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sábado, 16 de novembro de 2013

10 anos, 10 jogos no Dragão

Faz hoje 10 anos que o Estádio do Dragão foi inaugurado (no dia 16 de Novembro de 2003) e em que um tal de Lionel Messi se estreou pela equipa principal do FC Barcelona.

Eu fui um dos cerca de 52 mil privilegiados cujo nome ficou numa placa no Estádio do Dragão para a posteridade mas, ao longo destes 10 anos, viveram-se muitos outros momentos de gloria portista, naquele que é o mais belo, funcional e eficiente estádio português.

Qual o jogo mais marcante em cada uma destas 10 épocas?

A minha escolha é a seguinte:

Época 2003/04 (fonte: zerozero)

25-02-2004, FC Porto x Manchester United (2-1), [oitavos-de-final da LC 2003/04]

Época 2004/05 (fonte: zerozero)

07-12-2004, FC Porto x Chelsea (2-1), [fase de grupos da LC 2004/05]

Época 2005/06 (fonte: zerozero)

22-03-2006, FC Porto x Sporting (1-1, +g.p.), [meia-final da Taça Portugal 2005/06]

Época 2006/07 (fonte: zerozero)

28-10-2006, FC Porto x Benfica (3-2), [campeonato nacional 2006/07, jornada 8]

Época 2007/08 (fonte: zerozero)

05-03-2008, FC Porto x Schalke 04 (1-0, +g.p.), [oitavos-de-final da LC 2007/08]

Época 2008/09 (fonte: zerozero)

15-04-2009, FC Porto x Manchester United (0-1), [quartos-de-final da LC 2008/09]

Época 2009/10 (fonte: zerozero)

02-05-2010, FC Porto x Benfica (3-1), [campeonato nacional 2009/10, jornada 29]

Época 2010/11 (fonte: zerozero)

07-11-2010, FC Porto x Benfica (5-0), [campeonato nacional 2010/11, jornada 10]

Época 2011/12 (fonte: zerozero)

05-05-2012, FC Porto x Sporting (2-0), [campeonato nacional 2011/12, jornada 29]

Época 2012/13 (fonte: zerozero)

11-05-2013, FC Porto x Benfica (2-1), [campeonato nacional 2012/13, jornada 29]


Algumas curiosidades:

- O FC Porto disputou 221 jogos oficiais e 15 particulares. (fonte: JN)

- Nos 221 jogos oficiais, o FC Porto obteve 167 vitórias, 34 empates e 20 derrotas. (fonte: O JOGO)

O JOGO, 16-11-2013

- Só houve duas épocas em que o FC Porto não perdeu qualquer jogo oficial disputado no Estádio do Dragão: na época de estreia, com José Mourinho, e na época passada (2012/13), com Vítor Pereira.

- O Estádio do Dragão é quase uma "fortaleza inexpugnável", mas a época 2004/05 foi anormal e contrariou esta tendência. Em 21 jogos oficiais, registaram-se 8 vitórias, 9 empates e 4 derrotas dos azuis-e-brancos!

- Os melhores marcadores no Dragão: Hulk, 46 golos (2 em jogos particulares); Falcao, 40 golos; Lisandro Lopez, 38 golos (2 em jogos particulares).


sábado, 28 de julho de 2012

O campeão dos 17 penalties


«Um treinador (Laszlo Bölöni), uma figura (João Vieira Pinto) e um goleador (Mário Jardel) transformam o Sporting e proporcionam o 18.º e último título de campeão nacional para o grémio de Alvalade. (...)
O arranque é animador. A 12 de Agosto de 2001, o FC Porto perde 1-0 em Alvalade, num clássico cheio de incidentes. Sá Pinto lesiona-se aos 22 minutos e Costinha é expulso aos 37’ com duplo amarelo antes do golo de Niculae (69’). (...)
No Restelo, Marco Aurélio defende um penálti de Niculae aos três minutos, num lance bastante contestado pelo técnico dos azuis Marinho Peres, que é expulso por Martins dos Santos. (...)
A pausa de 15 dias para a dupla jornada da selecção portuguesa na qualificação para o Mundial-2002 (Andorra 7-1 e Chipre 3-1) é benéfica para o Sporting, que contrata Jardel ao Galatasaray. Na estreia do brasileiro, um golo de penálti em Leiria, à União de Mourinho (1-1). (...)
No final da primeira volta, 2-2 na Luz, quando Jardel mergulha para o penálti e engana Duarte Gomes (...)»
Rui Miguel Tovar
in jornal i, 28/04/2012


No campeonato da época 2001/02, foram assinalados 17 penalties a favor do SCP. Um recorde no futebol português.
Nessa época, os árbitros não eram todos incompetentes, nem estavam comprados (a "geração corrupta do Apito Dourado" apenas haveria de surgir, presume-se que de forma espontânea, nas duas épocas seguintes...) e até o Martins dos Santos ajudou à festa, assinalando dois penalties a favor do SCP em pleno Estádio das Antas!

Belenenses x SCP (3-0)
3': (0-0)*, Marco Aurélio defendeu o remate de Niculae

U. Leiria x SCP (1-1)
46': (0-0), Jardel

SCP x Gil Vicente (3-1)
50': (1-0), Jardel

Farense x SCP (1-3)
5': (0-0), Jardel

Salgueiros x SCP (1-5)
79': (1-3), Jardel

SCP x Boavista (2-0)
64': (1-0), Jardel

Marítimo x SCP (2-0)
60': (0-0), Jardel

slb x SCP (2-2)
85': (0-2), Jardel

FC Porto x SCP (2-2)
10': (1-0), Baía defendeu penalty de Jardel
35': (1-1), Jardel

Alverca x SCP (1-3)
80': (1-2), Jardel

SCP x U. Leiria (4-1)
44': (2-0), Jardel

SCP x SC Braga (2-2)
5': (0-0), Jardel

Santa Clara x SCP (0-3)
72': (0-0), Jardel

SCP x Marítimo (4-0)
89': (3-0), Jardel

Varzim x SCP (1-3)
65': (0-2), Jardel

SCP x slb (1-1)
89': (0-1), Jardel

(*) resultado na altura da marcação do penalty

Apesar do papel determinante que teve na caminhada leonina para o título, bem como, na conquista da 2ª bota de ouro por parte de Mário Jardel, esta “enxurrada” de penalties não entrou para a história do futebol português e muito menos faz parte da “apurada memória” de sportinguistas como o Zé Diogo Quintela. É normal, afinal tudo está bem quando acaba bem...

sábado, 9 de abril de 2011

Campeão nas Amoreiras há 71 anos



(clicar nas imagens para ampliar)



«Lisboa, 19 (Pelo telefone)
Realizaram-se hoje os ultimos jogos do Campeonato Nacional.
Saiu vencedor, merecidamente, o Foot-Ball Club do Porto, que tam brilhante e notavel comportamento afirmou durante toda a competição. Não é vulgar que o vencedor de uma prova o seja tam justamente como foi o grupo da Constituição. Ainda no seu ultimo encontro disputado hoje, no Campo das Amoreiras, o fatídico campo para os campeões nacionais, esse brilhantismo foi demonstrado. Efectivamente, o excelente comportamento tecnico com que o clube nortenho sempre brindou o publico (...)»
in Jornal de Notícias, 20 de Maio de 1940

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Os meus dez jogos da década


Os directores dos três diários desportivos foram desafiados a eleger os dez jogos da década do futebol português. São estas as suas escolhas:

Os dez jogos da década para Manuel Tavares (director de O Jogo)

Os dez jogos da década para António Magalhães (director-adjunto do Record)

Os dez jogos da década para Vítor Serpa (director do jornal A Bola)


Naturalmente, como vejo o futebol com óculos azuis-e-brancos, a minha escolha é diferente e envolve 10 jogos dos dragões:

20/03/2003: Panathinaikos x FC Porto, 0-2, ap (Taça UEFA, Quartos-final, 2ª mão) (ficha)

10/04/2003: FC Porto x Lazio, 4-1 (Taça UEFA, Meias-finais, 1ª mão) (video) (ficha)

21/05/2003: FC Porto x Celtic, 3-2, ap (Taça UEFA, Final) (video) (ficha)

09/03/2004: Manchester United x FC Porto, 1-1 (Liga Campeões, Oitavos-final, 2ª mão) (ficha)

26/05/2004: FC Porto x AS Mónaco, 3-0 (Liga Campeões, Final) (ficha)

12/12/2004: FC Porto x Once Caldas 0-0 (8-7) g.p. (Taça Intercontinental) (ficha)

07/04/2009: Manchester United x FC Porto, 2-2 (Liga Campeões, Quartos-final, 1ª mão) (video) (ficha)

08/12/2009: Atletico Madrid x FC Porto, 0-3 (Liga Campeões, Fase de grupos) (ficha)

02/05/2010: FC Porto x Benfica, 3-1 (Campeonato, 29ª jornada) (video)

07/11/2010: FC Porto x Benfica, 5-0 (Campeonato, 10ª jornada) (ficha)


Não foi fácil escolher estes 10 jogos e deixar de fora vitórias sobre o Manchester United, Lyon, Corunha, Chelsea, Arsenal ou, fora de casa, vitórias europeias em Marselha, Moscovo, Kiev, Istambul, etc. Também deixei de fora finais que representaram conquistas de várias Taças de Portugal e Supertaças, que para outros poderiam ser grandes momentos, mas para os portistas são vistas (nesta altura) como competições menores. Provavelmente terei esquecido alguns, mas pronto, são estes os meus 10 jogos da década. E os seus?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Dois anos de Campeão!

É desta forma que eu vejo a existência do nosso blog, como Campeões.

Digo nosso blog, porque pertence a nós que o escrevemos e pertence a vós que o leis. Para os que escrevem, o meu agradecimento por me permitirem participar em tão agradáveis tertúlias. Para os que nos lêm, o meu agradecimento pela vossa atenção e pelos vossos comentários.

Durante a sua existência o Reflexão Portista viu o clube da sua inspiração ser Campeão Nacional de futebol e ter prestações bem agradáveis na Europa do futebol. Apesar do ínicio de época não ter sido o mais favorável, nem sendo o actual desempenho da equipa o mais desejado, a convicção e a esperança é de que a dupla se vá mantendo: o Reflexão Portista escrevendo e o FC Porto mantendo a sua senda de Campeão.

2 anos de Reflexão da vida do Dragão


Cercados pelo ódio, pela inveja e desdém. Cercados pelos abutres que não ganham a ninguém. Cercados pela difamação, intriga e insubordinação. Cercados pelos fedorentos que miam em pleno cio da actual estação. Cercados por lacaios dos pasquins da Capital. Cercados pelos macetes dos responsáveis da Liga Nacional. Cercados por Vieiras, Salgados e Pinhões. Cercados por Magistrados que ajudam galdérias que dançam em varões.

Dois anos de tertúlias, discussões e reflexões. Dois anos de inúmeros artigos e varias dissertações. Dois anos de conquistas, vitorias e comemorações. Dois anos de crónicas que deram asas às nossas emoções. Dois anos de um espaço livre onde se pode opinar. Dois anos que nos mostram que ainda há um longo caminho a palmilhar.

Do fundo do coração, o nosso grito por ti, Porto Campeão!

sábado, 14 de novembro de 2009

Ainda se lembram? (II) O Bife

Aproveitando a deixa do Alexandre e para equilibrar gastronomicamente as coisas, depois do Bacalhau nada melhor que um Bife.

Não me lembro dele propriamente como jogador, mas faz parte das minhas recordações infantis.

Primeiro que tudo pelo nome de guerra - Bife, que como ele relatou veio de:
“Estava com pressa para jogar futebol e tropecei no caminho. A marmita caiu e a tampa abriu e eu estava para morrer de fome e o que eu vi ali? Um bife enorme”, narra o atleta, fazendo gesto, sem se importar com o soro na veia. “Tinha uma padaria ao lado e planejei tudo. Entrei e pedi água. Sabia que o dono ia buscar água lá no fundo. Enquanto ele fez isso, catei o maior pão que tinha. Fui esconder atrás de uns tijolos e arrumei o sanduíche. Quando estava comendo, passou um colega e disse: você está comendo o bife da marmita. Eu disse: não, estou só descansando”. Na hora da escolha dos times, quem estava no par ou ímpar era o tal colega. Ele ganhou e pediu: eu quero o Bife. “Mas aí eu zanguei, não devia ter zangado, bastou isso para o time todo gritar Bife, Bife. E nunca mais tive outro nome”.

O Bife foi contratado no início de 1980, já a época ia a meio, e foi marcado um jogo de apresentação - na altura face à escassez de contratações e para ajudar a pagar a mesma, era normal tal acontecer.

O Sp. Espinho foi o convidado e o jogo marcado para o dia 2 de Fevereiro de 1980 (pelos arquivos a data foi esta e o resultado 2-1), e a vedeta ia ser ele - José Silva de Oliveira - Bife para os adeptos. Mas algo viria a mudar esta história.

António Oliveira, tinha ido no início da época para o Bétis, mas estava descontente e queria voltar. E voltou. Mas voltou precisamente no dia da apresentação do Bife. 29 anos depois, já não retenho os pormenores, não sei se o Oliveira chegou a jogar ou não, só me lembro que um jogo particular e banal se tornou de repente no regresso do ídolo Oliveira. Na altura foi umas das maiores alegrias que tive e que foi ficando na memória, sempre associada ao Bife.

Ficou por cá até ao final dessa época de 1979/1980, não sei se o Verão Quente teve alguma coisa que ver com a sua saída, tendo efectuado 11 jogos e marcado 3 golos. Um ano depois voltaria a Portugal para jogar no Belenenses, onde esteve uma época.

Faleceu em Fevereiro de 2007, vítima de falência múltipla dos órgãos devido a uma cirrose hepática, depois de uma vida em que “Na época, ganhava R$ 120 por mês, mas gastei tudo, porque sou burro”.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ainda se Lembram? (I) O Bacalhau

Corria a época de 1968/69 e o F.C. Porto, dez anos depois do seu último triunfo na prova, disputava taco-a-taco com o inevitável Benfica o Campeonato Nacional da I Divisão (os patrocinadores, tal como "a luta pela verdade desportiva", os "paineleiros" e as "transições rápidas" eram ainda uma coisa do futuro).

Atendendo ao aquecer da luta pelo título, José Maria Pedroto, que cumpria a sua terceira época à frente da equipa, elaborou um programa especial de estágios. Esse programa, contudo, viria a enfrentar a oposição dos jogadores, especialmente do trio formado pelo guarda-redes Américo, o médio Eduardo Gomes e o ponta-de-lança Custódio Pinto. O trio foi suspenso por indicações de Pedroto e no jogo seguinte, frente à tradicionalmente difícil equipa da CUF (actual Fabril do Barreiro), no seu Estádio Alfredo da Silva, surgiu uma surpresa de monta: a lateral-esquerdo estreava-se um jovem de 19 anos e, mais, era ele o capitão de equipa. Com esse gesto, José Maria Pedroto pretendeu significar aos restantes jogadores que nenhum deles era imprescindível ou mais importante que a equipa. Assim nascia para o futebol da alta roda o Leopoldo, que os adeptos do F.C. Porto viriam a popularizar com a alcunha de "o Bacalhau".

O F.C. Porto venceria o desafio por 1-0, mas o título, esse, depois de novas peripécias e de algumas ignóbeis atitudes por parte da direcção do clube, culminando no despedimento de Pedroto, ficaria "no tinteiro".

Entretanto "o Bacalhau", de seu nome completo Leopoldo José Nogueira Amorim, foi singrando no clube, o qual, como sabemos, atravessava uma época de vacas magras em matéria de êxitos desportivos. Sem nunca ser um jogador brilhante, não estava, porém, abaixo da média - muito pelo contrário - dos ocupantes do lugar de defesa-esquerdo antes da sua aparição. Com os tempos chegou a ser utilizado a defesa-direito, e recordo-me bem de um jogo no Bessa, em Dezembro de 1973, precisamente uma semana depois da morte do grande Pavão, em que o primeiro golo do F.C. Porto numa vitória de 2-0 foi da autoria do "Bacalhau". E não sei mesmo se não terá sido o seu único golo ao serviço do clube.

Mais tarde, por volta de 1976, o "Bacalhau" rumaria ao Varzim, onde jogou, segundo creio, até 1980. Ou seja, falhou por pouco a época em que aquele que o lançara na equipa principal, regressado triunfalmente, haveria de levar o F.C. Porto de novo ao título nacional.

É também dos "Bacalhaus" deste mundo, jogadores da casa e dedicados ao clube, que se faz a história do F.C. Porto. Bem hajas, Bacalhau!

Nota: nesta foto de uma equipa do F.C.P. do iníco da década de 70, o "Bacalhau" é o terceiro a contar da esquerda na fila de trás, entre os "monstros" Pavão e Rolando.

Créditos: O Baú dos Cromos, Paixão pelo Porto

sábado, 20 de dezembro de 2008

A Taça do Arsenal (III)

A Taça do Arsenal (I)
A Taça do Arsenal (II)

III. As comemorações da vitória e a maior taça do Mundo

No jogo contra o Arsenal o FC Porto alinhou com:
Barrigana (foto ao lado); Alfredo e Francisco; Joaquim, Romão, Virgílio; Lourenço, Araújo, Correia Dias (cap.), Gastão e Catolino (Sanfins na 2ª parte).

O árbitro foi o escocês Webb, auxiliado pelos bandeirinhas portugueses Vieira da Costa e Avelino Ribeiro.

Os golos do FC Porto foram marcados por Araújo (9’) e Correia Dias (20’ e 28’).

A vitória teve uma repercussão espantosa, tendo chegado centenas de telegramas de felicitações de todo o lado (Brasil, Angola, Moçambique, etc.).
A própria Direcção-Geral dos Desportos (DGD) também decidiu louvar o clube. Assim, na presença de toda a Direcção azul e branca, o Delegado do Porto da DGD, Mário de Carvalho, leu o seguinte louvor,: “Depois do êxito desportivo alcançado pelo FC Porto, cuja vitória sobre o Arsenal, primeiro classificado da Liga Inglesa, fortaleceu o prestigio do nosso futebol no plano internacional e deu relevo ao desenvolvimento da campanha desportiva portuguesa, entendo dever louvar: os jogadores do FC Porto pelo aprumo e lealdade com que se comportaram, aos quais também felicito pelo êxito que reflecte o bom desempenho das funções que exercem”.
a) Pelo Director Geral, o interino António Cardoso


Após o desafio, à noite, realizou-se um banquete dedicado aos dirigentes e jogadores londrinos. Presidiu Júlio Ribeiro de Campos, presidente do FC Porto, que tinha à sua direita o comandante Bones, presidente do Arsenal, e à sua esquerda o Cônsul da Inglaterra, o representante do comandante da 1ª Região Militar e o Delegado da DGD.

Durante os discursos, o manager do Arsenal Football Club, Tom Whittaker, afirmou:
Viemos aqui mais para representar a Inglaterra do que o nosso próprio clube. Contudo, nunca contamos com adversário tão difícil e que se revelou de uma classe muito superior à do Benfica.
Ganharam e ganharam bem. O Arsenal quando vai para o campo procura sempre fazer o melhor e esse melhor está pendente do que o adversário consente. O FC Porto não nos deixou fazer mais, surpreendendo-nos os 3-0 que nos obrigaram a tentar uma recuperação, mas o adversário não consentiu.
Não há desculpas. O FC Porto venceu e venceu bem. Defrontamos uma grande equipa
.”


Ganhar aquela que era considerada a melhor equipa do Mundo e, ainda por cima, no timing e contexto em que tal vitória tinha ocorrido, era um feito que, no entender de muitos portistas, tinha de ser imortalizado.

Deste modo, um grupo de seis sócios do FC Porto - Eduardo Soares, José Moreira, Ivo Araújo, Manuel Ferreira, Elói da Silva e Torcato Plácido - decidiram abrir uma subscrição pública para compra de um troféu condigno que perpetuasse aquela tarde de glória portista.

A subscrição foi um enorme sucesso. Centenas de simpatizantes aderiram, tendo sido angariado 200 contos, dinheiro suficiente para mandar fazer um troféu majestoso - a Taça do Arsenal -, que seria oferecido ao clube um ano depois.

A Taça do Arsenal é composta por duas peças monumentais: uma peça totalmente concebida em prata e um relicário.

A peça de prata é constituída por três figuras esculturais de mulher, erguendo-se nas pontas dos pés, segurando a taça, circundada por três dragões dominados por três atletas que procuram alcançá-la para beberem dela o vinho da vitória. Na sua construção gastaram-se 130 quilos de prata!

O relicário, que tem 2,80 metros de altura e pesa 120 quilos (!), é uma espécie de caixa assente em quatro dragões de prata, com quatro portas de cristal. O relicário é rematado com um grupo escultório constituído por uma figura de atleta, de joelho em terra, dominando um leão, que tem uma bola junto dele. Na mão direita o atleta ergue um facho, enquanto que na mão esquerda segura a bandeira do FC Porto. Por detrás dele, dominando toda a peça, a figura da vitória.

Todo o conjunto, pesando mais de 250 quilos, custou 200 contos, exactamente a importância que se arrecadara ao longo de todo um ano de colectas. Os portistas ofereciam, assim, a si próprios o maior troféu do Mundo.



Fontes:
‘A Vida do grande clube nortenho (2)’, Selecções Desportivas, Dezembro de 1978
‘História de 50 anos do Desporto Português’, A BOLA
‘Glória e vida de três gigantes, A BOLA
MaisFutebol, 2006/09/24

Fotos:
Paixão pelo Porto
Óculos azuis e brancos

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A Taca do Arsenal (II)

A Taça do Arsenal (I)

II. O jogo contra os campeões ingleses

Na década de 30, o Arsenal emergiu como o clube de maior sucesso do futebol inglês. Entre 1929/30 e 1937/38 venceu cinco vezes o campeonato – Football League First Division (1930/31, 1932/33, 1933/34, 1934/35 e 1937/38) – e ergueu por duas vezes a Taça de Inglaterra – Football Association Challenge Cup, também conhecida por FA Cup (1929/30, 1935/36).
Devido à II Guerra Mundial, não houve competições entre 1939/40 e 1945/46, tendo as mesmas recomeçado em 1946/47, com o Arsenal a voltar a sagrar-se campeão na época de 1947/48.

Equipa do Arsenal de 1947/48
Atrás, da esquerda para a direita: A. Forbes, A. Macaulay, L. Scott, G. Swindin, W. Milne (treinador), W. Barnes, J. Mercer (capitão), I. McPherson
À frente, da esquerda para a direita: D. Roper, R. Lewis, R. Rooke, B. Jones, D. Compton, L. Compton


Em 1948, ainda com os 0-10 do ano anterior bem presentes na memória de todos, o Arsenal de Londres, considerada a melhor equipa do Mundo, foi convidado para fazer dois jogos particulares em Portugal.

O primeiro jogo foi a 3 de Maio de 1948, contra o Benfica, disputado no Estádio Nacional. Os ingleses não deram hipóteses e venceram os encarnados por 4-0, levando a imprensa da capital a afirmar que os «gunners» eram a melhor equipa que jogara até então em Portugal.
Consta que no final desse jogo, e perante a goleada sofrida, houve portugueses que disseram a elementos do Arsenal: se aqui venceram por 4-0, no Porto vencerão por mais. O FC Porto só tem um jogador importante, o Araújo.
Cândido de Oliveira, na altura treinador do Sporting, desabafou: “Os nossos jogadores treinam-se como amadores e recebem como profissionais”.

Quatro dias depois, a 7 de Maio, era a vez do FC Porto enfrentar o fabuloso team inglês.

Arsenal 1948/49
Atrás, da esquerda para a direita: Forbes, Wade, L. Smith, G. Male, D. Compton, Mercer
Segunda fila, da esquerda para a direita: Jack Crayson (staff), Lewis, Fields, Swindin,L. Compton, Macpherson, Milnes (trainer)
Terceira fila, da esquerda para a direita: Scott, McCauley, Whittaker (manager), Rooke, Barnes
À frente, da esquerda para a direita: Bryn Jones, Roper, Logie


O FC Porto da época 1947/48, treinado pelo argentino Eládio Vaschetto, era capaz do melhor e do pior.

A 20 de Outubro de 1947 tinha ido a Valência jogar com o campeão de Espanha e venceu espectacularmente por 1-0, com golo de Catolino. Nesse jogo, e para além do autor do golo, destacaram-se Barrigana, Gastão, Araújo e Ângelo Carvalho, um jovem médio que começava a impor-se na equipa azul-e-branca.

A 2 de Fevereiro de 1948, na penúltima jornada da 1ª volta, o FC Porto recebeu e venceu por 4-1 o super-Sporting dos “violinos” (os “leões” haveriam de revalidar o título de campeão a que juntariam a vitória na Taça de Portugal).

Contudo, no computo geral, a época não estava a correr bem a nível interno (o FC Porto terminaria o campeonato em 5º lugar). No entanto, o futebol praticado deslumbrou, dada a sua forte vocação ofensiva, que conduziu Araújo ao título de melhor marcador do campeonato com 36 golos.

Estádio do Lima

Os bilhetes para o jogo contra o Arsenal custavam 80 escudos e para irem ao Estádio do Lima os portuenses vestiram os seus melhores fatos e muitas senhoras sentaram-se nas bancadas como se estivessem na ópera.

Quando se esperava que o FC Porto tivesse o mesmo destino do SLB, os azuis-e-brancos presentearam os seus adeptos com uma exibição memorável.

Aos nove minutos, instantes antes de Araújo marcar o 1º golo, Quádrio Raposo, locutor da Emissora Nacional, anunciava: «Araújo tem nada menos de três ingleses à sua volta!».

Aos 30 minutos, e para espanto de todos, o FC Porto vencia por 3-0, com mais dois golos de Correia Dias, um avançado-centro que pesava quase... 100 quilos.

Até ao final do jogo, os restantes minutos foram de uma resistência heróica perante a avalanche britânica, mas recompensados por uma sensacional vitória final por 3-2.

Em A BOLA escreveu-se: «Meia hora de futebol diabólico destroçou a equipa londrina».

Um dos heróis do jogo foi o guarda-redes do FC Porto, Frederico Barrigana.

Frederico Barrigana

Antes de ingressar no FC Porto, em 1943, Barrigana era reserva de Azevedo no Sporting, mas as fantásticas prestações ao serviço do FC Porto levaram-no à titularidade na Selecção Nacional, pela qual se tinha estreado uns meses antes, em 21 de Março de 1948, num jogo contra a Espanha.

Mas quem encheu os olhos aos ingleses foi Araújo, ao ponto de afirmarem ser avançado para jogar em qualquer equipa do Mundo. Houve propostas para o levar para o outro lado do canal da Mancha, mas ele não aceitou. Nem sequer uma fortuna bastaria para o retirar da pacatez de Paredes.

(continua)

Fontes:
‘História de 50 anos do Desporto Português’, A BOLA
‘100 figuras do futebol português’, A BOLA

A Taça do Arsenal (I)

I. O enquadramento político e desportivo

Há 60 anos atrás a Europa estava ainda a tentar curar as feridas resultantes da II Guerra Mundial.

Em Portugal, a década de 40 do século XX foi um período de grandes obras públicas e da exaltação da nacionalidade, com Lisboa a ser promovida como a capital do Império português.

Neste contexto, a Exposição do Mundo Português, destinada a comemorar as datas da fundação de Portugal e da restauração da independência, foi inaugurada em 23 de Junho de 1940, em Lisboa, pelo Chefe de Estado Marechal Carmona, acompanhado pelo Presidente do Conselho Oliveira Salazar e pelo Ministro das Obras Públicas Duarte Pacheco.

Quatro anos mais tarde, a 10 de Junho de 1944, foi inaugurado nos arredores de Lisboa (em Oeiras) o Estádio Nacional, com uma arquitectura inspirada na Escola Paisagista Alemã, e que, para além de servir para a prática do desporto, visava também a criação de um espaço para manifestações públicas inspiradas nos princípios políticos do Estado Novo.

O futebol português não fugia a esta “ditadura do centralismo” e a década de 40 ficou marcada por um domínio esmagador dos clubes da capital. Foi o período de ouro do BSB – Benfica, Sporting e Belenenses – que, inclusivamente, chegavam a formar uma selecção de Lisboa para jogar contra equipas estrangeiras.

Equipa de Lisboa num jogo contra o Vasco da Gama em 1947, com a inscrição no galhardete de "Selecção Benfica, Sporting e Belenenses" e "BSB" no emblema (fonte: Blog 'Futebol inesquecivel')


Após ter ganho os campeonatos de 1938/39 e de 1939/40, este último de forma brilhante (17 vitórias, 0 empates, 1 derrota), o FC Porto entrou num longo período de jejum de títulos.
No início de Maio de 1948 (a quatro jornadas do fim do campeonato) os “andrades” iam a caminho da 8ª época consecutiva na sombra dos clubes de Lisboa.

1940/41: 2º classificado
1941/42: 4º
1942/43: 7º
1943/44: 4º
1944/45: 4º
1945/46: 6º
1946/47: 3º

De facto, o Sporting, treinado por Cândido de Oliveira, iria ganhar o campeonato de 1947/48 (“o campeonato do pirulito” por ter sido decidido por um golo) e o FC Porto ficaria em 5º lugar, atrás dos habituais BSB e também do Estoril.



Em oito épocas, entre 1946/47 e 1953/54, o Sporting dos “cinco violinos” – Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travaços e Albano – sagrou-se sete vezes campeão nacional, impondo recordes (um tri e um tetra) que só viriam a ser ultrapassados pelo FC Porto do Penta na década de 90.

Os “cinco violinos”


Quanto à Selecção dita nacional não diferia muito da equipa do BSB. Reflectindo a visão, poder e domínio avassalador dos clubes da capital, normalmente só incluía um portista – Araújo – sendo, por isso, designada ironicamente por Sport Lisboa e... Araújo.

António de Araújo nasceu em Paredes, a 28/09/1923, tendo chegado ao FC Porto na época 1942/43, onde ainda jogou ao lado do seu ídolo, Artur de Sousa (Pinga), até 1946.
Araújo era um exímio marcador de golos, quer no campeonato (foi o melhor marcador na época 1946/47, com 36 golos em 25 jogos), quer na Selecção Nacional. Aliás, logo na sua estreia, contra a França, foi o autor de um dos golos da vitória por 2-1 sobre os gauleses. No entanto, o jogo onde mais brilhou foi contra a Espanha, a 26 de Janeiro de 1947, no qual marcou dois golos que contribuíram para a primeira vitória (4-2) oficialmente reconhecida de Portugal sobre nuestros hermanos. A sua exibição neste jogo teve um tal impacto, que foi recebido na sua terra natal com bandas de música, foguetes e sessão oficial de boas vindas.
Entre Abril de 1946 e Novembro de 1947, Araújo fez nove jogos pela Selecção Nacional em que marcou seis golos. Numa altura em que os jogadores da “província” tinham o acesso à Selecção praticamente vedado Araújo, com a sua indiscutível qualidade, relegava para a reserva o sportinguista Vasques, impedindo que na Selecção se repetissem os «cinco violinos».

Apesar das vitórias sobre a França e a Espanha, foi também neste período que Portugal sofreu a derrota mais humilhante da sua história futebolística. A 25 de Maio de 1947, a Selecção inglesa veio ao Jamor derrotar a sua congénere portuguesa por 10-0, num desafio que ficou conhecido como «dez a fio».

A forma como a Inglaterra (a pátria do futebol) esmagou a Selecção Nacional, reforçou o seu enorme prestigio e a áurea de invencibilidade que tinham as equipas inglesas.

(continua logo à tarde)

Fontes: Wikipedia; 'História de 50 anos do Desporto Português', A BOLA

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

1940, Presidente irradiado e equipa roubada

Época de 1939/40. Enquadramento - o FC Porto tinha ficado em terceiro lugar no regional, mas participou no campeonato por causa de uma manobra administrativa. A Federação Portuguesa de Futebol fez o alargamento à pressa e as portas abriram-se. Os portistas foram campeões e estiveram quase a consegui-lo sem derrotas mas, a 21 de Abril de 1940, perderam no Lumiar. O Sporting venceu por 4-3 com o golo da vitória a ser marcado a 20 segundos do fim. Ângelo César, o presidente da altura, já reclamava os privilégios dos clubes de Lisboa. Na equipa distinguiam-se os croatas Petrak e Kordnya.

Equipa do FC Porto campeã nacional em 1938/39


Depois de ter conquistado os campeonatos de 1938/39 e 1939/40, o FC Porto sonhava, pela primeira vez, com o seu terceiro título consecutivo. Mas já na época do "bi" a prova teve que ser alargada de forma a repor a "justiça", após uma decisão da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) contrária à da Associação de Futebol do Porto, que colocava o Leixões no "Nacional", em detrimento dos (campeões) portistas. A ilógica da determinação federativa era tal que a formação de Matosinhos recusou o lugar, alegando que a equipa que deveria estar por direito na fase final era o FC Porto. E o FC Porto, com Mihaly Siska no comando técnico, provou então, que era a melhor equipa nacional.

FC Porto – Belenenses, 1939/40, Kordnya e o guarda-redes do Belenenses Salvador
(fonte: revista Stadium, 3 de Julho de 1940)


Na temporada de 1940/41, a FPF radicalizou as suas acções de forma a serem mais eficazes. Angelo César, presidente do FC Porto, utilizava naquela altura um discurso (idêntico àquele que viria a ser retomado por Pinto da Costa) contra os poderes instituídos em Lisboa, contra as arbitragens que prejudicavam constantemente as equipas do Norte favorecendo, por outro lado, as do Sul. E quando se levantou a grande polémica que marcou a época de 1939/40, Ângelo César clamava por justiça, mais do que nunca.
Para não voltarem a ser incomodados e ainda, por cima, obrigados a conceder-lhe razão, os senhores da FPF irradiaram o presidente portista. Os portistas elegiam simplesmente Ângelo César para presidente da Assembleia Geral, mas o grito de revolta ecoava por toda a cidade.

Por coincidência (?), desde que a voz incómoda de César foi amordaçada, começaram então as arbitragens que de forma descarada prejudicavam sucessivamente o FC Porto, como se pode constatar na consulta de qualquer jornal da época. Logo no primeiro jogo entre os "grandes", o Sporting recebeu os portistas e ganhou por concludente 5-1. Como se não bastasse o resultado ser tão desequilibrado, o sportinguista João Cruz lesionou gravemente o guarda-redes portista, Bela Andrasik, que foi evacuado para o Hospital de São José. Henrique Rosa, o homem que de negro vestido, pintou a sua actuação de verde e branco, encarregou-se de consentir o terceiro golo na sequência de um fora de jogo claríssimo e validou o quarto tento, quando o guardião Andrasik se contorcia com dores no chão, graças a duas fracturas nos ossos da face, depois da agressão de João Cruz.

A guerra Norte-Sul adensou-se ainda mais quando Carlos Pereira, a meio da época, optava por jogar no Unidos FC, um clube de Lisboa que lhe ofereceu o dobro do vencimento que auferia no FC Porto e ainda 30 contos de "luvas". A equipa portista, sempre comandada por Siska, ainda conseguiria fechar o campeonato com uma vitória de 5-2 sobre o Benfica, mas a derrota consentida no Lima ante o Sporting tinha-a já atirado irremediavelmente para fora da rota do "tri", naquele em que seria mais tarde recordado como o ano em que os árbitros viraram "anjos negros".

in Bola na Área, 10/11/2008

Nota: O título, as fotos e os negritos são da minha responsabilidade.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

A Flecha Negra

A equipa base de 1955/56:
2º plano - Virgílio, Arcanjo, Monteiro da Costa, Cambalacho, Pedroto e Pinho
1º plano - Hernâni, Gastão, Jaburu, Teixeira e Perdigão


Jorge de Sousa Mattos, conhecido no futebol como Jaburu, chegou ao Porto com 22 anos, fortemente recomendado pelo seu treinador, Dorival Knippel (Yustrich) que dizia ter (Jaburu) "o futebol dentro dele, como Stradivarius tinha a música quando construiu os seus famosos violinos".

Pela minha parte, e a esta distância, já lá vão mais de 50 anos, o Jaburu era um jogador que gingava, sambava com a bola, gostava de trocar os olhos ao adversário, sabia fugir à colisão e adorava fazer umas perninhas ao defesa que o marcava. Não era um clássico, era um brasileiro com o futebol do novo mundo: cheio de gozo e de prazer. Como brasileiro de gema, adorava feijão, cheirava a caipirinha e estava sempre disponível para o bem-bom. Era voz corrente que frequentemente o Yustrich o ia buscar ao Tamariz (a mais antiga casa de diversão da cidade), o levava a casa e o obrigava a ir para a cama, para estar em condições mínimas para os treinos e os jogos que estavam na calha.

Jaburu era alto, algo desengonçado, desenvolvendo um ritmo muito rápido num curto espaço de tempo, o que lhe permitia fintar, enganar e passar facilmente os defesas contrários. Jogava bem com os pés e com a cabeça. Não era como Matateu, que era mais furão e jogava mais em força, um pouco aos repelões. Jaburu era um privilegiado: tinha dotes físicos e atléticos pouco comuns nos jogadores portugueses da época e rematava com grande violência, de meia distância. Recordo que Passos, defesa central do SCP, um jogador muito posicional e lento, só o travava jogando de forma súcia, que normalmente os árbitros não sancionavam com o devido rigor.

O jogo, nessa altura, era mais lento, mais duro (para não dizer violento), muito faltoso e com excessivas paragens. Não eram permitidas substituições e o crime de provocar lesões graves, compensava demasiadas vezes.

Yustrich ampara Miguel Arcanjo, Jaburu e Gastão seguem atrás

É muito difícil prever o comportamento de muitos jogadores famosos nessa altura, se jogassem com a intensidade que hoje é exigida. Tenho para mim que Jaburu seria enorme e, se devidamente enquadrado, um jogador fenomenal, que não chegou a ser por vícios que não conseguiu superar, apesar da mão pesada de Yustrich.

Em Outubro de 1958, em rota de colisão com Yustrich, Jaburu foi vendido a preço de ouro ao Celta de Vigo, por 950 mil pesetas, aparentemente, lesionado, porque o brasileiro não chegou a jogar um único minuto na equipa galega.

Jaburu ainda voltou a jogar em Portugal, no Leixões, em 1962 e 1963, mas era uma sombra do jogador que brilhara de azul e branco.

Regressou ao Brasil, foi engraxador à porta do Maracanã e morreu na miséria, na década de 80.

Jaburu foi um dos principais artífices do campeonato conquistado em 1955/56, depois de um largo jejum de 16 anos. Tínhamos uma equipa fantástica. Hernâni com Pedroto jogava por sinais, com Carlos Duarte de olhos fechados. Nessa época Jaburu fez 22 golos. Fizemos a dobradinha ao vencer o Torreense por 2-0, na final da Taça, com golos de Hernâni.

Estádio do Jamor, Final da Taça 1955/56

Um pouco à socapa, aproveito para relevar um jogador que muito admirei e que, um tanto injustamente, nem sempre entra nesse pequeno número de jogadores que da lei do esquecimento se libertaram. Refiro-me a Perdigão, um extremo de drible curto e sempre em progressão e com uma excepcional visão de jogo. Não era um jogador agressivo e geria bem o esforço. Não se esfarrapava, como na altura se dizia, mas era excepcional. Em miúdo, adorava vê-lo jogar.

Fernando Júlio Perdigão faleceu no dia 16/02/2007, em Aveiro, para onde regressou e fixou residência depois do 25 de Abril de 1974. Era um jogador fantástico: só uma vez foi internacional. Em função dessa maneira de estar anti-vedeta, nunca teve, a meu ver, o reconhecimento que mereceu, e ainda deveria merecer, pelo menos para os portistas.

Hernâni, Carlos Duarte (na foto ao lado) e Perdigão têm lugar muito particular no meu coração de portista. Com os dois primeiros pude ter uma muito breve e interessante conversa quando recebi a roseta de ouro.

De Perdigão, fez-se silêncio. Jaburu que jogava e rematava com os dois pés, cabeceava voando sobre os centrais, foi excepcional, mas tinha pouco tino e ao que consta era muito imaturo, quase uma criança. No eterno descanso, andará provavelmente bem acompanhado, a gingar ao ritmo do samba, a jogar bom futebol e a marcar muitos golos, tenho a certeza.


Nota: Este comentário foi suscitado por um artigo de António Tadeia, escrito n’ O Jogo em 27/03/2008.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O Dinamo Kiev de Lobanovsky

Equipa da URSS finalista do EURO 88, treinada por Lobanovsky e cuja base era o Dinamo Kiev


Na caminhada para Viena, depois de termos eliminado os campeões de Malta (Rabat Ajax), da Checoslováquia (Vitkovice) e da Dinamarca (Brondby), as meias-finais da Taça dos Campeões Europeus de 1986/87 afiguravam-se quase intransponíveis isto, claro está, se atendermos à valia dos três possíveis adversários que nos podiam sair em sorte: o campeão de Espanha (Real Madrid), o campeão da RFA (Bayern Munique) e o campeão da URSS e detentor da Taça das Taças (Dínamo Kiev).

Após o sorteio de Zurique, que colocou o Dínamo Kiev no caminho do FC Porto, a ‘Dragões’ escrevia o seguinte:
«Todos se lembram, certamente, do futebol de sonho que a selecção soviética patenteou no Mundial do México, levando inclusive alguns comentadores a considerar que tal futebol era já do próximo século. (...) Pode aliás dizer-se que, grosso modo, é a própria selecção da URSS que os “dragões” vão defrontar nos próximos dias 8 e 22 (...). É que, como é sabido, entre os 22 atletas que os soviéticos levaram ao México estavam nada mais nada menos que uma dúzia de elementos do Dínamo (...).
E quem não se recorda, também, da bela campanha do Dínamo na Taça das Taças da época transacta, concluída com um triunfo esclarecedor (3-0) sobre o Atlético de Madrid no encontro da final (...)
»
in Revista Dragões nº 25, Abril de 1987


Equipa do Dínamo Kiev que venceu a Taça das Taças 1985/86, em 2 de Maio de 1986


O Dínamo Kiev era, de facto, uma autêntica máquina de jogar futebol treinada por Lobanovsky, que também era seleccionador da URSS.

Valery Vasilyevich Lobanovsky nasceu em 6 de Janeiro de 1939 e era um oficial de carreira do Exército Vermelho, que chegou ao posto de coronel. Daí que não surpreenda a disciplina que impunha aos jogadores das suas equipas. Mas como treinador Lobanovsky era muito mais que um “coronel” disciplinador. Ele seguia uma abordagem cientifica do treino e foi o primeiro treinador do Mundo a usar um computador para analisar as tácticas e o planeamento da equipa.

Os resultados começaram a ver-se logo em 1975, quando levou o Dínamo Kiev à vitória na Taça das Taças, derrotando na final os húngaros do Ferencváros, naquela que foi a primeira conquista de uma competição europeia por um clube da antiga União Soviética.

Contudo, para além da disciplina, preparação física e metodologia de treino altamente avançada para a época, que davam forma a colectivos fortíssimos, no Dinamo de 1986/87 também pontificavam vários jogadores acima da média.

Alexander Zavarov e Pavel Yakovenko (6º e 21º respectivamente na classificação da Bola de Ouro 1986) eram dois médios de classe mundial, a que se juntou a jovem estrela emergente Alexei Mikhailitchenko. Por estes três jogadores passava toda a organização de jogo da equipa ucraniana.

Oleg Blokhine era o nome mais sonante e, apesar de estar em final de carreira, mantinha a classe que fez dele em 1975, aos 22 anos, o Bola de Ouro com a maior votação de sempre (à frente de jogadores como Franz Beckenbauer ou Johan Cruyff).
Blokhine era um jogador rápido, de dribles curtos e com um enorme sentido de baliza.
Ao serviço do Dínamo Kiev, onde fez praticamente toda a sua carreira, disputou 432 jogos e marcou 211 golos, tendo conquistado 2 taças das taças, 8 campeonatos e 5 taças da URSS.
Na selecção soviética foi o jogador mais internacional de sempre – 112 jogos – e marcou 42 golos.

E havia ainda Igor Belanov, que era “apenas” o Bola de Ouro 1986. Sobre ele, o Dínamo Kiev e a Selecção da URSS, a revista France Football, promotora deste prestigiado prémio, escreveu o seguinte:

«En cette année 1986, Igor Belanov fut présent constamment sur tous les fronts. Il marqua de nombreux buts, gagna la Coupe des Coupes, brilla en Coupe du monde (trois buts contre la Belgique) et arracha le titre de champion d'URSS. Il ne fut, certes pas, tout seul à récolter tous ces lauriers, mais il ne vola pas sa part du jeu. Son Ballon d'Or, en fait, honora le jeu d'une équipe radieuse et inspirée, le Dynamo Kiev, conduite par un maître: Valeri Lobanovski. Il récompensa ceux qui cherchent et qui croient aux voies de l'inspiration. Il aurait tout aussi bien pu revenir à un autre joueur soviétique, Zavarov ou Yakovenko, ses coéquipiers en club, voire à Dassaev, son partenaire en sélection, tous les trois cités par le jury de France Football. (...)
Le triomphe d'Igor Belanov, s'il est aussi celui d'une sélection et d'un football soviétiques qui ont causé une petite révolution technique en 1986 (...)
»
in France Football

Por tudo isto, não admira que a Selecção da União Soviética... perdão, o Dínamo Kiev fosse considerado a melhor equipa do Mundo e o adversário que todos queriam evitar.

A 1ª mão das meias-finais disputou-se no Estádio das Antas, a 8 de Abril de 1987, numa típica noite chuvosa do Porto.

FC Porto: Mlynarczyck, João Pinto, Lima Pereira, Celso, Eduardo Luís, André, Sousa, Jaime Magalhães, Vermelhinho, Gomes (cap.) e Futre

Substituições: Sousa por Juary (45); Jaime Magalhães por Madjer (81)
Suplentes não utilizados: Zé Beto, Inácio e Semedo

Dínamo Kiev: Tchanov, Baltacha, Bal, Kuznetsov, Demianenko (cap.), Yakovenko, Zavarov, Mikhailitchenko, Rats, Belanov e Blokhine
Substituições: Blokhine por Morozov (75); Belanov por Yevseyev (85)

O rebaixamento das Antas tinha sido concluído uns meses antes e, apesar da intempérie, o estádio estava quase cheio (ainda sem cadeiras deviam estar cerca de 75 mil pessoas).
Eu assisti ao jogo no novo 1º anel da Superior Norte, perto da bancada dos cativos, e aquilo que vi superou largamente as minhas melhores expectativas. O FC Porto, cujas exibições e resultados no campeonato estavam longe do que seria de esperar de uma equipa que era bi-campeã nacional (haveríamos de perder o titulo, e o sonho do Tri, para um sofrível SLB treinado por John Mortimore), fez uma exibição de luxo, na minha opinião a melhor dessa época, emperrando e vulgarizando a máquina futebolística soviética.

O intervalo chegou ainda com o resultado em branco, mas no início da 2ª parte, em apenas 10 minutos, o FC Porto marcou dois golos – Futre (49') e André (55', gp) – traduzindo no marcador a superioridade que vinha evidenciando no terreno.

Os dois golos do FC Porto neste jogo podem ser revistos no vídeo seguinte:



Quando o árbitro holandês, Jan Kaiser, mostrou o 2º cartão amarelo a Andrei Bal, ficando os ucranianos reduzidos a 10 unidades, a presença no Estádio do Prater pareceu, pela primeira vez, ao nosso alcance, mas aos 74 minutos Yakovenko haveria de deitar um balde de água fria nos encharcados adeptos portistas, quando reduziu para 1-2.
Daí e até ao final do jogo o 3º golo esteve à vista em três ocasiões, mas o fado que nos perseguia nas alturas decisivas não o permitiu e à saída do estádio eram poucos os portistas que acreditavam poder resistir 90 minutos ao inferno de Kiev, levando na bagagem uma vantagem tão curta (na altura o peso de jogar fora de casa era muito maior do que agora).

Duas semanas depois, a epopeia de Kiev haveria de ficar gravada a letras de ouro no historial do FC Porto, mas isso são outras estórias, quiçá futuros artigos.


P.S.1 O FC Porto 1986/87 tinha estrelas de nível mundial como o Futre e o Madjer, que faziam maravilhas com a bola e que perduram no imaginário dos portistas que tiveram a felicidade de os ver jogar. Mas deixem que vos diga que aquilo de que tenho mais saudades é de ver uma equipa formada por jogadores da estirpe e da raça do João Pinto, Lima Pereira, André, Jaime Magalhães, Gomes, entre outros, os quais, para além da sua inegável categoria, eram portistas e tinham orgulho em envergarem a gloriosa camisola azul-e-branca.



P.S.2 Valery Lobanovsky morreu de ataque cardíaco em 13 de Maio de 2002. A seguir à sua morte recebeu o titulo de herói da Ucrânia (a mais alta distinção do país) e o estádio do seu Dínamo Kiev foi renomeado Estádio Lobanovsky.
Em 2003, após o AC Milan ter ganho a Liga dos Campeões, Andrei Shevchenko voou para Kiev e colocou a sua medalha no monumento do seu antigo treinador.