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segunda-feira, 8 de março de 2010

Uma análise SWOT - Ameaças

Por Ana Martins

Uma análise SWOT - Mais-valias
Uma análise SWOT - Fraquezas
Uma análise SWOT - Oportunidades




4. Ameaças

a) A saída de Pinto da Costa, por tudo o que isto acarreta do ponto de vista organizacional, de competência, de estrutura, de baluarte de reserva moral. Um mito que mete respeito. É raro ter um Presidente que tenha ganho mais títulos do que os jogadores ou treinadores que contrata e isso coloca o nível de expectativa muito lá em cima, o que é excelente para quem chega. Uma das ameaças consubstancia-se, portanto, no que uma liderança como a de PC costuma trazer a uma organização quando lá não está. Espera-se, então, que o modelo de governação adoptado seja capaz de dar resposta a esta ameaça.

2) Um país de tendência centrípeta e centrífuga, em que o que não é Lisboa não é valorizado na proporção devida. Enquanto durar a lenga lenga dos 6 milhões, as TV’s, as rádios e os jornais vão continuar a achar que dar mais airplay ao SLB/SCP do que a FCP. Isto corresponde a menor valor de sponsors, menos margem de manobra na negociação nos direitos televisivos, menor potencial de angariação de novos adeptos.

3) Um país com o modelo económico que tem - na conjectura económica/social/política que tem - com as debilidades estruturais que tem. Nunca teremos o mesmo mercado de Espanha, França ou Inglaterra, também porque não sabemos, como país ex-colonizador, saber rentabilizar a nossa ligação histórica a países emergentes como Angola e Cabo Verde (falo nos que apresentam taxas incríveis de crescimento PIB por ano; de fora deixo o maior exemplo, o Brasil, porque não estou a ver que receptividade terão eles ao futebol português). Nunca seremos, por conseguinte, uma grande potência do futebol mundial como entidade auto-suficiente do ponto de vista económico como o Man Utd, o Real Madrid, o Barça ou Inter/AC Milan. Mas temos conseguido sempre competir com eles ao mesmo nível desportivo, apesar desta ameaça que é viver num país demasiado pequeno para a nossa competência.

4) A Liga Portuguesa de Futebol Profissional. Neste domínio não me vou alargar, porque entendo que uma análise swot se deve dedicar àquilo que, pelo menos parcialmente, está dentro do controlo da própria organização. Sabemos, no entanto, com o que podemos contar: critérios desiguais, hidden agendas, castigos a la carte. Contra isso, nada podemos fazer. Apenas continuar a lutar para sermos os melhores, sempre, “contra tudo e contra todos”. E a vencer desde 1893.

Nota final: Em nome do 'Reflexão Portista', o nosso agradecimento à Ana Martins pela elaboração desta análise distribuída por quatro artigos. Algumas das opiniões são polémicas, o que é natural, mas a Ana Martins teve a coragem de as expressar publicamente, num blogue que no último mês foi lido diariamente por uma média de cerca de 1400 pessoas, assinando os artigos com o seu nome.

terça-feira, 2 de março de 2010

Uma análise SWOT - Oportunidades

Por Ana Martins

Uma análise SWOT - Mais-valias
Uma análise SWOT - Fraquezas




3. Oportunidades

a) Modelo de Governação. Com a saída de Pinto da Costa, que nestes últimos anos deu sinais contraditórios no que concerne a estrutura que quer deixar, não é clara nem a visão, nem a estratégia, nem os objectivos operacionais. Nunca ouvi falar de objectivos específicos, com a excepção das metas tangíveis do Projecto 611. PC pode repetir quantas vezes quiser que o FCP não é uma monarquia, mas é sua responsabilidade não deixar que o clube sofra pela sua liderança de tantos anos, como é tão característico em organizações com esta configuração. É, então, nestes momentos de transição que se perspectivam novos modelos de governação, mais claros e cristalinos. Os sistemas fechados caminham inexoravelmente para a entropia. E se no caso dos clubes da bola nem sempre será assim, o equilíbrio entre a transparência e a opacidade é possível… e necessário.

b) Solução futura: uma das grandes mais-valias é termos um Presidente que tanto percebe de gestão de pessoas como de gestão de activos – no caso, futebolistas. A grande diferença, para além de um notável sentido de estratégia, é que o homem consegue ver se aquele jogador é mesmo bom ou não. Ou seja, no nosso caso, faz todo o sentido que o Presidente seja o mesmo para clube e SAD. Mas e no futuro? Um Presidente Institucional como Vítor Baía ou Rui Moreira e um Presidente da SAD operacional, tipo Antero Henrique? Mais do que pessoas, está em causa um modelo. E este tem de ser equacionado. E a composição accionista? Alguma vez estaremos disponíveis para um Sr. Murdoch ou Abramovich?

c) Na sequência do que foi dito a propósito das lacunas a nível comunicacional, as já anacronicamente denominadas novas tecnologias podem suprir, com facilidade, algumas das debilidades e ameaças a este nível. Uma rádio ou canal TV na Web são ferramentas de baixo custo e com uma excelente relação custo-benefício. É preciso, apenas, pôr uma estrutura a mexer, que só dependa do clube. Não é absolutamente necessário uma Porto TV na Meo (embora já se fale em negociações). Por outro lado, uma presença eficaz e sólida na Web permitiria estabelecer ligação com os portistas que estão noutros países.

d) Um mundo inteiro por explorar! Há um português em todos os cantos do mundo. Já foram feitas tentativas anteriormente: tournées a Macau e ao Oriente e aos Estados Unidos. É curto. É preciso tornar estas presenças mais constantes e sólidas. E não é preciso mandar jogadores a meio da época. Temos um excelente Director de Relações Externas e um passado glorioso.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Uma análise SWOT - Fraquezas

Por Ana Martins

Uma análise SWOT - Mais-valias

2. Fraquezas

a) Até ao meio dos anos 90, o discurso regionalista foi leit motif para cerrar os dentes perante a estrutura do país, foi ingrediente de sucesso. No entanto, a política seguida, com uma ou outra variação para uma maior globalidade depois da instituição da SAD, revela inconsistência estratégica para com a necessidade de implantação nacional e internacional. E as Casas do FC Porto por esse mundo fora ajudam, mas não chega. Há que desenvolver estratégias mais eficazes neste domínio. Pensar-se que ganhar títulos chega é, basicamente, amador. É preciso ser presença assídua nas escolas/colégios não só no Porto como fora do Norte/Porto.


b) Todos reconhecemos o legado que o Presidente Pinto de Costa nos deixou. Instituiu a cultura desportiva do clube, ao nível da excelência e do profissionalismo. Com a era da SAD, profissionalizou a estrutura da equipa com divisão clara de responsabilidades na pessoa, mais tarde, de Antero Henrique, criando, por outro lado, a figura do team manager (se Acácio Valentim é ou não competente nas suas funções já será outra história). A contratação de Rui Cerqueira cumpre a função estratégica de reconhecer que, comunicacionalmente, o clube tem sérias dificuldades em estabelecer pontos de equilíbrio entre a abertura e a clausura necessárias ao bom funcionamento. Balanço: Rui Cerqueira, com a excepção das flash interviews antes dos treinos (uma inovação), conseguiu muito pouco (junte-se-lhe, vá, o Labaredas). Resta saber se porque não tem poder que chegue para implementar mudanças. Chega, portanto, o momento de voltar a tentar contratar uma agência de comunicação e das grandes, o que nos leva ao ponto c).

c) Depois de décadas a ter a imagem do clube nebulosamente ameaçada por argumentação espúria (ele era o doping primeiro, depois eram os árbitros, o Calheiros e a Cosmos, o Guarda Abel, etc.), em 2004 chega o Apito Dourado. Cinco anos depois, ainda nos debatemos com as consequências da coisa. Não me vou debruçar sobre o caso em si mesmo, mas parece-me claro que existem consequências na imagem e credibilidade do clube quando é condenado na estância desportiva e absolvido na estância civil. Há que fazer alguém pagar por isto, assumindo as responsabilidades de terem utilizado meios de prova que o Direito não admite em processos desportivos. Tentámos contratar os serviços da Luís Paixão Martins, que terminou com ameaça de bomba. Está na altura de reformular a ligação com a comunicação e os media, não abdicando dos princípios de uma certa opacidade que tem sido proporcional aos êxitos do clube, transmitindo segurança à estrutura.

d) As ligações tendencialmente incompreensíveis com os intermediários para compra de passes de jogadores vindos da América do Sul. Não falo de empresários de jogadores, em que não há um que se destaque no plantel (colocando fim ao consulado de Jorge Mendes no FCP, com prejuízos e mais-valias). Falo dos comissionistas e, neste caso, continuo sem perceber a ligação com António Araújo. Por todas as razões, o bom senso diria que é imprudente continuar a fazer negócios com este cavalheiro. E nem o digo com base em discursos da fruta. Digo-o com base na falta de qualidade da maior parte dos jogadores que este empresário trouxe para o clube. A ligação deste à Administração é, para mim, uma clara debilidade até na execução da política desportiva.

e) A constituição do Conselho de Administração da SAD. Com a saída do Dr. Fernando Gomes, perde-se o nosso “Ministro das Finanças” que, como se sabe, deve ser o mau da fita. A sua saída – o facto e o modo como ocorreu – é talvez, sinal de algo cuja magnitude nem todos possamos, neste momento, perspectivar. Os próximos tempos trarão novidades. Até lá, Angelino Ferreira é uma escolha acertada e óbvia, restando saber se terá a capacidade de pressionar custos perante PC, Antero Henrique e Adelino Caldeira. Temo que não. Quanto a este último, a dívida de gratidão de PC para com ele (Gil Moreira dos Santos & Associados em que um dos sócios é… Adelino Caldeira foi a sociedade que representou PC nos Tribunais) e a sensação interna de que o FCP não foi excluído da Champions graças a ele, leva-o a assumir mais poder formal e informal. Em relação a isto, só posso dizer, neste espaço, que tenho pena que assim seja.


f) Plantel: fruto da política desportiva seguida, o plantel carece de identidade nacional. Peço desculpa de usar este tipo de vocabulário potencialmente nacionalista, mas acho natural que – na globalidade - um estrangeiro não viva o clube como um português. Na génese de grandes planteis do FCP, estava sempre uma maioria de titulares portugueses. E julgo que terá de ser esse o caminho. E não me custa admitir que, em caso de igual valia em termos de qualidade, deverá ser titular um português. Acho que o plantel do FCP, nos últimos anos, se tem transformado numa Torre de Babel cujos resultados não têm sido catastróficos do ponto de vista da coesão da equipa porque há uma boa estrutura à volta e há Alves & Meireles, Barros & Pinto. Dir-me-ão: o valor dos jogadores portugueses é, hoje em dia, claramente inflacionado. Um Sub-20 custa logo 2 ou 3 M€. E eu pergunto: e quanto custou Guarín? E quanto custou Tomás Costa? E Valeri? E Prediguer?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Uma análise SWOT - Mais-valias

Por Ana Martins (*)

Num momento em que nos aproximamos do final de um ciclo (lamento o pessimismo, mas não creio que sejamos penta este ano e Pinto da Costa abandonará o cargo mais ano menos ano), pergunto-me com frequência se não seria conveniente fazer uma análise profunda de um clube que se distingue dos outros por ser propositadamente opaco, tentando antecipar mais-valias, fraquezas, oportunidades e ameaças. Vulgo: análise SWOT.
Dada a extensão da mesma, segue a análise por diferentes posts por dimensão.

1. Mais-valias


a) De longe, o clube mais ganhador no Portugal do pós-25 de Abril. A este passo (por cada campeonato que ganham os rivais, nós ganhamos quatro), rapidamente não só apanharemos o SLB como o clube português com mais títulos antes e depois da queda do regime salazarista – o que já aconteceu – como seremos o clube com mais campeonatos ganhos. É o único clube português a ganhar títulos europeus nos últimos 30 anos: bicampeão europeu, vencedor Taça UEFA, Supertaça Europeia e bi-campeão Mundial. Por outro lado, estudos como os da Futebol Finance ou APEME indicam que o FCP cativa adeptos mais jovens (4-12 anos!) e com base no mérito. Apesar de não ser o clube com mais sócios, é o clube com maior percentagem de sócios pagantes: quase 100%, o que atesta bem da fidelidade do sócio portista. Este enquadramento remete-nos para um clube em franco crescimento, com grandes perspectivas de implementação nacional e internacional (nomeadamente no mercado angolano).

b) Política desportiva e económico-financeira. Uma estratégia de risco, avocada claramente pelo ex-CFO Fernando Gomes. Assumir o clube como interposto de mais-valia de jogadores é, no actual contexto económico, um posicionamento estratégico interessante, não alimentado sonhos pueris de viver acima das capacidades do mercado/país. Mas tem claros riscos: 1) a dependência de agentes FIFA e empresários que operem o mercado sul-americano, em particular o argentino e uruguaio; 2) bate tudo certo enquanto houver apuramento sistemático para a Champions League. Quando não houver (pode ser este ano o caso…) a venda de jogadores, e por preço mais baixo do que tem acontecido com as grandes vendas dos anos anteriores, é o único caminho possível. Acresce a esta política uma tanto-ou-quanto estranha elevada percentagem com custos de pessoal, que não é consonante com a política de ir buscar “desconhecidos” à América do Sul. Deixo isso à consideração dos entendidos em R&C.

c) Jesualdo Ferreira. O clio dos treinadores. Baixo custo no vencimento (comparando com Fernandez ou Adriaanse) e na manutenção. Como Fernando Santos, não protesta se pede um lateral direito e lhe dão um trinco. Teve o mérito de chegar em andamento na época 2006/2007 e construiu desde logo uma equipa para ser campeã. Foi-o. Não há muitos treinadores que o consigam. Fez de Lisandro, Lucho, Anderson, Pepe, Bosingwa, Fernando, Alves, Meireles e Bosingwa jogadores de plano mundial. Ao mesmo tempo conseguiu queimar Ibson, Vieirinha, Bolatti. Acho que vai pelo mesmo caminho com Nuno André Coelho. Incapaz de lançar um júnior na equipa - não haverá mesmo nenhum que se aproveite? Rígido no seu sistema táctico, demorou quatro anos a introduzir uma nuance quando jogava com equipas em 4.4.2., puxando Rodriguez para interior esquerdo quando perdia a bola. Ainda assim, praticamente não há hábito de tentativa de introduzir mudanças de modelo/dinâmica. A incapacidade sistemática de jogar em superioridade numérica é gritante. Roda jogadores em competições menores juntando-os todos num 11. Mourinho, ao menos, fazia uma média de 4 titulares + 7 suplentes e mantinha sempre uma âncora em todos os sectores. Mas lá está, quem sabe, sabe… Há outro mérito que tem de lhe ser dado: quando ninguém podia falar por causa do Apito Dourado, foi ele a dar o corpo às balas… e sozinho. Daí o presente de dois anos de renovação, em vez de um, como seria expectável. Nesta fase, parece-me crível que não continue no final desta época. Espera-se, portanto, por outplacement para uma selecção do Leste da Europa, de modo a não termos de pagar por mais uma meninice de Pinto da Costa (para mostrar agradecimento, bastava renovar por mais um ano).

(*) A Ana Martins começou a ir às Antas, aos 5 anos de idade, pelas mãos do pai que, meio incrédulo, duvidava se ela conseguiria estar quieta durante um jogo inteiro. Nos intervalos dos jogos, respirava o ar daquela cultura, no tempo em que nem sequer havia WC para senhoras. Tarde de mais: a causa das coisas já lhe estava inscrita. Mais tarde, passou a ir com amigos para o Tribunal das Antas, onde volta e meia engolia e não respondia a comentários infelizes. Mais tarde prossegue a "evangelização" levando os seus primos mais pequenos para a causa portista. A ver vencer desde... 1976.

Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece à Ana Martins a elaboração deste artigo, o primeiro de uma série de quatro onde é feita uma interessantíssima análise SWOT.