
«(…) no negócio do futebol, uma boa gestão não basta para garantir o sucesso. É preciso ter também rasgo e ousadia, porque muitos dos tabus neste desporto tão conservador não seriam quebrados sem uma pontinha de loucura. E é aí que entra o presidente António Salvador, um self-made man que soube contagiar um clube e uma cidade e provar que a ambição pode ser também a riqueza dos pobres. (…)
Em sete anos, as receitas operacionais (sem venda de jogadores) subiram de dois para oito milhões de euros, ainda assim insuficientes para fazer face às despesas, que só em amortizações atingiram esta época os três milhões de euros. A diferença foi sendo colmatada com as transferências de jogadores. Percebendo que o tempo era de "vacas magras", Salvador promoveu cortes orçamentais. Depois dos 14 milhões de euros gastos em 2008/09 (com Jorge Jesus), o Braga investiu apenas 11 milhões no ano passado e preparava-se para só gastar dez nesta temporada. Esse valor deverá ser ligeiramente ultrapassado, face aos investimentos de última hora na equipa. (…)
Mas Salvador sabia que o equilíbrio financeiro nunca poderia ser dissociado da estabilidade desportiva. E,
em sete épocas, o Braga nunca falhou um apuramento para as provas europeias, somando três quartos lugares, dois quintos, um segundo e um sétimo. Neste âmbito, começou por ser fundamental o trabalho do técnico Jesualdo Ferreira. A sua saída, em 2006/07, criou instabilidade em resultado da aposta em Carlos Carvalhal, Jorge Costa e Manuel Machado. A normalidade regressou com Jorge Jesus, que terminou em quinto e ajudou a vencer a Taça Intertoto, antes de a sua mudança para o Benfica render 700 mil euros. (…)
O Braga partiu para esta época com o plantel mais forte e equilibrado de que há memória. É verdade que perdeu os laterais (Evaldo e João Pereira) e o guarda-redes Eduardo, mas a defesa foi razoavelmente recomposta (embora falte alternativa ao nigeriano Elderson). Mais do que isso, manteve-se a espinha dorsal formada pelos centrais Moisés e Rodrigues (a melhor dupla da Liga?), o médio-defensivo Vandinho e também Alan, talvez a unidade mais desequilibrante. Segurou também Matheus, um ala rápido que Domingos tem sabido transformar num avançado letal. Mas a estes pode-se agora acrescentar Leandro Salino, um médio de muita qualidade que chegou a preço zero do Nacional. Mas a grande diferença verifica-se no ataque, onde Meyong passou a ter a concorrência de Lima, Keita e Elton. O primeiro já o tínhamos elogiado quando, na época passada, vestia a camisola do Belenenses. Tem algo que, salvaguardando as devidas diferenças, faz lembrar Lisandro. E só custou 400 mil euros. Não contando com os gastos que normalmente decorrem do pagamento de "luvas" aos jogadores e empresários, o Braga fez ainda duas excelentes contratações: Felipe e Elton. Foram negócios de ocasião. O primeiro era o guarda-redes titular do Corinthians, que abandonou após um litígio com o presidente. O seu passe foi então comprado por um grupo de investidores, que aceitou utilizar como "montra" o Braga, que só pagará 30 por cento dos ordenados. Elton, um avançado que marcou 17 golos no Vasco da Gama, chegou numa situação idêntica. É provável que o Braga tente ainda garantir mais um ou dois reforços, designadamente um médio-defensivo.
Prestes a completar 90 anos de história, o Braga tem sabido puxar por uma cidade que durante anos foi conhecida pelo elevado número de benfiquistas.
A média de assistências subiu de 11.550 (2005/06) para 14.274, no último campeonato. E o número de sócios é agora de 22 mil. (…)»
Bruno Prata,
PÚBLICO, 27/08/2010
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Há sete anos, quando António Salvador chegou à presidência dos “arsenalistas do Minho”, o Braga vinha de um 14.º lugar no campeonato. O primeiro treinador que contratou (para a época 2003/04) foi Jesualdo Ferreira, o qual alcançou um quinto e dois quartos lugares, isto antes de vir para o FC Porto (com uma passagem efémera pelo Boavista), quando Pinto da Costa o escolheu para substituir Co Adriaanse.
Para o sucesso desportivo e financeiro alcançado (nestes sete anos o Braga encaixou cerca de 33 milhões de euros em vendas de jogadores), contribuíram directores desportivos, jogadores e treinadores, particularmente Jesualdo Ferreira, Jorge Jesus e Domingos Paciência. Mas, tal como no FC Porto, neste período de ouro do Braga, o único denominador comum é o presidente António Salvador.
Li na comunicação social que este empresário do ramo da construção civil, de apenas 39 anos, é sócio do FC Porto há 30 anos. Estará ele entre os possíveis sucessores de Pinto da Costa, daqui a três ou seis anos?
Fotos: O Jogo, Correio da Manhã
Nota: Os destaques no texto a negrito são da minha responsabilidade.