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sexta-feira, 7 de março de 2008

1978–2008: 30 anos de um título histórico (I)


Perfazem-se este ano 30 anos sobre aquele que acho – por aquilo que veio a representar no futuro - ter sido o mais importante título da história do FC Porto e, simultaneamente, sobre o fim da segunda – e maior – “travessia do deserto” do FCP.
De facto, após o interregno 1940 – 1956, quebrado pelo inolvidável Dorival Knipel, “Yustrich”, houve outro grande interregno, o de 1959 – 1978, coisa de que os portistas com memória histórica não precisam, decerto, de ser recordados! Mas é caso para dizer, trinta anos passados, que desta vez se revelou bem verdadeiro o ditado segundo o qual não há fome que não dê em fartura!

Na mitologia portista esses interregnos, principalmente o segundo, ficaram a dever-se principalmente à acção de tenebrosas forças inimigas que, ano após ano, conspiravam com sucesso para frustrar os nossos expectáveis triunfos. Não deixa de haver alguma verdade nessa mitologia – toda a mitologia tem uma base real – mas aceitá-la acriticamente é confundir a árvore com a floresta. E menosprezar o papel dos grandes obreiros dessa transformação.

Anos houve nessa nossa segunda travessia do deserto, de facto, em que os apitos (que à época não eram dourados) poderão ter tido decisiva influência nas posições finais, mas no essencial fomos vítimas de uma gestão amadora e provinciana, e era bom, penso eu, que disso nos capacitássemos, quanto mais não seja para evitar repetições do fenómeno (e também, diria, para não fazermos a mesma figura que actualmente fazem os nossos principais adversários…).

Também a suposta nefasta influência do Prof. Dr. António de Oliveira Salazar (!), provavelmente, diga-se, um dos políticos que, juntamente com o Dr. Mário Soares e o actual Presidente da Republica, Prof. Aníbal Cavaco Silva, menos percebia ou ligava ao futebol, é frequentemente apontada, especialmente por aqueles que não viveram esses tempos e, como tal, preferem confortar-se com os mitos da História, como determinante nesses anos de frustração. Muitas críticas haverá, porventura, a fazer ao legado histórico daquele estadista (e outros dirão que louvores haverá também a fazer-lhe), mas não me parece que as de índole desportiva tenham peso suficiente para serem aqui levadas em conta.

Sem dúvida que o SLB beneficiou de uma certa protecção do regime do Estado Novo, mas – deve perguntar-se – e em relação ao actual regime? Será que as coisas estão melhores? Não vou alongar-me sobre esse aspecto, que não é o tema desta crónica. Apenas pretendo colocar as coisas em perspectiva, além de que sempre detestei a postura de “vítima”, da qual aqueles fulanos de Lisboa, por um nosso conhecido confrade alcunhados de “calimeros”, são um magnífico exemplo. Eles “são bem geridos”, eles “jogam o melhor futebol”, eles “são os mais honestos”, mas – maldição! – eles são uns contumazes perdedores!

Mas voltemos ao tema da crónica. O título de 1978 – o primeiro que o autor destas linhas festejou, já que, aquando do de 1959, tinha apenas 4 ½ anos – não surgiu do acaso, como aliás os anos e décadas seguintes largamente demonstraram. De facto, desde meados da década de setenta que se notava que algo de novo mexia no FC Porto. Já não falo da espantosa contratação do grande Teófilo Cubillas na época de 1973/74, já que a mesma foi essencialmente uma excepção numa regra demasiado árida no campo dos reforços até essa altura.

Mas depois disso, e nas épocas de 1974/75 e 1975/76, ainda sob a presidência do Dr. Américo Sá (1972/1982) e com homens como Jorge Vieira (o grande responsável pela contratação de Cubillas) á frente do Departamento de Futebol, o FC Porto fez um grande esforço – até aí nada usual – no reforço do seu plantel, tendo contratado jogadores como Tibi, Adelino Teixeira, Alfredo Murça, Carlos Simões e Octávio Machado que estariam – com excepção do primeiro – todos ligados ao título de 1977/78. Note-se que estamos a falar de jogadores que em tempos anteriores teriam provavelmente rumado a Benfica ou Sporting: Murça jogava no Belenenses e Octávio no V. Setúbal (clubes do Sul), Simões na Académica – para onde perdêramos alguns jogadores (como Artur Jorge), mas onde nunca tínhamos ido buscar ninguém de “peso” - e Tibi e Teixeira actuavam no Leixões, um nosso “querido vizinho” que fornecia alegremente Benfica e Sporting (onde é que eu já vi isto?). Ou seja: com estas contratações quebrou-se um paradigma. Os melhores jogadores já não tinham, necessariamente, de ser contratados apenas por Benfica e Sporting, mesmo que se tratasse de jogadores do Sul.

Mas faltava a esta boa sementeira uma boa “gestão agrícola”. Essa não tardaria.