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sábado, 22 de agosto de 2015

A colheita de 1991



«Mesmo tendo saído do FC Porto há duas temporadas, o argentino Nicolás Otamendi continua a render dinheiro aos dragões. Com a transferência confirmada esta quinta-feira, a equipa da Invicta encaixará 225 mil euros ao abrigo do mecanismo de solidariedade da FIFA, correspondentes a 0,5% do valor total da transação entre Valencia e Manchester City, feita por 45 milhões de euros. Estes 0,5 % referem-se à derradeira época de formação do defesa argentino, quando este cumpriu 23 anos.»
in record.pt, 20-08-2015


O que é isto do mecanismo de solidariedade?

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MECANISMO DE SOLIDARIEDADE

Artigo 1º - Contribuição de Solidariedade
Se um Profissional mudar de clube no decurso de um contrato, 5% do valor de qualquer compensação, à excepção da Compensação por Formação, paga ao Clube Anterior será deduzida ao valor total da compensação e distribuída pelo Novo Clube, como contribuição de solidariedade, aos clubes envolvidos na formação e educação do jogador ao longo dos anos. Esta contribuição de solidariedade será distribuída de acordo com o número de anos (calculado numa base percentual se for menos de um ano) que o jogador esteve inscrito em cada clube entre as Épocas do seu 12º e 23º aniversário, do seguinte modo:
- Época do 12º aniversário, 0,25% da compensação total
- Época do 13º aniversário, 0,25% da compensação total
- Época do 14º aniversário, 0,25% da compensação total
- Época do 15º aniversário, 0,25% da compensação total
- Época do 16º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 17º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 18º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 19º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 20º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 21º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 22º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 23º aniversário, 0,5% da compensação total

Artigo 2º - Procedimento de Pagamento
1. O Novo Clube deve pagar a contribuição de solidariedade ao(s) clube(s) formador(es), em conformidade com as disposições acima estabelecidas, o mais tardar no prazo de 30 dias após a inscrição do jogador ou, em caso de pagamentos parcelares, 30 dias após a data de tais pagamentos.

Fonte: FPF

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Há um ano atrás, a comunicação social referiu que o FC Porto também lucrou com a transferência milionária de James Rodrigues para Madrid.
E porquê?
James esteve três épocas no Porto, entre os 19 e os 21 anos, o que significa que o FC Porto teve direito a 1,5 por cento do valor pago pelo Real Madrid ao AS Monaco (cerca de 1,1 milhões de euros).

No futuro, para além de James, há mais três jogadores que, tendo passado pelo FC Porto e rendido aos cofres da SAD largas dezenas de milhões de euros, ainda poderão proporcionar mais uns “trocados”: são eles Mangala, Danilo e Alex Sandro.

Estes quatro jogadores têm em comum terem nascido em 1991, chegado ao Porto com 19/20 anos e saído após completarem o ciclo normal de 3 ou 4 anos. Ou seja, em termos do mecanismo de solidariedade, qualquer um destes quatro jogadores proporcionará à FC Porto SAD 1,5% de uma eventual transferência futura.

Ora, atendendo ao seu (indiscutível) valor e idade atual (24 anos), eu diria que a probabilidade de novas transferências, envolvendo estes quatro jogadores, é bastante elevada.

Onze inicial do FC Porto na deslocação a Braga (época 2012/2013)

Rica colheita, esta de 1991.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Suspensão FIFA, um novo jogo a que temos de estar atentos


Muitos não deram crédito quando saíram as primeiras noticias de que o Barcelona ia ser castigado com um ano e meio sem poder contratar jogadores por parte da FIFA. Era o Barça, afinal de tudo, essa equipa que, segundo Mourinho, tinha trato preferencial graças ás suas ligações com a Unicef e o Qatar nos corredores do poder. O todo poderoso Barcelona - que nesse Verão tinha contratado a vários futebolistas, incluindo o genial Luis Suarez, via-se agora vetado a ano e meio sem actividade no mercado por culpa da contratação ilegal de vários adolescentes dos quatro cantos do Mundo para a sua cantera. Ninguém podia acreditar, todos pensavam que era uma jogada mediática, dessas em que o clube é castigado e logo perdoado, mas ai temos os blaugrana vetados oficialmente até ao dia 1 de Janeiro de 2016. Parecia caso único mas não era.

A imprensa radiofónica espanhola começou ontem a notificar nos programas desportivos nocturnos que a mesma sanção iria ser aplicada tanto ao Real como ao Atlético de Madrid. Uma vez mais a forma como os clubes assinavam com menores, falseavam documentação, procuravam o acordo dos pais (a FIFA exige que a família viva com o jogador no seu novo local de treino, por exemplo) quando na realidade tudo não passava de uma ficção para "inglês ver" é o motivo oficial por detrás desta sanção. Os mais dados ás teorias da conspiração falam no interesse do Real Madrid em prejudicar o Barcelona e a pressão do Barcelona, à posteriori, para devolver a moeda. Há também quem diga que atrás desta medida estão os poderosos qataris, interessados em congelar o absorvente mercado espanhol, para evitar o fluxo de estrelas para "La Liga" e com isso manter campeonatos como o francês com algumas das estrelas. Tudo rumores, tudo suspeitas, tudo teorias. É certo que a FIFA e a UEFA vivem uma guerra surda pelo poder, mas isso sempre passou. Ferir de morte a dois grandes clubes da UEFA é ferir Platini e o seu projecto ambicioso de derrocar Blatter mas, ironicamente, o mais prejudicado neste jogo é o melhor aliado de Blatter na UEFA, o espanhol Angel Maria Villar (que alguns vêm como seu sucessor putativo num eventual duelo com "Platoche". Guerras de tronos que em principio diriam pouco a um clube como o FC Porto mas que podem dizer muito.

Em primeiro lugar, se a suspensão for confirmada, é certo que Oliver Torres não vai voltar ao clube na próxima época. 
Sem poder assinar com novos jogadores o plantel do Atlético de Madrid vai necessitar forçosamente de ter todos os seus activos de valor consigo e Oliver é um deles. Sofreria, jogaria menos do que merecia mas nenhum gestor com cabeça o deixaria sair se não houvesse alternativa. O problema não estaria apenas em Oliver. Caso o FCP insistisse em continuar a procurar novos empréstimos no futebol espanhol, uma sanção deste estilo levaria o clube a encontrar-se com um problema de disponibilidade já que nem Barcelona nem Real Madrid - e muito menos o Atlético - teriam jogadores livres para dispensar. O Real já mostrou intenção de recuperar Casemiro e pensava seriamente na opção de emprestar ao FC Porto Lucas Silva ou Odegaard para o próximo ano para repetir a operação de rentabilização (nem Keylor Navas nem Illarramendi estão neste pack) mas com esta sanção é altamente improvável que o faça. O mesmo sucede com o Barcelona, clube a quem o FC Porto cobiça o empréstimo de dois futebolistas, Gerard Deulofeu e Sergi Robert, em moldes parecidos ao negócio Tello. São casos que estão oficialmente em standby até porque o Barcelona continua oficialmente a recorrer da sua sanção para desbloquear a situação.

Outro ponto importante é o caso Danilo.
Danilo está oficialmente vendido ao Real Madrid. Mas se a suspensão do Real Madrid se oficializar antes do dia 1 de Julho - como é provável - e não houver recurso que lhes valha, Danilo não pode ser inscrito. A suspensão não proíbe os clubes de contratar o deter passes de novos jogadores o que impede é a sua utilização através da inscrição na liga. Portanto o Real teria pago mais de 35 milhões de euros por um jogador que não poderia, a todos os efeitos, utilizar durante um ano completo. 
Esse cenário é complexo. 
Como não conhecemos os detalhes do negócio não sabemos se o Real guardou alguma clausula em que podia cancelar o negócio caso este cenário se desse. Afinal todos sabiam já desde 2014 que o Real estava no ponto de mira da FIFA por queixas formais do Barcelona e isso apressou também a contratação de Asensi, extremo do Mallorca muito prometedor, e de Odegaard, inscritos oficialmente em Dezembro e portanto já parte do clube tal como Lucas Silva que chegou á pressa e tem sido escassamente utilizado o que diz muito do interesse real do Ancelotti em tê-lo já ás suas ordens. Também Javier Hernandez foi emprestado e esse empréstimo pode ser prolongado um ano mais já que, ao estar inscrito, está ao abrigo da suspensão. Mas Danilo não.
Danilo foi contratado - paga a primeira tranche - mas oficialmente é ainda um jogador inscrito pelo FC Porto e se o Real não o conseguir inscrever, é um activo seu mas na prateleira. 
Uma vez mais reforçamos, não sabemos se há alguma clausula no negócio de Danilo que permita ao Real cancelar tudo ou se, pelo contrário, se abriu uma hipótese de Danilo ficar um ano emprestado, até caducar a suspensão, e depois ser oficialmente inscrito pelo Real Madrid. O curioso é que o próprio Danilo descartou o Barcelona - onde joga um dos seus melhores amigos, Neymar - porque não queria esperar até Janeiro de 2016 (e porque o Barcelona exigia ao FCP não inscrever o jogador na Champions League para poder utiliza-lo na segunda fase). Seria irónico que, depois disso, lhe passe o mesmo.  

No final tudo pode ficar em águas de bacalhau.


Dia 29 de Maio há uma eleição para a presidência da FIFA. Sepp Blatter vai ganhar, todos o dão já por assumido por muito que Luís Figo sonhe com um cargo numa candidatura suportada pelos Fundos de Investimento e os poderes mediáticos atrás da máquina Mendes que querem um futebol com menos regulação e mais dinheiro para todos. Uma vitória de Blatter é, habitualmente, seguida de uma amnistia geral e esse perdão pode desbloquear a situação. De certo modo é um teste á fidelidade de Villar e dos grandes clubes europeus, uma prova da FIFA de que são eles quem manda de verdade e não a UEFA e que quando seja preciso apertar, eles não vão hesitar um só segundo. Pode ser. Ou pode também isto significar novas regras no jogo, um cuidado extremo numa realidade que nos afecta. Não só porque, cada vez mais, clubes como o FCP têm de procurar na sua formação (e na contratação de talentos para a formação) o seu sustento como a punição de clubes com grande poder de inversão pode bloquear o mercado e com esse movimento colocar em risco muitos orçamentos de contas para clubes que, como nós, vivem no limite. Até ao Verão ainda falta muito tempo para dar algo por garantido mas o FCP deve tomar nota de tudo o que se passe porque cada detalhe é fundamental para perceber para que mundo o futebol caminha. 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O problema do Ballon D´Or

Avizinha-se a entrega de mais uma edição do prémio individual mais célebre do universo futebolístico: o Ballon D´Or.

É um prémio que, como todos os prémios, vive do seu glamour e peca por ser injusto, na medida em que a opinião individual de cada um nunca se alterará por uma tendência colectiva. Quem acha que o seu é melhor nunca mudará de ideias se vencer outro e portanto, num desporto colectivo, eleger a melhor individualidade é algo ainda mais complexo.

O que se premeia?

As regras do Ballon D´Or original eram claras: premiar o melhor jogador dentro de um ano natural tendo em conta as suas performances, as da sua equipa, a sua influência na equipa e as suas conquistas. Ou seja, o papel de um individuo como espelho de uma performance colectiva.



Dessa forma, historicamente, em anos de Europeus e Mundiais, o vencedor acabava por ser alguém ligado de forma simbólica a esses triunfos. Em 2006, Cannavaro representou o triunfo italiano, em 2002 o renascimento de Ronaldo o do Penta brasileiro. Em 1998 e 2000, Zidane foi o rosto de França e da sua geração de ouro, em 1990 Mathaus venceu porque a RF Alemanha ganhou o Mundial e em 1982 os golos de Rossi em Itália deram-lhe o troféu. E assim, ad aeternum.

Por outro lado sempre se convencionou que este era um prémio de futebol de ataque. Só um guarda-redes, o mítico Yashin, e dois defesas - o italiano Cannavaro e o alemão Sammer - venceram o troféu, os últimos dois quais como espelho da vitória das suas selecções. Os restantes, avançados, extremos e criativos. E sobretudo, jogadores de grandes potencias.

Ainda hoje custa-me entender porque Futre perdeu o Ballon D´Or em 1987 para Gullit e Deco o de 2004 para Shevchenko. Curiosamente os dois vencedores jogavam no AC Milan, um dos clubes mais premiados da história e com mais peso junto dos votantes. Votantes que estão na base da profunda mutação do Ballon D´Or do passado com o do presente.



Em 2010 a empresa France Football, que criou o prémio, encontrou-se com graves problemas financeiros e aceitou a proposta da FIFA de fundir o seu prémio com o FIFA Award, uma ideia de Blatter, quando era vice-presidente, em 1990, de criar um prémio alternativo ao atribuído pelos gauleses. Até então votavam no Ballon D´Or os 53 jornalistas europeus que representavam as federações continentais. Até 1994 só podiam votar em jogadores europeus (por isso Maradona e Pelé nunca ganharam) e a partir de 2006 passaram a poder votar em jogadores a actuar fora da Europa.

Com o novo FIFA Ballon D´Or passaram a votar os seleccionadores, capitães e jornalistas de todos os países membros da FIFA. E o prémio passou a ser um concurso de popularidade.

Sinceramente a mim tanto me faz qual o critério a aplicar, dou pouca importância ao certame. Mas no modelo antigo, o que tornou o troféu popular, Lionel Messi teria vencido dois prémios até agora. Com este modelo prepara-se - salvo imensa surpresa - para conseguir o quarto consecutivo.
O prémio passou a ser uma luta entre os jogadores mais populares, liderada por Messi com Ronaldo e agora Iniesta como perseguidores naturais. Façam o que fizerem no terreno de jogo outros jogadores, o impacto mediático destes três supera o dos restantes e muitos jornalistas, seleccionadores e capitães de países que vivem o futebol de uma forma muito diferente da nossa, preferem votar neles. Basta ver os boletins de voto das últimas edições e descobrir que estes nomes são omnipresentes.

Em 2010 os jornalistas europeus colocaram Messi no quinto lugar e deram o prémio a Sneijder. A nível mundial o holandês nem entrou no pódio. Sob os registos históricos do prémio, o holandês teria sido o ganhador salvo se Iniesta ou Casillas vencessem. Até hoje, depois de ganhar tudo o que havia para ganhar, nenhum espanhol venceu.

Dizem que Messi ganha sempre porque é o melhor. Não creio que isso esteja em discussão realmente.
Mas o prémio antes não era entregue ao melhor do mundo mas sim ao melhor num ano natural, tendo em conta o que conquistou. Ronaldinho Gaúcho foi o melhor jogador do Mundo durante três anos mas só tem um troféu. Zidane foi o melhor em igual período mas perdeu um ano para Figo e outro para Rivaldo. Platini perdeu o prémio em 1982 quando não era pior jogador do que Rossi e nos primeiros anos, ninguém duvidava que Alfredo di Stefano fosse único. Mas La Saeta tem apenas dois troféus em casa.



Pessoalmente, se eu pudesse votar, a minha eleição estaria entre Casillas, Iniesta e Falcao.
Salvo o manchego, os outros dificilmente poderão vencer o troféu porque perdem em popularidade para Messi e Ronaldo. O português, que não tem feito épocas ao nível de 2008, quando venceu, tem sido presença habitual no pódio porque é, indiscutivelmente, um dos dois jogadores mais populares do Mundo. Se Messi vencer, sine die o troféu, apenas na base de que é o melhor, ele acabará por perder o seu real valor. Basta olhar para os Óscar e pensar que Brando venceu dois - espaçados por vinte anos - e ninguém se atreve a discutir que nesse período houve poucos interpretes como ele.

No futebol, um desporto colectivo onde ser estrela individual é complicado, vive-se uma ditadura de popularidade que acabará por transformar estes pequenos guilty pleasures em algo profundamente aborrecido.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Resolver a questão da co-propriedade

«Se se proibirem totalmente fundos de investimento vai ser uma tragédia, vão matar o futebol português tal como o conhecemos hoje em dia, com a competitividade atual e com a capacidade para formar jogadores», garantiu Mário Figueiredo em declarações exclusivas à Agência Lusa.

Desde que escrevi aqui, na passada semana, sobre a problemática da extinção da co-propriedade, muitas têm sido as vozes que se têm igualmente levantado contra a medida. Alguns por oportunismo, outros por convicção. O que está claro é que a medida não é popular nos países afectados e não há na Europa um caso tão flagrante como o de Portugal e dos seus clubes.

As palavras do actual presidente da Liga são a mais pura verdade.
Significa isso que tem razão? Em parte, porque de certa forma, a necessidade dos clubes portugueses em recorrer de forma constante a este modelo deve-se também à sua péssima gestão financeira da última década. Se os clubes tivessem tido abordagens radicalmente diferentes das que tiveram, a situação não seria tão dramática. O drama é real, ninguém pense o contrário.

Clubes podem desaparecer, clubes podem perder o pouco que têm e mesmo os grandes minguarão, forçosamente, até encontrar forma de se levantar outra vez. Com este modelo permitiu-se que os clubes portugueses tenham ajudado da Liga Sagres a trepar ao quinto posto do ranking UEFA. Com este modelo permitiu-se vencer uma Europe League - com um semi-finalista e um finalista vencido no mesmo ano - mas também as boas performances europeias tanto em Champions League (2009, FC Porto, 2012, SL Benfica) como na Europe League (campanhas de Braga, a épica de 2011 e a semi-final do Sporting no ano passado). Ninguém duvida que as equipas que aí chegaram não o poderiam ter feito se tivessem de arcar com o 100% da ficha salarial mais o 100% dos passes dos seus jogadores. Com as dividas já acumuladas pelas principais instituições do futebol português, esse sobrepeso financeiro o que fará, não se iludam, é acabar com a competitividade desses mesmos clubes contra os rivais europeus.

Mas se Platini e Blatter conseguem aprovar a lei, que podem os clubes fazer?
O projecto está agora em discussão e diz-nos a experiência que demorará sempre um par de anos até ser aplicado. No caso da UEFA a ideia do Fair Play Financeiro, desde a sua divulgação até à sua aplicação, tardou mais de cinco anos enquanto que o 6+5 ainda está em discussão - por envolver a lei comunitária - enquanto que a utilização obrigatória de 6 jogadores de formação nacional no plantel de 25 na Europa (3 do mesmo clube) foi aplicada em três temporadas. Tempo providencial para clubes como o FC Porto adoptarem medidas urgentes a olhar para o futuro.



1) Aposta séria e inequívoca na formação.

É inevitável. O fim da co-propriedade vai impedir que o clube mergulhe em mercados estrangeiros com a mesma regularidade. Não se enganem. Muitas vezes a co-propriedade não é uma eleição nossa mas uma exigência de quem vende. Os empresários e fundos compram jogadores para sacarem lucro e quanto mais tempo detenham parte do passe, melhor. Caso este cenário acabe, o preço dos jogadores subirá porque a margem de lucro, forçosamente, será menor. Um James, a 100%, custará bem mais do que custa a 70%, não tenham dúvidas.
Para evitar esta realidade há que captar jogadores cada vez mais novos e fazê-los parte do nosso sistema de formação, como já fazem o Arsenal e o Barcelona há uma década e que também é uma das ideias por detrás do 6+5 que Platini quer aplicar.



2) Comprar nacional

O mercado português é o que é e um jogador na liga lusa vale sempre menos que um jogador das ligas sul-americanas ou europeias. É lei de mercado. Para poder deter a 100% o passe de um jogador ele tem de ser mais baixo e mais acessível. Lima, quando estava no Belenenses, poderia ter sido do FC Porto por muito menos do que se pagou por Jackson. Não quer dizer que seja melhor, quer dizer que no futuro, quando não exista tanto dinheiro disponível para jogar com os passes, será nesses jogadores que nos temos de focar.

3) Fim dos empréstimos entre clubes da mesma divisão

Uma ideia que esteve perto de se tornar real este Verão e que continua a ser fundamental para garantir que os clubes não possuem planteis de 50 jogadores para depois usá-los para manobras políticas de bastidores e garantem que esses jogadores permanecem nos clubes de origem.


4) Criar um lobby dentro da ECA.

Portugal não é o único país afectado por esta realidade. A co-propriedade envolve clubes sul-americanos mas também clubes do sul da Europa, de Espanha à Turquia, da Grécia a Itália passando por ligas como a romena, sérvia ou croata. É a realidade de uma Europa a duas velocidades.
O FC Porto, um clube com um peso institucional na Europa incomparável em relação aos outros clubes portugueses, deveria procurar dentro da ECA - European Club Association - construir pontes que exijam da FIFA e da UEFA outras medidas que, aplicadas ao mesmo tempo que o fim da co-propriedade, defendam a competitividade de clubes como o nosso. Medidas que podem ser, por exemplo:

- A aplicação definitiva do 6+5.
A UEFA tem encontrado problemas com a União Europeia porque estes entendem que não se podem restringir a cidadãos europeus a actuação em clubes dentro da UE. Mas o que podem é exigir que exista um máximo de 5 jogadores não-europeus no onze titular. Isso permitira que o mercado sul-americano e africano não seja exclusivo de uns poucos e se mantenha uma via livre para clubes como o FCP.

- Acabar com o Marketpool da Champions League e repartir os valores pelas ligas mais prejudicadas.
Actualmente há clubes de Inglaterra e Espanha que, eliminados na fase de grupos, acabam por ganhar quase tanto dinheiro com a Champions como se o FC Porto fosse campeão. Sem o Marketpool ou, pelo menos, desenhado noutros moldes, e esse dinheiro redistribuído os clubes poderiam encontrar um importante balão de oxigénio numa fase de transição. A medida não seria definitiva mas sim um mecanismo de solidariedade.

- Obrigatoriedade por parte da UEFA da venda colectiva de direitos televisivos
Esta medida não só tornaria a distribuição do dinheiro entre os clubes europeus mais equitativa como acabaria com o profundo desequilíbrio entre clubes no espectro nacional como também sucederia o mesmo no espectro europeu. A Bundesliga e a Ligue 1 são o melhor exemplo.

- Obrigatoriedade da UEFA em passar de 6 para 10 os jogadores de formação nacional no plantel europeu
Essa medida, que agora mesmo nos seria prejudicial, no futuro poderia ser uma tábua de salvação. Obrigaria os tubarões europeus a alinhar com 10 jogadores formados no seu país nos seus planteis europeus - que são, no fundo, os seus planteis anuais - e defenderia os melhores jogadores dos vários países europeus de ser alvo de constante cobiça. Se o clube apostasse nos primeiros dois pontos que mencionei e os restantes clubes europeus fossem forçados a fazer o mesmo, os jogadores sul-americanos, africanos, asiáticos ou de outros países da Europa não estariam concentrados numa dúzia de clubes forçosamente.

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Com estas medidas - ou metade delas pelo menos - teríamos um clube mais sustentável, mais financeiramente saudável, mais preparado para os desafios do futuro e igual de competitivo.

 É um processo longo, complexo e que acabaria com algumas das políticas de favores em que directivos da SAD têm sido tristemente protagonistas, com um certo compadrio com agentes, fundos e personagens externos à realidade do clube. Não existem gestões perfeitas nem clubes perfeitos mas encontrar um rumo auto-sustentável, com olhos para o depois de amanhã, seria uma jogada importante por parte da directiva e um sinal de que no Dragão há quem consiga ver para lá do imediato.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Estrangular o futebol dos pequenos

A FIFA revelou nesta sexta-feira que o comité do organismo para o futebol, liderado por Michel Platini, presidente da UEFA, solicitou “a criação de regulamentos que proíbam a propriedade por parte de terceiros” dos passes dos jogadores.

Esta notícia vinha publicada na edição online do PÚBLICO de Sábado. E não surpreende ninguém.

Michel Platini é uma figura que divide opiniões como dirigente (menos como futebolista). É, sobretudo, um excelente político com máscara de figura desportiva. Cresceu ao lado de Sepp Blatter, nesse antro de mafiosos que é a FIFA. Foi o seu homem forte na luta contra Johansson, um dos amigos mais íntimos de Pinto da Costa e da maioria dos homens do G14, e venceu. A partir de então a sua atitude com os clubes que entravam nesse grupo foi fria, distante e tensa em muitos casos. Salvo casos pontuais, como o Barcelona, que se afastaram do modelo original para aproximar-se da sua gestão presidencial, os clubes do G14 tiveram dificuldades com a UEFA nos últimos oito anos. O FC Porto, um dos que mais. Tivemos de sofrer as ameaças do francês, sem nenhum critério legal, e seguramente que Platini não se esquece do que teve de suar para vencer os azuis e brancos na polémica final de Basileia.


A gestão de Platini de devolver o futebol aos adeptos tem tido aspectos positivos.
Na sua luta contra os grandes, apostou num novo formato de Champions League que abre mais a porta à fase final a clubes campeões nacionais dos seus modestos países, ao livrarem-se de disputar o play-off final com os quartos ingleses, espanhóis  alemães e terceiros das ligas portuguesas, italianas ou francesas. Com gestos como esse (e o Euro 2008 e 2012, e as finais europeias que começam a chegar ao leste do continente), assegurou os votos para a reeleição e vendeu a ideia de ser um presidente dos mais fracos. Mas  como negociador nato que é, nunca se afastou em demasia dos países grandes. Não é por acaso que Londres recebe duas finais da Champions em três anos. Que Munique, Madrid, Paris e Moscovo tenham sido eleitas antes. Que os milhões da Champions sejam cada vez mais para cada vez menos e que o dinheiro investido na Europe League - a liga dos pobres - seja cada vez mais insignificante.

Platini quer chegar à FIFA e quer chegar com o apoio dos grandes. Precisa de sentir-se respaldado pela ECA, pela elite do futebol europeu e não apenas pelos clubes de países pequenos e sem expressão mundial. Por isso a nova medida vem apenas confirmar a sua deriva política. Acabar com a co-propriedade, algo que já existe nas ligas inglesa e francesa, é uma estocada de morte na ambição de muitos desses clubes. Os portugueses, por exemplo.

Com a situação actual de mercado, é cada vez mais difícil aos clubes como o FC Porto competirem com os milhões dos históricos do continente e com as novas fortunas do leste. A co-propriedade tornou-se numa ferramenta possível para comprar jogadores incomportáveis a preço total e também para aliviar o passivo quando a necessidade de cash flow se tornava iminente e aparecia um fundo qualquer para comprar uma pequena parte do passe de um jogador promissor. Sem esse mecanismo, não se enganem, não existia futebol profissional em Portugal. E em muitos países do Mediterrâneo. Em Itália a co-propriedade entre clubes é habitual desde os anos 90. Em Espanha, a esmagadora maioria dos clubes não detém o 100% do passe dos seus melhores atletas. Falar da Grécia, Chipre, Turquia, países eslavos e centro-europeus é apenas repetir a mesma história. A co-propriedade permite-lhes manter o pulso sem asfixiar-se (ainda mais) financeiramente. Sem ela, a Superliga europeia torna-se inevitável.

A missão de Platini nos últimos anos como presidente da UEFA é abrir caminho para essa realidade.
Abolir a co-propriedade significa dar aos clubes ingleses, alemães, russos, ucranianos e à elite espanhola, francesa e italiana, o domínio exclusivo e absoluto do futebol europeu. Deixa de haver margem de manobra para qualquer desafio externo. O FC Porto, como tantos outros, desapareceria entre o passivo acumulado e a venda dos seus activos para não acabar. Sem jogadores top não há performances top, não há ameaça, não há vitórias ao PSG, não há gestas como 2004. Não há nada.



Pessoalmente sou contra o modelo da co-propriedade. Absolutamente contra a entrada de fundos e empresários, muitas vezes para lavar dinheiro, no futebol gerido por um clube independente.
Mas também sou contra os salários praticados de forma infame pelos donos da pasta árabes e russos. Também sou contra a Lei Bosman, tal como está actualmente, e sou contra o modelo de distribuição de lucro das provas europeias desenhado pela UEFA.
Ou se é contra tudo ou a favor de tudo. Por um lado, se tudo isto fosse revisto, o futebol voltaria a ser mais igualitário  mais justo, mais divertido. Mas aos grandes isso não lhes interessa nada. O caminho é o oposto, aumentar ainda mais os desafios aos pequenos, roubando-lhes os melhores jogadores sem limite (mesmo que seja para preencher o banco), pagando-lhes fortunas impensáveis, ficando com números impensáveis de pagamentos por parte da UEFA e do império televisivo que vive à sua sombra. Acabar com a co-propriedade é só facilitar que os James, Jackson, Moutinho, Alex Sandro, Fernando, Danilo sejam suplentes do PSG ou do Shaktar em vez de serem jogadores do FC Porto.

É mais um golpe baixo e sujo, mais uma jogada muito bem pensada por parte da elite europeia. A tornar-se real - e ninguém duvida que Platini tem o poder necessário para lográ-lo - poderia ser também o fim do FC Porto como um potentado europeu. E talvez o fim do profissionalismo, tal como o conhecemos, do futebol do sul da Europa. Estejam atentos!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Alguns números do Gabão x Portugal

6 horas - tempo que demora a viagem de avião entre Lisboa e Libreville.

13.724 quilómetros - distância percorrida (ida e e volta) pela comitiva portuguesa.

28 graus - temperatura à hora do único treino que a selecção portuguesa fez no Estádio L’Amitié, em Libreville.

95 por cento - humidade à hora do único treino que a selecção portuguesa fez no Gabão.

0 convocados do slb para este jogo.

2 convocados do FC Porto (Moutinho e Varela)

7 convocados do SC Braga (Beto, Custódio, Hugo Viana, Ruben Micael, Ruben Amorim, Hélder Barbosa e Éder)

45 horas - tempo que medeia entre o fim do Gabão x Portugal (14 de Novembro, 21h30) e o início do jogo seguinte do SC Braga para a 4.ª eliminatória da Taça de Portugal (16 de Novembro, 18h45).

800 mil euros - cachet recebido pela FPF

0 euros - cachet recebido pelos clubes que cederam jogadores à Seleção.


Viva a FIFA!
Viva a FPF, sempre tão empenhada na defesa dos clubes e da integridade física dos jogadores portugueses.

domingo, 14 de outubro de 2012

Adeus insígnias


«Bruno Paixão vai recorrer ao Tribunal Administrativo de Lisboa depois de a Comissão de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol não o ter incluído na lista de árbitros internacionais de 2013 enviada à FIFA. Segundo fonte ligada ao processo, Bruno Paixão contesta a classificação da época 2011/12, o 14º lugar, que, juntamente com o 17º da temporada anterior, o afasta da lista de internacionais.
Os fundamentos do recurso que Bruno Paixão pretende interpor junto do Tribunal Administrativo prendem-se com a decisão da Comissão de Arbitragem em baixar a nota de 3,4 que lhe foi atribuída pelo observador Humberto Gonçalves pela sua atuação no jogo Gil Vicente-Sporting relativo à época passada. Face ao protesto avançado pelo Sporting, que se queixou do trabalho do "juiz" setubalense, o presidente da Comissão de Arbitragem remeteu-o para o Conselho Técnico, o qual, depois de analisar o relatório do observador e as imagens do jogo, decidiu baixar a nota de Bruno Paixão de 3,4 para 2,0.
Esta alteração acabou por ter implicação direta na classificação do árbitro de Setúbal, que baixou de 8.º para 14.º lugar, quando, de acordo com os regulamentos, um árbitro internacional que obtenha uma classificação abaixo do 12.º lugar em dois anos consecutivos perderá as insígnias da FIFA. (…)
Da lista enviada pelo FPF, composta pelos árbitros internacionais Pedro Proença, Olegário Benquerença, Duarte Gomes, Jorge Sousa, Carlos Xistra, Artur Soares Dias e João Capela, não faz parte, além de Bruno Paixão, o juiz João Ferreira, também de Setúbal, por ter atingido o limite de idade.»
JN, 13-10-2012


Há muito que o Bruno Paixão devia ter perdido as insígnias da FIFA. Aliás, se não fosse o Sistema (o verdadeiro, controlado pelos clubes de Lisboa) nunca as teria tido. Mas o mais irónico disto tudo é ser um protesto do SCP que está na origem da sua descida na classificação, de 8º (!) para o 14º lugar e, consequentemente, fazer com que deixe de ter o estatuto de árbitro internacional.
A ingratidão é terrível e, para os lados de Alvalade, o monumental escândalo de Campo Maior já há muito tempo que foi esquecido.

Nota: Os destaques no texto a negrito são da minha responsabilidade.

sábado, 8 de setembro de 2012

O Mecanismo de Solidariedade

Artigo 21º Mecanismo de Solidariedade
Se um Profissional for transferido antes do termo do seu contrato, qualquer clube que tenha contribuído para a sua educação e formação receberá uma percentagem da compensação paga ao clube anterior (contribuição de solidariedade). As disposições relativas às contribuições de solidariedade constam do anexo 5 ao presente Regulamento.


ANEXO 5
MECANISMO DE SOLIDARIEDADE

Artigo 1º Contribuição de Solidariedade
Se um Profissional mudar de clube no decurso de um contrato, 5% do valor de qualquer compensação, à excepção da Compensação por Formação, paga ao Clube Anterior será deduzida ao valor total da compensação e distribuída pelo Novo Clube, como contribuição de solidariedade, aos clubes envolvidos na formação e educação do jogador ao longo dos anos. Esta contribuição de solidariedade será distribuída de acordo com o número de anos (calculado numa base percentual se for menos de um ano) que o jogador esteve inscrito em cada clube entre as Épocas do seu 12º e 23º aniversário, do seguinte modo:
- Época do 12º aniversário, 0,25% da compensação total
- Época do 13º aniversário, 0,25% da compensação total
- Época do 14º aniversário, 0,25% da compensação total
- Época do 15º aniversário, 0,25% da compensação total
- Época do 16º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 17º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 18º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 19º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 20º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 21º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 22º aniversário, 0,5% da compensação total
- Época do 23º aniversário, 0,5% da compensação total

Artigo 2º Procedimento de Pagamento
1. O Novo Clube deve pagar a contribuição de solidariedade ao(s) clube(s) formador(es), em conformidade com as disposições acima estabelecidas, o mais tardar no prazo de 30 dias após a inscrição do jogador ou, em caso de pagamentos parcelares, 30 dias após a data de tais pagamentos.

2. É responsabilidade do Novo Clube calcular o montante da contribuição de solidariedade e a forma como deve ser distribuído de acordo com a história da carreira do jogador. O jogador deve, se necessário, apoiar o novo clube no cumprimento desta obrigação.

3. Se não puder ser estabelecida uma ligação entre o Profissional e qualquer um dos clubes dos quais recebeu formação, no prazo de 18 meses após a sua transferência, a contribuição de solidariedade é paga à Federação ou Federações do país (ou países) no qual o jogador recebeu formação. Esta contribuição de solidariedade será afecta aos programas de desenvolvimento do futebol jovem na Federação ou Federações em questão.

4. A Comissão do Estatuto dos Jogadores da FIFA pode impor medidas disciplinares a clubes que não respeitem as obrigações estipuladas no presente anexo.

Fonte: FPF

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“5% do valor de qualquer compensação paga ao Clube Anterior”

Aplicando ao caso do Hulk, temos:
5% do valor de qualquer compensação paga pelo Zenit ao FC Porto, será deduzida ao valor total da compensação e distribuída pelo Zenit, como contribuição de solidariedade, aos clubes envolvidos na formação e educação de Hulk ao longo dos anos.

Sendo o Zenit o clube responsável pelo pagamento da contribuição de solidariedade (algo que ficou claríssimo nos comunicados que a FCP SAD fez sobre este assunto), não é óbvio o interesse do clube russo em que o valor oficial da transferência seja 40 em vez de 60 milhões de euros?
É que só nesta habilidade a Gazprom poupa 1 milhão de euros!

Claro que habilidades destas só podem ser feitas se não entrarem em conflito com os interesses do clube vendedor (a FCP SAD, desde que receba 40 milhões pelos 85% do passe que detinha, não tem nada a perder em que o Zenit repita mil vezes que não teve mais encargos com esta transferência) e, evidentemente, só são possíveis em países onde as contas dos clubes/sociedades desportivas não sejam auditadas e/ou sujeitas a um escrutínio rigoroso.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Rummenigge Talks

Karl-Heinz Rummenigge, director-executivo do Bayern de Munique é também presidente da Associação Europeia de Clubes (ECA - European Club Association) e, nesta qualidade, foi um dos intervenientes no Football Talks, o congresso organizado pela Liga de Clubes.

A sua intervenção foi uma das mais relevantes e focou aspectos de que já falei aqui várias vezes.


“Os compromissos das selecções vêm aumentando gradualmente e os prejudicados são os clubes. Um jogador faz 50 a 60 jogos por época, sem contar com a preparação e as viagens a que estão sujeitos. Isto é inaceitável.”

“Lembro o caso de Robben, que jogou todo o Mundial'2010 lesionado e quando voltou ao Bayern tinha agravado a respectiva lesão muscular. Acabou por ficar de fora quase toda a época.”

“O número de jogos internacionais tem aumentado. Entre 2002 e 2006 houve 40 datas, de 2010 a 2014 haverá 46.”

“Os jogadores precisam de mais descanso, porque a intensidade do futebol actual é muito maior do que era nos meus tempos.”

“Em 2006 os clubes decidiram acabar com a segunda fase de grupos da Liga dos Campeões para não sobrecarregar os jogadores, mas a FIFA aproveitou as datas que se libertaram para criar mais jogos de selecções.”

“As selecções nacionais são abusadas pelas respectivas Federações, que fazem delas máquinas de dinheiro.”

“A receita do último mundial foi de três mil milhões de euros, mas desse dinheiro apenas 80 milhões, cerca de 2,2 por cento, foram para os clubes.”

“A UEFA terá um retorno económico do Europeu de 2012 na ordem de 1,3 mil milhões de euros, mas apenas compensa os clubes com 55 milhões, ou seja, 3,5 por cento do total, pela cedência de jogadores.”


A guerra entre a FIFA e a ECA não é de hoje e espero que, pelo menos, resulte em três coisas:
1) harmonização dos calendários internacionais;
2) redução substancial dos jogos das selecções;
3) compensações superiores para os clubes que cedem jogadores às selecções.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A guerra entre a FIFA e a ECA



I'm not optimistic because they [FIFA] believe the system is working perfectly as it is. It's a money machine, World Cup after World Cup. And for them, that's more important than serious and clean governance.

When I won the European Championship [in 1980], there were eight teams in the finals. That figure will treble by 2016. In the World Cup, it used to be 16 teams, now it's 32.

The clubs pay the players but are not part of the decision-making process. We [clubs] are not treated respectfully.

I will give them [FIFA] a chance but I'm ready for a revolution if that's the only way to come to a solution.


Este conjunto de declarações foram feitas por Karl-Heinz Rummenigge, chairman da European Club Association (ECA).

Já falei sobre este assunto – selecções versus clubes – várias vezes e, de facto, parece-me que a FIFA e as confederações continentais estão a abusar e a esticar a corda cada vez mais.

Há que pôr fim à prepotência da FIFA, obrigando à redução dos jogos das selecções e à harmonização dos calendários internacionais. Espero que a ECA lidere a revolução que se impõe.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Clubes, selecções e os interesses da FIFA

Como é sabido, o FC Porto tem quatro jogadores – Falcao, Guarín, Álvaro Pereira e Cristian Rodriguez – a quem paga principescamente e que, em vez de estarem integrados no plantel portista a preparar a próxima época, estão nesta altura a disputar pelas suas selecções a 43.ª edição da Copa América.

A primeira pergunta que me ocorre fazer é por que razão é que a Copa América é disputada no mês de Julho, de 1 a 24, e não no mês de Junho?

Comparativamente, o Mundial de 2010 na África do Sul, que envolveu 32 equipas (incluindo 8 americanas – Brasil, Argentina, Honduras, México, Estados Unidos, Chile, Paraguai e Uruguai), implicando muitíssimos mais jogos e um calendário mais extenso que a Copa América, decorreu entre 11 de Junho e 11 de Julho. Ou seja, não vejo qualquer razão válida para que a Copa América não pudesse ter começado três semanas mais cedo e terminado no início de Julho.

Mas pior que a Copa América é o calendário do Mundial de Sub-20, competição onde irão estar Iturbe e James Rodriguez, e que será disputado na Colômbia, entre 29 de Julho e 20 de Agosto!

Ora, faz algum sentido que uma competição mundial para jogadores seniores (até 20 anos de idade), organizada pela FIFA, tenha um calendário que em grande parte se sobrepõe ao arranque das competições oficiais de clubes (pelo menos na Europa)?

Recordo que no caso do FC Porto o primeiro jogo oficial é no dia 7 de Agosto (Supertaça nacional), mas há clubes que terão de disputar pré-eliminatórias das competições europeias (provas organizadas pela UEFA) em finais de Julho.

O futebol há muito que deixou de ser apenas um mero desporto e os jogadores de topo (que são os que jogam nas respectivas selecções) são profissionais especializados cada vez mais caros, cuja preparação para a alta competição (feita nos clubes!) leva anos e envolve treinadores, médicos, nutricionistas, fisioterapeutas, etc. Contudo, no binómio de interesses selecções-clubes, as federações continuam a usar os jogadores a seu belo prazer e com a agravante das receitas geradas irem, essencialmente, para os bolsos das federações/UEFA/FIFA, enquanto que os custos continuam a ser suportados pelos clubes. Isto algum dia vai ter de acabar.

Se há actividade profissional em que a globalização foi levada ao extremo é no futebol, mas cada vez é mais claro que a regulação não funciona, ou funciona mal.

P.S. Não tendo sido convocado para disputar a Copa América (supostamente por problemas físicos), alguém sabe por que razão é que Jorge Fucile não está a treinar no Olival?

sábado, 4 de junho de 2011

Conspiração internacional

Ele é o reconhecimento das mais altas instâncias da UEFA...






... a Taça Latina que não conta para a FIFA...




... o ranking de final de época do IFFHS...


Nota: Neste ranking, o slb está em 40º, 10 lugares abaixo do SC Braga.

Isto é tudo muito suspeito. Cheira-me a conspiração internacional contra o slb...

domingo, 29 de maio de 2011

A Farsa Total


Tanto Sepp Blatter, actual Presidente, como o seu opositor Mohamed bin Hammam, se encontram neste momento sob investigação de corrupção pela própria FIFA, a poucos dias da eleição que ambos disputam para aquele cargo.

Mesmo antes destas investigações terem sido anunciadas, a Federação Inglesa anunciou que não tomaria parte na votação, por achar que nenhum dos candidatos reúne as condições para ter o seu apoio. O próprio Secretário de Estado do Desporto britânico, Hugh Robertson, considerou em declarações após o anúncio dessas investigações que a FIFA desceu à fase da farsa.

Eu acho que seria interessante saber-se que posição tem a Federação Portuguesa de Futebol e, já agora - e se não é pedir muito - aquele minhoto adepto do Benfica que compungidamente assumiu ser pelo Braga na Final da Liga Europa.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Prémio de participação no Mundial de 2010

A FIFA organiza de 4 em 4 anos uma competição de futebol de selecções nacionais de todos os cantos do mundo. Chama a essa competição "Campeonato do Mundo de Futebol". Estas competições são extremamente proveitosas para a própria FIFA (o Mundial de África do Sul de 2010 rendeu cerca de 2.600 Milhões de Euros), que estranhamente pouco redistribui quer pelos seus participantes quer pelas federações afiliadas que não participam.

O Mundial de África do Sul de 2010 viu (e bem) emergir mais um beneficiário da competição: os clubes detentores dos passes dos jogadores convocados para as selecções participantes.
Apesar de o valor não ser muito alto para os clubes com jogadores de topo ($1600 dólares por dia), será decerto uma ajuda preciosa para alguns clubes, podendo ser em alguns casos, até várias vezes maior do que o salário recebido pelo jogador. Segundo o site oficial da FIFA, o número de dias utilizado para os cálculos das "redistribuições de riqueza" é obtido contabilizando o número de dias em que o atleta esteve na competição e acrescentando duas semanas de preparação, i.e., desde duas semanas antes do primeiro jogo até ao dia da eliminatória em que a selecção para a qual foi convocado foi eliminada.

Os principais clubes beneficiados com esta medida foram os do costume, o que não é de estranhar porque são os clubes que têm mais internacionais pelas grandes selecções nas suas fileiras. O Barcelona foi o clube que mais recebeu ($667.000, por 13 jogadores), seguido do Bayern de Munique ($599.000), Chelsea FC ($588.000), Liverpool FC ($535.000) e Real Madrid ($522.000).

No caso do FC Porto este dinheiro poderá dar alguma ajuda, especialmente numa época em que não há prémios por participação na Liga dos Campeões, equivalendo a um pouco mais do que $350.000. As receitas referentes ao FC Porto estão distribuídas da seguinte forma:

Estes valores não se encontram discriminados por clube oficialmente, estando por isso os valores acima sujeitos a erros de cálculo

Esperemos que esta generosidade da FIFA se mantenha nas próximas competições, já que é a competição nos clubes que revela e paga os jogadores que tanta gente atraem a estas competições de selecções nacionais. Para o FC Porto, só podemos desejar sucesso aos jogadores mundialistas e esperar que as suas selecções sejam sempre finalistas!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um novo calendário futebolístico

«O presidente do Bayern de Munique, Karl-Heinz Rummenigge, sugeriu esta segunda-feira um novo calendário futebolístico. (...)
"O calendário pode ser alterado da seguinte forma: oito meses para o campeonato, Liga dos Campeões e Liga Europa; dois meses para as selecções nacionais com dez ou doze jogos e dois meses de paragem, incluindo quatro semanas de férias e quatro semanas de preparação", explicou o alemão à "Kicker". (…)
"Os clubes, na condição de empregadores, não podem aceitar que os calendários sejam determinados por despacho e que os jogadores sejam disponibilizados gratuitamente. No caso de não se chegar a um consenso, haverá procedimentos para o Tribunal de Justiça da União Europeia", advertiu o presidente dos bávaros.»
in record.pt


aqui tinha abordado este conflito latente entre os interesses da FIFA/federações e o dos clubes. Tal como escrevi na altura, é inaceitável continuarmos num modelo em que as despesas são dos clubes, enquanto que os lucros são das federações e da própria FIFA. Parece-me óbvio que algo tem de ser feito e estas declarações de Rummenigge, que também é presidente da Associação Europeia de Clubes, são claras quanto a isso.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

As selecções e os clubes

«A Federação uruguaia de futebol deu a conhecer que o jogador do F.C. Porto, Álvaro Pereira, sofreu um traumatismo no ombro esquerdo, no decorrer do particular com o Chile (…). Numa nota emitida no seu site oficial, o organismo acrescenta que se realizou um raio-X que apurou uma fissura no úmero, sem que, no entanto, tenha existido deslocamento. Os exames efectuados foram enviados para os dragões.
Alberto Pan, médico da Federação uruguaia, salientou, em declarações à imprensa do seu país, que a lesão poderia ser «muito mais grave» e que foi «por sorte» que não houve uma fractura, o que não impede, no entanto, que o jogador tenha de ficar «inactivo por um bom tempo». Os primeiros cenários apontam para, pelo menos, 30 dias de paragem, o que origina que não volte a jogar em 2010.»
in Maisfutebol


Que “sorte” que o FC Porto teve! O Álvaro Pereira “só” vai falhar seis jogos, incluindo a deslocação a Alvalade. Isto, claro, se recuperar bem e regressar em pleno no início de 2011.

Os jogadores internacionais são caros. Para além do custo do “passe”, os clubes/SADs têm de suportar salários elevados e outro tipo de encargos.
As selecções limitam-se a convocar estes jogadores, fazem-nos viajar milhares de quilómetros, usam-nos a seu belo prazer e devolvem-nos muitas vezes fisicamente de rastos (André Villas-Boas já se queixou disso esta época, a propósito do Falcao). Mas o pior é quando os devolvem lesionados. Na época passada foi Cristian Rodriguez e agora chegou a vez de Álvaro Pereira.

O negócio da FIFA é fantástico. As despesas são dos clubes; os lucros são das federações e da própria FIFA.

Mas voltando ao Álvaro Pereira, não havendo uma alternativa clara e testada (Palito é só o jogador mais utilizado por André Villas-Boas, tendo disputado todos os minutos da Liga 2010/11 até ao momento), é provável que seja substituído por Emídio Rafael nas provas internas e por Fucile na Liga Europa.

P.S. De um momento para o outro, a ala esquerda do FC Porto – Álvaro Pereira e Varela – foi à vida. Razão tinha o André Villas-Boas em pôr água na fervura, dizendo que o campeonato está longe de estar decidido.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Os transparentes processos da FIFA


Uma investigação do jornal britânico Sunday Times está a lançar o caos e a suspeição sobre o processo de selecção dos anfitriões dos Mundiais de 2018 e 2022. Como o referido jornal tem acesso online pago, deixo aqui o que diz o site do Daily Telegraph.

Para além das revelações do primeiro daqueles jornais, na sua edição da semana passada, de que alguns membros do Comité Executivo da FIFA se mostraram receptivos a subornos para definirem o seu sentido de voto, há a acrescentar esta semana a declaração do antigo secretário-geral daquela organização, Michel Zen-Ruffinen (sem saber que era filmado e que falava com repórteres jornalísticos) de haver concluio ilícito entre as candidaturas Portugal/Espanha ao Mundial de 2018 e do Qatar ao Mundial de 2022.

O comité de ética da FIFA, organismo de cuja eficácia me permito duvidar, está já a investigar o assunto. Por cá reina o silêncio. Vamos a ver no que isto dá.

domingo, 3 de outubro de 2010

Mais transparência nas transferências?


Entrou dia 1 de Outubro em vigor o Transfer Matching System da FIFA. Através deste sistema online aquele organismo pretende flexibilizar e dar mais transparência às transferências de jogadores.

Dois aspectos me chamaram principalmente à atenção:

a) "For every single transfer it is mandatory for both clubs to declare that there are no ‘third party’ influences on this transfer."

Uma interpretação literal desta frase diz-nos que doravante não será permitida a posse conjunta de passes de jogadores (o que não é uma total novidade, pois pelo menos em Inglaterra tal posse não é permitida). Embora a palavra "influence" não seja sinónimo de "propriedade", não vejo que outro aspecto pretenda a FIFA salvaguardar com isto. Também é possível, tratando-se de quem se trata, que a ambiguidade da frase seja propositada.

b)"(...) such as information on the player, club details, all payments including the amount, timing and bank details, as well as agents involved and the payments to them."

Esta parte resolveria de uma vez por todas as dúvidas que muitas vezes surgem acerca dos valores das transferências e das comissões pagas aos agentes. E uso o condicional porque não estou certo que a informação seja de livre acesso, embora o termo "online" o possa dar a entender.

Outra dúvida que tenho é se isto se aplicará apenas a transferências internacionais, e quer-me parecer que sim, pois nas transferências domésticas não há lugar à emissão de certificados internacionais, a qual passa a ficar dependente do cumprimento destas normas.

Enfim, já é um princípio. Mas estas coisas só funcionam se a sanção por incumprimento for pesada.

domingo, 27 de junho de 2010

A FIFA e a verdade desportiva


É golo se a bola ultrapassar completamente a linha de baliza e, reconheço, às vezes é difícil ter a certeza. Contudo, neste caso (Alemanha x Inglaterra), a bola esteve meio metro dentro da baliza e custa a crer como é que os árbitros não viram.
A Alemanha ganhou por 4-1, mas qual teria sido o impacto no jogo se, em poucos minutos, a Inglaterra tivesse recuperado de 0-2 para 2-2?

Perante lances como este, que adulteram de forma grosseira a verdade desportiva, até quando é que a FIFA irá manter a sua intransigência em aceitar o recurso a meios tecnológicos?

sábado, 21 de novembro de 2009

O que diria disto o Sr. Batota?


A pergunta é retórica, como é óbvio. O Sr. Batota não diz nada e o que mais lhe interessa é que a França esteja apurada para o Mundial da África do Sul em 2010, ainda que tenha conseguido esse apuramento através de um lance decisivo em que Henry assiste um colega depois de ter dominado a bola com a mão. Um erro de arbitragem muito grosseiro e que a FIFA convenientemente resolveu ignorar.

Em 6 de Junho de 2008 o Sr. Platini, Presidente da UEFA, comentando os castigos impostos pela UEFA ao FC Porto (no âmbito da Farsa “Apito Final”) e a outros clubes, revelou que estava “empenhado em deixar uma mensagem muito forte contra a batota”. Quem diria...



Não deixa de ser irónico que um francês que está à frente dos destinos da UEFA e que, além de se arrogar em justiceiro, está a fazer uma campanha miserável contra os clubes ingleses (que segundo ele "estão muito endividados"), assista agora em silêncio ao apuramento para o Mundial 2010 da sua selecção através da batota em detrimento de uma selecção anglo-saxónica, a Irlanda.
No que diz respeito ao comportamento da FIFA, esta já se tinha portado muito mal em Setembro quando criou regras já no final da fase de qualificação com o intuito de proteger os cabeças-de-série, depois de se saber que países como a França e Portugal teriam de disputar um play-off. Agora, ignorando a forma como a França se qualificou, a FIFA acabou de passar a mensagem de que vale tudo para que os países com maiores receitas estejam presentes na fase final do Mundial.

Fico-me com uma citação dessa grande personalidade do futebol luso que é Paulo Bento: “Andebol – mão, Basquetebol – mão, Futebol – pé”.