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domingo, 29 de junho de 2014

O bom e o mau negócio

Em Maio de 2013, após o FC Porto ter vendido, por um total de 70 milhões de euros, os passes de João Moutinho (25 milhões) e James Rodriguez (45 milhões), um idiota, de voz rouca, fez as seguintes afirmações:

Tivemos [Sporting] o azar do presidente Pinto da Costa não estar a conseguir fazer os negócios que tem feito. Ele sempre disse que os jogadores eram vendidos pela cláusula e sabemos que a [transferência] do João Moutinho era de 40 milhões, infelizmente não foi assim, foi por 25 milhões (…) às vezes as pessoas não vão tendo as mesmas capacidades e as mesmas competências

Normalmente, o FC Porto vende os jogadores pela cláusula de rescisão. Não aconteceu com o João Moutinho, o que é muito mau. Foi um grande negócio, o do James Rodrigues, um mau negócio do João Moutinho

O JOGO, 25-05-2013

Um ano depois, vendo o que foi o desempenho destes dois ex-jogadores do FC Porto na liga francesa e, principalmente, nos jogos que ambos disputaram no Mundial do Brasil, não é credível que houvesse algum clube disposto a pagar 25 milhões de euros pelo passe de Moutinho. Pelo contrário, no caso do James, se Dimitry Rybolovlev quisesse, estou certo que não teria qualquer dificuldade em vender o melhor jogador do Mundial (até agora) por 45, 50 milhões ou mais.

Afinal, qual foi o bom e o mau negócio?

P.S. Com um Radamel Falcao a 100%, até onde iria esta seleção da Colômbia?

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Moutinho, Herrera e o “plantel fraquíssimo”

João Moutinho é insubstituível (mais insubstituível que Falcao, Hulk, etc.).
Herrera, uma das possíveis alternativas para refazer o meio-campo portista (as outras eram Fernando, Lucho, Defour, Josué, Carlos Eduardo e Quintero), não tem categoria sequer para fazer parte do plantel do FC Porto.

Esta foi uma das ideias que alguns portistas e comentadores desportivos repetiram até à exaustão, durante a época 2013/2014, e foi, também, um dos principais argumentos usados para justificar a péssima época do FC Porto (dentro da tese mais global do “plantel fraquíssimo”).

Contudo, em 19 de Maio passado, o prestigiado jornal francês L'Equipe, avaliando a época 2013/2014 em França, incluiu João Moutinho numa lista dos dez flops da Ligue 1!

Ironia do destino, ainda durante a época 2013/2014, o “manco” Herrera (segundo alguns, mais uma negociata da SAD…), vestiu a camisola da sua seleção e, jogo após jogo, tem sido sempre um dos melhores em campo.

México x Camarões (fonte: O JOGO)

Primeiro num particular contra… Portugal (do outro lado estava João Moutinho) e depois, já em pleno Mundial 2014, nos jogos México x Camarões e Brasil x México.

Brasil x México (fonte: O JOGO)

Chamando à atenção para estes factos, não quero dizer que, afinal, Moutinho não presta e que Herrera é que é bom. Nem tão pouco que Herrera é melhor do que Moutinho.
O que eu pretendo dizer é que, depois de assentar a poeira, Moutinho não é assim tão insubstituível e Herrera tão mau como alguns quiseram fazer crer.


Colômbia x Costa Marfim (fonte: O JOGO)
P.S. Outro que fez parte do tal “pior plantel dos últimos 20 anos” é Quintero. Ontem estreou-se no Mundial 2014 pela seleção da Colômbia e parece que não se portou mal…

terça-feira, 3 de junho de 2014

A figura da época - II

Para vencer a liga portuguesa (com 16 equipas), e olhando aos resultados dos últimos anos, são necessários cerca de 75+ pontos ou 25 vitórias, em 30 jogos. O Porto teve um treinador que mesmo não terminando a maratona no 1º lugar, era capaz de chegar aos 76 - sem a vitória sobre o SLB na penúltima jornada, o Porto arriscaria terminar o campeonato no 2º lugar, a um ponto do 1º. Aquilo que o Porto procurou/procura, admita-se ou não, é um treinador que faça o mesmo que o Vítor Pereira (mas de maneira diferente!). Só conheço outro treinador que "garante" essa quantidade de pontos, mas é funcionário de outro clube, e pessoalmente, preferia nunca vê-lo ao comando da equipa do Porto, por muito que essa ideia agrade a Pinto da Costa.

No que respeita a treinadores, o grande pecado resumiu-se a trocar o certo pelo incerto, e embora isso explicasse a não-conquista da liga, e as saídas das provas a eliminar, não justificaria as exibições paupérrimas e os resultados vergonhosos. As causas para essas más memórias têm raíz em problemas mais profundos, que não despontaram no ínicio da época.

Esses problemas, apesar de identificados de forma clara, não têm uma justificação óbvia: porque é que o Porto, continua, ano após ano, a investir(?) balúrdios em jogadores de valia duvidosa/questionável - e "os jogadores são como os melões" - cujo papel poderia ser cumprido tão bem ou até melhor, por outros vindos da formação, com um custo muitíssimo mais baixo? E se a formação não é capaz de fornecer esses jogadores, para que serve afinal? Porque é que o Porto arrisca e aposta em estranhos, quando tem disponíveis jogadores das suas camadas jovens, que conhecem o clube, gostam do clube e não têm como objectivo primário saltar o quanto antes para clubes menores da Premier League? Porque é que o melhor dirigente desportivo do Mundo, e a sua equipa, só conseguem demonstrar o seu génio com a compra e venda de passes, e não conseguem construir uma academia melhor que a do SCP - será assim tão difícil? - e (ao contrário daquela) torná-la um verdadeiro sucesso?

Esta não foi uma época atípica; em quase todos os aspectos, foi igual a muitas que a antecederam nos últimos 10/11 anos. Não foram cometidos nem mais nem menos erros do que até aqui. O que houve foi um ajuste de contas, um abrir de olhos, um banho de realidade, porque todos os alertas foram ignorados: há cerca de 4 anos atrás, para termos um "jogador à Porto", tivemos de pagar mais de 10 milhões de euros a um rival - se isto não é sinal de que alguma coisa está mal, (e dispensam-se comparações com o caso  do Futre...) não sei o que será; todos celebramos quando, se calhar, deviamos era ter vislumbrado nuvens negras no horizonte. Entretanto, Bruno Alves foi último jogador da "cantera" a singrar na equipa principal... já lá vão os mesmos 4 anos.


Na voragem de compras e vendas, surge ainda outro problema antigo: jogadores "mais vendáveis" são tratados literalmente como mercadoria; Jackson Martínez, como Lisandro antes dele, esperaram - e com legitimidade - que o seu excelente trabalho, fosse recompensado, como qualquer trabalhador de qualquer empresa. Só que o Porto, tendo como objectivo único a realização de mais-valias com a venda da mercadoria, ignora as "queixas" do jogador. A renovação do contrato do Jackson, jogador que se sagrou o melhor marcador da equipa no seu primeiro ano no clube, arrastou-se por toda a época e afectou claramente o seu rendimento. Não falta quem aponte o dedo ao jogador, mas quem se preocupa mais com a sua transferência do que com o seu bem-estar, estará isento de responsabilidade?

(continua)


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Da exigência máxima à desculpabilização (I)

Diretores de O JOGO, Record e A BOLA (fonte: FPF)

Não conheço pessoalmente José Manuel Ribeiro (JMR) mas, sendo leitor de O JOGO, costumo ler aquilo que escreve e parece-me ser um daqueles portistas que nunca foi grande apreciador do trabalho feito por Vítor Pereira nos três anos em que o espinhense foi treinador do FC Porto (um como adjunto e dois como treinador principal). Sobre isso nada a dizer.

Mas, para além do adepto de futebol, JMR é também jornalista e Diretor do jornal O JOGO. Ora, nesse papel, impressiona-me a forma dual como tratou os últimos dois treinadores do FC Porto. Onde havia exigência máxima (em relação a Vítor Pereira), agora vejo explicações e até desculpabilização para todo o tipo de desaires (em relação a Paulo Fonseca).

Vejamos alguns exemplos de escritos de JMR nos últimos três meses…


«A cura para a ingenuidade
Era previsível que a ingenuidade fosse o calvário do FC Porto nesta Liga dos Campeões (...) Desde o treinador, ainda a procura da melhor formula para equilibrar uma equipa grande e ele próprio estreante na Champions, até aos reforços, todos vindos dos arrabaldes da alta competição, não havia muito por onde fugir. (...) É perder para aprender
O JOGO, 02-10-2013 (após a derrota em casa frente ao Atlético Madrid)

Ingenuidade na Liga dos Campeões?

Recuemos no tempo. Em Setembro de 2012, qual era a experiência (número de jogos disputados) de jogadores como Danilo, Alex Sandro ou Jackson na Liga dos Campeões?
E, há um ano atrás, Helton, Otamendi, Mangala, Fernando, Defour, Lucho e Varela tinham, por acaso, mais experiência na Liga dos Campeões do que têm esta época?

Reforços vindos dos arrabaldes da alta competição?

É um facto que o Josué, o Licá, o Carlos Eduardo, o Ricardo e o o Ghilas vieram de Paços Ferreira, Estoril, Vitória Guimarães e Moreirense.
Mas não era isso que muitos portistas defendiam?
Isto é, que o FC Porto devia suprir as lacunas do seu plantel, procurando, em primeiro lugar, entre os valores emergentes que se destacassem nos “clubes pequenos/médios” do campeonato português?
E, já agora, de onde vieram Drulovic, Zahovic, Capucho, Deco, Jorge Andrade, Derlei, Paulo Ferreira, Nuno Valente, Pepe, Helton, Rolando, Cissokho, Maicon, entre muitos outros que vestiram e jogaram com a camisola do FC Porto na Liga dos Campeões?

O Reyes e o Herrera vieram da América Latina (como todos sabemos, um “arrabalde da alta competição” onde é raro o FC Porto contratar jogadores…) mas, por exemplo, de onde vieram o paraguaio Paredes, o brasileiro Fernando, ou o colombiano Jackson Martinez?

O Quintero não veio do Real Madrid ou do Manchester United? Pois não, veio de um “clube pequeno/médio” europeu (Pescara, Série A italiana), mas de onde vieram Guarín, Belluschi, Alvaro Pereira, Defour ou Mangala?

E, já agora, de onde veio o Hulk? Da Premier League?

Esta tese, cruzando a ideia de reforços de qualidade duvidosa com uma suposta ingenuidade do plantel portista, de ingénua não tem nada, mas pronto, foi uma das que serviu ao Diretor de O JOGO para desculpar a desastrosa campanha do FC Porto na Liga dos Campeões 2013/14.


«Moutinho leva tempo a curar
Era exigível que [o FC Porto] jogasse um futebol mais autoritário? Não. O facto de termos esquecido tão depressa que o FC Porto perdeu João Moutinho, ventrículo direito e esquerdo da equipa, é trabalho do treinador, mas não é problema que se ultrapasse assim. (...) Paulo Fonseca teria sempre direito a tempo e a experimentação. Sobretudo quando consegue experimentar e ganhar em simultâneo

Pois, conforme os portistas sabem, não é nada normal o FC Porto vender dois ou três dos seus melhores jogadores no final das épocas... Mas, para além disso, o tom dramático desta tese do Diretor de O JOGO, que mais parece algo do género “depois do Moutinho, o diluvio”, fez-me pensar como é que foi possível o FC Porto ganhar 1 Taça dos Campeões Europeus, 1 Taça UEFA, 1 Liga dos Campeões, 1 Supertaça Europeia e 2 Taças Intercontinentais… sem o Moutinho! Os treinadores dessas equipas devem ter feito autênticos milagres…

Agora, numa coisa o Diretor de O JOGO tem razão. Ao contrário de Vítor Pereira que, a partir da “limpeza de balneário” de Janeiro de 2012, praticamente só dispôs de quatro médios (Fernando, Moutinho, Lucho e Defour), a Paulo Fonseca não faltaram jogadores e tempo (de Julho a Dezembro de 2013) para fazer experimentações no meio campo portista.
Só no jogo de Coimbra (estádio onde o FC Porto não perdia para o campeonato há 43 anos!), foram várias as experiências mirabolantes em apenas 90 minutos.



«O Crédito de Paulo Fonseca
Com a Liga dos Campeões danificada pela falta de maturidade de alguns elementos, mais do que por qualquer fracasso táctico (...) Pinto da Costa sabe muito bem que ficou a dever um extremo ao treinador no mercado de Verão
O JOGO, 26-10-2013 (após a derrota em casa frente ao Zenit)

Esta é uma das teses mais divertidas, a tese do modelo táctico excelente (o Bayern de Heynckes e o Real de Mourinho também jogavam com um duplo pivô…), a que faltou maturidade e um extremo de top (já agora, quais eram os extremos que existiam no plantel da época passada?).

O facto do Fernando render o triplo se jogar sozinho à frente da defesa e do Lucho render um terço se jogar encostado ao ponta de lança é, pelos vistos, irrelevante.
E que interessa se os jogadores do FC Porto têm características diferentes dos que jogavam no Bayern Munique ou Real Madrid?
Se o Diretor de O JOGO, do alto da sua sapiência, diz que não houve qualquer fracasso táctico na Liga dos Campeões 2013/14, quem somos nós para contestar?

(continua)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A sucessão de D. Moutinho

I. Moutinho, o peso morto

«[o FC Porto] não só bancou 11 milhões, mais 25% numa futura transferência, como perdoou 2,5 milhões que o Sporting ainda devia de Postiga e, mais que tudo, acrescentou-lhe o passe de Nuno André Coelho. Quanto valerá o passe de Nuno André Coelho? Eu não sei, mas sei isto: o João Moutinho está em regressão há dois ou três anos: é um jogador regular, acertadinho, mas sem rasgo e, até ver, de progressão falhada; quanto a Nuno André Coelho, para mim, é a grande promessa para vir a ser o melhor central português do futuro. Eu não trocaria um pelo outro: o FC Porto trocou e ainda lhe acrescentou 13,5 milhões. Ou seja, por mais que se desvalorize o passe actual de Nuno André Coelho, a verdade é que, contas feitas, Pinto da Costa bateu a cláusula de rescisão de João Moutinho: 22,5 milhões. (...) Às vezes, há negócios (e só falo dos recentes) feitos pelo FC Porto que eu não consigo entender, que não como súbitos ataques de generosidade. João Moutinho é um deles»
Miguel Sousa Tavares, A BOLA, 06-07-2010 (aquando da contratação)


«Continuo a achar que, excepção feita a este jogo da Luz, Moutinho aparece regularmente como um jogador muito pouco decisivo no futebol da equipa: não marca golos, não assiste para golos, não é jogador de virar jogos ou comandar vitórias
Miguel Sousa Tavares, A BOLA, 26-04-2011 (época 2010/11)


«e Moutinho, o tão louvado Moutinho, é um jogador que não vai além de um futebol lateral e curto, de apoio e organização, que pode ser muito útil para quem joga recuado, mas é um peso morto como médio criativo e ofensivo, a quem se deve exigir o contrario disso: um futebol vertical e comprido, capaz de assumir o risco e romper com a organização»
Miguel Sousa Tavares, A BOLA, 08-11-2011 (época 2011/12)


«A propósito de João Moutinho, já aqui falei dos jogadores cuja verdadeira importância no jogo só se avalia bem ao vivo e não na televisão, por maior que seja o ecrã. Moutinho é um desses jogadores, sobre o qual mudei radicalmente de opinião, e para muito melhor, quando o vi jogar no estádio.»
Miguel Sousa Tavares, A BOLA, 27-11-2012 (época 2012/13)


O portista Miguel Sousa Tavares (MST), cronista de A BOLA, pelos vistos demorou alguns anos até ver Moutinho jogar ao vivo… Após isso acontecer, MST mudou radicalmente de opinião sobre o “peso morto”. Assim, depois de em Maio passado Moutinho ter feito parte de um negócio de 70 milhões, MST pôde voltar à carga com o seu discurso habitual (e que tem seguidores), de que todos os anos o FC Porto vende os seus craques e a SAD só compra “lixo” para os substituir…


II. Moutinho, o insubstituível

«o FC Porto perdeu João Moutinho, ventrículo direito e esquerdo da equipa»
José Manuel Ribeiro, O JOGO, 07-10-2013

José Manuel Ribeiro, O JOGO, 07-10-2013

O portista José Manuel Ribeiro, diretor de O JOGO, entende que Moutinho é praticamente insubstituível (imagino que não seja fácil substituir o ventrículo direito e esquerdo simultaneamente…). Mas, tal como MST, também deve ter mudado de opinião, porque não me lembro de ter lido idêntica opinião da sua parte (como atenuante para o treinador), aquando do Málaga x FC Porto ou Sporting x FC Porto da época passada…


III. O meio campo portista no pós-Moutinho

Ao contrário das teses miguelistas do “peso morto”, eu sempre fui grande admirador do Moutinho, cuja influência no bom desempenho do FC Porto nas últimas três épocas considero indiscutível. Contudo, também não alinho na tese do quase insubstituível e, por isso, logo após a sua transferência para o AS Monaco, escrevi o seguinte:
«A saída de um jogador do calibre de João Moutinho (a “maçã podre” de Alvalade, lembram-se?) é, obviamente, uma perda significativa em termos desportivos mas, como portista, estou mais preocupado em saber como vão ser colmatadas as carências óbvias que existem no ataque (extremos, avançados e pontas-de-lança) porque, em termos de médios, penso que há matéria-prima suficiente para, na próxima época, o FC Porto voltar a ter um meio-campo forte.»

De facto, o treinador do FC Porto tem à sua disposição um extenso lote de médios – Fernando, Defour, Herrera, Lucho, Carlos Eduardo, Josué, Quintero –, cuja qualidade, em termos globais, é bem acima da existente nos últimos anos, ao ponto de Paulo Fonseca ter dispensado Castro e Tiago Rodrigues.

Ah, mas não há um “Moutinho 2”. Pois não, como não houve um “Deco 2”, um “Maniche 2” ou um “Lucho 2”, após as respetivas saídas do FC Porto, entre as de muitos outros médios (Diego, Anderson, Raul Meireles, Guarín, etc.) que saíram nos últimos anos.

Ora, não havendo no plantel um “Moutinho 2”, compete ao treinador reestruturar o meio-campo, tirando o melhor possível dos bons jogadores que tem à sua disposição. Foi isso que aconteceu na 2ª parte do último FC Porto x SC Braga, em que o meio campo portista foi formado por Defour, Herrera e Carlos Eduardo e o que se viu foi o melhor FC Porto desta época. Dinâmica, intensidade, pressão alta, dois golos e mais quatro oportunidades flagrantes, tudo isto em 45 minutos sem Fernando, Lucho e… Quintero.

Carlos Eduardo, FC Porto x SC Braga

Depois destes 45 minutos à Porto (que se seguiram aos piores 135 minutos dos últimos dois anos), o que esperar daqui para a frente?
Na próxima jornada, em Vila do Conde, Paulo Fonseca terá coragem para deixar as “vacas sagradas” no banco e voltar a apostar nos “patinhos feios”?

domingo, 6 de outubro de 2013

Órfãos de Moutinho

Há duas épocas atrás o FC Porto ficou sem Radamel Falcao, para muitos o melhor ponta-de-lança da atualidade.
Primeiro com Kleber, a seguir com Hulk adaptado na posição de avançado centro e depois com Janko, o FC Porto sobreviveu e foi campeão nacional.

A época passada já ia na 3ª jornada quando o FC Porto ficou sem Hulk, para muitos o maior desequilibrador que jogava no campeonato português.
James ocupou a posição que era de Hulk, a equipa passou a atacar de forma diferente, o FC Porto sobreviveu, chegou aos oitavos da Liga dos Campeões e foi campeão nacional.

Málaga x FC Porto (fonte: O JOGO, 14-03-2013)

Esta época o FC Porto ficou sem Moutinho e a equipa, quer a atacar, quer a defender, parece que ainda esta órfã daquele que em Alvalade já era um jogador a Porto e que em boa hora veio para o Dragão, acusado de ser uma maçã podre.

De facto, e apesar do extenso lote de médios que tem a sua disposição - Fernando, Defour, Herrera, Lucho, Carlos Eduardo, Josué -, Paulo Fonseca ainda não conseguiu formar um meio-campo onde, jogo após jogo, se deixe de notar tanto que falta João Moutinho...

Será que Moutinho é mais insubstituível do que Falcao ou Hulk?

terça-feira, 25 de junho de 2013

Revelações de André Villas-Boas

Ontem, O JOGO publicou uma extensa entrevista de André Villas-Boas (recomendo a leitura) onde, já com um certo distanciamento, o ex-treinador fala de diversos temas que causaram alguma polémica. Destaco, de seguida, três desses assuntos.

1. A saída do FC Porto
"Há desafios que, a certo momento, uma pessoa sente que os deve aceitar e foi isso que me invadiu. O assédio não foi só do Chelsea, tive muitos [contactos] e houve conversas com o FC Porto durante todo esse período, que os colocou a par do meu interesse. A minha condição é que qualquer dos clubes pagasse o valor da cláusula, de outra forma não me sentiria confortável."

Depois desta revelação, a tese de que os dirigentes portistas foram apanhados de surpresa, com o interesse do André Villas-Boas em sair do FC Porto no final da época 2010/11, fica pura e simplesmente enterrada.


2. O interesse em levar João Moutinho para Inglaterra
"[há um ano, quando falhou a contratação de Moutinho] não foi a primeira vez que falei com o FC Porto para o tentar levar, já o tinha feito no Chelsea, mas agora foi de forma oficial, com propostas e negociação. Acabou por não acontecer, mas todas as partes, talvez menos o FC Porto, tentaram chegar a um acordo. O problema foi que a abordagem mais agressiva ocorreu no último dia do mercado e tivemos de correr contra o tempo, porque o processo era complicado, não só por aquilo que ele representava para o FC Porto, como também pelos valores envolvidos e pelas outras partes que tinham participação no passe."

Bem, ao contrário do que ouvi e li, pelos vistos não é verdade que o FC Porto estivesse desesperado, ou sequer muito interessado, em vender o Moutinho ao Tottenham em Agosto de 2012.


3. A descoberta de Jackson Martinez
"[Jackson] foi um jogador proposto para observação já no meu tempo de FC Porto, na altura até com intervenção do Vítor [Pereira] e que o deixou imediatamente marcado como alvo."

Confirma-se que, há três épocas atrás, o Vítor Pereira teve uma intervenção directa na sinalização do Jackson como potencial alternativa a Radamel Falcao.

domingo, 9 de junho de 2013

FC Monaco

O AS Monaco confirmou a contratação de Radamel Falcao. São números recordes, maiores ainda do que aqueles que o Atlético pagou ao FCP, sinal de que o colombiano se valorizou nestes dois anos em Espanha (uma Taça UEFA, Supertaça Europeia, Copa del Rey). É pena que na venda (da qual ainda falta receber 13 milhões) não tenham posto uma cláusula de valorização porque era dinheiro vivo no Banco.

O homem responsável por esta compra é o mesmo que está por detrás das contratações de Ricardo Carvalho (ele mesmo), de James Rodrigues e João Moutinho. 120 milhões gastos numa semana não é para qualquer um. Mas o senhor Dimitri Rybolovlev não é qualquer um. Um dos maiores milionários do mundo, um apaixonado do futebol e, suspeito, um fã do FC Porto desde pequenino.

Estou mesmo a ver o senhor Dimitri de camisola azul-e-branca a sofrer no lado de lá da cortina-de-ferro com Viena e Tóquio e a reservar um palco VIP em Sevilha, Gelsenkirchen e Dublin, bebendo vodka enquanto celebra cada golos dos dragões. Há quem o tenha visto no Dragão de bifana na mão a saltar a cada golo nos 5-0 contra o Benfica e não se surpreendam de que tatue o nome de Kelvin nas costas, junta do habitual cruz ortodoxa que todos os mafiosos de leste gostam de ter. O problema do senhor Dimitri chama-se Pinto da Costa. O seu sonho sempre foi ser presidente do FCP mas como o "Papa" é imortal, assumiu que tinha de comprar outro clube qualquer para fazer o seu sonho realidade. Como no Monaco tinha casa e sitio para estacionar o iate, foi aí.



A este leque de jogadores é bem possível que se junte Lisandro Lopez e já se fala, inclusive, no próprio Hulk. Seriam seis jogadores com passado azul-e-branco recente. Com o trio James-Falcao-Moutinho já recriou a conexão FCP Dublin (só falta mesmo Hulk) e com Ricardo Carvalho e, eventualmente, "Licha", junta outras duas gerações de grandes dragões no mesmo plantel.

Para os dragões vai ser aliciante ver como se comporta a nossa filial milionária este ano. Pena que o senhor Dimitri seja daltónico e tenha escolhido uma equipa com aquelas cores. Com tanto dinheiro não creio que demore muito a mudar o equipamento e a meter um dragão naquele emblema. E quem sabe, mudar o nome para FC Monaco!

PS: A razão verdadeiras dessas compras não é outra que Jorge Mendes, o homem que lhe auxiliou, com Peter Kenyon, na compra do clube no ano passado e dono do cartel de jogadores mais interessante do futebol europeu (é bem possível que o Coentrão acabe lá se o Mourinho não o levar para o Chelsea). 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A eterna questão do «modelo» de gestão

Anteontem o Miguel Pereira levantou aqui a eterna questão de que modelo de gestão & nível de ambição queremos ter.

Bem, em certa medida (que não totalmente) parece-me que é uma falsa questão, porque a venda de jóias da coroa não é necessariamente incompatível com ambições mais elevadas (vs a alternativa). 

Aliás, a médio prazo não é de todo incompatível, bem pelo contrário - e graças a Deus não me parece que estejamos desesperados com sede de títulos de forma a apostar o «tudo ou nada» no curto prazo (i.e. numa determinada época), sabendo-se que o ao fazê-lo o risco do descalabro total nas épocas que se seguem seria imenso.

Como foi afirmado na caixa de comentários, a gestão corrente é deficitária (não temos as receitas estruturais de um tubarão europeu, i.e. bilheteira, merchandising, patrocínios e TV) e esse buraco só poderá ser tapado através de grandes vendas. Para perspectiva: se não vendessemos nenhum jogador esta época iríamos fazer mais de 40M de prejuízo (e para o futuro há formas de fazer descer este valor, mas não de o eliminar). Temos portanto um certo grau de flexibilidade nas escolhas que enfrentamos na questão das vendas, sim, mas claramente limitado.

Até porque há a consciência de que, apesar de sermos um clube com prestígio, não somos um clube de topo na Europa (no cômputo geral desportivo-financeiro). Sendo assim será sempre de esperar que muitos dos nossos jogadores tenham a ambição (financeira apenas, ou financeira e desportiva) de mais cedo ou mais tarde «dar o salto», e seria contraprodutivo tomar sistematicamente uma posição intransigente bloqueando a sua saída.

E «contraprodutivo» porque 1. alguns dos jogadores que costumamos atraír (entre os que são jovens, promissores e com um CV já jeitoso) iam deixar de querer vir para o FCP, e. 2. porque os jogadores que já cá estão iriam começar a recusar-se sistematicamente em renovar contratos, e/ou a invocar unilateralmente a cláusula Bosman ao fim de 3 anos.

Concluindo: eu estou portanto totalmente resignado a que em média saia um par de titulares todos os anos.

Dito isto, acho que devíamos ter todas as condições de gestão para podermos decidir o timing exacto, quem sai, e em que condições ($) – e acho que podíamos estar melhor nesse aspecto do que estamos (mesmo que apoie as vendas específicas de James e Moutinho neste momento e nos moldes em que foram feitas - sabendo que não havia forma de os segurar mais um ano, a não ser que fossem vendidos outros como Jackson, ou contraindo novos empréstimos de dezenas de milhões a 10% de juros ao ano, partindo do pressuposto que há quem estivesse disposto a emprestar).

Nomeadamente, acho que podemos ser geridos de forma que em certas circumstâncias se consiga que numa dada época (se assim for desejável) não seja nenhum titular vendido, mesmo que na seguinte saiam 3; ou aguentar um certo titular mais uma época se for considerado mesmo imprescindível, mesmo que a oferta seja muito boa (como aliás fizémos por exemplo com o Deco em 2003) - o que hoje e nos últimos anos tem sido manifestamente impossível, fruto do deteriorar das finanças.

Ora o FCP vê-se mais na necessidade de vender do que seria desejável acima de tudo porque temos re-investido o que temos e o que não temos em contratações, nem sempre com critério e às vezes «tendo mais olhos do que boca», com a consequência de que o passivo financeiro aumentou imenso na última década resultando em cada vez mais dinheiro «deitado ao lixo» em juros para servir a dívida (andam já acima dos 10M/ano, uma machadada consideravel numa SAD que tem receitas estruturais que não chegam aos 40M/ano). Nós vendemos muito bem, mas o adepto comum não tem a mínima consciência de que também gastamos imenso em compras: só nos últimos 3 anos foram perto de 150M!

Ora se não coloco em causa (a um nível «macro») o modelo genérico de comprar relativamente barato e jovem para vender um par de jóias da coroa todos os anos, estando de total acordo nesse princípio, já coloco em causa em alguns pormenores (ou «pormaiores») na execução desse modelo, e em particular um ênfase desequilibrado no curto prazo e um exagero no número de contratações (peço desculpa mas os jogadores não são de todo como os melões - até porque se fossem, os Man Utds e Reais Madrids deste mundo açambarcavam o mercado comprando aos 20 e 30 jogadores por ano, emprestando os melões podres). Ou seja: penso que podíamos estar algo melhor (o que poderia levar a maiores ambições), mesmo que certamente não estejamos mal.

Em particular penso que devíamos palautinamente (mas de forma gradual) reinvestir um pouco menos durante uns poucos anos, sendo mais criteriosos nas necessidades do plantel, até que o passivo financeiro desça para um nível que faça muito menos danos (em juros); até porque me parece que é um luxo incomportável para um FCP ter várias dezenas de milhões em passes & salários «empatados» no banco, na bancada e em empréstimos, como temos tido em média nos últimos anos. Haveria um bocadinho mais de risco a curto prazo, sim (e daí eu defender que o abate do passivo financeiro não seja à maluca) mas caramba, o dinheiro que se poupava em juros dava para comprar um Moutinho novo todos os anos...

Penso também que temos negligenciado um pouco a formação (um pouco, reitero; não tenho qualquer ilusão de que é um «filão» para ser explorado apenas moderamente e em boa parte para o papel de «actores secundários») e o mercado nacional (os Coentrões, Antunes, Limas e Ghilas custam uma pechincha quando comparados com sul-americanos de valor desportivo idêntico – mas é comprando-os quando estão ainda em clubes pequenos, claro).

Finalmente, penso também que a tesouraria pode ser gerida de forma mais inteligente, muito menos no fio da navalha, de forma que se evite vender % de passes de jogadores com valor seguro para depois as re-comprar por muitíssimo mais (só em James e Moutinho perdemos mais de 10M nessas operações de venda e re-compra).

Na época que agora termina houve uma certa inflexão nesses detalhes de execução tendo havido mais contenção nas contratações, fruto da necessidade (e mesmo assim gastámos mais de 30M). Como se viu, não foi por aí que se perdeu o campeonato (e a haver lacunas agudas no plantel foi muito mais por falta de vontade ou colocar o dinheiro no lado errado do que por falta dele – tendo gasto 33M em passes, não foi certamente por falta de um par de milhões que por ex um Ghilas não veio no Natal). No entanto alguns sinais fazem-me suspeitar que seja sol de pouca dura: para já não entendo que estando nós tão bem servidos de centrais (e nenhum deles perto da reforma, longe disso) se tenha dado prioridade a gastar imensos milhões em mais outro, por muito jeitoso que seja. Por outro lado temos a contratação por baixos valores de jovens promissores como Tiago Rodrigues, o que é encorajante.

A ver vamos, mas espero que a investir forte ($$) neste defeso isso seja feito apenas em posições em que estamos claramente deficitários (extremos em particular) e não onde já estamos bem servidos (pelo menos a titular). E espero também que se use uma % considerável das vendas para abater os empréstimos (na consciência de que, depois de subtrair o que é necessário para cobrir o prejuízo corrente, não sobra tanto dinheiro como isso).

Quanto a ambições, penso que devemos apontar para ir o mais longe possível na LC, certamente para além da fase de grupos - na consciência de que isso depende imenso de quem se for encontrando pela frente. Mas é precisamente através das grandes vendas (usando parte das mesmas para abater o passivo financeiro) que estaremos em melhor condições para sermos cada vez mais ambiciosos.

E se não é um Pinto da Costa (com o CV e credibilidade que tem) que esteja disposto a correr um bocadinho de riscos a curto prazo para colocar o clube em muito melhor condições para o médio prazo, não me parece que vai ser o próximo presidente a fazê-lo, seja ele quem for....

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O impacto da venda de João Moutinho

Comecemos com um disclaimer. O negócio da venda de James Rodriguez e João Moutinho é absolutamente brutal. Num mundo em forte crise económica, conseguir 70 milhões de euros de um clube por dois jogadores no mercado europeu é algo só ao alcance dos maiores. E Pinto da Costa pertence a essa categoria. Será ofuscado como negócio do ano pelas eventuais vendas de Neymar, Bale, Cavani ou Suarez. Mas quem conhece bem o mundo do futebol - e foi só ler a imprensa internacional nestes últimos dias - sabe que este é o melhor negócio de todo o defeso. Que só agora começou.

Os números são alucinantes também porque do outro lado está o novo dono do AS Monaco, uma espécie de Abramovich em versão gaulesa. O FC Porto faz milhões à custa destes senhores, estejam na Rússia (Dinamo Moscovo com Derlei, Maniche, Costinha, Thiago Silva; Zenit com Bruno Alves e Hulk), quer estejam em Inglaterra (Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira, Mourinho, Vilas-Boas). Que agora algum se tenha mudado para a Cote d´Azur é-nos indiferente. O importante é que o dinheiro entre nos cofres do clube e entre fresco. Ao contrário de emblemas como o Atlético de Madrid, fortemente endividados, estes clubes têm cash flow para pagar e pagar uma maior quantia de entrada - óptimo para aliviar os problemas imediatos de tesouraria - e são relativamente fiáveis a médio prazo. Essa realidade permite ter mais dinheiro agora para evitar vender percentagens de passes a fundos e para segurar alguns jogadores também cobiçados no mercado. No primeiro caso, reconheço que a minha Cruzada moral está perdida. O FC Porto vai continuar com esse tipo de negócios com terceiros misteriosos mesmo que tenha 100 milhões de euros no banco, disso tenho poucas dúvidas. Faz parte dos jogos do submundo e quem fica a perder é o futebol. Quanto ao segundo, o de segurar jogadores no plante, leva-me à venda de Moutinho e à sua real importância.


Considero João Moutinho o jogador mais importante do tricampeonato.
Não é nem nunca foi a estrela que tivemos em Falcao, em Hulk e agora em Jackson. Não é um menino-bonito dos alternativos como foram Guarin ou James. Mas é o jogador que faz mover as peças. O Benfica de 63 foi tanto de Eusébio como de Coluna. O Brasil de 70 não teria sido igual sem Gerson atrás de Pelé e todos sabemos que Messi é maior quando se associa a Xavi. Dentro do panorama português, um deserto de soluções criativos  Moutinho era esse equivalente. Não digo que esteja ao mesmo nível desses nomes, mas para o nosso país e para a nossa realidade económica, era o jogador ideal. Entrega absoluta desde o primeiro dia, melhoria de registos estatísticos ano após ano (só lhe aponto um defeito, a falta de eficácia goleadora, importante num médio das suas características) e sentido de liderança. Quando se perdeu Moutinho, na primeira parte em Málaga, a equipa veio abaixo. Na ausência de Falcao e de Hulk continuou-se a ganhar porque estava alguém a impor o ritmo, a pensar o jogo, a abrir espaços e a fazer fluir a bola. Esse alguém era Moutinho. Em 2000 sentimos muito a falta de Zahovic porque Deco ainda não era Deco. Cinco anos depois ao FC Porto faltou o "Mágico" para dar forma ao jogo ofensivo, algo que Diego quase nunca fez. Em 2010 a orfandade de Lucho, desse primeiro Lucho, era mais evidente do que nunca. Sempre que o FC Porto perde um jogador dessas características, sofre. Porque é provavelmente a posição mais dificil de preencher num plantel.

Para 2013/14 o FC Porto tem os seguintes médios no plantel: Steven Defour, Tiago Rodrigues, Carlos Eduardo, Lucho Gonzalez, Marat Izmailov e eventualmente Tozé. Herrera ainda não está oficializado mas é quase certo que venha. Fernando e Castro jogam mais atrás e não entram nestas contas. Destes elementos temos dois muito verdes mas com potencial (Tiago e Carlos), dois "veteranos" cuja condição física pode passar factura ao longo de uma época exigente (Lucho e Izmailov) e Defour, um jogador muito interessante para tapar buracos mas que terá agora de assumir a batuta de lider. Tenho as minhas dúvidas que o faça. Não é Fellaini, não é Witsel e muito menos, não é Hazard, o trio de ases do meio-campo da mágica geração belga. Espero estar enganado. Sobra Herrera, um futebolista que conheço e que vejo mais adaptado ao perfil da posição de Lucho do que, propriamente, para a de Moutinho. De qualquer das formas é outro jogador jovem e habituado a outro ritmo. A outro nível de exigência.

Sendo assim, o FC Porto 2013/14 vai atacar o Tetra e os Quartos-de-Final da Champions League sem o jogador mais importante do seu plantel. Além de ter um verdadeiro oásis na frente de ataque (neste momento o plantel conta com Jackson, Varela e Ricardo, já que Liedson volta ao Brasil e Atsu está de saída), não tem líder nem pensador de jogo. Com Moutinho, em 2010, o FC Porto conseguiu um jogador já feito que pegou directamente na equipa. Precisa de um futebolista desse nível para ocupar o seu vazio. Mas há muito poucos no mercado e menos ainda que queiram vir para Portugal. Dentro do nosso plantel, só Jackson Martinez tinha um estatuto parecido ao de Moutinho porque os golos pagam-se caros e ninguém marcou tantos como ele desde os dias de Jardel. Todos os outros poderiam ter sido vendidos, como o foi James Rodriguez, sem criar demasiados problemas em procurar solução. Reyes será o senhor que se segue na defesa, Ricardo é o sucessor de Varela, Herrera poderá desempenhar o papel de Lucho e apesar da dificuldade em encontrar bons laterais, é na direita e não na esquerda que temos um problema (de rendimento e de saída de mercado). Portanto, a venda de Moutinho pode ter gerado uma mais valia financeira importante - mesmo ignorando as contas apresentadas para dar o mínimo possível ao Sporting, algo com que todos contavam - mas desportivamente é um problema de difícil solução.



Alguns dirão que o jogador queria sair. Não acredito que seja o sonho da sua vida, o mesmo jogador que em Setembro se recusou em sair às pressas para equipas que pagavam bem e jogavam provas europeias. Nestes negócios já sabemos muitas vezes que a vontade dos jogadores chocam com os clubes (ver Hulk) e acabam por partir porque não têm muito remédio (apesar do lucro financeiro real que lhes oferece o negócio). Outros dirão que já estava a entrar numa idade que é para vender, lembrando-me que os adeptos do FC Porto deixaram de o ser para tornar-se em brokers da bolsa do compra e venda quando as acções se movem, esquecendo-se que um balneário precisa de vida própria e durabilidade para ser estável e ganhador. Provavelmente o valor real de mercado de Moutinho não fosse sequer superior aos 30 milhões (o de James andaria nos mesmos valores, pela projecção de futuro e não pelo que fez no último ano e meio, o que significa como mínimo uns 10 milhões de lucro, acrescentados) mas voltamos à velha história de sempre. O que quer ser o Futebol Clube do Porto? Um clube de futebol ou uma empresa? Um clube de futebol com um papel importante na Europa ou um clube de futebol que se limite a limpar o burgo, uma das ligas mais desequilibradas e desinteressantes da Europa? Um clube de futebol que quer aspirar com Vienas, Sevilhas, Gelsenkirchens e Dublins ou que se conforma com cair com os Málagas ou Schalkes do futebol europeu?

O que quer ser, realmente, o Futebol Clube do Porto está escrito neste negócio. Financeiramente somos uma máquina, um exemplo para ser dado nas escolas de gestão. Desportivamente somos cada vez menos ambição, cada vez menos querer e cada vez menos uma equipa que impõe a sua lei e que por isso tem de sofrer até aos suspiros finais de uma liga bipolarizada quando três meses antes deixou a Europa cedo demais para quem tão bons negócios é capaz de fazer!

sábado, 25 de maio de 2013

Moutinho saiu? Chamem o “pronto-socorro”

(jornal O JOGO, 14-05-2013)

Na semana que antecedeu o desafio final em Paços Ferreira, e quando já se sabia que Fernando não ia poder participar nesse jogo (estava lesionado e castigado), o jornal O JOGO publicou um artigo sobre o Defour. Nesse artigo (ver em cima), Defour era apresentado como o pronto-socorro portista da época 2012/13, sendo destacado numa infografia o facto do internacional belga ter sido chamado a jogar em seis posições diferentes (as três posições do meio-campo, ala-direito, ala-esquerdo e defesa-direito). É obra!
E é, também, sinal de três coisas:
- das limitações existentes no plantel que Vítor Pereira teve à sua disposição;
- da polivalência de Defour;
- da confiança que o treinador do FC Porto depositou no número 35 (3+5=8, o seu número preferido) do plantel portista.

Defour ainda não é um jogador de top internacional mas, na minha opinião, é um jogador de qualidade, com uma cultura táctica muito acima da média e, tirando a “loucura” que o afectou em Málaga (obrigando a equipa postista a jogar a 2ª parte quase toda reduzida a 10 jogadores), é um jogador que se tem revelado muito útil.
Estando há dois anos no FC Porto, e tendo sido o 12º jogador do plantel mais utilizado (1308 minutos) no último campeonato, Defour ainda não se afirmou como titular dos dragões, o que é compreensível, se atendermos a que o meio-campo portista era formado por Fernando, Moutinho e Lucho.

Contudo, a saída de João Moutinho para o AS Monaco (o novo “brinquedo” do multimilionário Dmitry Rybolovlev) é uma oportunidade de ouro para o belga se afirmar como titular dos dragões porque, parece-me, ser ele quem está na pole position para ocupar o lugar do melhor médio português da atualidade.

Estou convencido que se o Defour se fixar na posição em que rende mais (na posição 8, que era ocupada por João Moutinho), em vez de ser o pronto-socorro que, por falta de alternativas no plantel, jogou em 5-6 posições diferentes, a tendência será o seu rendimento subir. Dificilmente atingirá o nível do Moutinho, mas tem características semelhantes e poderá aproximar-se.

Falta saber quem serão os outros elementos do meio campo portista para a época 2013/14.
Lucho terá como concorrentes Carlos Eduardo (ex-Estoril) e Izmaylov, mas será que Fernando, que não se cansa de dizer que gostaria de sair (Inter Milão, PSG, ...), acabará por renovar e ficar?
E que futuro está reservado para Castro, Tiago Rodrigues (ex-Vitória Guimarães) e Tozé (equipa B)?
E há ainda o mexicano Héctor Herrera, jogador do Pachuca, que se diz já ter um acordo com a FC Porto SAD desde... Janeiro.


A saída de um jogador do calibre de João Moutinho (a "maçã podre" de Alvalade, lembram-se?) é, obviamente, uma perda significativa em termos desportivos mas, como portista, estou mais preocupado em saber como vão ser colmatadas as carências óbvias que existem no ataque (extremos, avançados e pontas-de-lança) porque, em termos de médios, penso que há matéria-prima suficiente para, na próxima época, o FC Porto voltar a ter um meio-campo forte.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Moutinho e James vendidos por 70M

Já é oficial - Moutinho vendido por 25M e James por 45M:


Primeiros pensamentos:

1) Boa sorte para os dois, que a merecem

2) Não vai ser fácil substituí-los. Suspeito no entanto (e um pouco contra-corrente) que será mais difícil substituir  James (mas para isso precisaremos de um modelo de jogo diferente que não dependa de um trinco e 2 médios de transição).

3) Os valores em questão são muito, muito bons, sem dúvida (para mais depois de uma época algo apagada de James); se me tivessem perguntado há um mês, eu teria dito que seria bom vender os dois por um total de 50 e tal milhões.

4) Espero que agora não seja preciso vender mais nenhuma jóia da coroa

5) Quanto dinheiro líquido é que vai sobrar para o FCP? Para além das comissões de intermediação, é certo que o SCP terá a receber 3.5M (25% de 25-11) mas para além disso há a questão dos direitos de formação (em princípio pagos diretamente pelo Mónaco, mas a confirmar) e a situação sobre James é muito confusa, tenho ouvido de tudo na imprensa - o que eu sei oficialmente é que a 31 de Dez tínhamos 55% do passe e em Fevereiro recomprámos (com enorme markup) 35% pelo que em princípio teremos 90% do passe (o que levaria a que 4.5M desta venda tenham que ser reencaminhados para esses terceiros).

6) Espero que hajam garantias sólidas da parte do Mónaco, já que a) não sei se este russo é de confiança (quem sabe, daqui a uns meses cansa-se do «brinquedo» e deixa de continuar a pagar) e b) pelo que tem vindo a público a situação do Mónaco está longe de ser pacífica perante as autoridades francesas. A propósito, pergunto-me que % terá sido paga como sinal, e os prazos do resto.

7) SCP, desculpa lá qualquer coisinha... ;-)

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Jogadores que cresceram na era VP

(jornal O JOGO, 06-05-2013)
Desde o primeiro dia em que assumiu o comando técnico dos dragões, Vítor Pereira nunca foi levado a sério, nem beneficiou da simpatia de jornalistas, comentadores ou da maior parte dos adeptos portistas.
De facto, e apesar de apenas ter registado uma derrota em 58 jogos para o campeonato, as críticas a Vítor Pereira têm sido muito mais do que os elogios.

Uma das acusações que se ouve recorrentemente (principalmente entre adeptos portistas) é a de nenhum jogador da equipa do FC Porto ter evoluído e crescido futebolisticamente nos últimos dois anos.
Será isto verdade?
É óbvio que não. Aliás, já aqui falei nos casos de Maicon (considerado por muitos o melhor defesa-central do último campeonato), Alex Sandro (alguém se lembra de Alvaro Pereira?), Mangala (o defesa goleador, jogando quer no centro, quer à esquerda), Fernando (deixou de ser um pivot fixo que só defendia) e Jackson Martinez (cujo desempenho e veia goleadora com a camisola azul-e-branca até surpreendeu os seus compatriotas).

A todos estes exemplos, podemos juntar o caso de Moutinho que, como o jornal O JOGO destacou na passada segunda-feira (ver recorte/imagem neste artigo), está a fazer a sua melhor época de sempre, alargando a sua influência a outras zonas do terreno e batendo os seus recordes de golos e assistências.

Pode discutir-se qual o mérito de Vítor Pereira na evolução registada por estes e outros jogadores.
Pode alegar-se que estes jogadores são tão bons, que teriam evoluído independentemente do treinador, dos métodos de treino e do modelo de jogo adoptado pela equipa.
O que não me parece correto é negar as evidências e dizer que nenhum jogador evoluiu desde que Vítor Pereira é o treinador principal do FC Porto. Isso é que não.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Lesões e Seleções

«João Moutinho, Varela e Defour já estiveram esta quinta-feira no Centro de Treinos e Formação Desportiva PortoGaia, no Olival, onde Vítor Pereira dirigiu mais um treino do FC Porto, que prepara a deslocação ao terreno da Académica (24.ª jornada, sábado, 18h15). Porém, os internacionais portugueses não estiveram no relvado: o primeiro [Moutinho] efectuou trabalho de recuperação no ginásio, enquanto Varela apresentou uma mialgia no adutor direito e limitou-se a tratamento. (...) Jackson Martínez e James, que estiveram ao serviço da Colômbia e tiveram o desgaste acrescido de uma viagem intercontinental, ainda não estiveram no Olival»
in www.fcporto.pt, 28-03-2013


Pelos vistos, Moutinho chegou da Seleção todo "roto", Varela com uma mialgia e os internacionais colombianos ainda nem sequer tinham chegado à hora do treino de quinta-feira.

O caso do Moutinho é mesmo paradigmático. A 23 de Fevereiro jogou contra o Rio Ave; depois sofreu uma lesão muscular num treino e falhou o jogo contra o Sporting (em 02-03-2013) e a recepção ao Estoril (em 08-03-2013). Dado como apto pelo departamento médico do FC Porto, no dia 13 de Março foi titular em Málaga mas, por volta dos 30 minutos, ressentiu-se da lesão na mesma perna e Vítor Pereira teve de o substituir ao intervalo.

(Málaga x FC Porto, O JOGO)

Lesionado, Moutinho voltou a falhar um jogo do campeonato, desta vez na Madeira, contra o Marítimo (em 17-03-2013) e, tal como na deslocação a Alvalade, o FC Porto voltou a empatar, perdendo mais dois pontos na corrida para o título.
Ao contrário do que é habitual com outros jogadores, todo este historial recente de lesões musculares não impediram Paulo Bento de convocar João Moutinho para dois jogos em países longínquos (Israel e Azerbaijão), nos quais o médio do FC Porto "apenas" jogou 180 minutos!
No treino de quinta-feira Moutinho efectuou trabalho de recuperação no ginásio. Veremos se já estará em condições de treinar na sexta-feira, o último treino antes da deslocação a Coimbra para defrontar a Académica.

O mesmo se passa com os dois internacionais colombianos que, na melhor das hipóteses, também apenas poderão participar num único treino de preparação para o Académica x FC Porto do próximo sábado. Espero é que as consequências de mais esta chamada à seleção da Colômbia não se façam sentir no próximo jogo do FC Porto. E digo isto porque ainda tenho bem presente o desempenho de Jackson Martinez no FC Porto x Olhanense. Para quem já não se lembra, eu recordo.
Guatemala e Colômbia disputaram um jogo particular em Miami, no dia 7 de Fevereiro, com início às 02h00 (hora de Portugal continental). Imagino o bem que deve fazer ao organismo de um jogador que vive na Europa, disputar um jogo neste horário.
De regresso a Portugal, após mais uma viagem intercontinental (e não sei quantos fusos horários), Jackson fez treino de recuperação na véspera do FC Porto x Olhanense e, no dia 10 de Fevereiro, teve um dos seus piores jogos com a camisola azul-e-branca, falhando um penalty e dois golos aparentemente fáceis, um em cada parte.

(FC Porto x Olhanense, O JOGO)

Lesões, seleções, limitações para treinar e/ou jogar, esta tem sido uma das sinas do FC Porto esta época.

P.S. Devido à entrada dura de Roberge (penalty por assinalar no Marítimo x FC Porto), a qual lhe provocou uma entorse no tornozelo direito, duas semanas depois Atsu continua lesionado e ficou de fora dos convocados para o Académica x FC Porto de amanhã. Regressado lesionado da seleção de Paulo Bento, Varela fica a fazer companhia a Atsu. E assim, Vítor Pereira vai para Coimbra sem extremos.

terça-feira, 26 de março de 2013

O Paulo herói

«A seleção tentou sempre fazer um jogo redondinho, afinado, daqueles que ficam bem na televisão. Não compreendeu a natureza do adversário [Israel] que enfrentava, nem o relvado onde estava, nem o momento. Em linha com aquilo que Pepe tinha dito antes: este jogo não era decisivo. Por acaso acho que era e os jogadores não compreenderam a exata dimensão da partida, o que se lamenta. Com uma fase de qualificação miserável, este era o instante correto para dar a volta a um texto mal escrito. Não conseguiram.»
Luís Sobral
in Maisfutebol, 22-03-2013


A seleçãozinha de Paulo Bento não joga nada, os resultados são maus (nos últimos cinco jogos nem uma única vitória para amostra!), mas o seleccionador continua com boa imprensa e em alta. E porquê?

Basicamente, porque Paulo Bento é um tipo esperto e percebeu rapidamente que, para se ser "herói" no futebol português, lhe bastava arranjar umas guerras com o FC Porto e, preferencialmente, com o Pinto da Costa.

Vejamos, em dia de jogo no Azerbaijão, de que é que se fala na imprensa desportiva?
Da miserável campanha da seleção nacional de futebol nesta fase de apuramento?
Do modo como Cristiano Ronaldo viu o cartão amarelo em Israel e que o afasta do jogo de hoje?
Não. A BOLA fez uma 1ª página elucidativa, em que escreve: "Reação dura de Paulo Bento aos recados de Pinto da Costa".
E mais abaixo: "Em véspera de jogo decisivo de Portugal no Azerbaijão, selecionador mostra pulso firme no caso Moutinho".
Só faltou dizer: Renove-se já o contrato do Paulo herói!
Resultados da Seleção?
Mundial do Brasil em 2014?
O que é que isso interessa?

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Salvos pela bomba



Como a época deixa pouco tempo para se falar de coisas triviais como é o caso da Taça da Liga, a azáfama vai grande para o banquete de ossos e espinhas desta noite, fiquemo-nos por uma resumida visão do 2º jogo do FC Porto nesta competição, até porque na verdade, por mais que se tente espremer, não é muito sumo que ficou por beber deste encontro.

Não que não tenha existido nele os seus momentos de frisson, mas a largos períodos o futebol foi atabalhoado, pobre e pouco acertado. Sobretudo no passe. Aliás, sobre este último capítulo diga-se que a rapaziada de Vítor Pereira continua a patentear um nível de acuidade demasiadamente mau para uma equipa que se supõe ser de top. Está bem que aquele terreno de ontem nem para outras modalidades mais musculadas cumpria requisitos, mas já vem de muito longe este péssimo registo no passe e recepção, que só é, tão-somente, o bê à bá do futebol.

A falta de agressividade evidente da nossa equipa no decorrer do encontro teve consequências na primeira metade da partida, onde raramente a bola chegou à baliza adversária com perigo. O Estoril contra-atacava com alguma liberdade e num desses lances “sacou” o livre que Steven Vitória converteu superiormente.

A toada pouco empenhada dos nossos jogadores - mais preocupados com as eventuais nódoas negras inestéticas para uma noite de passagem de ano, não davam grandes esperanças numa reviravolta do estado de coisas, pelo que só mesmo o “brinde” Mário Matos, o guardião dos visitados, permitiu com que Jackson Martinez fizesse o empate.

A saída do avançado colombiano ao intervalo atrofiou por completo o ataque portista na 2ª parte. Depois de 2 pequenos apontamentos no recomeço da partida a equipa eclipsou-se até aquele penalty dos “tempos modernos” cometido por Otamendi e no qual João Querido Manha vincou numa desenfreada masturbação cerebral que quase atirou com os porcos o meu infeliz LCD.

Vá lá que a nossa equipa ainda tentou a reacção. Quase sempre incipiente  é certo, porem algo mais aguerrida do que se vira até aí. O empate já pouco esperado surgiria do nosso elemento mais esclarecido do encontro de ontem, João Moutinho. Um pontapé fabuloso que bateu Mário Matos, onde ao segundo duelo com médio portista pereceu no terreno.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Estrangular o futebol dos pequenos

A FIFA revelou nesta sexta-feira que o comité do organismo para o futebol, liderado por Michel Platini, presidente da UEFA, solicitou “a criação de regulamentos que proíbam a propriedade por parte de terceiros” dos passes dos jogadores.

Esta notícia vinha publicada na edição online do PÚBLICO de Sábado. E não surpreende ninguém.

Michel Platini é uma figura que divide opiniões como dirigente (menos como futebolista). É, sobretudo, um excelente político com máscara de figura desportiva. Cresceu ao lado de Sepp Blatter, nesse antro de mafiosos que é a FIFA. Foi o seu homem forte na luta contra Johansson, um dos amigos mais íntimos de Pinto da Costa e da maioria dos homens do G14, e venceu. A partir de então a sua atitude com os clubes que entravam nesse grupo foi fria, distante e tensa em muitos casos. Salvo casos pontuais, como o Barcelona, que se afastaram do modelo original para aproximar-se da sua gestão presidencial, os clubes do G14 tiveram dificuldades com a UEFA nos últimos oito anos. O FC Porto, um dos que mais. Tivemos de sofrer as ameaças do francês, sem nenhum critério legal, e seguramente que Platini não se esquece do que teve de suar para vencer os azuis e brancos na polémica final de Basileia.


A gestão de Platini de devolver o futebol aos adeptos tem tido aspectos positivos.
Na sua luta contra os grandes, apostou num novo formato de Champions League que abre mais a porta à fase final a clubes campeões nacionais dos seus modestos países, ao livrarem-se de disputar o play-off final com os quartos ingleses, espanhóis  alemães e terceiros das ligas portuguesas, italianas ou francesas. Com gestos como esse (e o Euro 2008 e 2012, e as finais europeias que começam a chegar ao leste do continente), assegurou os votos para a reeleição e vendeu a ideia de ser um presidente dos mais fracos. Mas  como negociador nato que é, nunca se afastou em demasia dos países grandes. Não é por acaso que Londres recebe duas finais da Champions em três anos. Que Munique, Madrid, Paris e Moscovo tenham sido eleitas antes. Que os milhões da Champions sejam cada vez mais para cada vez menos e que o dinheiro investido na Europe League - a liga dos pobres - seja cada vez mais insignificante.

Platini quer chegar à FIFA e quer chegar com o apoio dos grandes. Precisa de sentir-se respaldado pela ECA, pela elite do futebol europeu e não apenas pelos clubes de países pequenos e sem expressão mundial. Por isso a nova medida vem apenas confirmar a sua deriva política. Acabar com a co-propriedade, algo que já existe nas ligas inglesa e francesa, é uma estocada de morte na ambição de muitos desses clubes. Os portugueses, por exemplo.

Com a situação actual de mercado, é cada vez mais difícil aos clubes como o FC Porto competirem com os milhões dos históricos do continente e com as novas fortunas do leste. A co-propriedade tornou-se numa ferramenta possível para comprar jogadores incomportáveis a preço total e também para aliviar o passivo quando a necessidade de cash flow se tornava iminente e aparecia um fundo qualquer para comprar uma pequena parte do passe de um jogador promissor. Sem esse mecanismo, não se enganem, não existia futebol profissional em Portugal. E em muitos países do Mediterrâneo. Em Itália a co-propriedade entre clubes é habitual desde os anos 90. Em Espanha, a esmagadora maioria dos clubes não detém o 100% do passe dos seus melhores atletas. Falar da Grécia, Chipre, Turquia, países eslavos e centro-europeus é apenas repetir a mesma história. A co-propriedade permite-lhes manter o pulso sem asfixiar-se (ainda mais) financeiramente. Sem ela, a Superliga europeia torna-se inevitável.

A missão de Platini nos últimos anos como presidente da UEFA é abrir caminho para essa realidade.
Abolir a co-propriedade significa dar aos clubes ingleses, alemães, russos, ucranianos e à elite espanhola, francesa e italiana, o domínio exclusivo e absoluto do futebol europeu. Deixa de haver margem de manobra para qualquer desafio externo. O FC Porto, como tantos outros, desapareceria entre o passivo acumulado e a venda dos seus activos para não acabar. Sem jogadores top não há performances top, não há ameaça, não há vitórias ao PSG, não há gestas como 2004. Não há nada.



Pessoalmente sou contra o modelo da co-propriedade. Absolutamente contra a entrada de fundos e empresários, muitas vezes para lavar dinheiro, no futebol gerido por um clube independente.
Mas também sou contra os salários praticados de forma infame pelos donos da pasta árabes e russos. Também sou contra a Lei Bosman, tal como está actualmente, e sou contra o modelo de distribuição de lucro das provas europeias desenhado pela UEFA.
Ou se é contra tudo ou a favor de tudo. Por um lado, se tudo isto fosse revisto, o futebol voltaria a ser mais igualitário  mais justo, mais divertido. Mas aos grandes isso não lhes interessa nada. O caminho é o oposto, aumentar ainda mais os desafios aos pequenos, roubando-lhes os melhores jogadores sem limite (mesmo que seja para preencher o banco), pagando-lhes fortunas impensáveis, ficando com números impensáveis de pagamentos por parte da UEFA e do império televisivo que vive à sua sombra. Acabar com a co-propriedade é só facilitar que os James, Jackson, Moutinho, Alex Sandro, Fernando, Danilo sejam suplentes do PSG ou do Shaktar em vez de serem jogadores do FC Porto.

É mais um golpe baixo e sujo, mais uma jogada muito bem pensada por parte da elite europeia. A tornar-se real - e ninguém duvida que Platini tem o poder necessário para lográ-lo - poderia ser também o fim do FC Porto como um potentado europeu. E talvez o fim do profissionalismo, tal como o conhecemos, do futebol do sul da Europa. Estejam atentos!

domingo, 2 de setembro de 2012

A gorada transferência de João Moutinho (segundo The Sunday Times)

O Jogo - jornal insuspeito de animosidade anti-portista - disse que a transferência de João Moutinho para o Tottenham se gorou por 4 minutos. Terá havido necessidade de tratar de novo da papelada e, entretanto, a hora-limite passou.

Deixo aqui a versão, aliás semelhante, do Sunday Times, jornal inglês de grande reputação e qualidade, numa peça da autoria do seu jornalista Duncan Castles:

"O fracasso do Tottenham na sua tentativa de contratar João Moutinho no último dia do período de transferências foi causado primeiramente por uma divergência acerca das condições financeiras do médio internacional portugês e, seguidamente, pela decisão do Porto de subir o preço apenas uma hora antes do encerramento do período às 11 da noite de 6ª feira. A transferência parecia bem encaminhada quando o presidente do Tottenham Daniel Levy deu o seu acordo a um valor de transferência de quase £20 M mais £ 2,4 M em objectivos. Moutinho, cujo salário no Porto está próximo dos £1,6 M anuais líquidos, recusou seguidamente as condições que lhe eram oferecidas. O treinador do Tottenham André Villas-Boas persuadiu-o a aceitar uma oferta melhorada, eram 10 da noite. Contudo, o Porto nessa altura pediu mais 25% pela transferência. Levy aumentou o valor total da oferta para perto de £24 M. O Porto concordou com essas condições 10 minutos antes da hora-limite, mas os documentos contratuais submetidos à Premier League continham erros que não puderam ser rectificados a tempo de se concluir a transferência. Os Spurs deram-se por vencidos às 11.30."


Tradução da edição em papel de The Sunday Times, site apenas acessível a assinantes.

domingo, 12 de agosto de 2012

O golpe ao cair do pano...



Fiel ao seu esboço, Vítor Pereira foi a jogo para arrecadar o primeiro trofeu da época com a base que fez alinhar na apresentação aos sócios. Nada de novo, portanto, e tudo muito morno, o bastante, para sublinhar a 4ª Supertaça consecutiva, mesmo que só confirmada em cima do minuto 90, quando o prolongamento era já dado como adquirido perante a magnifica moldura humana presente em Aveiro. Jackson Martinez, o nome de todas as esperanças, subiu lá ao alto, entre a defesa academista, para decidir o encontro.

Se previsível era a equipa que nosso técnico faria alinhar, não menos expectável seria a qualidade de jogo explanada em campo. Com efeito, o futebol pouco espevito da equipa azul e branca já registado no Mestalha ou no Dragão, voltou assomar-se no municipal de Aveiro esta noite. Só esporadicamente o nosso ritmo fugia ao controlo dos comandados de Pedro Emanuel, sem alcançar uma cadência capaz de vergar o adversário ao tapete.

A insipidez do FC Porto patenteada em grande parte do encontro está correlacionada com a “pólvora seca” em que o seu meio-campo está mergulhado. Se a lisura e eficácia de Fernando é incontestável, o mesmo não se pode dizer da pouca inoperância de Defour e até mesmo de Lucho. Mesmo em regime de part-time, saiu Moutinho do banco para arrebatar definitivamente a contenda em nosso favor, numa partida que há muito tempo não sabia nem a carne, nem peixe.

Na verdade, só este pequeno “génio” tem a capacidade de alavancar o nosso jogo para um outro patamar, o que dita, eloquentemente, a preponderância que tem na equipa. Oxalá o mercado não nos troque as voltas. E já agora, que as Seleções nos entreguem os jogadores livres de uma quarentena indesejada.

O domínio foi claro, mas não arrebatador. Aos pés de James, Otamendi ou Jackson não faltaram oportunidades de converter. E lá atrás poucas vezes Helton pressentiu o perigo junto das suas redes. Mas falta acutilância e assertividade a esta equipa que não a torne sensaborona como o foi várias vezes a época passada. Ainda assim, a justiça, que a sabedoria popular diz tardar, mas não faltar, veio mesmo ao cair do pano, no superior cabeceamento de Jackson Martinez.