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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O caso Calabote (I)

Talvez por sentirem que o peso de décadas de privilégios não foi esquecido pelo país desportivo, vários blogues benfiquistas e o próprio site oficial do SLB têm tentado reescrever a história do emblemático caso Calabote. O descaramento é tal que em alguns casos chegaram ao ponto de insinuar que, vistas bem as coisas, quem foi beneficiado pelas arbitragens dessa época (1958/59) foi o FC Porto.

Ainda esta semana, um relativamente conhecido comentador benfiquista (participante habitual no painel do Porto Canal), escreveu o seguinte num dos principais blogues do SLB (de que ele é um dos mentores):
Uma mentira dita mil vezes não passa a ser verdade. Nos últimos dias, a tentação de ir ao baú da História para tentar explicar o presente, fez ressuscitar um nome: Inocêncio Calabote. Quem o fez não conhece a história, nem tem tempo para essas minudências do estudo e da investigação séria e rigorosa. (...)
Calabote, que foi irradiado (sendo o primeiro árbitro a sofrer tal punição) já cá não está para se defender, mas é preciso que a História o reabilite e lhe faça justiça.”

Leram bem. Segundo benfiquistas do século XXI, é preciso que a História reabilite Inocêncio Calabote e lhe faça justiça!

Pois bem, numa altura em que se estão quase a completar 50 anos do “Caso Calabote”, e para que um número cada vez maior de pessoas fique a conhecer o que era o futebol português do antigamente, o ‘Reflexão Portista’ irá publicar uma série de artigos sobre este caso em que, para além dos penalties e da habitual discussão à volta dos minutos de compensação dados por Calabote no Benfica-CUF, iremos abordar os antecedentes, as decisões da FPF, o comportamento de jogadores e treinadores, o relacionamento entre clubes e as reacções dos jornais.

Nota: Este e os restantes artigos são baseados em fontes consultáveis e devidamente identificadas. No caso de algum dos nomes, datas, factos ou citações estarem incorrectos, agradeço a devida correcção através da caixa de comentários ou do e-mail do blog.

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I. A trajectória da bola e as decisões da FPF

Época 1958/59. Após 18 jogos o SLB ia na liderança do campeonato, com o Belenenses em 2º lugar a três pontos e o FC Porto em terceiro a quatro pontos de distância.
No dia 1 de Fevereiro de 1959 disputava-se a 19ª jornada e o SLB tinha uma difícil deslocação ao Restelo, a casa do seu perseguidor mais directo. A expectativa era grande, porque uma vitória dos azuis deixá-los-ia a apenas um ponto dos encarnados (na altura a vitória valia 2 pontos) e relançaria o campeonato a sete jornadas do fim.

«Entre belenenses e benfiquistas ocorreu, no jogo do Restelo, um caso invulgar. Costa Pereira não deteve uma bola, na marcação de um canto, que, muito escorregadia (o desafio foi disputado numa tarde de chuva cinzenta), se lhe escapou para dentro da baliza. O árbitro, Macedo Pires, não considerou o golo, mandando marcar pontapé de baliza. É que, na sua opinião, a bola descrevera um arco ao sair do canto, ultrapassara a linha de cabeceira e voltara ao campo, dando azo a um lance pouco vulgar
in 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA


«Fernando Vaz, treinador dos «azuis», considerou que dois erros do árbitro tinham decidido o campeão. Mas, se o árbitro dizia ter visto a bola sair pela linha de cabeceira, reentrar em campo e cair depois da estranha viagem dentro da baliza do Benfica, nada a fazer
in 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA


Reparem bem, segundo o árbitro Abel Macedo Pires (AF Lisboa), após Matateu ter marcado o canto, a bola descreveu um arco ultrapassando completamente a linha de cabeceira, voltou a entrar no campo e, desafiando todas as leis da Física, foi parar ao fundo da baliza do Benfica!
Não acreditam?
Pois é verdade, naquele tempo aconteciam coisas destas...

Perante tamanho escândalo, que deixou o país desportivo incrédulo, o ‘SPORT ilustrado’ ironizou com a situação e cerca de uma semana depois publicou um esquema em que tudo está “perfeitamente explicado”:

A trajectória mirabolante do canto de Matateu (clique na imagem para a ampliar)


«Conversa de todos os dias desde há mais de uma semana. Foi golo; não foi golo; a bola passou assim; a bola não saiu; a bola fez um "S"; a bola descreveu uma curva; o árbitro apitou; não apitou; abriu os braços; mas estava atento; não estava; estava – irra... que é demais!
Para acabar com tanta discussão o nosso colaborador gráfico Manuel Vieira fez a montagem da presente página indo ao local do crime fazer a foto e tracejando a seguir a trajectória da bola desde o pontapé de canto de Matateu (que não estava lá) até entrar nas redes de Costa Pereira (que também não estava lá).
Como se vê pelo tracejado, o esférico tomou a direcção de Almada, contornando o magnífico monumento que ali se ergue, voltou ao Restelo e entrou nas redes.
Entretanto, o árbitro Macedo Pires – que, também não se vê na foto, nem se pode ver, pois está proibido de pisar campos de futebol – apitara (mais ou menos quando a bola se cruzava com um cacilheiro) e o golo não contou, nem pode contar.
Mais nada!»
in "SPORT ilustrado", Fevereiro de 1959


Com o árbitro a invalidar o golo marcado por Matateu a três minutos do final do jogo, o desafio terminou empatado (0-0), para enorme alegria dos encarnados que mantinham a distância para o seu principal rival dessa altura.

Revoltado, o Belenenses protestou o jogo mas, apesar das evidências, o Conselho Técnico da Federação indeferiu o protesto. Mesmo sabendo que a probabilidade de ganharem o recurso era muito reduzida (não havia memória de uma decisão do Conselho Técnico ser contrariada), os azuis de Belém recorreram para o Conselho Jurisdicional da FPF.

A trajectória da bola (fonte: Sport Ilustrado, Fevereiro de 1959)


Entretanto o campeonato continuou e na penúltima jornada o Benfica foi a Alvalade, sendo derrotado por 1-2.
Devido a este resultado e à recuperação que o FC Porto (treinado por Bella Guttmann) tinha feito, encarnados e azuis-e-brancos entrariam na última jornada com os mesmos pontos, mas com vantagem dos portistas na diferença de golos.
Contudo, quando já ninguém o esperava, mais um golpe de teatro com origem na Federação. O Conselho Jurisdicional da FPF decidiu contrariar a decisão do Conselho Técnico e dar provimento ao recurso do Belenenses, mandando repetir o Belenenses-Benfica.

Ora, se no início de Fevereiro o Belenenses era o principal rival do SLB na disputa para o título, nesta altura já nada podia lucrar com a repetição do jogo. Era 3º classificado e nem com uma vitória poderia chegar ao título.
Pelo contrário, o SLB que aquando do protesto do Belenenses tudo fez para evitar a repetição do jogo, tinha agora todo o interesse na repetição do mesmo, porque uma vitória permitiria que entrasse na derradeira jornada com mais um ponto que o FC Porto.

Há 50 anos como agora, vê-se para que lado e ao sabor de que interesses pendiam as decisões dos órgãos da Federação.

Quarta-feira, 19 de Março de 1959, foi o dia marcado pela FPF para a repetição do Belenenses-Benfica. A classificação era a seguinte:

1º FC Porto, 25 jogos, 39 pts. (78-22)
2º Benfica, 24 jogos, 38 pts. (70-18)
3º Belenenses, 24 jogos, 35 pts. (62-25)
4º Sporting, 25 jogos, 31 pts. (49-26)

«Imagine-se o que foi a repetição do encontro. O Belenenses já só estava relativamente interessado; os jogadores do F. C. Porto, nas bancadas, sofrendo a bom sofrer; o Benfica lutando para tirar partido daqueles 90 minutos suplementares, que tanto havia contrariado e, agora, davam tanto jeito...»
in 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA

O jogo terminou empatado (1-1), resultado feito ainda na primeira parte.

Assim, à entrada da 26ª e última jornada do campeonato 1958/59, a classificação era a seguinte:

1º FC Porto, 25 jogos, 39 pts. (78-22)
2º Benfica, 25 jogos, 39 pts. (71-19)

(continua: ‘A pouco inocente nomeação de Calabote’)

Fontes:
[1] 'Glória e Vida de Três Gigantes', A BOLA, 1995
[2] António Tadeia, O Jogo, Dezembro de 2007
[3] ‘Blog do Belenenses’, Janeiro de 2008
[4] ‘Belenenses Ilustrado’, Setembro de 2008


Fotos: ‘Belenenses Ilustrado’, ‘Blog do Belenenses’