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sábado, 5 de novembro de 2016

Apelos à união…

Angelino Ferreira durante uma sessão de apresentação das contas do FC Porto

declarações de Pinto da Costa, na AG do Clube de 03-11-2016


Conforme a generalidade dos portistas sabem, o Dr. Angelino Ferreira não é um portista ou um sócio qualquer.
Angelino Ferreira foi dirigente do Clube e da FC Porto SAD durante cerca de 20 anos (no período entre 1994 e 2014), onde exerceu cargos de grande importância.
Em 1997, esteve na génese das sociedades anónimas desportivas em Portugal e, particularmente, da criação da FC Porto SAD e de todas as restantes sociedades do grupo FC Porto.
Mais tarde, por volta do ano 2000, foi ele que assumiu a responsabilidade de projetos cruciais para o futuro (presente) do FC Porto, como sejam o Estádio do Dragão (ligado ao Plano de Pormenor das Antas) e o Centro de Treinos e Formação de Gaia.

Angelino Ferreira: PPA (2002), Estádio do Dragão, Portomania (2005)

Há dois anos e meio, depois de ter dado uma entrevista a defender a necessidade da FC Porto SAD baixar a massa salarial do plantel, Angelino Ferreira demitiu-se do cargo de administrador financeiro por, segundo o próprio, a estratégia que defendia para a gestão do FC Porto, não ser coincidente com a que era preconizada pela maioria da restante administração da SAD.

Pinto da Costa, Angelino Ferreira e outros altos dirigentes do FC Porto

Daí para cá, Angelino Ferreira já deu algumas entrevistas (por exemplo esta ao JN, em dezembro de 2014), onde tem chamado à atenção para diversos problemas e alertado os portistas para o que pode acontecer se o rumo atual se mantiver.

Na entrevista mais recente, publicada no semanário Expresso (em 29 de outubro passado), Angelino Ferreira comentou o prejuízo recorde da SAD (quase 60 milhões), falou na saída do CEO do futebol (Antero Henrique), na opção da administração da FC Porto SAD em não vender jogadores quando, supostamente, tinha propostas milionárias (de 95 milhões de euros), etc.

Contudo, aquilo que parece ter enfurecido Pinto da Costa foram as referências às comissões pagas pela FC Porto SAD e, particularmente, por Angelino Ferreira ter dito que o pagamento de comissões à empresa do seu filho (Alexandre Pinto da Costa) era “uma situação que levanta questões de ética” e que “mesmo que não haja conflito de interesses legais, há questões de transparência”.

Estas afirmações são perfeitamente legitimas, nada têm de insultuoso e eu, José Correia, sócio nº 10839 do Futebol Clube do Porto, subscrevo-as a 100%.

Mais. Em lado nenhum da entrevista que deu ao jornal Expresso, o Dr. Angelino Ferreira disse algo que justificasse o ataque violento e insultuoso de que foi alvo por parte do presidente Pinto da Costa, na última assembleia geral do Clube.
E pior, com uma raiva incontrolada, o presidente Pinto da Costa foi ao ponto de dizer que portistas como o Dr. Angelino Ferreira eram piores que os inimigos externos do FC Porto.
L-A-M-E-N-T-Á-V-E-L!

Angelino Ferreira numa sessão na Euronext

Como é que alguém que centra o seu discurso no ataque a portistas, pode apelar à união de todos para o clássico de amanhã?

Felizmente, este ataque ao Dr. Angelino Ferreira mereceu poucos aplausos dos sócios do Futebol Clube do Porto presentes na última assembleia geral. De facto, ao contrário do que era habitual até há uns anos atrás, houve intervenções de outros associados que foram muitíssimo mais aplaudidas do que esta triste e lamentável intervenção do presidente Pinto da Costa.

Apesar deste discurso divisionista do líder, estou certo que amanhã, numa “batalha” importantíssima contra o nosso grande rival, todos os portistas estarão unidos e do mesmo lado.

VIVA O FUTEBOL CLUBE DO PORTO!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Entrada de investidores nas SAD

A ausência dos fundos é um problema para os clubes do Sul da Europa

Estamos no advento da entrada dos investidores nas SAD

Se os acionistas não forem capazes de suprir essas necessidades [de financiamento], terão de ser os investidores externos a fazê-lo

teremos de recorrer à entrada de investidores estrangeiros, que só seria evitável se as sociedades [SAD’s] fizessem um programa de ajustamento e viessem para um nível [de financiamento] mais baixo

Se os clubes tiverem de abrir o capital a investidores, eles vão definir as regras do jogo

Por que saiu do F. C. Porto?
Já disse em tempos o que tinha a dizer. Foram divergências de gestão na sociedade que determinaram o meu afastamento da SAD depois de 23 anos


Angelino Ferreira (fonte: JN, 26-12-2014)

Este conjunto de afirmações de Angelino Ferreira foram extraídas de uma entrevista de duas páginas, publicada no JN no dia 26 de Dezembro e, talvez por isso, tenha passado quase despercebida (foi muito pouco comentada).
Mas, penso que são afirmações que justificam alguma reflexão.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Angelino Ferreira, Maio de 2013

Em Maio de 2013, numa entrevista ao Diário Económico, Angelino Ferreira, na altura Administrador Financeiro da FC Porto SAD, informou que a faturação anual do grupo FC Porto rondava os 125 milhões de euros. Contudo, assumiu que o FC Porto teria de cortar nas despesas e procurar aumentar as receitas, por via da internacionalização da marca, reformulação de negócios já existentes e exploração de outros em new media.

Temos um plano de negócio a cinco anos onde está prevista a contenção. Temos de fazer a otimização e diminuição de encargos com recursos humanos e diretamente com o plantel, mas isso será a cinco anos, pois muitos contratos são plurianuais e há alguma rigidez”, afirmou Angelino Ferreira, nessa entrevista ao Diário Económico.

E na mesma entrevista revelou a seguinte estratégia para o futebol portista: “Existe uma curva que levará a ter custos menores com recursos humanos, não só nos custos com pessoal, mas nas próprias amortizações dos investimentos em novos jogadores. O downsizing tem de ser feito pelos clubes, pois caso não o façam alguém o fará por eles”.

De acordo com Angelino Ferreira, a FC Porto SAD teria de estar cada vez menos depende da venda de jogadores: “Enquanto o mercado valer realização de mais-valias temos de aproveitar, mas é fundamental a viragem para um modelo de negócio mais sustentável, com proveitos operacionais e não decorrentes da venda de direitos económicos de jogadores”.

Entretanto, em Fevereiro passado foi anunciada a saída de Angelino Ferreira, a qual nunca foi cabalmente explicada, mas que, de acordo com o Diário Económico, se deveu a «desacordo do dirigente face a diversas questões à sua volta».

Um ano depois da entrevista ao Diário Económico e já sem Angelino na SAD, qual vai ser a estratégia desportivo-financeira do FC Porto para os próximos tempos?

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Sai Angelino, entra Gomes

Na semana passada a SAD anunciou que um dos seus 3 administradores executivos, Angelino Ferreira (o "homem das contas", responsável pela área financeira) vai ser substítuido por Fernando Gomes, o ex-político, sem que tenham sido dadas quaisquer explicações para a troca.

Curiosamente será o 2o Fernando Gomes a ocupar essa função no Conselho de Administração, onde vai fazer companhia a Pinto da Costa, Adelino Caldeira, Reinaldo Teles (e Rui Sá, administrador não-executivo, um cargo totalmente secundário). Assinalo de passagem - para os mais distraídos - que Antero Henrique não faz parte oficialmente da cúpula máxima da SAD, muito embora tenha um papel mais importante do que um ou outro administrador (a propósito, só considerações políticas de PdC explicam a meu ver que um Reinaldo Teles ainda não tenha sido substituído oficialmente por Antero no CA). 

Esta mudança apanhou a maior parte dos adeptos de surpresa. 

Em primeiro lugar porque Angelino não se aguentou muito tempo nesta 2a passagem pela SAD; tendo ocupado anteriormente o mesmo cargo - e durante vários anos - não se pode dizer que não sabia ao certo no que se estava a meter (nem que PdC não sabia com o que ia contar quando o convidou a regressar). 

Em segundo lugar e acima de tudo, pela entrada de F. Gomes. Fernando Gomes é um «paraquedista» no mundo do futebol aos 68 anos, e um político de carreira (onde passou mais de 30 anos) - e embora tenha tirado o curso de Economia nunca exerceu as habilitações (o mais perto que andou disso foi como administrador da Galp nos últimos anos).

Pessoalmente não gostei desta notícia, e por várias razões:

1) antes de mais por achar que Fernando Gomes está mal habilitado para o cargo. Dito isto, ser um «animal político» pode ser útil no cargo, o que já não é mau.

2) por nao gostar da aparente promiscuidade que se promove entre o mundo política e o mundo do futebol (ainda por cima quando ele tinha sido presidente da câmara da cidade onde está o FCP). Aliás, em futuras negociações entre o FCP e a CMP (ou CMG), a suspeita vai ser lançada de que o presidente das dita-cujas estará a fazer favores ao FCP para se «fazer ao tacho na SAD» mais tarde. A Lucrécia Bórgia não basta ser honesta, há que parecê-lo...era escusado dar mais um pretexto aos nossos inimigos para nos atacar.

3) finalmente, pelas eventuais verdadeiras razões q terão levado a) o Angelino a sair, b) a que a PdC/SAD concluir que era bom lá ter o Fernando Gomes e c) Fernando Gomes a aceitar meter-se no FCP. Parece-me que anda muita gente a «jogar xadrez» em várias dimensões...

De qualquer forma o que é claro é que na FCP SAD as funções no papel não correspondem necessariamente ao verdadeiro papel e peso de cada um dos dirigentes, e é uma incógnita que papel ao certo vai Fernando Gomes desempenhar; e que peso é que virá a ter nas grandes decisões de gestão.

Suspeito que passe a ser a principal face pública da SAD (habilidade em relações públicas é um défice claro nos restantes altos dirigentes, com a clara excepção de PdC), fazendo uso dos seus dotes políticos... para além disso, fico na expectativa, todos os cenários são possíveis. A ver vamos.

quinta-feira, 28 de março de 2013

O passivo financeiro do Grupo FC Porto

Já ouvi comentadores de outros clubes dizerem na televisão, que desconheciam qual era o passivo financeiro do Grupo FC Porto, acusando o FC Porto de não apresentar contas consolidadas envolvendo o clube, a SAD e as empresas associadas (do perímetro de consolidação). Bem, ao contrário do que essas e outras insinuações davam a entender, parece que no que diz respeito ao passivo financeiro não havia muito a esconder.

(clicar para ampliar)

Acho interessante que adeptos de outros clubes aparentem estar preocupados com as contas do Grupo FC Porto, mas eu se fosse benfiquista ou sportinguista estaria era bem mais preocupado com os colossais passivos financeiros desses clubes.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Prejuízo depois de 5 anos de lucro


Na apresentação à comunicação social dos resultados consolidados do exercício 2011/12, a Administração da FC Porto Futebol SAD, através de Angelino Ferreira, destacou o facto de a SAD ter prejuízo depois de cinco anos consecutivos de lucro.

De facto, entre 2006/07 e 2010/11, a FC Porto SAD obteve sempre resultados positivos, embora o lucro acumulado nestes cinco anos (15,9 milhões de euros) apenas tenha permitido recuperar pouco mais de metade do prejuízo de 30,5 milhões de euros que foi registado na época 2005/06.

O quadro seguinte corresponde precisamente às últimas duas épocas em que a FC Porto SAD teve prejuízo (2005/06 e 2011/12):

(clicar na imagem para a ampliar)

Algumas das rubricas podem ser mais difíceis de comparar, devido a haver critérios que, neste intervalo de tempo, tenham sido alterados. Contudo, entre as rubricas mais relevantes, chamo à atenção para o seguinte:

- Em seis anos (de 2005/06 para 2011/12), os 'Custos com Pessoal' aumentaram quase 15 milhões de euros (mais 43%);

- As 'Amortizações e perdas de imparidade com passes de jogadores' tiveram um agravamento de quase 82%, tendo disparado para um valor superior a 36 milhões de euros.

Em conjunto, estas duas rubricas passaram de um valor global de 54,7 milhões de euros em 2005/06 para 85,9 milhões de euros em 2011/12.

Ora, mesmo levando em conta o aumento verificado nos prémios que a UEFA paga pela participação na Liga dos Campeões, bem como, a renegociação em alta dos direitos de transmissão televisiva que a SAD (em bom tempo) fez com a Olivedesportos, parece-me óbvio que um valor desta dimensão não é sustentável.

Mais. Embora nestas duas épocas os prejuízos tenham superado a barreira dos 30 milhões de euros, convém salientar que em 2005/06 as mais-valias resultantes da venda de passes de jogadores foram inferiores a 5 milhões de euros (um valor excepcionalmente baixo para o que tem sido habitual na última década). Ou seja, se levarmos em conta este aspecto, eu diria que o prejuízo registado no exercício 2005/06 foi menos preocupante que o de 2011/12, época em que os 29,1 milhões de euros em mais-valias (provenientes das vendas de Falcao, Rúben Micael e Alvaro Pereira) não chegaram para impedir um prejuízo recorde de quase 36 milhões de euros.

Para a época atual (2012/13), a SAD parte com a "almofada" resultante das vendas dos passes do Alvaro Pereira e do Hulk, aos quais é provável que venha a juntar mais algumas vendas em Janeiro e Junho de 2013. Contudo, estando as receitas de Bilheteira em queda e com o dinheiro cada vez mais caro (entre 2005/06 e 2011/12 os encargos financeiros tiveram um agravamento de 80%!), parece-me inevitável repensar o modelo de gestão que foi seguido nos últimos anos, reduzindo e otimizando o montante gasto na compra de jogadores (esta época foi um bom exemplo, com um gasto de aproximadamente 11 milhões de euros na aquisição de apenas três jogadores) e ajustando salários ao atual contexto do futebol português.

Nota: O quadro foi construído com base em comunicados oficiais dos resultados consolidados da FC Porto Futebol SAD. No caso de detectarem algum erro, agradeço que o comuniquem na caixa de comentários ou através do e-mail do blogue.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

FCP Futebol SAD: orçamento recorde de 95M€

"O exercício financeiro do FC Porto está quase a terminar, o que acontecerá no final deste mês, e já está planificado o próximo orçamento, que vai suportar as despesas para a época que se avizinha. Trata-se, na linha do anterior, de mais um orçamento recorde no futebol português, a rondar os 95 milhões de euros. [...] "Será um orçamento da mesma ordem de grandeza do anterior. Diria que é um orçamento que está em linha com o do último ano, algo como 95 milhões de Euros. É um orçamento maior do que o do Benfica", disse Angelino Ferreira, para se ter uma ideia comparativa. " in "O Jogo"

Serve este artigo acima de tudo para assinalar que há duas coisas que muita gente confunde e convém ter em consideração:

1) confundir orçamento com receitas

O orçamento diz respeito às despesas; ainda mais importante do que isso é as receitas (proveitos). No caso do FCP as duas coisas são mais ou menos equivalentes, em média, desde que se vá vendendo em média 2 titulares por época (como aliás temos feito): as nossas receitas anuais excluindo vendas de jogadores andam um pouco acima dos 60M€ (presumindo que chegamos aos 1/8s final da LC).

Sobre o orçamento anunciado, é normal que varie pouco de ano para ano, já que os custos das contratações é amortizado ao longo de vários anos (i.e. durante a duração dos contratos) e o resto das despesas é pouco flexível (a não ser que numa dada época se substituta pelo menos metade do plantel por jogadores com salários muito mais altos ou muito mais baixos, o que nunca aconteceu e esperamos não venha nunca a acontecer). Ou seja, não há qualquer novidade no que o A. Ferreira anunciou.

Assinalo também que a diferença para os clubes mais ricos se esbateu nos últimos anos, felizmente, em termos de múltiplos. Quero com isto dizer q se há uns 5 anos o orçamento de um dos clubes mais ricos da Europa era para aí 10x mais alto do q o nosso, agora é "apenas" 5x mais alto.

2) Confundir demonstrações de resultados com necessidades de tesouraria

Muita gente tomou as declarações recentes de Angelino Ferreira como sinónimo da ausência de necessidade de vender jogadores neste Verão.

No entanto ele estava a falar da demonstração de resultados (i.e se vamos fazer lucro ou não; daí ter mencionado "mais valias", uma coisa irrelevante para a tesouraria), enquanto o que mais determina - e de longe - se é preciso vender ou não a curto prazo, é a situação da tesouraria (i.e. a capacidade para ir pagando, mês a mês, os compromissos assumidos); e essas já são contas substancialmente diferentes.

Pelo que vi no R&C do 3o trimestre teremos um "buraco" de tesouraria superior a 15M€ nos próximos 9 meses, caso não se venda ninguém ou não se negoceie novos empréstimos (é impossível dizer em que meses ao certo o buraco será mais agudo, para isso seria preciso ter detalhes que não são públicos). A situação com a banca não está boa, mas quero acreditar que novos empréstimos é uma possibilidade; a outra é vender jogadores, claro (e atenção que não costumam ser pagos por inteiro a pronto, longe disso; por outras palavras, a vender um jogador no Verão por digamos 20M€ o mais provável é que só entre em caixa um máximo de 10M€ nos próximos 9 meses).

Concluindo, a coisa está mais ou menos controlada, o que é agradável, apesar de também não ser exactamente positiva - e penso que o mais provável é que venhamos a assistir a uma mistura das duas coisas nos próximos meses (i.e. pelo menos um jogador titular vendido *e* renegociação de novos empréstimos, ainda que com juros altos como ainda agora aconteceu no empréstimo obrigacionista).

Para terminar, cresci habituado a que o FCP ganhasse mais títulos do que o slb enquanto gastava menos (i.e. tendo orçamentos mais baixos), algo que se inverteu nos últimos anos; gostava de voltar a essa situação (i.e. fazendo mais do que eles mas com menos dinheiro), porque isso ajudaria a consolidar por um longo prazo a nossa hegemonia, dando por exemplo mais flexibilidade para investir a sério e sem preocupações numa ou noutra época em que tal seja mais necessário.

domingo, 13 de junho de 2010

Fernando Gomes e Angelino Ferreira

Poucos dias após a FC Porto SAD ter apresentado as contas do 3º trimestre 2009/10 e de Fernando Gomes ter sido eleito presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, parece-me oportuno recordar um interessante artigo de Rui Frias, publicado no DN de 06/02/2010, a propósito da passagem de testemunho entre Fernando Gomes e Angelino Ferreira na SAD portista. Neste artigo é traçado o perfil destes dois homens, que vale a pena conhecer melhor, até porque há quem veja neles potenciais candidatos à sucessão de Pinto da Costa, daqui a três ou seis anos.

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Não é propriamente um cinéfilo, mas quando a filha Soraia acabou o curso de Gestão, na Universidade Católica, e foi para Nova Iorque e Los Angeles aprender a gerir produção de cinema, Angelino Ferreira mergulhou no mundo da sétima arte. Ou melhor, no universo empresarial que rodeia as produções de filmes, lançando, em 2005, com a filha, a produtora Yellow Entertainment, que estreou o seu primeiro filme no ano passado - Star Crossed, com cenas filmadas no próprio Estádio do Dragão, completando assim a tríade das grandes paixões de Angelino: empresarialização, família e o FC Porto. O "criador" da SAD portista, diz quem o conhece, é mesmo assim: um homem que se atira de cabeça a tudo o que faz, capaz de encher a casa de livros sobre o assunto que o atrai a cada momento.

A determinação com que se entrega às causas é, apontam, um ponto em comum com o homem de quem recupera agora a pasta financeira da administração da SAD do FC Porto. Principal figura do lançamento da Sociedade Anónima Desportiva, em 1997, Angelino Ferreira passou o cargo, em 2000, a Fernando Gomes, um ex-jogador de basquetebol do clube que na última década foi então o rosto financeiro da SAD do futebol. Agora, inverte-se o caminho: Fernando Gomes abandona todos os cargos no grupo empresarial do FC Porto, alegadamente por divergências quanto ao rumo financeiro da sociedade após as contratações de Rúben Micael e Kléber (esta falhada), e devolve a bola ao "criador".

Fernando Gomes, "o outro Fernando Gomes do FC Porto" - como ficou conhecido desde os tempos de atleta devido à coexistência com o ex-futebolista "bibota de ouro" - deixa o interior do universo portista após quase 40 anos de ligação. Teve um percurso parecido com o de Pinto da Costa, subindo na hierarquia sempre por dentro do clube. Era, aliás, além do presidente, de Reinaldo Teles e de Ilídio Pinto (vice-presidente ligado ao hóquei em patins) um dos dirigentes com mais tempo de FC Porto. Foi no basquetebol que começou, ainda nas camadas jovens. E tornou-se numa referência do basquetebol portista. Fez parte da famosa equipa que tinha o norte-americano Dale Dover, nos anos 70, e acabou a carreira no final dessa década, como capitão da equipa que ganhou dois campeonatos consecutivos na viragem para os anos 80, sob comando do treinador Jorge Araújo, com quem mais tarde se reencontraria, então já como director da modalidade, nos anos 90. "Já era sintomático que fosse o capitão de equipa. Era um atleta muito determinado e enérgico em campo, com uma forma de jogar muito 'nortenha' e uma paixão enorme. E já com uma visível capacidade de liderança, que lhe advinha até da posição em que jogava (no basquetebol, o base é quem lidera todo o jogo da equipa)", recorda o ex-treinador.

Por essa altura, a única ligação de Angelino Ferreira ao FC Porto era apenas a de um jovem adepto entusiasmado com as mudanças em curso no seu clube, nos tempos em que a dupla Pinto da Costa/José Maria Pedroto lançavam as sementes para a hegemonia no futebol português. Angelino formava-se em Economia na Universidade de Coimbra e desde cedo mostrou o seu carácter empreendedor nos negócios. Em 1981, com 26 anos, reabriu a Bolsa do Porto, fechada após o 25 de Abril. E passou lá toda a década de 80, grande parte dela como corretor em nome individual - até 1988 foi, com Maria Cândida, da Carregosa, e Adolfo Brito, um dos três "reis" da bolsa portuense, os únicos corretores em actividade. Foi nesses tempos também que foi construindo a imagem de seriedade e rigor que mantém ainda hoje junto das instituições financeiras, junto das quais teve um papel decisivo na altura da transformação do FC Porto em SAD e, posteriormente, nas negociações para a construção do estádio do Dragão e do centro de treinos em Gaia.

Nuns anos de crescimento selvagem da bolsa portuguesa, que levaria ao grande crash de Outubro de 1987, quando "toda a gente ganhava dinheiro na Bolsa" e Miguel Esteves Cardoso escrevia que "agora já não saímos com a Isabel, a Marina ou a Helena, em vez disso apaixonamo-nos pela Sofinloc, Locapor, Transbel... Em qualquer restaurante só se ouve falar de Sofinloc, Marconi... Está tudo Portloc!", nessa conjuntura desregrada, Angelino Ferreira distinguia-se "pelo seu carácter sempre muito certinho e honesto", conta quem com ele lidou nesses tempos. Numa frase, "o dr. Angelino faz sempre tudo 'by the book'". Esteve depois envolvido na criação das empresas Socifa & Beta e PARS (ligada à Salvador Caetano, Soares da Costa e Tertir), até que na década de 90 chegou então ao FC Porto, primeiro para o Conselho Fiscal e mais tarde para a direcção.

Tal como Angelino, Fernando Gomes também se formou em economia, enquanto jogava basquetebol. Fez o curso na Universidade do Porto e, depois da carreira de atleta, fez um interregno no seu percurso dentro do clube. São-lhe conhecidas passagens pelos grupos SONAE e Amorim, a aposta numa empresa de informática, mas voltou a ser o basquetebol a promovê-lo de novo para dentro do FC Porto, nos finais de 80, quando a secção estava para fechar.
Fernando Gomes "trouxe uma nova dinâmica empresarial para a estrutura do basquetebol", lembra Jorge Araújo. E não só no FC Porto. Foi ele também quem esteve na origem da criação da liga profissional de basquetebol, em 1995, da qual foi de resto o primeiro presidente. Para Jorge Araújo, esse foi "o momento alto do percurso dele". Foram três anos de grande desenvolvimento do basquetebol nacional, que depois disso "nunca mais foi igual" - a liga profissional acabaria mesmo, mais tarde. Isso e o título ganho no primeiro ano da liga profissional, quando o dragão quebrou sete anos de hegemonia daquele Benfica de Carlos Lisboa, em pleno pavilhão da Luz. "Lembro-me de no final do jogo me abraçar a ele e dizer-lhe que ele merecia aquele título", recupera Jorge Araújo.

Discretos e reservados no contacto para o exterior, Fernando Gomes e Angelino Ferreira tentam preservar a vida pessoal. Sabe-se que são da mesma geração - o ex-administrador tem 57 anos e o regressado 56 - e moram até perto um do outro, separados pela rua da Constituição: Fernando Gomes na Praça Francisco Sá Carneiro (popularmente conhecida por Praça Velasquez), bem pertinho do estádio do Dragão, e Angelino Ferreira próximo da praça rainha Dona Amélia. Ambos são também habituais frequentadores do Algarve nas férias e não se lhes conhecem grandes vícios - não fumam nem bebem. "Aliciado" por Adelino Caldeira, administrador jurídico da SAD, Angelino Ferreira ainda tentou umas tacadas no golfe, mas o hobby não terá durado muito.

A nível familiar, ambos são casados com as respectivas mulheres de longa data. Fernando Gomes tem três filhos, dois gémeos e uma filha mais nova. Os rapazes também praticaram basquetebol no FC Porto e um deles, Sérgio, chegou mesmo a jogar nos seniores. A filha mais nova trabalha em Londres, num hospital de crianças, cidade de resto onde também vive o filho mais novo de Angelino Ferreira, Bruno, licenciado em design de comunicação, enquanto a outra filha, Soraia, é então produtora de cinema, tendo estudado alguns anos em Nova Iorque e Los Angeles.

De resto, segundo quem com eles trabalhou de perto no FC Porto durante anos, se no rigor e determinação a SAD azul e branca não deverá registar diferenças nesta nova passagem de testemunho, há traços de personalidade que os distinguem. Angelino Ferreira é "um homem de compromissos, embora inflexível nos princípios" - em 2000, sem que nunca tenha sido confirmado pelo próprio, falou-se que teria saído da SAD por discordância com algumas opções. Tal como agora foi noticiado em relação a Fernando Gomes, um homem de riso até mais fácil do que Angelino Ferreira quando entre amigos, mas mais inflexível nas relações profissionais. "É muito exigente e, às vezes, consegue ser muito duro", contam sobre o ex-administrador, que tem "uma memória de elefante": "Lembra-se do mais pequeno detalhe passado há não sei quanto tempo e joga isso na altura certa". Angelino tem um registo mais tranquilo, "muito reservado, low profile", unanimemente visto como "uma ave rara no meio da tribo do futebol".

No FC Porto, Angelino Ferreira será sempre o homem que "lançou as bases da empresarialização do clube", permitindo o caminho que levou ao grande grupo empresarial que hoje constitui o FC Porto. Por isso, considera um elemento da estrutura portista, "a constituição da SAD será sempre a sua grande marca, mais até do que o estádio ou o centro de treinos, porque foi mais estruturante para o clube. Sem a SAD não haveria depois o estádio".

Já a Fernando Gomes é atribuído um papel decisivo na valorização do plantel em termos patrimoniais e "na consolidação do FC Porto enquanto projecto internacional, com um trabalho de rede muito importante ao nível das relações internacionais, quer ao nível de organismos da UEFA, quer no G-14, por exemplo".
Essa teia de relacionamentos internacionais foi importante, garantem, junto da UEFA na altura em que as obras do novo estádio estiveram paradas devido ao conflito com a Câmara do Porto de Rui Rio, e também no recente período conturbado do Apito Final, perante a ameaça de exclusão das provas europeias. É também por isso que agora se lhe prevê um alto cargo num organismo internacional do futebol, havendo ainda quem o veja a trabalhar com um importante agente mundial de futebolistas e, a médio prazo, como um nome a ter em conta na sucessão de Pinto da Costa. "Corrida" para a qual não se conhece a tendência de Angelino Ferreira, mas da qual também não poderá ser excluído: o regressado administrador é, pelo menos, um favorito junto do importante sector bancário. Para já, neste seu retorno à SAD, retoma o objectivo inicial - garantir o trapézio financeiro que permita manter um FC Porto ganhador.