A sua fama de futebolista no Futebol Clube de Águeda (outro desgosto ter de jogar de azul e branco...) depressa alastrou e um dia Soares dos Reis chegou a Águeda para o levar para o F. C. Porto. Dona Aurora ouviu a «trágica» notícia e impediu o filho de sair de casa durante dois dias. Tinha 16 anos. Pouco depois, dois emissários do Benfica procuraram seu pai, tudo ficou mais ou menos combinado, o senhor Manuel Ferreira Barreira até ficou com o dinheiro para as passagens de comboio, em primeira classe, de Águeda para Lisboa. Ao sabê-lo, a mãe entrou em depressão, Hernâni, vendo-a assim, desistiu da aventura...
Até que em 1949, mal acabara de fazer 18 anos, Alberto Augusto, o célebre «Batatinha», que jogara no Benfica e, de parceria com Ribeiro dos Reis e Cândido de Oliveira e de seu irmão Artur Augusto (o primeiro «internacional» do F. C. Porto), fizera parte da primeira Selecção que defrontou a Espanha, era, nesse comenos, treinador portista. Foi a Águeda ele próprio falar com D. Aurora, pedindo-lhe que não permitisse que o seu desvelo de mãe destruísse o destino do filho fadado para altos voos. A senhora impressionou-se e com poalha de orgulho acedeu – que sim, que fosse jogar a bola para o F. C. Porto, mas com uma condição: continuar a viver em casa, em Águeda.
Com uma emoção confusa, feita de medo e de ilusão de fastígio, Hernâni estreou-se, pelo F. C. Porto, contra o Estoril, substituindo Araújo. Como se houvesse nisso, simbolicamente, passagem de testemunho. Marcou um golo e ficou lançado. Com pátulo para a glória. E prazer no sofrimento de ter de fazer, duas vezes por semana, 150 quilómetros para se ir treinar à Constituição.
Em 1953, o Sporting chamou-o a integrar a sua equipa, em digressão ao Brasil. Convidado foi, também, Mário Wilson. Ficou quente a amizade. Mas, por vezes, no calor da luta há sentimentos que se apagam. Foi o que aconteceu naquela tarde em que os deuses pareciam querer evitar que Hernâni ganhasse o seu primeiro título de Campeão Nacional da I Divisão, durante o dramático jogo com a Académica...
Glória e Vida de Três Gigantes
in A BOLA
Quando eu era miúdo, o meu pai contou-me a história deste FC Porto - Académica, da época 1955/56.
Quatro anos antes, em 1952, os portistas tinham concretizado um sonho, com a inauguração do Estádio das Antas, mas desportivamente o FC Porto já não era campeão há 16 anos.
Em 1955/56 o treinador era Yustrich (o homão), um disciplinador que impôs maior profissionalismo e, dispondo de jogadores como Miguel Arcanjo, Virgílio, Monteiro da Costa, Pedroto, Hernâni, Perdigão e Jaburu, entre outros, conseguiu formar uma equipa fantástica e encher de esperança os adeptos portistas.
Até que ocorreu o tal lance do penalty, convertido por Hernâni, transformando o Estádio das Antas num vulcão e abrindo caminho a uma vitória por 3-0 e ao titulo de campeão nacional, que nos fugia desde 1939/40.
Hernâni Ferreira da Silva e Orlando de Carvalho Ramin, nunca os vi jogar, mas de tantas vezes obrigar o meu pai a contar-me as ocorrências deste jogo, é como se tivesse estado lá.
Nota final: Ao recordar este jogo queria, em primeiro lugar, lembrar o meu pai, mas também toda uma geração de adeptos portistas que, ano após ano, sofriam com as "calabotices" do sistema e, é justo reconhecê-lo, também com alguma incompetência própria.
P.S. As fotos inseridas no texto de A BOLA são da minha responsabilidade.