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quinta-feira, 30 de maio de 2019

O Clube do amanhã: apostar nos miudos ou nos bolsos alheios?


É sempre uma alegria especial quando o FC Porto levanta um título mas talvez seja maior ainda quando são títulos dos putos. Os putos da casa. Os que sentem a camisola, muitos deles andam ali desde muito pequenos. São o nosso ADN e seja qual for o futuro que lhes depara, sempre vão ser parte nossa. A formação do FC Porto foi campeã da Europa há um mês e sagrou-se campeã nacional ontem. Uma dobradinha sem paralelo na história do futebol português. O impacto mediático foi quase nulo em ambos casos. O FC Porto forma bem, muito bem, mas vende-se mal, muito mal. Para muitos esse é um problema. Não é. O grande problema é outro. O FC Porto forma bem, muito bem, mas aproveita pouco, muito pouco. Esse é talvez o maior desafio com que nos encontramos para o futuro imediato. Aproveitar uma geração excelente ou deitar fora uma oportunidade histórica para beneficio próprio de uns poucos.

Durante anos ouvimos lenga-lengas sobre a impossibilidade de ser competitivo recorrendo a jogadores da formação. O exemplo claro era o Sporting, um clube que raramente deveria servir de exemplo para o que fosse (formaram o melhor jogador europeu de sempre e deixaram-no sair por tostões), e o discurso apontava à necessidade de experiência, maturidade e que a formação fosse apenas um complemento. Claro que o Barcelona tratou de desmentir isso mas como tinham um génio absoluto como Messi tudo ficou relativizado. Também não ajudou o facto do Porto, entre a era Mourinho e os anos de Conceição, realmente, não ter tido uma grande formação. Geraram-se grandes expectativas com alguns jogadores pontuais mas nunca nenhum deu verdadeiramente o salto. Havia alguns títulos mas zero impacto no plantel e na própria evolução da carreira de muitos jogadores. Atrás tinham ficado os anos 90, onde havia realmente prata da casa de grande nivel. E apostar quando não há qualidade faz pouco sentido apostar forte, ainda que faz menos ainda ter o plantel recheado de jogadores piores vindos de fora para papeis absolutamente secundários quando a prata da casa podía cumprir perfeitamente essa função. As comissões, já sabemos.
O paradigma começou a mudar nos últimos anos, pouco a pouco. Foi-se trabalhando melhor, desde a base, mas esse trabalho leva o seu tempo. Os que hoje são campeões europeus e nacionais levam cinco, seis anos nessa dinâmica. Havia que esperar. Mas entre essa espera e o agora houve 4 casos singulares que explicam bem o que é a formação do FC Porto e como o clube a vive. E aí é onde se pode entender a gigantesca diferença entre o FC Porto e o Benfica. 
Lá em baixo vendem o Seixal como o novo Alcochete, o centro por excelência da formação mundial e talvez europeia. Foi sem dúvida uma jogada acertada terem contratado muitos dos treinadores e olheiros do Sporting e a qualidade subiu exponencialmente nos últimos anos, é impossível discutir. A formação do Benfica é boa, bastante boa. E vende muito porque estamos em Portugal, um país que fez do Mantorras o Eusébio. O minimo é que tivessem feito do Bernardo Silva o novo Cruyff. Mas tem algo que continua a faltar ao FC Porto, uma ideia de clube. Quer queiramos quer não a estrutura actual do FC Porto não existe. Sobrevive um Politburo soviético na pré-reforma, desfasado do tempo e onde primam os intereses pessoais ao mesmo tempo que se afiam facas. Cada decisão é vista sob essa perspectiva, a quem interessa, como, quanto e porquê. O Clube normalmente tem ficado para último plano com regularidade. No Benfica isso não acontece porque o seu Presidente, como o nosso foi durante décadas, não tem contestação e as suas decisões são a base da política de todo o clube. E é por isso que a formação do Benfica tem sido aproveitada e rentável, porque tudo é feito do primeiro ao último dia para ser assim. São vendas fáceis, sem custos, tê-los na primeira equipa é algo mediaticamente popular com os adeptos e permite criar uma liturgia óbvia de rendição ao mercado para beneficio do clube ("nós não queriamos vender, mas...". Por isso, desde há cinco anos para cá, uma formação pior que a nossa tem tido na primeira equipa mais jogadores (e a experiencia, quando se dá o salto, é FUNDAMENTAL) e portanto gerado mais valias superiores às que possamos gerar. No Porto, nesse periodo, há 4 jogadores que realmente tiveram um impacto minimo da formação, um abismo. Desses 4 um deles – Ruben Neves – tem o 60% dos jogos disputados. E não foi uma aposta do clube, foi uma aposta muito pessoal de um treinador que não teve problemas em fazer com que o jogador saltasse escalões porque tinha esse nivel (olá Fábio!!). E tem-o. Já o provou no campeonato mais exigente do mundo, com um treinador que contribuiu também para a sua desvalorização de mercado perante o olhar sereno de quem manda. Não esquecemos!

O restante 30% dos jogos disputados divide-se por André Silva, Diogo Dalot e Gonçalo Paciência. São 3 casos muito diferentes em si mas que resumen muitas coisas. 
André podia e devia ter ficado um ano mais. Ele era o primeiro a necessitar disso como tem provado a sua lenta evolução no Milan e Sevilla. Promete muito mas custa-lhe dar o salto, essa paciência que faltou num ano mais de etapa formativa na equipa principal do Porto (ele que no ano NES levou o ataque sozinho às costas,lembram-se?). 
Porque foi vendido? Porque uma gestão absolutamente desastrosa do Politburo teve as suas consequências práticas e era uma obrigação da UEFA cumprir com o FFP. Quando um clube é mal gerido, como o FC Porto tem sido, dentro e fora de campo, é o que sucede. Ter jogadores do nivel do André e não os aproveitar por culpa própria é uma pena mas pode passar. O caso Dalot é diferente. Há anos que o Dalot estaba bem referênciado por essa Europa fora, não enganava ninguém. Num clube com uma estrutura sólida dos pés à cabeça, com ideia de clube desde a base, o Dalot teria renovado muito antes do tempo. Quando o dossier chegou às mãos do novo director desportivo, Luis Gonçalves, a sua vontade não bastou, já era tarde. Nestas idades basta um movimiento em falso e tudo se pode perder e foi o que aconteceu (como o Barcelona, quando perdeu Pique e Fabregas para United e Arsenal pelos mesmos motivos, não somos um caso virgem, muito longe disso). O Dalot foi à procura do contrato da vida dele porque durante anos não foi mimado como seria expectável para quem, seguramente, será um lateral de topo europeu na próxima década. O desleixo foi evidente e quando se quis corregir já não havia margem. 
E Gonçalo? Gonçalo não tem perfil para titular do FC Porto, é um jogador muito limitado (no modelo de jogo táctico e na sua fragilidade física) e não vale a pena andar a vender narrativas em que é bom ter 11 titulares da casa se esses não estão à altura. O Gonçalo não está. Mas um plantel tem 23 ou 25 jogadores, o do Porto e o de qualquer outro clube. E as provas da UEFA exigem um minimo de jogadores da casa nos inscritos. E quando há vagas para dois ou três avançados suplentes, convén sempre ver os prós e os contras. Dizer que o Gonçalo não tem nivel de titular Porto não significa que não tenha nivel para ser plantel Porto. Não é inferior nem foi inferior a sua aportação a Adrian Lopez (o último resquicio da entrega do clube nas mãos de Mendes). Muito menos de Waris, uma escolha pessoal de Conceição. Ou de Andrade, outro jogador escolhido a meias entre técnico e estrutura que além de ser um desatre ocupou uma vaga no plantel Champions que podia ter sido de Manafá, por exemplo. Todos esses 3 negócios custaram ao Porto dinheiro, muito mais do necessário e muito mais do que foi recebido em troca. Gonçalo custava 0. Não é pior jogador do que André Pereira (que faz parte dessa política e foi uma escolha pessoal do treinador) e seguramente exemplifica outro dos usos possiveis para a formação. Nunca vai render milhões, não está para ser titular mas pode perfeitamente dar forma ao plantel. E foi repatriado para longe. Sem sentido.

O Benfica vende-se melhor mas também mima mais os seus. O Sporting, no longinquo apogeu da sua formação, vendia-se muito mais do que aproveitava os seus, mas ainda assim as suas grandes pérolas foram somando bastantes minutos. Quando um jogador salta dos juniores ou da equipa B o que precisa é disso. Minutos, confiança, apoio do treinador, paciência dos adeptos. O FC Porto tem tido muita dificuldade nesse processo. O treinador é claramente arisco a apostar na formação. Diz que só responde ao Presidente, o mesmo que diz que há muito jogador a aproveitar. Algo não cuadra. Sabemos que há gente que se move como sombras pela formação à procura da próxima comissão (basta ver o filho-agente ou o homem que se levou parte do negócio Ruben Neves para casa para entender) e talvez isso jogue contra os putos quando quem tem de se decidir por pô-los a jogar ou não é um homem extremamente emocional que sabe que tem inimigos dentro de casa que estão mortinhos por vê-lo sair para continurem a fazer o seu trabalho sujo e a sacar a sua suja recompensa. Sabemos tudo isso. Mas continuamos sem entender porque Fabiano é opção em jogos que podiam ser de Diogo Costa. Porque Diogo Leite desapareceu do mapa, porque Diogo Queirós tem zero minutos com a equipa principal quando está referenciado por olheiros dos maiores clubes da Europa como o futuro De Ligt. Porque nunca houve espaço para o Bruno Costa além dos jogos com o Liverpool ou porque nem mesmo nas Taças (esas obsessões de Conceição) não tivemos a oportunidade de começar a ver as jogadas do Baró ou os golos do Fábio.
 São campeões europeus e nacionais, são jogadores com o ADN da casa e que já mostraram ter o carácter ganador que se procura num futebolista de elite. E são jogadores com talento, é evidente. Não precisam de ser capas de jornais mas precisam que apostem neles. Uns vão ser vendidos por milhões seguramente porque o mercado é o que é e não vale a pena criar ilusões de que os vamos agarrar para todo o sempre. Mas também há outros muitos que poderiam acumular anos no plantel jogando mais ou menos. Quando virem as histórias deste ano futebolistico, muitos vão olhar para o Ajax, semi-finalista da Champions e campeão nacional com jogadores que têm praticamente a sua idade e jogam sem medo porque têm a confiança de quem neles aposta. Ninguém quer um FC Porto com 11 jogadores da casa porque não seria realista mas depois de anos a atravesar o deserto quem pode não querer um 11 – e mais com a hemorragia que o plantel vai sofrer este verão – onde esses putos tenham o seu espaço para crescer de mão dada com os que já estão e com o apoio de todos?

Mais comissões. Mais dinheiro gasto em vão. Mais bolsos cheios de meia dúzia de sanguessugas.
Mais miudos campeões. Mais ADN Porto. Mais negocios futuros de máxima rentabilidade para o Clube e não para quem o rodeia.

Nunca foi tão evidente o dilema e nunca a resposta que o FC Porto der nos próximos tempos vai ser mais exemplificativa de que clube estamos a falar para hoje e para amanhã.    

sábado, 18 de maio de 2019

Final Anunciado(?)


A 14 de Maio de 1994, Deportivo de La Coruña e Barcelona chegavam à última jornada da Liga Espanhola empatados; deixando de parte outros detalhes, curiosos mas pouco relevantes para o caso, tudo se resumiu a um penalty que o Deportivo teve oportunidade de concretizar - Djukic falhou, e o Deportivo falhou estrondosamente, em casa, a conquista do seu primeiro título.

Recordo esta situação, algo semelhante a aquela em que o Porto se encontra hoje - neste caso, o Porto está na posição do Barcelona, em que ganhar não basta - para dizer que nada, sequer remotamente parecido ao drama daquele dia em 1994, terá lugar mais logo - por razões sobejamente conhecidas, jamais o "benfiquistão" permitiria tal coisa. Assim sendo, é pouco sensato ter qualquer expectativa de que o Porto conseguirá renovar o título de campeão este ano. E não o consegue tanto porque não teve arte nem engenho para gerir uma vantagem pontual confortável, como porque aos outros acorre sempre um João Pinheiro - o árbitro que chegou à categoria internacional, sem ter dirigido um único jogo da Primeira Liga!!!, e rendeu recentemente pelo menos 6 pontos em jogos contra o Feirense e Braga - em momentos de aperto.

Se contra o "benfiquistão" pouco ou nada há a fazer, este miserável desfecho pode converter-se numa oportunidade para aprender e num merecido banho de humildade para o Sérgio Conceição, que apenas há alguns meses atrás zurzia nos adeptos e os mandava "ir ao Coliseu", se não estavam satisfeitos com as exibições da equipa - o tempo mostrou quem tinha razão. O psicólogo israelita Daniel Kahneman, galardoado com o "Nobel da Economia" em 2002, defende com base na sua pesquisa, que de forma mais frequente do que gostaríamos, o "sucesso" resulta em maior parte da "sorte" do que do talento - um mal que claramente aflige o Sérgio Conceição, que cheio de si, foi incapaz de analisar friamente a época passada, e perceber que apesar do resultado positivo, os erros e a "sorte" não foram poucos.

Se realmente o Sérgio Conceição retirará deste desaire - espera-se que seja o último a breve trecho - alguns ensinamentos, e se das contrariedades se fará melhor treinador (e homem mais humilde), só o tempo o dirá. Se o Porto retirará dessa hipotética aprendizagem algum proveito, é outra história. Por mais reuniões e juras de amor eterno de parte a parte, a verdade é que aqui e ali, seja nas imediações ou nas bancadas de estádios, há sinais de que a bota não bate com a perdigota - o Porto terá de disputar a pré-eliminatória da LC, o que obriga a que os trabalhos da próxima época comecem mais cedo, porém e com uma debandada de jogadores titulares à porta, a única garantia é o regresso do Sérgio Oliveira! A minha suspeita é que o desfecho dos dois próximos jogos é indiferente para a continuidade do Sérgio Conceição, que está no fim do seu percurso no Porto - o tempo o dirá; eu defendo a sua continuidade, quanto mais não seja por falta de alternativas minimamente viáveis. Sobra a pergunta: que condições teria para ficar, considerando a sua postura até aqui, se não vencer os dois jogos frente ao SCP?

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Parabéns!

JOVENS DRAGÕES NA FINAL DA YOUTH LEAGUE

Chegar à final é por si só um sinal de qualidade - agora falta ganhá-la. Se algum dia estes jogadores vão ter uma oportunidade de se mostrar na equipa principal, é uma história que está por escrever, mas se o Porto não os souber aproveitar, alguém saberá.

sábado, 30 de março de 2019

Tudo ou nada

O Porto joga hoje uma cartada decisiva no campeonato, naquele que será, em teoria, o confronto mais exigente fora de portas até ao final da prova. Os últimos resultados contra o (e em) Braga têm sido positivos, mas quase sempre a troco de um grande esforço - esta tarde não deverá ser diferente.

Não ganhar hoje é hipotecar definitivamente o título. A situação já é má com uma igualdade pontual que só existe no papel (e que quanto muito serve para dar algum alento); escusado será dizer que pior ficaria se oferecêssemos nova folga ao primeiro classificado.


Esta tem sido uma época de altos e baixos, com um recorde histórico de vitórias consecutivas igualado, e apesar disso, um descoroçoante segundo lugar, com uma derrota proíbida (e evitável) em casa. Até ao soar do gongo tudo é possível - convém é não fazer o gongo soar cedo demais. Ser campeão, além de um privilégio, é uma responsabilidade e assumir essa responsabilidade, passa por ganhar (hoje).

quarta-feira, 6 de março de 2019

Uma vitória para ajudar a digestão

Depois da hecatombe de sábado último, o Porto volta a entrar em campo para mais um jogo decisivo, que determinará a continuidade (ou o fim da linha) nesta edição da Liga dos Campeões. O Sérgio Conceição, a julgar pelas suas palavras na antevisão da partida, continua desafiante e convencido de que o resultado do último jogo - a primeira vez desde 1976(!) que o Porto perdeu em casa, frente ao slb, depois de ter entrado a ganhar - foi fruto de mero acaso ou do azar, e que contribuiu mais para esse resultado, a falta de agressividade dos jogadores que as suas escolhas - opiniões! 

Para o embate com a Roma, o meu onze é o seguinte: Casillas; Manafá, Militão, Pepe e Alex Telles; Danilo, Óliver e Herrera; Adrián, Soares e Corona.


Felipe é demasiado arriscado para um jogo desta importância; Manafá porque é preciso (atacar e) ganhar; 3 homens no miolo, como o nível do adversário exige; dúvidas entre Herrera e Octávio, mas fica a aposta naquele que quererá mostrar serviço a potenciais futuros empregadores; Brahimi no banco porque se entusiasma demais nestes jogos e quer fazer tudo sozinho; Marega, também no banco porque condiciona demasiadamente a postura da equipa com as bolas bombeadas para a frente, e ao contrário do que pensa o Sérgio Conceição, os adversários não andam a dormir.

Depois de sábado, nem uma goleada à Roma deixará alguém satisfeito, mas atenua o mal-estar.

(editado: O Manafá não está inscrito, logo não é opção. Assim sendo, Corona seria o lateral-direito, e Hernani ou Marega ocupariam o lugar original do mexicano.)

sexta-feira, 1 de março de 2019

Jogar com cabeça

Um "jogo do título" com 10 jornadas por disputar e as duas equipas separadas por um ponto? Improvável.

A única real motivação para o Porto vencer o jogo de amanhã, é anular a vantagem no confronto direto, no caso de ambas as equipas acabarem com os mesmos pontos a última jornada. Vencer o rival é óptimo, mas não passa disso; já fomos campeões sem vencer o rival, mas acima de tudo, vencer o rival - este rival em particular - não rende nada de palpável. Foram derrotados recentemente na Taça da Liga - que efeito nefasto teve esse resultado? Nenhum. Partindo de uma derrota, falaram em "show de bola", "roubo" e seguiram para uma série de vitórias consecutivas. Duvido até que (mais) uma derrota por 5-0, fizesse grande mossa. No final, ficariam apenas a 4 pontos.

4 pontos (ou 1 ponto), como percebemos nas últimas semanas, equivale a nada. E deve-se isso a uma (no mínimo) duvidosa gestão de esforço dos jogadores do Porto, que se baseia num princípio de "jogar até rebentar". Com 10 jornadas por jogar, é virtualmente impossível não perder mais pontos. E o rival sabe disso - é tão certo como as goleadas que vão aplicar nessas 10 jornadas a equipas com "azar" e/ou num "dia mau" - o fenómeno das apostas online seguramente explicará um ou outro.


Por essa razão, e apesar de estarem atrás, é improvável que o adversário chegue amanhã ao Dragão com intenção se expor na procura de uma vitória - não precisa, tem o tempo a seu favor. A estratégia passará seguramente por jogar na expectativa, e apostar no contra-ataque. Desconheço o que planeia o Sérgio Conceição, mas uma postura semelhante à do jogo para a Taça da Liga, parece-me arriscada (e demasiado óbvia). E um mau resultado, pode obrigar o Porto, já de si desgastado, a fazer um esforço semelhante ao da equipa do Vítor Pereira em 2011/12 - a diferença é que desta vez não haverá mais confronto directo, nem "momento K" ou "H" nas últimas jornadas que nos valha.

Este é um jogo para ganhar porque jogamos em casa, mas com cabeça. Os riscos são grandes e não devem ser ignorados. Mesmo vencendo, o título está longe de garantido, portanto não vale a pena jogar como se a vitória o garantisse. A chave desse título está nas 10 jornadas seguintes.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

SMS do Dia

Gostava de vencer o campeonato não por 5, 10 ou 20 pontos; gostava de vencer por um ponto e apenas um ponto - só para poder dizer que um golo do Herrera vale por dez.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

28 de Setembro de 1893

Parece que foi ontem e já passaram 125 anos...

Notícia da fundação do Football Club do Porto, DIARIO ILLUSTRADO de 28/09/1893

terça-feira, 28 de agosto de 2018

SMS do Dia

O Porto está prestes a contratar um jogador do Belenenses, que só foi descoberto no jogo que as duas equipas disputaram recentemente. É pena que o mercado de transferências encerre antes de termos oportunidade de jogar contra todas as outras equipas. Quem sabe que outros jogadores interessantes podíamos descobrir até ao início da segunda volta do campeonato...

sábado, 11 de agosto de 2018

De volta à linha de partida

O FC Porto inicia hoje mais uma participação no campeonato nacional. Ao contrário dos últimos anos, parte de uma posição mais confortável que os demais concorrentes: é o campeão em título (e já amealhou mais um troféu). Mas este "conforto" pode não configurar uma vantagem. Há um ano atrás, tínhamos um treinador novo (e sem certezas sobre a sua capacidade); uma equipa sem contratações  de relevo por causa do fair-play financeiro da UEFA - apenas um guarda-redes (inútil) - e um par de pretensos reforços na figura de jogadores regressados de empréstimos. Estavamos longe de ser vistos como favoritos. No entanto, dispondo de uma garra que há muito não se via, e com a felicidade de os "emprestados" se revelarem verdadeiros reforços, conquistamos o título de forma justa e inequívoca.


Alguns meses passados desde essa conquista, encontramo-nos porém, e contra (todas?) as expectativas, numa posição idêntica há de um ano atrás, quiçá ainda mais frágil. Perderam-se dois jogadores titularíssimos e importantes na conquista do título - Marcano e Ricardo - com as suas saídas a serem colmatadas com jogadores novos (e sem garantia de que estarão à altura do desafio, como é natural); perdeu-se também o factor surpresa e como campeões, somos o alvo a abater (mais do que o habitual); não há grande possibilidade de os jogadores regressados de empréstimo, virem a ter semelhante impacto a aquele que tiveram na época passada. Em paralelo com a época passada, perderam-se também jovens promessas, que poderiam trazer sangue novo e aumentar o leque de opções.


Neste aquecimento antes do tiro de partida, Marega está na ordem do dia. Sobre ele, há que dizer que, sem que ninguém o esperasse, se revelou (para mim) o jogador-chave para a vitória no campeonato. Nos últimos anos, é nos jogos contra as equipas "pequenas" mais do que nos jogos contra os "grandes" que se decide o título, e foi precisamente nos primeiros que o Marega brilhou. É um jogador que soube conquistar a admiração dos adeptos, e pessoalmente gostaria que ficasse. No entanto, o valor acima do qual a sua transferência é "obrigatória", é discutível, mas tranferi-lo por 30 milhões, não é um mau negócio... se a sua "rendição" estivesse acautelada. E não foi. Neste momento o Porto, de novo sem contratações de relevo, arrisca-se a ter nas suas fileiras um jogador desmotivado (ou um nada menos empenhado, o que para alguém com conhecidas debilidades, não é coisa pouca), porque não tem quem o substitua.


Ninguém estava à espera de facilidades, mas as adversidades são mais que muitas, e incluem até lesões - Soares está novamente lesionado no início da campanha; Mbemba já tem mais tempo de "estaleiro" do que de treino. Talvez a pressão de ser campeão seja melhor (e menor) do que a de não ganhar há vários anos, mas não há certezas sobre isso. Sérgio Conceição já tem o seu nome inscrito na história do Porto, quanto mais não seja, por ter sido campeão nas condições mais adversas de que há memória. Como "encore", o desafio que se lhe apresenta, é repetir o feito em condições ainda mais difíceis.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Guia de rota para a Luz



Vencer na Luz tornou-se praticamente uma obrigação. Um empate – como sucedeu em 2015 – dará sempre alguma esperança correndo o risco de prolongar a agonia desnecessariamente. Quem viu o jogo em Setúbal percebe perfeitamente o que nos espera. O Benfica vai somar todos os pontos que necessite, da forma que seja necessária e contra quem seja necessária. Os que pensam que Alvalade pode provocar uma hecatombe é não conhecer nem o Sporting, nem o estado actual quase esquizofrénico naquele balneário e a história recente de ambos duelos. A isso há ainda que somar que viajar ao Funchal e a Guimarães, duas deslocações altamente complicadas onde não vai haver jokers e ajudas extras. Isso faz do jogo da Luz o santo gral da temporada.

Ironicamente este FC Porto está muito mais formatado para vencer na Luz do que propriamente para triunfar nos campos em que tropeçou. O modelo de Conceição necessita de espaço e na Luz haverá bastante espaço. Se o jogo da primeira volta deu pistas (e eram tanto outro Porto, muito mais dinâmico, e outro Benfica, muito menos em forma) é que o Porto de Conceição sabe os pontos a explorar e sabe como lá chegar. O problema, no caso da Luz, não será tanto o modelo de jogo como noutros casos, mas sim de mentalidade e condição física.

O último mês deixou claro que houve um claro abaixamento fisico do plantel. Por um lado as lesões – um record de lesões musculares que há que explorar a fundo à posteriori com quem de direito – quebraram o ritmo competitivo de muitos jogadores que estavam em forma, sobretudo no caso de Soares e Aboubakar. Por outro a sobre-explotação de futebolistas como Brahimi acaba por ter consequências e contar com o melhor jogador do plantel num estado de forma em que está era previsivel desde há vários meses. Brahimi, historicamente, é um jogador que se apaga nos últimos meses do ano mas com este modelo de pressão alta e maior verticalidade o desgaste é superior e o resultado está à vista. Num plantel efectivamente curto houve pouca margem para fazer gestão mas não é menos certo que em muitos jogos resolvidos Brahimi foi um jogador raramente poupado cedo. Partindo ainda para mais do principio que Oliver não conta e Otávio além das lesões é um jogador de altos e baixos, é dificil imaginar que a criatividade venha de outro lado no terreno de jogo. E com Brahimi assim é de esperar, sobretudo, menos criação e mais verticalidade. E essa verticalidade podia ser até uma boa opção não fosse o caso de que o Porto tem provavelmente o avançado que mais oportunidades necessita para anotar (Aboubakar) e um jogador, Soares, que teve dois meses bons de competição em sete. Na ausência previsivel de Marega e o hábito de Conceição de procurar um Marega II, a verticalidade vai procurar explorar o plano de sempre com caras novas.

Ricardo é o candidato principal a extremo direito (a ausência de Corona e o facto de Hernani não ser um futebolista profissional, ajuda) com Maxi a ocupar a posição de lateral. O modelo já foi testado vezes suficientes para entender que é algo que o técnico não vê com mais olhos, procurando um jogo mais interior de Brahimi na associação com Oliveira e Herrera, deixando a Telles todo o corredor. O problema é que neste estado de forma actual, integrar a Herrera e Oliveira a responsabilidade absoluta do meio-campo é um convite ao desastre. Herrera, que tem sido fundamental em 2018, tem perdido influência no jogo porque o estado de forma, físico e animico,  actual de Oliveira o obriga constantemente a realizar correções em campo. Danilo fará mais falta do que nunca e face esse cenário, podia ponderar-se uma mudança de esquema, uma aposta no 4-3-3 com Reyes como pivot defensivo (ou Oliver a reforçar o miolo) que garantisse controlo e menos vertigem. Tendo em conta a mentalidade de Conceição, a dinâmica actual e a necessidade de ganhar sim ou sim é complicado antecipar que o técnico vai mudar agora. Morrer com as botas postas e o esquema preferencial na cabeça do treinador faz todo o sentido e no final será provavelmente o resultado a ditar a razão das escolhas de Conceição.

No entanto, talvez até mais que o físico, o trabalho fundamental desta semana do técnico com o plantel tem de ser a nível mental. Chegamos a um ponto onde ficou claro que o Porto, este Porto, tem um deficit de títulos e vitórias importantes nos últimos quatro anos e os nervos, a tremideira de cruzar a ponte, como diria o mestre Pedroto, faz-se sentir. É um balneário sem referências, com poucos ganhadores com títulos na sua carreira e nenhum deles com a camisola do clube. Do outro lado está uma equipa habituada a ganhar em piloto automático (como nós sabemos) mas em duelos directos isso habitualmente faz toda a diferença. No último mês, depois do golpe na mesa que foi a segunda parte contra o Estoril e a vitória contra o Sporting, aos jogadores (e ao treinador) entrou a vertigem, entrou o medo e entrou a insegurança, resultado da falta dessa cultura de vitória. Dessa cultura à Porto alimentada durante tantas décadas. Mais do que o 443, mais do que o estado fisico, Conceição terá de recordar todos os seus brilhantes triunfos como jogador e injectar essas memórias, esse à vontade e querer, nos jogadores para subirem ao relvado da Luz sem complexos, sem medos e com a atitude desafiante e determinante que separa os “candidatos a” dos “campeões”. Se esse trabalho não for feito será muito dificil que o resultado final seja positivo.

Depois da Luz, segundo o resultado, a época fica em suspenso. Portanto nem vale a pena pensar sequer nisso. Há três pontos para ganhar e só três pontos para ganhar. Três pontos a ganhar à Porto. Três pontos mentalizados à Porto. Três pontos. Não há mais. Não há menos. Que venha o apito inicial.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Banho de realidade

Não há muito a dizer mas há muito a sentir.
O FC Porto sofreu a maior derrota da sua história em casa e igualou a sequência de pior derrota de sempre na Europa (cinco golos de diferença) de uma forma absolutamente indiscutivel. Foi um resultado duro, pesado mas não foi um resultado injusto. O Porto fez pouco para marcar e fez muito para deixar o Liverpool marcar à vontade. E quando se disputam os oitavos de final da Champions League e os detalhes contam, e muito, o banho de realidade é inevitável.

No primeiro jogo disputado este ano escrevi que esta não era a nossa luta.
Continua a não o ser. O FC Porto vai ser campeão nacional. O FC Porto vai ganhar a Taça de Portugal. E essa Dobradinha vai ser o culminar de um ano excelente. A derrota e inevitável eliminação com o Liverpool não muda nada mesmo com estes números. Não são bonitos, não estão à nossa altura e doi, doi sem dúvida, mas é preciso nestes momentos ser mais racional do que nunca e entender que todos aqueles que apontavam o dedo em Agosto - plantel curto, inexperiente, problemas de jogo tácticos - agora apenas constataram a realidade, que é a mesma, mas estamos agora a três meses do final da época e à beira de fazer história. Isso é o que conta.
Obviamente que o FC Porto, num dia normal, não é equipa para sofrer cinco golos em casa de ninguém, seja o Liverpool, o City ou o Barcelona mas quando se reunem determinadas condições o desastre é inevitável. Um jogo que chega numa altura em que a acumulação de jogos se nota; onde as lesões e suspensões de jogadores fundamentais, especialmente para este contexto, mais se fazem sentir e contra um rival poderoso, reforçado e que encara o confronto com outra mentalidade. O Porto luta para ser campeão, essa é a sua prioridade. O Liverpool sabe que tem mais possibilidades de chegar longe na Champions do que de vencer a sua liga. Se a isso juntamos a tempestade perfeita, tudo o resto se torna mais lógico.
José Sá é isto. Sempre foi isto e sempre será isto. Não é um adolescente de 19 anos. Mantém as mesmas debilidades de sempre e se bem que tem estado sério nos jogos na liga, na Europa o nível é outro. Teve uma noite para esquecer, mal em quase todos os golos e, sobretudo, incapaz de transmitir insegurança aos colegas. Para além do frango claro no golo que mudou o jogo, foi ainda lento a reagir no segundo golo ao remate, desviou com pouca força o disparo do terceiro e podia ter feito mais no quinto. Nunca mais vai esquecer este jogo mas é fundamental que até Maio não lhe pese sobre os ombros. Será fundamental ver se a sua maturidade competitiva o leva isso ou a fraquejar. Para os que se lembram que Iker estava no banco, é altamente improvável que o espanhol sofresse estes cinco golos mas quem se lembra igualmente da eliminação - mais séria porque foi noutro contexto totalmente diferente - frente ao Dinamo de Kiev, sabe também que Casillas não é a garantia exclusiva de portas fechadas na Champions em casa. A lembrar.



O certo é que se Sá esteve mal toda a defesa foi um desastre. Mané surge só no primeiro golo porque todos os jogadores vão bloquear um disparo de Wijnauldum que ressalta o esférico aos pés do senegales que nunca poderia estar tão só. No segundo remate Salah, igualmente, nunca poderia estar sem uma sombra ao lado do guarda-redes. Marcano desistiu de correr atrás de Mané no terceiro e Ricardo fez o mesmo no quarto golo com Millner. No quinto Sérgio Oliveira tentou fazer uma falta táctica mas foi tão macio que Mané acabou por fugir e o médio não aguentou o ritmo. Depois abriu-se uma auto-estrada á frente. Ninguém ficou impune aos erros. A derrota foi colectiva e isso que os primeiros vinte minutos, com um superlativo Brahimi e um Otávio sempre mexendo-se bem, parecia intuir outra coisa. Tivesse o remate do brasileiro tido melhor sorte no desvio como teve o de Mané ou o remate de Soares sido mais preciso e o jogo teria sido diferente. Mas nem um nem outro são jogadores de elite e nesses momentos nota-se. Marega passou ao lado do jogo, como tem sido habitual estes meses e quando Brahimi saiu, confirmando a rendição lógica de Conceição, o resto era fácil de adivinhar.
Para consumo interno esto FC Porto tem demonstrado ser mais do que suficiente graças sobretudo a um grande trabalho colectivo de intensidade e união que tapa algumas das misérias individuais que são reais. No contexto europeu a situação é diferente. O Porto qualificou-se num grupo repleto de surpresas - ninguém imaginaria o último posto do Monaco - e com base a uma grande eficácia nas bolas paradas. Não foi por qualidade de jogo corrido nem pelo talento individal de alguns dos seus jogadores e hoje, quando todos os livres e cantos foram bem anulados pelo Liverpool, essa debilidade ficou exposta. Não é um drama, é a aceitação de uma realidade entre um plantel que não pode ser reforçado e um Liverpool que gastou 80 milhoes de euros num central em Janeiro e que tem uma das linhas avançadas mais brutais do futebol mundial. É preciso caminhar com a cabeça alta mas com os pés no chão.

Nunca uma derrota teve tanto potencial para fazer tão bem. Além da poupança lógica que deve haver em Anfield - independente do resultado - este resultado deve ser para enfocar de novo a vista no que realmente importa e deve unir, mais do que nunca, quem joga e quem apoia. Quem sabe que tem de se redimir e tem oportunidade na próxima semana de o fazer em jogo e meio que podem ser decisivos na luta pelo título e quem tem a obrigação de não baixar agora os braços e deixar de apoiar aqueles que têm superado todas as expectativas. Não é um tropeção que marca uma época se todos tiverem bem claro que já haverá tempo e contexto para procurar emendar a mão na Europa dos tubarões. A nossa realidade é mais pequena e de cariz nacional e nenhuma casa se começa a construir desde o telhado. Depois de quatro anos sem títulos nacionais o importante é trabalhar o regresso ao topo em casa para depois crescer. Sem dramas, sem choro, sem esquecer. Que a noite de hoje seja a primeira noite dos campeões nacionais 2017/18.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A crónica inadaptação que tantos pontos tem custado

Quem anda à chuva sem guarda-chuva molha-se. Quem anda de guarda-chuva quando não chove, não se molha mas o mais provável é que ganhe uma tendinite de pulso sem sentido. A vida é um processo constante de adaptação. Há treinadores que têm muita dificuldade em assumir essa realidade. Facilmente afirmam que cada jogo é um jogo mas depois, na prática, quantas vezes não vimos repetir-se o mesmo guião de uma equipa, jogando de uma mesma forma, se vê incapaz de superar rivais que jogam de uma outra forma concreta? Não se trata nem de desenho táctico, disposição de jogadores ou dos nomes dos futebolistas elegidos. Trata-se de adaptar-se a uma realidade distinta da habitual e de procurar pontos favoráveis para sair vencedor. Vila das Aves, Estoril (até ver) e Moreira de Cónegos sairam mal todas pelo mesmo motivo e em alguns outros jogos o cenário podia ter sido parecido (Santa Maria da Feira) porque o problema foi sempre o mesmo. Zero adaptação.

Sérgio Conceição tem feito milagres. É fácil esquecer isso quando levamos todo o ano à frente da classificação mas ninguém, em Agosto, podia sequer sonhar com esse cenário. Era dificil antecipar o pior ano do Benfica em largo periodo de tempo, um ano em que só o Polvo lhes permite estar a dois pontos e não a doze. E era igualmente dificil antecipar que o Sporitng, ainda que competitivo, fosse não aproveitar o investimento realizado no mercado com dinheiro que ninguém sabe muito bem de onde veio, tanto no que não teve de vender como no que acabou por contratar. Face a essa realidade, e visto o plantel disponível, a liderança é um milagre e Conceição o seu artifice. Nada a dizer a não ser aplaudir.
No entanto a liderança lograda a partir de uma ideia de jogo muito concreta – que segue a escola de Jorge Jesus ainda que, com o handicaap duplo de haver pior qualidade individual da que este teve à disposição e a ausência do guarda-chuva arbitral que deu tantas vitórias a esse  -tem esbarrado com dois problemas muito sérios. O primeiro, mais natural e evidente, é o desgaste. Num plantel curto, onde jogam sempre os mesmos, é impossível em Janeiro pressionar e recuperar o esférico com a mesma frescura que em Setembro quando o modelo de jogo não assenta em descansar com a bola e sim na procura do espaço.

Conceição começou o ano com um verticalissimo 4-2-4 em que o meio campo exercicia uma tremenda pressão sobre o rival, a dupla avançada roubava as primeiras bolas e a equipa, recuperada a posse, verticalizava cada lance – seja pelas bandas laterais, seja em passes em diagonal para as corridas de Aboubakar e Marega – e explorava, em momentos de bloqueio, as bolas paradas (na Champions, onde há menos espaços, foi um recursos fundamental). Esse modelo assentava nas caracteristicas muito especiais de alguns jogadores – desde Danilo a Marega – e sobretudo no entrosamento e estado de forma dos restantes. O Porto matava cedo os jogos e esfolava depois, sem especular, levantando os fantasmas da NESificação horizontal e temerosa que guardava o 1-0 como se fosse a virgindade de uma donzela. Esse modelo, que Jesus implementou em Portugal com êxito – com ajuda extra-desportiva de distintas naturezas – sempre encontrou um problema. Em jogos em casa e contra rivais que saem a jogar haveria sempre forma de fazer o modelo funcionar. Mas contra rivais que preferem estacionar o autocarro em casa, em campos pequenos, relvados em más condições e onde o espaço não abunda, os problemas da ideia de jogo eram evidentes. Jesus perdeu assim três campeonatos – dois com o Benfica e um com o Sporting – cedendo empates em deslocações onde a equipa era incapaz de fazer vingar o modelo, e ganhou outros quantos quando os fieis amigos de negro vieram ao resgate para evitar resultados mais embaraçosos. Resgaste que o FC Porto, já sabemos, não tem ao seu serviço. Tanto não tem que começa sempre – ou devia – a pensar que o rival já ganha por 1-0, seja por um golo mal anulado, um penalty por marcar ou uma expulsão ou duas perdoadas pelo VARissimo de serviço. Nesse contexto, como Vitor Pereira demonstrou, o FC Porto que era fiel ao 4-3-3, o modelo de jogo que dominou quase vinte anos de futebol português, de 1996 a 2014, encontrava melhores opções para esse cenário porque gerava maior controlo, maior jogo interior e com ele encontrava forma de criar espaços onde este não existiam.

Essa é a principal diferença e o principal problema da falta de adaptação de Conceição a estes cenários. O seu Porto não procura criar o espaço, procura apenas explorar o espaço. Se ele existe, o plano funciona, como tem sido evidente. Se não existe, não há plano B mais do que se tem visto, cruzamentos laterais, lançamentos bombeados para que o volume de homens gere o caos e do caos saiam as oportunidades. Bolas para os avançados deixarem para o interior. Cruzamentos que os extremos procuram surpreender ao segundo posto. Tudo sabendo que o rival sempre vai ter a lógica vantagem númerica de quem defende com mais e com o contorlo do espaço. Em nenhum momento se viu Conceição procurar outra coisa em momentos de aperto e mesmo em Moreira de Cónegos quando decide mudar, em duas ocasiões, o que faz primeiro é aplicar um 3-5-2 que dá as alas aos extremos mas não gera nada de jogo interior porque se continua a insistir no cruzamento e na segunda jogada; depois, ao lançar Sérgio Oliveira, não procurou gerar jogo interior se não reforçar outro lançador de bolas altas. Em nenhum instante, como nos restantes tropeções que geraram em empate, se tentou fazer “outra coisa”. Que “outra coisa”?
É verdade que o plantel do FC Porto tem pouco talento e, indismentivel, que a baixa de Danilo – aliada à baixa de forma de outros jogadores chave (Aboubakar e Brahimi, sobretudo) – não ajuda, mas ninguém pode dizer que não sabiamos ao que iamos. Em lugar de insistir com um modelo que está em crise, Conceição devia ter procurado gerar futebol mais apoiado, maior toque, maior procura dos espaços. Provavelmente Oliver tenha feito o pior jogo em muito tempo mas não terá sido mais porque o que se pedia de ele era contra-natura ao que pode dar? Não foi Herrera desaproveitado como pivot quando é precisamente cubrindo todo o cambo que faz com que a sua aportação resulte positiva? Não pedia ontem – e na Feira, Aves ou Estoril – talvez um 4-3-3 que em posse se transformava, de facto num 2-1-4-3, com dois interiores gerando um fluxo constante de bolas interiores com o apoio dos extremos (Oliver, Paulinho ou Herrera), para dois avançados interiores (Marega/Aboubakar e Brahimi) e um avançado mais móvel (Soares)? Sabendo que o rival não ia atacar e o campo era curto, porque não gerar superioridade por dentro em vez de a procurar insistentemente por fora?


O problema não são apenas os empates concedidos – a equipa continua invicta e gerou, em todos esses jogos, oportunidades suficientes para ganhar (a fraca produção ofensiva tendo em conta o volume gerado é outro dos grandes problemas deste Porto) e foi prejudicado claramente em todos esses jogos – mas sim a sensação de que os próximos duelos desta natureza resultem num cenário repetido já demasiadas vezes. Conceição acertou em cheio com o plano A e potenciou muitos jogadores para lá do seu nível mas em condições adversas as suas fraquezas ficam expostas e o técnico parece não encontrar um antidoto, um plano B seja com outra forma de jogar com os mesmos jogadores ou trocando cromos para procurar potenciar outras situações. Se não for capaz de o fazer até Maio estes seguramente não serão os últimos pontos fora concedidos. E seria um péssimo sinal que a inadaptação fosse um dos condicionantes para vencer uma Liga a todos os títulos merecida.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Um passo atrás para dar dois em frente

Se havia algum jogo com o Sporting que o FC Porto podia perder no próximo mês, era este. Era importante ganhar. Sempre é importante ganhar. Mas perder, neste caso, tem tudo para não ser um drama e sim um ponto importante de inflexão. O FC Porto fez tudo o que estava nas suas mãos para ganhar um torneio a que, historicamente, sempre demos pouca relevância - e com razão - mas este ano era diferente. Não só interessava derrotar um rival directo nas duas competições mais importantes como também era importante terminar com mais de quatro anos sem levantar um caneco. Dinâmica de vitória gera dinâmica de vitória, pode dizer-se. No final o objectivo ficou cumprido a meias. O Porto vai continuar uns meses mais, pelo menos, sem vencer um torneio oficial mas o Sporting viu, uma vez mais, que em confronto directo continua a ser uma equipa bastante inferior como ficou demonstrado em noventa minutos onde os Dragões foram melhores. A derrota, que não em campo, é um passo atrás mas a motivação de saber-se superiores e a vontade ainda maior de vencer os desafios que restam podem significar dois passos em frente. 

O FC Porto foi quase sempre superior, mais esclarecido e mais dinâmico que o Sporting, com e sem Danilo Pereira. A baixa do médio é a única noticia genuinamente preocupante de uma noite que deixou, em geral, boas sensações. A defesa voltou a estar a um nível impecável, anulando perfeitamente a real ameaça que é Bas Dost, sem provocar erros individuais próprias e sem ceder aos primeiros bons minutos do Sporting. A saída de Gelson Martins anulou a única arma em velocidade que os leões tinham o que transformou o seu jogo ofensivo em algo mais plano e controlável por uma linha de quatro bem oleada que nunca deu nem espaço nem tempo para o rival pensar. Não surpreende portanto que os dois únicos lances de perigo gerados pelo Sporting fossem pelo ar. O penalty reclamado - era falta de Danilo Pereira mas Dost estava em fora-de-jogo antes da bola chegar à área - e o cabeceamento de Coates, foram os únicos arranhões de um leão sem garra que dominou bem os espaços nos primeiros vinte e cinco minutos mas que, depois, não teve esclarecimento para propor o que fosse e passou o segundo tempo a pensar, claramente, nas grandes penalidades .
Por outro, sem ter sido uma exibição de encher o olho, o Porto soube ser sempre mais incisivo e directo e gerou bastantes mais oportunidades. Dois fora-de-jogo de Soares, que continua a um ritmo inferior ao dos colegas (o que gerou o golo, muito duvidoso, e como se sabe, em caso de dúvida deve-se deixar seguir, salvo se o jogador é do Porto), uma boa jogada de Ricardo, um cabeceamento sem direcção de Waris e um remate, no instante final, de Marega. Lances que podiam e deviam ter resolvido o jogo e que reflectem bem como a equipa está nos últimos dois meses, capaz de gerar bastantes ocasiões mas com cada vez mais dificuldades em concretizar e desbloquear resultados. 

Conceição deu uma licção de futebol a um Jesus que, uma vez mais, voltou a demonstrar cedo que vinha para o empate. Apesar de ter começado melhor o Sporting foi engolido pelo 4-3-3/4-4-2 que o Porto ia desenhando consoante as situações de jogo com Sérgio Oliveira como joker. O médio trabalhou muito mas continua a demonstrar ter sérios problemas tanto no disparo de meia distância (onde era suposto ser do melhor disponível) e na toma de decisão final. A lesão de Danilo precipitou a entrada de Oliver, que esteve a um nível muito bom e gerou várias ocasiões de perigo, basculando bem entre zonas, o que levou Herrera a baixar à posição de pivot defensivo. O mexicano, que voltará a ser mais recordado pelo penalty falhado, fez um excelente jogo e fez esquecer o omnipresente Danilo nas tarefas defensivas e da ocupação do espaço ainda que, ofensivamente, tenha contribuido muito pouco. Oliver e Oliveira mantiveram o controlo do meio-campo durante grande parte do tempo mas a mudança de desenho forçou Brahimi, sobretudo, a baixar bastante a uma zona central o que diminuiu o seu impacto sobre o jogo ainda que, com a bola, tenha sempre sido o mais esclarecido a romper o desenho dos leões. Marega, no outro lado, trabalhou muito e só Soares, batalhador mas pouco esclarecido, acabou por não ser diferencial algo que Aboubakar tão pouco foi capaz de ser. Nota positiva para Waris que, na estreia absoluta depois de poucas horas de trabalho colectivo, ofereceu-se e movimentou-se bem entre linhas e demonstrou serviço. Mais uma peça para compor o puzzle. Fosse em posse, fosse na rápida recuperação do esférico, fosse na pressão, o Porto foi sempre a melhor equipa e a única que não quis deixar tudo para os penaltis. Conceição, dando o mote, nem quis seguir a serie ao vivo e talvez soubesse por antecipação que os jogadores não estavam preparados para a sequência (afinal quando nos apitam tão poucos penaltis a favor precisa-se de treinar mais ainda nas horas livres, que são poucas) e assim foi. Três falhanços - apesar de duas grandes defesas de um Casillas que sempre se mostrou seguro - e uma eliminação injusta pelo feito em campo. E um aviso para o futuro. Tacticamente e em qualidade de jogo, não há melhor equipa em Portugal que o FC Porto. 

No final de contas se havia um torneio que interessava pouco era este. Se havia um duelo directo que podiamos permitir-nos não ganhar era este. E se havia uma derrota com força emocional suficiente para unir, ainda mais, o grupo em relação a um objectivo comum, também era este. Os grandes clubes sabem fazer dos tropeções, vitaminas para alcançar as vitórias. Não é, nunca seria, motivo de drama - nem nos anos de AVB-VP nem na etapa final de Jesualdo, com equipas ganhadoras, perder o torneio significou algo relevante - mas pode ser motivo mais do que suficiente para afinar baterias para o sprint final no campeonato e o mano a mano na Taça de Portugal, competição que deve ser encarada da mesma forma que o jogo de ontem na Pedreira. Perder não faz parte do ADN do FC Porto mas há derrotas (neste caso, eliminações, mais do que derrotas) que vêm por bem. Que esta seja uma delas.

sábado, 2 de dezembro de 2017

"Roubo de Igreja" e "Roubo de Carteira"

O FC Porto vai ser campeão.
Depois de um dos mais inacreditáveis "roubos de Igreja" que a Invicta já viu a convição não podia ser mais forte. Pedroto estaria pouco surpreendido ao descobrir que mais de quatro décadas depois da sua mítica expressão ter dado à luz, tudo continua igual e a impunidade grassa sobre o futebol português. As pistas estavam lá, nos jogos do Benfica e, sobretudo, nos jogos do Porto. Um ano mais uma equipa sem ideias, sem futebol, sem talento e sem treinador, em condições normais, chegaria a Dezembro fora da corrida do título como lhe aconteceu dezenas de vezes (e aos vizinhos do lado) durante os anos noventa e dois mil. Mas estamos na era do Vieirismo, da amizade com os poderes do governo, da justiça e da polícia, dos relatórios secretos sobre os árbitros, dos sms com mensagens comprometedoras, da espionagem sobre o presidente da Federação e afins, a era dos Guerra, dos Marinho e da impunidade absoluta. E por isso mesmo, um ano mais, uma equipa vulgar, colocada no seu devido sítio na Europa, onde tudo isso vale zero, está a três três pontos da liderança e bem dentro da corrida. E vai continuar a estar, por muito mal que joguem. Porque é imperioso que estejam. Porque este Portugal, "pos-democrático", é mais salazarista e centralista que o Portugal contra o qual Pedroto lutou e denunciou. E essa realidade, por muito que se denuncie em prime-time, não se apaga com um sopro de vento. Será preciso outro terramoto para varrer a escumalha que nos meandros do futebol português adultera, ano atrás ano, a competição. Até lá estes "roubos de Igreja" vão continuar a ser frequentes e a sobranceria dos Vitória, jactando-se da sua própria incompetência, agradecendo aos VAR que ficam calados quando devem falar. Dos golos limpos anulados. Das mãos que são peito ou dos peito que são mãos. Dos empurrões, cuspidelas e socos aleivosos. A isso pode agradecer Vitória, que de futebol entende tanto como de matraquilhos, ter saído vivo de uma caldeira que estava preparada para cozer o Polvo mas que se encontrou com tentáculos que ainda são mais fortes do que podemos imaginar. Tentáculos que, ainda assim, serão insuficientes em Maio.



Porque o FC Porto vai ser campeão.
Contra os "roubos de Igreja" e também contra os "roubos de carteira". Ler entrevistas ou declarações inoportunas e oportunistas de Pinto da Costa tornou-se num dos melhores exercícios de stand-up comedy de Portugal. Há uns tempos queixou-se de que Lopetegui, o treinador que tanto elogiou na imprensa internacional e que lhe convenceu até a comprar Ferraris que hoje, vê-se, são Corsas noutras paragens, não era treinador para ganhar, ao contrário de Conceição. Também disse, algures no tempo, porque ao ouvir Pinto da Costa o tempo perde dimensão e lógica, como se fosse uma Matrix, que qualquer treinador seria campeão com os "Falcão, Hulks, James" e companhia, numa bicada seguramente aos Villas-Boas e Vitor Pereiras - os últimos treinadores campeões nacionais, é preciso lembrar - e que ser campeão com um plantel actual é que era. Pois era. Vitor Pereira saiu em 2013 do FC Porto. Há quase cinco épocas. Nesse espaço de tempo essa sumidade elegeu como treinadores nomes distintos, perfis distintos e com mentalidades distintas. Deu-lhes jogadores pedidos, deu-lhes jogadores que não queriam mas que tinham de ter e foi vendendo os anéis. Dos dedos, dos colares, da alma. Foi estripando o FC Porto, abrindo-o por dentro e sacando, gota atrás de gota, o sangue. O FC Porto, o mesmo clube que durante uma década foi considerado um exemplo de gestão, sobretudo como comprava muito barato, vendia muito caro e mantinha uma boa prestação desportiva, hoje está sob a alzada da UEFA. Não pode gastar nem um cêntimo sem avisar, não pode cometer nenhuma loucura, não pode investir sem somar, subtrair e contar com muitos dedos os números. Durante estes quatro anos e meio sem títulos o Porto vendeu tudo e não ficou com nada, salvo Brahimi, que ninguém parece querer, felizmente, e Herrera, que ninguém parece querer, infelizmente. Já vendeu jogadores com um ano de casa, da formação, sem sequer garantir o 100% da sua mais valia e já vendeu apostas falhadas e logradas. O que não conseguiu foi investir bem porque o supra-sumo das declarações inoportunas, seguramente com a cabeça e o corpo metido noutro lado, perdeu tudo aquilo que o ligava á sanidade da gestão futebolistica. E a carteira do FC Porto foi sendo "roubada", desde dentro, e o dinheiro ganho, as transferências milionárias, foram desaparecendo num buraco onde já cabe o Dragão e, daqui a nada, o azul e branco se for preciso. Ontem, num jogo decisivo, Sérgio Conceição, um homem que faz milagres mas a quem não se pode pedir sempre o impossível, realmente não podia deixar de olhar com inveja para os que o precederam. Os que tinham na área a jogadores como Derlei, McCarthy, Lisandro, Falcão, Hulk, Jackson ou André Silva e não Moussa Marega. Há uns tempos atrás escrevi que Marega era o exemplo desta equipa e nada pode ser mais certo. Todo o querer do mundo e toda a dificuldade do mundo incluídas num jogador que dá 200% mas que há coisas que não pode dar. A culpa nunca será sua. A culpa é de quem foi sangrando o clube a ponto de que tenha de lutar contra o maior rival de sempre, o Polvo, com Marega, com Otávio, com Aboubakar e com Herrera quando durante uma década teve jogadores de um nível muito superior, cujo dinheiro das vendas foi mal gasto, negócio atrás negócio, para não falar naquele que, misteriosamente, desapareceu e foi parar a outras mãos. Ontem o FC Porto mediu-se nu contra o Polvo. Despido por quem devia ter procurado dar-lhe o melhor traje de batalha e o despojou das armas. Conceição, os seus e os adeptos no Dragão foram à luta na mesma, porque esse é o nosso ADN, e lutou com os punhos e com a alma. E ganharão, ganharemos, esta batalha. Contra tudo e contra todos, inclusive contra aqueles que nos despiram e nos deixaram nus para, mais á frente, virem reclamar os despojos e o traje do imperador.



O FC Porto vai ser campeão.
Contra tudo e contra todos. Dentro e fora. Salvo o plantel - um exemplo de atitude mesmo quando o talento e a capacidade individual não dá para mais - e o treinador, o motor desta recuperação espiritual de uma ideia de Porto perdida desde a época das vacas gordas, contra tudo e contra todos. Contra os interesses da capital, os negócios ocultos da trama e os tentáculos nas esferas do poder. Contra as manobras rasteiras de Alexandre, contra a ressaca do "Anterismo", contra os interesses dos Teixeiras. Contra o vitimismo dos Vieira e dos Carvalho, contra a violência dos Fejsa e os braços de Luisão. Contra os fundos que andam a apropriar-se, pouco a pouco, do futuro do clube, os que hipotecaram o estádio e o negócio com a Altice e os que fizeram com que a UEFA tivesse direito para apresentar-se à porta a pedir contas. Contra o VAR calado do Polvo. Contra o silêncio oportunista de Pinto da Costa. Contra tudo e contra todos. Campeões.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Unidos, com Sérgio, até ao fim...

Iker Casillas é um dos jogadores mais titulados da História, um jogador que já jogou (e venceu) todas as grandes competições de elite, um dos melhores guarda-redes de sempre - numa lista alargada, é certo - e um homem que sabe liderar, quando quer. Sérgio Conceição não ganhou nem um quinto do que ganhou Casillas, como jogador, mas o seu carácter e liderança sempre foram imagem de marca e desde que passou do relvado ao banco sempre fez da honestidade, do trabalho colectivo e do espírito de grupo, caracteristicas marca da casa da sua filosofia de trabalho. É por isso, sobretudo, que estamos a viver o melhor arranque de temporada dos últimos cinco anos. E é por isso que não nos podemos permitir deixar que um problema interno, de resolução interna, afecte a crença neste projecto, neste grupo e, sobretudo, neste Mister.

Desportivamente Casillas tem tido um papel positivo desde que chegou. Não superlativo - não foi capaz, até agora, de reproduzir o papel de um Mlynarzick ou Schmeichel, por exemplo - mas a sua classe não está nem esteve nunca em discussão. Teve falhos importantes, sobretudo na Champions, mas também momentos de brilhantês que ajudaram a equipa ainda que, no final, por muitos outros factores, os objectivos não fossem alcançados. O melhor exemplo comparativo de Casillas destes últimos três anos seria talvez o do belga Michel PreudHomme, um grande guarda-redes que não foi suficiente para que um mau Benfica fosse competitivo. 
Casillas foi também fundamental no processo de adaptação de vários jogadores jovens e de muitos dos colegas espanhóis - ou com passagem por Espanha - e nesse sentido é uma referência importante no balneário. Sem estar na lista de capitães é um líder, silencioso, como aliás tem sido sempre. Se houve algo que sempre se lhe apontou foi a dificuldade em assumir o papel de máximo líder de grupo. Em Madrid sempre foi ofuscado por perfis superiores, nesse sentido, como eram primeiro Hierro, Raul e até Roberto Carlos ou Guti e mais à frente, já de braçadeira, por Sérgio Ramos ou Alvaro Arbeloa. Na selecção espanhola, da qual foi capitão uma década, também o central de Camas ou jogadores como Puyol ou Xavi, passou o mesmo. Não esperem de ele outra coisa e para alguns treinadores isso é um incómodo porque imaginam que tanta experiência deve vir acompanhado de algo mais, desse plus. O que também sempre faltou a Iker, desde a sua ascensão meteórica, foi o compromisso de dedicação absoluta ao trabalho. Todos os seus treinadores passaram por problemas com a sua implicação com os treinos ou, nalguns casos, nos seus inicios, com a sua vida fora do terreno de jogo. Desde del Bosque a Ancelotti, passando por Capello ou Mourinho, sempre se comentou que a dedicação nos treinos era inferior à exigência do seu posto, que Iker pouco procurava melhorar os seus pontos fracos - jogo de pés ou cruzamentos à área, sobretudo - e que devido ao seu perfil mediático, primeiro com o Real Madrid e com Espanha e logo no Porto, dava demasiadas vezes a sua titularidade por assumida. Esse desleixo custou-lhe vários problemas, a saída do Real Madrid, primeiro, e da selecção espanhola depois. E essa desconexão está agora a provocar um fait-divers que só tem contribuído em ofuscar este brilhante inicio de temporada.



Sérgio Conceição tomou a decisão que se exige a um líder de um vestuário de muitos. Instaurou umas regras e decidiu punir quem entendeu que não as cumpria. Fê-lo sem olhar a nome, apelido, número e salário como corresponde a um líder. O exemplo dá-se precisamente quando se demonstra que ninguém é intocável. 
Desportivamente claro que a equipa sai a perder - José Sá está a anos-luz do pior Casillas, que nem sequer era o que estávamos a ver - mas se Conceição quer manter o grupo unido debaixo de uma ideia, é necessário actuar em consequência. Se este projecto tem sido competitivo é, precisamente, pelo grupo e pelo trabalho de Conceição. Não é pelo talento individual  - que quase não há - não é por nenhuma inovação táctica bestial - o sistema habitual é bastante elementar - e não é seguramente por Casillas. É pelo grupo, pelo espírito restaurado e pela disciplina que nos mantemos altamente competitivos. E isso é o que não se pode perder.
Casillas cometeu um erro. Acontece. Qualquer profissional comete erros. Que seja recorrente na sua carreira é um reflexo do tipo de atleta que é e foi mas não é motivo para criar um drama. Conceição actuou como tem de actuar, como devíamos todos esperar que actue um treinador do FC Porto. Não acredito que tenha feito uma cruz a um jogador importante mas também não quis deixar de marcar posição. Havia uma regra de grupo - reforçada depois do incidente com Aboubakar (que, recordemos, foi apanhado por um telemóvel que não era o seu num directo gravado por um colega, não por ele) e que os jogadores estão a respeitar. O telemóvel em dias de jogo não existe, as redes caladas, a concentração máxima. Desrespeitar uma regra elementar é um erro que deve ser assumido diante do grupo e entre todos passar página. Não é motivo de drama, é motivo de união, ainda mais se for possível, entre todos. Se Iker, com os seus quase vinte anos de carreira e balneários, tiver a humildade de desculpar-se ao grupo e se Sérgio tiver a liderança necessária para saber reforçar essa união, este episódio tem tudo para unir ainda mais o plantel. Se um deles decidir continuar fiel a uma postura inflexível, teremos um problema e José Sá corre o risco de sofrer um dano colateral que não merece. Se for ele o titular este sábado deve ter o apoio de todos. Se não o for deve entender a dificil natureza da sua situação. O que todos esperam é que isto seja um fait-divers e não um ponto de viragem. 

No entanto, uma coisa é certa. Todos os que pediam o "velho Porto", o da cultura de balneário, o de não saltar nada para fora, o do final das vedetas e o de um treinador capaz de fazer grupo, têm de saber que este é o momento para mostrar o verdadeiro apoio ao único homem que tem, dentro da estrutura, lutado pelo regresso a essa realidade. Um Porto onde quem decide é o treinador, nem interesses da SAD ou de agentes externos. Um Porto à Porto. Conceição cumpriu o seu papel - não foi ele que faltou a uma regra de grupo -  e no pior dos casos, se Casillas não demonstrar o arrependimento necessário que a situação exige e o seu afastamento siga, por muito que desportivamente signifique sair a perder, os adeptos devem mostrar o seu apoio incondicional ao homem que tem estado detrás de tudo o bom que tem sucedido desde Julho, desde a recuperação de jogadores ostracizados à recuperação do espírito competitivo e ofensivo de sempre sem esquecer a liderança isolada da liga e a luta pelo apuramento aos oitavos-de-final da Champions (objectivo realista neste contexto presente). Com todo o respeito para Iker - e qualquer jogador que se coloque voluntariamente nessa situação - o orgulho que eu tenho desta equipa, neste momento, tem um responsável principal e não tenho problemas em afirmar, estou com Sérgio, até ao fim.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Rock and Roll

Quando Jurgen Klopp assinou contrato com o Liverpool, interrompendo o seu ano sabático, a cidade dos Beatles celebrou o feito como um regresso às origens - tácticas e emocionais - e a imprensa local, sempre desejosa de tecer comparações com a sua herança musical declarou que tinha voltado o "Rock and Roll" a Anfield Road. Klopp tinha-se celebrizado com o seu modelo vertical, ofensivo e de pressão alta no Dortmund, o "Gegenpressing", e nos últimos dezoito meses logrou repetir o modelo de jogo em Inglaterra. Salvas as (imensas) diferenças que (ainda) existem entre Klopp e Conceição e entre os plantéis de Dortmund e Liverpool com o FC Porto, não é no entanto descabido olhar para esta pré-temporada a que falta apenas um jogo, e assumir que o Rock and Roll também voltou à Invicta.

O termo de comparação ajuda.
Quem sobreviveu a Nuno Espirito Santo está preparado para desfrutar e ver o lado positivo de tudo. O jogo pastelento, sem ideias, defensivo e primário de NES é felizmente passado mas isso não impede de que ver que o salto qualitativo para Conceição seja real. Olhando para a equipa, nestes últimos encontros, há uma evidente aura a anos noventa que não podemos ignorar. O jogo com dois avançados que se complementam a lembrar a verticalidade da dupla Domingos-Kostadinov ou, numa comparação simpática e distante, entre Jardel (Aboubakar) e Artur (Soares). Com a bola, o posicionamento da equipa convida a um jogo ofensivo pelas alas - com a abertura dos laterais e o jogo combinativo interior dos extremos e médios com a dupla de ataque - não muito distante do clássico 442 utilizado até à chegada de António Oliveira, com a equipa a jogar, efectivamente, muitas vezes num 4-1-3-2. E depois está a evidente garra e o dinamismo físico que recorda os melhores anos de Robson, de uma equipa sempre disposta a jogar simples e fácil mas com uma ideia vertical de jogo. Poucos passes, futebol menos rendilhado mas extremamente mais eficaz, com o esférico a ser conduzido em direcções concretas para gerar constante superioridade na zona de finalização. Rock and roll com chuteiras.



A realidade do futebol português, demonstrada na última década, pede um modelo assim.
O futebol mais pensado e pausado, de controlo do esférico e do espaço mas com poucos homens a aparecer na zona de definição que marcou os anos de Vitor Pereira e Lopetegui pode funcionar até melhor na Europa - onde a qualidade dos rivais é muito superior e há mil variações tácticas a ter em conta - mas no campeonato português, como Jesus, Villas-Boas, Jardim, Marco Silva e Vitória entenderam perfeitamente - por oposição a Paulo Fonseca, Nuno Espirito Santo e companhia - o que conta em 90% dos jogos não é a posse nem o controlo do jogo desde o dominio do espaço mas sim o sufoco ofensivo de forçar o erro ao contrário ocupando os espaços de finalização e tentanto chegar até lá com o menor tempo de posse possivel para aproveitar a desorganização contrária. Dois avançados sempre móveis na área, extremos que se incorporam, laterais que esticam o campo e interiores com remate, foram marcas das equipas do Benfica e de Villas-Boas e mostraram funcionar perfeitamente para um enquadramento onde a imensa maioria dos rivais joga posicionando os seus homens atrás da linha do meio campo a esperar possíveis contra-ataques. Rendilhar o jogo pode ser desesperante e exige paciência e muito talento, sobretudo individual, para quebrar esses muros. Atacar sucessivamente, de diferentes formas e com muita gente é um modelo que sendo menos controlador, na posse, tem mais opções de levar ao erro do contrário e é um atalho mais rápido para o golo. Conceição, ao contrário de NES, sabe-o perfeitamente dos seus dias no Minho, onde as suas equipas sempre procuravam em momentos de ataque surpreender o rival pela acumulação de efectivos ofensivos mesmo que isso ás vezes também significasse que a equipa ficava partida nos momentos de perda. Com um plantel superior e uma força moral por detrás do escudo do Dragão, tem ficado claro que empurrar os rivais contra as cordas - a sua área - e dedicar-se a aplicar golpe atrás de golpe - remates de todos os enquadramentos, acumulação de jogadores em zonas de finalização - mais tarde ou mais cedo vai provocar um KO. Se Vitor Pereira ou Lopetegui jogavam para ganhar o combate aos pontos, se NES jogava para não perder o combate aos pontos, Conceição joga para o KO. Fazia falta esta lufada de ar fresco.

Há ainda muito trabalho táctico pela frente - um mês de trabalho colectivo não é nada - mas as ideias estão lá e nota-se, sobretudo, que os jogadores entenderam o plano A do treinador (falta por ver se existe e qual é o plano B e C) e que há uma clara sintonia do banco para o campo.
É normal que no início tudo seja amor. Os jogadores querem triunfar e estão, quase sempre, predispostos a abraçar novas ideias se isso significar vencer. Os laços são verdadeiramente testados ao primeiro tropeção, nos dias frios de Inverno ou quando mais tempo de banco signifique menos tempo de jogo para alguns. É aí que a liderança de Conceição será realmente testada mas até agora as impressões são claramente afirmativas. No discurso, na atitude no banco, no trabalho da equipa e na motivação dos jogadores.
A recuperação de Aboubakar - que complemente a Soares e Brahimi melhor do que André Silva, que sendo melhor jogador e avançado não tem a presença física do camaronês, que abre outras modalidades de jogo a ser exploradas - é um dos seus primeiros grandes méritos e não foi necessário afastar um Brahimi que é sempre determinante, durante uns meses, para mostrar quem manda. Conceição sabe que não há dinheiro para reforços (mas para as comissões de Vaná, seguramente sobra algo quando o que sobra realmente é o jogador, como Conceição tem deixado claro ao manter José Sá como número 2 de Casillas) e fez dos descartados Hernani, Marega, Aboubakar e Ricardo Pereira apostas seguras em distintos momentos. Não tem havido demasiado espaço para as afirmações da formação. Rafa sofre com o overbooking á esquerda de Alex e Layun (se há necessidade de vender, realmente, esta é a oportunidade de ouro para que um deles saía) e a Dalot passa-lhe o mesmo à direita onde Maxi deixou claro já que será importante para o balneário mas que em campo não oferece o mesmo que Ricardo. Conceição, melhor do que ninguém, uma vez que também foi lateral e extremo, sabe o que sacar do jogador e o futebolista tem demonstrado que é dificil encontrar um lateral ofensivo melhor que ele na ala direita em Portugal. A sua amplitude ofensiva tem-se revelado fundamental para o apoio a Corona e a possibilidade de o utilizar à frente do próprio Maxi revela bem a fartura de opções para as alas que Conceição vai procurar utilizar (Brahimi, Ricardo, Hernani, Corona e o próprio Layun, sem esquecer Otávio) ao largo da temporada.
No ataque a dupla Aboubakar-Soares é uma certeza já e ainda que seja dificil imaginar que Marega possa causar o mesmo impacto, estando em campo - e Rui Pedro continua a ter escassos minutos para provar o seu real valor - não seria de surpreender que não venha mesmo mais nenhum reforço, pelo menos até Janeiro. Se o ritmo goleador se mantiver - e com Conceição o positivo é que com tantos jogadores em zona de finalização vamos ver futebolistas pouco habituais na lista dos marcadores - pode até ser que não faça falta.

O que sim vai ser curioso ver é a conjugação dos nomes do miolo.
O modelo de pressão alta de Sérgio Conceição parte de um 4-1-3-2 em posse, onde os extremos fecham as laterais formando um losango na perda da bola, o que obriga um maior sacrificio de Corona e Brahimi. Em principio há poucas dúvidas que os vértices serão entregues a Danilo e Oliver. São os melhores jogadores para as respectivas posições. No caso do internacional luso nota-se que chega tarde e que precisa de recuperar o tom físico e beber das ideias do técnico mas tem valia suficiente para se fazer com um lugar que, curiosamente, teria assentado como uma luva no modelo de jogo de Ruben Neves, em que o pivot defensivo não é apenas um polvo mas tem a responsabilidade dupla de iniciar a criação da jogada - algo que Neves fazia melhor que Danilo - e também muitas vezes aparecer à entrada da área em posição de remate ou de último passe - algo que Neves também fazia melhor que Danilo. A ajuda constante dos laterais em posição de posse e a pressão uns metros mais acima do habitual com NES, com a linha de quatro da frente a exercer o primeiro bloco de pressão, liberta muito das funções do pivot defensivo o seu trabalho de estar em todas partes e isso tem-se feito notar. Talvez por isso SC tenha igualmente tentado colocar André André ou Herrera nessa posição mas a qualidade do passe de ambos faz-se notar demasiado tanto na saída da bola no início da jogada como no momento final da conclusão. Servem para correr e ocupar espaço, colaborar na pressão, mas Conceição pede mais ao "6" do que isso, ao contrário do modelo primário de NES. E no plantel, actualmente, ninguém pode oferecer essa função. No outro lado está Oliver, mais completo que Otávio em tudo, com essa pausa chave para permitir que as restantes peças do tabuleiro se mexam e com essa facilidade do primeiro toque que desbloqueia situações de um para um e gera superioridade. Será fundamental no modelo de Conceição, um autêntico Deco que muitas vezes seja liberto da pressão pela ajuda de um dos avançados para depois receber em recuperação a bola em melhor posição e aplicar a sua magia. Nenhum modelo de jogo favorece mais as suas características de uma forma pro-activa que este. Terá de o aproveitar.



Sem embandeirar em arco - afinal de contas, o FC Porto sabe que parte para mais um campeonato que não se joga só em campo e onde ser muito competente pode não ser suficiente - as melhorias são evidentes. Com menos Conceição tem feito mais do que os seus últimos predecessores e resta agora saber se esse mais será capaz de o fazer em jogos a doer e contra rivais de caracteristicas distintas. O processo de crescimento é acumulativo e a equipa, como um todo, terá de evoluir com as novas ideias do técnico mas no Dragão respira-se já outro ar. Esperam-se jogos mais verticais, mais espectaculares - talvez mais sofridos também em alguns momentos de organização defensiva onde Casillas e a frieza Marcano-Filipe serão chave, como tem sido hábito - e um FC Porto sobretudo mais pro-activo á procura de resolver cedo o marcador e de ampliar cedo o resultado a margens confortáveis de gestão de espaços para aplicar depois a sua velocidade com o decorrer do encontro. Salvas as distâncias - até porque não há Hulk, Falcao, Moutinho, James ou Belluschi - este é o modelo mais similar ao visto na época de AVB e todos sabemos como isso resultou. Na altura Pinto da Costa fez precisamente referência a que um treinador com esse talento tinha de ganhar sim ou sim de forma espectacular. Conceição tem a ideia de jogo e o modelo mas não tem o mesmo plantel. Será capaz de por o Dragão a dançar ao ritmo frenético das suas guitarras eléctricas?

sexta-feira, 7 de julho de 2017

O gesto de Iker

Casillas será guarda-redes do FC Porto pelo menos por um ano mais.
Era algo que estava sobre a mesa desde que o guardião espanhol aterrou, há duas temporadas, na Invicta mas ainda que o resultado final seja o mesmo, as formas são bastante distintas e essas apenas honram um jogador que soube, desde cedo, entender a mística deste clube e que aceitou ser capitão na sombra ganhando a pulso o respeito e carinho dos adeptos.

Iker chegou em 2015 com um contrato muito particular. Durante dois anos o Real Madrid comparticipava em 70% do seu salário cujas cifras eram incomportáveis para a realidade do FC Porto que se fazia cargo do restante valor. Era a forma de facilitar a desvinculação do jogador do seu clube de sempre sem criar grandes problemas à instituição. Sob esse pressuposto o contrato incluía a possibilidade de ampliar-se um ano mais de forma automática, tanto por parte do atleta como do clube, tivesse esse disputado 70 jogos oficiais nos dois anos anteriores. O problema? Essa prolongação mantinha a mesma base salarial mas já sem a comparticipação dos merengues o que faria de Casillas o jogador mais bem pago, em exclusividade, da história do futebol português por uma enorme margem. Salários de estrela mundial num clube luso era algo inconcebível de aí que, nos corredores do Dragão, se olhasse para a estância de Iker como um processo de dois anos com uma saída, grátis, para um outro clube, possivelmente norte-americano, neste defeso. Mas Iker não quis avançar para a reforma dourada da MLS e apesar de ser verdade que sondou outros clubes europeus nestes meses, através do seu agente - clubes da Premier, da Serie A e até da liga espanhola - a sua vontade principal era a de ficar nas Antas. Restava saber em que moldes.

O agente de Iker fez saber ao FC Porto no início do ano que o jogador queria ficar ao que o clube respondeu que desejava o mesmo mas na situação actual, mais ainda do que o costume, o seu salário original era inviável e que portanto nunca seria o FC Porto a activar a cláusula de extensão de contrato. Caberia ao jogador mover as peças no tabuleiro das negociações. Podia tentar forçar a situação, activando unilateralmente a sua cláusula - algo que o FC Porto sabia que seria muito dificil que sucedesse - ou simplesmente sair, com um aperto de mãos, como muitos temiam. Casillas fez o mais dificil. Não só recusou clubes que lhe ofereciam mais do que estava a ganhar, já então, como aceitou ficar num novo projecto, depois de dois anos sem ganhar nada - ele que, como atleta, já ganhou absolutamente tudo o que há para ganhar - ganhando substancialmente menos. Continuará a ser o jogador mais bem pago do plantel e ainda que as cifras não transcendam para fora, esse valor dista muito do que iria cobrar originalmente. O vinculo é de um ano e esse sim parece ser o final da sua etapa, entre outras coisas porque o futuro profissional da sua mulher está igualmente em jogo e vai ser prioritário na escolha do futuro destino do atleta, mas será um ano muito especial. Por um lado porque Iker ganhará menos do que nunca ganhou e por outro porque é a sua forma de mandar uma mensagem para dentro e para fora. O espanhol não quer sair de mãos a abanar da sua etapa como Dragão.



Nos últimos meses o internacional espanhol tornou-se uma especie de capitão silencioso e sem braçadeira no balneário. Foi fundamental na integração de vários jogadores jovens - alguns deles falam de Iker como um autêntico pai desportivo - e trouxe esse ADN de competitividade, espirito ganhador e raça que bebeu em Madrid para um balneário sem referências da cultura Porto nos dias que correm. Á medida que o clube prefere vender as suas pérolas com a desculpa que há um problema financeiro com a UEFA - um problema que não lhes impediu de bater o seu próprio recorde de transferências com Oliver Torres, curiosamente num processo gerido pelo mesmo homem que agora gere as saídas dos seus jovens internacionais lusos - contar com o perfil e a grandeza de Iker Casillas vale muito mais do que possa parecer á primeira vista. O FC Porto ganha um ano para preparar a sua alternativa nas redes, Sérgio Conceição ganha um líder dentro e fora de campo e os adeptos mantêm uma referência de respeito e carinho para com o clube numa altura onde muitos daqueles que o deviam defender e acarinhar do mesmo modo fazem precisamente o contrário. 

O gesto de Iker choca com o gesto de muitos assalariados do FC Porto. É preciso vir alguém de fora para mostrar grandeza e sentido de pertença com uma grande instituição. No final do próximo ano será livre mas Casillas do FC Porto já não se livrará nunca. Será sempre um dos nossos.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Sérgio Conceição, que esperar?

Formalizado o acordo com Sérgio Conceição, chega a hora de entender o que se pode esperar do novo treinador do FC Porto, o sétimo treinador que orienta a equipa depois do último título oficial conquistado. O antigo lateral e extremo direito do clube sucede assim a uma lista que inclui Paulo Fonseca, Luis Castro, Julen Lopetegui, Rui Barros, José Peseiro e Nuno Espirito Santo. 

Está claro que Conceição não era a primeira opção do clube, algo facilmente comprovável pelo facto de há menos de um mês o técnico ter renovado com o Nantes, reforçando um forte laço de compromisso com o clube francês. Tivesse já tido conhecimento do interesse do FC Porto seguramente não teria colocado a sua assinatura nessa renovação para sair, semanas depois, custando ao clube uma indemnização em forma de dois jogadores da equipa B. Falhado o processo Marco Silva, sem grandes alternativas no mercado de técnicos dispostos a queimarem a sua carreira num banco que já foi de sonho e hoje é uma cadeira de electrocussão, chega então um homem que já teve uma passagem consolidada pela liga portuguesa em clubes de perfil médio alto como são o Braga e o Vitória e que, desde Dezembro, tem uma melhor carta de apresentação do que alguma vez poderia ter Marco Silva. Recordamos que ambos começaram 2017 a treinar equipas na linha de água do seu respectivo campeonato. Silva desceu de divisão, Conceição levou o Nantes ás portas da Europa alcançando o melhor resultado em dez anos na história do clube. A reter!

Conceição é um pragmático como técnico, reflexo do que era como jogador. 
Todos nos lembramos daquele lateral de projecção ofensiva que se curtiu no Felgueiras de Jorge Jesus e que explodiu no FC Porto de António Oliveira, passando mais tarde para extremo, antes de passar para Itália onde viveu a época dourada da Lazio antes de voltar ainda ao Porto, com Mourinho, para ser campeão europeu em 2004. Durante esse período como jogador foi sempre vertical, directo, frontal e raçudo, traços que tem repetido como técnico. Não vive colado a um sistema táctico e isso é positivo. Nuno Espirito Santo, sem ir mais longe, chegou no ano passado a prometer que ia respeitar o 4-3-3 histórico do FC Porto para acabar perdido num desenho táctico que só ele parecia entender. Lopetegui, por outro lado, nunca quis sair do seu 4-3-3 mesmo quando era evidente que a equipa pedia variantes. Ter um treinador ambicioso e flexivel tacticamente é sempre importante num cenário de incerteza com o futuro do plantel. A sua matriz de jogo é portanto um reflexo do material de trabalho que tem e isso garantirá sempre uma abordagem realista, algo que o projecto necessita claramente. 
Até ao presente Conceição não tem títulos para apresentar nem jogos memoráveis das suas equipas a nível táctico mas o que tem é uma clara mensagem de trabalho e de preparação consciente de cada jogo dentro das suas particularidades, podendo portanto ser altamente provável que a equipe oscile entre o seu habitual 4-3-3, o 4-4-2 ou o 4-2-3-1, modelos que usou em distintos momentos da época em cada um dos seus três projectos mais significativos como técnico. 

Paralelamente à dimensão táctica, Sérgio é inevitavelmente um técnico com um discurso pro-activo, muito distante da figura quase patética de Nuno Espirito Santo e do autismo de Lopetegui. Conceição não precisa de desenhos nem de sacar frases feitas como "Somos Porto" para reforçar a sua união emocional com o clube e com os adeptos. A sua liderança é verbal e frontal, um discurso para os adeptos, para os rivais e também para dentro, para a motivação colectiva e individual dentro dos elementos do plantel uma vez que é um reflexo daquilo que foi jogador e como se tem visto em várias experiências recentes, ser um treinador com um passado de futebolista de elite não deixa de ser um reforço para a mentalidade grupal. Está claro que vai herdar um plantel com fome de títulos e dentro da sua dimensão de discurso tem tudo para transformar a ânsia de comer com a consecução dos objectivos traçados.



Inevitavelmente Sérgio será também julgado por títulos e para isso dependerá inevitavelmente do plantel à sua disposição. Fernando Gomes deixou cair recentemente que a culpa do estado actual das finanças do clube é de NES pela exigência em manter vários titulares - afinal a culpa é sempre do treinador no FC Porto - e portanto parece óbvio, mais depois da confirmação das sanções da UEFA, que muitas pedras chave vão sair. Quem ficará, quem chegará e como será o plantel, dentro do equilíbrio necessário, ditará muito da sua própria ambição de trabalho. Sem ovos não há omeletes e ainda que o FC Porto tenha ganho um título com Sebas, Liedsons, Izmailovs e Kelvins o certo é que nesse plantel havia também Jackson, Fernando ou Moutinho. A necessidade de apostar na formação, em jogadores do perfil baixo que terão de dar um passo em frente no clube são, ironicamente, também reflexo da própria ascensão de um técnico que foi campeão de juniores antes de ser campeão de seniores. Transmitir essa fome e os valores do clube encontra reflexo na sua própria mensagem e atitude pro-activa. 

Resta portanto saber como vai poder Sérgio Conceição lidar com essa nova realidade dentro do que é a sua primeira grande etapa como treinador principal e como uma etapa de preparação de meia dúzia de anos se transformará em ferramenta útil dentro do seu processo de afirmação como o novo leme do Dragão. Para o final fica a mensagem dada pelo próprio Conceição no seu discurso de apresentação. Acreditemos pois!   

"Muito obrigado ao presidente, às pessoas do FC Porto e aos portistas que acreditam e aos não acreditam. Estarei aqui para provar que posso dar-lhes alegrias. Estou plenamente consciente. Trabalhar ao mais alto nível é conquistar títulos"