-se do homem com a bola, que pode colocar um passe em diagonal para o avançado nas costas do meio-campo.
Não deixa de ser uma movimentação de jogadores que pode ser trabalhada durante o ano. Mas é um risco.
Não há sistemas perfeitos, o 4-3-3 desde já não o era. Mas defensivamente era muito mais seguro do que este modelo. Claro que o trabalho dos jogadores será fundamental para que este ou qualquer outro modelo funcione. E de aí vamos ao segundo ponto da análise.
Faz o 4-2-3-1 mais sentido que o 4-3-3 com este plantel e estes jogadores?
(continua)
quinta-feira, 23 de maio de 2013
A táctica do costume…
Rui Moreira, in A BOLA, 17-05-2013
Nas vésperas do último jogo do campeonato, Rui Moreira, um dos mais mediáticos adeptos do FC Porto, comentando em A BOLA a vitória dos dragões sobre o grande rival no jogo do título, voltou a falar, com um indisfarçável enfado, na “táctica do costume”.
Convém dizer que Rui Moreira não está sozinho nas críticas à “táctica do costume”. Como ele, há muitos mais adeptos portistas que partilham o mesmo desagrado deste Dragão de Ouro (Sócio do ano em 2010) em relação ao modelo de jogo adoptado pelo FC Porto de Vítor Pereira, dizendo que este modelo é inconsequente, ineficaz e, em alguns casos, até o acusam de ser defensivo.
Independentemente de discutirmos se, com o plantel existente, o modelo de jogo do FC Porto poderia/deveria ser muito diferente (isso é assunto para outros artigos), será que este tipo de críticas são justas?
Olhemos para os números oficiais do campeonato.
Usando a “táctica do costume”, o FC Porto, após 30 jogos, concluiu o campeonato como vencedor (não é coisa pouca…) e:
- única equipa invicta;
- equipa com mais vitórias (juntamente com o slb);
- com 70 golos marcados (média de 2,33 por jogo);
- com 14 golos sofridos (média de 0,46 por jogo).
Penso que estes factos, por si só, já são elucidativos. Mas, se não quisermos limitar a análise às vitórias, derrotas, golos marcados e sofridos, podemos olhar para outros rankings de aspetos do jogo, que traduzem, ou são consequência, de acções ofensivas e defensivas da equipa.
Equipa com mais remates:
1º) FC Porto, 495
2º) benfica, 475
3º) sporting, 406
Equipa com menos remates consentidos: FC Porto (189)
Equipa com mais cantos a favor:
1º) FC Porto, 231
2º) benfica, 227
3º) sporting, 213
Equipa com menos cantos consentidos: FC Porto (110)
Será por acaso, ou por obra e graça divina, que a equipa do FC Porto chegou ao fim do campeonato na liderança destes rankings?
O gostar ou não gostar de um determinado modelo de jogo, tem sempre algo de subjectivo e eu até compreendo que haja portistas que prefiram a vertigem do modelo do "catedrático". Contudo, analisando todos estes números de uma forma racional, não-emotiva e sem preconceitos, não me parece que os adjectivos mais adequados para classificar o modelo de jogo adoptado pelo FC Porto sejam “defensivo”, “inconsequente” e muito menos “ineficaz”.
P.S. Acerca da “táctica do costume”, vale a pena ler o que disse o treinador do Estoril, Marco Silva, numa entrevista publicada no Record de 22-05-2013:
«Trata-se de uma equipa [FC Porto] muito coesa. Se formos a ver que, em três anos, apenas perdeu um jogo… isso define muito do que é aquela equipa. Acima de tudo, com Vítor Pereira, é uma equipa organizada e forte. (…)
Exerce [a equipa do FC Porto] uma pressão muito forte sobre o adversário, circula muito bem a bola e tem uma reação à perda de bola a todos os níveis fantástica. Só assim se explica como conseguiu ter níveis de posse de bola excecionais esta temporada.»
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domingo, 1 de novembro de 2009
Modelos e expectativas
A propósito da saída do Lucho e do Lisandro, publiquei um artigo no dia 8 de Julho com o título ‘A melhor dupla de tango argentino’, em que escrevi o seguinte:
«Por melhor que sejam as adaptações dos novos jogadores, nem daqui a um ano vai ser fácil atingir o nível de entendimento que existia na dupla Lucho-Lisandro, os quais já jogavam de olhos fechados, qual maravilhoso par argentino a deslizar sobre tapetes verdes dançando o tango.
Inclusivamente, não sei se Jesualdo não terá de rever o seu 4-3-3 baseado em transições rápidas, visto que Lucho e Lisandro eram interpretes fundamentais para este modelo de jogo.»
Dois dias depois, a 10 de Julho, publiquei um outro artigo sobre o novo camisola 8 do FC Porto e anunciado sucessor de Lucho, em que escrevi:
«Sinceramente, não estou à espera que o Belluschi atinja o nível do Lucho. Por alguma razão o Marselha preferiu gastar 18 milhões num jogador de 28 anos, em vez de “apenas” 5 milhões num de 25 anos.»
No início do campeonato, a 22 de Agosto, publiquei um artigo premonitório a que chamei ‘Uma equação de resolução complicada’ e, em termos daquilo que eu já na altura entendia serem os principais problemas, está lá tudo:
1) a saída da melhor dupla argentina que passou pelo futebol português
2) o substituto do Lucho e o modelo de jogo
3) as revoluções sucessivas no plantel
4) a difícil integração dos jogadores sul-americanos
5) as implicações dos jogos e viagens das Selecções
A tudo isto, que escrevi há meses atrás, acrescentei mais alguns aspectos no artigo ‘O cabo das tormentas’, que publiquei nesta semana, nomeadamente a vaga de lesões que assolou o plantel.
Todos estes argumentos servem para desculpabilizar as más exibições (piores que os resultados) que a equipa tem tido neste início de época?
Não, mas servem para enquadrar e para ajudar a explicar algo que a todos os portistas custa a aceitar: provavelmente, esta época o grupo de trabalho (este treinador + este plantel) não reúne as condições necessárias para que o FC Porto renove o seu título de Tetra-campeão.
E não é por causa da euforia encarnada que o digo porque, de forma reiterada, já tinha chamado à atenção para os problemas no arranque da época e no início do campeonato.
Muitos portistas, incluindo vários dos meus amigos, não têm dúvidas: Jesualdo Ferreira é o principal, senão único, responsável por tudo o que de mau a equipa tem feito nesta época.
Mais. Há quem vá ao ponto de dizer que o sucesso alcançado por Jesualdo nas três últimas épocas não foi mérito dele, mas sim dos grandes jogadores que integravam o plantel.
Mas então Bruno Alves, Meireles, Rodriguez, Hulk, Belluschi, Falcao, entre outros de menor nomeada, não são craques a sério, pagos a peso de ouro e com mercado (leia-se clubes interessados)?
Um orçamento superior a 80 milhões de euros, o mais elevado de sempre do futebol português, não pressupõe que o plantel seja composto por grandes jogadores, ou será que a SAD comprou “gato por lebre”?
Tal como fiz noutras alturas, não tenho dúvidas em afirmar que o principal responsável pelo comportamento da equipa é o treinador mas, dizer-se que o mérito dos sucessos foi sempre dos jogadores e a culpa dos fracassos é unicamente do treinador, parece-me um contra-senso insanável, a não ser que entendamos que o Jesualdo desaprendeu e está a ficar senil.

E os jogadores, são apenas vitimas do “tenebroso” modelo de jogo do Jesualdo?
Se assim é, porque razão Meireles, Rodriguez e Hulk estão esta época a jogar muito pior e a ter menos influência na equipa do que tinham na época passada? O modelo de jogo não é o mesmo?
E o que se passa com Falcao que, aparentemente, nos primeiros jogos se deu às mil maravilhas com o modelo de jogo da equipa (ao ponto de Pinto da Costa ter agradecido aos olheiros do SLB...) e nos últimos três – APOEL, Académica e Belenenses – esteve absolutamente desastrado, falhando golos fáceis com a baliza escancarada?
O treinador, reafirmo, é o responsável número um e, concerteza, que terá muitas culpas, nomeadamente por não ter sabido adaptar o sistema/modelo de jogo da equipa à fase pós-Lucho. Mas, nesta altura da época, não seria de esperar mais de vedetas principescamente pagas como Meireles, Hulk, Rodriguez, Falcao ou Belluschi?
quinta-feira, 5 de março de 2009
Como nos estamos a defender
Nos últimos tempos tenho estado mais atento às nossas movimentações defensivas por ter reparado que concedemos muitos cruzamentos ao adversário. As razões para esta situação não são do meu conhecimento. Não sei se são a consequência de um comportamento defensivo ou se são o objectivo do comportamento defensivo.
Creio que em parte este sistema defensivo será um resquício de uma estratégia que (com Bosingwa à direita e Fucile à esquerda) apostava na rapidez dos laterais para impedir os cruzamentos. Por outro lado, e apesar de termos perdido a rapidez e capacidade de recuperação nas laterais, este sistema parece-me continuar a funcionar na prevenção de golos pelo facto de possuirmos dois centrais altos, com boa impulsão e com bom jogo de cabeça e um guarda-redes relativamente seguro a sair dos postes.
Há vários elementos, na minha opinião, que sustentam esta tese:
Recuo das linhas avançadas e concentração no centro do terreno
Parece-me consensual que este ano actuamos com as linhas mais recuadas e com uma certa passividade no momento de recuperar a bola. Os jogadores tendem a "amontoar-se" em frente à área sem fazer movimentos de pressão sobre os oponentes, apenas procurando tapar as linhas de passe. A consequência disto é que os nossos adversários tenham tendência para lateralizar o jogo, apostando mais na velocidade nos flancos e nas variações de jogo (mudando o jogo rapidamente para o lado oposto do ataque).
Postura dos laterais
Os nossos laterais têm tido uma atitude mais passiva, fechando mais no centro do terreno e dando mais espaço para a entrada de jogadores pelo flanco. O posicionamento dos laterais quando se encontram no um para um, tem sido na expectativa de se o atacante conseguir passar, que seja para a lateral e não para o centro.
Golos sofridos em remates à entrada da área
Temos sofrido muitos golos em remates de fora da área, e muitos sustos por aparecerem jogadores sozinhos a rematar nessas zonas. Parece-me lógico que sendo essa uma das lacunas da nossa equipa (a falta de agressividade na recuperação em frente à área) que consciente ou inconscientemente se tente que a bola não esteja tanto nessa zona do terreno. Como tal parece mais simples fazer com que o adversário jogue nas laterais e no jogo aéreo (onde o FC Porto costuma ter predominância).

Em resumo, creio que uma parte da estratégia defensiva passa por "dar" ao adversário a linha de fundo, ganhando depois a bola no jogo aéreo dentro da área. Concordando ou não com a estratégia, parece-me que estão a ser aproveitadas as capacidades dos nosso jogadores (jogo aéreo) para suprir outras falhas dos mesmos (agressividade na recuperação da bola).
Quero deixar claro que não tenho qualquer formação na área de futebol. As conclusões a que chego são baseadas exclusivamente em senso comum e na experiência adquirida a ver futebol ao longo dos anos.
Creio que em parte este sistema defensivo será um resquício de uma estratégia que (com Bosingwa à direita e Fucile à esquerda) apostava na rapidez dos laterais para impedir os cruzamentos. Por outro lado, e apesar de termos perdido a rapidez e capacidade de recuperação nas laterais, este sistema parece-me continuar a funcionar na prevenção de golos pelo facto de possuirmos dois centrais altos, com boa impulsão e com bom jogo de cabeça e um guarda-redes relativamente seguro a sair dos postes.Há vários elementos, na minha opinião, que sustentam esta tese:
Recuo das linhas avançadas e concentração no centro do terreno
Parece-me consensual que este ano actuamos com as linhas mais recuadas e com uma certa passividade no momento de recuperar a bola. Os jogadores tendem a "amontoar-se" em frente à área sem fazer movimentos de pressão sobre os oponentes, apenas procurando tapar as linhas de passe. A consequência disto é que os nossos adversários tenham tendência para lateralizar o jogo, apostando mais na velocidade nos flancos e nas variações de jogo (mudando o jogo rapidamente para o lado oposto do ataque).
Postura dos laterais
Os nossos laterais têm tido uma atitude mais passiva, fechando mais no centro do terreno e dando mais espaço para a entrada de jogadores pelo flanco. O posicionamento dos laterais quando se encontram no um para um, tem sido na expectativa de se o atacante conseguir passar, que seja para a lateral e não para o centro.Golos sofridos em remates à entrada da área
Temos sofrido muitos golos em remates de fora da área, e muitos sustos por aparecerem jogadores sozinhos a rematar nessas zonas. Parece-me lógico que sendo essa uma das lacunas da nossa equipa (a falta de agressividade na recuperação em frente à área) que consciente ou inconscientemente se tente que a bola não esteja tanto nessa zona do terreno. Como tal parece mais simples fazer com que o adversário jogue nas laterais e no jogo aéreo (onde o FC Porto costuma ter predominância).
Em resumo, creio que uma parte da estratégia defensiva passa por "dar" ao adversário a linha de fundo, ganhando depois a bola no jogo aéreo dentro da área. Concordando ou não com a estratégia, parece-me que estão a ser aproveitadas as capacidades dos nosso jogadores (jogo aéreo) para suprir outras falhas dos mesmos (agressividade na recuperação da bola).
Quero deixar claro que não tenho qualquer formação na área de futebol. As conclusões a que chego são baseadas exclusivamente em senso comum e na experiência adquirida a ver futebol ao longo dos anos.
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