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domingo, 26 de janeiro de 2020

É disto que o slb gosta...

Sérgio Conceição tem razão e fez bem em colocar o seu lugar à disposição do Presidente.

Após um jogo para uma prova secundária, equilibrado e em que a vitória poderia ter caído para qualquer um dos lados, e em que o nosso adversário, que jogava em casa e teve mais 24h de descanso, teve a sorte de marcar após um ressalto, o nosso treinador achou ter, finalmente, chegada a hora de deitar tudo cá para fora. Um desabafo que já tardava.
Existe efectivamente uma campanha tóxica de uma parte dos adeptos do FCP, que começou praticamente no início da segunda época do seu reinado actual e que nunca deu tréguas mesmo durante fases mais positivas. Uma espécie de ódio irracional e que nunca encontrou respaldo nos resultados dentro do campo (SC fez, em 2018/19, uma das 10 melhores classificações do nosso clube da era-Pinto da Costa e, nesta presente temporada, terminou a primeira-volta não longe do top-10 de sempre para esse ciclo).
As críticas que lhe eram dirigidas foram muitas vezes de uma ferocidade que só encontra paralelo nos tempos em que Octávio Machado foi o nosso treinador principal. Com a enorme diferença de que, aquando deste último, os maus resultados justificavam a revolta dos sócios e simpatizantes, coisa que de modo algum sucede na actualidade.
Num processo de transferência, bem conhecido da área da psicologia, alguns adeptos portistas transportam a nossa impotência perante o domínio fora-da-lei do slb e SC surge como o bode expiatório mais a mão.
O problema principal está na "performance" desportiva absolutamente irreal do slb e não nos números deste FCP de SC, que sempre esteve bem acima da nossa média habitual ao longo dos anos.
Para que o FCP conseguisse alcançar, neste momento, o topo da tabela classificativa, teria que ter perdido apenas uns míseros três pontos em toda a primeira metade do campeonato. Esqueçam. Isso nunca irá acontecer. Coloquem o nosso melhor "11" de sempre em campo (por exemplo, aquele das estátuas no nosso Museu), todos eles no topo das suas carreiras, e nem assim o FCP alcançaria tal feito. Nem tendo Robson+Mourinho, os dois juntos, como treinadores.
Porquê? Por tal ser absolutamente impossível sem ajudas externas.

Sim, poderemos discutir longamente Manafá, Uribe ou Marega, mas o problema principal do futebol português, não está nisso mas sim no facto de existir uma equipa que vence praticamente todos os jogos no campeonato nacional. Algo de inédito em toda a história. A mesmíssima equipa que raramente vence os jogos para as competições europeias. Paradoxo máximo e total.

"Não fazemos a nossa parte"? Esta é a frase que os benfiquistas mais gostam de nos ouvir dizer.
Era a parte que lhes faltava para transformar o roubo num crime perfeito.
Seria como alguém ser assaltado na rua e achar-se culpado porque, depois, não correu atrás do ladrão.
Enquanto considerarmos que o mal principal esta em nós, para o ano o slb repetirá a dose e fará mais do mesmo.

SC transformou, globalmente, as coisas para melhor desde que cá chegou.
Erra menos do que a grande maioria dos nossos recentes treinadores, é competente e apaixonado, trouxe ideias frescas e, principalmente, muito dificilmente o nosso clube arranjará melhor na nossa (difícil) actualidade.

Aqueles portistas da campanha tóxica anti-SC deveriam olhar para o (mau) exemplo do scp.
Para esses, Marco Silva não servia, Leonardo Jardim não era bom o suficiente e até Jorge Jesus ficava aquém do desejado.
Quererão os portistas um Kaiser, seguido de um Silas, no lugar de SC?

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Bater no peito não chega!


No momento em que este artigo se escreve ainda não sabemos se o terceiro milagre da década, qual segredo de Fátima, vai ter lugar ou não. Depois do momento Kelvin e da epopeia Herrera, o FC Porto precisaría de outro golpe de sorte – desta vez alheio – para poder conquistar o bicampeonato, um cenário cada vez mais improvável. O FC Porto partiu como favorito, confirmou o favoritismo durante uma volta, conseguiu uma vantagem histórica e deitou-a fora a ponto de poder perder o campeonato a um jogo do fim. Esses são os dados. De ser campeão nacional, cenário improvável, o FC Porto cumpre com o prognóstico inicial e com o que fez durante meia época. Não seria um golpe de sorte, um ajuste de contas divino apesar de ser necessário um milagre. Seria algo lógico e natural. De não acontecer será uma profunda decepção. O denominador comum neste debate sobre o FC Porto a dia de hoje, o de ontem e o que será amanhã tem rodado à volta de um homem: Sérgio Conceição.

Num clube desprovido de Presidente – uma figura que se aproxima cada vez mais aos velhos lideres de tribos indigenas, que fazem do silêncio e da reclusão a base da sua liderança entregando as acções aos mais novos – e com uma “Estrutura” que, pura e simplesmente, já não existe, a figura do treinador é cada vez mais relevante, algo que o meu amigo e companheiro de escrita José Correia tem defendido, com toda a razão. Acabou a era em que a dinámica dirigente do FC Porto era a sua mais valia. Essa estrutura erosionou-se com o tempo. Seria algo natural, tratado sem drama, porque o tempo passa para todos, não fosse a cultura estalinista do Líder Supremo e a mentalidade de portistas ruidosos que fazem de qualquer critica ou opinião contrária à sapiencia absoluta e intocável dessa figura um insulto ao escudo e bandeira. Se por um lado continua a parecer óbvio que quem Preside não dirige o clube - e o continuará a Presidir até nos abandonar definitivamente, face às suas sucessivas recandidaturas quando o tempo perfeito da retirada vai pasando e ele vai assobiando - o que não deixa de ser igualmente evidente é que não há um leme claro no clube abaixo da sua figura crepuscular que coloque ordem onde só existe o caos. Não há um director desportivo com poder real – e a figura de Luis Gonçalves tem sido cada vez mais próxima daquela que teve Reinaldo Teles, que também carecia totalmente de influência e poder e actuava mais como uma ponte com o balneario do que na tomada de decisões – nem uma direcção com caras e ideias novas. 
Estamos num clube onde um ex político como Fernando Gomes encontrou uma reforma de ouro sem poder acrescentar nada de valor ao projecto. Um clube onde um advogado, fundamental na actuação do proceso Apito Dourado, tem concentrado em si um poder que ultrapassa em muito a sua real valia. Um clube onde o filho do dirigente crepuscular, sem cargo eleito ou nomeado, se passeia como se fosse o dono da casa com as chaves a tilintar no bolso. Nesse cenário dantesco o optimismo não tem lugar e é um cenário já suficientemente antigo para acreditar que vai mudar. Não vai. Pelo menos, não para melhor. Algo que muitos já assumiram, algo que poucos estão dispostos realmente a mudar.

Nesse contexto a figura do treinador ganha uma relevância especial. 
Quando o actual Presidente o era, de facto, o treinador era uma extensão sua mas, em última análise, o clube era do Presidente, os êxitos eram do Presidente e o futuro estava nas suas mãos. E eram tempos maravilhosos porque o Presidente exercia como tal e tinha sagacidade mental, espirito e vontade de o fazer. Graças a isso vivemos uma etapa dourada. Não a voltaremos a viver, não debaixo da mesma premissa. E portanto esse treinador quase secundário, na narrativa de muitos êxitos, ganhou preponderância. Exigia-se para isso um perfil especial. Jesualdo Ferreira foi o navegador tranquilo durante a mais difícil tempestade mas não animava o povo. Vilas-Boas, que a memoria não engane, começou assobiado por “miudo” e acabou elevado a uma altura a que não lhe correspondia futebolisticamente, provou-o a história, precisamente porque soube como animar o povo. Vitor Pereira tinha o futebol mas não tinha já os meios humanos nem a voz. Paulo Fonseca aterrou cedo num momento de mudança profunda nas estruturas de poder e acobardou-se. Lopetegui insurgiu-se como nenhum dos anteriores contra aquilo que agora tanto nos indigna e foi cuspido na cara por isso, deixado só aos abutres, com um título roubado e um plantel dilapidado. Nuno esteve bem ao serviço do empregador, que não era o FC Porto, mas também viveu o fantasma do Polvo, quando já começava a haver Francisco J. e emails, depois de anos de silêncio onde só Bernardino Barros e poucos espaços, como este, clamavam por acção e resposta. Foi com ele que renasceu o Mar Azul, lembrem-se bem, ainda que não graças ao seu ingénio. E depois chegou Sérgio. O que mudou de Sérgio para os seus antecessores imediatos? O momento Kelvin 2018.

Conceição trouxe um discurso à Porto porque viveu, sente e conhece o clube. É um dos nossos, sem dúvida nenhuma.  
Uma versão hardcore do que um NES – sempre mais preocupado em agradar ao seu melhor amigo e a cair bem a toda a gente – podía ter oferecido. Tacticamente ambos não são técnicos de elite nem vão ser mas tinham uma ideia clara e fechada, pouca margem de abertura e operaram com recursos escassos. NES apanhou um Rui Vitória já em rota decadente e não o soube aproveitar mas foi o péssimo inicio da Champions 2017/18, o inicio avassalador das divulgaçoes dos emails pelo Porto Canal/Francisco J./Baluarte, e uma excelente pré-temporada que preparou físi e mentalmente a equipa com um modelo táctico imitado directamente do manual de Jorge Jesus, apontado ao jogo directo, vertical, com dois pontas de lança e ausêncio de miolo de jogo, quem rematou definitivamente com um treinador mediocre, com um plantel também ele cada vez pior a cada ano que passava e que colocou o FC Porto no Natal com uma liderança relativamente cómoda. 
Foram meses de euforia, justificada, com um plantel de remendos (os mesmos do ano anterior com a diferença de que já não havia pérolas da formação, vendidas meses antes a preço de saldo), e com um espirito de cruzada contra um Penta que era e só podía ser nosso. O Mar Azul, que já vinha embalado, foi reactivado e cumpriu. Os jogadores encontraram uma motivação extra (Brahimi na Feira dixit) e o modelo táctico inicial surpreendeu os rivais, habituados sempre a um Porto mais rendilhado do que o rival. Quando começou a segunda volta ficou claro que algo tinha de mudar. E não mudou. A equipa jogava igual mas havia menos pernas e pulmões porque as rotações eram nulas e os rivais iam aprendendo a recuar para não dar os mesmos espaços. A birra com Casillas colocou na baliza a um Sá que, esforçado, não fazia a diferença. Sem o peso da Europa nas costas e com o primeiro choque dos emails ultrapassado, o Polvo acordou e levou a Águia ao colo durante semanas e nesse cenário o que fez o treinador? Nada.
Manteve exactamente a mesma filosofía, dinâmica e gestão e como recompensa levou um set de derrotas nas Taças a que só ele parecia dar especial importância. Sofreu uma goleada histórica na Champions por acreditar que o Liverpool podia ser enfrentado como o Aves. E deitou borda fora cinco pontos de vantagem pontual chegando à Luz necessitado de uma vitória para que não se repetisse o drama dos anos anteriores. O milagre aconteceu, num jogo em que não houve superioridade (a do jogo da primeira volta, onde o Polvo mostrou estar bem vivo, e que sim foi evidente), e com ele houve titulo. Mas também sinais. Importantes. Evidentes. Ignorados.

O que define um grande líder é, sobretudo, a sua capacidade de aprender. O maior maestro da vida é o falhanço. É normal perder. É normal errar. O que nos define é a capacidade de superar esses erros. Esta época o que todos viram foi a absoluta incapacidade de Sérgio Conceição de seguir essa premissa. O guião foi similar. Equipa que entra forte - a pesar das dúvidas do mercado com o caso Marega na sombra e as primeiras lesões bem cedo - consegue uma sequência histórica de vitórias, classificação na Champions, liderança confortável face a uma nova debacle de Vitória, desta vez despachado, e sete pontos de avanço em Janeiro. Dois mais que no ano pasado. O que convidava a experiência? 
Diferente gestão, não repetir os erros, gerir emocionalmente a situação. Liderar. O que mostrou a realidade? Mesmos jogadores rebentados, outro flop na Taça da Liga que custou mais do que parecia, outra ausência de aposta na formação ou na segunda linha para muitos jogos que convidavam a dar oxigénio a figuras nucleares e um modelo táctico cada vez mais fácil de anular pelos rivais, sem capacidade de readaptação. De aí a nova derrota estrepitosa com o Liverpool era um passo. De aí a nova derrota com rivais directos (em dois anos, à falta de um jogo com o Sporting, os números nos duelos directos de SC não são nada positivos) e em vez de perder uma vantagem de cinco pontos, agora perdia-se uma de sete. Com a diferença de que não havia já matchball. E sem matchball o milagre tinha de vir de outro lado. Ainda não veio. Dificilmente virá. E com isso o título deixa de ser opção. E pelos mesmos motivos que podía ter deixado de ser um ano antes. Ausência de aprendizagem do erro. E isso é o importante ressaltar.

Não deveria ser importante para uma liderança estável ser ou não campeão este ano. 
Ninguém ganha sempre ou sequer devia (e fomos tão mal habituados durante décadas que isso nos fez perder perspectiva muitas vezes) e a derrota também nos faz crescer. O problema não está em perder o campeonato se isso significasse que os seguintes estariam ao nosso alcance. O problema é que depois de quase perder o primeiro, vai-se perder agora um campeonato pela mesma matriz de comportamento, pelos mesmos erros tácticos, pelos mesmos erros de gestão de grupo, pelos mesmos erros de gestão de pernas, pulmões e músculos num plantel de 25 que parece feito de 15 jogadores. Por tropeçar constantantemente nos mesmos erros. 
Eu sou e sempre serei defensor de periodos largos de treinadores ao leme do clube. Acho que o tempo é a melhor arma de quem tem um bom plano, de quem pode ver florescer a sua ideia. Em condições normais, um cenário como o actual seria propicio para dar continuidade a esse ciclo com Sérgio Conceição. Mas não com ESTE Sérgio Conceição. O Porto precisa de um Sérgio Conceição que em lugar de fazer exigências (o paleio de “fico se tiver condições para…” transpira portismo por todos os poros, sem dúvida) seja auto-critico e assuma que há erros que repete com frequência pasmosa e que têm consequências. Que há decisões incompreensiveis na gestão do grupo. Tanto faz se estamos a falar de Oliver, um activo destruido, ou de transformar o melhor central jovem da Europa num lateral direito mediano (menos mal que já vendido) pondo fim a uma dupla que estava a funcionar muito bem. Se ignorar a melhor formação sub19 da Europa e uma das nossas melhores em anos para dar o OK a chegadas como as de Waris, Paulinho, Loum ou Fernando, contratações SUAS e não da SAD, que muitas culpas tem no cartório mas não esas, concretamente. Que ter o futuro melhor guarda-redes joven do futebol portugués e jogar nas Taças com um não-futebolista como Fabiano. Que lançar Bruno Costa às feras quando tudo estar perdido mas nos jogos “controlados” – palavra difícil de dizer no seu mandato com qualquer jogo – o ignorar sucesivamente. O de insistir, 2 anos depois, no pontapé de saída para à frente e que corra o Marega tão rugbiesco que até assusta que ainda esteja válido. O de dispensar Sérgio Oliveira, chave na ausencia de Danilo no ano anterior, quando é evidente que o Comendador não é o mesmo jogador depois da lesão e necesita de um back up que o plantel não tem. E podemos repetir muitos mais conceitos e problemas que se depararam sempre com a mesma solução, a errada.

O Mar Azul é um conceito bonito e que serve para muita coisa. Todos cabemos ali. Mas não façam do Mar Azul, um mar de estúpidos. Não somos homens das cavernas, primitivos, para achar que o bater no peito, as caralhadas no banco, as expulsões, as conferências de imprensa repletas de “bocas” e as rodinhas são o todo quando devem apenas fazer parte de algo muito mais complexo. Algo que no entanto está profundamente oco quando se salta da superficie. Num futebol moderno onde cada detalhe é analisado à exaustão, onde a estatistica está por todos os lados, a preparação física é hiper-profissional e onde jogamos contra um rival que vale por dois, que alimenta outros clubes a seu belo prazer para sacar disso lucro, bater no peito não chega, nem de longe. Pode ser parte da solução mas nunca ser “A” solução e até agora, entre os prós e os contras, é isso que sobra. O Sérgio tem muito por crescer como treinador e se o quiser fazer poderá ser bem melhor do que é hoje. Há um ano ficamos todos com a sensação de que quería crescer e que o êxito lhe ia dar tranquilidade mental e segurança em si mesmo para o fazer. Não aconteceu nada disso. Foi mais inseguro e errou mais do que nunca. Se quiser crescer esta é a sua casa e se souber limar os erros e potenciar as áreas onde podemos crescer e melhorar, todos estamos no mesmo barco. Se for uma réplica de si próprio, um downgrade do projecto original, então é melhor pensar duas vezes se este é o melhor lugar para o fazer. A decisão é exclusivamente dele. Oxalá tome a correcta e que o FC Porto possa crescer à custa disso.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Tiros no pé e não para a baliza


"Pediu informação extra ao Loum, que chegou do Moreirense no mercado de inverno?"Só situações de bola parada. Temos informação de tudo, quem pisa a área do penálti, o segundo poste, quem coça a cabeça. Temos acesso a tudo. Só confirmei uma situação com o Loum e ele disse que era verdade."
Sérgio Conceição, sem se perceber bem porquê, sentiu necessidade de partilhar esta história na antevisão a este jogo. Já na semana passada disse que ficava a torcer pela vitória do scp no derby de Lisboa. Duas afirmações que fizeram ricochete. Havia mesmo necessidade? Serão estes "mind games" que jogam a nosso favor ou contra?

Moreira de Cónegos é uma freguesia com menos de 5 mil habitantes e, como dizia Manuel Machado, é praticamente composta por uma única rua. Não obstante, tem uma equipa de futebol que o FCP não consegue vencer há quatro épocas.

Campo de reduzidas dimensões? Sim, mas também uma equipa que hoje correu mais, teve mais garra e que foi mais inteligente do que a nossa.

Sérgio Conceição afirmou, no final, que não estava preocupado pois a equipa teria produzido, mais uma vez, imensas oportunidades de golo, tal como no Domingo em Guimarães.
Ora, do jogo no D.Afonso Henriques a este vai um abismo exibicional e chances reais de golo foram apenas quatro. Praticamente as mesmas que teve o Moreirense, aliás, num empate que se aceita em termos do (pouco) futebol praticado.

O nosso treinador surpreendeu ao voltar ao 4-3-3, talvez porque, com alguma razão, não confia assim tanto em Fernando. Marega é impossível de substituir mas regressar a um meio-campo a três vai contra o ADN deste grupo de jogadores. Foi um 4-3-3 de futebol previsível e mastigado. E, claro, com imensas dificuldades em criar desequilíbrios. Por largos momentos parecia que os tempos de Lopetegui e NES estavam de volta. 
Pior ainda, o actual Danilo não traz algo de novo e não justifica, por enquanto, a titularidade. Certo que, sem Marega, nada nunca seria igual mas este regresso a tempos antigos pode deitar tudo a perder. 
Hernâni, e não Fernando, é quem mais se assemelha ao tipo de futebol do homem do Mali. Ambos gostam de jogar no espaço. Mas o português, desde que apontou dois ou três golos decisivos, como que desapareceu das opções. Isto sim, deveria ser tema de conversa do nosso treinador durante as conferências de imprensa.

Ah, e aquele penalty já depois do 1-1? Falta claríssima. Fica a dúvida se dentro ou se fora da área. Sérgio Conceição saiu-se, depois, com aquele "Não falarei mais de arbitragens até ao fim da época.". Mais um tiro no pé. Sem qualquer necessidade ou proveito. Semana negra, mesmo.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Guia de rota para a Luz



Vencer na Luz tornou-se praticamente uma obrigação. Um empate – como sucedeu em 2015 – dará sempre alguma esperança correndo o risco de prolongar a agonia desnecessariamente. Quem viu o jogo em Setúbal percebe perfeitamente o que nos espera. O Benfica vai somar todos os pontos que necessite, da forma que seja necessária e contra quem seja necessária. Os que pensam que Alvalade pode provocar uma hecatombe é não conhecer nem o Sporting, nem o estado actual quase esquizofrénico naquele balneário e a história recente de ambos duelos. A isso há ainda que somar que viajar ao Funchal e a Guimarães, duas deslocações altamente complicadas onde não vai haver jokers e ajudas extras. Isso faz do jogo da Luz o santo gral da temporada.

Ironicamente este FC Porto está muito mais formatado para vencer na Luz do que propriamente para triunfar nos campos em que tropeçou. O modelo de Conceição necessita de espaço e na Luz haverá bastante espaço. Se o jogo da primeira volta deu pistas (e eram tanto outro Porto, muito mais dinâmico, e outro Benfica, muito menos em forma) é que o Porto de Conceição sabe os pontos a explorar e sabe como lá chegar. O problema, no caso da Luz, não será tanto o modelo de jogo como noutros casos, mas sim de mentalidade e condição física.

O último mês deixou claro que houve um claro abaixamento fisico do plantel. Por um lado as lesões – um record de lesões musculares que há que explorar a fundo à posteriori com quem de direito – quebraram o ritmo competitivo de muitos jogadores que estavam em forma, sobretudo no caso de Soares e Aboubakar. Por outro a sobre-explotação de futebolistas como Brahimi acaba por ter consequências e contar com o melhor jogador do plantel num estado de forma em que está era previsivel desde há vários meses. Brahimi, historicamente, é um jogador que se apaga nos últimos meses do ano mas com este modelo de pressão alta e maior verticalidade o desgaste é superior e o resultado está à vista. Num plantel efectivamente curto houve pouca margem para fazer gestão mas não é menos certo que em muitos jogos resolvidos Brahimi foi um jogador raramente poupado cedo. Partindo ainda para mais do principio que Oliver não conta e Otávio além das lesões é um jogador de altos e baixos, é dificil imaginar que a criatividade venha de outro lado no terreno de jogo. E com Brahimi assim é de esperar, sobretudo, menos criação e mais verticalidade. E essa verticalidade podia ser até uma boa opção não fosse o caso de que o Porto tem provavelmente o avançado que mais oportunidades necessita para anotar (Aboubakar) e um jogador, Soares, que teve dois meses bons de competição em sete. Na ausência previsivel de Marega e o hábito de Conceição de procurar um Marega II, a verticalidade vai procurar explorar o plano de sempre com caras novas.

Ricardo é o candidato principal a extremo direito (a ausência de Corona e o facto de Hernani não ser um futebolista profissional, ajuda) com Maxi a ocupar a posição de lateral. O modelo já foi testado vezes suficientes para entender que é algo que o técnico não vê com mais olhos, procurando um jogo mais interior de Brahimi na associação com Oliveira e Herrera, deixando a Telles todo o corredor. O problema é que neste estado de forma actual, integrar a Herrera e Oliveira a responsabilidade absoluta do meio-campo é um convite ao desastre. Herrera, que tem sido fundamental em 2018, tem perdido influência no jogo porque o estado de forma, físico e animico,  actual de Oliveira o obriga constantemente a realizar correções em campo. Danilo fará mais falta do que nunca e face esse cenário, podia ponderar-se uma mudança de esquema, uma aposta no 4-3-3 com Reyes como pivot defensivo (ou Oliver a reforçar o miolo) que garantisse controlo e menos vertigem. Tendo em conta a mentalidade de Conceição, a dinâmica actual e a necessidade de ganhar sim ou sim é complicado antecipar que o técnico vai mudar agora. Morrer com as botas postas e o esquema preferencial na cabeça do treinador faz todo o sentido e no final será provavelmente o resultado a ditar a razão das escolhas de Conceição.

No entanto, talvez até mais que o físico, o trabalho fundamental desta semana do técnico com o plantel tem de ser a nível mental. Chegamos a um ponto onde ficou claro que o Porto, este Porto, tem um deficit de títulos e vitórias importantes nos últimos quatro anos e os nervos, a tremideira de cruzar a ponte, como diria o mestre Pedroto, faz-se sentir. É um balneário sem referências, com poucos ganhadores com títulos na sua carreira e nenhum deles com a camisola do clube. Do outro lado está uma equipa habituada a ganhar em piloto automático (como nós sabemos) mas em duelos directos isso habitualmente faz toda a diferença. No último mês, depois do golpe na mesa que foi a segunda parte contra o Estoril e a vitória contra o Sporting, aos jogadores (e ao treinador) entrou a vertigem, entrou o medo e entrou a insegurança, resultado da falta dessa cultura de vitória. Dessa cultura à Porto alimentada durante tantas décadas. Mais do que o 443, mais do que o estado fisico, Conceição terá de recordar todos os seus brilhantes triunfos como jogador e injectar essas memórias, esse à vontade e querer, nos jogadores para subirem ao relvado da Luz sem complexos, sem medos e com a atitude desafiante e determinante que separa os “candidatos a” dos “campeões”. Se esse trabalho não for feito será muito dificil que o resultado final seja positivo.

Depois da Luz, segundo o resultado, a época fica em suspenso. Portanto nem vale a pena pensar sequer nisso. Há três pontos para ganhar e só três pontos para ganhar. Três pontos a ganhar à Porto. Três pontos mentalizados à Porto. Três pontos. Não há mais. Não há menos. Que venha o apito inicial.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Depender de nós mesmos

A vantagem de um tropeção importante, desses que deixa sangue nos joelhos e as mãos feridas, é que acontece precisamente quando por primeira vez o FC Porto dependia apenas de si mesmo para cair e poder levantar-se sem deixar nunca de depender de si mesmo. A reviravolta em Estoril permitiu ter este colchão. Muitos - a começar pelos rivais - contavam com esse tropeção para que o Porto chegasse ao jogo com o Sporting já com a liderança efectivamente em risco mas depois de superados os leões, a rasteira veio precisamente onde era mais previsivel que chegasse. Não é por acaso que este Porto tem um padrão claro de sofrimento este ano, fruto das decisões tácticas de Sérgio Conceição.

Vila das Aves, Santa Maria da Feira, Moreira de Cónegos, Estoril e agora Paços de Ferreira. A casa dos últimos, dos que vão sofrer até ao fim, e também campos pequenos, sem espaços, perfeitos para equipas que montam o autocarro, perdem tempo desde o primeiro instante e roubam ao FC Porto aquilo que o alimenta, o jogo de transição ao espaço. Conceição tropeçou contra a mesma pedra várias vezes. Estes foram os piores jogos do Porto em todo o ano e sempre com o mesmo padrão de comportamento - tanto no 11 escolhido, nas alterações e na forma de jogar. O caso do Estoril foi especial (45 minutos como há muito não se via) e frente ao Feirense houve uma dose de eficácia inesperada mas nos restantes cenários perderam-se sete pontos que são aqueles que mantêm o campeonato vivo. Ninguém pode exigir ao Porto - ou a qualquer outro clube - ser perfeito e ter vencido esses três encontros basicamente era o mais próximo a ser perfeito que a liga portuguesa tinha visto em muito tempo mas o certo é que o preocupante passa pelo facto de ser sempre o mesmo cenário e sempre o mesmo resultado o que demonstra escassa aprendizagem. Havia muitas baixas importantes, sem dúvida, mas nunca houve futebol nem uma ideia de jogo coerente e eficaz para as condições em que se disputou o duelo. Debaixo de um diluvio e de um vendaval, com o campo enxarcado desde o primeiro instante, o Porto jogou exactamente como joga num fim de tarde tranquilo no Dragão. Manteve jogadores tecnicistas mas com pouca incisão (Corona), optou por usar o jogador mais parecido a Herrera (mas muito pior) quando a condução com o esférico era impossível e apostou tudo num jogador, Waris, que tem tudo o mau de Marega e nada do bom. Foi o jogador que menos contribuiu para o jogo, com mais perdas, menos passes e com uma relação com a bola nefasta. Foi jogar com um menos desde o início tendo a Gonçalo no banco e sabendo, desde o primeiro momento, que Aboubakar não só não recuperou a boa forma prévia à lesão como é um reflexo ofensivo deste Porto, um jogador que precisa de muitas oportunidades para marcar.
Porque sim, apesar de tudo, tal como nas Aves, Feira ou Moreira de Conegos o Porto criou ocasiões suficientes para dar a volta ao golo irregular do Paços mas como sempre tem sucedido o ratio de eficácia é extremamente baixo. O Porto é uma equipa ofensiva, de tração dianteira mas a quem custa marcar como a nenhum outro e ontem os disparates de Aboubakar, Waris, Brahimi e Hernani - só para dar alguns exemplos - foram evidentes e reflexos de histórias parecidas.

Entre essas oportunidades esteve o penalti falhado por Brahimi, o momento chave do jogo.
Brahimi não é um especialista, acertou metade dos remates que tentou na sua passagem pelo Porto, e é um jogador macio para estes momentos. Também não era o homem escolhido por Conceição. Foi visivel na televisão e audivel na rádio que Oliveira foi o escolhido para anotar a grande penalidade mas por um motivo que só ele sabe, deixou Brahimi ficar com o peso da responsabilidade. Num plantel sem grandes especialistas é importante partir para os jogos com as coisas claras e os marcadores muito bem definidos. O passo atrás de Oliveira foi um péssimo sinal de caracter e o erro de Brahimi esperado e consequente com o desnorte emocional de uma equipa frustrada pelo anti-jogo do Paços (um recorde seguramente) mas também pela falta de um plano B. Até ao final do jogo o Porto tentou sempre a mesma jogada mas Dalot (ainda) não é Telles e os seus centros não fazem a diferença do mesmo modo que faltou altura e bom jogo de cabeça para explorar tantos cruzamentos ao mesmo tempo que faltou calma e frieza na hora de gerar as jogadas (as que Herrera, Oliver e Danilo sempre têm e que ontem fizeram muita falta ao colectivo) de ataque.

O Porto mereceu perder o primeiro jogo do ano porque jogou mal, desaproveitou muito, não soube adaptar-se ao ritmo do jogo e ao terreno de jogo e falhou um penalti tão claro que nem Bruno Paixão pôde não apitar. Mas que equipa chega á jornada 26, sofre a primeira derrota e só tem dois pontos de avanço de um segundo classificado levado ao colo há meses por um Polvo que a cada dia é destapado um pouco mais? Até ao dia de ontem só o Barcelona de Messi se mantinha invicto nas ligas europeias de elite (actualmente só o Lincoln Imps de Gibraltar também está sem ser batido no seu campeonato) mas enquanto os catalães sacam oito pontos de avanço ao segundo, a impunidade que grassa em Portugal permite ao segundo classificado depender apenas de si próprio para ser campeão. O que há que reter desta noite nefasta é que as próximas deslocações fora do Dragão vão ser contra rivais (e em campos) diferentes daqueles que têm custado pontos e que continuam a faltar oito vitórias (ou sete e um empate na Luz, como queiram) e que apenas se perdeu um match point dos nove disponiveis. A brilhantez do trabalho do plantel continua sem merecer a mais minima critica e ninguém seria capaz de imaginar que o FC Porto fosse cair apenas pela primeira vez a esta altura do campeonato. A cada dia que passa estão também mais perto de voltar os lesionados (Alex, Danilo e Soares, sobretudo) e a cada dia que passa novas revelações vão dando ainda mais valor ao que está a ser logrado em campo por um clube totalmente condicionado fora dele. No fim de contas, o Porto sai deste fim-de-semana como entrou. Apenas a depender de si mesmo. Que seja assim até ao último jogo do ano!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Golpes de autoridade

Rival directo por um dos títulos mais importantes do ano superado? Check.
Triunfo fora sobre uma das equipas que melhor joga em Portugal e que ainda não tinha caído em casa desde Agosto? Check.
Utilização de vários jogadores habitualmente suplentes descansando titulares? Check.
Demonstração constante de superioridade colectiva e individual? Check.

Em pouco mais de uma semana, depois de um ciclo normal de maior desgaste, dúvidas e alguns tropeções absolutamente naturais, o FC Porto de Sérgio Conceição decidiu dar um par de golpes na mesa nas duas competições que realmente interessam este ano e contra rivais e contextos que exigiram sempre a melhor versão deste projecto. 
É certo que Janeiro tinha sido um mês problemático - especialmente tendo em conta o feito nos meses anteriores - tanto no desgaste colectivo da ideia de jogo, no cansaço individual que inevitavelmente produziu uma quebra de produção de jogo e de golos, o que gerou alguns sustos e tropeções. Chegar ao intervalo a perder em Estoril (uma equipa que vai de menos a mais), empatar em Moreira de Cónegos, cair nas meias-finais da Taça da Liga e sofrer na primeira parte contra o Vitória de Guimarães foram sintomas claros de uma realidade absoluta. Ninguém joga bem ou ao mesmo nível dez meses de temporada e tarde ou cedo qualquer equipa sofre uma sequência de maus resultados. Que essa sequência não tenha resultado sequer em nenhuma derrota - o FC Porto continua, 30 jogos depois, invicto em competições nacionais, algo que não se via desde 2003/04 - e que no final da mesma a equipa continue na liderança isolada do campeonato (com menos 45 minutos por disputar, ou 3 pontos a menos do devido, segundo se olhe) e esteja na frente na luta por um lugar da final da Taça de Portugal é elucidativo. Todas as crises fossem assim.

 O certo é que as sensações estavam a dar asas aos rivais a anunciar uma crise que, lamentavelmente para eles, não chega. Entre um título caído do céu para um e uma recuperação nada milagrosa tendo em conta as ajudas habituais recebidas de outro, parecia que 2018 estava a ser um inicio de ano para esquecer para o Dragão e era necessário mudar percepções, sobretudo entre os adeptos mais duvidosos porque o grupo de trabalho e o treinador parecem estar bastante convencidos do seu potencial, prova da solidez de discurso e mentalidade oferecida. Tentaram fazer da discussão de Soares com Conceição uma crise, inventando noticias sobre uma venda apressada para a China e um problema de balneário e como respondeu o grupo e os protagonistas? Três golos em dois jogos. 
Festejaram a lesão de Danilo Pereira, timoneiro fundamental desta equipa e deste modelo de jogo, anunciando uma hecatombe competitiva e o que respondeu o grupo, o treinador e o seu sucessor em campo, Sérgio Oliveira? Com uma versão igual de omnipresencia e garra que ajudou a solucionar dois jogos problemáticos com solvência.
Brahimi estava cansado, Aboubakar estava a meias com uma lesão, Marcano estava lesionado (e uma vez mais, de fora, tentaram transformar um problema físico numa vendetta pela mais do que provável não renovação do espanhol) e, ainda assim, cada qual que ocupou o seu lugar mostrou estar à altura e a equipa nunca deu sinais de ressentir-se. Num grupo manifestamente pequeno - ainda que ampliado com mais três opções que, como era previsivel, vão ter muito trabalho para entrar na dinâmica que já existe - todos deram um passo em frente sem excepção. Maxi Pereira rendeu bem o melhor lateral direito português num campo dificil como o de Chaves. Soares voltou a mostrar porque a sua contratação há um ano manteve durante tanto tempo o incompetente NES na corrida pelo título. Sérgio Oliveira mostrou pela primeira vez na sua carreira uma solvência física, liderança e qualidade que muitos suspeitavam que nunca tinha existido. E ainda que em menor nível, Corona e Otavinho deram oxigénio a um ataque necessitado de outras opções mais além do génio de Brahimi.



Conceição soube fazer uma gestão humana exemplar num periodo complicado - de entradas, saídas e dúvidas - e essa gestão em minutos de jogo ofereceu também variações a um modelo que os rivais já conhecem de memória mas que, em muitos casos, continuam sem saber contrariar. Soares é um jogador diferente de Aboubakar, ataca as jogadas de um modo distinto e isso engana defesas habituadas a procurar o contacto físico com o camaronês e a negar-lhe o espaço para impor o seu jogo. Oliveira é menos físico do que Danilo mas a forma como conectou com Herrera, que está a fazer, depois de tantas dúvidas geradas, um ano excepcional, permitiu ao meio campo recuperar frescura, ideias e alternativas no momento de posse. Mesmo no eixo da defesa, que por falta de opções e lesões tem sofrido mais alterações do que seria de esperar, a coesão mantém-se e o Porto está sem sofrer golos há vários jogos a que ajuda também ao facto de que José Sá estar a ganhar confiança a cada jogo que faz e sai da sombra de Iker Casillas. Tudo apostas arriscadas em cada momento, tudo apostas ganhas por Conceição que até tem visto recompensada a sua insistência em fazer jogar sempre Marega que, por todos os seus mil e um defeitos, sempre acaba por gerar perigo e ocasiões de golo. 

O certo é que bater - e superar, outra vez - o Sporting na primeira mão da meia-final da Taça (depois de dois jogos de manifesta superioridade em jogo mas sem golo) foi uma mensagem importante a todos os niveis. Demonstrou que, por muito investimento e discurso, o Sporting de Jesus continua a jogar com medo do Porto de Conceição, e que os azuis-e-brancos são superiores, jogadores por jogadores, linha por linha, aos leões. Depois de cair com manifesto azar na Taça da Liga era importante dar um golpe emocional antes do duplo confronto que ainda falta e, sobretudo, face ao presente barulhento do clube lisboeta destabilizar com mais uma prova de superioridade real. Em Chaves, onde um grande treinador como Luis Castro montou uma excelente equipa que ainda não tinha perdido em casa e aspirava (e aspira) a lugares europeus, com várias mudanças mas uma fome de bola há muito não vista, a equipa soube ser sólida, concisa e fazer aquilo que tinha sido incapaz em Janeiro, atacar e decidir cedo o jogo com golos e superioridade. Duas formas diferentes de mostrar que este Porto não se deixa amedrontar ou assustar por nada e que continua inequivocamente a ser a melhor equipa a jogar futebol em Portugal. Antes de um duelo que apetece, muito, mas que não deve distrair dos objectivos reais e factíveis que são os dois títulos nacionais em disputa, é bom saber que o Porto que muitos davam por cansado e em crise está bem vivo e com a mesma fome e autoridade de sempre.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A crónica inadaptação que tantos pontos tem custado

Quem anda à chuva sem guarda-chuva molha-se. Quem anda de guarda-chuva quando não chove, não se molha mas o mais provável é que ganhe uma tendinite de pulso sem sentido. A vida é um processo constante de adaptação. Há treinadores que têm muita dificuldade em assumir essa realidade. Facilmente afirmam que cada jogo é um jogo mas depois, na prática, quantas vezes não vimos repetir-se o mesmo guião de uma equipa, jogando de uma mesma forma, se vê incapaz de superar rivais que jogam de uma outra forma concreta? Não se trata nem de desenho táctico, disposição de jogadores ou dos nomes dos futebolistas elegidos. Trata-se de adaptar-se a uma realidade distinta da habitual e de procurar pontos favoráveis para sair vencedor. Vila das Aves, Estoril (até ver) e Moreira de Cónegos sairam mal todas pelo mesmo motivo e em alguns outros jogos o cenário podia ter sido parecido (Santa Maria da Feira) porque o problema foi sempre o mesmo. Zero adaptação.

Sérgio Conceição tem feito milagres. É fácil esquecer isso quando levamos todo o ano à frente da classificação mas ninguém, em Agosto, podia sequer sonhar com esse cenário. Era dificil antecipar o pior ano do Benfica em largo periodo de tempo, um ano em que só o Polvo lhes permite estar a dois pontos e não a doze. E era igualmente dificil antecipar que o Sporitng, ainda que competitivo, fosse não aproveitar o investimento realizado no mercado com dinheiro que ninguém sabe muito bem de onde veio, tanto no que não teve de vender como no que acabou por contratar. Face a essa realidade, e visto o plantel disponível, a liderança é um milagre e Conceição o seu artifice. Nada a dizer a não ser aplaudir.
No entanto a liderança lograda a partir de uma ideia de jogo muito concreta – que segue a escola de Jorge Jesus ainda que, com o handicaap duplo de haver pior qualidade individual da que este teve à disposição e a ausência do guarda-chuva arbitral que deu tantas vitórias a esse  -tem esbarrado com dois problemas muito sérios. O primeiro, mais natural e evidente, é o desgaste. Num plantel curto, onde jogam sempre os mesmos, é impossível em Janeiro pressionar e recuperar o esférico com a mesma frescura que em Setembro quando o modelo de jogo não assenta em descansar com a bola e sim na procura do espaço.

Conceição começou o ano com um verticalissimo 4-2-4 em que o meio campo exercicia uma tremenda pressão sobre o rival, a dupla avançada roubava as primeiras bolas e a equipa, recuperada a posse, verticalizava cada lance – seja pelas bandas laterais, seja em passes em diagonal para as corridas de Aboubakar e Marega – e explorava, em momentos de bloqueio, as bolas paradas (na Champions, onde há menos espaços, foi um recursos fundamental). Esse modelo assentava nas caracteristicas muito especiais de alguns jogadores – desde Danilo a Marega – e sobretudo no entrosamento e estado de forma dos restantes. O Porto matava cedo os jogos e esfolava depois, sem especular, levantando os fantasmas da NESificação horizontal e temerosa que guardava o 1-0 como se fosse a virgindade de uma donzela. Esse modelo, que Jesus implementou em Portugal com êxito – com ajuda extra-desportiva de distintas naturezas – sempre encontrou um problema. Em jogos em casa e contra rivais que saem a jogar haveria sempre forma de fazer o modelo funcionar. Mas contra rivais que preferem estacionar o autocarro em casa, em campos pequenos, relvados em más condições e onde o espaço não abunda, os problemas da ideia de jogo eram evidentes. Jesus perdeu assim três campeonatos – dois com o Benfica e um com o Sporting – cedendo empates em deslocações onde a equipa era incapaz de fazer vingar o modelo, e ganhou outros quantos quando os fieis amigos de negro vieram ao resgate para evitar resultados mais embaraçosos. Resgaste que o FC Porto, já sabemos, não tem ao seu serviço. Tanto não tem que começa sempre – ou devia – a pensar que o rival já ganha por 1-0, seja por um golo mal anulado, um penalty por marcar ou uma expulsão ou duas perdoadas pelo VARissimo de serviço. Nesse contexto, como Vitor Pereira demonstrou, o FC Porto que era fiel ao 4-3-3, o modelo de jogo que dominou quase vinte anos de futebol português, de 1996 a 2014, encontrava melhores opções para esse cenário porque gerava maior controlo, maior jogo interior e com ele encontrava forma de criar espaços onde este não existiam.

Essa é a principal diferença e o principal problema da falta de adaptação de Conceição a estes cenários. O seu Porto não procura criar o espaço, procura apenas explorar o espaço. Se ele existe, o plano funciona, como tem sido evidente. Se não existe, não há plano B mais do que se tem visto, cruzamentos laterais, lançamentos bombeados para que o volume de homens gere o caos e do caos saiam as oportunidades. Bolas para os avançados deixarem para o interior. Cruzamentos que os extremos procuram surpreender ao segundo posto. Tudo sabendo que o rival sempre vai ter a lógica vantagem númerica de quem defende com mais e com o contorlo do espaço. Em nenhum momento se viu Conceição procurar outra coisa em momentos de aperto e mesmo em Moreira de Cónegos quando decide mudar, em duas ocasiões, o que faz primeiro é aplicar um 3-5-2 que dá as alas aos extremos mas não gera nada de jogo interior porque se continua a insistir no cruzamento e na segunda jogada; depois, ao lançar Sérgio Oliveira, não procurou gerar jogo interior se não reforçar outro lançador de bolas altas. Em nenhum instante, como nos restantes tropeções que geraram em empate, se tentou fazer “outra coisa”. Que “outra coisa”?
É verdade que o plantel do FC Porto tem pouco talento e, indismentivel, que a baixa de Danilo – aliada à baixa de forma de outros jogadores chave (Aboubakar e Brahimi, sobretudo) – não ajuda, mas ninguém pode dizer que não sabiamos ao que iamos. Em lugar de insistir com um modelo que está em crise, Conceição devia ter procurado gerar futebol mais apoiado, maior toque, maior procura dos espaços. Provavelmente Oliver tenha feito o pior jogo em muito tempo mas não terá sido mais porque o que se pedia de ele era contra-natura ao que pode dar? Não foi Herrera desaproveitado como pivot quando é precisamente cubrindo todo o cambo que faz com que a sua aportação resulte positiva? Não pedia ontem – e na Feira, Aves ou Estoril – talvez um 4-3-3 que em posse se transformava, de facto num 2-1-4-3, com dois interiores gerando um fluxo constante de bolas interiores com o apoio dos extremos (Oliver, Paulinho ou Herrera), para dois avançados interiores (Marega/Aboubakar e Brahimi) e um avançado mais móvel (Soares)? Sabendo que o rival não ia atacar e o campo era curto, porque não gerar superioridade por dentro em vez de a procurar insistentemente por fora?


O problema não são apenas os empates concedidos – a equipa continua invicta e gerou, em todos esses jogos, oportunidades suficientes para ganhar (a fraca produção ofensiva tendo em conta o volume gerado é outro dos grandes problemas deste Porto) e foi prejudicado claramente em todos esses jogos – mas sim a sensação de que os próximos duelos desta natureza resultem num cenário repetido já demasiadas vezes. Conceição acertou em cheio com o plano A e potenciou muitos jogadores para lá do seu nível mas em condições adversas as suas fraquezas ficam expostas e o técnico parece não encontrar um antidoto, um plano B seja com outra forma de jogar com os mesmos jogadores ou trocando cromos para procurar potenciar outras situações. Se não for capaz de o fazer até Maio estes seguramente não serão os últimos pontos fora concedidos. E seria um péssimo sinal que a inadaptação fosse um dos condicionantes para vencer uma Liga a todos os títulos merecida.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Reforços sim, contratações não

É preciso recuar muito no tempo para descubrir um FC Porto activo em todas as quatro frentes chegado esta altura do mês de Janeiro, precisamente 2008-09, em que se chegou ao inicio do novo ano nos Oitavos de Final da Champions League (cairiamos em Quartos frente ao Manchester United), a camino das finais da Taça de Portugal (que ganhariamos) e da Taça da Liga (caindo nas meias-finais) e liderando o campeonato que encerraría o ano do Tetra de Jesualdo Ferreira. 
Nem sequer no mágico ano de 2011 a equipa de André Vilas-Boas aguentou o ritmo e soçobrou frente ao Nacional na fase de grupos da Taça da Liga precisamente no inicio do mês de Janeiro. Isso sem ter de jogar a exigente Champions League. Algo que permite colocar – ainda mais – em perspectiva, o feito dos homens de Sérgio Conceição. E sabendo que aí vêm cinco meses de máxima exigência, a expectativa não podía ser maior. Olhando para a forma desastrada como o plantel foi construido – victima do descontrolo dos últimos anos – desde cedo a maioria dos adeptos e analistas foi rápida a indicar que o plantel era curto e tarde ou cedo iria necessitar de ajustes. Não deixa de ser correcto o raciocínio mas o certo é que, com metade da época cumprida, esse inevitavel desgaste não se tem notado – nem nos resultados nem em campo – graças à excelente gestão de grupo de Conceição o que permite reabrir a discussão sobre a necessidade real de interferir activamente na reabertura do mercado.

O mercado de Inverno é um mundo complexo. 
Poucas vezes serviu, realmente, de algo para equipas com objectivos importantes. Os poucos casos são simbólicos e parecem reforçar a sua importância (e ninguém esquecerá Carlos Alberto em 2004 ou a série de avançados que foi chegando nos anos posteriores que, com golos importantes, ajudou a alcançar metas e títulos) mas na prática vale muito mais ter um plantel bem estruturado desde o início do que aventurar-se no desconhecido do defeso invernal. Num ano sem competição africana de selecções – fundamental quando os MVP´s da época têm sido Brahimi, Aboubakar ou Marega – e sem lesões largas e graves, salvo os problemas físicos repetidos de um Soares que ainda não apanhou a dinâmica e de um irregular Otávio, os problemas têm sido contornados com tranquilidade. Sobretudo o que estes meses nos têm ensinado é que o éxito do FC Porto começa e acaba no espirito de grupo que o treinador forjou nos meses de pre-temporada e que todos têm abraçado, jogando mais ou menos. 
Num modelo de jogo muito exigente físicamente – por vertical e ofensivo – mas onde a posse de bola ajuda, em momentos de descanso, gerir esforços, Conceição tem sabido trocar peça por peça em momentos pontuais sem perder o ritmo colectivo. Tem acontecido na metamorfose de Oliver a Herrera (onze mais físico, com menos posse, e com maior entrega e presença em troca de maior controlo), nas inclusões pontuais de Sergio Oliveira, Layun ou Maxi Pereira num onze quase sempre recitado de memoria. Até mesmo a recuperação de Diego Reyes e o regresso de Soares abriram outras opções em posições chave. Conceição tem claro na sua cabeça que há um onze titular base mas sujeito a alterações pontuais face a rivais ou forma física e uma poule de seis/sete jogadores (Maxi, Reyes, Sergio, Oliver, Otávio, Soares e André André) que permite cobrir essas necesidades. É certo que, de base, o plantel apresenta descompensações tais como o excesso de laterais (o que tem feito Ricardo actuar de extremo algumas vezes) e a falta de jogadores abertos nas alas quando, sobretudo, Corona, não está ao seu nível ou peca por ausente, sendo que a adaptação de Ricardo, por um lado, e o uso de Hernani, por outro, abrem outras questões paralelas na gestão de grupo. A forma como Conceição abdicou de jogar com um 10 tem retirado importancia e influencia a Oliver, e também a Otávio, e tendo em conta que Danilo é indiscutivel, aberto a Herrera, André André e Oliveira a possibilidade de rodar por um lugar. No fundo o técnico conta já com seis médios para duas posições (oferecendo às vezes uma modificação do 4-2-4 para 4-3-3 para acomodar Herrera-Danilo-André André/Oliveira em momentos de maior posse) e não tem necessidade de mais tendo em conta que todos cumprem os distintos perfis utilizados. Layun, vitima de um claro over-booking e de um grande ano de Telles, e Maxi e Casillas – por questões salariais – são os claros candidatos a sair das contas sem que, em principio, a equipa mostre sinais de ressentir-se das suas baixas mas e quanto a incorporações, que decisão tomar?


O importante, uma vez mais, é referir o espirito de grupo como base de tudo. 
A ideia de jogo do técnico não é complexa – digamos que é uma versão à Porto, com esse extra de garra, do que lograva o Benfica de Jesus com êxito a nível doméstico no inicio da década – mas a idiossincrasia da equipa é muito especial. Qualquer novo reforço entra num grupo já formado, trabalhado e emocionalmente muito unido e tem de ser capaz de adaptar-se a essa realidade em tempo recorde. Não há, no mercado e face à nossa realidade, um talento absoluto disponível capaz de ser titular de caras apenas pelo genial que possa ser, pelo que quem vir tem de ser parte da engrenagem colectiva ou o próprio técnico será o primeiro a excluí-lo das opções. Oliver, sem dúvida um jogador com um talento incomparável, não joga precisamente porque apesar das suas virtudes, não é o homem certo para o modelo de jogo. 
Ou seja, salvo que seja uma posição cirúrgica (estou a pensar em extremo esquerdo/direito) ou um avançado de natureza muito diferencial do jogo que oferece Aboubakar (e para isso já existe Soares, inclusive), as necesidades reais deste plantel são escassas. E mais ainda quando o grupo parece de tal forma unido que a capacidade de multiplicação de posições reduz ainda mais essa ideia de necessidade extrema individual. Chegar e sentir o que o técnico fazem os jogadores sentirem, dentro dessa dinámica de “irmãos de armas”, é algo extremamente complexo de lograr e difícil de exigir a uma cara nova. Para quatro meses de competição, mais ainda. 

Seguramente haverá jogadores melhores que Marega no mercado mas será que algum dará a Sérgio o que ele quer dessa posição? Ou será tão capaz como Marega é de representar a unidade do grupo e o espirito deste projecto? O mesmo pode ser dito, realmente, de todos. Ninguém pode saber o que nos espera o amanhã e talvez uma lesão grave de um central, um problema sério de Danilo ou de Brahimi – os únicos jogadores sem réplicas reais daquilo que são e dão à equipa – podem sempre oferecer novos problemas e novas equações. No entanto, no momento presente, cada incorporação corre o risco de ser mais vista como uma contratação do que, propriamente, um reforço. E sabendo como está a SAD e como estão as finanças do clube  - com jogadores por renovar e buracos abertos para a próxima época, sobretudo na posição de defesa central – o mais lógico seria confiar em Conceição e nos seus homens e ir preparando o futuro com consciencia, sabendo que a força, a união e o talento do grupo e do seu líder que trouxe o FC Porto à sua melhor posição numa década a inicio de ano é uma arvore com raizes mais profundas na terra do que podemos imaginar para abanar ao primeiro sinal de tempestade.

sábado, 2 de dezembro de 2017

"Roubo de Igreja" e "Roubo de Carteira"

O FC Porto vai ser campeão.
Depois de um dos mais inacreditáveis "roubos de Igreja" que a Invicta já viu a convição não podia ser mais forte. Pedroto estaria pouco surpreendido ao descobrir que mais de quatro décadas depois da sua mítica expressão ter dado à luz, tudo continua igual e a impunidade grassa sobre o futebol português. As pistas estavam lá, nos jogos do Benfica e, sobretudo, nos jogos do Porto. Um ano mais uma equipa sem ideias, sem futebol, sem talento e sem treinador, em condições normais, chegaria a Dezembro fora da corrida do título como lhe aconteceu dezenas de vezes (e aos vizinhos do lado) durante os anos noventa e dois mil. Mas estamos na era do Vieirismo, da amizade com os poderes do governo, da justiça e da polícia, dos relatórios secretos sobre os árbitros, dos sms com mensagens comprometedoras, da espionagem sobre o presidente da Federação e afins, a era dos Guerra, dos Marinho e da impunidade absoluta. E por isso mesmo, um ano mais, uma equipa vulgar, colocada no seu devido sítio na Europa, onde tudo isso vale zero, está a três três pontos da liderança e bem dentro da corrida. E vai continuar a estar, por muito mal que joguem. Porque é imperioso que estejam. Porque este Portugal, "pos-democrático", é mais salazarista e centralista que o Portugal contra o qual Pedroto lutou e denunciou. E essa realidade, por muito que se denuncie em prime-time, não se apaga com um sopro de vento. Será preciso outro terramoto para varrer a escumalha que nos meandros do futebol português adultera, ano atrás ano, a competição. Até lá estes "roubos de Igreja" vão continuar a ser frequentes e a sobranceria dos Vitória, jactando-se da sua própria incompetência, agradecendo aos VAR que ficam calados quando devem falar. Dos golos limpos anulados. Das mãos que são peito ou dos peito que são mãos. Dos empurrões, cuspidelas e socos aleivosos. A isso pode agradecer Vitória, que de futebol entende tanto como de matraquilhos, ter saído vivo de uma caldeira que estava preparada para cozer o Polvo mas que se encontrou com tentáculos que ainda são mais fortes do que podemos imaginar. Tentáculos que, ainda assim, serão insuficientes em Maio.



Porque o FC Porto vai ser campeão.
Contra os "roubos de Igreja" e também contra os "roubos de carteira". Ler entrevistas ou declarações inoportunas e oportunistas de Pinto da Costa tornou-se num dos melhores exercícios de stand-up comedy de Portugal. Há uns tempos queixou-se de que Lopetegui, o treinador que tanto elogiou na imprensa internacional e que lhe convenceu até a comprar Ferraris que hoje, vê-se, são Corsas noutras paragens, não era treinador para ganhar, ao contrário de Conceição. Também disse, algures no tempo, porque ao ouvir Pinto da Costa o tempo perde dimensão e lógica, como se fosse uma Matrix, que qualquer treinador seria campeão com os "Falcão, Hulks, James" e companhia, numa bicada seguramente aos Villas-Boas e Vitor Pereiras - os últimos treinadores campeões nacionais, é preciso lembrar - e que ser campeão com um plantel actual é que era. Pois era. Vitor Pereira saiu em 2013 do FC Porto. Há quase cinco épocas. Nesse espaço de tempo essa sumidade elegeu como treinadores nomes distintos, perfis distintos e com mentalidades distintas. Deu-lhes jogadores pedidos, deu-lhes jogadores que não queriam mas que tinham de ter e foi vendendo os anéis. Dos dedos, dos colares, da alma. Foi estripando o FC Porto, abrindo-o por dentro e sacando, gota atrás de gota, o sangue. O FC Porto, o mesmo clube que durante uma década foi considerado um exemplo de gestão, sobretudo como comprava muito barato, vendia muito caro e mantinha uma boa prestação desportiva, hoje está sob a alzada da UEFA. Não pode gastar nem um cêntimo sem avisar, não pode cometer nenhuma loucura, não pode investir sem somar, subtrair e contar com muitos dedos os números. Durante estes quatro anos e meio sem títulos o Porto vendeu tudo e não ficou com nada, salvo Brahimi, que ninguém parece querer, felizmente, e Herrera, que ninguém parece querer, infelizmente. Já vendeu jogadores com um ano de casa, da formação, sem sequer garantir o 100% da sua mais valia e já vendeu apostas falhadas e logradas. O que não conseguiu foi investir bem porque o supra-sumo das declarações inoportunas, seguramente com a cabeça e o corpo metido noutro lado, perdeu tudo aquilo que o ligava á sanidade da gestão futebolistica. E a carteira do FC Porto foi sendo "roubada", desde dentro, e o dinheiro ganho, as transferências milionárias, foram desaparecendo num buraco onde já cabe o Dragão e, daqui a nada, o azul e branco se for preciso. Ontem, num jogo decisivo, Sérgio Conceição, um homem que faz milagres mas a quem não se pode pedir sempre o impossível, realmente não podia deixar de olhar com inveja para os que o precederam. Os que tinham na área a jogadores como Derlei, McCarthy, Lisandro, Falcão, Hulk, Jackson ou André Silva e não Moussa Marega. Há uns tempos atrás escrevi que Marega era o exemplo desta equipa e nada pode ser mais certo. Todo o querer do mundo e toda a dificuldade do mundo incluídas num jogador que dá 200% mas que há coisas que não pode dar. A culpa nunca será sua. A culpa é de quem foi sangrando o clube a ponto de que tenha de lutar contra o maior rival de sempre, o Polvo, com Marega, com Otávio, com Aboubakar e com Herrera quando durante uma década teve jogadores de um nível muito superior, cujo dinheiro das vendas foi mal gasto, negócio atrás negócio, para não falar naquele que, misteriosamente, desapareceu e foi parar a outras mãos. Ontem o FC Porto mediu-se nu contra o Polvo. Despido por quem devia ter procurado dar-lhe o melhor traje de batalha e o despojou das armas. Conceição, os seus e os adeptos no Dragão foram à luta na mesma, porque esse é o nosso ADN, e lutou com os punhos e com a alma. E ganharão, ganharemos, esta batalha. Contra tudo e contra todos, inclusive contra aqueles que nos despiram e nos deixaram nus para, mais á frente, virem reclamar os despojos e o traje do imperador.



O FC Porto vai ser campeão.
Contra tudo e contra todos. Dentro e fora. Salvo o plantel - um exemplo de atitude mesmo quando o talento e a capacidade individual não dá para mais - e o treinador, o motor desta recuperação espiritual de uma ideia de Porto perdida desde a época das vacas gordas, contra tudo e contra todos. Contra os interesses da capital, os negócios ocultos da trama e os tentáculos nas esferas do poder. Contra as manobras rasteiras de Alexandre, contra a ressaca do "Anterismo", contra os interesses dos Teixeiras. Contra o vitimismo dos Vieira e dos Carvalho, contra a violência dos Fejsa e os braços de Luisão. Contra os fundos que andam a apropriar-se, pouco a pouco, do futuro do clube, os que hipotecaram o estádio e o negócio com a Altice e os que fizeram com que a UEFA tivesse direito para apresentar-se à porta a pedir contas. Contra o VAR calado do Polvo. Contra o silêncio oportunista de Pinto da Costa. Contra tudo e contra todos. Campeões.