Na antevisão ao sorteio dos quartos-de-final, o Miguel Lourenço Pereira publicou um artigo em que analisou os potenciais rivais do FC Porto e, acerca do Bayern, escreveu o seguinte:
«Bayern München – Favoritos absolutos a tudo. São a melhor equipa da Europa. Possuem o melhor jogo colectivo, algumas das melhores individualidades posicionais, de longe o melhor treinador e a melhor estrutura. (…) A melhor opção, até agora, que algumas equipas conseguiram, foi defender bem uma das mãos para acabar trucidada na segunda.»
No dia seguinte, uns minutos após o sorteio, num artigo que intitulei ‘Pior (sorteio) era impossível’, escrevi o seguinte:
«Bayern Munique!
Grau de dificuldade máximo!
Nesta altura, não há nenhuma equipa mundial acima dos rapazes de Pep Guardiola.
Num jogo de futebol tudo é possível mas, realisticamente falando, penso que as probabilidades do FC Porto superar este Bayern, numa eliminatória a duas mãos e, ainda por cima, com o 2º jogo em Munique, são muito reduzidas.»
Ora, apesar da extraordinária vitória por 3-1 no jogo da 1ª mão (que irá entrar para a história do FC Porto), continuei com os pés no chão e a achar que superar o Fußball-Club Bayern München, numa eliminatória a duas mãos e com o 2º jogo disputado na Alemanha, era algo do domínio dos sonhos.
Por isso, na véspera do jogo de Munique, num artigo que intitulei ‘O Ragnarok’, escrevi o seguinte:
«Se ganhar ao Bayern no Estádio do Dragão foi tremendamente difícil e só possível graças a uma exibição transcendente da equipa do FC Porto e a um dia menos bom de alguns jogadores do colosso da Baviera, ir a Munique sem Danilo, Alex Sandro e Tello (a que poderia juntar Adrián López, o nosso Javi Martínez...), tendo de fazer adaptações em metade da defesa, resistir 90 minutos e sair do Allianz Arena com a eliminatória na mão, seria épico!»
Não foi épico.
Contudo, do mesmo modo que nunca entrei em euforias desmedidas, também entendo que não há motivos para os portistas ficarem deprimidos. Temos de ter noção da realidade e do Mundo de diferenças que separa estes dois clubes e estas duas equipas. Vejamos:
Contra o FC Porto, o Bayern alinhou, nos dois jogos, com seis jogadores que já foram campeões do Mundo – Manuel Neuer, Boateng, Lahm, Xabi Alonso, Goetze, Muller – e ontem, Pep Guardiola ainda se deu ao luxo de deixar um sétimo campeão do Mundo – Schweinsteiger – no banco de suplentes.
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| Jogadores da selecção alemã campeã do Mundo em 2014 |
Contra o FC Porto, Pep Guardiola utilizou 10 jogadores – Manuel Neuer, Rafinha, Boateng, Dante, Badstuber, Lahm, Xabi Alonso, Thiago Alcântara, Goetze, Muller – os quais, entre muitos outros títulos de relevo internacional, já ganharam a Liga dos Campeões.
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| Jogadores do Bayern que venceram a Liga dos Campeões 2012/13 |
Ou seja, este Bayern tem um plantel de luxo, que junta qualidade e experiência em doses (de destruição) maciças.
Não há Rafinha? Joga Lahm (ou vice-versa).
Não há Benatia? Joga Dante ou Badstuber.
Não há Alaba? Joga Bernat.
Não há Schweinsteiger? Joga Thiago Alcântara (que craque!).
Não há Ribèry? Joga Goetze.
Não há Robben? Joga Lewandowski (e Muller fica mais móvel).
Etc.
E do lado do FC Porto, qual é (foi) o cenário?
Reyes (defesa central adaptado a defesa direito) – ínfima participação anterior em jogos europeus;
Ricardo (extremo direito em fase de adaptação a lateral direito) – ínfima participação anterior em jogos europeus;
Indi (defesa central adaptado a defesa esquerdo) – primeiro ano nas provas europeias;
Rúben Neves (18 anos, ainda podia jogar nos juniores!) – primeiro ano nas provas europeias;
Óliver (19 anos) – primeiro ano nas provas europeias;
Brahimi – primeiro ano nas provas europeias;
Fabiano, Marcano e Herrera – segundo ano nas provas europeias.
Honestamente, perante esta realidade, poder-se-ia exigir mais ao FC Porto nesta eliminatória?
Pois, tudo isto é verdade, dirão alguns portistas, mas 6-1?!
Nestas alturas, convém ter memória e, por isso, eu (que já tenho muitos cabelos brancos) começo por dizer que prefiro perder 6-1 com o Bayern nos quartos-de-final da UEFA Champions League (e após um trajecto de 11 jogos sem derrotas!), do que perder 6-1 em Atenas, com o "colosso" AEK, conforme aconteceu ao FC Porto de Pedroto há 36 anos (época 1978/1979), na 1ª eliminatória da antiga Taça dos Campeões Europeus.
Depois, também convém recordar que esta eliminatória teve dois jogos, em que houve uma vitória para cada equipa e, no cômputo dos golos marcados e sofridos, o Bayern ganhou por 7-4.
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| O JOGO, 21-03-2015 |
Analisando os resultados do quadro ao lado (publicado em O JOGO), verifica-se que, desde os anos 60, quando equipas portuguesas apanham o Bayern em fases a eliminar, o normal é haver goleadas e o saldo da eliminatória ser muito negativo. Principais exemplos:
1967/1968: Vitória Setúbal (3-7)
1975/1976: SL Benfica (1-5)
1981/1982: SL Benfica (1-4)
1995/1996: SL Benfica (2-7)
2008/2009: Sporting (1-12)
2014/2015: FC Porto (4-7)
As excepções a este cenário de goleadas, em que houve eliminatórias disputadas até ao último minuto, vêm do FC Porto: na Final de 1986/1987 (2-1) e nos quartos-de-final de 1999/2000 (2-3).
Aliás, em 24 jogos para as competições europeias, em que enfrentaram equipas portuguesas, o Bayern só perdeu por duas vezes. Adivinhem com quem…
P.S. Quem não quiser correr riscos de medir forças com super-equipas, como o Bayern (ou Real Madrid, ou Barcelona), em jogos decisivos, na fase a eliminar da UEFA Champions League, tem bom remédio: ficar pela fase de grupos. Como é que isso se faz sem dar muito nas vistas? Perguntem ao Jorge Jesus…





