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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

No pasa nada

De um Relatório e Contas que descreve um inescapável cambalear a caminho do abismo, a única conclusão digna de registo por parte dos responsáveis, é que a culpa é do Herrera.

Alienam-se passes de jogadores no valor de 50 milhões de euros, e consegue-se,mesmo assim, apresentar um prejuízo superior a 25 milhões de euros - devem andar a adubar o relvado com notas de €500. Mas o grande drama é que há um jogador que quer um aumento - sacana!


Intransigente na defesa dos interesses do FCP, o presidente deixou claro que o mexicano não verá o seu contrato renovado. Não tenho dúvidas de que o FCP sobreviverá à saída do Herrera (e do Brahimi, e de todos esses "mercenários"); já a sobreviver a esta gestão...


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

95 milhões de euros…

Fernando Gomes durante a apresentação das contas 2015/16

No final da época [2015/16], tivemos solicitações de venda do Danilo, André Silva e Herrera, com valores em causa de 95 milhões de euros. A equipa técnica e administração entenderam que, num momento em que ainda não estava garantido o acesso direto à Liga dos Campeões, a venda seria um duro golpe no percurso desportivo desta época [2016/17]

Estas declarações foram feitas ontem de manhã, pelo administrador financeiro da FC Porto SAD, durante a apresentação das contas referentes ao exercício 2015/16.

95 milhões de euros? Ena, é (seria…) muita massa!
E, entre os adeptos portistas, houve logo quem tentasse que estas declarações de Fernando Gomes fossem interpretadas da seguinte forma:
O prejuízo (brutal) do exercício 2015/16 é consequência da FC Porto SAD não ter feito vendas porque, se a administração quisesse, bastava ter vendido três jogadores (Danilo, André Silva e Herrera, por 95 milhões) que até teria tido lucro.

Bastava ter vendido três jogadores? Pois…
Cada sócio ou adepto do FC Porto é livre de fazer as interpretações e leituras que quiser, mas vamos lá ver se a gente se entende: no período correspondente ao exercício 2015/16, a SAD alienou os direitos desportivos e económicos de vários jogadores.

De acordo com o Relatório e Contas Consolidado 2015/2016 (páginas 68, 97 e 98), os Proveitos com transações de passes de jogadores atingiram um total de 75.357.145 Euros e as Mais-valias com alienações de passes de jogadores superaram os 40 milhões de euros (40.222.955 Euros).

«Em 30 de junho de 2016 a rubrica “Mais-valias de alienações de passes de jogadores” respeita essencialmente à alienação dos direitos desportivos e económicos do Alex Sandro (21.362.880 Euros). Maicon (9.093.100 Euros) e Imbula (3.867.346 Euros), entre outros.», (Nota 27 do Relatório e Contas Consolidado 2015/2016, página 97).

75 milhões em vendas de passes de jogadores.
40 milhões em mais-valias.
E, mesmo assim, 58 milhões de prejuízo!

Ou seja, apesar da FC Porto SAD ter feito várias vendas e de valor bastante elevado, não chegou.
E por que razão não chegou?
Porque, nos últimos anos, particularmente nos dois exercícios mais recentes - 2014/15 e 2015/16 -, esta administração (já com este administrador financeiro) tomou decisões que fizeram os custos da FC Porto SAD dispararem para valores desmesurados e incomportáveis para a realidade do futebol português.

Salários versus Proveitos (O JOGO, 13-10-2016)

E agora?
Agora, a mesma administração da FC Porto SAD, as mesmas pessoas que colocaram os custos com o plantel principal na fasquia dos 100 milhões de euros, dos quais 75 milhões são salários, falam em “momento zero” e dizem que, nos próximos três anos, pretendem que a massa salarial desça para os 55 milhões de euros.

Mesmo que haja essa intenção (desculpem mas, perante o passado recente, permitam-me duvidar), o problema é se a equipa principal de futebol continuar neste ciclo de derrotas (já são três anos sem ganhar nada), o que obrigará (?) a mais fugas para a frente.

Quem vier depois…

quarta-feira, 9 de março de 2016

Amor de perdição

Como sabemos, tivemos eleições na SAD do FCP há cerca de uma semana atrás. 

Durante o mandato de 3 anos que agora acabou os 4 membros executivos do Conselho de Administração da SAD receberam oficialmente uma remuneração, em média, de aproximadamente 1,400,000€ cada um pelos serviços prestados ao futebol do FCP. Ou seja, perto de 500,000€/ano - cada um, repito (ou mais de 60x o salário mínimo). 

Muito longe vão os tempos em que Pinto da Costa disse que nunca aceitaria cargos remunerados no FCP. Longos dias têm cem anos, de facto.

A componente fixa dessa remuneração foi de 100%, e a variável de 0%, segundo os R&C da SAD.

Isto exclui «despesas de representação» (carro e gasolina, etc etc), a (muito mais pequena) remuneração que recebem do clube - onde fazem todos membros da Direção como Presidente e Vice-Presidentes - e outros rendimentos que possam eventualmente ter fora do FCP. 

Bem, pessoalmente considero tamanha remuneração fixa como sendo obscena (muito superior à dos rivais, e, tanto quanto conseguir descobrir, quase o dobro do que ganham os Directores de um Real Madrid e mais do que ganham os Directores do FC Barcelona; diga-se de passagem que os presidentes do RM e do Barça não são sequer remunerados, muito ao contrário do nosso, não entrando sequer nestas contas).

Mas como as opiniões são como as cerejas, há quem encolha os ombros e diga que «a profissionalização dá nisto», há ainda quem diga que «eles merecem».

Começando pelo 2º contra-argumento, constato que no mesmo período de 3 anos (que grosso modo corresponde às épocas 2013/14, 2014/15 e a presente época), o palmarés conquistado no futebol terá sido o seguinte: uma Supertaça de Portugal; possivelmente uma Taça de Portugal (a ver...); e de resto muito provavelmente zero títulos (e um ou dois 3º lugares); e quanto à Europa, 2x eliminados na fase de grupos da LC e uma vez nos 1/4s da mesma.

De um ponto de vista de gestão financeira, no mesmo triénio vamos certamente ter um prejuízo acumulado na SAD bastante considerável (e nunca estivémos tão dependentes de mais-valias nos jogadores para equilibrar minimamente o barco). No biénio 2013-15 fizemos mais de 20M€ de prejuízo, e a presente época vai pelo mesmo caminho (ou pior), isto já contando com 1 ou 2 grandes vendas antes do fim de Junho.

Ou seja: presumo que quem acha que «eles merecem» tenha uma bitola mesmo muito baixa (ou se calhar consideram a remuneração como uma espécie de pensão de reforma ainda em funções, sei lá).

Quanto ao outro argumento, «o profissionalismo é isto», tenho duas ou três observações iniciais a fazer: a primeira é que tanto quanto eu vejo um FC Barcelona ou um Real Madrid também são geridos de forma profissional e não têm SAD nenhuma, ou seja: é (ou devia ser) irrelevante que a SAD exista ou não. A segunda é que cá eu não estou propriamente a ver um Barcelona, um Borússia de Dortmund ou um Manchester United a ir recrutar Pinto da Costa, Reinaldo Teles, Adelino Caldeira, Fernando Gomes ou Antero Henrique para a Direção executiva deles.

Mas acima de tudo há um ponto fundamental que nunca percebi: tanto quanto entendi pelas palavras dos próprios, um Pinto da Costa, um Adelino Caldeira ou um Reinaldo Teles estão lá por amor ao FCP. Aliás, todos eles (F. Gomes e A. Henrique incluídos) foram eleitos pelos sócios para liderar o FCP (*). Ora chamem-me maluco, mas na minha cartilha quem concorre a eleições por amor ao clube e «corre por gosto» não precisa de ganhar mais de 60x o salário mínimo, muitíssimo menos como remuneração fixa.

Pessoalmente considero que uma remuneração 20x inferior à actual (ou seja, uns 2,000€/mês) já daria para uma vida minimamente confortável (há tantos portistas que vivem com muito menos do que isso...) e emocionalmente recompensadora para quem corre por gosto. A isto poder-se-ia eventualmente acrescentar bónus por objectivos. Já se o amor ao dinheiro (e ao que ele compra) for maior do que ao clube, então que estejam à vontade para ir ganhar mais do que isso para onde o conseguirem, no hard feelings, seja ele ou ela quem for. Mas isso sou eu, que se calhar sou maluco.

NB: estou aqui a falar de Administradores executivos; não de Directores não eleitos, numa posição subalterna, que tenham sido recrutados pelo Conselho de Administração para a «máquina» da SAD (por exemplo, um eventual Director altamente competente recrutado para a Porto Comercial); não me choca que esses eventualmente ganhem mais - segundo a lei de mercado para esse tipo de perfil, bem entendido - da mesma forma que os jogadores também ganham mais.

PS - como curiosidade, os rendimentos de Fernando Gomes na SAD são 10x mais altos do que os rendimentos que auferia como presidente da Câmara Municipal do Porto ou como deputado na Assembleia da República. Não haja dúvidas de que, de um ponto de vista financeiro, esta nova carreira faz muito mais sentido.

PPS - Carlos Abreu Amorim foi processado pela SAD por dizer entre outras coisas que tínhamos "uma direção pejada de milionários que enriqueceram no clube". Constato que pelos vistos agora se pode processar alguém por meramente mencionar factos... é que, só nos últimos 10 anos e segundo os R&Cs da SAD, os 4 Administradores executivos da SAD receberam, em média, mais de 6,000,000€ cada um. Mas se calhar a bitola de «milionários» para eles é ainda mais alta do que isso, sei lá (já agora, estejam à vontade para me processar - e relembro que os artigos no Reflexão Portista são da exclusiva responsabilidade do autor de cada artigo, e este não foge à regra).

(*) Pinto da Costa foi eleito presidente do FCP e os restantes membros do C.A. da SAD foram eleitos Vice-Presidentes do FCP. Decidiram eles por sua vez acumular esses cargos com os cargos de Administradores executivos na SAD (ao contrário de um RM ou FC Barcelona, onde os membros do Conselho de Administração não são remunerados mas também não acumulam cargos executivos, ficando isso apenas para os Rui Cerqueiras, Rui Lousas e Eduardos Valentes do Barça).

quarta-feira, 2 de março de 2016

São Porto?

Ser Porto.
Há uns anos começou a correr por aí a expressão "Ser Porto", como se os cimentos gastos do velho estádio das Antas recordassem outro grito de guerra entretanto perdido. Foi a época do marketing, do 1893 na camisola - não fosse alguém duvidar do duvidável - e da externalização da comunicação do clube com as suas forças vivas a labaredas ou diários mitológicos que vendem independência mas seleccionam melhor as noticias com lápiz azul(e branco) que outros. Mas o importante era repetir o mantra, "Ser Porto". Todos aqueles que tinham chegado até ali, muitos nascidos quando "Ser Porto" significava sofrer ano sim e ano também, tinham de reaprender a cartilha, não fosse alguém desconfiar de que "Ser Porto" não era lá com eles e como se o "Bibó Porto carago" que durante décadas se ouviu até no silêncio da neblina que todas as manhãs se adentra pela Douro fosse impossível de se vender nos emails enviados às empresas a quem se pede dinheiro para pagar os croisants que antes se compravam no Velasquez fiados. Mas por muito que vendam o grito, por muito que criem a linguagem moderna do que é, na prática, "ser Porto", há quanto tempo é que aqueles que a proclamam, ás vezes até em silêncio - pasme-se, há directores desportivos do clube que falam calados ou falam lá para fora, não para os seus, porque ficam melhor na fotografia - são eles Porto?

Foram, sem dúvida, foram Porto.
Foram provavelmente mais do que muitos ainda que o FC Porto, o que não ganhava todos os anos e sofria tantas vezes o injusto e criminal tratamento votado pelo centralismo, também estivesse cheio de homens grandes e que eram, sem dúvida, também eles, Porto. Mas ninguém discute, ninguém disputa que houve uma lufada de ar fresco quando quem hoje se esconde em muros de silêncio deu um pontapé na muralha para gritar, sem medo, que ser Porto era algo maior do que um motivo de orgulho, era uma forma de ser. Esses gritos, que se ouviam tão longe que minaram por dentro o sistema que nos afogava ano atrás ano, são a base de tudo e não há como esquecer essa voz que, quando falava, o mundo tremia. Durante três longas, inesquecíveis e intermináveis décadas - pelo menos na nossa memória - reescreveu-se o adn de um clube que deixou de ter medo de gritar que era ele próprio, um clube de portistas para portistas e disposto a tudo para não se deixar prejudicar por quem não suportava o êxito desses portistas. Forjou-se aí a cultura vigente, ás vezes substituindo coisas antigas, outras vezes recuperando-as. Nasceram dragões das nuvens, recuperou-se a "mistica" do balneário depois de anos de prima-donas que jantavam com presidentes para despedir treinadores e recuperaram-se figuras históricas, não para lamber feridas mas sim para lançar o futuro. A cada eleição, a cada aclamação, entendia-se aquele "ser Porto" porque não eram palavras vãs. O discurso tinha eco real no quotidiano e não eram apenas os titulos - nacionais e internacionais. Era o orgulho próprio, a identidade, a sensação de pertencer a algo grande, genuino e que não deixava de ser portuense, nortenho, apesar de haver espaço para todos. Aquele "ser Porto" era-o na teoria e na prática - vamos assumir já que ninguém é perfeito e que houve, como sempre, altos e baixos - e quem conduzia o navio era, sem dúvida, Porto. Ainda o é?

O novo processo eleitoral está prestes a chegar à sua conclusão antes de ter sido sequer iniciado, consequência lógica e inevitável de quem se sabe eterno e imortal - ele, os outros, todos - e não está para incomodar-se com burocracias. Mas se há rostos similares, alguns gastos pelos anos, pela vida e pelos excessos de tudo, o discurso hoje já não é o mesmo. É vazio, é oco, é um loop gasto, perdem-se já palavras, entendimentos e ilusões a cada vez que o "ser Porto" se corrompe, dia após dia. Tudo aquilo que se defendeu em 1977, que se reforçou em 1982 e que foi, ano atrás ano, dando força aos nossos despertares, é hoje memória presente mas vã, como aqueles que sentem nostalgia por algo que sabem que não vai voltar olhando para aqueles que lhes dizem, quase rindo-se de eles, de que esse algo nunca se foi. Mas foi, ó se foi. Em 1982 o FC Porto fez-se grande porque decidiu colocar o seu destino nas mãos de quem era Porto, soube ser Porto e soube fazer-nos a todos um pouco mais Porto. Mas em 1982 - e nos anos seguintes - o que o Porto não queria, o que não era ser Porto, o que nos fazia a todos um pouco menos Porto era precisamente aquilo que hoje aqueles que lutaram contra essa realidade colocam em prática com assustadora frequência. Procurei, juro que procurei, nos panfletos eleitorais, nas hemerotecas, no discurso e nas aclamações e vivas daqueles anos sinais do que é o Porto de hoje e não encontro paralelos, não encontro concordância. Em nenhum lugar encontrei sinais do que podiamos encontrar em relatórios de conta como os que vamos abrindo, trimestralmente, com resignação, as alvisseras e vivas a um "ser Porto" que inclui entre tantos outros pecados inconfessáveis:

- pagar comissões a familiares por negócios
- contratar familiares e familiares de amigos para a estrutura do clube
- permitir que familiares exerçam de porta-voz do clube, defenestrando simbolos reais de escudo no peito, ou coloquem em risco o próprio futuro do clube tendo acesso a informações mais tardes debitadas por meia dúzia de tostões e muito rancor
- estar mais preocupado em distribuir riqueza pela corte de amigos do que no futuro do clube
- apostar conscientemente na desvalorização desportiva em prole da dependência financeira alheia, entre bancos e fundos, o que ás vezes é o mesmo
- alhear-se do que é ser simbolo de uma cidade, de uma região, não como elemento exclusivo - todos podem ser Porto em qualquer canto do Mundo - mas como vector de dinamismo deixando essa luta abandonada ou a outros sem a mesma força que tem a voz do dragão
- abdicar de uma excelente equipa de scouting, forjada com anos de trabalho intenso de pessoas que, muitas vezes desde o biberão sim "são Porto", para externalizar esses serviços
- transformar a formação, a base de mais de década e meia de êxitos, num pro-forma, num negócio onde até percentagens de passes são oferecidos, como eclairs, em processos de renovação quando, quem assina, já tem o contrato escrito a azul e branco no coração
- transferir a seu belo prazer as quotas dos sócios, negligenciando as modalidades que sempre fizeram parte do ADN do clube e que também são, para muitos, Porto.
- transferir a seu belo prazer a posse do estádio, correndo o risco de deixar, num futuro em que a SAD possa não ser da instituição de um modo maioritário -e ninguém pode jurar que isso não passará - o FC Porto no olho da sua própria rua.
- calar, consentir e silenciar todos os "roubos de Igreja" que prejudicam, dia sim, dia também o clube quando o êxito do clube se construiu em gritar, não consentir e denunciar cada golpe que nos tentaram dar por cima e por debaixo da mesa
- permitir que os velhos poderes, os que se contestavam e que columpiados com o poder, esse que ia entrar na Assembleia com uma cabeça na bandeja, controlem como um polvo as instituições que têm poder de decisão sobre a vida desportiva onde compete o escudo e a camisola
- ser incapaz de competir com equipas menores, em orçamento e pedigree, sem um assomo de vergonha e auto-critica salvo por escorrer a culpa para os que já não estão, assobiando para o lado ao mesmo tempo que se engorda a maquinaria orçamentada até ao risco da implosão.

Não, não adianta procurar porque não vão encontrar nada que proponha como politica desportiva nada disto porque, "ser Porto", nessa altura de positivismo e arrojo, era outra coisa ainda que alguns sejam os mesmos, e muito do que hoje se faz era então combatido, valentemente, sem papas na lingua, sem medos e sem meias palavras.
Aquilo que corrompia o clube até as entranhas - o medo crónico, a subserviência, a desvalorização desportiva, o desrespeito pelo associado - aliado aquilo que nem nos piores anos se vivia como o nepotismo, as negociatas com entidades que existem debaixo de um imenso ponto de interrogação - está hoje mais presente do que então, a tal ponto que parece, pura e simplesmente, que voltamos a viajar no tempo. Nada pode apagar 30 anos de titulos e memórias que não se derretem no tempo mas também nada logra, realmente, explicar, tanto interesse em voltar atrás no tempo. Parece, de algum modo, que alguém se arrependeu de quem foi, do que significou e do que logrou e quer voltar ao inicio, recuperar a juventude perdida tentando voltar à casa de partida do jogo para reiniciar o processo. Só que todos sabemos que o tempo não volta para trás por muitos que alguns queiram e devolver o clube à mais miserável das condições não dá direito a jogar o jogo com uma nova vida guardada. Ou talvez aqueles que ajudaram a definir, com todo o mérito, aquele "ser Porto" se tenham esquecido do que foram.

Será, então, que esse "ser Porto" que foi também o de todos aqueles que vieram de trás e suportaram não a glória mas a dor, o sofrimento e a tristeza de perder sem poder lutar, existe ainda naquele espaço fechado onde se tomam as decisões que padecemos todos? No fundo, em todo este processo, só há uma pergunta que é ainda válida tendo em conta tudo o que sabemos, tudo o que desenterramos, tudo o que vivemos e tudo o que debates. Será, de verdade, que eles ainda são "Porto"?

sábado, 10 de outubro de 2015

O resumo das contas 2014/2015

Ontem, a FC Porto SAD emitiu um Comunicado com um resumo dos Resultados Consolidados do exercício 2014/2015 (correspondente ao período entre 1 de Julho de 2014 e 30 de Junho de 2015) e fez, também, a apresentação das contas à comunicação social.

(fonte: O JOGO)

Entre outros aspectos, a Administração da FC Porto SAD fez os seguintes destaques:

«Os Proveitos Operacionais, excluindo proveitos com passes, crescem 20.976 m€, o que corresponde a 29%, atingindo agora os 93.589 m€, fundamentalmente devido ao incremento das receitas obtidas pela participação nas provas europeias.»

Nota: No exercício 2014/2015 foram contabilizados dois prémios de presença na fase de grupos da Liga dos Campeões (épocas 2014/2015 e 2015/2016).

«Os Custos Operacionais, excluindo custos com passes de jogadores, crescem 16%, equivalente a 15.159 m€, acompanhando o acréscimo dos custos com o pessoal. No entanto, realça-se o facto de, neste exercício, estarem registados os prémios associados à boa performance desportiva da equipa nas competições europeias.»

Nota: Infelizmente, a FC Porto SAD não teve de registar (poupou...) os valores correspondentes aos prémios associados à conquista do campeonato nacional 2014/2015.

«O Resultado Líquido Consolidado atinge os 19.958 m€, sendo 19.352 m€ atribuíveis aos detentores de capital da empresa mãe, bastante superior ao obtido no período homólogo, principalmente devido ao crescimento dos resultados com transacções de passes de jogadores, que atingem os 82.500 m€.»

«O Activo Líquido aumenta 80%, atingindo os 359.235 m€, pela incorporação do Estádio do Dragão, propriedade da EuroAntas, cujo valor líquido a 30 de Junho de 2015 ascende a 138.800 m€.»

«O Passivo total atinge os 276.131 m€, o que representa um crescimento de 42.668 m€ face a 30 de Junho de 2014, justificado, em grande parte, pela agregação do passivo da EuroAntas, sociedade que assumiu o project finance para a construção do Estádio.»


Ao contrário da Administração da FC Porto SAD, o Record, na sua 1ª página, entendeu destacar outro aspeto das contas 2014/2015…

Parte superior da 1ª página do Record

Eu, para além do excelente resultado líquido consolidado (no contexto do futebol português, fechar um exercício com 20 milhões de euros positivos é muito bom), destacaria o forte alinhamento entre aquilo que tinha sido previsto – Orçamento – e o executado – Relatório e Contas – ao nível dos proveitos e custos operacionais.

Orçamento versus Relatório e Contas (fonte: O JOGO)

Finalmente, recomendo a leitura da análise feita no blogue ‘O Tribunal do Dragão’ (Impressões gerais do Relatório e Contas 2014-15), a qual, sem qualquer surpresa, é muito melhor e mais completa do que aquilo que pode ser lido na comunicação social.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Contas à moda da SAD

Já saíram as contas trimestrais da SAD, que podem consultar aqui.

Verifico que nos primeiros 9 meses da época/ano fiscal a SAD «conseguiu» fazer um prejuízo acumulado de 8M€ apesar de:

- ter encaixado 67M€ brutos em vendas de jogadores (Mangala, Defour e Danilo)

- ter feito uma campanha europeia muito melhor do que a média (o que se traduziu em mais de 10M€ extra em relação à época anterior, já excluindo o prémio de presença)

- ter contabilizado, ao contrário dos primeiros 9 meses da época anterior, o prémio de acesso de 8M€ à fase de grupos da LC

A coisa «promete» para as próximas épocas, sem dúvida.

PS - a propósito da negociata Euroantas, não deixei de reparar na seguinte passagem no R&C:

«No dia 22 de Outubro de 2014 a FC Porto SAD adquiriu uma participação equivalente a 47% do
capital social da Euroantas ao Futebol Clube do Porto. O Conselho de Administração do FC Porto,
SAD entendeu que, pelo facto de ter adquirido esta participação e ter passado a controlar as
políticas financeiras e operacionais da Euroantas, a FC Porto SAD passou a deter o controlo sobre
a Euroantas»

Quer dizer, a SAD tem agora 47% da Euroantas contra 53% que continuam nas mãos do clube, mas segundo eles a SAD é que manda na Euroantas... não haja dúvidas de que tudo está a ser feito para que quando o estádio e envolvente estiver pago em 2018 a SAD passe a mandar apenas umas migalhas para o clube, com os adeptos a achar isso perfeitamente normal.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Investimento em “passes” de jogadores

Desde Agosto do ano passado, a comunicação social lisboeta vem insistindo na ideia que, para esta época, o FC Porto investiu como nunca em jogadores, enquanto que o SL Benfica tinha desinvestido ou, numa versão mais benigna da propaganda encarnada, investido pouquinho.

Qual é a realidade?

De acordo com o Relatório e Contas Consolidado apresentado pela FC Porto SAD, referente ao 1º Semestre do Exercício 2014/2015, os custos com as aquisições realizadas no período de seis meses findo em 31 de Dezembro de 2014, foram os seguintes:

Fonte: Relatório e Contas Consolidado da FC Porto SAD, 1º Semestre 2014/2015

(*) A rubrica “Encargos adicionais” refere-se a gastos relacionados com as aquisições de direitos económicos, nomeadamente encargos com serviços de intermediação, serviços legais, prémios de assinatura de contratos, entre outros custos relacionados com a aquisição de direitos económicos.

De acordo com o quadro anterior, e tendo em consideração os planos de recebimentos e pagamentos estipulados (o denominado Efeito da actualização financeira), a FC Porto SAD investiu 45.8 M euros na compra e/ou recompra de percentagens de “passes” (direitos desportivos e económicos) de jogadores.

Na realidade, no período em causa, a FC Porto SAD investiu 40.8 M euros porque, a 23 de Julho de 2014, celebrou com a Doyen Sports Investments Limited um contrato, tendo em vista a cedência de parte dos direitos económicos do jogador Brahimi (80%), pelo montante de 5.000.000 Euros.

Nota: Este contrato prevê opções de recompra, por parte da FC Porto SAD, de até 55% dos direitos económicos até Junho de 2017 e opções de venda, de até 80% dos direitos económicos por parte da Doyen, até Setembro de 2017.

E se descontarmos a compra dos restantes 50% dos direitos económicos de Quintero (a FC Porto SAD passou a deter 100% do “Passe”), então conclui-se que o investimento em percentagens de “passes” de novos jogadores foi de 36.3 M euros.

E o SLB?

De acordo com o Relatório e Contas Consolidado que foi apresentado, durante o 1º Semestre do Exercício 2014/2015, “a Benfica SAD efectuou diversos investimentos na aquisição de direitos desportivos de atletas, num valor global que ascendeu a 29,8 milhões de euros”, sendo que este valor inclui “encargos com prémios de assinatura pagos aos atletas e encargos com serviços prestados por intermediários, assim como os efeitos da actualização financeira”.

36.3 M euros versus 29.8 M euros. É assim tão grande a diferença, para se dizer que uns (FC Porto) investiram como nunca e outros (SL Benfica) investiram pouquinho?

E quanto é que a Benfica SAD gastou na compra, ou recompra, de direitos económicos de atletas com os quais já tinha contrato?

Mais uma vez, de acordo com o Relatório e Contas apresentado pelo SLB:

«O Benfica Stars Fund foi liquidado neste semestre, tendo a Benfica SAD previamente adquirido a totalidade das Unidades de Participação (“UP’s”) do mesmo, recuperando desta forma os direitos económicos dos atletas que ainda eram detidos por esse Fundo. Tendo em consideração que o Benfica Stars Fund iria terminar a sua actividade a 30 de Setembro do corrente ano, e que o referido fecho implicaria a distribuição de parte dos direitos económicos dos atletas detidos pelo Fundo a entidades terceiras, existia um interesse estratégico por parte da Sociedade em recuperar os referidos direitos económicos, de forma a evitar a sua dispersão. Desta forma, a aquisição das 85% das UP’s do Benfica Stars Fund que a Benfica SAD não detinha representaram um investimento global de 28,9 milhões de euros

Ou seja, no 1º Semestre 2014/2015, somando o investimento em “passes” de novos jogadores, com o investimento na (re)compra de direitos económicos de atletas que já lhe pertenciam, conclui-se que a Benfica SAD investiu um total de 58.7 M euros!

Em resumo:
Investimento em “passes” de novos jogadores:
FC Porto: 36.3 M euros
SL Benfica: 29.8 M euros

Investimento total em “passes” de novos jogadores + (re)compra de direitos económicos:
FC Porto: 40.8 M euros
SL Benfica: 58.7 M euros

Esta é a realidade dos factos (números).

Lamentavelmente, e apesar destes números fazerem parte dos relatórios oficiais de ambas as SAD’s, a maior parte da comunicação social continua a insistir nas teses propagandísticas iniciais, sabe-se lá com que objectivo.

domingo, 1 de março de 2015

Resultados da FCP SAD - 1o semestre

Todas as atenções estão naturalmente viradas para a recepção de logo ao SCP, mas outra notícia do dia é os resultados do 1o semestre (publicados ontem à noite, mesmo em cima da data-limite obrigatória), aqui.

Por isso mesmo voltarei a este tema de forma mais aprofundada daqui a uns dias, mas deixo desde já algumas considerações. Os resultados intermediários em si (no valor global) querem sempre dizer pouco, fruto da sazonalidade de algumas das receitas e despesas principais; mas dá para tirar algumas indicações interesssantes.

A dependência da venda de jogadores (e em menor medida das receitas da UEFA) para equilibrar as contas aumentou consideravelmente esta época em relação à época anterior: estimo que para os resultados do exercício ficarem no «zero», esta época será necessário que entre mais-valias (*) na venda de jogadores e receitas da UEFA precisemos de encaixar entre 85 e 90M€. Na época anterior o valor equivalente tinha sido de 69M€ e há 5 anos era de 47M€.

Isto é fruto do aumento brutal nos «custos com pessoal» (salários e bónus), que aumentaram cerca de 50% em relação ao 1o semestre da época anterior, ou 11,3M€ em 6 meses (de 24,7M€ para 36M€) - fruto em grande parte sem dúvida de terem entrado no plantel muitos jogadores com salários elevadíssimos (emprestados e não só). Em relação aos rivais, estes valores são 20% superiores aos da slb SAD e exactamente 3x superiores aos da SCP SAD.

De resto não há novidades muito significativas nas principais rubricas. Fica por exemplo confirmado que investimos 47M€ em passes, na linha do que investimos nas épocas recentes, tal como que o melhor desempenho na fase de grupos da LC rendeu 5M€ extra. Mais sobre isto nos próximos artigos sobre o tema.

Pelas minhas estimativas, para não fazermos prejuízo em 14/15 não será suficiente vender 'apenas' um Jackson (ja' presumindo que a venda não andará longe de 40M€ brutos), apesar de já estarem contabilizadas nas contas deste ano as vendas de Mangala por 30,5M€ e Defour por 6M€ (valores brutos)... e apesar desta época contabilizarmos - ao contrário do que é habitual - duas vezes o prémio de acesso à LC, que é de 9M€ (como só nos apurámos para a edição 14/15 depois de Julho). Presumo ao dizer isto que esta época nos apuramos directamente já em Maio, i.e. ficando pelo menos em 2o lugar no campeonato (o prémio é contabilizado na época em que o apuramento fica confirmado). A ver mais logo à noite se se confirma que este pressuposto faz sentido.

Finalmente, o facto mais importante do R&C para a SAD (que pensa quase só no curto prazo, i.e. próximos meses) é que o saldo dos activos & passivos correntes (i.e. com vencimento até 31 de Dezembro) era, a 1 de Janeiro, negativo no valor de 115M€. Este e' o 'buraco' que terá que ser fechado seja com novas receitas nesse período, seja com novos empréstimos ou seja com a prolongação de empréstimos existentes (deduzindo eventuais novos custos no mesmo período). Não tenho dúvidas de que isso irá acontecer, mas já tenho algumas dúvidas sobre a competitividade da equipa na próxima época e ainda mais para as seguintes.

E pronto, daqui a uns dias voltarei ao tema. Concentremo-nos então na recepção aos lagartos, esperando que seja desta que a equipa vence um clássico esta época. Boa sorte, rapazes! 

(*) Há ainda muita gente que confunde valores brutos de venda com as «mais valias» geradas. Por exemplo, Mangala foi vendido por 30,5M€ gerando mais valias de 22,8M€.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Brahimi? É pagar

«A 23 de Julho de 2014, o Grupo celebrou com a Doyen Sports Investments Limited, um contrato tendo em vista a cedência de parte dos direitos económicos, em regime de associação económica, do jogador Brahimi pelo montante de 5.000.000 Euros. Este contrato prevê opções de recompra por parte da FCP, SAD de até 55% dos direitos económicos até Junho de 2017, e opções de venda de até 80% dos direitos económicos por parte da Doyen até Setembro de 2017.»
in ‘Relatório e Contas Consolidado – 1º Trimestre 2014/2015’


Formalmente, o FC Porto comprou (ao Granada Club de Fútbol) a totalidade dos direitos económicos de Brahimi pelo montante de 6.500.000€, no dia 22 de Julho de 2014 e, no dia seguinte, alienou (à Doyen Sports Investments Limited), em regime de associação económica, 80% desses direitos pelo montante de 5.000.000€.

Na prática, parece-me evidente que se tratou de uma única operação (envolvendo o Granada, o Doyen e o FC Porto), em que a FC Porto SAD comprou 20% dos direitos económicos de Brahimi por 1.500.000€ (mais um valor desconhecido de Encargos adicionais).

1,5M, por 20% dos direitos económicos de Brahimi, é um bom negócio.
Mas não teria sido melhor a FC Porto SAD ter ficado com 100% dos direitos económicos de Brahimi por 6,5M?

Concerteza. Contudo, falta saber duas coisas: Se a SAD tinha esse dinheiro; e, principalmente, se o Granada/Doyen estavam dispostos a vender os direitos económicos de Brahimi por apenas 6,5 milhões.
Tudo indica que não.

«(…) não podemos estranhar esta incapacidade aritmética do fundo Doyen, pois o seu CEO, Sr. Nélio Lucas, conseguiu transformar uma proposta que fez ao Sporting de 20M, no dia 24/05/2014, para a aquisição do atleta Brahimi, em 6,5M para outro clube português conforme é do domínio público»
in Comunicado da Sporting Clube de Portugal, Futebol, SAD, de 14-08-2014


No contrato com a Doyen, a FC Porto SAD salvaguardou uma opção de compra de, até 55% dos direitos económicos de Brahimi, até Junho de 2017. Assim sendo, se, entretanto, surgir algum “tubarão” disposto a avançar para a compra do passe de Brahimi…

O JOGO, 02-12-2014
Conheço-o muito bem. É um jogador [Brahimi] que fez um início de época extraordinário, tive oportunidade de o ver jogar. Confirmou tudo aquilo que pensávamos dele, quando estava no Rennes, e foi surpreendente que este miúdo tenha deixado o Rennes. Era um pouco inconstante, ganhou maturidade, mas faltava-lhe qualquer coisa. (…) Foi para o FC Porto que é muito bom clube, com muito bons jogadores e está a caminho de mostrar a plenitude do seu talento. É um futebolista que tive oportunidade de ver no Mundial, pela Argélia. Faz parte daqueles futebolistas que dá gosto ver jogar, é capaz de ultrapassar um, dois, três adversários. Para além disso, atualmente, marca golos. Se tem potencial para o PSG? Está a confirmar no FC Porto tudo o que de bom que pensamos dele (…) O único problema é que ele foi para o FC Porto por um valor não muito alto, mas os portugueses colocaram-lhe uma cláusula de rescisão muito, muito, muito cara [50 milhões de euros]. O que nos faz refletir. Mas pronto, quando se gosta de um jogador, quando se gosta do talento, é pagar.
declarações de Laurent Blanc, treinador do PSG, em 29-11-2014

… o encaixe financeiro da FC Porto SAD será, seguramente, muito significativo.

Independentemente do encaixe financeiro que a SAD irá fazer, um conselho para os adeptos portistas: aproveitem esta época, vão mais vezes ao Estádio do Dragão e, daqui a uns anos, poderão dizer que viram jogar, ao vivo, o Yacine Brahimi com a camisola do FC Porto.

sábado, 29 de novembro de 2014

A transferência de Mangala para Totós

O JOGO, 12-08-2014
Para quem duvidou do montante recebido pelo FC Porto na transferência de Mangala para o Manchester City;

Para quem não percebe a diferença entre o montante de uma transferência e a mais-valia gerada por essa transferência;

O Relatório e Contas Consolidado - 1º Trimestre 2014/2015, da FC Porto SAD, não esclarece tudo, mas dá uma ajuda:

«Alienação dos direitos de inscrição desportiva do jogador Mangala ao Manchester City, pelo montante de 30.503.590 Euros, que gerou uma mais-valia de 22.806.942 Euros, após dedução do valor global de 11.073.331 Euros relativo a:

(i) efeito da actualização financeira das contas a receber a médio prazo originadas por estas transacções;
(ii) responsabilidades com o mecanismo de solidariedade;
(iii) custos com serviços de intermediação prestados pela Gestifute – Gestão de carreiras de Profissionais Desportivos, S.A;
(iv) valores a pagar ao jogador a título de indemnização;
(v) do valor líquido contabilístico do passe à data da alienação.

Adicionalmente, o clube comprador assumiu a obrigação de pagar directamente à Doyen a proporção que esta entidade detinha sobre os direitos económicos do jogador pelo que o passivo reconhecido na rubrica de “Outros Credores” em 30 de Junho de 2014 (Nota 11), no montante de 3.376.684 Euros, foi revertido e reconhecido no cálculo da mais-valia.»

Fonte: Futebol Clube do Porto – Futebol SAD, Relatório e Contas Consolidado - 1º Trimestre 2014/2015

terça-feira, 28 de outubro de 2014

As contas da SAD na Bluegosfera

Janeiro de 2008. Quando o ‘Reflexão Portista’ viu a luz do dia, houve (e ainda há) quem, por diversas razões, olhasse para este blogue de soslaio.

Ao longo destes anos, um dos aspectos em que o ‘Reflexão Portista’ se distinguiu da generalidade dos outros blogues portistas, foi na publicação, regular, de análises às contas, particularmente da FC Porto SAD.
No feedback recebido, ouvimos (lemos) de tudo.
Os comentários mais “simpáticos” acusavam o blogue de ser elitista; os menos simpáticos apelidavam os autores dos artigos de ignorantes e, pelo caminho, desafiavam esses autores a candidatarem-se às eleições do clube…

Outubro de 2014. Seis anos depois, a análise que os jornais, desportivos e generalistas, fazem às contas dos clubes/SAD’s, continua a ser tecnicamente (muito) pobre e, no essencial, continua a ser uma mera caixa de ressonância dos sound bytes que lhe são transmitidos em comunicados ou conferências de imprensa…

O JOGO, 22-10-2014

JN, 22-10-2014

… mas o panorama da bluegosfera mudou significativamente (para melhor).

O último Relatório e Contas da FC Porto SAD (correspondente ao Exercício 2013/2014), mereceu análises, mais ou menos profundas, em diversos blogues portistas.
Do que li, seleccionei alguns extractos de artigos publicados nos blogues ‘Mística do Dragão’, ‘BiBó Porto, carago!!’, ‘Mística Azul e Branca’ e ‘Tribunal do Dragão’ que, com a devida vénia, reproduzo a seguir.

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«Ao contrário do que Fernando Gomes diz sobre o Mundial ser responsável pelo avultado prejuízo, uma vez que fez atrasar alguns negócios, nomeadamente Mangala e Defour, as alienações dos passes destes dois atletas não chegariam para, sequer cobrir o prejuízo. Aliás, a alienação de Defour, calculo eu, nem sequer terá um efeito significativo nas contas e Mangala nunca na vida irá representar uma mais-valia igual aos 30,5 milhões de euros pelos quais o Porto vendeu a percentagem do passe que detinha, uma vez que o atleta ainda tinha valor nas contas do clube e Jorge Mendes se faz pagar bem;
(…)
O passivo aumentou cerca de 13 milhões, essencialmente à custa do aumento dos financiamentos;
(…)
Daqui é possível concluir que a situação financeira da SAD do Porto é deveras preocupante. Quantos anos poderemos aguentar este registo de gastar mais do que aquilo que temos, não sei. Mas era bom que os sócios e adeptos acordassem antes de levarem com uma bomba dessas em cima.»




«… usando a linguagem do “economês”, diria que assistimos a uma enorme destruição de valor. Para suprir este colapso nos capitais próprios já se conhece a solução encontrada: a passagem de 47% do Estádio do Dragão da esfera do Clube para a esfera da SAD que, de caminho, deu uma enorme ajuda para resolver o bicudo problema que o fair-play financeiro da UEFA veio criar ao não permitir que a média do somatório dos resultados dos três últimos anos não ultrapasse os 5M € de prejuízo.
(…)
Assim, depois de um resultado líquido consolidado negativo (prejuízo) de 35.734M € em 2012, e um igual resultado positivo (lucro) de 20.356M € em 2013, temos agora em 2014 este prejuízo de 40.701M €. Ou seja, a média destes 3 anos é de (-35,734 +20,356 -40,701) /3 = -18,693M €, isto é bem acima do tal máximo de 5M € permitido no regulamento da UEFA (mesmo considerando a possibilidade de abater os gastos com a formação e infra-estruturas), média considerada na avaliação da UEFA para este ano.
(…)
a) A cada ano que passa, cada vez mais se nota a extrema dependência da realização de mais-valias na transacção de passes de jogadores. Como este ano “apenas” se obteve nesta rubrica o montante de 23.907M €, o que representa uma diminuição de 52.538M € relativamente ao ano anterior, temos aqui a explicação para o descalabro das contas. Por isso falo em extrema dependência, porque uma coisa é depender 10% ou até 20% desta componente dos proveitos e que seria bem acomodada na estrutura dos proveitos, outra coisa totalmente diferente é quando se depende em 50%, ou mais, desta componente.
(…)
c) Os custos e perdas financeiras, fundamentalmente juros pagos dos empréstimos bancários e obrigacionistas, estabilizaram perto dos 13M €/ano (12.734M € contra 12.893M € no ano anterior). É bom que o ciclo ascensional que se vinha verificando tenha terminado, mesmo assim continua a ser um valor demasiado elevado e bem revelador do excessivo grau de endividamento. Para se ter uma ideia da relatividade destes números, basta dizer que estes encargos representam cerca de 15% dos proveitos totais quando, idealmente, não deviam ir muito além dos 5%.»




«Partindo do princípio que os nossos Custos correntes são quase sempre maiores do que os Proveitos, o que acontece? O Passivo sobe e os Capitais Próprios descem. Repare-se que neste último ano tivemos de Custos Operacionais 95,2M€ e de Proveitos Operacionais apenas 72,6M€. O máximo que se tem conseguido é manter o equilíbrio. Faltará depois, como é óbvio, esperar que apareça o milagre das mais-valias nas transações com jogadores, uma das formas de reduzir o Passivo, coisa que cada vez está mais difícil de atingir. Basta reparar nas Sociedades Desportivas que estão em falência técnica (por ex. os 2 circos da Segunda Circular) e aquelas que ainda continuam dependuradas no que resta dos apoios da Banca (por ex. Boavista).»



Tribunal do Dragão, 22-10-2014

«O FC Porto pagou em Junho 2,615 milhões de euros por 85% do passe de Kayembe à Danubio Finanzierungsleistungen und Marketing GMBH (tentem pronunciar isto sem se engasgarem). Kayembe estava emprestado ao FC Porto, ao que tudo indica. O FC Porto decidiu em Junho comprar 85% do passe, com encargos de 61.587€, e aí sim Kayembe assinou por 5 épocas.
(…)
Kayembe já não pode ser apenas um jogador na equipa B. Foi caro. Tem que ser uma aposta com vista ao futuro. Foi contratado em Junho. Pedido de Lopetegui ou intervenção da SAD, pouco interessa. Foi um activo caro, caro demais que ficar limitado a uma equipa B. Kayembe vai ter que evoluir no sentido de ter oportunidades na equipa A. Só o custo de Kayembe pagava uma época inteira do Feirense ou do Freamunde. Diria mais: em Janeiro devia ser emprestado para jogar já na primeira liga.»

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Todos vibramos com as vitórias e conquistas do FC Porto, mas cada vez há mais adeptos portistas com consciência, de que o enorme sucesso desportivo alcançado nas últimas décadas será insustentável se, fora dos relvados, o desequilíbrio estrutural das contas da SAD não for rapidamente corrigido.
Até porque, "balões de oxigénio", como foi a recente operação de passagem de 47% do Estádio do Dragão do Clube para a SAD, não podem ser usados todos os anos.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

As contas da SAD - 2013/14


Já sairam as contas da SAD para o ano fiscal 2013/14. Podem encontrar o R&C consolidado aqui.


Primeiras impressões, muito por alto...

Os resultados são obviamente preocupantes, e não me refiro só ao prejuízo de 41M€ em si. Se excluirmos o que encaixamos em mais-valias de jogadores (que não só é muito variável como tanto pode cair dentro de um ano fiscal ou do seguinte, conforme uma grande venda é feita antes ou depois de 1 de Julho), teríamos feito um prejuízo de 64M€, ao nível do recorde negativo de 65M€ (na época 11/12).

O mesmo indicador andou durante muitos anos pelos -30M€ ou perto disso até há 3 anos atrás. Ou seja, nos últimos 3 anos subiu para o dobro, temos andado muitíssimo mais dependentes de mais-valias para equilibrar o barco do que nos anos anteriores - e isto já depois de termos visto as principais receitas «operacionais» subirem bastante nestes últimos anos (nomeadamente receitas de TV e receitas da UEFA - que tem vindo a pagar prémios cada vez mais altos pela mesma performance, como por ex o prémio de presença na fase de grupos).

Ora ainda por cima torna-se cada vez mais difícil fazer grandes mais-valias, já que:

1) temos gasto mais em passes, o que leva em média a mais-valias mais baixas (vamos aliás ver no próximo R&C trimestral quanto foram as mais-valias na venda do Mangala...muito menos do que muita gente espera, nem 1/3 vai cobrir do «buraco»)

2) Temos tido em média menos % dos passes do que no passado

3) Com o Financial Fair Play, torna-se mais difícil arranjar várias grandes vendas já que muitos dos potenciais compradores têm que apertar o cinto (já se começou a notar isso no último defeso)

Ora isto já é bater no ceguinho, mas temos mesmo que arrepiar caminho. Infelizmente no R&C não vejo qualquer sinal de poupanças, e houve mesmo alguns custos que aumentaram. As únicas poupanças de monta (num montante de cerca de 6M€) que lá aparecem são... não ter pago aos jogadores e treinador os bónus de performance por ganhar o campeonato e passar a fase de grupos da LC (curiosamente, já os administradores até ganharam mais do que na época anterior). Poupanças dessas dispensamos nós, muito obrigado...

PS - outros artigos se seguirão sobre este tema, mais aprofundados

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Relatório 3T 2013/2014 – Otamendi

O Relatório e Contas Consolidado da Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD, referente ao 3º trimestre de 2013/2014 (período entre 1 de Julho de 2013 e 31 de Março de 2014), contém informação muito relevante, alguma expectável, outra nem tanto.

É o caso da alienação dos direitos de inscrição desportiva do jogador Otamendi.

Vejamos:

I) em 05/02/2014, a Futebol Clube do Porto - Futebol, SAD informou o mercado sobre a venda dos direitos desportivos do jogador Otamendi.

II) em 28/02/2014, a Futebol Clube do Porto - Futebol, SAD publicou o Relatório e Contas Consolidado do 1º semestre de 2013/2014.

Na página 46 deste relatório, existe um quadro onde consta que, em 31-12-2013, a FC Porto SAD detinha 100% do Passe de Otamendi.

FC Porto SAD - Relatório e Contas Consolidado do 1º Semestre 2013/2014 (fonte: CMVM)

III) em 26/05/2014, a Futebol Clube do Porto - Futebol, SAD publicou o Relatório e Contas Consolidado do 3º trimestre de 2013/2014.

Na página 21 deste relatório, consta o seguinte:

«alienação dos direitos de inscrição desportiva do jogador Otamendi ao Valencia, pelo montante de 12.000.000 de Euros, que gerou uma mais-valia de, aproximadamente, 7.974.000 Euros, após dedução: (i) do efeito da actualização financeira das contas a receber a médio prazo originadas por estas transacções; (ii) da proporção no valor de venda do passe detidos por terceiros (10%); (iii) de custos com serviços de intermediação prestados pela Vela Management Limited; (iv) da anulação de prémios de fidelidade e (v) do valor líquido contabilístico do passe à data da alienação, no montante global de 4.026.000 Euros;»


Ou seja, ao valor recebido, uma das componentes que a FC Porto SAD teve de deduzir foi a referente à “proporção no valor de venda do passe detidos por terceiros (10%)”.

10% do Passe de Otamendi era detido por terceiros?

Então, em 31-12-2013 a FC Porto SAD detinha 100% do Passe de Otamendi e cerca de um mês depois, no dia 05-02-2014, já só era detentora de 90%?

Isso significa que a FC Porto SAD vendeu 10% do passe de Otamendi entre 31-12-2013 e 05-02-2014?

A quem? Por quanto? Onde (relatórios ou comunicados da FC Porto SAD) é que esta informação consta?

Não estou a insinuar que haja algo de ilegal, ou menos licito, na venda do Passe de Otamendi ao Valência, mas entendo que a FC Porto SAD deveria clarificar esta aparente incongruência.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Curiosidades soltas do R&C

Para terminar a série de artigos sobre os dados mais recentes dos R&C da SAD, aqui fica um número de curiosidades:

- Pelos vistos o Lyon entrou em incumprimento... (já que os 1.7M€ que deviam ter pago em 12/13 como tranche final de Lisandro e Cissokho transitaram na totalidade para 13/14)

- Em média o FCP paga os passes de jogadores mais rapidamente do que nos pagam a nós; para além de Jun 2014 teremos a receber ainda 13.5M€, mas apenas 4M€ ainda a pagar

- O Mónaco foi um excelente comprador, pagando praticamente quase tudo na aquisição (ficaram apenas 3.5M€ por pagar, e já nesta época). Isto é raríssimo.

- O Zenit ainda deve 20M€ de Huk, dos quais 10M€ a pagar ainda esta época, «garantidos» [sic] por uma «carta de conforto» de uma multinacional (Gazprom, presumo)

- De todos os jogadores comprados em 2013, apenas Quiñones o foi a 100%.

- Reyes e Herrera receberam 1.4M€ e 700mil € de prémio de assinatura, respectivamente

- Os jogadores detidos a 100% pela SAD são os seguintes: Jackson, Danilo, A. Sandro, Otamendi, Maicon, Quiñones e Caballero.

- A SAD ainda detém 25% dos passes de O. Sá e Souza; 50% de T. Costa, Stepanov e Prediguer; e 70% de Soares.

- 90% dos empréstimos bancários da SAD são com o BES

- Em 12/13 a SAD gastou 7M€ em serviços de prospeção de mercado, consultadoria jurídica, auditoria e consultadoria financeira (vs 3M€ em média nos anos anteriores).

- A SAD registou inicialmente 1.1M€ de perdas de imparidade por dissolução da FCP Basquetebol SAD que foram no entanto assumidas pelo FCP clube, saindo pois a SAD incólume dessa dissolução

- Pinto da Costa detém 1.4% da SAD (206mil acções), e R. Teles um punhado de acções. Adelino Caldeira, Angelino Ferreira e Rui Sá continuam a ser os membros do C.A. que não detêm qualquer acção da SAD.

- À cotação actual de 0.36€ (queda de 93% vs valor nominal), a SAD vale 5.4M€ na na sua totalidade (teoricamente falando), incluindo os 40% detidos pelo FCP clube.

Artigos anteriores da série:

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Os custos da SAD

Depois de comentar os proveitos da SAD, passemos então aos custos.

Comecemos pelos custos ditos «Operacionais» (que excluem acima de tudo a amortização dos passes de jogadores e juros nos empréstimos). À primeira vista, estes custos aumentaram cerca de 5M€ (ou 6%) em 12/13; na realidade, aumentaram cerca de 0.5M€ (ou menos de 1%), já que a contabilização para Corporate Hospitality mudou. 

Por outro lado há uma diminuição de cerca de 3M€ que, embora seja uma diminuição concreta para a SAD, não o é para o FCP no seu cômputo geral, já que foram encaminhados de forma pouco compreensível para o clube (nomeadamente em FSE e no que diz respeito a receitas de publicidade para as amadoras, de que já falei aqui).

Apesar do aumento destes custos ter sido muitíssimo mais suave em 12/13, continuamos na linha da trajectória ascendente da última meia dúzia de anos (estes custos duplicaram neste período, ou seja aumentaram quase 50M€/ano em relação a 07/08, o que é um pouco preocupante).

A rubrica mais importante nestes custos operacionais é os chamados «custos com o pessoal» (o que exclui a amortização dos passes dos jogadores). Esta rubrica subiu 4.5M€ (ou 9%) em relação ao ano anterior (e cerca de 60% em relação à época de 06/07), para 54M€; apesar do orçamento inicial até ter previsto um corte considerável. Segundo a explicação dada no R&C, isto terá sido devido à criação da equipa B e a um «investimento» [em salários, subentende-se] no plantel A. No que diz respeito à equipa B, isso explica também o aumento do número jogadores remunerados pela SAD de 39 para 52.

No entanto isso só explica uma pequena parte desse aumento, já que pelos dados publicados dá para ver que apenas 1.8M€ do aumento teve lugar na remuneração de atletas/técnicos/médicos (para um total de 40.7M€ em 12/13). Já os restantes custos com o pessoal aumentaram 25% (!) para um total de 13.4M€:  +0.7M€ na remuneração dos 4 administradores executivos, +1M€ (quase 20%) nos restantes funcionários da SAD e +0.5M€ (para 5.2M€) em seguros de acidente e outros encargos.

No que diz respeito aos administradores executivos (que receberam em média 640mil euros cada um), de assinalar que 100% dos seus rendimentos foram fixos, o que não me agrada. Penso que um salário base de 1/3 desse valor seria mais do que adequado (o que ainda daria uns jeitosos 15,000€/mês nem que ficássemos em 3o lugar no campeonato, o que já é óptimo para quem estiver lá por amor ao clube) com uma forte componente variável e generosa (que poderia ultrapassar de longe o salário base) em função dos resultados desportivos da equipa e da sustentabilidade financeira da SAD. 

No que diz respeito aos restantes funcionários (administrativos e vendedores das lojas), não compreendo um aumento de 20% nos custos quando o seu número aumentou 4% (mais 3 vendedores de lojas e 1 administrativo do que um ano antes, num total de 153 pessoas). De assinalar que isto já exclui os encargos com os salários (por ex segurança social), contabilizados noutra rubrica. Pelos vistos o «aperto» que a maioria dos portugueses vivem não chegou à máquina da SAD, longe disso.

Passemos à 2ª rubrica mais importante em custos operacionais, os FSE (Fornecimentos e Serviços Externos): contabilisticamente estes subiram 7% para um total de 37.5M€ (mais do que as receitas de TV, UEFA e Dragon Seat combinadas...), mas na realidade desceram cerca de 1M€  ou 2.5% (fruto da tal mudança de tratamento contabilístico de Corporate Hospitality de que falei anteriormente). 

Os FSE teriam continuado a subir tal como nos 4 anos anteriores – há 4 anos eram cerca de metade do que são hoje, ou seja subiram quase 20M€, dos quais só uma pequena parte se explica devido a mudanças no tratamento contabilístico... – não fosse terem deixado de passar ao clube cerca de 3M€ de receitas relacionadas com suportes publicitários para as modalidades, como já mencionei anteriormente. Pela positiva parecem ao menos ter estabilizado um pouco, mas a um valor muito elevado – é pena que também aqui (tal como nos custos com pessoal) as intenções públicas de contenção não tenham tido qualquer tradução na prática.

Já agora, para já não vejo qualquer efeito prático positivo da criação da «FCP Serviços Partilhados», que era suposto gerar sinergias consideráveis no grupo.

Para além dos custos operacionais, há ainda duas grandes rubricas de custos: antes de mais as «amortizações e perdas de imparidades com passes de jogadores». 

Relembro que o que pagamos em passes não entra de uma só vez na demonstração de resultados, sendo sim amortizados ao longo do número de anos de contrato com o jogador, tendo portanto um efeito ao retardador considerável. Em 12/13 este valor desceu consideravelmente de 36.3M€ para 26.5M€ - nem tanto porque a SAD tenha gasto menos em passes em 12/13 como explica no R&C (afinal de contas gastámos 46.5M€ em passes em 12/13, um dos valores mais elevados da história da SAD...), mas também em boa parte porque nos «livrámos» de enormes amortizações dos passes de Hulk, A. Pereira e em muito menor medida James e Moutinho ao vendê-los (daí também que as mais-valias nessas vendas não tenham ultrapassado 65% do valor bruto). A evolução não deixa de ser positiva, muito embora estes custos continuem consideravelmente acima dos 20M€ de há 5 anos atrás, fruto do enorme investimento em passes nos últimos 4 anos (em que a média tem andado superior a 40M€/ano, o suficiente para nos incluir no top15 europeu).

Finalmente, temos os custos financeiros, nomeadamente o que pagamos em juros no serviço da dívida. Esta rubrica – um pesado fardo que «suga» recursos da SAD - ultrapassou pela primeira vez os 10M€ em 12/13, fruto do aumento da taxa de juro média (anda em 8.5%, contra 7.6% um ano antes) mas também do considerável aumento do recurso aos empréstimos nos últimos anos (103M€ em Julho quando era de 81M€ há 5 anos).

Análise

Se - como disse no artigo anterior - penso que a SAD tem feito bom trabalho nas receitas, já do lado dos custos penso que há ainda muito por onde melhorar, e em várias rubricas. Para já os números indicam que se o país em geral tem apertado o cinto nos últimos anos, não se vislumbra esforço idêntico da parte da SAD, apesar de algumas declarações de intenções inócuas: gastamos hoje muito mais do que antes da crise eclodir.

Para começar penso que deveria ser estabelecido o objectivo de reduzir o passivo financeiro (empréstimos) para metade nos próximos 3 anos (não de uma assentada, o que penso ser contraproducente), de forma a passarmos a poupar uns 5M€/ano em juros (e não me parece nada provável que a taxa de juro baixe consideravelmente nos próximos tempos, até porque a banca começa a restringir os empréstimos ao mundo do futebol). Para tal será preciso cortar um pouco em outros custos e reinvestir um pouco menos em passes o dinheiro encaixado nas vendas, encaminhando assim uns 15M€/ano para o abate de empréstimos.

Passando a custos com pessoal (excl. jogadores) e FSE, parece-me que deveria ser possível reduzir estas rubricas em 10% ou perto disso (o que se iria traduzir também numa poupança de cerca de 5M€/ano) sem ser necessário cortar no «músculo».

Falando finalmente de jogadores (passes e massa salarial), penso que a SAD devia contratar em menos quantidade (em média contratamos uma dúzia de jogadores por ano) apostando mais na prata da casa ou jogadores baratos saídos do campeonato português e gastando muitos milhões apenas nas posições menos bem preenchidas, tal como num plantel 2 ou 3 jogadores mais curto (recorrendo a um ou outro jogador da equipa B para preencher as convocatórias, se necessário). 

Sabe-se à partida que todos os anos há apenas uns 15 jogadores utilizados com alguma regularidade, daí parecer-me exagerado ver dezenas de milhões de euros em passes e salários «empatados» no banco e na bancada como temos tido nos anos mais recentes (e muito ao contrário do que acontecia antes); para dar apenas um exemplo, penso que o 4º central poderia perfeitamente ser um jogador da equipa B (ou pelo menos ex-equipa B). Para ser claro, não defendo um corte drástico ou uma inversão drástica na gestão da SAD - penso que com um corte relativamente suave no investimento em jogadores (digamos, uns 10 a 20%) e tendo uns 4 jogadores «prata da casa» no plantel seria possível controlar as contas sem comprometer a competitividade desportiva da equipa, havendo ainda muito espaço para investir nos Jacksons ou Quinteros deste mundo. 

Haveria no entanto algum risco nesse ajustamento de gestão? Haveria sempre sim senhor, muito embora se for feito com inteligência (e afinal de conta temos gestores com muito «know how» desportivo) será muito pequeno. Mas, meus caros... sem tal ajustamento há risco na mesma, nomeadamente de fazer a SAD «sangrar» constantemente em juros de dívida e também – acima de tudo - de eventualmente dar um «estouro» financeiro *e* desportivo em anos que corram mal desportivamente e/ou em vendas de jogadores (o que não depende só de nós, longe disso).  E parece-me que esse risco é mais elevado.

PS – deixo para um último artigo da série alguns dados curiosos soltos do R&C.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

As receitas da SAD

Num artigo anterior comentei, muito por alto, as contas da SAD no passado ano. Passo agora a alguns dados mais especifícos, começando neste artigo pelos proveitos (receitas).

Os proveitos da SAD (excluindo vendas de jogadores) mantiveram-se em 12/13 grosso modo estáveis em relação ao ano anterior (sem grande surpresa).

À primeira vista, estes aumentaram 6M€ em 12/13; na realidade, aumentaram 1,5M€ ou cerca de 2% (o aumento de 4.5M€ em Corporate Hospitality é devido a uma mudança de tratamento contabilístico, tendo havido um aumento idêntico do lado dos custos). Isto deveu-se acima de tudo a um aumento de 6M€ nas receitas da UEFA (a época anterior tinha sido má nesse aspecto).

A crise económica que tem assolado o país tem servido no futebol como um bode expiatório para resultados menos bons (também pelos nossos dirigentes). Mas não passa mesmo de um bode expiatório, já que como se vê pelo lado das receitas não tem havido grande problema, tendo estas subido nos últimos anos (aliás, são hoje uns 40% mais altas do que há 5 anos atrás, cerca de 20M€ extra/ano). O futebol é um mundo aparte. Mas porque é que digo isto?

As rubricas que têm um mínimo de relevância e que são claramente atingidas pela crise económica são - acima de tudo - o merchandising, quotas e a bilheteira (incl. Dragon Seats). 

Ora acontece que estes proveitos da SAD – de 9M€ no total - correspondem a uns meros 6% do total dos proveitos, ou 12% se excluirmos as mais-valias nas vendas de jogadores (que são muito variáveis, mas não têm sido minimamente afectadas pela crise – isto devido a um bom trabalho da SAD nas vendas mas também devido a um contexto favorável, já que os clubes europeus em geral e em média têm gasto tanto ou mais em compras de jogadores do que há uns anos atrás).

Já os principais proveitos para a SAD não têm sido minimamente afectados, aliás têm subido a bom ritmo. Antes de mais temos as receitas da UEFA (20M€ em 12/13), que têm vindo a aumentar paulatinamente – não porque tenhamos feito nos últimos anos melhores campanhas europeias do que no passado, mas pura e simplesmente porque a UEFA tem aumentado o «bolo» a dividir pelos clubes, sendo hoje quase o dobro de há poucos anos atrás (e isto não porque esteja mais generosa, mas sim porque as suas receitas de TV e patrocínios têm aumentado).

Em seguida temos as receitas (nacionais) de TV, que têm aumentado consideravelmente, fruto do contrato progressivo com a Olivedesportos. Foram 13M€ em 12/13 (bem mais do que merchandising, quotas e bilheteiras juntos) e serão ainda mais milhões esta época (18M€, salvo erro). A longo prazo poderá eventualmente haver um risco (mas também uma oportunidade...), mas nos próximos 3 anos não há por onde preocupar por aqui, bem pelo contrário.

Temos também entre os principais proveitos o Corporate Hospitality (camarotes e outros serviços para empresas) que se tem mantido estável (15M€ em 12/13 com mudança contabilística). Parece-me que (sem grande surpresa) ou estas empresas clientes da SAD têm sido em geral pouco afectadas pela crise, ou então esta é uma despesa de que não querem prescindir. Esta poderá ser uma rubrica sob alguma pressão, mas não me acredito que possa haver aqui uma grande quebra no futuro: quanto muito estagnação ou uma pequena quebra (não mais do que um par de M€).

Finalmente, temos entre os principais proveitos os patrocínios e publicidade (13M€ em 12/13). Estes têm-se mantido estáveis nos últimos 5 anos e penso que muito dificilmente terão uma grande quebra (mas também é pouco provável que aumentem bastante no futuro).

Só depois temos a bilheteira e quotas, que baixaram de 10.6M€ para 6.5M€ em 12/13. Em parte esta quebra deveu-se um pouco à crise (e a uma certa desilusão com as exibições), mas em grande parte (2.5M€) deveu-se também a uma iniciativa dos sócios (que eu defendia há muito) que levou a % de quotas atribuída à SAD a baixar dos 75% para os 25%, ficando o clube com o restante. 

Isto seria um balão de ar para as modalidades... não fosse o facto de que a Direção da SAD decidiu tirar mais ao clube com a mão esquerda do que os sócios tinham decidido dar com a mão direita – nomeadamente, ao passar a atribuir à SAD na totalidade as receitas relacionadas com suportes publicitários para as modalidades, num montante de cerca de 3M€ em 12/13, ficando o clube ainda pior do que antes (gostava de saber com que raio de lógica – a única comunicação que houve sobre isto foi uma curta nota de passagem na página 97 do R&C da SAD). Muito sinceramente, isto parece-me claramente um «chico-espertismo» e um pequeno escândalo que passou totalmente despercebido entre os sócios, e mais um sinal de que para os dirigentes os sócios parecem ser apenas meros consumidores e fontes de receita. Mas se alguém souber mais sobre isto, agradecia que comentassem.

Finalmente temos os restantes proveitos, que pouco mais são do que erros de arredondamento (até porque muitos deles têm custos consideráveis como a outra face da moeda)... começando pelo merchandising – que com receitas de 2.8M€ em 12/13 (já agora, a Porto Comercial deu um lucro de uns meros 600mil euros) coloca o FCP como um autêntico pigmeu face à esmagadora maioria dos clubes europeus de grande e média dimensão. E isto quando o FCP tem das camisolas oficiais mais caras da Europa... Quanto ao Dragon Tour, tem custos praticamente idênticos aos proveitos.

Há, finalmente, as mais-valias nas vendas de jogadores (e um valor absoluto total de 120M€ em 12/13, pulverizando o recorde anterior, graças a Hulk, A. Pereira, James e Moutinho). Disto já se falou muito anteriormente, incluindo no meu artigo anterior sobre as contas.

Análise

Parece-me que os proveitos (excl. nas vendas de jogadores) estão no cômputo geral de boa saúde, melhor do que nunca, sendo o mais provável que se mantenham estáveis nos próximos 3 anos apesar de uma ou outra queda marginal (como bilheteira), compensada por um aumento nas receitas de TV; com a ressalva natural de que para tal presumo que teremos performances europeias na média dos últimos 10 anos, i.e. indo em média aos 1/8s de final da LC. 

Quanto aos proveitos nas vendas de jogadores, parece-me claramente que haverá tendência para uma quebra pronunciada para, quanto muito, valores próximos da média dos últimos 10 anos (cerca de 30M€/ano de mais-valias, contra 76M€ na época passada), senão mesmo mais baixos - até porque é pouco credível que o FCP vá vender mais do que 3 titulares/época. Mais: parece-me que tal é mesmo em certa medida desejável (se for para vender um pouco menos jogadores/ano), já que é muito arriscado estar tão dependente como estamos das grandes vendas, para mais com a entrada em força das regras de Fairplay financeiro. Avancei as razões para tal raciocínio no artigo anterior sobre as contas. E isto já presume que o FCP irá continuar a descobrir e «fazer» ano após ano Moutinhos, James e Hulks...

Não me parece que a SAD possa fazer muito melhor do lado das receitas, sinceramente (há apenas uma área em que acho que poderia fazer muito melhor, que é explorar o vector multimédia incluindo por exemplo jogos, Apps e outros conteúdos – mas penso que mesmo esta área, quando explorada com excelência, não irá render mais do que um punhado de milhões/ano - e em menor medida o merchandising, incluindo e-commerce para o estrangeiro). 

No cômputo geral penso que a SAD tem, do lado dos proveitos, feito um trabalho muito bom na globalidade (mesmo que haja sempre oportunidades para fazer ainda melhor).

Sendo assim a conclusão só poderá ser que de forma a ter as contas equilibradas (que não o estão) a SAD terá forçosamente que cortar nos custos (não drasticamente - a la SCP - mas uns bons 10 a 20%). Mas isso já é assunto para o próximo artigo sobre as contas...

Para concluir: obviamente, o objectivo de ter contas equilibradas não é um fim em si mas apenas um meio para outros fins, nomeadamente uma competitividade desportiva sustentada. Até porque, como se costuma dizer, «sem dinheiro não há palhaços»...