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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Parabéns Beto!






P.S.1 A RTP 1, a SIC e a TVI, que passaram o dia com uma programação de alienação colectiva centrada no Benfica, que interromperam os telejornais no intervalo do SL Benfica x Sevilha (entre as 20:30 e as 20:45), para fazer directos em locais onde se encontravam benfiquistas a assistir à Final, quando o jogo acabou puseram no ar… telenovelas.

P.S.2 A RTP, uma empresa 100% pública, paga pelos contribuintes portugueses, enviou quatro (!) jornalistas para Turim (Carlos Daniel, Noé Monteiro, Alexandre Albuquerque e outro que não fixei o nome), mais os respectivos operadores de câmara e um manancial de meios humanos e técnicos de apoio. Durante um telejornal, cheguei a ver três destes jornalistas a entrarem em directo (um estava nas imediações do estádio, outro à porta do hotel onde ficou o SLB e o terceiro andava pelas ruas de Turim a entrevistar benfiquistas). E tudo isto, quando a televisão que detinha os direitos de transmissão da Liga Europa era a SIC.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A propósito de Viena: Hermann Stessl


A deslocação do F.C. Porto a Viena trouxe à ribalta um nosso antigo treinador de nacionalidade austríaca, Hermann Stessl. Este antigo jogador do Grazer AK chegou cá em 1980 trazendo na bagagem dois recentes títulos de campeão austríaco pelo grande rival do nosso adversário de hoje, o Austria de Viena. E mais tarde, depois de deixar o F.C. Porto, conquistaria mais dois campeonatos da Áustria pelo mesmo clube. Além disso, levara o Austria à Final da Taça das Taças de 1977/78, que perdera (0-4) contra o Anderlecht, que por sinal nos eliminara nos quartos-de-final.


Mas pese embora o aparente bom augúrio de ser austríaco - coisa bem vista no clube desde que o bem-aventurado Béla Guttmann (austro-húngaro de nascimento) nos dera o título em 1958/59 (*) - a verdade é que Stessl (Stélce, em português do Tribunal das Antas) não chegou ao Porto na melhor das alturas. O Verão Quente das Antas estava ao rubro e coube ao desamparado austríaco substituir nada mais, nada menos, que José Maria Pedroto. E as coisas não lhe correram, de facto, pelo melhor, embora o constante ambiente de atrito que na altura se vivia no clube tenha de funcionar como atenuante. Na primeira época até conseguiu um segundo lugar a apenas dois pontos do campeão (o Benfica), mas na segunda cairia para o terceiro lugar -um dos três títulos do Sporting nos últimos 30 anos, com o Benfica em segundo. Em 1981 perderia também a Final da Taça de Portugal (3-1) para o Benfica, que nessa altura ainda fazia "dobradinhas".


Em Abril de 1982 Jorge Nuno Pinto da Costa foi eleito Presidente do F.C. Porto. Não era segredo para ninguém que José Maria Pedroto, nessa altura a treinar o Guimarães, regressaria ao clube se Pinto da Costa chegasse a presidente. E assim foi: no final da época Hermann Stessl e os seus adjuntos Ferdinand Smetana e Hernâni Gonçalves rescindiram "amigavelmente".


No fundo, e sem que isso fosse culpa dele, pode dizer-se retrospectivamente que Hermann Stessl serviu no F.C. Porto de tapa-buracos enquanto o Zé do Boné não regressava. Não se pode dizer que o seu futebol algum dia tenha empolgado os adeptos, mas dele ficou a imagem de um homem sério e cortês. Ainda haveria de passar pelo Boavista e pelo V. Guimarães, mas sem fazer história.


Hoje em Viena quase me arriscaria a dizer que Stessl estará a torcer pelo F.C. Porto. Não faltam motivos...



(*) Aquando da contratação de Hermann Stessl, Pinto da Costa, na altura na "oposição", desabafaria: "Estava a ver que o Dr. Américo Sá ainda ia desencantar mais uma vez o Béla Guttmann numa qualquer esquina de Viena!" (Guttmann voltara ao clube pela mão de Américo Sá em 1973, com 73 anos de idade, e contava na altura 80 anos).


Foto: Blogue "Paixão pelo Porto"

terça-feira, 17 de março de 2009

Mourinho e a Maldição de Béla Guttmann


Não tenho grande paciência para os eufemismos da moda “politicamente correcta”, devo dizer. Entre nós essa moda até o próprio futebol já impregnou, e quem ousar desafiá-la poderá até, conforme os casos, ser considerado um pária ou um traidor à pátria.

Na galeria dos intocáveis do discurso politicamente correcto futebolístico português destaca-se o inefável José Mourinho, o auto-denominado “Special One”, personagem que, especialmente nos media lisboetas, que o execravam quando treinava o F.C. Porto, chega a levar ao êxtase quem dele fala ou escreve. A cada intempestiva e agressiva (normalmente descrita pelo eufemismo “frontal”) declaração do homem – e são muitas em cada época futebolística – lá vêm os clichés dos basbaques: “Mourinho Igual a Si Próprio!”, “Mourinho Responde à Letra!” (esta última, então, é particularmente curiosa, pois é ele quem normalmente dá início às provocações).

A semana passada, vergado ao peso da eliminação (mais uma) da Liga dos Campeões, ei-lo que se sai com esta na conferência de imprensa pós-jogo: “Se ganhar o campeonato de Itália esse será o melhor prémio da minha carreira!” Ninguém obviamente acredita na sinceridade desse propósito. Muitos, pelo contrário, lerão nas suas palavras o eco da proverbial raposa de La Fontaine: “estão verdes, não prestam; só os cães as podem tragar!” Além disso, essa frase é uma bofetada nos adeptos do F.C. Porto, pois parece retirar o devido relevo ao triunfo na Liga dos Campeões em 2004, já para não falar nos do Chelsea, cujo clube não era campeão desde 1955 quando Mourinho lá chegou, e que decerto considerarão o título de campeão inglês de 2004/05 mais importante que aquele que o Inter provavelmente conquistará esta época em Itália.

Mas essa frase teve o condão de despertar em mim a recordação de uma “maldição” sobre ele lançada por alguns portistas após as suas fitas no termo da célebre Final de Gelsenkirchen, em que praticamente se recusou a participar nos festejos e na euforia geral. Esses portistas, entre os quais garbosamente me encontro, inspirando-se no mago Béla Guttmann, lançaram-lhe a seguinte praga: “Este gajo nunca mais ganhará a Liga dos Campeões, a não ser que algum dia regresse ao FC Porto” (coisa pouco provável). Convém aqui recordar que o célebre treinador austro-húngaro, cujo nome honra também a história do F.C.P., ao abandonar o cargo de técnico do Benfica, depois de lá ter ganho as duas Taças dos Campeões Europeus que se sabe, terá declarado: “Sem a minha pessoa estes gajos nem daqui a cem anos voltam a ser campeões europeus!”

E, de facto, ano após ano os percursos de José Mourinho na Liga dos Campeões estão a tornar-se um verdadeiro calvário. Este ano sucumbiu até bastante cedo, logo nos oitavos-de-final. Teve azar com o adversário – dirão alguns. Mas este argumento despreza o simples facto de que, se lhe saiu tamanho adversário, tal se deveu à pobre carreira do Inter na fase de grupos, onde teve de defrontar, além do Werder Bremen, os gigantes Panathinaikos e Anorthosis Famagusta. E na época passada foi despedido do Chelsea precisamente depois de um comprometedor empate em casa na fase de grupos contra o Rosenborg. Ironia das ironias, foi pela mão do sucessor de Mourinho, Avram Grant, que o Chelsea acabaria por atingir a Final de Moscovo, onde só perdeu por penalties. Estava escrito que a equipa não seria dirigida naquele jogo pelo “melhor treinador do mundo”, título frequentemente atribuído ao rabugento sadino pelos nada chauvinistas media portugueses.

Nesta altura levantam-se algumas dúvidas acerca da continuidade de “Mou” (como afectuosamente lhe chama a imprensa transalpina) à frente do Inter na próxima época. Uma coisa é certa: clube que pense em contratá-lo fará melhor em ler este artigo primeiro!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O caso Calabote (VII)

I. A trajectória da bola e as decisões da FPF
II. A pouco inocente nomeação de Calabote
III. Os estágios das selecções em... Lisboa
IV. Treinador-adjunto do SLB no banco do Torreense
V. Deus deu o campeonato à melhor equipa
VI. Um Gama avermelhado na baliza da CUF

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VII. Treinador do FC Porto comprometido com o SLB



No dia 1 de Novembro de 1958, com a época 1958/59 já a decorrer, chegou ao aeroporto da Portela um treinador que haveria de marcar o futebol português – Béla Guttmann.

O “mago”, como ficou conhecido, nasceu a 13 de Março de 1900, em Budapeste, e antes de chegar a Portugal para substituir o treinador do FC Porto – Otto Bumbel – já fora campeão na Hungria, Roménia e Brasil.

Guttmann era um treinador caro e, conforme conta A Bola, na 'Glória e Vida de Três Gigantes', «exigia que lhe pagassem como não se pagava a mais ninguém no mundo do futebol. (...) Para o F. C. Porto veio ganhar 300 contos por ano, exigindo também 100 contos de prémio pela conquista do Campeonato.»

Dispondo de grandes jogadores e impondo uma disciplina de ferro (na linha do que Yustrich tinha feito três anos antes), Guttmann rapidamente transformou o FC Porto na melhor equipa do futebol português e ao fim de algumas jornadas já tinha recuperado o atraso de cinco pontos com que partiu em relação ao Benfica.

Satisfeitos com o seu trabalho, os dirigentes do FC Porto abordaram-no várias vezes para renovar o contrato, ao que Guttmann retorquia dizendo que havia tempo. Esta posição de Guttmann era estranha e pouco habitual mas, veio-se a saber depois, havia fortes razões ($$$) por trás.

De facto, o trabalho de Guttmann não era só apreciado nas Antas. Na capital, os dirigentes do todo poderoso SLB não olhavam a meios e, apesar do bom relacionamento que havia entre os presidentes dos dois clubes – Dr. Paulo Pombo e Eng. Maurício Vieira de Brito – não se coibiram de secretamente, com o campeonato ainda a decorrer, contactarem o treinador húngaro naturalizado austríaco oferecendo-lhe um contrato significativamente superior ao que tinha no Porto para ir treinar as “águias” (de rapina!) na época seguinte.

Pedroto e Bela Guttmann


«Béla Guttmann, que pela vitória no Campeonato recebeu de um dirigente portista um emblema do F. C. Porto de... diamantes e por essa altura já sabia que seria treinador do Benfica na época seguinte»
in 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA

«ao fazer a festa, sem que alguém sequer desconfiasse disso, Béla já tinha escolhido outro caminho, trocando o F. C. Porto pelo Benfica, num processo pouco leal»
in '100 figuras do futebol português', A BOLA

O aliciamento feito por Vieira de Brito ao treinador do clube com quem o SLB estava a disputar o título taco-a-taco, é mais um dos episódios fora das quatro linhas em que essa época foi fértil e mostra bem do que os dirigentes encarnados eram capazes.
Os benfiquistas alegam que isso não impediu o FC Porto de se sagrar campeão. Pois não, até porque Guttmann gostava muito de dinheiro e o contrato com os azuis-e-brancos previa um prémio de 100 contos pela conquista do campeonato...

«[Otto Glória] Ficou até 1958/59, estruturando o plantel que se sagraria depois Bicampeão Europeu. Não completou a temporada, pois havendo rumores da contratação de Bela Guttmann, decidiu sair do Benfica no ultimo dia de Junho de 1959, deixando a nossa equipa apurada para os quartos-de-final da Taça de Portugal.»
in ‘Há 92 anos nasceu Otto Glória’, O Benfica, 09/01/2009

Os rumores do acordo entre o SLB e Guttmann eram cada vez mais fortes e insistentes. Sabendo disso, no dia 13 de Junho de 1959, o ainda treinador do Benfica – Otto Glória – fechou contrato com o Belenenses para a época seguinte, sujeitando-se a um salário de 10 contos por mês (menos que aquilo que o Benfica lhe pagara cinco anos antes, na sua época de estreia em Portugal).

Apenas cinco dias depois, no dia 18 de Junho de 1959, ‘A Bola’ publicou uma noticia “sensacional”, dando como quase certa a transferência de Béla Guttmann do FC Porto para o Benfica!
Já na altura havia um canal de comunicação bem oleado entre a Travessa da Queimada e o estádio da Luz...

No dia 2 de Julho de 1959, ‘A Bola’ confirmou a saída de Béla Guttmann do FC Porto e a sua contratação pelo Benfica. Segundo a “bíblia dos benfiquistas”, o divórcio foi amigável porque “ambas as partes quiseram poupar dinheiro”.
Conforme se constata, a manipulação jornalística vem de há muito anos...

A final da Taça de Portugal, disputada em 19 de Julho de 1959, voltaria a colocar frente a frente os dois clubes de Guttmann. O que ainda lhe pagava o ordenado e aquele que já o tinha contratado para a época seguinte.
Do outro lado, quem se sentou no banco para orientar os encarnados nessa final foi Valdivielso (lembram-se dele?).

O FC Porto de Guttmann era, reconhecidamente, a melhor equipa do futebol português (rever, por exemplo, as declarações dos jogadores do Benfica B... perdão, Torreense), mas nesse jogo com o Benfica a equipa apareceu estranhamente abúlica e perdeu 0-1.
Ninguém poderá provar que Guttmann já estava a pensar mais no Benfica do que no FC Porto (ou, como diria Luís Filipe Vieira, a fazer as coisas por outro lado...), mas há quem lembre que, ao contrário do campeonato, o seu contrato com os “dragões” não previa um prémio chorudo pela conquista da Taça de Portugal...

Antes de sair do FC Porto, o novo treinador do SLB ainda teve tempo de fazer duas “maldades”, dispensando dois grandes jogadores:

• José Augusto, que veio do Barreiro treinar às Antas e que foi aconselhado por Guttmann a fazê-lo… na Luz (este facto pode ser atestado num artigo do jornalista Carlos Pinhão, em ‘A Bola’, de 08/09/1990);

• Osvaldo Silva (colocado na lista das transferências), o qual iria para o Leixões e, posteriormente, para o Sporting.

Quase clandestinamente, sem dizer nada aos directores azuis e brancos, Guttmann lá rumou a Lisboa, onde já tinha casa alugada. Deixou uma carta onde explicava que era por causa do clima frio do Porto e do nevoeiro, que lhe tinha provocado crónicas dores nas costas. Necessitava, por isso, do sol do sul...

Haveria de voltar ao Porto 14 anos depois, em 1973, devido à memória curta de um presidente do FC Porto - Américo de Sá -, que o convidou para treinar novamente os “dragões”. Apesar de já ser um septuagenário, nessa altura o “clima frio do Porto” não foi um óbice...

Guttmann foi para o SLB ganhar 400 contos líquidos por ano e prémios de 150 contos pela conquista do Campeonato, 50 pela Taça de Portugal e 300 pela Taça dos Campeões.
Para se ter uma ideia da dimensão destes montantes, a vitória sobre o Barcelona, em Berna (1960/61), rendeu a Guttmann 10 vezes mais que a maquia que coube a cada um dos jogadores do SLB.

O desvio de Guttmann (como lhe chamou Carlos Pinhão em ‘A Bola’), foi crucial para a construção do Benfica europeu, equipa que dominou o futebol português durante a década de 60. Recorde-se que os dois únicos títulos europeus da história do SLB foram ganhos com Guttmann como treinador (há quase 50 anos...) e no primeiro ainda nem sequer havia Eusébio.

Em 1964, Guttmann veio passar o Natal a Lisboa, tendo nessa altura afirmado:
“(...) fui eu que cozinhei o Benfica europeu, de que, depois, vieram outros comer. Ganhei o campeonato europeu com jogadores como Neto, Saraiva, Serra, Artur, Mário João... E agora que squadra tem o Benfica? Só Serafim ficou mais caro que todas as aquisições feitas no meu tempo: o Eusébio, o Torres, o Germano, o José Augusto. E não tem jogado”.

(continua: Jornalistas de 'A Bola' lamentam título ganho pelo FC Porto)

Fontes:
[1] '100 figuras do futebol português', A BOLA, 1996
[2] 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA, 1995
[3] 'História dos 50 anos do desporto português', A BOLA, 1994
[4] 'Carta de Adriano Lima a Rui Moreira', dragaodoente.blogspot.com, 2008


Fotos:
'100 figuras do futebol português'
'Glórias do Passado'
'Planeta do Futebol'