Não é muito habitual em Portugal que se conheça a paixão clubistica de um jogador quando este se transforma em ídolo do seu maior rival. Mas com o Benfica o historial de jogadores que nasceram e cresceram portistas e acabaram por brilhar ao serviço dos encarnados não é curta. Os exemplos mais recentes de Nuno Ribeiro (Gomes, apenas pela sua devoção ao "Bibota" a quem queria suceder de azul ao peito) e João Vieira, Pinto, que chorava baba e ranho quando o FC Porto perdia em miúdo e acabou rejeitado nas captações do clube, ou até mesmo de Artur Jorge, que das categorias inferiores do FC Porto passou a Coimbra e daí a Lisboa, escondem uma história similar mas com mais de 70 anos.
Em 1949, o mundo do futebol acordou estupefacto. O acidente de Superga, em Itália, tinha acabado com a vida da mais formidável equipa do pós-guerra, o Il Gran Torino. Era a equipa de Loik e de Mazolla, os pentacampeões de Itália, herdeiros superlativos da escola centro-europeia. Um mês depois deveriam viajar à Peninsula Ibérica para decidir o destino da primeira edição da Taça Latina, criada em parte para medir o seu valor nos palcos europeus. Nunca veio a equipa de gala, perdida nessa tarde de nevoeiro. O voo vinha de Lisboa, precisamente. De um jogo de homenagem que passaria para a história como um jogo negro. O jogo de despedida do capitão do Benfica, Francisco Ferreira.
O curioso é que o herói encarnado, capitão da equipa durante largos anos, era portistas dos pés à cabeça.
Tinha nascido em Guimarães, em Agosto de 1919, mas desde cedo tinha vindo viver para o Porto. O seu pai era o porteiro do campo da Constituição e desde pequenino que "Chico" se tornara um fanático adepto do clube. Começou desde baixo, a limpar as chuteiras dos jogadores da primeira equipa no intervalo dos treinos das equipas juvenis e com 17 anos cumpriu o sonho de estrear-se com a camisola azul e branca. Era uma das grandes promessas do clube e foi um dos mais lutadores no célebre Porto vs Benfica que acabou com o sonho do título em 1938 no estádio do Lima. Sofreu o insofrível às mãos da defesa benfiquista e assistiu Pinga para o segundo golo. No final da temporada, recebeu uma oferta inesperada do Benfica. Ofereciam-lhe 1000 escudos de ordenado e uma ficha de 15 mil escudos.
O jogador, pobre mas honrado, respondeu que preferia ficar no Porto e que falaria com o clube para saber se tinham previsto melhorar o seu salário. Titular indiscutível, Ferreira ganhava a metade de muitos dos seus colegas de equipa como Reboredo, Pinga, Poças, Vianinha e Carlos Nunes. Pediu 700 escudos - menos trezentos do que oferecia o Benfica e mais duzentos do que ganhava - e uma ficha de 10 mil escudos. E um emprego numa das empresas dos directivos do clube. A direcção bateu-lhe com a porta na cara. Uma semana depois apareceu o Benfica com 13 mil escudos nas mãos para conseguir a carta de liberdade. A directiva do FC Porto acedeu de bom grado e um dos seus melhores jogadores lá fez as malas e tornou-se na figura nuclear da equipa encarnada durante a década de 40.
Curiosamente, um mês depois de vender Francisco Ferreira, o FC Porto abordou o espanhol Quincoces, que acabaria por assinar pelo Real Madrid, oferecendo-lhe 1500 escudos de salário e um prémio de 15 mil escudos para substituir...Francisco Ferreira. O espanhol recusou a oferta (ganharia o dobro ao serviço dos merengues a partir da época seguinte) mas ficou claro que para a directiva de então o dinheiro não era o problema. O problema era onde o gastar. Quanto ao jogador, voltou ao Porto depois de acabar a carreira. Quando soube do desastre de Superga - ele que tinha sido convidado para seguir com a equipa no avião - enviou todo o prémio do jogo de despedida para as famílias das vitimas. Um coração à Porto que a directiva do clube preferiu esquecer e impedir uma carreira de sucesso de dragão ao peito.
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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
O Génio faz hoje 100 anos
Julgam que o Cristiano Ronaldo é o único génio do futebol oriundo da Ilha da Madeira? Estão enganados. Muito antes dele, no início do Século XX, a 30 de Setembro de 1909 nasceu naquela ilha o jovem Artur de Sousa mais conhecido por "Pinga" (uma alcunha que herdou do seu pai).
“Talvez o maior talento de jogador do nosso futebol, um jogador fulgurantíssimo, verdadeiramente genial”, escreveu Cândido de Oliveira no jornal “A Bola”, em Abril de 1945.
Artur de Sousa "Pinga", craque do F. C. Porto nos anos 1930 e 1940, foi o maior de todos. Mas, por mais que se busque no Youtube, não há maneira de se encontrar um videozinho que seja para comprovar a convicção dos adeptos mais velhos, que o viram jogar na Constituição ou no Ameal e que se deliciaram com o maior talento dos primórdios do futebol português, perdido nos efémeros tempos da Rádio. Mas a injustiça do que será a extemporaneidade de um futebolista genial só enriquece ainda mais o imaginário e o enredo épico de Pinga. Se fosse vivo, um dos maiores símbolos da antologia portista celebraria, hoje, o centésimo aniversário.
“Pinga” foi, pelo FC Porto, duas vezes campeão nacional, três campeão da Liga e por uma vez campeão de Portugal. Por vinte e cinco vezes representou a Associação de Futebol do Porto, por outras tantas representara a Associação de Futebol da Madeira, e por três vezes foi campeão do Funchal pelo Marítimo.
A 7 de Julho de 1946 despediu-se, como jogador, dos campos de futebol. O Estádio do Lima encheu-se para presenciar um festival que contou com um desfile em que tomaram parte mais de 500 atletas de dezenas de colectividades, com um jogo em que o FC Porto venceu um “Misto Nacional” (de cuja composição não encontramos registo) por 5-4 e teve como ponto alto o momento em que o Governador Civil do Porto condecorou “Pinga” com a Medalha de Ouro da Federação Portuguesa de Futebol.
Quando, depois de ter treinado a Sanjoanense, o Tirsense e o Gouveia, trabalhava nos infantis do FC Porto e iria passar a coadjuvar mestre Artur Baeta na equipa júnior, a morte levou-o.
Eram 13 horas e 40 minutos do dia 12 de Julho de 1963. Internado três dias antes, sucumbiu às malfeitas que, já há anos, o atormentavam – cirrose e úlcera gástrica. Era o desaparecimento de uma gloria do futebol nacional, da “1ª legenda do futebol portista” (como pode ler-se nos “100 anos de História” de Álvaro Magalhães e Manuel Dias), daquele “interior-esquerdo-patrão-da-equipa” que constituiu, com Valdemar Mota e Acacio Mesquita, o famoso trio atacante azul e branco popularizado ad eternum como “OS TRÊS DIABOS DO MEIO DIA”.
A 7 de Julho de 1946 despediu-se, como jogador, dos campos de futebol. O Estádio do Lima encheu-se para presenciar um festival que contou com um desfile em que tomaram parte mais de 500 atletas de dezenas de colectividades, com um jogo em que o FC Porto venceu um “Misto Nacional” (de cuja composição não encontramos registo) por 5-4 e teve como ponto alto o momento em que o Governador Civil do Porto condecorou “Pinga” com a Medalha de Ouro da Federação Portuguesa de Futebol.
Quando, depois de ter treinado a Sanjoanense, o Tirsense e o Gouveia, trabalhava nos infantis do FC Porto e iria passar a coadjuvar mestre Artur Baeta na equipa júnior, a morte levou-o.
Eram 13 horas e 40 minutos do dia 12 de Julho de 1963. Internado três dias antes, sucumbiu às malfeitas que, já há anos, o atormentavam – cirrose e úlcera gástrica. Era o desaparecimento de uma gloria do futebol nacional, da “1ª legenda do futebol portista” (como pode ler-se nos “100 anos de História” de Álvaro Magalhães e Manuel Dias), daquele “interior-esquerdo-patrão-da-equipa” que constituiu, com Valdemar Mota e Acacio Mesquita, o famoso trio atacante azul e branco popularizado ad eternum como “OS TRÊS DIABOS DO MEIO DIA”.
Luis César in fcporto.pt
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