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sábado, 23 de janeiro de 2016

O Chainho da Doyen

Antes de começar quero deixar claro que este artigo não visa, em nenhum momento, insultar o Chainho. Um jogador que deu tudo pelo Porto quando jogou. Nunca foi um fora de série, muito longe disso. Mas suou a camisola e fê-lo com brio. Chainho, se me estás a ler, não quero que te sintas mal quando descrevo o Imbula como o "Chainho da Doyen".

Agora vamos ao que importa.
Gianelli Imbula. Com nome e apelido. E, sobretudo, com um valor para justificar que seja, a dia de hoje, jogador do Futebol Clube do Porto. Porque esqueçam lá as contas e as falsas sensações de que se pagou ou não se pagou por Imbula com ou sem a ajuda da Doyen. Imbula é, a todos os efeitos, tão jogador do Porto como foi Chainho. Que exista uma promessa de venda, isso é algo lógico e básico na politica desportiva da Doyen e do clube. Mas se, por algum motivo, a Doyen se lembra de deixar aqui o francês a apodrecer (não foi o próprio Presidente que disse que foi enganado no caso Adrian?), quem comerá a carcaça é o Futebol Clube do Porto. Não tenham a menor dúvida.
Imbula é um jogador com um potencial muito bom. Nunca vai ser um Pogba apesar de ter condições físicas semelhantes, mas pode ser um jogador de potencial em muitos clubes europeus. Tem o físico, tem as condições técnicas de ultrapassar dois ou três jogadores em velocidade para criar desequilíbrios. Tem a meia distância para lançar misseis teleguiados e a frieza necessária para um último passe. Tem condições, sim, mas não tem o fundamental para jogar futebol profissional, a atitude. Imbula está no Porto de corpo mas não de alma. Chegou a contra-gosto. Não era aqui que ele queria acabar. Tinham-lhe prometido outra coisa, um ano dourado em Milão, onde podia rivalizar todas as semanas com dois internacionais gauleses como Pogba e Kondongbia com quem, em teoria, poderia disputar um lugar na selecção. Mas a coisa torceu-se. O Milan pensou duas vezes - talvez com motivo - e deixou a Doyen a arder. O negócio Jackson pode não ter ajudado em nada a situação entre os italianos e o fundo que gere a carreira do jogador. Sem clube onde o colocar, Imbula ficou no limbo. Não fazia sentido voltar ao futebol francês, assinando pelo Monaco. Em Espanha a situação estava complicada para colocá-lo no Valencia ou no Atlético de Madrid. Ninguém queria Imbula ao preço estipulado pela Doyen do mesmo modo que o fundo teve tanta dificuldade em meter nos dois clubes espanhóis o médio Rodrigo Caio - apesar das fortíssimas pressões a ambos clubes - que o jogador não teve outro remédio que não fosse o de ficar um ano mais no Brasil. O caso era muito similar ao de Imbula e em Marselha começavam a pensar que iam ter de aguentar contrariado o jogador durante um ano. E então apareceu o Porto na equação.



Lopetegui não queria o "Ferrari" Imbula por muito que Pinto da Costa diga o contrário porque, como se viu na sua entrevista mansinha, tudo o negativo lhe alheio (os assobios dos adeptos, os jogadores que correm mal, o treinador que de ser bestial passou a besta). Não o pediu. Pediu, sim, Sergio Darder. Pelo segundo ano consecutivo. Disseram-lhe que não e Darder, noutro "negócio escuro", saiu a mal do Malaga e acabou em Lyon onde está a ter um ano sofrível. O basco sabia que precisava de um pivot defensivo para competir com Danilo e um substituto para Oliver. O que não necessitava era um "Herrera II" quando o plantel já tinha André André, Evandro e até Ruben para esse lugar. Mas disseram-lhe que tinha de ser e que se fizesse com Imbula o que fez com Casemiro, os louvores seriam ainda maiores porque tudo aquilo onde tocasse seria ouro. Engoliu em seco e aceitou o jogador. A Doyen taxou o jogador em vinte milhões. O Porto oficializou o negócio dessa forma.
A forma de pagamento é relativa tal é a forma como hoje é quase impossível distinguir entre clube e fundo em matéria de negócios. Quanto se abaterá no negócio Brahimi para o próximo verão? Que jogador se sobrevalorizará no mercado para pagar esse favor como se fez com Mangala? Tudo é demasiado cinzento para afirmar, taxativamente, algo a não ser que, para o bem ou para o mal, Imbula foi forçado pela Doyen a ir para o Porto e o Porto foi forçado a ficar com ele de forma oficial. O casamento tinha tudo para correr mal e correu. 
Imbula não se impôs como seria de esperar porque não quis. Ele é o primeiro que sabe que vai sair em Junho e que este ano é um ponto de paragem, nada mais. A Doyen vai colocá-lo no Verão noutra liga e ele seguirá a sua vida profissional. Este foi um parêntesis. Por isso não valia a pena treinar no duro, aplicar-se a sério, ir ás bolas divididas, sentir o peso da camisola no peito. Essa atitude começou a sentir-se na pré-época e tem vindo, in crescendo, a ser cada vez mais evidente. Imbula quer que todos saibam que não gosta de estar aqui. Se isso é inteligente ou não, o problema é dele. Cá estaremos para ver o que será o Imbula fora do Porto. Esqueçam é de ver o Imbula que podia ser aqui. E não é dois gritos do treinador que seguramente o vão fazer mudar de ideias.

Imbula é tudo aquilo que André André não é. Para o bom e para o mal. As condições técnicas e tácticas que tem o francês o filho do nosso André não tem e dificilmente terá. Mas a este ninguém lhe ganha em atitude. Não se pode (pelo menos não se devia poder num clube como o Porto) fazer uma carreira apenas com base na atitude. Em algum momento ou o jogador evoluiu ou deve vir alguém melhor. Mas o certo é que a André não lhe podemos apontar absolutamente nada e mesmo sendo pior futebolista do que Imbula é, seguramente, melhor profissional. O francês poderá acabar por explodir e transformar-se numa referência mundial mas nos nossos livros de história ocupará um lugar semelhante a Chainho, um médio esforçado que Fernando Santos foi buscar ao seu Estrela da Amadora para reforçar o meio-campo e que cumpriu sem deslumbrar. A diferença é que Chainho não custou oficialmente 20 milhões nem foi imposto por um fundo que, daqui a nada, vai subministrar até o papel higiénico do Dragão em exclusividade. Afinal de contas, olhando para o rendimento de um e de outro, o lugar na história do clube de Chainho está a um patamar superior. Pelo menos ele soube vestir a camisola do clube com o respeito e dedicação que se lhe exige. Por tudo isso, desculpa Chainho, este artigo não era para ti.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O catálogo Doyen

Numa esplanada, em Madrid, falando com um amigo que trabalha na direcção desportiva de um clube com quem o FC Porto faz negócios com alguma regularidade, discutiamos a politica de contratações dos dois clubes. Esse mesmo amigo contou-me anedoctas deliciosas de outros tempos, outros negócios mas foi claro ao afirmar que desde há dois anos para cá, tudo tinha mudado para toda a gente, incluindo o nosso clube. "O Porto", disse-me ele, "já não negoceia directamente com quase ninguém. Nunca mais cá vieram os de sempre. Agora é tudo via eles." Eles, neste caso, refere-se à Doyen Sports. A história não era nova mas contada por alguém que está directamente envolvido no meio reforça o que há muito se diz. Durante o mandato Pinto da Costa, especialmente a partir dos anos noventa, o FC Porto tinha empregados ou duas ou três pessoas de confiança do presidente, essencialmente agentes bem conectados como Luciano D´Onofrio ou Josep Maria Minguella, que negociavam futebolistas em nome do clube. A palavra final era sempre do presidente e muitas vezes até era ele que apresentava a lista dos jogadores que queria para avaliar a sua situação. Depois a direcção desportiva e esses cinco ou seis homens tratavam do resto. Eram conhecidos em toda a América Latina e toda a Europa e tratavam por "tu", os membros das direcções desportivas de todos os clubes relevantes. Agora isso acabou. O FC Porto já não negoceia em seu nome. Agora negoceiam em nome do FC Porto, o que é diferente.

Esta história serve para exemplificar o que nos meandros do clube se passou a chamar o "catálogo". 
Desde há cerca de dois anos e meio os problemas de financiamento do clube deixaram a direcção num beco sem saída. Apesar das boas vendas de activos e das boas relações com empresários vários e clubes, a financiação do clube era cada vez mais complicada nas entidades bancárias - a crise é para todos - e para piorar a cada ano que passava os gastos - sobretudo a banda salarial - iam aumentando de forma descontrolada. O anuncio do fim dos fundos, a solução habitual, por parte da FIFA foi um golpe esperado mas duro. Um problema já que obrigava no papel os clubes a comprar a 100% o passe dos jogadores algo que há muito o FC Porto (e outros clubes) não faziam por ser impossivel arcar com os gastos. Nesse contexto problemático alguns desses fundos - que colaboram activamente com agências profissionais, servindo em muitos casos com elementos ocultos do seu modelo de negócio - sugeriram uma importante alteração. Continuariam a apoiar os clubes que quisessem trabalhar com eles, financiando a compra de futebolistas de forma encoberta mas, em troca, esses clubes deveriam obrigatoriamente mover-se essencialmente com activos do seu catálogo. Só em casos muito, muito esporádicos - desde a falta de uma opção viável no catálogo, a recusa de um jogador ou uma oportunidade de negócio que o clube comprador pudesse suportar só e via um agente paralelo mas com boas relações com a equipa dessa fundo - é que o fundo fecharia os olhos a um negócio paralelo. O grosso da actividade teria o backup financeiro, sim, mas também a exclusividade desportiva.
Um desses catálogos, o mais célebre e activo do mundo do futebol, pertence ao universo Doyen. A aproximação de Jorge Mendes - um agente que trabalha com o FC Porto desde há mais de quinze anos ainda que a sua relação tenha sufrido altos e baixos com o clube - começou anos antes, nos importantes negócios para o Manchester United (Anderson), Real Madrid (Pepe) e logo para a Rússia e para o Monaco. O passo seguinte era inevitável. O FC Porto já utilizava jogadores do catalogo Doyen e passou a ser parte de um clube que inclui outros ilustres como o AC Milan, o AS Monaco, o Valencia, o Atlético de Madrid ou o Inter que tomaram a mesma decisão, com o grau de "independência" a variar consoante o poderia financeiro de cada clube. Uma entidade com umas finanças depauperadas, como a nossa, tem naturalmente menos margem de manobra que um Milan. Mas a ideia é a mesma.



A partir desse momento o FC Porto perdeu muita da autonomia para mover-se no mercado.
É um homem da Doyen - mandatado pelo clube - quem negoceia em nome do FC Porto. O clube raramente envia os seus emissários a negociar. São os jogadores do catálogo Doyen os que se movem, a maioria das vezes entre estes clubes num circulo vicioso que serve apenas para alimentar o negócio já que a importante percentagem de comissão mantém a chama viva. Nunca um jogador Doyen fica muito tempo no mesmo lugar, é algo assumido por todas as partes. O caso Lucas Lima foi paradigmático. O jogador pertence ao catálogo da Doyen mas não queria vir. O Santos tinha dificuldades em vender abaixo de um determinado preço por isso foi dito ao FC Porto que era a única opção viável no mercado. Pegar ou largar. Obviamente existem centenas de jogadores como Lucas Lima no mercado e um clube com independência e poder financeiro para auto-sustentar-se, teria ido atrás dessas opções. O FC Porto não o foi porque não podia. A solução encontrada foi transformar outro activo Doyen já no clube - Brahimi - no sucessor de Oliver (outro negócio mediado pela Doyen tal como o de Adrian - emprestado sem opção de compra - e o de Jackson, todos com o Atlético) e ir ao mercado atrás de outro jogador da agência, Jesus Corona (num negócio a três partes entre o Twente, outro "clube Doyen" e o fundo original que pescou o jogador no México). Os 10 milhões - tal como os 20 de Imbula, que a Doyen tentou colocar no Inter e no Valencia antes - são ficticios. Oficialmente o jogador é 100% do clube, na prática é apenas um investimento alheio que se vai rentabilizar tendo custado, muito provavelmente apenas a metade em ambos casos. Como tantos outros.

A situação actual do FC Porto é precisamente essa.
Salvo negócios muito concretos - o de Casillas, mediado por Mendes apesar de este não ser o seu agente a pedido especial de Florentino Perez, o do lateral uruguaio, trazido pelo filho do Presidente nas suas costas até ao último minuto - quase tudo o que o FC Porto pode ou vai incorporar nos próximos anos está no catalogo da Doyen. Não há muitas voltas a dar. O catalógo é grande e há lá muitos grandes jogadores porque a especialidade de Jorge Mendes e dos seus é fazer todos felizes e para isso não podem vender gato por lebre. Há quem diga, não sem razão, que mais vale negociar com a Doyen conhecendo a qualidade do produto do que com um qualquer manhoso empresário sul-americano capaz de nos vender o futuro Mareque como se fosse Roberto Carlos. Essa é também uma das bases do êxito da iniciativa. Os clubes sabem que recebem quase sempre material de qualidade.

Além do mais este investimento tem o back-up financeiro do fundo que o clube não possui mas as contrapartidas são evidentes. O clube perde autonomia, o treinador perde autonomia e os jogadores sabem que ficam dois ou três anos até que o fundo decida movê-lo (ás vezes para outro clube seu, basta ver o que passou este Verão com o Monaco e os seus 170 milhões de euros em vendas, com o Valencia e o Atlético de Madrid, os que mais se mexeram em Espanha (trocando jogadores entre os três como Carrasco ou Abdennour) para rentabilizar o activo. O FC Porto poderia até encontrar o novo Messi perdido num clube qualquer que, por dois ou três milhões que não encontre para pagar, se esse jogador estiver fora do catálogo e sem interesse em entrar (como passou com Iturbe, por exemplo, a razão da sua saída do clube) ele acabará por ir para outro lado. Há clubes que passaram a colaborar com a Doyen de forma periférica depois de serem colaboradores activos como o Sevilla, conscientes de que isso ia limitar imenso a sua margem de manobra. Até agora a iniciativa tem funcionado porque o clube tem o melhor director desportivo do futebol mundial, Monchi. Outros usam o catálogo de forma consciente mas mantêm um grau de independência para arriscar em negócios concretos seus, por sua conta e risco como os grandes de Itália. O FC Porto não pode optar pelo primeiro ponto porque o desespero por ter uma equipa competitiva assusta os seus dirigentes e não pode ir pelo segundo porque a situação financeira, apesar de todas as vendas, continua a ser desesperante.

No fundo, no futuro, quando ouçam falar de um futuro jogador para o plantel confirmem primeiro se está no catálogo. Se assim for, a probabilidade até pode ser alta. Caso contrário, será um milagre. O catálogo controla agora o destino deste e dos futuros planteis. É o preço a pagar por querer ser quem não se é. 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Não são escutas, são SMS…

(clicar na imagem para ampliar)
«Record teve acesso a uma troca de mensagens entre Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, e Nélio Lucas, CEO da Doyen Sports.

Através das mesmas é percetível a intenção manifestada por Nélio Lucas no sentido de promover um encontro entre Bruno de Carvalho e Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica.

O líder dos leões recusa a proposta e, perante a insistência de Lucas, reforça não estar interessado.

As mensagens foram transcritas e validadas por um cartório notarial de Madrid, Espanha, a pedido do próprio Nélio Lucas.»
in record.pt


E agora?

Sim, eu sei que “um mitómano precisa de tratamento, não de resposta”. Mas, perante isto, a Liga e a FPF vão abrir algum inquérito, ou vão continuar a assobiar para o lado?


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Brahimi? É pagar

«A 23 de Julho de 2014, o Grupo celebrou com a Doyen Sports Investments Limited, um contrato tendo em vista a cedência de parte dos direitos económicos, em regime de associação económica, do jogador Brahimi pelo montante de 5.000.000 Euros. Este contrato prevê opções de recompra por parte da FCP, SAD de até 55% dos direitos económicos até Junho de 2017, e opções de venda de até 80% dos direitos económicos por parte da Doyen até Setembro de 2017.»
in ‘Relatório e Contas Consolidado – 1º Trimestre 2014/2015’


Formalmente, o FC Porto comprou (ao Granada Club de Fútbol) a totalidade dos direitos económicos de Brahimi pelo montante de 6.500.000€, no dia 22 de Julho de 2014 e, no dia seguinte, alienou (à Doyen Sports Investments Limited), em regime de associação económica, 80% desses direitos pelo montante de 5.000.000€.

Na prática, parece-me evidente que se tratou de uma única operação (envolvendo o Granada, o Doyen e o FC Porto), em que a FC Porto SAD comprou 20% dos direitos económicos de Brahimi por 1.500.000€ (mais um valor desconhecido de Encargos adicionais).

1,5M, por 20% dos direitos económicos de Brahimi, é um bom negócio.
Mas não teria sido melhor a FC Porto SAD ter ficado com 100% dos direitos económicos de Brahimi por 6,5M?

Concerteza. Contudo, falta saber duas coisas: Se a SAD tinha esse dinheiro; e, principalmente, se o Granada/Doyen estavam dispostos a vender os direitos económicos de Brahimi por apenas 6,5 milhões.
Tudo indica que não.

«(…) não podemos estranhar esta incapacidade aritmética do fundo Doyen, pois o seu CEO, Sr. Nélio Lucas, conseguiu transformar uma proposta que fez ao Sporting de 20M, no dia 24/05/2014, para a aquisição do atleta Brahimi, em 6,5M para outro clube português conforme é do domínio público»
in Comunicado da Sporting Clube de Portugal, Futebol, SAD, de 14-08-2014


No contrato com a Doyen, a FC Porto SAD salvaguardou uma opção de compra de, até 55% dos direitos económicos de Brahimi, até Junho de 2017. Assim sendo, se, entretanto, surgir algum “tubarão” disposto a avançar para a compra do passe de Brahimi…

O JOGO, 02-12-2014
Conheço-o muito bem. É um jogador [Brahimi] que fez um início de época extraordinário, tive oportunidade de o ver jogar. Confirmou tudo aquilo que pensávamos dele, quando estava no Rennes, e foi surpreendente que este miúdo tenha deixado o Rennes. Era um pouco inconstante, ganhou maturidade, mas faltava-lhe qualquer coisa. (…) Foi para o FC Porto que é muito bom clube, com muito bons jogadores e está a caminho de mostrar a plenitude do seu talento. É um futebolista que tive oportunidade de ver no Mundial, pela Argélia. Faz parte daqueles futebolistas que dá gosto ver jogar, é capaz de ultrapassar um, dois, três adversários. Para além disso, atualmente, marca golos. Se tem potencial para o PSG? Está a confirmar no FC Porto tudo o que de bom que pensamos dele (…) O único problema é que ele foi para o FC Porto por um valor não muito alto, mas os portugueses colocaram-lhe uma cláusula de rescisão muito, muito, muito cara [50 milhões de euros]. O que nos faz refletir. Mas pronto, quando se gosta de um jogador, quando se gosta do talento, é pagar.
declarações de Laurent Blanc, treinador do PSG, em 29-11-2014

… o encaixe financeiro da FC Porto SAD será, seguramente, muito significativo.

Independentemente do encaixe financeiro que a SAD irá fazer, um conselho para os adeptos portistas: aproveitem esta época, vão mais vezes ao Estádio do Dragão e, daqui a uns anos, poderão dizer que viram jogar, ao vivo, o Yacine Brahimi com a camisola do FC Porto.

sábado, 1 de novembro de 2014

Brahimi, um jogador de top

Após ter comprado a totalidade dos direitos económicos de Brahimi pelo montante de 6.500.000€ (seis milhões e quinhentos mil euros), menos de dois dias depois, a FC Porto SAD informou o mercado que tinha alienado, em regime de associação económica, 80% dos direitos económicos de Brahimi pelo montante de 5.000.000€ (cinco milhões de euros).

Comunicados acerca de Brahimi enviados à CMVM

Ou seja, na prática, tratou-se de uma operação em que a FC Porto SAD comprou 20% dos direitos económicos de Brahimi por 1.500.000€ (falta saber o valor dos encargos adicionais).

Contudo, no 2º comunicado, a FC Porto SAD informou que, no acordo com a Doyen Sports Investments Limited, está contemplada a opção de recompra de 80% dos direitos económicos de Brahimi.
Falta saber por quanto.
Li num jornal (não me lembro qual), que a FC Porto SAD o poderá fazer por um valor a rondar os 8 milhões de euros.

Se assim for, se a FC Porto SAD conseguir adquirir 100% dos direitos económicos de Brahimi por um valor total de, aproximadamente, 10 milhões de euros, será um belo negócio e ficará com um “activo” que, seguramente, irá rentabilizar no futuro.
Porque, em termos desportivos, já o está a rentabilizar no presente…


Capa de O JOGO de 29-10-2014

Estatísticas de Brahimi na época 2014/2015 (fonte: O JOGO de 29-10-2014)

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Bruno e os “maléficos Fundos”

Bruno de Carvalho (BdC) é um homem frenético, um verdadeiro faz tudo e, notoriamente, alguém com uma ânsia enorme de aparecer.
Ele fala aos jornalistas, dia sim, dia não; ele promove (assina) comunicados oficiais do clube, semana sim, semana não; ele dá conferências de imprensa; ele tem um programa regular na Sporting TV; ele vai ao “Você na TV”, da TVI, para ser entrevistado pela giraça da Cristina Ferreira;
Ele vai para o banco de suplentes (imitando o que o tão criticado Pinto da Costa fazia… há 20 ou 30 anos atrás!)


E, depois de ter sido o representante do Sporting no recente sorteio da fase de grupos da Liga dos Campeões, foi também ele o representante do clube de Alvalade no Soccerex, que decorreu em Manchester.

Ora, precisamente num dos intervalos do Soccerex, BdC falou novamente aos embebecidos jornalistas portugueses para, como sempre, dizer coisas “muito relevantes”:

«Estes eventos são sempre interessantes, há várias temáticas que vão sendo discutidas. Saímos agora de uma abordagem de vários membros do comité executivo da FIFA, com a presença de um vice-presidente, que deram a sua própria visão daquilo que é a FIFA e a sua visão do mundo do futebol, várias temáticas sobre fundos e o seu papel, que quase todos consideram nefasto, no futebol.»

«Achei curioso que, de entre vários exemplos que foram dados, a utilização dos fundos pelo FC Porto foi dada [pelo brasileiro Daniel Cravo Souza, apresentado como sócio de uma Sociedade de Advogados] como um dos grandes exemplos do que não se deve fazer no futebol».

«O mundo do futebol está cada vez mais atento ao que se vai passando em Portugal e ao que considera que é uma distorção da verdade desportiva».


Olha que interessante. Nos últimos anos, ouvi e li imensa gente, desde o presidente da Federação ao ainda presidente da Liga, passando pela generalidade de jornalistas e comentadores desportivos, a defenderem/justificarem a utilização de fundos de investimento por clubes e SAD’s, como meio para contornar a crónica falta de cash-flow e as crescentes limitações no acesso ao crédito bancário.
Aliás, o recurso aos fundos era de tal modo bem visto, que o Sporting e o Benfica criaram os seus próprios fundos de jogadores, em parceria com os “espíritos maus” do antigo BES (a ESAF - Espírito Santo Fundos de Investimento Mobiliário, S.A.).


Mas, como dizia um histórico presidente do Vitória Guimarães, o benfiquista Pimenta Machado, no futebol português o que é verdade hoje é mentira amanhã. Por isso, numa altura em que a Benfica SAD se viu obrigada a recomprar as percentagens dos passes de vários jogadores que tinha no seu Fundo (o Benfica Stars Fund) e, do outro lado da 2ª circular, BdC rasgou o contrato que tinha com a Doyen, o recurso aos fundos, perdão, aos “maléficos fundos”, passou a ser algo que tem de ser fortemente combatido, porque agora “distorce a verdade desportiva”…

Fundos? Depois de terem “enterrado o dragão” na época passada, vejo é cada vez mais gente preocupada com… o renovado plantel portista.

Preparem-se para a campanha que aí vem.


P.S. Atualização…

O JOGO, 11-09-2014

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A moralidade do FCP e a France2

Quando os jornais e as televisões portuguesas publicam artigos e reportagens sobre o FC Porto, o adepto azul-e-branco raramente espera algo positivo. É uma marca que vem de há muitos anos. A Bola, o Record e até O Jogo têm sido veículos predilectos para muitos interesses que estão por detrás de alguns dos capítulos mais desagradáveis do nosso futebol. A juntar a isso a tendência centralista e especulativa de alguma imprensa mainstream - e a falta de uma resposta à altura da imprensa regional e local, PortoCanal incluído - permitiu criar esse ambiente. Ou seja, para o adepto do FCP, uma má imagem do clube destas fontes vale pouco. Mas e se essa má imagem vem de fora, pensará o mesmo?

O canal francês France2 emitiu uma reportagem fabulosa sobre os podres do futebol mundial.
Uma dessas reportagens de investigação ao nível de programas como o Panorama da BBC - responsável por desmontar a corrupção da FIFA e do COI, por exemplo - e que analiss em detalhe a partir de uma perspectiva local para o espaço global como o futebol é hoje um negócio gerido por figuras perversas e que actuam nas sombras enquanto os adeptos se distraem com os jogos, os títulos, as desilusões. O trabalho jornalístico é de primeiro nível e a reportagem está a ser citada na imprensa de todo o Mundo como mais um exemplo de jornalismo de alto nível. Lamentavelmente para o FC Porto. Depois da emissão desta reportagem a nossa imagem pública internacional está bastante mais afectada.



Durante meia-hora o FC Porto é utilizado como exemplo para explicar como os fundos de investimento controlam hoje jogadores em todo o Mundo e, com eles, aumentam os seus interesses no desenrolar da temporada futebolística. O pretexto é o caso Mangala, internacional francês.
Podiam ter escolhido vários clubes na Europa. O FC Porto não é, de longe, o único que trabalha com fundos. Mas tem-no feito com regularidade e com sucesso nas vendas (aumentando as receitas de rentabilidade dos mesmos fundos e alguma inveja alheia, convenhamos) e o facto de contar com um internacional francês e ser presença regular na Champions League (e no vocabulário habitual do adepto do futebol) torna-o um alvo perfeito.
A reportagem analisa a forma como Mangala chegou ao FC Porto e o seu passe foi, meses depois, vendido a um fundo (33,3%, o mesmo valor de Defour que não entra nestas contas) o Doyen Group. Um fundo que ninguém sabe de quem é e que se dedica a tudo menos ao futebol. Os relvados servem, sobretudo, para a lavagem de dinheiro. Mais ainda, o programa destapa que o FC Porto deu - repito, DEU - 10% da receita de uma futura venda do francês a um grupo também desconhecido que, resulta, pertence a Luciano D´Onofrio, um empresário belga muito conhecido cá no burgo e tão exemplar que a própria FIFA - que não é propriamente flor que se cheire - o baniu de ser um agente oficial. Ora é fácil fazer as contas. Se Mangala sair por 30 milhões do FC Porto, 3 milhões são de Onofrio. Seja essa percentagem uma comissão que não podia ser paga legalmente (o que nos leva à pergunta, porque negoceia o FCP com agentes ilegais e sabendo-o não pode ser isso um eventual delito?), um favor antigo retribuído ou, pura e simplesmente, porque Luciano é um velho amigo de alguns membros da cúpula directiva do clube, o facto é que há 10% de um dos nossos melhores jogadores que não é nosso não porque tenha sido vendido mas sim dado. A um homem que, curiosamente, era o director-desportivo do Liege quando o mesmo jogador foi vendido. A palavra "suborno" poderia ser utilizada? Algum advogado seguramente não teria problemas em demonstra-lo!  Parece-me um dado suficientemente preocupante para alguém, de forma oficial, o venha a esclarecer.

Claro que a reportagem não fica só aqui.
Com imagens do Porto, do Dragão, do Olival, o FC Porto transmite também uma imagem de inflexibilidade que soa claramente a receio de que se descubram coisas que alguém não quer que sejam públicas. A meio de uma entrevista com o próprio jogador - que confessa que nem sequer sabia que 10% seus pertenciam a D´Onofrio e 33% à Doyen - a responsável de comunicação do clube proíbe-o de falar do seu próprio passe e contrato com o jornalista. Ante a sua estupefacção - a do jornalista, claro, porque o Mangala mostra-se obediente como não se esperaria outra coisa - a desculpa é que no FC Porto só os dirigentes falam de negócios. Algo entendível se o jornalista estivesse a pedir ao seu compatriota que comentasse a política de contratações do clube, o salário de um colega ou o valor de um negócio realizado no defeso. Mas a conversa com Mangala era sobre Mangala. E o jogador do FC Porto descobre que está proibido pelo clube para falar de si mesmo. Jogadores como gado podia dizer-se, jogadores como mercadoria como o próprio Mangala confessa. Nada mais.



No decorrer do trabalho fica claro que o FC Porto não comete nenhuma ilegalidade.
O próprio secretário-geral da FIFA, Jerome Valcke, confessa-o. Há demasiados buracos na legislação para poder castigar o clube ou o jogador. É a Doyen e, em maior medida, o próprio D´Onofrio, quem se movem em águas turvas neste negócio (como em tantos outros). Mas basta um pequeno ajuste legal e, de repente, negócios como este (e como tantos outros que fazemos) podem cair num buraco legal perigoso que homens como Platini (que também aparece em cena) poderiam aproveitar para aplicar uma jeitosa suspensão como a que já está a ser colocada em prática com clubes turcos ou em casos que envolvem o Financial Fair Play. Sem cometer nenhum crime legal parece-me evidente que, ao longo de trinta minutos, qualquer espectador deste documentário ficará com uma imagem do FC Porto como um clube que ultrapassa todos os códigos morais e éticos.

Comercializar com fundos, em vez de clubes. Oferecer percentagens de jogadores grátis a empresários que estão banidos pela própria FIFA. Proibir os jogadores de falarem do seu próprio contrato e da sua situação contratual com a imprensa do seu país. Comprar jogadores por inteiro para vendê-los às fatias. Tudo atitudes da SAD que tenho criticado habitualmente aqui e que agora são reflectidas na imprensa internacional com a isenção que sabemos que nunca vamos encontrar em Portugal. O clube que por um lado impressiona pela qualidade das suas vendas - protagonista de duas séries especiais com a Marca - é agora também o clube que desilude pelos seus métodos de compra, venda e as suas amizades perigosas.

Entendo que o FC Porto SAD deva realizar uma operação de charme na imprensa europeia porque reportagens como esta valem tanto para o público europeu como uma vitória contra o Paris Saint-Germain. Vender esta imagem, lá fora, onde se tomam as decisões importantes, é algo que devemos evitar. Que em Lisboa digam o que quiserem, isso já nem nos afecta (nem devia afectar). Que o digam em Paris ou, eventualmente, em Londres, Berlim ou Roma é outra história. Não somos o único clube do Mundo que se move em areias movediças, longe disso. Não somos nem os mais podres, nem os piores, nem os mais "mafiosos", nem os que manobramos amizades mais perigosas e muito menos os que temos o hábito de anunciar que vendemos jogadores que afinal continuam a ser nossos. Nem de longe nem de perto. Temos comunicados relativamente transparentes, temos o hábito de revelar que percentagens temos e a quem (e por quanto) vendemos o que não temos e isso é de louvar. Mas talvez não seja a transparência ou não o problema.

Tal como defende a reportagem - e eu subscrevo - o problema não é legal. É moral. A partir de aí entra a percepção de cada adepto. Pode haver os que entendam que é normal que o FCP tenha esta atitude. Pode haver até os que achem que não só é normal como desejável. Entendo também que exista gente que não gosta mas se resigna. O clube é de todos e a imagem manchada de um clube mancha a todos os seus adeptos. E tudo pela nossa forma de fazer (muitos) negócios. Para mim, a moralidade da gestão do FC Porto em muitos negócios deixa muito que desejar. E não é essa a imagem que eu quero que o Mundo tenha do meu clube quando há tantas coisas boas que podemos reivindicar como a nossa verdadeira imagem de marca.


PS: Para os que sabem francês, aqui podem ver o documentário completo. A parte afecta ao FC Porto arranca ao minuto 33 e prolonga-se até à hora e dois minutos de exibição.