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sábado, 2 de maio de 2015

UMA GRANDE ESTREIA E UMA GRANDE TIRADA



30 de Junho de 1968, Lourenço Marques (actual Maputo). Portugal defronta o Brasil num jogo amigável e sai derrotado por 2-0.

Este jogo tem especial importância para nós, portistas, pois tratou-se do jogo de estreia de Fernando Pascoal Neves (Pavão, na foto) na Selecção Nacional. O flaviense seria substituído aos 55' pelo nosso antigo jogador e futuro treinador Artur jorge, à altura jogador da Académica ("substituí o melhor em campo", diria Artur Jorge).

Mas a melhor peripécia veio perto do final do jogo. Faltavam dois minutos, e o seleccionador nacional, José Maria Antunes, mandou entrar o nosso jogador Rolando. Este, visivelmente agastado, virou-se para ele e disse: "Entre você!"

Pavão e Rolando foram durante alguns anos os solitários representantes do F.C. Porto na Selecção - e nem sempre. Neste jogo, também o guarda-redes Américo alinhou.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Mortes nos relvados

A propósito do falecimento do jovem futebolista do Tourizense Alex Marques (o qual jogou nas camadas jovens do FC Porto até 2010), o jornalista António Magalhães, do Record, recordou no seu blogue um dos dias mais tristes da história do FC Porto: «Foi a 16 de dezembro de 1973, em pleno estádio das Antas, ao minuto 13 do FC Porto-Vitória de Setúbal. Pavão tinha 26 anos».

Record, 18-11-2013

Apesar desta trágica lista ser cada vez mais extensa, ainda me custa a perceber como é que situações destas ocorrem, de um momento para o outro, com atletas profissionais ou semiprofissionais que, ao longo da respetiva atividade desportiva, são sujeitos a N exames médico-desportivos.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Relembrando: "O dia em que o Pavão morreu"


A triste ocorrência em torno de Fabrice Muemba, que à hora em que escrevo ainda luta pela vida num hospital londrino - e o facto de ainda estar vivo muito deverá à eficácia e profissionalismo daqueles que no campo o socorreram - trouxe-me de novo à memória o mais triste dia da minha vida futebolística: o dia em que o Pavão morreu. Permito-me repetir, a este propósito, um artigo que em tempos aqui escrevi acerca desse funesto dia. Quando vi a consternação geral em White Hart Lane no sábado, percebi muito bem o que ia nas almas daquela multidão amante do futebol mas, acima de tudo, da vida.


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O dia 16 de Dezembro de 1973 amanheceu cinzento e chuvoso. Nada de especial para a nossa urbe, ainda para mais em Dezembro. Não me lembro se estava frio, mas também ainda sobre nós não caíra a obsessão do “aquecimento global”. Aliás, se bem me lembro, os “entendidos” diziam na altura que a temperatura do planeta estava a baixar, deixando-nos antever uma era glacial em que jogaríamos em Lisboa no nosso ambiente, isto é, com frio. Mas o cariz meteorológico daquele dia condiz, tristemente, com o descrito num artigo que há anos li – creio que do Carlos Pinhão – sobre “O Dia em Que o Pinga Morreu”. Um artigo sentido, diga-se, e que muito faz distanciar o pai da filha. Mas esses são outros contos.

Naquele dia 16 de Dezembro o FC Porto recebia nas Antas o Vitória de Setúbal. A equipa portista vinha disputando o campeonato com mais pujança que nas anteriores três ou quatro épocas, no seu melhor desempenho desde a saída de José Maria Pedroto em 1969. O presidente, Dr. Américo Sá, “descobrira Béla Guttmann numa esquina de Viena”, para usar uma expressão anos mais tarde utilizada por Jorge Nuno Pinto da Costa.


Aos 73 anos “o Mago” regressara à casa que deixara em 1959 alegando que o clima portuense era maléfico para o seu reumatismo, rumando ao Benfica. Não esclareceu, neste seu regresso, se se tratara do reumatismo nas termas de Baden-Baden ou se o clima portuense se tornara, a seu ver, mais seco. Mas de facto voltara. E, como velha raposa que era, montara uma equipa segura a defender – com Rolando jogando atrás dos outros três defesas e em forma soberba, e com o guarda-redes Tibi na sua melhor condição de sempre.

No meio-campo um trio criativo, Pavão e os brasileiros Bené e Marco Aurélio, e na frente dois extremos e um ponta-de-lança: o genial Oliveira que, com 21 anos e de sangue na guelra, ia pintando a manta ao longo da linha no seu interminável reportório de dribles, fintas e chicuelinas, o veterano Nóbrega “com os seus eternos defeitos e qualidades”, no dizer do grande jornalista Vítor Santos, e o possante avançado-centro moçambicano Abel, contratado ao Benfica três anos antes. E contava ainda, no “banco”, com o internacional brasileiro Flávio, um magnífico ponta-de-lança cujos melhores tempos no nosso clube já haviam, contudo, passado.

Do outro lado estava o nosso velho conhecido José Maria Pedroto e aquela que era, provavelmente, à época, a melhor equipa do futebol português, entendendo-se aqui por equipa não apenas o somatório das qualidades individuais dos seus jogadores. De facto – e sem surpresa - o “Zé do Boné” fizera de uma boa equipa uma grande equipa, e nesta sua 5ª (!) época à frente do conjunto sadino disputava o título sem pedir licença a ninguém. No mês seguinte o Vitória venceria na Luz por 3-2 e isolar-se-ia no primeiro lugar, acabando Pedroto, pouco depois, por “bater com a porta” e demitir-se, em situação controversa.

Começou o FC Porto muito bem o jogo, sempre disputado debaixo de chuva, e aos sete minutos adiantou-se no marcador com um golo do frio Marco Aurélio. Mas poucos minutos depois, aos 13 minutos mais precisamente, chegaria a tragédia, se bem que só nos viéssemos a aperceber da sua verdadeira dimensão no final do jogo. No meio do terreno e à entrada do campo adversário Pavão passou à direita a Oliveira – uma simbólica passagem de testemunho – e caiu subitamente de bruços sem ninguém lhe ter tocado. Alguns jogadores próximos do lance levaram as mãos à cabeça, os bombeiros entraram em campo e transportaram o infeliz para fora dele e pouco depois pôde ver-se, através da “maratona” (ainda não existia a arquibancada) uma ambulância levando-o ao Hospital de São João. Mas o jogo prosseguiu e o locutor de serviço até nos informou daí a pouco que “o nosso jogador Pavão foi transportado ao Hospital e encontra-se melhor”.

Mais tarde o médico do clube, Dr. José Santana diria: «Reparei que caíra de bruços. Era homem que não fazia fitas. Portanto, tive logo a percepção de que era grave. Entrei no relvado e reparei que estava em estado de coma. Levei-o de imediato ao Hospital de São João. Tentou-se tudo. Fizeram-lhe electrochoques, mas era uma hemorragia cerebral. Hora e meia depois, tinha falecido. Poderia ter sido ruptura de um vaso sanguíneo, talvez em virtude de uma cabeçada na bola.»

Abel faria o 2-0 ainda na primeira parte e o FC Porto controlou bem o jogo no segundo tempo, pese embora uma excelente e determinada reacção dos vitorianos. Foi dos melhores jogos do FC Porto contra o V. Setúbal de Pedroto, que tantos amargos de boca nos causou…

E o jogo terminou. Subitamente um tenebroso silêncio abateu-se sobre o Estádio das Antas. Ninguém arredava pé. Da instalação sonora, nem pio. Mas já toda a gente percebera o que tinha acontecido. No relvado os jogadores choravam abraçados uns aos outros. José Maria Pedroto abraçava o seu antigo mestre Béla Guttmann, para depois ele próprio e alguns jogadores do Vitória de Setúbal, entre os quais o nosso futuro jogador e treinador Octávio, tentarem consolar os jogadores do FC Porto.

O próprio Pedroto seria vítima da comoção do momento, abandonando o campo amparado por alguns dos seus pupilos. Afinal fora ele que moldara aquele grande jogador que ali morrera com apenas 26 anos e que à época era, nada mais, nada menos, que o próprio símbolo do clube e seu capitão de equipa.

Encostei o ouvido ao transistor do vizinho e pude ouvir a voz do inesquecível Nuno Braz: “Morreu na flor da idade aquele que era um dos maiores jogadores portugueses”. Toda a gente estava petrificada, horrorizada com o sucedido. Atrás de mim uma senhora começou a rezar um Pai Nosso em voz alta, e largas dezenas de espectadores a acompanharam, no meio de lágrimas e soluços. O Pavão era o nosso maior ídolo da altura. O Porto não era campeão há 15 anos e sentíamo-nos perseguidos pelo infortúnio. Aquela morte chocante mais contribuiu para esse sentimento colectivo de fatalismo. Foi um dia negro. O mais triste dia futebolístico da minha vida.

Fernando Pascoal Neves, tenho a certeza que, de onde estás, te alegras com os nossos êxitos e nos desejas muitos mais! Paz à tua alma, grande “Pavão”!

Imagens:
ao alto: a capa de A Bola no dia seguinte ao infausto acontecimento;
ao meio: José Maria Pedroto, Pavão e Custódio Pinto, aquando da primeira passagem de Pedroto pelo F.C. Porto (1966/67 a 1968/1969)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Honra ao Chaves!



Chaves, terra natal do grande Pavão, e o seu Desportivo, clube onde aquele nosso malogrado jogador deu os primeiros pontapés na bola, festejam a qualificação para a Final da Taça de Portugal, uma assinalável proeza. Parabéns, Chaves!


segunda-feira, 5 de maio de 2008

O Dia em que o Pavão Morreu...

O dia 16 de Dezembro de 1973 amanheceu cinzento e chuvoso. Nada de especial para a nossa urbe, ainda para mais em Dezembro. Não me lembro se estava frio, mas também ainda sobre nós não caíra a obsessão do “aquecimento global”. Aliás, se bem me lembro, os “entendidos” diziam na altura que a temperatura do planeta estava a baixar, deixando-nos antever uma era glacial em que jogaríamos em Lisboa no nosso ambiente, isto é, com frio. Mas o cariz meteorológico daquele dia condiz, tristemente, com o descrito num artigo que há anos li – creio que do Carlos Pinhão – sobre “O Dia em Que o Pinga Morreu”. Um artigo sentido, diga-se, e que muito faz distanciar o pai da filha. Mas esses são outros contos.

Naquele dia 16 de Dezembro o FC Porto recebia nas Antas o Vitória de Setúbal. A equipa portista vinha disputando o campeonato com mais pujança que nas anteriores três ou quatro épocas, no seu melhor desempenho desde a saída de José Maria Pedroto em 1969. O presidente, Dr. Américo Sá, “descobrira Béla Guttmann numa esquina de Viena”, para usar uma expressão anos mais tarde utilizada por Jorge Nuno Pinto da Costa.
Aos 73 anos “o Mago” regressara à casa que deixara em 1959 alegando que o clima portuense era maléfico para o seu reumatismo, rumando ao Benfica. Não esclareceu, neste seu regresso, se se tratara do reumatismo nas termas de Baden-Baden ou se o clima portuense se tornara, a seu ver, mais seco. Mas de facto voltara. E, como velha raposa que era, montara uma equipa segura a defender – com Rolando jogando atrás dos outros três defesas e em forma soberba, e com o guarda-redes Tibi na sua melhor condição de sempre.

No meio-campo um trio criativo, Pavão e os brasileiros Bené e Marco Aurélio, e na frente dois extremos e um ponta-de-lança: o genial Oliveira que, com 21 anos e de sangue na guelra, ia pintando a manta ao longo da linha no seu interminável reportório de dribles, fintas e chicuelinas, o veterano Nóbrega “com os seus eternos defeitos e qualidades”, no dizer do grande jornalista Vítor Santos, e o possante avançado-centro moçambicano Abel, contratado ao Benfica três anos antes. E contava ainda, no “banco”, com o internacional brasileiro Flávio, um magnífico ponta-de-lança cujos melhores tempos no nosso clube já haviam, contudo, passado.

Do outro lado estava o nosso velho conhecido José Maria Pedroto e aquela que era, provavelmente, à época, a melhor equipa do futebol português, entendendo-se aqui por equipa não apenas o somatório das qualidades individuais dos seus jogadores. De facto – e sem surpresa - o “Zé do Boné” fizera de uma boa equipa uma grande equipa, e nesta sua 5ª (!) época à frente do conjunto sadino disputava o título sem pedir licença a ninguém. No mês seguinte o Vitória venceria na Luz por 3-2 e isolar-se-ia no primeiro lugar, acabando Pedroto, pouco depois, por “bater com a porta” e demitir-se, em situação controversa.

Começou o FC Porto muito bem o jogo, sempre disputado debaixo de chuva, e aos sete minutos adiantou-se no marcador com um golo do frio Marco Aurélio. Mas poucos minutos depois, aos 13 minutos mais precisamente, chegaria a tragédia, se bem que só nos viéssemos a aperceber da sua verdadeira dimensão no final do jogo. No meio do terreno e à entrada do campo adversário Pavão passou à direita a Oliveira – uma simbólica passagem de testemunho – e caiu subitamente de bruços sem ninguém lhe ter tocado. Alguns jogadores próximos do lance levaram as mãos à cabeça, os bombeiros entraram em campo e transportaram o infeliz para fora dele e pouco depois pôde ver-se, através da “maratona” (ainda não existia a arquibancada) uma ambulância levando-o ao Hospital de São João. Mas o jogo prosseguiu e o locutor de serviço até nos informou daí a pouco que “o nosso jogador Pavão foi transportado ao Hospital e encontra-se melhor”.

Mais tarde o médico do clube, Dr. José Santana diria: «Reparei que caíra de bruços. Era homem que não fazia fitas. Portanto, tive logo a percepção de que era grave. Entrei no relvado e reparei que estava em estado de coma. Levei-o de imediato ao Hospital de São João. Tentou-se tudo. Fizeram-lhe electrochoques, mas era uma hemorragia cerebral. Hora e meia depois, tinha falecido. Poderia ter sido ruptura de um vaso sanguíneo, talvez em virtude de uma cabeçada na bola.»

Abel faria o 2-0 ainda na primeira parte e o FC Porto controlou bem o jogo no segundo tempo, pese embora uma excelente e determinada reacção dos vitorianos. Foi dos melhores jogos do FC Porto contra o V. Setúbal de Pedroto, que tantos amargos de boca nos causou…

E o jogo terminou. Subitamente um tenebroso silêncio abateu-se sobre o Estádio das Antas. Ninguém arredava pé. Da instalação sonora, nem pio. Mas já toda a gente percebera o que tinha acontecido. No relvado os jogadores choravam abraçados uns aos outros. José Maria Pedroto abraçava o seu antigo mestre Béla Guttmann, para depois ele próprio e alguns jogadores do Vitória de Setúbal, entre os quais o nosso futuro jogador e treinador Octávio, tentarem consolar os jogadores do FC Porto.


O próprio Pedroto seria vítima da comoção do momento, abandonando o campo amparado por alguns dos seus pupilos. Afinal fora ele que moldara aquele grande jogador que ali morrera com apenas 26 anos e que à época era, nada mais, nada menos, que o próprio símbolo do clube e seu capitão de equipa.

Encostei o ouvido ao transístor do vizinho e pude ouvir a voz do inesquecível Nuno Braz: “Morreu na flor da idade aquele que era um dos maiores jogadores portugueses”. Toda a gente estava petrificada, horrorizada com o sucedido. Atrás de mim uma senhora começou a rezar um Pai Nosso em voz alta, e largas dezenas de espectadores a acompanharam, no meio de lágrimas e soluços. O Pavão era o nosso maior ídolo da altura. O Porto não era campeão há 15 anos e sentíamo-nos perseguidos pelo infortúnio. Aquela morte chocante mais contribuiu para esse sentimento colectivo de fatalismo. Foi um dia negro. O mais triste dia futebolístico da minha vida.

Fernando Pascoal Neves, tenho a certeza que, de onde estás, te alegras com os nossos êxitos e nos desejas muitos mais! Paz à tua alma, grande “Pavão”!