Mostrar mensagens com a etiqueta Lemos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lemos. Mostrar todas as mensagens

domingo, 14 de novembro de 2010

No tempo em que só davamos 4 ao Benfica


31 de Janeiro de 1971. Uma solarenga tarde de domingo, apesar da altura do ano. As Antas recebiam o Benfica (que não era o campeão em título, pois o ano anterior tinha sido ano de Mundial, anos naquela altura reservados ao rapa-o-tacho por parte daqueles que a História viria a celebrizar como "os calimeros"). Poucas jornadas antes os "encarnados" haviam batido na Luz o seu "eterno rival" do Campo Grande pela gorda margem de 5-1. Dera que falar, que isto de dar 5 a outro dos grandes não é coisa costumeira, nem que possa explicar-se por uma mera opção táctica ou um dia mais inspirado de um craque.

O jogo foi antecedido de uma homenagem ao "grande presidente" e "extraordinário mecenas" Afonso Pinto de Magalhães, cujo principal acto de mecenato se dera dois anos antes, ao desautorizar e posteriormente despedir o treinador, José Maria Pedroto, numa época em que disputávamos o título já perto do final da prova, coisa rara naqueles tempos.


Mas adiante. O facto saliente daquele jogo, e que fez até pessoas que pouco ligavam ao futebol comentá-lo nas tertúlias ao longo da semana seguinte foi o resultado final: nada mais, nada menos que 4-0! E mais, todos os golos foram marcados pelo mesmo jogador, o azougado Lemos, cujas características físicas não eram totalmente diferentes da actual coqueluche Hulk. Lemos "cujo", já na primeira volta marcara dois golos na Luz num empate a 2-2. Nessa época totalizaria 18 golos no campeonato, um terço dos quais, portanto, ao Benfica. Foi obra!

O escocês Tommy Docherty, treinador do clube, soubera aproveitar com talento as características do fogoso avançado, que formava uma temível dupla com Abel, naquela época chegado...do Benfica.

Este resultado e esta façanha do Lemos ficaram na história do clube. Mesmo muitos que não eram nascidos ou ainda não tinham idade para terem assistido ao jogo sabem desta proeza.

Mas constato com tristeza que o nosso clube tem evoluído pouco: passados quase 40 anos, só conseguimos dar mais um ao Benfica. Não pode ser! Domingo passado deviam ter sido pelo menos uns oito!

quinta-feira, 11 de março de 2010

Relembrando: Tommy Docherty, "The Doc"

Corria a época de 1969/70, aquela que acabaria por ficar na história como a pior de sempre do F.C. Porto, que terminaria o campeonato em 9º lugar. O romeno Elek Schwartz (na realidade austro-húngaro de nascimento, pois Timisoara, a sua cidade natal, pertencia nessa altura ao Império Austro-Húngaro) havia sido contratado para substituir José Maria Pedroto, que no meio de grande controvérsia fora despedido pelo Presidente Afonso Pinto de Magalhães perto do fim da época anterior e rumara a Setúbal.

Schwartz tornara-se conhecido entre nós por ter treinado o Benfica na época de 1964/65, tendo sido campeão nacional e tendo conduzido aquele clube à sua 4ª final da Taça dos Campeões Europeus, que perderia em San Siro por 1-0, contra o Inter de Helenio Herrera, com um famoso frango à Costa Pereira, especialidade culinária então muito em voga no nosso país. Se agora por vezes contratamos jogadores do Benfica, ou desviamos da Luz atletas anunciados com fragor na imprensa como estando a pontos de assinar por aquele clube, com o parcial intuito de aferroar aquele nosso inimigo de estimação, naquele tempo tínhamos, por assim dizer, o tique parolo de contratar quem já servira o Benfica, na vã esperança de que por cá repetissem as façanhas alcançadas em Lisboa.

Mas estou a divagar. Elek Schwartz teve um fraco começo de campeonato (nos primeiros três jogos teve dois empates e uma derrota) e durou apenas uns meses. Interinamente foi substituído pelo adjunto Vieirinha e a equipa até chegou a ter um ligeiro despertar, em parte devido à regular utilização do sangue jovem personificado por Chico Gordo e Seninho, este último na sua primeira época no clube. Lançando os seus olhares para o estrangeiro, a direcção do clube fez uma contratação de peso: o novo treinador era o escocês Tommy Docherty, popularizado pela alcunha de “The Doc”, que já treinara, entre outros, o Aston Villa e o Chelsea, e que mais tarde treinaria a selecção escocesa e o Manchester United.

Docherty nascera em Glasgow em 1928 e entre os clubes que representara como jogador contavam-se o Celtic, seu clube de infância, e o Arsenal. Era um homem extrovertido e famoso pelas suas frases retumbantes. Um dia negociava a sua saída de um clube e, quando os jornalistas lhe perguntaram se já havia acordo, respondeu: “Ofereceram-me £ 10.000 para fazermos um acordo amigável mas eu disse-lhes que terão de ser muito mais amigáveis que isso!”

Cá chegado, o “Doc”, com a carruagem em andamento, pouco podia fazer, e a equipa foi-se arrastando até ao fim do campeonato, perante a geral incompreensão dos adeptos e da crítica para com o escocês. Causou furor e indignação, por exemplo, a sua ideia de, num jogo no Mar, fazer alinhar o esquerdino Francisco Nóbrega do lado direito do ataque, coisa vulgar de hoje em dia.

Mas antes do começo da época de 1970/71, Docherty, a quem a direcção arranjara uma muleta na pessoa do antigo jogador do clube António Teixeira, um bom treinador de clubes pequenos, declarava: “Comigo à frente da equipa desde o princípio, as coisas vão ser diferentes!” E foram, de facto. Com poucas jornadas transcorridas o F.C. Porto foi empatar à Luz por 2-2, com dois golos de Lemos, que fazia a sua primeira época sénior no clube, depois de duas épocas emprestado ao Boavista. E não foi só o empate que espantou: a equipa jogou com grande personalidade e sem nunca revelar medo. O “Doc” era um típico treinador britânico, e achava que para a frente é que era o caminho.

Infelizmente, o plantel do clube tinha as suas limitações, embora naquela época tivesse sofrido uma injecção de talento nas pessoas do referido Lemos, do também ponta-de-lança Abel, contratado ao Benfica, do defesa-central Armando Manhiça, vindo de Alvalade, e do médio brasileiro Bené, proveniente do Leixões. Qualquer ideia de ganhar o campeonato, que há 12 anos nos escapava, era um puro devaneio, pois de facto Benfica e Sporting tinham melhores equipas, o que não nos impedia de, volta e meia, terminarmos à frente dos lagartos, já que estes sofriam dos mesmos males de (des)organização interna que o nosso clube. Nessa época terminaríamos em 3º lugar, o que não deixava de ser um progresso comparativamente ao descalabro da época anterior.

Mas o melhor prato da época estava reservado para o jogo da segunda volta com o Benfica, disputado em Janeiro de 1971. Nesse dia, num jogo antecedido por uma auto-congratulatória homenagem a Afonso Pinto de Magalhães, o Lemos entrou definitivamente na História, marcando todos os golos numa histórica vitória de 4-0! No total “facturaria” 18 golos nessa época, ou seja, um terço dos golos que marcou tiveram o Benfica como vítima.

Mas o inepto Pinto de Magalhães achou que podia dispensar o “Doc”, que ganhava bom dinheiro, como é bom de ver, e remediar-se com a prata da casa António Teixeira. A aposta sair-lhe-ia furada, como se veria na época seguinte.
E Tommy Docherty regressou ao Reino Unido, ainda faltava uma ou duas jornadas para terminar o campeonato, já que entretanto a Federação Escocesa lhe acenara com um convite para o cargo de seleccionador. Passados poucos anos regressaria às Antas, à frente do Manchester United, para disputar um desafio particular que terminou 0-0. O grande Bobby Charlton, já no ocaso da sua magnífica carreira, jogou nessa partida e foi fartamente ovacionado pelo público portista, que já nessa altura sabia apreciar futebol.

Quanto ao “Doc”, mesmo já retirado, nunca saiu verdadeiramente da ribalta, sendo as suas “bocas” muito apreciadas pelo público inglês. O “nosso” José Mourinho, rapaz humilde como todos sabemos, também teve direito, quando treinava o Chelsea, a um “dochertiano” dito: “Se fosse feito de chocolate, José Mourinho lamber-se-ia a si próprio da cabeça aos pés!”.

Nota: Mudei o título destas crónicas, por este me parecer mais adequado.

sábado, 19 de abril de 2008

FCP/SLB: Fragmentos


Os jogos entre o FCP e o SLB foram quase sempre muito intensos, mesmo no período em que o SLB tinha uma equipa muito superior à nossa, mas não só: o SLB tinha uma organização muito superior, comandava as instituições que lideravam o futebol (os bastidores, também) e os seus jogadores (nomeadamente o capitão: Coluna) tinham uma clara ascendência sobre os árbitros.

Mas, houve jogos que recordo e que por razões diferentes guardei na memória. As emoções sentidas foram tão fortes que nem os mais recentes sucessos as retiraram do cantinho que lhes destinei nesta caixa de memórias, já um pouco enferrujada.

1. Não tenho certa a época. Mas, lembro-me bem que saí do jogo pior que estragado. Sei que o SLB veio jogar às Antas, já campeão e nas vésperas de um importante jogo para a Taça dos Campeões. Apresentou a sua equipa de reservas, na totalidade. Deu-nos um baile de bola e ganhou três a zero; creio que foi a primeira mão de um jogo para a Taça de Portugal. Que frustração (quase vergonha) senti nesse dia!

2. (1959/60) Perdíamos por 2-0, a poucos minutos do fim. Fizemos 2x1, já sobre o fecho do encontro. O tempo esgueirava-se rapidamente. Tudo se passou em poucos segundos. A bola foi ao centro e o SLB perdeu-a quase de imediato, tendo sobrado para Luís Roberto que dominou o esférico, rodou, olhou para a baliza, enquadrou-se com ela e chutou de imediato, com violência, quase do meio campo. Saiu um (meio) chapéu de aba muito larga : a bola ultrapassou o guarda redes do SLB, deu na trave e entrou. Foi o 2-2. Logo a seguir acabou o jogo, a bola nem foi ao centro. Foi um delírio. Valeu como uma vitória.

3. (1962/3) Num campeonato em que o FCP vinha tendo uma prestação muito interessante e se situava no primeiro lugar do campeonato, ocorreu nas primeiras jornadas da 2ª. Volta, o FCP/SLB. O árbitro escolhido foi o Sr. Reinaldo Silva. O jogo corria algo lento e muito equilibrado. Um passe para a área do FCP, Torres e Rolando disputaram a bola: Torres caiu e o árbitro marcou gp contra o FCP. Uma apitadela estridente que baixou a moral das nossas tropas. Não tivemos força de reacção e perdemos. O SLB controlou o resto do jogo que Reinaldo Silva comandou sempre, com a sabedoria e a imparcialidade próprias dos árbitros da época.

4. (1968/9) Num Domingo de chuva e com o terreno pesado, o nosso treinador resolveu colocar no lugar de avançado centro um jogador angolano que prometia muito, mas nunca confirmou o potencial que realmente tinha. Era rápido, possante e rematava bem. Marcou a mais de trinta metros o golo do FCP, que deu a vitória por 1-0. Um golo fantástico e muito raro no futebol português. Provavelmente, o seu único momento de glória. Seu nome : Naftal. Mais um que não foi capaz de atravessar, com êxito, os sinuosos caminhos da fama. Perdi-lhe o rasto, completamente.

5. (1970/71) Era habitual no passado, algumas marcas fazerem publicidade através da instalação sonora do Estádio das Antas. Era a Belarte a entidade a quem o FCP “vendia” o tempo e o espaço publicitário. Um dos patrocínios (nos jogos mais importantes) consistia na oferta de produtos variados, conforme os jogadores marcassem um, dois, três, ou mais golos. Todos nos rimos quando o speaker habitual informou que qualquer jogador do FCP que marcasse mais de 3 golos, nesse jogo com o SLB, receberia um carro duma marca que não recordo. O FCP fez um grande jogo, nesse dia. Lemos fez uma exibição fantástica e marcou os 4 golos. Ganhou o carro, mas não ganhou uma carreira. Lemos era um jogador baixo, forte e possante. Prometia muito, fez alguns bons jogos, mas acabou precocemente. Foi pena!

Entre 1952 e 1974 - retirados da colectânea de autoria de Alfredo Barbosa que saiu com o Comércio do Porto - foram estes os resultados entre FCP/SLB : 1952/3 : 2-1 ; 1953/4 : 5-3 ; 1954/5 : 3-0 ; 1955/6 : 3-0 ; 1956/7 : 3-0 ; 1957/8 : 1-0 ; 1958/9 : 0-0 ; 1959/60 : 2-2 ; 1960/1 : 3-2 ; 1961/2 : 2-1 ; 1962/3 : 1-2 ; 1963/4 : 1-1 ; 1964/5 : 1-0 ; 1965/6 : 2-0 ; 1966/7 : 1-1 ; 1967/8 : 1-1 ; 1968/9 : 1-0 ; 1969/70 : 1-2 ; 1970/1 : 4-0 ; 1971/2 : 1-3 ; 1972/3 : 2-2 ; 1973/4 : 2-1 .

Resumo : 13 V ; 6 E e 3 D, entre a inauguração do Estádio e o 25 de Abril. Nem no período em que o SLB dominava o panorama do futebol no país, o FCP deixava de mostrar os seus pergaminhos. Era uma questão de honra, que ainda se mantém. Em casa, mandamos nós.

No Domingo joga-se mais um FCP/SLB. Uma rivalidade de sempre, que a relação de amizade com Fernando Martins esbateu, quando este foi presidente do SLB. De resto, é um jogo de emoções que os portistas assumem como uma questão de honra. Apesar de já sermos campeões, este ano não vai ser excepção. Pelo contrário, contornos especiais rodeiam o jogo, em função da intromissão e influência do SLB no Apito Dourado, no Apito Final e depois dos dramáticos SOS endereçados ao MP e à PJ para lhes salvarem a época. Muitos querem que este jogo seja uma espécie de ajuste de contas. Eu também, mas apenas no plano desportivo. Espero ganhar, jogar bem, não quero pensar em perder e muito menos que haja violência, seja qual for o resultado. Campeões, nós somos campeões e gostaria que nos comportássemos com tal, dentro e fora do campo.

(1) Fotos do árbitro Reinaldo Silva e dos jogadores Rolando e Lemos