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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Lavagens cerebrais


«“Contra o Benfica não, contra o clubismo exacerbado”. É desta forma que se justifica em declarações ao Relvado o pai portista que se queixou da versão “Vai-te embora pulga maldita / batata frita / viva o Benfica” da canção infantil “Atirei o pau ao gato”. (…)
O caso passou-se no Jardim de Infância de Santo Isidoro da Ericeira (…).
É um hábito de tal forma entranhado, que acharam um absurdo vir eu pedir para mudar aquilo”, desabafa, atestando que “é quase como que uma lei” e relatando que os miúdos “cantam duas, três vezes por dia” a canção numa “prática diária”. “As crianças aos três anos não percebem, mas aos 4 já percebem, e ficam lá até aos 5, 6 anos”»
in Relvado


Que a maioritária “família benfiquista” do Jardim de Infância da Ericeira tenha encarado o pedido deste pai como sendo absurdo, não me surpreende minimamente. O Fátima, Fado e Futebol deste triste país dos 3 F’s não se apaga de um dia para o outro e, de forma semelhante, há poucos anos também houve gente que achou estranha a ordem do Ministério da Educação para, cumprindo o que diz a Constituição, mandar retirar os crucifixos que estavam afixados em salas de aulas de escolas públicas. Agora, haver jornalistas “modernaços” da cosmopolita capital, que tenham vindo a público classificar esta queixa como algo ridículo, despropositado e consequência da rivalidade extrema entre dois clubes, é um sinal preocupante dos tempos que vivemos.

Deixem as criancinhas em paz, deixem-nas cantar à vontade o que elas querem (na realidade, o que os pais/educadores lhes ensinaram…). Pois, dito assim isto soa tão inofensivo, não é?

Já agora, sendo o benfica uma religião e o estádio da Luz “a catedral”, porque não pôr os meninos da Ericeira a cantar músicas religiosas e a rezar o Pai Nosso três vezes ao dia? A maioria destas crianças, além de benfiquista, não é também católica (por opção dos seus pais)?

O problema, como é óbvio, não está em adaptar uma “rima inofensiva” a uma popular canção infantil. A questão é se, de forma sistemática e repetitiva, devem ser promovidas estas cantilenas (e porque não outras?) em escolas públicas, com a conivência, se não mesmo incentivo, de educadores e responsáveis dessas escolas.

Como é sabido, os cérebros das crianças são como esponjas, absorvem tudo, e é por isso que, nestas idades, as lavagens cerebrais são tão eficazes. Daí que alguns “educadores do povo”, a coberto do “deixem cantar as criancinhas”, não se importem que uma escola pré-primária seja transformada numa espécie de Madrassa.

E, já agora, gostava de saber por onde andam os movimentos cívicos que defenderam a retirada de símbolos religiosos de estabelecimentos públicos (como escolas e hospitais), por considerarem tal facto uma espécie de evangelização forçada e, consequentemente, uma castração da liberdade individual.

Os benfiquistas da Ericeira gostam de promover lavagens cerebrais? Façam-nas em família, entre amigos ou, quiçá, na casa do slb da Ericeira. Numa escola que recebe dinheiro do Estado português o qual, oficialmente, ainda é laico e sem cor clubista, não!

Numa sociedade cada vez mais multicultural, a maioria não pode impor a sua vontade em termos de gostos e oprimir o direito à diferença. É também por isto que eu não sou benfiquista, nem nunca serei “bom chefe de família”