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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Jamor assumidamente sem condições

«A final da Taça de Portugal, marcada para 22 de Maio, pode não se realizar no Estádio do Jamor, como estava previsto e é tradição. A SIC sabe que o estádio apresenta várias deficiências que podem inviabilizar a realização da grande festa da Taça de Portugal, que encerra a época desportiva. Cadeiras partidas, relvado a precisar de manutenção e mesmo algumas deficiências na tribuna presidencial justificam que tenha sido solicitada uma verba governamental para resolver todos os problemas. Também as questões de segurança não estão conformes à nova lei, recentemente aprovada, sobre a segurança nos recintos desportivos. Mas a verdade é que o Ministério das Finanças não tem respondido a este pedido, pelo que as condições do Estádio podem, neste momento, inviabilizar a realização do jogo.»
in SIC online


Não há condições? O que é que isso interessa? Desde quando é que isso é motivo para que a final da Taça de Portugal, a "festa do povo", não se realize no helénico estádio do Jamor?

domingo, 16 de maio de 2010

E não seria tempo de acabar com a farsa de Oeiras?


Embora o José Correia já ontem aqui tenha oportunamente discorrido sobre esta chaga recorrente, vou também abordar o assunto e espero não ser redundante.

As peripécias epifenomenais, chamemos-lhes assim, a que temos assistido com o aproximar da Final da Taça de Portugal tornam mais do que nunca urgente acabar com a farsa da disputa obrigatória da partida, não apenas no decrépito Estádio Nacional, como na própria capital e arredores.

Os argumentos estafados que chegam ao ridículo de comparar Oeiras com Wembley - omitindo-se sempre que a selecção inglesa disputa os seus jogos naquele grandioso estádio enquanto a portuguesa foge de Oeiras como o diabo da cruz - são isso mesmo, estafados. E isto já para não falar na cultura futebolística inglesa, que está nos antípodas da nossa, bem como na comunicação social inglesa, que não tem clubes favoritos nem se prostitui diariamente fazendo a apologia de um deles. Estas envolventes fazem com que Manchester United ou Liverpool, por exemplo, não se sintam no campo do adversário se jogam em Wembley contra Arsenal ou Tottenham. O mesmo não podemos nós dizer quando jogamos em Oeiras, Queijas, ou lá onde aquilo fica, contra Benfica ou Sporting. Sentimo-nos como D. Sebastião em Alcácer-Quibir: em casa do adversário e com tudo "a jogar" contra nós. E como nós se sentirão decerto todos os clubes de fora da Área Metropolitana de Lisboa que tenham de defrontar na Final um dos meninos da casa.

Mais ridícula se torna a situação quando, como este ano, se defrontam na Final um clube do Douro Litoral e outro de Trás-os-Montes, ou, como no ano passado, dois clubes do Douro Litoral.

A Taça da Liga parece ter assentado arraiais no Algarve - um descentramento geográfico bastante bizarro, diga-se - mas a Taça de Portugal mantém-se ancorada àquele anacrónico recinto.

Como ia a dizer no início, se a Final não tivesse obrigatoriamente de disputar-se em Oeiras, além do mais não teríamos tido de assistir ao triste espectáculo farisaico com que fomos brindados esta semana. Ficávamos todos a ganhar, principalmente o futebol, coisa de que, infelizmente, cada vez se fala menos em Portugal.

sábado, 15 de maio de 2010

De Chaves a Oeiras


No itinerário aconselhado pelo Via Michelin, de Chaves a Oeiras é percorrida uma distância de 474 km, para um tempo de viagem previsto de 04h51 e um custo estimado de 75.80 EUR (31.35 EUR em portagens e 44.45 EUR em combustível). Ou seja, um adepto do Grupo Desportivo de Chaves que queira assistir in loco à final da Taça de Portugal, terá de percorrer 948 km e gastar 150 EUR em combustível e portagens, a que acresce o preço dos bilhetes e das refeições. Além disso, se o jogo não tiver prolongamento e, mal termine, o adepto do Desportivo correr para o carro e vier embora, na melhor das hipóteses chegará a Chaves por volta da meia-noite (isto, claro, se decidir passar fome e não parar pelo caminho para jantar).

E se a final fosse em Braga, conforme os flavienses sugeriram e o FC Porto concordava?
Bem, como a distância de Chaves à cidade dos arcebispos é de 124 km, no total os adeptos do Chaves percorreriam menos 700 km (!!), gastariam menos 110 euros em gasolina e portagens e, pequeno pormenor, poderiam estar de regresso a tempo de jantar calmamente em casa.

Por todas estas razões, chegou a haver uma petição em Chaves para que a final pudesse ser num estádio mais perto, mais concretamente o de Braga.
Na altura, o presidente do clube, Mário Carneiro, afirmou: "Para os atletas e alguns associados, pode haver algum simbolismo na ida ao Jamor, mas que interessa jogar num estádio despido de público? Por isso, entre o simbolismo e a necessidade, nesta altura de crise, os adeptos optam pela poupança de despesas".

Como reagiu a FPF à vontade dos dois clubes finalistas?

Segundo o JN, o presidente federativo, Gilberto Madail, é contrário a qualquer mudança, atendendo a que se deve "respeitar o peso da tradição".
Quanto ao vice-presidente Amândio Carvalho, alertou que o regulamento da competição estipula a realização da final no Estádio Nacional e que só poderá mudar em caso de um motivo de força maior.

Mas há alguma razão, racional e objectiva, para que a final da Taça de Portugal tenha de ser num local fixo (por sinal nos arredores de Lisboa)?
É óbvio que não e menos ainda quando esse local é o estádio do Jamor o qual, em termos de conforto e de condições de segurança está a anos-luz de qualquer um dos 10 estádios do EURO2004.

Assim sendo, porque razão, tal como acontece nas competições europeias, o estádio onde se realiza a final da Taça de Portugal não é escolhido/sorteado pela FPF no início de cada época, entre um conjunto de estádios que reunisse as condições mínimas (lotação, conforto, segurança, acessos) para tal?
Evidentemente, este facto não deveria impedir que mais tarde, havendo acordo entre os dois finalistas, a final pudesse realizar-se num estádio que facilitasse a deslocação de um maior número de adeptos desses clubes.


"O Estádio Nacional não serve para mais nada, tem que ter mesmo um jogo especial como a final da Taça para nos lembrarmos que existe"
Manuel Queiroz, 'De Trivela'

sexta-feira, 16 de maio de 2008

O estádio de Oeiras

O denominado Estádio Nacional era uma velha aspiração do Estado Novo. Influenciado por obras como o Estádio Olímpico de Berlim (construído para os Jogos Olímpicos de 1936), o regime ditatorial que governava Portugal procurava com este novo recinto, não só a promoção da prática do desporto, mas também a criação de um espaço para demonstrações públicas inspiradas nos princípios políticos vigentes.


Em ‘A Arquitectura em Portugal nos anos 1930-40’, José Manuel Fernandes (Universidade Autónoma de Lisboa) escreve o seguinte:
«muitos dos arquitectos formados em Lisboa, (...) seriam claramente e em muitos casos, adeptos de uma arquitectura neo-tradicional, ou neo-clássica, servindo desse modo os ideários da propaganda e da ideologia conservadora do Estado Novo – nomeadamente na chamada "Política de Obras Públicas" oficial.
As grandes obras públicas do Salazarismo do Estado Novo (...). Um grande estádio desportivo (Jamor), um grande Monumento Nacional (Sagres) e os Pavilhões de Exposições Internacionais constituem três casos paradigmáticos. (...)
O caso do Estádio Nacional, no Jamor (arredores de Lisboa), erigido entre 1938 e 1944, foi exemplar: obra de grande efeito cénico, (...) concebida pelo arquitecto paisagista Caldeira Cabral, integrada elegantemente na encosta (e não a meio do vale), ao modo dos anfiteatros da Antiga Grécia. Cabral era um técnico agrónomo que tinha uma formação muito mais actualizada, levada a cabo no âmbito da Escola Paisagista Alemã.»


Inaugurado a 10 de Junho de 1944, a primeira final da Taça de Portugal disputada neste estádio “helénico” teve lugar a 30 de Junho de 1946, colocando frente-a-frente dois clubes de Lisboa: Sporting e Atlético.
Desde aí, houve mais 59 edições da Taça de Portugal, e apenas em cinco ocasiões a final foi disputada noutro estádio (por quatro vezes a final da Taça disputou-se no Estádio das Antas – nas épocas 60/61, 75/76, 76/77 e 82/83 – e por uma em Alvalade, na temporada 74/75).

Contudo, é hoje unânime que o denominado Estádio Nacional não tem acessibilidades, parques de estacionamento, ou condições de conforto, higiene e segurança minimamente adequadas para um jogo de futebol, que fará para uma final da Taça de Portugal. Aliás, não é por acaso que a própria selecção portuguesa deixou de jogar lá. Também não há dúvidas que, após o EURO 2004, passaram a existir em Portugal 10 novos estádios, cuja qualidade é muitissimo superior à do anacrónico Estádio do Jamor.

Assim sendo, porque razão continua a haver a obrigatoriedade da final da Taça de Portugal ter de ser jogada no “helénico”, mas decrépito estádio de Oeiras (dito Nacional)?


Há uma explicação óbvia. Fazendo um balanço das 55 finais já realizadas no estádio de Oeiras, verifica-se que em 29 delas esteve presente um clube de Lisboa e em 13 foi mesmo disputada por dois clubes da “capital do Império”. Ou seja, 76,3% das finais realizadas no Jamor (42 em 55) tiveram, pelo menos, um clube de Lisboa a disputá-las.

Deste modo, quando em Março de 2004 o presidente da FPF, Gilberto Madail, pôs a hipótese da final da Taça de Portugal (entre o Benfica e o FC Porto) ser disputada num dos novíssimos estádios do EURO 2004, ninguém o levou a sério.

Reagindo a esta possibilidade, em 20/03/2004, o insuspeito Director do jornal A BOLA (Vítor Serpa) não podia ser mais claro: «O Benfica, perante a opção de jogar em Lisboa ou em qualquer outro ponto do País, defenderá, inevitavelmente, Lisboa.».

Na mesma linha de raciocínio, o ex-presidente do Sporting Pedro Santana Lopes escreveu na sua crónica em A BOLA, de 31/03/2004: «espanta-me que os alegados rostos do sistema, como Pinto da Costa e Valentim Loureiro, ainda não tenham conseguido remover do regulamento da FPF uma escória anacrónica que vem dos tempos da outra senhora e que assumiu foros de lei (...) Ora, alguém tem dúvidas de que o estádio Nacional favorece objectivamente as equipas de Lisboa? Penso que não. Porquê? Porque jogam em casa, um factor determinante. Passa pela cabeça de alguém que o Benfica teria conquistado sete das oito taças que disputou com o FC Porto se a final tivesse tido outro palanque? Se tem, consulte as estatísticas da Supertaça Cândido de Oliveira, que não se joga lá, e extraia conclusões.».

Estas afirmações do Director de A BOLA e de um ex-presidente do Sporting são de tal modo elucidativas, que não é preciso dizer mais nada.

O estádio de Oeiras foi construído para servir a propaganda do Estado Novo e o facto de ainda ser o local da final da Taça de Portugal é uma das heranças do sistema do antigamente que ainda perdura – o benefício claro e descarado dos clubes da “capital do Império”.

No próximo domingo, irá realizar-se mais uma final neste estádio helénico de inspiração nazi. A pergunta que se impõe é: até quando?