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terça-feira, 28 de junho de 2011

Fábrica de Talentos Globais


Já (quase) toda a gente opinou sobre a saída de André Villas-Boas para o seu trono em Inglaterra. Contudo, na véspera do S. João, o JN publicou uma crónica de Daniel Deusdado (em que me revejo quase totalmente), na qual, para além de abordar a forma como Villas-Boas saiu da sua ex-“cadeira de sonho”, o director-geral da Farol de Ideias e mentor do premiado programa ‘Liga dos Últimos’, lança pontes para o futuro, perspectivando desde já uma relação de Antero Henriques (e de outros futuros elementos da SAD portista) com um treinador que irá ser um “interlocutor privilegiado em grandes clubes”.

Tal como Daniel Deusdado, também eu estou convicto que André Villas-Boas irá voltar a Portugal e ao FC Porto, embora dificilmente isso vá acontecer na próxima década. Não porque os portistas estejam zangados com ele (o tempo cura as feridas e as pazes serão feitas sem grande dificuldade) mas porque, mesmo que as coisas não lhe corram bem no Chelsea, a gestão da sua carreira irá levá-lo para outros países, onde não faltarão convites de médios/grandes clubes europeus, com capacidade financeira para pagar três ou quatro vezes mais do que a FC Porto SAD.

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«A máquina do F. C. Porto vai perdoar a saída de um dos mais recentes talentos? André Villas-Boas escolheu uma via algo precipitada, capaz de surpreender um clube pouco habituado a confiar tão profundamente em alguém. Sim, ele disse que ficaria mais um ano. Sim, agora é tarde para ir buscar Domingos. Sim, talvez não tivesse muito a perder se adiasse por um ano o seu voo internacional. E, claro, não há nada como manter a palavra dada.

Mas as regras do futebol são estas. Os treinadores entram e saem em função dos resultados e interesses do clube – que está sempre acima de qualquer fidelidade, como a história mostra. Usar a mesma regra, desta vez no interesse do treinador, é algo que Pinto da Costa pareceu encaixar com fair-play, tanto mais que o valor da cláusula foi fixado pelas duas partes há um ano. Isto podia acontecer e não faz sentido que os admiradores de Villas-Boas passem agora a ser os adeptos do Benfica e do Sporting, como em alguma medida aconteceu aquando da saída de Mourinho...

Foi certamente uma decisão difícil para o ex-treinador portista, que não encaixa facilmente no estereótipo da pessoa a quem só importa o dinheiro. E a escolha não era entre o Benfica/Sporting ou o Porto. A gestão de carreira pesou certamente mais que os milhões de um salário melhor no imediato. A que máximo pode aspirar um treinador? Barcelona, Real Madrid, Manchester United seriam inacessíveis face à idade e ao currículo. Abramovich propôs-lhe voltar ao Chelsea, casa já conhecida, e onde os adeptos têm capacidade de não hostilizar a chegada de um jovem talento. Outro ponto importante: a Liga inglesa é a melhor prova para um tirocínio na alta roda europeia.

Há comboios que não param duas vezes na mesma estação. O treinador decidiu apanhar o deste ano, com medo de não ganhar a Liga dos Campeões na próxima época e perder currículo. É realista, embora fosse possível ousar mais – ele tem talento para tal. Era nisto que secretamente acreditavam todos os portistas.

Com a saída antecipada, o clube das Antas encaixa 15 milhões pelo treinador, provavelmente 30 milhões por Falcao e eventualmente 40 milhões por João Moutinho (ou outro jogador). Poderão ser 85 milhões de euros frescos a entrar de imediato num clube que tem a notável oportunidade de endireitar as contas (será que o faz?), ainda por cima sem desfazer o plantel do ponto de vista estratégico. Ou seja, Villas-Boas (tal como Mourinho) paga duplamente em vendas extra.

Independentemente das circunstâncias da saída, André torna-se num novo nome extraordinário da constelação de estrelas portuguesas no futebol internacional, a juntar-se a Mourinho e Cristiano Ronaldo. Há, no entanto, uma diferença: nasceu e cresceu na escola portista. Há todas as razões para se pensar que um dia pode voltar ao Dragão. Será certamente daqui a uns bons anos. Mas Antero Henriques e os futuros elementos da SAD têm a ganhar com alguém que sempre foi genuíno no seu portismo.

Villas-Boas – para além de ver a sua contratação como a mais alta alguma vez feita por um treinador – passa também a ganhar cinco milhões de euros por ano. Para a economia portuguesa todos os capitais são bem-vindos (se é que vêm para Portugal...). Cinco milhões/ano correspondem a muitas PME a exportar toneladas de produtos.

Há, portanto, razões para se pôr uma pedra sobre a forma da saída e ver o essencial. Ele é “made in Porto” – nasceu e cresceu numa rua da cidade e, com 33 anos, ascende à categoria de um dos treinadores mais bem pagos do Mundo. É um extraordinário detector de talentos. Vai tornar-se num interlocutor privilegiado em grandes clubes. Quantos mais êxitos somar, maior potencial se cria em redor desta indústria de alto nível que o Porto (e Portugal) representa enquanto empresas exportadoras de futebol. Simboliza também capacidade de se transmitir conhecimento entre gerações, ao mais alto nível de competência. O Porto (Portugal) como “Fábrica de Talentos Globais”. Temos de conseguir fazer isto mais vezes em muitos outros sectores.»
Daniel Deusdado
in JN, 23/06/2011

Nota: Os destaques no texto a negrito são da minha responsabilidade.