Quando uma equipa está a noventa minutos - por culpa própria - do jogo mais importante do ano, é normal que os adeptos sintam nervos. Estranhamente, entre muitos portistas, a sensação a pouco tempo do apito inicial no Bridge foi de tudo menos nervos. Resignação, estupefacção, raiva e desanimo. De nervos, nada. Julen Lopetegui logrou o impensável. Não só a incapacidade de colocar a sua equipa a demonstrar todos os seus argumentos nos dois duelos directos contra o rival real do grupo - o Dínamo Kiev - hipotecou um apuramento que, depois da grande vitória contra o Chelsea no Dragão parecia inevitável - como ficou claro que o espanhol, como treinador de elite, é um zero à esquerda.
Todos os treinadores sabem que o futebol é um universo complexo onde o papel da rotina é fundamental para o êxito. Treinam-se as mesmas jogadas vezes sem conta. Procuram-se os modelos tácticos perfeitos, ás vezes com, ás vezes sem plano B, e insistem-se neles durante o ano porque é na assimilação de rotinas e no trabalho de grupo que um plantel se transforma nesse microcosmos que é um Onze bem sucedido. O b-á-b-á do futebol é esse mas no dia em que se deu essa aula, Lopetegui devia ter ficado em casa porque não assimilou perfeitamente a lição. No FC Porto estamos já vacinados com as "invenções" quando se viaja a Inglaterra. O de hoje, em Londres, é apenas mais um capítulo repetido até à exaustão. Mas tem o "demérito" de deixar a nu a completa ignorância de um treinador na gestão dos seus recursos. O FCP tem de ganhar? Joga-se sem avançado. O FC Porto vai medir-se contra uma equipa que vive das transições largas? Coloca-se uma defesa de três afastada quilómetros entre si e com um espaço brutal com o meio-campo para Diego Costa mover-se à vontade. Aposta-se em dois criativos pelas alas, como Brahimi e Corona e depois lançam-se três médios que não conseguem aparecer para finalizar um só lance desde atrás. Não houve absolutamente nada que Lopetegui tivesse feito bem no desenho inicial e no decorrer do encontro e só um Chelsea frágil psicologicamente e a anos luz do seu real potencial podia medir-se a uma equipa assim e não sacar uma vantagem superior. Lopetegui pode agradecer a Mourinho que este não seja Guardiola que, no ano passado, depois de ter perdido o primeiro jogo, colocou o basco no sítio. Um sítio que a História não vai, seguramente, recordar.
O Porto jogou mal, o Chelsea não jogou muito melhor e pouco mais haveria a dizer por um jogo decidido por detalhes mas onde, desde o princípio, ficou evidente que havia uma equipa a sério e uma a brincar sobre o relvado. Sem profundidade e atitude, o FCP foi em Londres muito parecido ao que tinha sido na semana de Munique-Lisboa, uma equipa com mais medo a perder do que demonstrando vontade de ganhar. Uma equipa sem carácter e sem um plano de jogo concreto que tentou povoar as zonas do terreno longe da área porque, já se sabe, os golos no futebol são acessórios.
Perante essa invenção que foi o 3-5-2 com Layun e Maxi como extremos e um meio-campo sem um pingo de futebol na cabeça (e nos pés) no centro, o Chelsea sempre esteve cómodo. Marcou cedo depois de um excelente passe em profundidade à procura do oceano de relva entre Danilo e Marcano ter encontrado Diego Costa. O bronco avançado hispano-brasileiro fez do central espanhol o que quis - no fundo fez dele o que é, um central competente mas não fadado para grandes noites - e depois disparou para uma defesa de Casillas que, noutras circunstâncias podia ter sido providencial. Não foi. O Santo que acompanhou Iker em toda a sua carreira até 2012 desapareceu por completo como se viu em Kiev, no Dragão e agora em Londres. A bola bateu com estrondo em Marcano, voltou para trás e Maicon (que como Indi estava muito longe da área quando o lance começou) não chegou a tempo de evitar um golo claro e bem assinalado. Podia ter sido um golo de azar mas foi um golo de incompetência, tanto no esquema de três centrais que não se ajudaram como na forma como Marcano abordou o lance. Um lance perfeitamente exemplar das "lotepeguices" cada vez mais habituais.
Para a primeira parte o Chelsea tomou a iniciativa - ao Porto a vontade de empatar nunca se viu, realmente - e Oscar reclamou um penalty que podia ter sido bem assinalado com os laterais absolutamente expostos, sobretudo Maxi, ao jogo vertical dos ingleses. Das bolas paradas venenosas de William não saiu nada evidente e o Porto podia agradecer ter chegado ao intervalo a perder apenas por um. Isso sim, Lopetegui tinha motivos para estar orgulhoso, a equipa tinha acabado com mais posse de bola. Algo é algo.
Claro que o Chelsea ia marcar outro e foi de novo, ao principio de uma segunda parte - onde o discurso de Lopetegui deve ter sido o equivalente a uma homilia pascal tal foi a forma motivada e diferencial com que a equipa saiu - a anotar com um excelente disparo de um William sempre hábil a aproveitar os espaços provocados pelo mágico 3-5-2.
A saída de Imbula - que, seguramente, jogou por indicações superiores porque é precisar valorizar activos por quem o clube não pagou um tostão para outros lucrarem - e de Maxi eram evidentes e chegaram um golo tarde. O Chelsea podia ter goleado, a tal ponto que nos últimos vinte minutos mais parecia um jogo de treino com um Porto incapaz de criar sequer a sensação de perigo - como contra o Dínamo - deixando claro que os londrinos mereciam passar. Os ucranianos mereciam passar. Os Dragões, não!
No final fica claro que esta derrota era algo natural e expectável. Todos sabem que o Porto não foi eliminado em Londres. Nunca poderia sê-lo porque o rival não era o Chelsea nem na sua pior versão. A péssima gestão de Lopetegui contra um Dínamo de Kiev a roçar o vulgar marcou o destino da equipa. Lopetegui está no Porto para ganhar títulos, valorizar activos e a marca do clube. Títulos, até agora, nem vê-los e não se pode sequer dizer que esteve realmente perto de os conseguir. A valorização de activos foi um dos seus pontos positivos em 2015 mas nesta temporada tem-se assistido precisamente ao oposto, a progressiva desvalorização de jogadores cuja venda dependerá de uma mão amiga e de uma fantástica engenharia financeira. Já o nome do clube, é outra coisa e muito mais séria. Lopetegui é o treinador que apenas logrou uma reviravolta em ano e meio, que fez da Madeira uma via sacra, que não conseguiu ganhar a Jesus e que nos jogos fora na Europa é quase sempre vulgarizado pelo treinador rival. É, sobretudo, um homem que parece ter tantas ideias na cabeça que acaba por não aproveitar nenhuma. Não se decidiu ainda por um sistema táctico (estamos em Dezembro e o 4-3-3, 4-2-3-1, 4-4-2 e o 3-5-2 já andaram por aí) nem por um onze tipo e não fosse a voluntariedade de André André e a boa forma outonal de Aboubakar e talvez fosse já um cadáver desportivo ambulante.
Naturalmente o jogo partiu-se. O Porto tentou atacar com mais critério. Ter Brahimi, Rúben e uma referência na área ajuda, mas os espaços atrás continuavam a ser aproveitados pelo Chelsea para criar perigo. Um cenário onde Mourinho sempre se sente cómodo.
Esta eliminação supõe um importante rombo nas contas do clube que usa, regularmente, as verbas da Champions como garantias para pagar os empréstimos que utiliza para pagar os salários dos jogadores que não paga porque estão vendidos ao chegar. É também um rombo na imagem internacional do clube, tendo em particular conta que o rival era o Dínamo de Kiev e que o Benfica, com um Dínamo de Kiev no seu grupo (o Galatasaray) não teve o mesmo problema e apurou-se como inevitável segundo. É igualmente um rombo tremendo na moral dos adeptos a quem pouco lhes importará a Europa League e que coloca ainda mais pressão na corrida pelo campeonato onde, inevitavelmente, Lopetegui continua atrás de Jesus por inoperância própria. É um momento importantíssimo para o clube. Assumir o desastre na Europa (que era há quinze dias previsível), apostar todas as fichas no campeonato e começar a pensar num futuro sem Lopetegui, um treinador de segunda linha com um padrinho importante e um presidente que parece estar a perder totalmente o norte na eleição de treinadores. Entre Nuno, AVB e Marco Silva está a coisa e Julen já o sabe. Hoje cavou a sua própria sepultura. O Porto, esse, é grande demais para não sobreviver a um tropeção pontual. Para o ano há mais Champions e, esperamos, mais motivos para sorrir.


























