Mostrar mensagens com a etiqueta tertúlias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta tertúlias. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 15 de maio de 2012

domingo, 20 de julho de 2008

Crónica de uma noite de Verão


Sou considerado o (pseudo) intelectual do grupo, vá-se lá saber porquê. Cá no sítio, e com a supervisão da Junta, organizo – uma vez por semana – a “quadratura do círculo cá do meu bairro”, esta semana dedicada ao tema: “O Apito Final”. Sou o moderador. Pedi dispensa, com carácter excepcional, mas não me foi concedida. Passo a apresentar os restantes participantes: o Zé da Frutaria (dono do pomar) e a companheira (Rute Marlene, dona da peixaria), ambos portistas, o Santos (o príncipe das retrosarias), benfiquista disfarçado de boavisteiro, o Silva (empresário de restauração), benfiquista, o Pinto (porteiro de bar), sportinguista, o Ilídio (técnico de arrumação de carros), doido por automóveis e anti-futebol e a Svetlana (estudante universitária russa), simpatizante do FCP.

Eram nove horas da noite quando abri a sessão. Notava que os rostos estavam tensos. Pedi elevação e que não houvesse interrupções, nem bocas foleiras, de uns para os outros. Havia muita cerveja fresca, pouca água, fiambre, queijo, chouriço, pão de forma, café e miniaturas, para aconchegar a discussão.

Limitei o tempo de intervenção a 3 minutos e ninguém tinha direito a bis, enquanto houvesse novos oradores a pedir o uso da palavra. “Está aberta a sessão”, exclamei solenemente. O primeiro a inscrever-se foi o Zé da Frutaria, seguiu-se o Silva, o Pinto e o Santos. Depois, foi mais ou menos a balbúrdia que deixei correr. Infelizmente. Foi assim que se passou e consta da acta:

da Frutaria: Mais uma cabazada do FCP. Desta vez até o Caldeira, que é um "torto", lhes deu um baile. Dizem para aí uns ressabiados que o gajo é um pau mandado da Olivedesportos e apenas tinha serventia para representar o clube nos torneios de golfe. Pois, agora, o homem - com quem não simpatizava nem um bocadinho -, deu a tacada mais certeira da sua vida e virou do avesso a opinião da nação portista. Quanto ao Costinha da Liga e aos 5 matulões da Federação, só resta um caminho: pedirem ao Vieira emprego, pois são bons para encher pneus. Digo mais, são uns grandes...

Santos (interrompe): O que o Zé disse é insultuoso e uma cabala. O Platini é que vos topou. Esse é que vos conhece de ginjeira. O presidente do SLB – tomem nota e repito pela enésima vez: EU NÂO SOU BENFIQUISTA – tem toda a razão. O homem bate-se pela verdade desportiva e tem tido um comportamento exemplar, como comprova a sua vontade (confessada) de não querer que o SLB tirasse partido da exclusão do FCP na CL. Isto é que é um exemplo. A UEFA vendeu-se. É pena que o PGR e a PJ não tenham poder sobre essa máfia. Incrível a decisão do TAS, tendo em conta...

Rute Marlene (não lhe permitindo continuar) - Oh Santos cale-se que só está a dizer asneiras. Você é do Boavista e só fala das galinhas. Não está preocupado com a descida de divisão ou continua fascinado com o voo da gaivota. Continuou, cantarolando: uma gaivota voava, voava, cheia de pó nunca mais parava. Chamem a polícia, chamem a polícia...

Svetlana (interrompe: põe-se de pé e fez-se silêncio. O que a mini saia e o pequeno top não tapavam deixou todos sem fala) – Qual polícia? O SLB é o dono do regime. Conheço jogadores, treinadores, árbitros, dirigentes, autarcas, assessores, empresários, advogados, juízes e todos são unânimes: o SLB é intocável. Um Estado dentro do Estado, como repetidamente o mestre – que também conheço muito bem – não se cansa de repetir. Só por isso não os gramo: parecem os donos do país. Nem o Putin tinha tanto poder na Rússia. Uma vergonha. Tenho dito e sentou-se.
Generosamente, continuou a proporcionar-nos uma vista magnífica.

Ilídio - Por tudo isto e aqueloutro é que detesto a bola. O Futebol é o ópio do povo. E serve para calar...

(interrompendo) – O ópio de quem? Não estás enganado e a confundir toucinho com velocidade?


Ilídio
- Oh Zé não me interrompas. O Pacheco Pereira e o Rui Rio é que têm razão. O país vive para o futebol, como se a bola comandasse a vida. Gosto de carros e sou um apaixonado pelo desporto automóvel, mas não sou fanático. O fanatismo é o pai de todos os males. Proibi em casa o futebol e resolvi o problema.

– Pois resolveste. Os teus filhos saíram de casa. A tua mulher deixou-te. Gostas de automóveis, mas já não aceleras.

Ilídio – Se voltas a falar da minha vida particular, não respondo por mim.

Achei por bem e fiz uma interrupção de dez minutos para dar de beber à dor. Quando senti os ânimos mais calmos, recomecei. A cerveja esgotou-se como por encanto. Reabri os trabalhos e dei a palavra ao Pinto.

Pinto - Não me dou com estas confusões. Felizmente o meu clube é verdadeiramente aristocrático, na melhor acepção da palavra. Temos o Hermínio e o Vítor que são umas feras, assim a modos que leões amansados habituados ao circo, em postos de comando. Desta forma, acautelámos a nossa representação na Liga. Somos chorões, campeões de grandes penalidades e com muitos figurões. Berrámos muito – quem não berra não mama – e calámos sempre que é conveniente. Sempre no timing exacto. Ouviram falar mais daquele imbróglio aquando da contratação de João Pinto? Não, obviamente. Somos um clube de misteres e de presidentes da república. Este ano vamos ser campeões e vamos bater o nosso recorde de grandes penalidades. Está tudo previsto. Somos os príncipes do planeamento.

Luís – Tenho aqui um documento a que tive acesso privilegiado, que conta como um árbitro foi aliciado para assinalar um fora de jogo contra o FCP, quando o atacante azul e branco se encontrava em posição muito favorável. Mas o árbitro tinha tudo encomendado. Forçou que o consequente livre fosse marcado rapidamente, o que desconcentrou o defesa benfiquista. Pontapeou mal a bola, o colega perdeu-a para um jogador portista, em zona perigosa, que lançou um contra-ataque fulminante que deu em golo do FCP. Tenho cópia das escutas e não restam dúvidas que se o árbitro não tivesse marcado aquele fora de jogo ao FCP (um escândalo) o defesa do SLB não teria ficado desconcentrado e não cometeria erro tão infantil. O árbitro fabricou a situação. Fez parecer que beneficiava o SLB, mas sabia bem que isso era apenas camuflagem. Um roubo. As gravações, digo, as escutas provam-no de forma categórica. Há corrupção no futebol português. Está tudo viciado. Parece a Sicília. Tenho sido ameaçado. Não me calo. Ouviram!

Nessa altura a Rute Marlene levantou-se e disse: Oh Luís tens cá uma lata! Falas em vício seu caloteiro: não me pagas há mais de três meses e ao Zé até já perdi a conta. O Vieira deu cabo do Alverca, o Veiga era “dono” do Estoril e trabalhava para o SLB, os que falham grandes penalidades têm garantido o direito de jogarem no SLB e a rapaziada especializou-se em lançamentos de very lights e em fogo posto de autocarros. Incendiários é o que vocês são, seus invejosos.

O Luís disse, exaltadíssimo: se não fosses mulher dava-te uma tareia, já que o teu homem apesar de vender fruta, já não tem tomates para te pôr na ordem.

O furioso atirou-se ao Luís, mas foi aplacado pelo Ilídio e pelo Santos. O Pinto, como bom aristocrata, nem se mexeu. Era uma grande confusão de braços, quando se ouviu um grito estridente: “BASTA”. Era a minha voz, num registo totalmente novo. Resultou. Fez-se silêncio. Convidei a Rute e o Luís a sair, para podermos terminar em paz.

Foi aceite. O contrariado ficou. Um amigo da Junta acompanhou os dois “expulsos” para que não ocorresse algo mais desagradável. E não aconteceu. Foram na paz do senhor.

Ia rematar os trabalhos quando Svetlana se levantou, excitadíssima, com a saia pela cinta e o top abaixo do soutien, e disse com a serenidade possível: O FCP é o maior e o melhor. Também, eu, sou vítima de todas as invejas. Vocês sabem do que estou a falar. O FCP tem os melhores jogadores e ganha com uma vantagem tal que não consente dúvidas. Trabalhar mais e ser melhor, é o segredo. Sei o que passa com o Luís Filipe, coitado um frustrado. Sofre do síndrome: PdC. Não vou revelar as causas nem as fontes. Não sou delatora, nem bufa. O Luís Filipe abusa porque tem a certeza que, enquanto for presidente do SLB, sai incólume de qualquer rixa. Para terminar, convido todos a cantar comigo, os Filhos do Dragão numa versão e encenação muito originais.

Ficamos. Todos cantaram, sem excepção. De pé, como exigiu. A voz dela não era particularmente bonita, mas a encenação um achado. Pedimos bis, mas não foi concedido.

Dei os trabalhos por encerrados. Para a semana há mais. Vamos tratar da Crise Petrolífera.