Um benfiquista do Porto, Bruno Carvalho (director-geral do Porto Canal), publicou um artigo num dos principais blogues benfiquistas onde, entre outros aspectos, dissertou sobre a Região Norte, o Porto, o centralismo, o regionalismo, o FC Porto, o SLB e Pinto da Costa.
Naturalmente, discordo de algumas das coisas que Bruno Carvalho escreveu e, também, temos perspectivas diferentes sobre diversos aspectos. Contudo, considero que é um artigo interessante, que traduz uma visão pouco habitual nos benfiquistas (os do Norte, então, costumam estar entre os mais fanáticos) e que merece ser lido e ser objecto de alguma reflexão.
Nota: Devido à extensão do artigo, optei por o partir e publicar em várias partes.
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Apesar de estarmos num blog do Benfica, não me parece nada estranho que falemos do nosso principal adversário dos últimos anos.
Aliás, estou em crer que é a dificuldade em perceber qual a relação que o Benfica deve ter com o FC Porto que nos tem levado a tantos equívocos e dissabores.
Acho, igualmente, positivo clarificar, desde já, que tenho um grande respeito pelo FC Porto e que muitos dos meus melhores amigos são portistas, o que até é natural atendendo a que eu vivo na cidade do Porto.

Não me parece que seja possível compreender o que é actualmente o FC Porto sem fazer um retrato da realidade social vivida na cidade do Porto e na Região Norte de Portugal.
Se olharmos para o Índice de Poder de Compra (IPC) verificamos que, sendo a média de Portugal 100, o Índice de Poder de Compra na Região de Lisboa e Vale do Tejo é de 149 e o do Norte é de 83.
Lisboa é, de facto, o local de Portugal onde o poder de compra é mais elevado, situando-se, claramente, acima da média do País, enquanto
no Norte o poder de compra é apenas 55% do de Lisboa (praticamente metade) e situa-se muito abaixo da média nacional.
Se, por outro lado, olharmos para os dados de desemprego do final de 2007, verificamos que a Taxa de Desemprego em Portugal se situava nos 7.9%, enquanto no Norte atingia 9.5%, sendo a zona do País mais afectada por este flagelo.
Apesar de alguma recuperação em 2008, é previsível que o Norte seja atingido com violência pela actual crise devido às características exportadoras de muitas das suas empresas, numa altura em que os principais mercados (Estados Unidos, Espanha, Alemanha, etc.) estão em clara recessão.
Pode-se, ainda, constatar que
as oportunidades de emprego nas multinacionais, na Administração Pública e na área dos serviços estão quase todas em Lisboa. Assim, o Porto vê constantemente os seus jovens irem viver para a capital ou para o estrangeiro.
Mas não é preciso olhar muito para os números para se perceber a difícil situação que o Porto e o Norte do País atravessam.

A cidade do Porto assistiu, nos últimos anos, a uma confrangedora perda de importância no contexto nacional.
Tomemos, por exemplo, o caso dos bancos.
Várias instituições financeiras que tinham sede no Porto, transferiram o seu centro de decisão para Lisboa, de uma forma formal ou informal. O BPA, BCP e até o BPI são casos disso.
Ao nível da Comunicação Social o panorama também tem sido deprimente, tendo fechado um título emblemático como “O Comércio do Porto” e com “O Primeiro de Janeiro” reduzido a quase nada. Mesmo o grande jornal da região, o “JN”, está longe de ser o jornal do Porto como era no passado.
O Porto é humilhado e mal tratado quase diariamente. Por exemplo, o aeroporto do Porto é controlado por Lisboa e agora até a gestão do Metro do Porto foi assumida pelo governo e retirada às instituições locais, apesar do Metro ser considerado um caso de enorme sucesso.

Em largas franjas da população do Porto há o sentimento que
a capital portuguesa é centralista, egoísta e pouco solidária com o resto do País.
Pode-se dizer, sem exageros, que o Norte de Portugal e a cidade do Porto em particular, vivem uma das situações mais difíceis da sua história, onde a pobreza, a falta de perspectivas de futuro e a sensação de abandono predominam.
Provavelmente muitos dos que estão a ler o que escrevo, e muitos são de Lisboa, não acreditam em mim ou acham que estou a exagerar.
Infelizmente não estou. A situação é ainda pior do que aquela que eu consigo transmitir.
É importante que se diga que eu não tenho nada contra Lisboa. É uma cidade de que eu muito gosto, da qual me orgulho (em especial do Estádio da Luz) e onde tenho diversos amigos.
Isso não me impede de constatar que já há vários anos
os nossos políticos optaram deliberadamente por concentrar toda a riqueza e quase todo o investimento em Lisboa na tentativa de criar uma cidade que fosse capaz de competir com as principais metrópoles europeias e designadamente com Madrid e Barcelona.
No entanto, esse modelo adoptado, que existe na prática, mas não é comunicado formalmente às pessoas, tem graves consequências, quer para o resto do País quer para a própria cidade de Lisboa, que também sofre com essa opção, uma vez que esta acarreta enormes inconvenientes, desde problemas sociais, de exclusão, de violência, de criminalidade, de mobilidade e muitos outros.
É neste contexto de grave crise no Norte do País e de profundo desânimo, que temos que olhar para o FC Porto e para as suas vitórias.

É que
o FC Porto tornou-se a alegria e a esperança de muita gente.
Bruno Carvalho, 26/11/2008
Nota: As fotos e negritos são da minha responsabilidade.
(continua)