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sábado, 26 de agosto de 2017

Sonho de uma Noite de Verão

Faz hoje precisamente 30 anos, no velhinho Estádio de Antas, aconteceu um jogo diferente dos demais. Por alguma razão, aqueles que tiveram a fortuna de o presenciar, naqueles tempos de futebol ao vivo, não mais o esqueceram.
FCP 7 X Belenenses 1, 26 Agosto de 1987.

O FCP ainda estava com a "corda" toda, não só com aquela que vinha desde a final da Taça dos Campeões da época anterior, mas também com a que foi acrescentada por nova vitória sobre o Bayern, com direito a mais um golão de Madjer, num torneio "Joan Gamper" apenas concluído.
O jogo já era aguardado com uma maior expectativa do que a habitual, não apenas por se tratar da partida inaugural do campeonato, mas também pelo facto de ser a primeira vez que o FCP jogava em casa, num jogo a sério, após a monstruosa vitória de Viena.
Saber-se-ia, mais lá para a frente, que esta vitória iria acontecer não contra um Belenenses qualquer mas sim um de casta superior, que Marinho Peres iria encaminhar para um prestigioso terceiro lugar no final da época.
Madjer fez um "hat-trick", todos eles grandes golos, e os restantes quatro também foram de bom nível. Mas foi muito mais do que isso: uma exibição colectiva num patamar tal como raras vezes se repetiu até aos dias de hoje. A vítima foi o Belenenses, como seria qualquer outra equipa que por ali aparecesse naquela noite mágica. No final da partida, um observador do Barcelona, que supostamente estaria ali para avaliar os azuis de Belém, seus próximos adversários na Taça UEFA, só tinha era palavras elogiosas para o argelino do FCP.
Tomislav Ivic, na sua estreia oficial pelo nosso clube, era um homem que irradiava uma imensa felicidade após o apito final.

"Madjer & Cia ilimitada" titulava o "JN" no dia seguinte, acrescido de "Um pacto com Alá" na avaliação individual dos jogadores, naquela que terá sido umas das maiores exibições, de um nosso jogador, em toda a história do clube.
O melhor de tudo, porém, ficou guardado para o final. Um apoteótico golo de Madjer. Mais um. De calcanhar, como não poderia deixar de ser, para coroar tamanha exibição. Um calcanhar que, na opinião de muitos (o próprio jogador incluído), foi até melhor que aquele mais célebre de Viena. Isto porque, para além da estocada propriamente dita, este teve ainda direito a um brilhante toque anterior, de preparação, executado com o mesmo pé.
"Há imagens desse golo?", perguntou Madjer durante uma entrevista ao "Ionline". "Só as tenho na minha mente, pois não mais o revi".
Por isso mesmo estamos aqui nós a contar esta história, Madjer. Como se Agosto de 1987 fosse hoje.

P.S.: Existem, efectivamente, imagens desta partida, no Youtube, cortesia do blog "Basculaçao".

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Os mal amados

Com excepção de Pedroto (que foi bem mais que um treinador no FCP) todos os restantes, uns mais do que outros, foram sujeitos a contestação por parte dos adeptos, do balneário ou de ambos.
Nem Robson escapou. Uma das críticas que lhe era dirigida frequentemente era sua incapacidade de ser mais interventivo no banco e, nessa perspectiva, gerir melhor “quem substitui quem” e o timing mais adequado para produzir essas mudanças. Rui Barros passou, a partir de certa altura, a ser o sacrificado da ordem e acho que o foi numa grande parte dos jogos. Também não foi muito bem entendido que tivesse recebido os “russos” do SLB e os tenha colocado a jogar de imediato e posto no banco o Domingos. Também não foi muito bem aceite, que tivesse sido eliminado da taça com o Marítimo e, pior, que tivesse levado 3-0 e um banho de bola do SCP de Octávio, na Supertaça em Paris. Estava no aeroporto quando a comitiva do FCP chegou de Paris e fiquei revoltado com a forma como foi recebida, tendo havido confrontos entre alguns dos palermas que lá se encontravam e alguns jogadores. Recordo que Vítor Baía e João Manuel Pinto eram dos mais inconformados com aquela estúpida recepção, depois de terem sido campeões com inteiro mérito.

Artur Jorge foi sempre muito contestado, e toda essa contestação começou no balneário e tinha como principal protagonista o Fernando Gomes, que queria a continuidade do António Morais no comando da equipa. Aliás, na época que vencemos a Taça dos Campeões perdemos o campeonato para o SLB e fomos eliminados da Taça pelo SCP, nas Antas. Artur Jorge trouxe modernidade ao futebol português e alguns conceitos novos, nomeadamente a “concentração” competitiva que exigia aos seus jogadores em todos os momentos de jogo. Octávio foi mais que um treinador adjunto, porque foi capaz de ser e fazer aquilo que Artur Jorge não era capaz, ou seja, assumir o lado desagradável do comando e ser duro e intransigente relativamente à disciplina dentro e fora do campo, ao que consta. Desse tempo vem as desavenças com Fernando Gomes e os Oliveira.

Ivic ganhou tudo no FCP, menos a Taça dos Campeões. Os sócios detestavam-no ainda mais que ao actual treinador e não foi por acaso que foi embora e substituído pelo Quinito, que fez haraquiri quando disse que o FCP era Gomes mais dez: ficou refém do balneário e sem mão na rapaziada. Depois foi o que se viu: uma equipa sem rumo do pior que tivemos nestes longos anos em que PdC comandou o clube.

Quanto ao actual treinador não alinho em muitas críticas que lhe são feitas, onde entra tudo, particularmente o que é suposto faltar-lhe: carácter, competência e experiência, um murcão como, de forma sucinta, alguns adeptos o qualificam. Estou em desacordo frequentemente com o treinador porque não “faz” como acho melhor, mas estaria com qualquer outro desde que não cumprisse o que eu acho melhor. No jogo com o SC Braga (para o campeonato) benzi-me quando meteu Kléber no fecho do jogo e não é que fomos ganhar por 2-0. No segundo, também não fez o que esperava que fizesse: meter mais gente no meio campo para equilibrar o jogo naquela zona, mas o brinde quem o deu foi Danilo, como antes Fernando tinha provocado uma grande penalidade com um claro erro individual. Quem ganha os jogos são os jogadores quem os perde é sempre o treinador, e nessa não alinho porque não é justo. A responsabilidade tem de ser partilhada, nomeadamente quando há erros individuais que influenciam o resultado final, por muito que se se especule que a desgraça já vinha a caminho. Acho que alguma coisa mudou desde o primeiro jogo com o SC Braga: Vítor Pereira apareceu muito tenso na entrevista após o jogo, pelo que – tendo em conta a cara muito zangada de Lucho quando saiu – se deva ter passado algo de desagradável no banco. Espero que se ajustem, se deixem de amuos e saibam dialogar.

Uma das criticas que têm feito ao nosso treinador é a eventual desvalorização dos activos do FCP, desde que VP tomou posse como treinador principal. Afinal, assim parece não acontecer a atentar na seguinte notícia:

“O plantel do FC Porto é o 18º mais valioso do mundo num ranking com 200 equipas, de acordo com um estudo efetuado pela empresa brasileira Pluri Consultoria, especializada em marketing desportivo, que lhe atribui um valor de mercado de 180 milhões de euros (ME) e 6,9 milhões (valor médio) a cada um dos 26 futebolistas”.

Por fim, considero que o Vítor Pereira se excedeu na rotação do jogo da Taça de Portugal, reagiu tarde quando Castro foi expulso e deixou James tempo demais em campo, já que era tempo de rodar os que haveria a proteger. Dito isto, considero que há jogadores que têm de “merecer tratamento especial”. Danilo e Alex porque estiveram nos Jogos Olímpicos, Moutinho, Varela, James e Martinez por causa das horas extra nas selecções, o Fernando porque saiu de uma lesão, voltou e teve uma recaída, logo no momento em que anunciou que gostava de sair, o Lucho porque é dos que corre mais e é quase um veterano. Nesse particular, dou o benefício da dúvida ao treinador, embora considere, insisto, que decidiu a rotação num laivo de deslumbramento que não é nada aconselhável.

Depois de Vercauteren e de avaliar a forma como tem dirigido o SCP, acho que devo continuar a conceder o benefício da dúvida a VP.

domingo, 24 de julho de 2011

A propósito do Peñarol

13 de Dezembro de 1987 - Tóquio

História mais que conhecida:



Uns meses depois (a 17 de Abril de 1988), voltámos a jogar com o Peñarol num particular realizado em Toronto - empate a 0 e perdemos por 3-4 nas grandes penalidades - foi um seca de jogo, que só valeu mesmo por algumas jogadas de um puto magricela que se tinha estreado (em jogos verdadeiramente a doer) na equipa principal do Porto 3 dias antes, marcando um golo ao Elvas. E é a partir desse jogo de Toronto que o Ivic lhe começa a dar oportunidades, culminando numa boa carreira futebolística.

Curiosamente quando, 23 anos depois, o Porto volta a encontrar o Penãrol, o Domingos está novamente em Toronto.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Morreu Tomislav Ivic


Faleceu esta tarde, vítima de problemas cardíacos, o treinador croata Tomislav Ivic que, em Portugal, treinou o FC Porto em 1987/88, o slb em 1992/93 e de novo os dragões em 1993/94. Ivic tinha 77 anos.

Em 1987/88, na primeira passagem pelo FC Porto, Ivic fez história ao conquistar o campeonato nacional, a Taça de Portugal, a Supertaça Europeia e a Taça Intercontinental.

Do seu vasto currículo, destacam-se os oito títulos nacionais em seis países diferentes - Jugoslávia (3), Holanda, Bélgica, Grécia, Portugal e França - aos quais juntou ainda sete taças e os dois títulos internacionais ganhos ao serviço do FC Porto.

Para além de algumas polémicas, que com o passar dos anos foram vistas com outros olhos, os portistas nunca esquecerão o homem e a forma como comandou a equipa na fantástica época 1987/88.

Paz à sua alma.

sábado, 4 de dezembro de 2010

O Homem do Leme ideal não existe (II)

Por Miguel Lourenço Pereira

(1ª parte)

Nas Antas ainda se lembra com saudade o espirito gentleman e determinado do fleumático Bobby Robson, que também saiu a mal com o clube mas que deixou uma imagem imborrável de um técnico de ataque, comprometido e que deixou escola (Mourinho e Villas-Boas que o digam).

No lado oposto dessa devoção estão certamente Fernando Santos e Jesualdo Ferreira, a quem o sucesso não foi nunca suficiente para entrar na galeria dos grandes. Também porque, o passado ligado ao Benfica acabou por ser um lastro nunca perdoado pelos adeptos em ambos casos.
O actual técnico do Panatinaikhos cometeu o feito histórico de ser tricampeão, algo a que o seu talento não estará alheio, mas nem isso lhe permitiu o mais leve elogio dos adeptos, incapazes de entender a sua postura esfingica no banco e fora dele.
Pior sorte sofreu o engenheiro do Penta, que chegou a sofrer na pele o desagravo dos adeptos depois de uma derrota frente ao Torreense. Dois anos sem vitórias e todo o seu passado foi questionado e o nome borrado da memória de quem vibrou com uma das equipas mais eficazes do futebol português dos anos 90.

Nem os titulados e imensamente talentosos Tomislav Ivic e Carlos Alberto Pereira, técnicos campeões, simpáticos e populares à época sobreviveram ao passar do tempo e hoje são poucos os que se lembram deles à hora de compilar a galeria dos grandes monstros dos bancos azuis e brancos. Perfis apagados que costrastam com a imagem guerreira que os dragões gostam de relembrar nas suas gestas.

No lado oposto estão incluidos os ódios de estimação de muitos em que se tornaram Octávio Machado (um caso de regressão progressiva, de jogador a técnico principal) e o holandês Co Adriaanse (ódio à primeira vista, com agressão fisica incluida pelo sector ultra dos adeptos furiosos após uma derrota em Vila do Conde) e até Victor Fernandez, espanhol e velho amor de Pinto da Costa que se tornou talvez no técnico campeão do Mundo menos respeitado pelos próprios adeptos.

Caso à parte para os portistas merece António Oliveira, imensa e polémica glória dentro e fora dos relvados. Há quem fique com o seu estilo guerreiro e insubmisso ao estilo da velha guarda e os que não esquecem quando se ajoelhou na Luz ou as suas túrbias relações com a empresa do irmão e o mundo da noite do Porto.

Os adeptos azuis e brancos não são diferentes dos demais, por muito especial que o clube nos pareça. Todos querem um treinador competente, talentoso, ganhador e com atitude, capaz de criar empatia com os jogadores, com a massa adepta e de impor respeito aos rivais. Talvez por isso a chegada do jovem André Villas-Boas, filho da casa, discipulo avantajado de dois grandes professores e um homem forjado no mundo da alta competição tenha encontrado uma empatia nas bancadas do Dragão que há muito não se via. Mas muitos dos que agora elogiam AVB podem acabar por sofrer o mesmo efeito provocado por Mourinho há seis anos, que rapidamente passou de bestial a besta. Porque o adepto segue um ideário colectivo e reage mal à afirmação individual. Passou isso no passado com aquele que é, provavelmente, a maior figura da história do clube.

Os que hoje talvez vetariam a Mourinho, os que num futuro possam fazer o mesmo com AVB caso siga o mesmo caminho, talvez fossem os mesmos que vetaram um tal de José Maria Pedroto, quando o seu “eu” individual, directo e frontal entrou em choque com a mentalidade da direcção e massa adepta de 1967. O mesmo que teve de ver a suspensão revogada antes de dar inicio ao FC Porto, abrindo a escola dos reis Artur, Jorge e (se possível) André que se seguiram. É impossível agradar a todos, os adeptos são assim.

Haverá algum dia um técnico azul e branco que consiga ser lembrado apenas pelo seu talento e não tanto pela sua postura de vida, atitude fora do campo ou passado clubistico? Uma tarefa bem mais dificil do que podemos imaginar, afinal somos todos humanos.


Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao Miguel Lourenço Pereira a elaboração deste artigo.