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sexta-feira, 30 de junho de 2017

“Ando a falar da benfiquização do futebol português há anos”

Rui Santos num dos programas 'Tempo Extra'

«O polémico “caso dos emails” foi o principal tema do último programa “Tempo Extra” da SIC Notícias. Rui Santos defende que a influência do Benfica sobre as várias instituições do futebol é algo que vem de trás


Eu diria que depende dos dias mas, sim, há muitos anos que o Rui Santos fala na influência do SLB sobre as várias instituições do futebol.

Recuemos nove anos. Em 16-05-2008, numa crónica publicada no jornal Record, Rui Santos escreveu o seguinte:

«Acredito que o achamento de Cunha Leal foi o atalho encontrado para condicionar os excessos de Valentim Loureiro. Mas, nesta pretensa “nova era”, não faz sentido um jurista (seja ele qual for) pôr o seu “fundamentalismo clubístico” como instrumento manipulador de massas acríticas.
As cunhas desleais não honram o futebol nem os lugares, quando se percebe que o objectivo é prejudicar o FC Porto»

Valentim Loureiro, Cunha Leal e o poder na Liga de Clubes (entre 2002 e 2006)

E uns dias depois, perante a reação indignada da “virgem ofendida”, Rui Santos voltou à carga e foi ainda mais claro:

«Cunhal Leal está indignado. Tem toda a razão para estar. Ele foi mandado para a Liga pelo presidente do Benfica para contrariar o poder do major. Convenhamos que é um grande azar, sobretudo quando quem o mandou para a Liga confessou, perante a estupefacção geral, que seria porventura mais importante ter alguém naquele organismo do que contratar bons jogadores.
O estigma não fui eu quem lho pus. Aceitou-o, porque sabe muito bem ao que foi e não se pode confessar enganado. Se não soubesse ao que ia e se cumprisse o seu dever de isenção, não teria autorizado a farsa que constituiu a marcação do Estoril-Benfica para o Algarve, na jornada 30 do campeonato de 2004-05, cujo desfecho foi decisivo para a atribuição do título nessa temporada.
A sua credibilidade morreu nesse momento. Quem consente um escândalo dessa natureza (embrulhado noutros escândalos da época), quem se cala perante uma situação potencialmente subversiva, inquinando a verdade desportiva, não tem um pingo de moral para vir falar agora, como especialista de coisa nenhuma, a não ser o de defender interesses de um só clube e de uma só cor, de qualquer tipo de regulamentos, numa clara manobra de visar o FC Porto.
As “criadas de servir” dos clubes são, também, na Liga ou na FPF, grandes responsáveis para o estado lamentável a que o futebol chegou


Para quem não sabe, ou já não se lembra, Cunha Leal é um ex-dirigente do SLB, tendo ocupado, entre 2002 e 2006, um dos lugares-chave da estrutura do futebol português – o de Diretor Executivo da Liga.

Durante esses anos foi, juntamente com João Rodrigues (antigo presidente da FPF, cargo que ocupou entre 1989 e 1992), uma das peças mais importantes no xadrez benfiquista, tendo sido decisivo no caso Ricardo Rocha e na aceitação da transferência do jogo Estoril x SLB para o estádio do Algarve.

Árbitros escolhidos por João Rodrigues

Hoje pode parecer estranho mas, na altura, vivia-se na Liga o período de ouro da aliança entre o Boavista dos Loureiros (pai e filho) e o SLB de Luís Filipe Vieira, uma santa aliança forjada contra Pinto da Costa e contra o FC Porto, em que uma das primeiras vitimas foi José Guilherme Aguiar, o anterior diretor executivo da LPFP.

Fui convidado por Valentim Loureiro, mas provavelmente por indicação do Benfica
Cunha Leal, 2 junho de 2002

Em consequência da operação ‘Apito Dourado’, Cunha Leal substituiu o Major Valentim Loureiro na presidência da LPFP, com o beneplácito do presidente da Assembleia Geral da Liga, o também benfiquista Adriano Afonso.


Os e-mails divulgados abrangem as últimas quatro épocas (2013/14 a 2016/17), mas o “polvo encarnado” não nasceu em 2013. Na realidade, começou a ser criado muito antes, por alturas do início deste século. Daí para cá foi crescendo, com cada vez mais “tentáculos” e expandindo-se para todas as áreas do futebol português - Liga, órgãos de Disciplina e Justiça da FPF, delegados dos jogos, estruturas da arbitragem responsáveis pela nomeação e avaliação dos árbitros, observadores, APAF, etc.

A coisa atingiu tal dimensão e visibilidade, que o próprio Rui Santos, na parte final da época 2014/2015 (a célebre época do colinho), desabafou na SIC: “Não gosto de ver campeões forjados desta maneira”.

Época 2014/2015, Liga Real, Jornada 32 (fonte: SIC/Tempo Extra)

A grande novidade dos e-mails não foi revelar que havia (há) uma vasta rede subterrânea a “trabalhar” em prol do SLB. Mesmo sem termos acesso às provas digitais/documentais que foram divulgadas nas últimas semanas (quer pelo FC Porto, quer pelo jornal Expresso), isso há muito tempo que era óbvio.

O grande mérito dos e-mails é, sim, identificar vários dos rostos da rede, identificar uma parte relevante das “criadas de servir”, revelar as ligações existentes (que envolvem os mais altos responsáveis do SLB) e mostrar o refinamento a que se chegou nos métodos adoptados. Tudo para se conseguir forjar um treta campeão.

Agora, compete à Unidade Nacional de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária dar continuidade e, a partir de indícios sérios de tráfico de influências, aprofundar a investigação a todos os “tentáculos” deste “polvo”. Haja vontade de o fazer.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Guilherme, o submisso

1. «A SIC noticiou no seu telejornal das 20 horas que a inscrição de Ricardo Rocha foi irregular, o que acarreteria para o clube [slb] a perda do segundo lugar na SuperLiga e da Taça de Portugal. Segundo a estação de Carnaxide, a inscrição do jogador terá sido efectuada antes do período regulamentarmente previsto e, assim sendo, Ricardo Rocha terá jogado ilegalmente em 2002/2003 e 2003/2004. Refere a SIC que o contrato foi assinado a 15 de Janeiro de 2002 e reconhecido notarialmente três dias depois, o que vai contra o estipulado no artigo 32º dos regulamentos da Liga, que determina que os contratos só podem ser assinados a partir de 1 de Abril. Os regulamentos da Liga determinam que os resultados dos jogos são homologados 30 dias após a sua realização, pelo que os encontros em causa são o Sporting-Benfica, o Benfica-Leiria, referentes às duas últimas jornadas da SuperLiga, e o Benfica-FC Porto da final da Taça de Portugal, ganha pela equipa lisboeta por 2-1.»

Estávamos em finais de Maio de 2004, no tempo em que a Liga de clubes era dominada por uma santa aliança (contra o FC Porto) boavista – benfica e, numa das edições do ‘Dia Seguinte’, discutia-se o caso da inscrição do jogador do slb Ricardo Rocha, a qual tinha sido validada pelo diretor-executivo da Liga, o benfiquista Cunha Leal.

Descontente com as opiniões dos comentadores do programa – Fernando Seara, Dias Ferreira e José Guilherme Aguiar –, a propósito das eventuais consequências resultantes da irregularidade na inscrição de Ricardo Rocha, Luís Filipe Vieira meteu-se no carro e dirigiu-se à SIC. Aí chegado, com a conivência, ou pelo menos sem que ninguém da SIC o impedisse, entrou intempestivamente no estúdio onde o programa estava a ser realizado e, perante o olhar atónito do moderador e dos três comentadores, dirigiu-se de forma grosseira aos elementos do painel do programa por, supostamente, estarem a dizer mentiras sobre o assunto.

Ninguém tira a Taça [de Portugal] e o 2º lugar ao Benfica”, vociferou um furibundo Vieira.
E ele tinha razão, porque a criada de servir que Vieira tinha colocado na Liga de clubes (“é mais importante ter pessoas na Liga do que contratar bons jogadores…”, lembram-se?), já tinha tratado do assunto.

Nenhum dos três comentadores os teve no sítio para enfrentar Vieira e depois levantar-se e sair. É verdade que Guilherme Aguiar disse umas coisas, mas de uma forma muito soft e, claro, continuou no programa.


2. No dia 15 de Setembro de 2008, João Gabriel, diretor de comunicação do slb, ligou para SIC e, obviamente com a autorização de alguém do canal de Carnaxide com poder para isso, entrou em direto no ‘Dia Seguinte’, tendo aproveitado para debitar a cartilha da propaganda encarnada e, adicionalmente, atacar o comentador portista.

Todos os “paineleiros” manifestaram o seu repúdio, por ter sido permitida a intervenção, via telefone, de um responsável do slb mas, apesar de ter sido o principal alvo, a Guilherme Aguiar voltou a faltar a dignidade suficiente para se levantar e sair. Reagiu dizendo que não estava agarrado ao programa e aos benefício$ que dele retirava, mas passado uma semana estava lá de novo.


3. Cinco meses depois, e na sequência de mais uma pressão pública com origem na direção do slb ("já vai sendo tempo de [Fernando Seara] dar lugar a alguém que defenda o clube, em vez de se preocupar com a sua promoção pessoal e eleitoral", declaração de João Gabriel na benfica TV), Fernando Seara aproveitou um convite da TVI 24 e saiu, desfazendo o trio fundador de comentadores que existia desde o início do programa (Agosto de 2003). Para o substituir, a SIC não esteve com meias medidas e, para agradar ao boss, escolheu um vice-presidente do slb e director da revista ‘Mística’ – Sílvio Cervan.

A partir daí a filosofia do programa mudou e entrou numa nova era, visto que um dos comentadores tinha relevantes responsabilidades institucionais e, consequentemente, passou a ser uma mera correia de transmissão da propaganda e recados da direção do seu clube.

Guilherme Aguiar nem pestanejou e continuou no programa.


4. Daí para cá houve mais duas mudanças significativas no ‘Dia Seguinte’: na moderação do programa, o jornalista João Abreu foi substituído por Paulo Garcia; e em representação do slb, Cervan foi substituído pelo “Tarzan”.

Desde o seu primeiro programa, foi notório o ódio profundo de Rui Gomes da Silva em relação ao FC Porto, bem como, a forma provocadora como se dirigia aos outros membros do painel (apesar de todos serem militantes do mesmo partido, o PSD).

Naturalmente, as discussões subiram de tom (imagino que para gáudio dos responsáveis da SIC) e, apesar do alvo ser o FC Porto, quem reagiu de forma mais vincada ao facciosismo doentio e postura incendiária do ex-número 2 de Santana Lopes foi sempre Dias Ferreira.


Assim, depois de já ter ameaçado bater com a porta anteriormente, no programa da passada segunda-feira Dias Ferreira voltou-se de lado/costas para Rui Gomes da Silva, o que desagradou ao “moderador” Paulo Garcia, tendo-se iniciado uma acesa discussão entre os dois (“eu também não gosto de si”, “o senhor não tem coragem é para afrontar outras pessoas”, etc.), a qual culminou num mediático abandono do programa em direto.


Chegados a este ponto, é caso para perguntar: e agora, Guilherme Aguiar?

Os seus compagnons de route Fernando Seara e Dias Ferreira já saíram.
Não me diga que depois de tudo aquilo que viveu no programa, depois do comportamento activo/conivente de elementos da SIC nos episódios mais lamentáveis, você vai continuar a dialogar normalmente com o “moderador” Garcia e com o seu “amigo” Rui, como se nada tivesse acontecido.

Ó homem, tenha um pingo de dignidade e respeito por si próprio e, se não quer bater com a porta em direto, alegue, sei lá, indisposição crónica, cansaço, saturação ou outra coisa qualquer, mas não volte a pôr lá os pés.

Olhe, se mais nada o convencer, lembre-se do saudoso Pôncio Monteiro e do comportamento notável que ele teve nos ‘Donos da Bola’, não por acaso um outro programa da redação de desporto da SIC.


P.S. Durante os primeiros anos, ‘O Dia Seguinte’ fazia-me lembrar os Marretas. Peço desculpa aos fans do The Muppet Show (eu sou um deles), por esta comparação quase insultuosa, mas quem via o programa deve lembrar-se dos dois “simpáticos” velhotes, que assistiam ao show de camarote e criticavam tudo e todos.
Depois praticamente deixei de ver o programa e a razão principal foi a postura dócil e submissa de Guilherme Aguiar, que me irritava mais que a postura venenosa de Fernando Seara ou a postura agressiva (por vezes trauliteira) de Dias Ferreira.