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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O segredo do sucesso

Discute-se muito a quantidade de jogadores estrangeiros que actuam no futebol português. No passado dia 3 de Outubro, o jornal gratuito 'Sexta' deu um contributo para esta discussão, publicando um estudo em que apresentava os seguintes números:


Olhando para o caso que me interessa mais, impressiona verificar que 67% do plantel do FC Porto é constituído por jogadores estrangeiros. Não me lembro de outra época em que os números tenham atingido esta dimensão.
Mais. Dos 10 jogadores portugueses, dois são guarda-redes e outros dois - Tengarrinha e Candeias - estão "à experiência" e não surpreenderia se, em Janeiro próximo, fossem emprestados para rodar...

De modo a ser possível efectuar algumas comparações, o estudo também apresentou os números de jogadores nacionais versus estrangeiros para a Série A, Premiership e Liga espanhola.


O cenário acima apresentado é, em grande parte, consequência do Acórdão Bosman. Recordando o que se passou, em final de contrato com o FC Liége, Jean-Marc Bosman viu este clube exigir uma indemnização para permitir a sua transferência para o Dunquerque. Com o apoio do advogado Luc Misson, Bosman intentou uma acção junto de um tribunal belga que, por sua vez, colocou a questão ao Tribunal Europeu de Justiça, a mais alta instância judicial da União Europeia.


Ao dar razão ao jogador belga, o acórdão do Tribunal Europeu de Justiça constitui um marco na jurisprudência desportiva, no que diz respeito às transferências de jogadores. Assim, a partir de 1996, os jogadores de futebol que terminem contrato podem circular livremente na União Europeia e os clubes estão autorizados a inscrever futebolistas comunitários sem quaisquer restrições.

Adicionalmente, o Acórdão Bosman praticamente coincidiu com a reformulação da Liga dos Campeões e a partir da época 1997/98, para além dos campeões de cada país, passaram a ter acesso equipas classificadas imediatamente a seguir, em função do ranking de cada um dos países.

Com mais dinheiro (proveniente da "liga dos milhões" e da renegociação de contratos televisivos) e regras que eliminam grande parte das restrições associadas à contratação de jogadores estrangeiros, os clubes mais poderosos dos principais campeonatos europeus - Inglaterra, Espanha, Itália e Alemanha - transformaram-se numa espécie de multinacionais, contratando os melhores jogadores que despontavam por toda a Europa.

Se antes já era difícil, passou a ser uma miragem clubes de outros países repetirem sucessos passados e ganharem a principal competição europeia de clubes.


Contudo, em 26 de Maio de 2004, um clube de um pequeno país conseguiu o impensável: vencer a actual Liga dos Campeões.

Sem ter dinheiro para contratar os "melhores jogadores" onde esteve o segredo do sucesso do FC Porto?

Evidentemente, houve vários factores que se conjugaram e contribuíram para os êxitos obtidos no período 2002-2004. Contudo, não será despiciendo salientar que, oito anos após o acórdão Bosman, o onze inicial que alinhou na final de Gelsenkirchen tinha nove jogadores portugueses - Baía, Paulo Ferreira, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Nuno Valente, Costinha, Pedro Mendes, Maniche e Deco - e no banco de suplentes sentaram-se ainda mais quatro - Nuno, Pedro Emanuel, Ricardo Costa e Bosingwa.


Penso que não haverá dúvidas que ter 13 jogadores portugueses entre os 18 convocados, grande parte dos quais com uma fortíssima identificação com o clube, foi fundamental para a coesão de um colectivo que superava, em muito, a soma das partes.

Aliás, se recuarmos a 1987, verificamos algo muito parecido: o onze inicial de Viena tinha oito jogadores portugueses - João Pinto, Eduardo Luís, Inácio, André, Quim, Sousa, Jaime Magalhães e Futre -, na 2ª parte entrou o Frasco e de fora, por lesão, ficaram os habituais titulares Lima Pereira e Gomes.

Coincidência?
Na minha opinião, não.

Quer antes de Bosman (em 1987), quer no pós-Bosman (em 2004), o FC Porto chegou ao topo da Europa com equipas baseadas em jogadores portugueses, vários dos quais formados no clube, a que juntou alguns (poucos) estrangeiros de bom nível - Mlynarczyk, Madjer, Juary, Derlei, McCarthy, Alenitchev.

Será possível repetirmos a gracinha invertendo o paradigma, isto é, com uma equipa baseada em estrangeiros, com alguns (poucos) portugueses de bom nível e praticamente sem referências formadas no clube?
Na minha opinião, não.

Para agravar o problema, a esmagadora maioria dos estrangeiros do plantel actual são sul-americanos, cujos empresários (e eles próprios) olham para o FC Porto como uma mera porta de entrada no mercado europeu e que, conforme já se viu, não hesitam em desestabilizar publicamente o grupo de trabalho para obterem mais dinheiro.

«Andei oito anos nesse mercado [argentino] e sei como é inflacionado. Há que ter boas redes de observação e apostar nos clubes fora de Buenos Aires. As regiões de Cordoba e de Rosario são viveiros. (...)
Só conseguirão jogadores feitos recorrendo a fundos e parcerias, como sucedeu nesses casos [Lucho e Lisandro]. (...) Quem vai para o FC Porto sabe que é para jogar na Liga dos Campeões, para se promover e para sair para um grande campeonato europeu

Luis Norton de Matos
in Record, 14/10/2008

Vale a pena recordar que esta não é a primeira vez que a SAD aposta em força no mercado sul-americano. Antes do Mourinho chegar ao FC Porto e ir "contratar jogadores à loja dos 300" (Paulo Ferreira, Nuno Valente, Derlei, Maniche, Pedro Mendes, Pedro Emanuel), tinham sido contratados nos anos anteriores: Argel, Alessandro, Rubens Júnior, Esnaider, Pizzi, Ibarra, Quintana, Paredes, etc.
Na altura as coisas não correram nada bem, espero que agora corram muito melhor.

Nota final: Como é óbvio, nada tenho contra os jogadores estrangeiros, principalmente se forem de boa qualidade. Contudo, entendo que para um clube como o FC Porto, que não tem capacidade financeira para contratar "estrelas", é fundamental ter uma base sólida de jogadores portugueses, que garantam um balneário coeso e facilite a integração dos estrangeiros que chegam.