Quem ovos vende e galinhas não tem, de algum lado eles vêm
(Provérbio português)
Em complemento ao artigo que o José Rodrigues publicou ontem, pretendo olhar para este assunto – as contas da Sport Lisboa e Benfica, Futebol SAD – sob outro prisma.
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| Comunicado da Benfica SAD, de 19-09-2013 |
Vendo o quadro anterior (clicar para ampliar), verifica-se que a SAD encarnada terminou o ano fiscal de 2010/2011 com um prejuízo de 7,66 milhões de euros.
Um ano depois (em Junho de 2012)...
A SAD encarnada terminou o ano fiscal de 2011/2012 com um prejuízo de 11,69 milhões de euros.
Dois anos depois (em Junho de 2013)...
A SAD encarnada terminou o ano fiscal de 2012/2013 com um prejuízo de 10,39 milhões de euros.
Nota: De salientar que a Benfica SAD terminou o exercício 2012/2013 com um resultado líquido negativo, apesar de, durante esse período, ter encaixado 51,5 milhões de euros em proveitos com transferências de jogadores (valor recorde para a sociedade desportiva do slb e que não deve ser fácil de repetir).
Quanto ao Passivo, que no caso da Benfica SAD inclui os empréstimos para o pagamento do estádio da Luz, em apenas dois anos aumentou mais de 60 milhões de euros, passando de 379,6 milhões de euros em Junho de 2011, para 440,4 milhões de euros em Junho de 2013 (equivale a 300% dos Proveitos totais consolidados do exercício 2012/2013).
Como é óbvio, não sou benfiquista e, por isso, não estou minimamente preocupado com a situação financeira da Benfica SAD (para mim, quanto pior melhor).
A questão que coloco é outra.
Perante esta situação financeira e tendo a Benfica SAD registado prejuízos nos últimos cinco exercícios (!), como é possível que no recente período de transferências, a Benfica SAD tenha investido cerca de 40 milhões de euros em 15 novas contratações para esta época, sem ter necessidade de fazer vendas significativas (segundo os números que vieram a público, encaixou menos de 15 milhões de euros em vendas e empréstimos)?
Ora, atendendo a que a Benfica SAD não é uma empresa qualquer e disputa várias competições desportivas com outros clubes, seria importante, por uma questão de transparência e equidade, sabermos de onde vem o dinheiro para estes “luxos” na constituição da equipa de futebol.
Conforme já aqui referi, depois do BCP ter deixado de conceder crédito aos clubes de futebol, o dinheiro que permite que uma SAD em situação de falência técnica continue a gastar mais do que aquilo que recebe e a reforçar a sua equipa de futebol vem, segundo o diretor do Jornal de Negócios (o benfiquista Pedro Santos Guerreiro), do Banco Espírito Santo.
Dando como boa esta informação (até hoje não foi desmentida por qualquer das Partes envolvidas), o que eu pergunto é se faz sentido que Bancos em grandes dificuldades (no primeiro semestre de 2013 o BES teve perdas de 237,4 milhões de euros e o principal motivo para o agravamento dos prejuízos foram, precisamente, as imparidades com o crédito malparado), continuem a financiar uma sociedade anónima desportiva que, pelo quinto ano consecutivo, fecha o exercício com prejuízo?
Nota: A última vez que a Benfica SAD obteve lucro foi em 2007/08, com 0,11 milhões de euros positivos. Desde aí, o prejuízo acumulado por esta sociedade é de 83,6 milhões de euros!
Mais. Com que moral Bancos que têm vindo a registar elevadas imparidades, que fecharam a torneira às PME's portuguesas arrastando muitas delas para a falência (daí a necessidade de criar um Banco de Fomento para apoio à economia), continuam a emprestar dinheiro a uma empresa com esta situação financeira e que teve o trajeto acima descrito nos últimos cinco anos?
Será que aos olhos dos Bancos, a Benfica SAD é uma empresa especial e que merece um tratamento diferenciado da generalidade das empresas portuguesas?
Penso que é legítimo questionar se e quando a Benfica SAD irá pagar o que deve aos bancos ou, pelo contrário, se daqui a algum tempo o país irá assistir (e bater palmas) à reestruturação da dívida do clube do regime, o que significará o perdão de, pelo menos, parte da mesma.
E é aqui que entram as entidades reguladoras. Depois do que se passou com o BPN, BPP, BCP e BANIF, as entidades reguladoras do sistema financeiro têm obrigações acrescidas, nomeadamente em termos da supervisão prudencial e comportamental das instituições de crédito o que, presumo, deve incluir a análise do grau de risco dos empréstimos bancários.
Neste caso, o Banco de Portugal e a CMVM não têm nada a dizer?
Será que depois do escândalo que foi o Estado aceitar ações (não cotadas) da Benfica SAD, como garantia de pagamento de dívidas fiscais, iremos assistir a um outro episódio de favorecimento descarado, envolvendo novamente o clube do regime e, desta vez, alguns Bancos nacionais e entidades reguladoras?


