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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Eusébio e Tozé, descubra as diferenças

«Tozé, médio cedido pelo FC Porto ao Estoril [o empréstimo é válido por duas temporadas e o Estoril garantiu 35% do passe do jogador], esteve em destaque neste domingo. O jovem internacional português foi titular frente aos dragões, sofreu uma grande penalidade na reta final do encontro e converteu-a com eficácia. A equipa de Julen Lopetegui perdeu dois pontos na Amoreira (2-2).
O jogador não festejou o golo e pediu desculpa aos adeptos do FC Porto, clube que representa desde 2005
in Maisfutebol, 10-11-2014


O Porto é o clube do meu coração e foi difícil para mim, mas tentei ser profissional e ajudar o Estoril
Tozé, no final do Estoril x FC Porto, em declarações à SportTv


O jogador [Tozé] estava sereno, embora toda a situação tenha mexido com ele, pela história que tem com o FC Porto e que possivelmente ainda não acabou. Se o FC Porto o quiser de volta vai contar com um profissional de alto gabarito.
Ele é profissional e demonstrou isso, acima das paixões clubísticas ou do histórico da formação.”
Tiago Ribeiro, presidente do Estoril, em declarações ao Maisfutebol



«Eterno adepto do Benfica, o “Pantera Negra” revelou, numa entrevista a ser transmitida esta quarta-feira pela RTP, que na sua carreira chegou a fazer “birra” para não marcar um golo contra o clube do coração.
Eusébio interrompeu um período de 14 anos de ligação ao Benfica, dois meses depois da “Revolução dos Cravos”, para passagens curtas pelos Estados Unidos da América, México e Canadá. Um ano depois de ter abandonado Lisboa, Eusébio regressou a Portugal, em 1976, para jogar no Beira-Mar. Mas avisou o seu treinador que jamais marcaria um golo ao Benfica.
Não me peçam para marcar um penálti, nem um livre. Se for para marcar um penálti eu mando um pontapé para fora”, revelou o ex-futebolista, que acabou por não ter feito um único remate quando defrontou o Benfica, que viria a sagrar-se campeão na mesma temporada.
Eusébio contou ainda que, a 15 minutos do início da partida, foi ao balneário do Benfica “tranquilizar” os ex-companheiros. “Malta, eu vou jogar mas estejam tranquilos porque não vai haver golos”, disse o então avançado do Beira-Mar.»


Que história exemplar!

É caso para dizer, principalmente aos benfiquistas, descubra as diferenças entre estes dois casos…

Mais. Enquanto o Tozé está emprestado, tem contrato com o FC Porto e a maior parte do seu passe pertence à SAD portista, no caso do Eusébio, quando, em 5 de Janeiro de 1977, defrontou o “seu clube do coração” ao serviço do Beira Mar, já há mais de dois anos que não tinha qualquer tipo de vínculo ao SL Benfica.

Mas o pior de tudo é saber que a generalidade dos benfiquistas – adeptos, comentadores, jornalistas, ex-jogadores, etc. – em vez de vergonha, têm orgulho nesta história.
Isto é que é (foi) amor ao “glorioso”, dizem eles.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A homenagem perfeita


Depois de uma semana a ouvirmos na comunicação social as carpideiras benfiquistas ad nauseam, eis que chegava o grande jogo e era preciso ganhar ao FC Porto para dedicar a vitória ao Eusébio. Nada me move contra as homenagens a esse grande símbolo do Benfica mas ironicamente a homenagem deu-se num jogo de sentido único em que SLB e o árbitro Artur Soares Dias (filho de um benfiquista) encostaram às cordas uma equipa do FC Porto sem atitude competitiva.

O critério disciplinar do árbitro foi desigual, favorecendo o SLB, e a generalidade das faltas cometidas pelo FC Porto deveu-se a disputas de bola intensas com mergulhos frequentes dos jogadores do SLB ao primeiro contacto. Isso também os ajudou a controlar o jogo. No critério técnico o árbitro esteve, também, muito mal, beneficiando na maioria das vezes a equipa lisboeta. Contra o FC Porto ficou um penalty por marcar por mão na bola de Mangala e contra o SLB ficaram 2 penalties por marcar, um por derrube pelas costas a Danilo quando este se preparava para rematar, isolado, à baliza de Oblak e outro por falta dentro da área de Garay sobre Quaresma. No derrube a Danilo, o árbitro não só não marcou penalty como ainda “interpretou” a queda do brasileiro como uma simulação, mostrando-lhe o segundo cartão amarelo e o correspondente cartão vermelho. Erro muito grave. Curiosamente, Danilo tinha visto o primeiro amarelo por protestos num lance em que há uma falta à entrada da área benfiquista sobrando a bola para Jackson Martínez que estava em óptima posição para prosseguir o lance rumo à baliza adversária, mas o árbitro resolveu marcar a falta, beneficiando claramente o infractor. Outro erro muito grave.

A partir de metade da segunda parte passou a ser impossível jogar: bola dividida, jogadores disputam a bola, jogador do SLB deixa-se cair ou mergulha intencionalmente e falta contra o FC Porto. Perdi a conta ao número de vezes...


Por ironia do destino, o jogo que teve Eusébio como grande protagonista poderia ter sido transmitido a preto e branco, tantas foram as semelhanças com o tempo do Estado Novo: um estádio empolgado, um árbitro demasiado caseiro e um Portinho frouxo e pouco organizado (a fazer lembrar os Andrades)… E para compor o ramalhete, o treinador Paulo Fonseca, incapaz de se insurgir contra os erros de arbitragem, como se lhe exigia, surge aos microfones com aquela tibieza de discurso que lhe é habitual: péssima atitude. Não será possível manter este treinador na próxima época  não serve para o FC Porto.

Que se enterrem, também, os fantasmas do Regime.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Uma derrota inevitável

O FC Porto foi derrotado no estádio da Luz. Os números não mentem. Desde a polémica dos "túneis", há quatro anos, que a equipa azul-e-branca não caía em Lisboa para o campeonato. Foi uma derrota mais do que merecida. Salvo nos minutos finais da primeira parte jamais a equipa de Paulo Fonseca esteve à altura do jogo. Durante a semana a morte de Eusébio intoxicou a comunicação social. Criou-se a sensação de que o Benfica teria de ganhar este jogo, sim ou sim, como homenagem ao "Pantera Negra". Não foi preciso muito. Quem tem seguido a carreira do FC Porto nesta época sabia que a equipa não estava preparada para um desafio deste nível emocional. Jorge Jesus agradeceu. Pela primeira vez o Dragão chegou à capital do "império" com um treinador pior que ele. Assim, uma derrota é algo inevitável.


Deu pena ver as camisolas azuis-e-brancas em alguns momentos na Luz.
Uma equipa perdida, partida, sem ideias. Sem líderes e sem alma. Isso de "jogar à Porto" é algo que, manifestamente, este staff técnico é incapaz de transmitir. O FC Porto não perdeu apenas com o Benfica. Em alguns momentos do jogo foi verdadeiramente atropelado por uma formação rival que não é, propriamente, uma grande equipa. Nem precisou de o ser. Bastou-lhe ter garra, raça e jogar a explorar as falhas dos rivais. Que foram muitas. A começar pela defesa que entregou de bandeja os dois golos. Podia ter sido pior. Otamendi continua a ser um central ao nível dos distritais, falhando cada bola que toca. Mangala hoje vale metade do que valia há um ano (e estou a ser simpático). E Helton, que renovou há pouco para mais uma época, ficou muito, muito mal na fotografia nos dois golos. O primeiro entrou no seu poste, as mãos muito frouxas para travar o disparo de Rodrigo. No segundo golo, uma saída sem qualquer sentido abriu a baliza ao cabeceamento de Garay. Mangala também não ajudou a deixar-se antecipar. Minutos antes o central francês tinha cometido um penalty claro que ficou por marcar. Soares Dias não apitou A bola foi ao braço de Mangala mas a sua posição era tudo menos natural. Não houve sequer tempo para a polémica, com o golo a surgir no lance seguinte. O desnorte dos jogadores do FC Porto era mais do que evidente. Na segunda parte foi Danilo que sofreu um contacto com Garay que poderia ter perfeitamente sido assinalado. Resultado? Amarelo para o brasileiro e expulsão. Nessa altura já Soares Dias tinha perdido o controlo do jogo e o Benfica o tinha ganho. A Paulo Fonseca de nada tinha valido a tecla de emergência chamada Ricardo Quaresma. O seu primeiro lance? Um amarelo por entrada a Matic. O mundo ao contrário.

O FC Porto repetiu o padrão táctico dos últimos tempos e foi rapidamente engolido por um Benfica que povoou o meio-campo, colocando Perez e Matic perto de Markovic e Gaitan. Os quatro moveram-se rapidamente nas transições, aproveitando que a ausência de Cardozo deixava a defesa do Porto sem um alvo de marcação. Quando tinha a bola nos pés, os dragões não sabiam o que fazer com ela. Linhas muito separadas, falta de um organizador e um oceano de encarnados entre Jackson e os colegas. O colombiano teve a oportunidade de marcar no final da 1º parte. Teria sido o golo do empate. O falhanço foi flagrante. Não voltou a ser visto em campo. O golo do Benfica surgiu de acordo com a corrente do jogo, em mais um aproveitamento dos erros defensivos por parte dos encarnados. Depois da euforia, o FC Porto pegou finalmente com a bola mas apesar de ter empurrado o Benfica para a sua linha defensiva, parecia incapaz de criar perigo. As oportunidades em que Oblak foi posto à prova contam-se pelos dedos de uma mão. A apatia era total. A segunda parte não foi diferente. Saiu Lucho e entrou Josué, houve mais velocidade nas trocas de bola mas a equipa continuou sem verticalidade. Quaresma entrou e causou impacto zero. Era esperado. Os que acreditam em contos de fadas talvez tenham ficado desiludidos. Falta muito para o "mustang" poder voltar a ser decisivo neste tipo de jogos. O 2-0, justo pela forma como o jogo se desenrolou (e com a polémica do penalty fresca) matou o jogo. O Benfica encostou-se comodamente à procura dos espaços e entregou a bola ao Porto. Com Villas-Boas ou Vitor Pereira isso teria sido fatal. Com Paulo Fonseca é uma bênção para qualquer rival. O esférico queimava nos pés dos jogadores os passes falhados foram in crescendo permitindo ao Benfica ir realizando raides à baliza de Hélton. A polémica expulsão de Danilo (o penalty pode ser discutido, o conceito de simulação é ridículo) apenas se limitou a facilitar a noite aos da casa quando já tinham o jogo no bolso.



Sem fio de jogo, com erros arbitrais para ambos os lados e sem conseguir deixar uma boa imagem, o FC Porto que viajou à Luz foi apenas mais um capitulo na desastrosa gestão de Paulo Fonseca. Parece mais do que evidente que o treinador vai aguentar até Maio. Uma decisão que honra quem gere o clube e apostou forte nessa ficha. Que esteja à altura das consequências. O campeonato ainda vai a meio mas o vazio mental do treinador do FC Porto não augura nada de bom. Depois da péssima exibição em Madrid e Alvalade a derrota na Luz é apenas mais uma prova de que já não é apenas uma questão de adaptação (seja lá o que isso seja) ou um problema dos jogadores. Sem ter-se esforçado muito, o Benfica lá conseguiu homenagear Eusébio. Perderá Matic (e essa é uma perda importante) mas parte para a segunda volta líder. Eu, pessoalmente, preferia que alguém no FC Porto fizesse algo para homenagear José Maria Pedroto, apostando para a próxima época num treinador de que não seja de papel. Perder na Luz é algo atipico (três derrotas em onze anos) mas não é um resultado que envergonhe ninguém. Cair como se caiu é um fraco favor à garra, à raça e ao espírito ganhador que faz parte do ADN de todos os Dragões. Em Maio vai ser preciso algo mais que um Kelvin para resolver este problema de identidade digno de uma consulta freudiana. O importante agora é chegar lá como na época passada. A discutir um título que ainda não é de ninguém!

sábado, 11 de janeiro de 2014

Homenagear é jogar à Porto

Durante muitos anos, as deslocações do FC Porto ao “inferno da Luz” terminavam, invariavelmente, em derrotas e houve mesmo longos períodos em que a equipa azul e branca não conseguiu vencer os encarnados no seu estádio. Foi o caso de 11 deslocações seguidas à Luz para o campeonato, no período entre 24-11-1963 e 04-11-1973, que se traduziram em 8 derrotas e 3 empates.

Em 1976, dois anos após a revolução de Abril, que mudou o país do ponto de vista político e social, iniciou-se um novo período no futebol português. Primeiro com o regresso de José Maria Pedroto ao comando do futebol portista (1976/77 a 1979/80; 1982/83 a 1983/84) e, principalmente, após a eleição de Pinto da Costa em 1982, assistiu-se à progressiva transformação do FC Porto no melhor clube português, quer a nível nacional, quer internacional.

Assim, se durante a “geração Eusébio” o FC Porto esteve 11 anos sem ganhar no estádio da Luz, nas últimas 11 deslocações ao “ninho da águia” para o campeonato, os dragões regressaram de Lisboa com 5 vitórias, 4 empates e apenas 2 derrotas.

Últimos 11 slb x FC Porto para o campeonato (fonte: zerozero)

Nestes 11 jogos, correspondentes ao período entre 04-03-2003 e 13-01-2013, a equipa do FC Porto deslocou-se à Luz sob o comando técnico de seis treinadores diferentes: José Mourinho (2 vezes), Victor Fernandez, Co Adriaanse, Jesualdo Ferreira (4 vezes), André Villas-Boas e Vítor Pereira (2 vezes).

E se é verdade que Co Adriaanse nunca ganhou na Luz (foi campeão nacional na época 2005/06 perdendo os dois jogos contra o slb!), todos os outros foram felizes no estádio da Luz.

Amanhã é a vez de Paulo Fonseca.

Apesar dos muitos sucessos nos últimos anos, uma deslocação a Lisboa, para um desafio no estádio dos encarnados, nunca é um jogo fácil. E esta deslocação tem a dificuldade adicional dos descarados apelos públicos de "vencer em nome de Eusébio" (espero que não influenciem o árbitro), integrados na campanha nacional de homenagens ao King.

Lá está, Eusébio é uma figura nacional, consensual, que une os portugueses e blá, blá, blá mas, mesmo depois de morto, aproveitam-se dessa figura nacional para apelar à vitória do seu clube de sempre - o SLB - e à consequente derrota do odiado clube do Norte - o FC Porto.

Como portista, portuense e português, espero que sim, que a equipa do FC Porto honre a memória de Eusébio e a melhor forma de o fazer é jogando como o fez nos últimos anos, jogando à Porto.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Da alienação ao Panteão


Eusébio com a camisola do SLB
Eusébio da Silva Ferreira morreu no passado domingo.
Quem o pôde ver jogar ao vivo (ele deixou de jogar há cerca de 40 anos), ou viu vídeos / transmissões televisivas de jogos em que participou, diz que Eusébio era um jogador veloz, ágil, possante e de remate fácil, o que fez dele um goleador temível e o tornou conhecido como o Pantera Negra.

Vindo da filial do Sporting em Lourenço Marques (atual Maputo), Eusébio chegou a Lisboa no dia 15 de dezembro de 1960 para jogar no… SLB, onde esteve até 18 de junho de 1975.
Foi nas 15 épocas ao serviço das águias, que Eusébio atingiu a esmagadora maioria dos êxitos da sua carreira – 11 Campeonatos Nacionais, 5 Taças de Portugal, 1 Taça dos Campeões Europeus (1961/62) e a presença em mais três finais da Taça dos Campeões Europeus (1962/63, 1964/65 e 1967/68). Foi ainda, por três vezes, o melhor marcador da Taça dos Campeões Europeus e sete vezes o melhor marcador do campeonato português, tendo em duas dessas ocasiões (1967/68 e 1972/73) ganho a Bota de Ouro (de melhor marcador dos campeonatos europeus).

Mas, se ao serviço do seu clube de sempre – o SLB – Eusébio conquistou inúmeros títulos e troféus individuais, sendo o maior goleador da história dos encarnados de Lisboa (638 golos em 614 partidas oficiais), o mesmo não pode ser dito da Seleção Nacional.

Eusébio estreou-se na Seleção Portuguesa de Futebol a 8 de outubro de 1961 e fez o seu 64º e último jogo a 19 de outubro de 1973, mas os sucessos alcançados com a camisola das quinas foram escassos e resumem-se ao 3º lugar no Campeonato do Mundo de 1966.

Evidentemente, um jogador sozinho não faz uma equipa, mas se há algo que ninguém pode dizer é que a geração dos anos 60 era fraca e que não havia matéria prima para fazer uma grande Seleção, bem pelo contrário. Aliás, dizê-lo seria um contrassenso, porque na década de 60 o Benfica (que era a base da Seleção) foi a cinco finais da Taça dos Campeões Europeus (ganhou duas) e o Sporting venceu uma Taça das Taças.

Haverá diferentes explicações (dependendo da visão e/ou agenda de cada um) para todos os insucessos da Seleção portuguesa em confronto com outras seleções, mas o que fica para a história é que nos 12 anos em que jogou pela “equipa de todos nós” Eusébio apenas foi a uma fase final de um Mundial, ou seja, falhou os Europeus de 1964, 1968, 1972 e os Mundiais de 1962 e 1970 (por exemplo, e em contraponto, Cristiano Ronaldo nunca falhou a presença numa grande competição internacional e já foi vice-campeão em 2004 e semifinalista em 2006 e 2012).

Independentemente das simpatias clubísticas, toda a gente reconhece que o Eusébio foi um extraordinário avançado e, tendo sido o primeiro grande futebolista africano a atingir o estrelato internacional, é também unanimemente considerado o melhor jogador português da sua geração (já é discutível se será o melhor de sempre).
Mas se Eusébio foi um enorme futebolista, o maior, o King, ou o que a comunicação social lhe quiser chamar, foi-o essencialmente com a camisola do SLB e não com a camisola da Seleção Portuguesa de Futebol. Esta é a realidade dos factos.

Dito isto, acho normais todas as homenagens que jogadores, treinadores, dirigentes e clubes adversários lhe fizeram.
E, por tudo aquilo que o Eusébio deu e ainda hoje representa para o seu clube de sempre, percebo perfeitamente as homenagens que o SLB lhe fez em vida, ou queira fazer agora, desde o anunciado recorde de um ano de luto, decretado por Luís Filipe Vieira, à intenção de transformar a zona da estátua numa espécie de mausoléu (mudar o nome do estádio é que não, porque o Eusébio pode ser um mito, mas Vieira não está disposto a abdicar dos milhões que conta encaixar com os naming rights...).

Contudo, não alinho na onda da histeria coletiva dos media da capital, à moda da Coreia do Norte, no absurdo de quererem fazer de Eusébio uma “referência” ou “herói nacional” e muito menos em descarados aproveitamentos político-desportivos.

Governo, Primeiro-Ministro e Presidente da República na missa de corpo presente

Presidente da República na missa de corpo presente

Eu, pessoalmente, defendo que Eusébio deve ir para o Panteão. Se há algum português que lá deve estar é ele
Teresa Leal Coelho, vice-presidente do PSD, 06-01-2014

[a transladação dos restos mortais de Eusébio para o Panteão Nacional] é uma exigência do povo português e não do Benfica
Luís Filipe Vieira, em entrevista à RTP no dia 06-01-2014

Exigência?! Pode ser uma exigência dos benfiquistas, dos amigos, de admiradores ou de políticos oportunistas, mas certamente que não é uma exigência do povo português.
Para que fique claro, por tudo aquilo que escrevi atrás, sou completamente contra a que sejam depositados no Panteão Nacional os restos mortais de um futebolista, por melhor que ele tenha sido, mas cujos feitos estejam (e no caso do Eusébio estão), no essencial, associados a um clube e não à Seleção Nacional ou ao país como um todo.

Aliás, a associação de Eusébio ao SLB foi sempre clara e inequívoca, mesmo após a sua morte. Por exemplo, não foi certamente por acaso que o corpo de Eusébio esteve em câmara ardente no estádio da Luz e não na sede da FPF.

Urna de Eusébio (foto: PÚBLICO / Nuno Ferreira Santos)

Como também não foi esquecido, pelos responsáveis benfiquistas, o desejo do próprio Eusébio em que a sua urna, coberta com a bandeira do SLB (e não com a bandeira de Portugal), desse uma volta de honra ao relvado do estádio do seu clube de sempre.

E, já agora, a foto seguinte, com um segurança contratado pelo SLB a retirar cachecois de outros clubes da zona da estátua do Eusébio, fala por si, sem precisar de legenda ou de comunicados de última hora com explicações mais ou menos esfarrapadas.


Quanto às comparações com a Amália Rodrigues, cuja transladação para o Panteão Nacional também me pareceu algo forçada, é bom dizer o seguinte: os sucessos da fadista não foram alcançados com a Amália a envergar a camisola de uma empresa, clube ou cidade e muito menos as alegrias que proporcionou implicaram a tristeza de uma parte dos portugueses.


P.S. Para que serve o Panteão Nacional? De acordo com a lei 28/2000, as honras do Panteão destinam-se a “perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade”.

Atualmente, o Panteão Nacional abriga cenotáfios (memoriais fúnebres) de grandes vultos da História de Portugal, como D. Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique, Pedro Álvares Cabral e Afonso de Albuquerque, bem como, os restos mortais de alguns presidentes da República e escritores. As excepções a este perfil de personalidades são Humberto Delgado e Amália Rodrigues.

O próximo, tudo o indica, será o futebolista Eusébio da Silva Ferreira, porque há “um grande consenso nacional” e os partidos políticos (pelo menos o PS, PSD, CDS e BE) já vieram dizer que são a favor.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Salazar, o regime e o benfica

A propósito do 25 de Abril, vale a pena lembrar alguns aspetos singulares do futebol português, do período anterior à revolução dos cravos de 1974.

«A partir dos anos 60, o Benfica aparece como grande figura da união nacional, alimentando um sentimento patriótico com a conquista das Taças dos Campeões Europeus em 1960/61 e 1961/62.»
in Record, 25-04-2013


Na realidade, o regime salazarista não perdeu tempo a associar-se e explorar as vitórias europeias do slb.
A televisão dava os primeiros passos em Portugal mas, em Maio de 1961, a presença do slb na final da Taça dos Campeões Europeus, mereceu honras televisivas e o jogo foi transmitido em direto (embora cheio de interferências).
E se a presença na final já tinha sido motivo para “anestesiar o povo”, após a vitória (3-2, frente ao FC Barcelona) a propaganda do regime não fez por menos: durante toda a semana, uma vez por dia, a RTP transmitia o jogo em diferido!

Mas a coisa não se ficou pelos habituais instrumentos da propaganda – jornais, rádio e televisão. A colagem e interesse do regime no sucesso benfiquista foi demonstrada ao mais alto nível.
Assim, após terem sido recebidos no Palácio de Belém, onde o Presidente da República, Américo Thomaz, lhes atribuiu a medalha de mérito desportivo, jogadores treinador e dirigentes do slb foram também recebidos pelo homem forte do regime, o Presidente do Conselho, António Oliveira Salazar, o qual manteve com os elementos da comitiva benfiquista uma conversa amistosa, em que manifestou o seu apreço pela vitória alcançada e pela expressão que a mesma teve como serviço prestado à pátria.

(Salazar e o Ministro da Educação com os jogadores, treinador e dirigentes do slb, 1961)

Oito dias antes da final de Berna, no dia 23 de Maio de 1961, estreava-se pelo slb (num jogo de reservas contra o Atlético) um jovem moçambicano proveniente do Sporting de Lourenço Marques (filial do SCP): Eusébio da Silva Ferreira.

Eusébio rapidamente se tornou a figura de proa do slb, sendo um elemento preponderante nos sucessos, a nível interno e europeu, dos encarnados durante a década de 60 do século XX.

Em 1964, quando a “Pantera Negra” já era uma estrela futebolística, conhecido em toda a Europa, a Juventus fez-lhe um tentador convite, oferecendo-lhe 25 mil contos. Quase na mesma altura, o Real Madrid, por influência de Di Stefano (seu ídolo da juventude), fez uma oferta igual.
Eusébio, que tinha apenas 22 anos, ficou eufórico ante a perspectiva de se transferir para Turim ou Madrid, mas “Salazar mandou-me chamar e disse-me que eu não podia sair do País, porque era património do Estado! Fui prejudicado nesse momento. Hoje teria uma grande fortuna”.

(Eusébio e Salazar, 1966)
Dois anos depois, após o Mundial de 1966, Eusébio e a sua mulher foram gozar férias para Itália, a convite do Inter de Milão, clube com o qual chegou a ter tudo acertado. O colosso italiano pagava-lhe 90 mil contos para assinar contrato, uma fortuna para a época (o equivalente a cerca de três milhões de dólares).
Disse Eusébio: “Naquele tempo dava-me para comprar os Restauradores”.
Mas, mais uma vez, surgiram obstáculos à sua saída. Para além da intransigência de Salazar, entretanto a Itália fechou as suas fronteiras a jogadores estrangeiros.

Outros convites se seguiriam, mas o clube encarnado, com o apoio do regime, foi irredutível e só permitiu a sua saída no final da carreira, em meados da década de setenta.

A propósito dos obstáculos que ele e outros jogadores do slb enfrentaram nos anos 60 e que os impediram de sair para clubes estrangeiros, Eusébio afirmou:
Queria ir para Itália, fui travado, houve muitos casos de outros colegas meus que não puderam sair, mas nunca houve ameaças.”
in Record, 25-04-2013


Podemos falar na maior ou menor proximidade de alguns dirigentes do slb ao regime, ou em desviar as atenções para aspectos meramente acessórios (como a letra do hino), mas factos são factos e a realidade é só uma: o regime primeiro cavalgou o sucesso internacional dos encarnados e depois, naquilo que verdadeiramente interessa, tratou de criar as condições necessárias para que esse sucesso se mantivesse, fazendo do slb e do seu principal jogador um dos símbolos do Portugal dos 3 F’s (Fátima, Fado e Futebol).

Nota: Os destaques no texto a negrito são da minha responsabilidade.