Uma eliminação mais do que justa, mais do que merecida. Durante 90 minutos o FC Porto foi a antitese de tudo aquilo que tinha sido no Dragão. Foi uma equipa cobarde, foi uma equipa sem critério, foi uma equipa sem ambição. Foi uma equipa vulgar. E equipas vulgares não chegam aos Quartos de Final da Champions League. Foi uma derrota merecida e cujas culpas podem ser repartidas em partes iguais por um treinador superado pela noite mais exigente da sua carreira e um grupo de jogadores que continua a revelar ter muito pouco nível para a elite.
Foi a noite em que Defour foi expulso por ser um jogador com pouco
savoir faire, um jogador sem a inteligência de saber ler o jogo. O árbitro - que até perdoou um golo absolutamente limpo ao Málaga, para contrariar tudo aquilo que eu tinha adiantado ontem - desde cedo deixou claro que não teria medo de expulsar jogadores. Os amarelos foram-se acumulando, e ao intervalo parecia mais do que evidente que uma das equipas, pelo menos, acabaria o jogo com 10 ou 9. Foi o FC Porto. E foi-o porque Defour fez uma falta desnecessária e inútil. Uma falta indigna de um jogador profissional num jogo desta magnitude. Com isso deixou a equipa coxa para o resto do jogo. Tinha passado uma primeira-parte longe do jogo, dedicando-se mais a destruir que a apoiar o ataque, deixando a nu o pouco ambicioso plano de Vitor Pereira.
O treinador não soube escolher o onze - optou por Varela e Defour, inexistentes, no lugar de Izmailov e Atsu - e não soube reagir. Acobardou-se. Quando Defour foi bem expulso, preferiu colocar Maicon, um central e colocar Alex Sandro no meio-campo.
O curioso é que um golo do FC Porto obrigava o Málaga a marcar três golos. Qualquer treinador com cabeça e coração teria apostado tudo no golo da tranquilidade, o golo que forçaria o Málaga a arriscar tudo. Mas Vitor Pereira não foi esse homem. Sentiu o peso sobre os ombros e deixou-se cair de joelhos. Já tinha abdicado de Moutinho (e sem Moutinho esta equipa é vulgar) presumo que por lesão, lançando um James fora de forma. O colombiano foi eclipsado por Isco, o autor do genial primeiro golo dos espanhóis (com Helton mal colocado). Depois da expulsão colocou Maicon e só no fim se lembrou da velocidade de Atsu. Com isso deixou no banco a Liedson e Izmailov, os revulsivos ideais para estes momentos. Deixou a coragem e golo e preferiu o medo e a abordagem mais conservadora, pensando talvez aguentar até ao prolongamento com menos um homem. Quem via o jogo sabia que isso nunca iria suceder.
O Málaga não fez um grande jogo, muito menos uma grande eliminatória.
Mas foi uma equipa dos pés à cabeça. Soube trabalhar como colectivo, soube anular as mais valias dos dragões e soube jogar o seu jogo. Como era de prever, a primeira parte foi dura e disputada essencialmente no meio-campo. Muitos pensavam que o Málaga partiria para o ataque, à procura do golo, desesperadamente. Eu avisei que não. Pellegrini, ao contrário de Vitor Pereira, sabe ler os jogos e percebeu que tinha primeiro de cansar o rival e aproveitar os espaços de uma linha defensiva alta. A equipa saiu com a lição do Dragão muito bem aprendida e procurou sempre as diagonais para a velocidade de Saviola. O argentino até marcou, um golo limpo mal anulado pelo árbitro, e foi muito mais díficil de travar do que tinha sido Santa Cruz no Porto. Esse golo podia ter sido o aviso para o FC Porto mudar a atitude.
A equipa tinha entrado medrosa, trapalhona e sem ambição. Longe da área, trocando e recuperando mas sem dar a sensação de perigo. O golo de Isco, mesmo antes do intervalo, era justo pelo demérito do Porto mais do que pelo trabalho dos andaluzes. Como foi o resultado final. O Málaga marcou o segundo golo com um golpe do avançado lançado para resolver a eliminatória (olá Vitor Pereira), numa defesa com cinco jogadores que o deixaram só para cabecear sem muitos problemas (olá Vitor Pereira). E depois, quando continuava a faltar apenas um golo para acabar com a festa do Málaga, a equipa não teve critério e muitos jogadores esconderam-se. Jackson foi um deles, talvez pesando as palavras de um empresário que já o vê a jogar ao lado de Messi. Lucho, tentou liderar mas estava só, e fisicamente não aguenta este nível. Já todos sabemos isso. Todos menos Vitor Pereira.
E sem um cérebro e sem um motor, não houve bolas que chegassem a Atsu e James, perdido em campo, provou ser uma aposta falhada pelo técnico. Com menos um, a precisar de um golo, o FC Porto foi inofensivo, criando perigo apenas de bola parada. E mesmo assim, um perigo praticamente inconsequente. Duas vezes a bola entrou na baliza e gritou-se golo mas as duas vezes os lances foram bem anulados por fora de jogo. O Málaga percebeu o estilo do árbitro e deixou de apertar nas entradas, e com isso evitou cair no mesmo erro de Defour. E controlou o jogo como quis, dando-se ao luxo de lançar vários dardos venenosos que só não fizeram mais sangue porque a equipa espanhola também foi, à sua maneira, bastante imprecisa.
Esta é uma das derrotas mais dolorosas do FC Porto em provas europeias da última década.
Sobretudo porque é uma derrota merecida. O adepto aceita cair aos pés do Manchester United, Arsenal ou do Inter, equipas com um orçamento muito superior e um
pedigree europeu inquestionável. O adepto aceita que o azar de uma noite como a do Schalke 04 aconteça, uma vez cada dez anos. O que o adepto dificilmente aceitará é que uma equipa com uma vantagem de 1-0, depois de uma primeira mão com uma boa exibição, se acobarde tanto num estádio do quarto classificado da liga espanhola, uma equipa cujos jogadores estão sem receber há meses, composta por promessas e veteranos e que nunca foi realmente superior em 180 minutos. É uma derrota que permite colocar as coisas em perspectiva. Houve muita gabarolice, depois do sorteio, de adeptos que diziam que o apuramento estava no papo, que o Málaga não era ninguém, que seria goleado, que jogador por jogador o FC Porto era muito superior, que Isco não merecia apertar os cordões a James, etc..., etc... Houve muita gabarolice, como em 2011, a falar de duelos directos com Barcelona, Bayern e Real Madrid, como se o FC Porto fosse uma potência europeia de facto. Não é.

O FC Porto é um grande da Europa, em primeiro lugar porque é o maior clube de Portugal. E em segundo porque - para o campeonato e país de donde vem - tem apresentado resultados a nível europeu brilhantes. Mas é uma equipa que não pode olhar olhos nos olhos com os grandes por noites como estas. Por noites onde jogadores pelos quais são pagos 17 milhões, como Danilo, continuam a deixar muitas interrogações. Por noites em que jogadores como Otamendi deixam a nu todas as suas debilidades. Por noites em que o banco de suplentes é curto e insuficiente para as exigências do guião. Por noites onde o perfil do treinador - ao contrário do que acontece no campeonato - exige alguém com carácter, algo com que a SAD se dá muito mal. É por noites como estas que muita da gabarolice que rodeia a equipa tem de ser colocada em perspectiva. Eu acho que o FC Porto tem de atacar todos os anos os Quartos de Final, devia ser o objectivo real. Sei que não somos pior equipa que o Málaga ou o Galatasaray que lá estão este ano, ou que o APOEL, CSKA Moscovo ou SL Benfica, que lá estiveram nas últimas edições. Mas para fazê-lo tem de ser com outro tipo de jogadores, outro tipo de técnicos e outro tipo de mentalidade. E foi isso que falhou na última década nos momentos decisivos, salvo em dois casos pontuais em que os astros se juntaram para criar duas gerações irrepetíveis e brilhantes, com um líder no banco e um plantel digno do nome do clube.
Esta noite vai entrar na galeria das mais dolorosas derrotas do clube. Mas isso não faz com que seja menos merecida. Vai custar ver o sorteio de sexta e não estar lá por culpa própria. Agora resta colocar todo o enfoque no campeonato, chegar ao Verão com a cabeça fria e pensar o que queremos do nosso clube. E, acima de tudo, o que quer quem realmente manda. Para que não se repitam noites como esta!