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quinta-feira, 7 de maio de 2015

O estado natural das coisas!

Calabote e o estado natural das coisas

Esta não foi uma época perdida: esta foi uma boa época do FCP, dadas as profundas mudanças levadas a cabo. Com Mourinho e Vilas Boas, estivemos bem por cima. Não deu campeonato e a diferença está no SLB que encontrou no JJ o homem para liderar um projecto de continuidade que venceu a barreira da dúvida e recebe o apoio generalizado da mouraria vermelha. Todos os estorvos de JJ foram remetidos à sua insignificância.

Esta centralização do poder no treinador tem os seus perigos, mas JJ é uma figura consensual, como muito raramente aconteceu no futebol pátrio. A estrutura lisboeta acolheu os inputs do FCP e, hoje, está ao nosso nível, pelo menos. Para além disso, domina o Futebol como no antanho, ou quase.

O SLB recebeu benefícios arbitrais em quase todos os jogos, e o FCP na Luz não foi excepção. Aquela pretensa proposta que o presidente do SLB terá feito ao presidente do SCP de “partilha de campeonatos” é elucidativa da vontade de implantação da “situação” que dominou nos anos 60 e nos afastou da ribalta, até Pedroto. A dita proposta, constituiria a reposição do “estado natural das coisas” dos anos idos, ou seja: a atribuição do justo poder ao SLB, em reconhecimento do seu enorme mérito desportivo e força social. As vitórias seriam partilhadas generosamente com o SCP na proporção das forças em presença.

Ao FCP seria atribuído o papel de primeiro outsider a que caberia um triunfo de vez em quando, para alegar a malta e comprovar a bondade do sistema, e que seria concedido a bem da coesão nacional.

Naqueles anos de Calabote e Reinaldo Silva, a cada três campeonatos do SLB, correspondia um do SCP. O regresso ao “estado natural das coisas” seria nos tempos que correm um enorme “progresso”, porque ocorreria num quadro democrático que faria regressar a Lisboa os anos repletos de vitórias desportivas que os presidentes das camaras consagrariam com pompa e circunstância. A bem da Nação, pois claro.

Apesar de todos os colinhos, o SLB cresceu muito na era JJ o que muito o ajuda a consolidar a ideia que o “estado natural das coisas” acontecerá de forma gradual por mérito e força da instituição. Tão inevitável para eles como o rio que corre para o mar.

Lopetegui e Pinto da Costa

Salvo Adrián López, fomos capazes de contratar e criar uma equipa muito interessante. O investimento teve um bom retorno nesta época que está a findar com as receitas da CL. O risco no FCP decorre e acentua-se na execução de uma política menos certeira na gestão do futebol e que se constata (para quem não tem outros meios de prova) na demasiada rotação do plantel e das equipas técnicas. O FCP, no período “JJ”, teve como treinadores da equipa principal: Jesualdo, Vilas Boas, Vítor Pereira, Paulo Fonseca e Lopetegui. Este silêncio do FCP, relativamente à continuidade do actual treinador, poderá ser um sinal de incerteza que só gera instabilidade. Lopetegui tem dado o peito às balas como poucos e é mal amado internamente e odiado externamente.

A nossa querida comunicação social desanca forte e feio no homem e fez de Quaresma um mártir da sua incompetência. É certo que errou e se “perdeu” após o Bayern, mas compreende-se: foram-lhe exclusivamente assacadas todas as críticas e já se sabe que nestas fases os amigos minguam sempre. E há muito quem recorra ao: “eu previ, disse e escrevi...”, para atestar a sua ciência sobre a previsão das debilidades do actual mister. As duras críticas de comentadores alinhados (Porto Canal incluído) comprovam (a meu ver) as incertezas internas quanto ao seu futuro.

Obviamente, defendo a continuidade de Lopetegui, porque acho que é o homem certo para continuar a obra e construir um FCP suficientemente competente para combater a inevitabilidade do regresso ao “estado natural das coisas” do pontapé na bola cá do burgo. Tenho a certeza que Lopetegui saberá aprender com os erros que cometeu e espero que o nosso presidente não ceda à vox populi que exige sangue para salvar a honra por nada termos ganho esta época.

sábado, 19 de abril de 2008

FCP/SLB: Fragmentos


Os jogos entre o FCP e o SLB foram quase sempre muito intensos, mesmo no período em que o SLB tinha uma equipa muito superior à nossa, mas não só: o SLB tinha uma organização muito superior, comandava as instituições que lideravam o futebol (os bastidores, também) e os seus jogadores (nomeadamente o capitão: Coluna) tinham uma clara ascendência sobre os árbitros.

Mas, houve jogos que recordo e que por razões diferentes guardei na memória. As emoções sentidas foram tão fortes que nem os mais recentes sucessos as retiraram do cantinho que lhes destinei nesta caixa de memórias, já um pouco enferrujada.

1. Não tenho certa a época. Mas, lembro-me bem que saí do jogo pior que estragado. Sei que o SLB veio jogar às Antas, já campeão e nas vésperas de um importante jogo para a Taça dos Campeões. Apresentou a sua equipa de reservas, na totalidade. Deu-nos um baile de bola e ganhou três a zero; creio que foi a primeira mão de um jogo para a Taça de Portugal. Que frustração (quase vergonha) senti nesse dia!

2. (1959/60) Perdíamos por 2-0, a poucos minutos do fim. Fizemos 2x1, já sobre o fecho do encontro. O tempo esgueirava-se rapidamente. Tudo se passou em poucos segundos. A bola foi ao centro e o SLB perdeu-a quase de imediato, tendo sobrado para Luís Roberto que dominou o esférico, rodou, olhou para a baliza, enquadrou-se com ela e chutou de imediato, com violência, quase do meio campo. Saiu um (meio) chapéu de aba muito larga : a bola ultrapassou o guarda redes do SLB, deu na trave e entrou. Foi o 2-2. Logo a seguir acabou o jogo, a bola nem foi ao centro. Foi um delírio. Valeu como uma vitória.

3. (1962/3) Num campeonato em que o FCP vinha tendo uma prestação muito interessante e se situava no primeiro lugar do campeonato, ocorreu nas primeiras jornadas da 2ª. Volta, o FCP/SLB. O árbitro escolhido foi o Sr. Reinaldo Silva. O jogo corria algo lento e muito equilibrado. Um passe para a área do FCP, Torres e Rolando disputaram a bola: Torres caiu e o árbitro marcou gp contra o FCP. Uma apitadela estridente que baixou a moral das nossas tropas. Não tivemos força de reacção e perdemos. O SLB controlou o resto do jogo que Reinaldo Silva comandou sempre, com a sabedoria e a imparcialidade próprias dos árbitros da época.

4. (1968/9) Num Domingo de chuva e com o terreno pesado, o nosso treinador resolveu colocar no lugar de avançado centro um jogador angolano que prometia muito, mas nunca confirmou o potencial que realmente tinha. Era rápido, possante e rematava bem. Marcou a mais de trinta metros o golo do FCP, que deu a vitória por 1-0. Um golo fantástico e muito raro no futebol português. Provavelmente, o seu único momento de glória. Seu nome : Naftal. Mais um que não foi capaz de atravessar, com êxito, os sinuosos caminhos da fama. Perdi-lhe o rasto, completamente.

5. (1970/71) Era habitual no passado, algumas marcas fazerem publicidade através da instalação sonora do Estádio das Antas. Era a Belarte a entidade a quem o FCP “vendia” o tempo e o espaço publicitário. Um dos patrocínios (nos jogos mais importantes) consistia na oferta de produtos variados, conforme os jogadores marcassem um, dois, três, ou mais golos. Todos nos rimos quando o speaker habitual informou que qualquer jogador do FCP que marcasse mais de 3 golos, nesse jogo com o SLB, receberia um carro duma marca que não recordo. O FCP fez um grande jogo, nesse dia. Lemos fez uma exibição fantástica e marcou os 4 golos. Ganhou o carro, mas não ganhou uma carreira. Lemos era um jogador baixo, forte e possante. Prometia muito, fez alguns bons jogos, mas acabou precocemente. Foi pena!

Entre 1952 e 1974 - retirados da colectânea de autoria de Alfredo Barbosa que saiu com o Comércio do Porto - foram estes os resultados entre FCP/SLB : 1952/3 : 2-1 ; 1953/4 : 5-3 ; 1954/5 : 3-0 ; 1955/6 : 3-0 ; 1956/7 : 3-0 ; 1957/8 : 1-0 ; 1958/9 : 0-0 ; 1959/60 : 2-2 ; 1960/1 : 3-2 ; 1961/2 : 2-1 ; 1962/3 : 1-2 ; 1963/4 : 1-1 ; 1964/5 : 1-0 ; 1965/6 : 2-0 ; 1966/7 : 1-1 ; 1967/8 : 1-1 ; 1968/9 : 1-0 ; 1969/70 : 1-2 ; 1970/1 : 4-0 ; 1971/2 : 1-3 ; 1972/3 : 2-2 ; 1973/4 : 2-1 .

Resumo : 13 V ; 6 E e 3 D, entre a inauguração do Estádio e o 25 de Abril. Nem no período em que o SLB dominava o panorama do futebol no país, o FCP deixava de mostrar os seus pergaminhos. Era uma questão de honra, que ainda se mantém. Em casa, mandamos nós.

No Domingo joga-se mais um FCP/SLB. Uma rivalidade de sempre, que a relação de amizade com Fernando Martins esbateu, quando este foi presidente do SLB. De resto, é um jogo de emoções que os portistas assumem como uma questão de honra. Apesar de já sermos campeões, este ano não vai ser excepção. Pelo contrário, contornos especiais rodeiam o jogo, em função da intromissão e influência do SLB no Apito Dourado, no Apito Final e depois dos dramáticos SOS endereçados ao MP e à PJ para lhes salvarem a época. Muitos querem que este jogo seja uma espécie de ajuste de contas. Eu também, mas apenas no plano desportivo. Espero ganhar, jogar bem, não quero pensar em perder e muito menos que haja violência, seja qual for o resultado. Campeões, nós somos campeões e gostaria que nos comportássemos com tal, dentro e fora do campo.

(1) Fotos do árbitro Reinaldo Silva e dos jogadores Rolando e Lemos