Hulk já se foi e não volta, pelo menos não nos próximos tempos a não ser que seja para nos assustar com os seus misseis indefensáveis. Ainda não ficou de todo claro, e talvez nunca fique, como se processou um negócio que há cinco dias, por 50 milhões, foi rejeitado pelo jogador ou pelo clube, vá-se lá saber, e que no limite dos limites do fecho das inscrições na UEFA se realizou por 60 milhões. Um valor que fica bem para o pódio de compras e vendas mas que para nós nos diz pouco. 40 milhões é o que chega ao FC Porto, é com 40 milhões que vamos ter de começar a pensar.
Ainda não sei se desse valor terão de sair comissões, velhas promessas ao jogador e ao agente, e a percentagem fundo de solidariedade. 85% de Hulk a 60 milhões equivale a 51 milhões, pelo que deduzo que esses 11 milhões que desapareceram sejam para pagar esses pontos pendentes. Se os russos pagaram ao fundo 9 milhões ou não, isso é com eles.
O negócio realizado
in extremis é um grande negócio financeiro, um mau negócio desportivo e, sobretudo, um negócio necessário face a situação financeira do clube. Nenhum adepto gosta de ver sair os seus jogadores de referência, seja porque valores sejam, mas nós já estamos habituados a isto. Os valores hoje em dia são mais elevados porque os custos dos próprios jogadores e a sua massa salarial também. Mas a lenga-lenga é a mesma de sempre. Vender para sobreviver.
Pensem nos adeptos do AC Milan que viram Berlusconi negar que venderia Ibrahimovic e Thiago Silva e que depois acabou por aceitar a oferta mareante do PSG. Desportivamente foi um erro, financeiramente uma necessidade. O AC Milan também está com a corda na garganta, Berlusconi não encontra investidores e do dinheiro embolsado quase nada foi gasto no mercado para procurar alternativas. Não há margem de manobra.
O nosso caso é parecido ao dos italianos, com a diferença que nós estamos habituados a isto e eles não.
A venda de Falcao no ano passado, também em cima da hora, seguiu o mesmo percurso. Orquestrou-se uma renovação para manter vivo o fantasma da cláusula (continua sem sair um jogador do FCP pela cláusula até hoje) e a vontade do jogador sair, mas na base estava a necessidade urgente da SAD em fazer dinheiro com os seus melhores activos. Hulk, que aparentemente não queria ir a lado nenhum, entre outras coisas porque lhe dá mais jeito estar no Porto, ao lado de Danilo e Alex Sandro, para chamar a atenção de Mano Menezes do que ir para a Rússia, lá teve de aceitar a evidência. Se não saísse, especialmente depois de Moutinho ter ficado a minutos de ir para Londres, não haveria dinheiro para lhe pagar o salário. O dele e de outros. Tal como sucedeu no ano passado.
Desportivamente está claro que o FC Porto fica mais débil.
Perde o homem que decidia os jogos na Liga em campos pequenos, fechados e com a defesa de dez do outro lado. Perde o homem-golo, perde o líder espiritual em campo, perde a referência para os adeptos e o efeito surpresa que só um jogador como Hulk pode dar. Não vou entrar em comparações com as vendas dos rivais porque não pode ser assim que um clube pense, mas não creio que deixemos de ser favoritos a renovar o título.
Na Champions League, onde tivemos um grupo acessível, perdemos a superioridade que muitos analistas - e que eu próprio - dava face a Dynamo Kiev e Dynamo Zagreb. Creio que continuamos a ser superiores aos croatas mas com os ucranianos as coisas nivelam-se bastante mais. E as distâncias com o PSG aumentam. Que é possível passar? Claro que é, para isso está cá o treinador (que não desperta muita confiança) e o resto do plantel. E porque com Hulk, no ano passado, também não se seguiu em frente num grupo igualmente equilibrado.
A nível futuro seria muito difícil valorizar mais ainda Hulk.
É um jogador de 26 anos, já titular com a selecção do Brasil, medalha de prata olímpico e jogador conhecido e reconhecido em toda a Europa. Ao contrário de Falcao, que acredito que se vá valorizar ainda mais, especialmente porque os golos pagam-se mais caros, creio que seria impossível fazer uma venda melhor do que aquela que foi feita. São (aparentemente) 40 milhões por um jogador que custou 19 e que servirá para pagar salários, cumprir com o pagamento dos empréstimos obrigacionistas que chegam agora e tentar respirar. Sobretudo, tentar respirar.
Agora falta pensar o futuro.
Temo que em Janeiro, quando o mercado reabra, o FC Porto sinta a necessidade de pegar em parte desse dinheiro e ir ao mercado. Dependerá dos resultados da Champions, do eventual apuramento para os Oitavos (e do sorteio que se segue) e de como for a prova interna. Se a SAD já sabia que teria de vender Hulk este ano, sim ou sim, para manter as contas, também deveria ter consciência de que o plantel que fica deveria ser suficiente. É extremamente jovem, gerido por um técnico que não é propriamente competente, mas não pode depender de chegadas inesperadas e caras para tapar as previsões de agora. Da mesma forma que foi preciso ir buscar Janko primeiro e Jackson depois, porque não se encontrou alternativa a Falcao, espero que se tenha no clube a consciência de que não há outro Hulk no mercado e que é com o que temos que o navio tem de chegar a bom porto. Se não o ciclo de saldo negativo nunca se inverterá.
Por fim fica a questão do adepto ambicioso, do adepto que acredita que o FC Porto pode e deve ser algo mais.
Não são muitos, a maioria parece ter-se contentado com a hegemonia indiscutível a nível nacional (que já dura 3 décadas, parabéns aos homens que a conseguiram, SAD incluída) sem pensar que depois de 2004 o clube podia ter dado um salto qualitativo importante.
O campeão por excelência da 5º liga dos ranking UEFA, o único clube nos últimos 15 anos a vencer a Champions League fora das grandes ligas, não pode arrancar cada época com o pensamento de passar a Fase de Grupos da Champions League.
Uma coisa é que, por motivo X, Y e Z, não se consiga passar. Desde que o torneio começou só o Real Madrid logrou passar sempre da fase de grupos. Outra é dar o objectivo por cumprido e por os Oitavos como objectivo mínimo. E não devia. O clube devia desenhar um plano de presente e futuro para fazer, de uma vez por todas, do FC Porto um clube de Quartos de Champions.
Se não chegamos lá todos os anos, paciência, haverá justificações para isso, tanto financeiras como desportivas. Mas devemos ambicioná-lo, devemos trabalhar para isso.
APOEL, Benfica, Shaktar, Bordeaux, O. Lyon, Fenerbache, PSV e
Villareal são equipas que o lograram nas edições posteriores ao nosso titulo europeu. Nenhum desses clubes vale mais, desportivamente, que o FC Porto. E salvo o Shaktar, apoiado por um milionário ucraniano com negócios no Brasil, nenhum é financeiramente muito mais poderoso que o FC Porto. Portanto esse passo não é uma utopia.
Sem Hulk, sem Falcao, sem Alvaro e companhia será sempre mais difícil dar esse salto. O clube optou por salvar o pescoço da situação financeira em que ele próprio se meteu. Parece-me muito bem, antes de comprar um carro há que ter de comer. Mas saciada a fome é preciso começar a pensar quando vamos poder comprar o carro e dar o salto que nos merecemos. Talvez então seja mais fácil dizer adeus quando um grande como Hulk se tenha de ir.