Parece ser que a memória neste país é curta. Muito curta. Pior que isso, selectiva. O apuramento categórico e sem espinhas do FC Porto para os Quartos-de-Final da Champions League despertou a habitual dose de admiração lá fora e o velho complexo de inferioridade cá dentro. O Porto é, para todos menos para os que ficaram congelados no tempo, o maior clube português dos últimos 30 anos. Não há ninguém que, no poder da sua sanidade mental, encontre argumentos que discuta essa realidade. E é-o não só pelo domínio hegemónico das ligas nacionais (dois terço dos títulos em três décadas, algo que nunca Benfica e Sporting lograram nos seus melhores tempos) mas também pelo que se consegue lá fora. Na Europa. A doer.
Os números do FC Porto nos últimos 30 anos na Europa não mentem.
São maiores do que o dos clubes de Lisboa juntos o que não é coisa pouca. Um dois em um. Mais importante, talvez, é medir a dificuldade desses títulos. Sim, a dificuldade. Não só temos MAIS títulos como também foi MAIS difícil ganhar o que ganhamos e chegar onde chegamos.
Até 1992/93 – ano em que começou oficialmente a Champions League – o Porto tinha cerca de uma dezena de participações na Taça dos Campeões Europeus. Quem leu o “Noites Europeias”, livro que escrevi, ou tem boa memoria (se o viveu), sabe que até esse ano a Taça dos Campeões se compunha mais ou menos de cinco rondas para os finalistas das quais era muito raro que mais do que uma fosse contra um rival importante. Não só porque havia menos países e por isso menos participantes mas, sobretudo, porque só disputava a liga um representante por liga salvo se o campeão europeu era distinto ao da liga. Nesse cenário, durante 40 anos (a Champions só se abriu aos segundos em 1997), ganhar a “Orelhona” tinha muito menos dificuldade do que se pode hoje supor. Afinal, se formos ver ronda por ronda (e eu tive que estudar isso a fundo para o livro) de cada finalista e vencedor, o esforço era parco. O nosso caso é exemplo disso. Até ás meias-finais, em 1987, com o Dinamo de Kiev (podem rever o jogo aqui, vale bem a pena), os nossos rivais tinham sido relativamente acessíveis. Malteses, checos e dinamarqueses, nenhum gigante. É a realidade dos factos. E ninguém nos ouve a embandeirar em arco por isso. Mas é precisamente, por isso mesmo – sobretudo por isso – que os números conquistados antes do aparecimento do novo formato Champions provocam resultados europeus que merecem ser analisado á lupa. É esse o caso do Benfica.
O clube da Luz reclama um historial europeu tremendo até aos anos oitenta. O clube com mais finais perdidas (esse, acho que não mencionam muito) cresceu internacionalmente (e isso é inequívoco) á base das suas “noites europeias”. Mas vamos lá ver com atenção o difícil que podia ser jogar nos anos sessenta contra as equipas que esse todo-poderoso Benfica eliminava.
Depois de fazer o ridículo, como qualquer equipa portuguesa fazia nos primeiros anos da Taça dos Campeões, o Benfica chegou á primeira final em 1961. Nesse ano tiveram de defrontar equipas temíveis do futebol mundial como o Hearts escocês (a aproveitar-se de um ano fraco do “Old Firm”), o Ujpest Dosza húngaro, o AGF dinamarquês (liga amadora) e o Rapid Wien. Não eliminaram nem o Real Madrid (isso fez o Barcelona), nem a Juventus (isso fez o CSKA Sofia), nem o Hamburgo (isso fez o Barcelona outra vez, que chatice), nem sequer o Burnley inglês (cortesia do Hamburgo). Numa meia-final tínhamos as equipas (Barcelona vs Hamburgo) que tinham eliminado os gigantes. Na outra estava o Benfica. Começam a perceber?
Voltaram á final nos dois anos seguintes e uma vez mais depois de batalhas asfixiantes como gigantes como o Austria Viena e o Nuremberga (em 61/62) e o Norkoping (liga amadora), o Dukla de Praga e o Feyenoord (uma equipa semi-profissional á época) em 62/63. Nesses anos houve grandes equipas europeias, não se enganem. Simplesmente nunca se cruzavam com o Benfica. Quando caíram numa fase a eliminar pela primeira vez em quatro anos foi com uma equipa que se tinha tornado profissional nesse ano, o Borussia de Dortmund (ultimo campeão alemão pre-Bundesliga) com um 5-0 no Westfallenstadion. Essa parte da história contam pouco. Lá voltaram a mais duas finais nessa década e, pasme-se, eliminando sempre a gigantes continentais como o Aris Luxemburgo, Le Chaux-des-Fonds suiço e o Vasas Gyor húngaro (em 1964/65) e os irlandeses do Glentoran, os franceses do Saint-Etienne, outra vez o Vasas húngaro e uma Juventus em profunda decadência (em 1967/68).
Durante os anos 60, salvo o duelo contra o Tottenham em 1962 (realmente uma grande equipa) e o Real Madrid em 1965 (ainda que com uma geração de quase quarentões) os jogos europeus do Benfica, tão celebres, tão míticos, foram realmente contra equipas de segunda e terceira linha que no contexto actual da Champions se ficam pelas pre-eliminatórias. Quando se cruzaram com equipas de nível como o Manchester United (em 1965/66), o Ajax de um ainda adolescente Cruyff (1968/69 e depois em 1971/72) ou o Celtic (69/70) o normal era serem eliminados. Nos anos setenta essa realidade foi ampliada e desapareceram praticamente do mapa – desde 72 a 88 não voltaram a uma meia-final durante toda a década e levaram algumas goleadas jeitosas pelo meio - e lá para finais dos oitenta voltaram a pairar, recuperando a presença em finais que ganharam (ah não, perderam outra vez!).Para lá chegarem, em 1988, eliminaram o Tirana albanês, o AGF dinamarquês (outra vez), um vetusto Anderlecht e o Steaua de Bucareste, uma equipa com o seu quê de talento mas longe de ser uma potência continental. Dois anos depois repetiram a dose contra o Derry City irlandês, o Honved, Dniepr (campeão soviético de uma liga em auto-destruição) e o Marselha. Essa ronda vale a pena relembrar, não só porque levaram um baile de bola em Marselha (o 2-1 foi claramente pouco para o merecido) como porque só chegaram a Viena via um desvio pouco habitual, a mão de Vata.
A festa acabou aí. Á medida que o nível de dificuldade foi subindo os clubes europeus que frequentavam a Taça dos Campeões mas que não tinham nível para a exigência Champions foram sendo filtrados pelo caminho. Algum de vocês voltou a ouvir falar do Benfica numa final ou meia-final da Champions? Eu também não. Actualmente – é dizer, desde 1993 – o FC Porto chegou a uma final da Champions League (que ganhamos, mas deixem lá isso), uma meia-final (em 1994, perdida com o Barcelona) e quatro quartos-de-final (em 1996 com o Man Utd, em 2000 com o Bayern depois de uma dupla fase de grupos, em 2009 com o Man Utd de novo e agora). Nesse cenário moderno tivemos em seis ocasiões entre os oito melhores da Europa. Os oito melhores da Europa que eram, ás vezes, dois de Espanha, três de Itália, dois de Inglaterra e algum alemão, francês e holandês pelo meio. A elite das elites. No mesmo periodo de tempo o Benfica nunca passou dos quartos-de-final onde só chegou em duas ocasiões. Desde o formato clássico que passar dos Quartos passou a ser uma utopia. Então lembram-se de quando o conseguiam. E esqueciam-se que então entre os oito melhores da Europa só estava um espanhol, um italiano, um alemão, um francês e ás vezes turcos, checos, suíços, belgas, húngaros, austríacos e até gregos. Outro mundo.
O FC Porto não é só grande em casa. É muito grande lá fora. E é grande porque ombreia com os gigantes do futebol mundial, com orçamentos muito maiores, ligas muito mais competitivas e influentes. Nesse cenário não acredito que ninguém seja capaz de comparar a dificuldade de ser quarto-finalista na idade moderna com ser semi-finalista no modelo anterior. Por cada vez que algum jornalista com fraca memoria (já não falo dos vossos conhecidos benfiquistas) vos lembrar num artigo as míticas “noites europeias” do Benfica e as finais que já perderam (que como disse um dia o José Augusto "ser vice-campeão da Europa também é um titulo, doa a quem doer"!) repitam-lhes devagar, para entenderem bem, os tubarões que tiveram de ganhar para lá chegar… AGF, Derry City, Ujpest, Honved, Dniepr, Tirana, Anderlecht, Steaua, Austria Viena, Rapid Viena, Nuremberga, Norkoping, Hearts…
O FC Porto não é só grande em casa. É muito grande lá fora. E é grande porque ombreia com os gigantes do futebol mundial, com orçamentos muito maiores, ligas muito mais competitivas e influentes. Nesse cenário não acredito que ninguém seja capaz de comparar a dificuldade de ser quarto-finalista na idade moderna com ser semi-finalista no modelo anterior. Por cada vez que algum jornalista com fraca memoria (já não falo dos vossos conhecidos benfiquistas) vos lembrar num artigo as míticas “noites europeias” do Benfica e as finais que já perderam (que como disse um dia o José Augusto "ser vice-campeão da Europa também é um titulo, doa a quem doer"!) repitam-lhes devagar, para entenderem bem, os tubarões que tiveram de ganhar para lá chegar… AGF, Derry City, Ujpest, Honved, Dniepr, Tirana, Anderlecht, Steaua, Austria Viena, Rapid Viena, Nuremberga, Norkoping, Hearts…



