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segunda-feira, 18 de abril de 2016

21%

O processo eleitoral finalizado no dia de ontem confirmou a reeleição da lista única apresentada como era de esperar. No entanto, apesar de todos os obstáculos levantados por aqueles que temem o sócio portista e o seu grau de visível insatisfação com o rumo presente, a lista única coleccionou apenas 79% dos votos para a presidência e uns "meros" 74% para o Conselho Superior. Sem concorrência com cabeça visível ainda assim o homem que foi eleito em inúmeras ocasiões por aclamação popular e 99,9% dos votos a favor conseguiu perder 1/5 dos seus seguidores eleitorais. Ontem fez-se história no FC Porto.

A ironia, porque com alguns indivíduos a ironia tem de estar sempre presente, é que mal se acabou o processo de contagem e se divulgaram os números, houve quem saltasse de imediato á primeira linha de batalha para cometer mais um acto desonesto a seu favor. Divulgar o conteúdo dos boletins de voto - mesmo rasurados ou com mensagens de apoio ou em contra - pode ser legal ou ilegal (desconheço os estatutos do clube nesse sentido) mas o que não é, seguramente, é ético. Mas tal era o medo, tal era o pavor de que se começassem a juntar os As mais Bs que foi necessário lançar a mensagem - com o devido eco - de que esses famigerados 21% de votos nulos não eram mais que outra forma de demonstrar amor, carinho e devoção com lemas de "Força Presidente", "Força Porto", "Estamos com o Presidente" como se quem não estivesse a favor de Jorge Nuno Pinto da Costa não tivesse apenas de pegar no seu boletim de voto e colocá-lo na urna.

Não vou chamar mentiroso a Sardoeira Pinto nem a Pinto da Costa, há personagens que se retratam por si sós ao longo da sua vida e não é necessário entrar em qualificativos perjorativos. Acredito piamente que algum que outro boletim de voto tivesse essas inscrições. Também vi - porque muitos sócios portistas quiseram divulgar nas redes sociais a sua insatisfação - muitas afirmações que seguem no caminho oposto. O que é certo é que a ausência de uma lista alternativa - os resultados deixam claro que havia espaço para essa lista e que um nome sério e com um projecto sólido podia ter estado perto dos 30% de votos a favor - gerou nos últimos dias um movimento entre sócios e adeptos que apelavam ao voto nulo, algo que era conhecido por todos no clube. Não estranhará, seguramente, a quem viveu o processo eleitoral, que determinados sócios associados á direcção tenham juntado o seu voto nesse sentido com mensagens de apoio para tentar minorar o grau de contestação. Mais uma estratégia para desviar a atenção e dar a sensação de que todos continuam atrás de um homem que conseguiu desbaratar de forma assustadora uma herança histórica ímpar no futebol mundial. A esmagadora maioria dos adeptos que votaram nulo ontem alguma vez (ou muitas vezes) votaram a favor de Pinto da Costa por isso o que convém á nova direcção - cujo mandato de quatro anos, uma novidade, terminará se se cumprem os prazos em 2020 - entender porque perdeu apoios reais e não apenas tentar disfarçar o sol com a peneira.



O clube, que é gerido de forma que dista muito da ideia democrática de um processo eleitoral, já fez tudo o que era possível para desprezar os sócios que pensam de forma contrária. Quem foi votar ontem - e haverá vários relatos nos próximos dias - encontrou-se com um cenário digno de regimes que em nada têm de democrático. Boletins de voto escuros propositadamente (sempre foram brancos) para dificultar a rasuração necessária para o voto nulo, ausência de possibilidade de votar em branco ou a ausência de mesas de voto obrigando aqueles que não queriam votar a favor - ou seja, pegar no papel, dobrá-lo e deposita-lo na urna sem sair do sitio - a exposição pública diante de todos os presentes como se fosse uma eleição de braço no ar ao bom estilo soviético. A presença, junto dessas mesas de "reflexão" - só faltava uma bica e o jornal - do candidato da única lista a votos é algo sui generis, para dizer o mínimo que se pode dizer neste caso. A utilização das ferramentas do clube como o Porto Canal para fazer campanha, desacreditar qualquer posicionamento em contra e para reforçar o estatuto de liderança solitária - com mais uma entrevista agendada para hoje, sem que nenhum noticiário do clube tivesse sequer mencionado o movimento Acorda Porto ou falado com um sócio que fosse dos que votaram nulo sem declarar o amor eterno ao candidato único, permite entender que o jornalismo independente, como tal, é algo que nas instalações do PortoCanal pura e simplesmente se meteu na gaveta.

No meio de todos esses condicionantes, ainda assim, dos sócios do Grande Porto que puderam votar - os que vivem no estrangeiro, a quem o voto electrónico ou postal está proibido, e os que vivem no resto de Portugal, onde é proibido votar em Casas do Clube, que não faltam pelo país - houve 21% que disseram "Basta". Entre esses haverá de tudo, seguramente. Os que acreditam que o candidato único pode resolver o problema mas tem de acordar. Os que acreditam que o candidato único tem uma última oportunidade. Os que acreditam que o candidato único é o problema. E até os que lhe devotam amor eterno. Seguramente haverá de tudo um pouco. Mas eram 21% dos votantes. O sinal está dado. Quem acredita que o caminho do FC Porto é outro perdeu, com o acto eleitoral de ontem, todas as desculpas para permanecer em silêncio. Quem venceu, por muito que tente o contrário, pode considerar-se avisado pelos donos do clube - os donos de verdade do clube - de que a situação está no limite. Ontem o FC Porto desceu mais baixo do que em algumas das derrotas mais humilhantes que sofreu em campo mas depois de cada tempestade o sol volta a sair. Os raios de luz, tibios, fizeram-se notar. O FC Porto está vivo.