
«O Sporting conseguiu um empate a zero no Dragão, impondo um estilo de jogo muito físico, muito agressivo (...).
Melhor o Sporting na primeira parte, finalmente com Pereirinha à direita do meio-campo e com um lado novo: desde o primeiro minuto que alguns jogadores do Sporting (Derlei, Pedro Silva, Rochemback, Polga, Grimi) fizeram uma certa intimidação física com alvos definidos (Bruno Alves, Hulk). Se bem interpretei, era uma forma de antes de mais mostrar que não era a equipa que sofreu a humilhação do Bayern que estava ali. (...)
Mas a tentativa de impor o físico leonino não correu sempre bem. Grimi saiu aos 30' lesionado (entrou Caneira) mas tinha a lição bem estudada. Protestos junto do árbitro em cada falta, nunca virar a cara à luta e nunca dar espaços. (...)
João Ferreira teve um jogo difícil e a nota mais sonante é que Pedro Silva saiu do campo sem cartão amarelo, ou Derlei sem o vermelho...»
Estes extractos acerca da estratégia do Sporting em relação à arbitragem de João Ferreira, são da crónica que Manuel Queiroz assinou no DN de 1 de Março e que, no fundamental, ele repetiu ontem no Jornal de Domingo da TVI24, para desagrado dos outros dois comentadores - António Magalhães (director-adjunto do Record) e João Querido Manha.
Contudo, a arbitragem habilidosa de João Ferreira foi muito mais do que isto, abrangendo um conjunto de aspectos que irei destacar de seguida.
1. Um penálti polémico
É público e notório que todos os penalties a favor do FC Porto são polémicos e, portanto, apesar da mão nas costas e do toque no pé de apoio, se o árbitro tivesse assinalado penálti aos 17 minutos, no lance entre Pedro Silva e Cristian Rodriguez dentro da área do Sporting, ia ser um escândalo e ir-se-ia falar na intensidade e noutras coisas que tais.
«É evidente que ficou por assinalar uma grande penalidade. Com o braço direito, o jogador do Sporting agarrou e puxou o adversário, causando-lhe a queda. Lance deveria ter sido punido com castigo máximo.»
Jorge Coroado (ex-árbitro internacional)
«Ficou por assinalar uma grande penalidade. Além de ter sido puxado, o jogador do FC Porto é rasteirado por Pedro Silva. Uma distracção grave do árbitro João Ferreira.»
Rosa Santos (ex-árbitro internacional)
O lance dá azo a várias interpretações? Admito que sim, mas de uma coisa não tenho dúvidas, é muitíssimo mais claro que qualquer um dos TRÊS (!) penalties que esta época foram assinalados contra o FC Porto em Alvalade (
um para o campeonato e
dois na Taça da Liga).
Alguém tem dúvidas sobre isso? É só rever as imagens.
05.10.2008: Lance entre Tomás Costa e Moutinho, que Lucílio Baptista entendeu assinalar penálti
Comparando com estes três penalties, que dirá Rui Oliveira e Costa do derrube de Rodriguez neste FC Porto x Sporting? Não é difícil adivinhar...
2. A complacência para com os jogadores do Sporting
Conforme refere Manuel Queiroz, os jogadores do Sporting vinham bem instruídos e preparados para lidar com a questão arbitragem. Assim, para além de uma agressividade a roçar a violência, e que chegou a ser intimidação física, viram-se protestos permanentes em cada falta que o árbitro, de vez em quando, tinha a “coragem” de assinalar contra os leões.
João Ferreira tem fama de ser autoritário (decorre da sua formação militar), mas desta vez revelou uma estranha complacência, inclusive quando os jogadores do Sporting fizeram ajuntamentos à sua volta para o pressionarem.
3. Pedro Silva, bateu em tudo o que mexia
«Pedro Silva - Quando teve a bola não jogou mal, quando não a teve batia em tudo o que mexia e saiu sem qualquer cartão...»
in DN, 01/03/2009

O Pedro Silva é um jogador multifacetado e não tem qualquer problema em recorrer a todos os meios, legais e ilegais, para travar os adversários que lhe aparecem pela frente (que o digam o Hulk, o Rodriguez ou o Lisandro).
Ele foi derrubes, obstruções, agarrões, valeu tudo e nem a sucessão de faltas, nem a gravidade de algumas delas, fizeram com que o árbitro o advertisse com um cartão amarelo. Caramba, ao menos tinha mostrado um cartãozito, só para disfarçar...
4. Rochemback, malhar nos adversários e protestar com o árbitro
«Rochemback - Muito bem a trinco, atento, sempre sem se esquecer de protestar com o árbitro, o que fazia parte da estratégia definida...»
in DN, 01/03/2009
Rochemback é um dos jogadores mais viris (e por vezes violento) do Sporting. Desta vez só viu o cartão amarelo aos 62’, mas antes disso, para além do habitual festival de faltas, já se tinha metido com o Hulk e fartado de protestar com o árbitro.
Foi substituído por Adrien aos 88', o qual entrou em campo, fez uma falta e protestou com o árbitro...
5. Três vezes perdoado o 2º amarelo a Derlei
Aos 35 minutos, quando conduzia um contra-ataque rápido do FC Porto, Lucho foi autenticamente varrido por Polga, ficando caído no relvado a contorcer-se com dores. O árbitro, e bem, deixou seguir o jogo para não beneficiar o infractor – o Sporting –, mas quando os jogadores do FC Porto perderam a bola interrompeu, e bem, o jogo de modo a que o infractor não beneficiasse da falta grave que tinha cometido. Ao parar o jogo o árbitro mostrou, e bem, o cartão amarelo ao Polga e também a Derlei, que veio disparado em direcção ao árbitro e que quase lhe encostou a cabeça (como fez o
Petit num célebre Boavista-SLB).
Após ter sido admoestado com este cartão amarelo (e poderia ter sido um vermelho directo pela forma exuberante como se dirigiu e protestou com o árbitro), Derlei deveria ter visto o 2º cartão amarelo e, consequentemente, sido expulso em três ocasiões:
• no final da 1ª parte, ao impedir um contra-ataque do FC Porto;
• aos 70’, numa pisadela que inutilizou o Cissokho e obrigou à sua substituição;
• aos 82’, numa falta dura que cometeu sobre o Rolando.
O árbitro viu perfeitamente estes três lances (em dois deles marcou mesmo falta), mas entendeu não ser conveniente expulsar o jogador do Sporting.
6. Missão: anular Hulk
«Hulk - Bem marcado, nem sempre viu o árbitro decidir bem as faltas a seu favor (malharam nele a sério...).»
in DN, 01/03/2009
Como anular um jogador como o Hulk? É simples, não o deixando jogar.
"Aqui em Portugal infelizmente é difícil jogar. Usam muito o corpo, fazem muitas faltas. Estou sempre a sofrer faltas e é difícil jogar assim.
Prejudicado? Vejam as faltas que o árbitro deixou de marcar em mim e as que marcou contra mim. Se pusessem aqui o Adriano ou o Ibrahimovic a jogar eles também teriam muitas dificuldades, porque usam muito o corpo."
Hulk, no final do jogo
A forma como Hulk foi travado neste jogo é de compêndio. Valeu tudo. Obstruções, empurrões, entradas por trás, entalado entre dois adversários, etc.
Nas poucas vezes que o Hulk conseguiu fugir às “entradas assassinas” e ganhar as disputas de bola graças ao seu maior poderio físico, lá estava o árbitro João Ferreira para resolver o problema: Priiiiiii! Falta contra o Porto!
No final, foram tantas as faltas que o árbitro assinalou sobre o Hulk, como as que marcou ao próprio Hulk. Notável!
Parafraseando e adaptando um slogan benfiquista de há uns anos atrás, apetece dizer: deixem jogar o Hulk!
7. As cargas sobre Bruno Alves
«Bruno Alves - Quase sempre certo, num jogo em que Derlei e Liedson fizeram gala de entrar de anca muitas vezes. Tanto que caiu mais vezes ontem que na época toda.»
in DN, 01/03/2009
Apesar de ser um jogador escolhido pela UEFA para exemplificar técnicas defensivas, há muito que o Bruno Alves tem fama em Portugal de ser um jogador violento.
Ora, aquilo que se vê, jogo após jogo, é avançados a fazerem faltas sobre o Bruno Alves (e não ao contrário), com a agravante de muitas dessas faltas não serem assinaladas.
A técnica é conhecida e tem sido devidamente explorada pelos treinadores e jogadores adversários. Como não conseguem saltar tão alto como o Bruno Alves, nem nada que se pareça, metem-se por baixo dele e carregam-no quando ele está no ar, provocando o contacto e o desequilíbrio do defesa portista.
Já não é a primeira nem a segunda vez que o Bruno cai desamparado. O objectivo deve ser que ele se aleije a sério e fique no estaleiro durante umas semanas.
Conforme estas fotos demonstram, os jogadores do Sporting mostraram ser especialistas nesta técnica e até o Raul Meireles levou que contar.
8. Nos cantos valeu tudo
Se fora da área e em jogadas de bola corrida os jogadores do Sporting não hesitavam em agarrar os do FC Porto, imagine-se o que foi nos cantos, com o aglomerado de jogadores dentro da área leonina.
Penso que não terá havido um único canto em que os principais cabeceadores do FC Porto – Bruno Alves, Rolando e Rodriguez – não tenham sido agarrados ou impedidos de jogar a bola.
Aliás, o chega mais para lá com o cotovelo do Rodriguez ao Caneira ocorrido no período de descontos é precisamente num lance deste género, em que o internacional uruguaio, farto de ter sido agarrado durante o jogo todo, reagiu desta forma antes da marcação de um canto.
9. Cuidado com as faltas perto da área!
Toda a gente reconhece que o jogo foi muito conflituoso e que os jogadores do Sporting usaram (e abusaram) de uma dureza pouco habitual para travar o ataque do FC Porto.
Pois bem, sabem quantas faltas foram assinaladas pelo senhor João Ferreira perto da área dos leões? Zero!
Livres a favor dos dragões em posição frontal só a mais de 30 metros da baliza leonina, não fosse o diabo tecê-las...
Um lance paradigmático da preocupação do senhor João Ferreira em evitar jogadas potencialmente perigosas, de modo a garantir o empate final, ocorreu já em tempo de descontos, num canto a favor do FC Porto, quando quase todos os jogadores portistas subiram para a área do Sporting.
90'+1': Na conversão de um canto, há falta ofensiva de algum jogador do FC Porto?
«Não houve qualquer infracção. Não se compreendeu qual o motivo para a interrupção.»
Jorge Coroado, Tribunal de O JOGO
«Não houve qualquer falta por parte de algum jogador do FC Porto na área do Sporting quando decorria a marcação de um canto. Não se compreendeu a marcação da falta.»
Rosa Santos, Tribunal de O JOGO
«Após a marcação de um canto, alguns jogadores do FC Porto tentam alcançar a bola, mas não se vislumbrou qualquer falta, pelo que não terá tomado a melhor decisão o árbitro da partida.»
António Rola, Tribunal de O JOGO
10. As declarações no final
"Não gostei da forma como o João Ferreira resolveu certos assuntos relacionados com a disciplina."
Jesualdo Ferreira
Há um indicador infalível para aferir uma arbitragem que envolva o Sporting: ouvir/ler as declarações do Paulo Bento e dos jogadores no final do jogo. Pois bem, quer o treinador, quer os jogadores Polga, João Moutinho, Pedro Silva e Liedson não fizeram uma única referência à arbitragem.
Ora, como a comunicação social do regime também gostou da arbitragem do Major Ferreira, penso que está tudo dito.
P.S. Com este artigo sobre a arbitragem de João Ferreira, não pretendo dizer que foi apenas por causa do árbitro que o FC Porto não venceu o jogo. É evidente que a exibição esteve longe de ser brilhante, mas isso não nos deve coibir de chamar à atenção para esta nomeação cirúrgica de Vítor Pereira (na mesma jornada Lucílio Baptista foi nomeado para o SLB-Leixões), nem para os factos acima referidos.
Compreendo perfeitamente que a comunicação social do regime diga que a arbitragem foi boa (pudera!), mas não contem comigo para branquear a forma habilidosa como o jogo foi conduzido desde o primeiro ao último minuto.
O resultado agradou-lhes (ver as declarações de Rui Costa e de Miguel Vitor na gala do SLB), a arbitragem do senhor
"João... pode vir o João" também e, por isso, nesta jornada o futebol português recuperou parte da sua credibilidade...
Este artigo, contra a corrente, fica para memória futura.
Fotos: Record, Maisfutebol