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segunda-feira, 6 de março de 2017

7 golos e recordações de Mário Jardel

«O FC Porto não vencia por 7-0 na Liga desde janeiro de 1999, na época que terminou com a conquista do Penta campeonato. Nesse dia, no final de janeiro de 1999, os dragões golearam o Beira Mar no Estádio das Antas. Curiosamente, a figura desse encontro foi Mário Jardel, ele que assistiu à receção ao Nacional nas bancadas do Dragão.»




Uma goleada das antigas e a presença de Mário Jardel no Estádio do Dragão fez-me recordar um outro jogo, um célebre FC Porto x Juventude de Évora, disputado no Estádio das Antas, em dezembro de 1997, para a 5ª eliminatória da Taça de Portugal de 1997/98 (nessa época o FC Porto haveria de fazer a dobradinha).
O FC Porto derrotou a equipa alentejana por 9-1, mas ao intervalo estava a ganhar pela margem mínima (1-0). Assim sendo, para evitar surpresas, o treinador do FC Porto (António Oliveira) foi ao banco de suplentes buscar o Super Mário e este não foi de modas: em apenas 45 minutos marcou 7 golos!
Vale a pena recordar, principalmente um memorável golo de letra.




São muitas as recordações que tenho de Mário Jardel, de golos (muitos golos) e também de alguns episódios que se terão passado fora das quatro linhas.

Um desses episódios foi relatado pelo próprio Mário Jardel, numa entrevista que concedeu à CMTV em janeiro de 2016, na qual o antigo ponta-de-lança de FC Porto e Sporting recordou uma proposta desonesta:

Fizeram-me uma proposta… Não vou dizer nomes, mas posso dizer que foi para um Benfica-FC Porto. Deram-me dinheiro para não jogar, mas os nomes revelo depois, quando publicar o livro. Mas já deixo uma pista...

Já passou mais de um ano desde que Mário Jardel fez estas declarações “bombásticas”, as quais relatam uma situação grave que, a ser verdade, ocorreu entre 1996 e 2000 (período em que Mário Jardel esteve ao serviço do FC Porto).

Naturalmente, nenhum jornal ou TV “generalista” (RTP, SIC, TVI, CMTV, SportTV, BolaTV) teve qualquer interesse em explorar a pista deixada por Mário Jardel. Ainda se fosse para investigar acusações ao FC Porto, como as que foram feitas pelo confesso dependente de drogas Walter Casagrande

Mário Jardel no último FC Porto x Nacional

Resta-nos o Porto Canal, o qual poderia (deveria) aproveitar este regresso de Mário Jardel ao Porto, para o entrevistar, “puxar o fio à meada” e fazer-lhe as perguntas que, há um ano atrás, a CMTV entendeu não fazer...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A entrevista de Lopetegui ao El Pais em frases e conceitos


Julen Lopetegui concedeu uma entrevista ao prestigioso jornal espanhol El Pais. Uma entrevista onde coloca sobre "papel" aquilo para que foi contratado e o que tem como objectivo aplicar. Parece evidente, pelo discurso do treinador, que todos na estrutura do clube têm assumido que é um projecto a médio prazo independentemente do que passe até Junho, pelo menos. Parece-me uma boa solução e ninguém poderá dizer que a SAD não é fiel a si mesma, com o relevante resultado final. Este treinador sabe que tem o respaldo da direcção - coisa que faltou a Vitor Pereira, por exemplo, de forma clara - e que a aposta do Clube em renovar o clube de cima abaixo obedece a esse desejo de mudar.

Realmente, para quem conhece o trabalho a fundo de Villas Boas e Vitor Pereira, o rumo aplicado por Lopetegui é um regresso ao que já se fazia. O que muda essencialmente são os interpretes. Cada vez mais novos, cada vez mais preparados para os desafíos do futuro imediato. A idade não é coincidência. Por um lado, Lopetegui é um treinador de formação. Sempre o foi em todas as suas experiências prévias. Por outro está a velha filosofía de que a aprendizagem é um largo processo e quanto antes se começar, melhor. Não é o mesmo tirar “vícios” a veteranos que ensinar, quase desde os primeiros passos profissionais, a jovens promessas.

Dessa entrevista, muito boa aliás, retiro algumas frases chave que vale a pena reler para entender o que quer e o que planeia Lopetegui para o FC Porto nos próximos dois anos:

 “Da-se por garantido que os jogadores entendem o jogo e não é verdade”
A esmagadora maioria dos adeptos parte do principio que todo o jogador tem, no seu interior, um Xavi Hernandez mas que só alguns poucos o desenvolvem. Lopetegui pertence ao grupo (onde me incluo aliás) que pensa precisamente o oposto. A maioria dos jogadores são, em termos tácticos, e para usar o bom calão da minha “Invicta” “cepos”. E são-no porque a esmagadora maioria dos clubes, na área da formação, não fomenta a aprendizagem do jogo como tal mas sim o desenvolvimento físico e, eventualmente, o trabalho posicional concreto. Quando um futebolista com 19 anos chega à primeira equipa há muitos conceitos básicos que nem sequer explorou ainda e por isso o salto para a elite custa tanto a muitos que tanto prometiam nas camadas jovens. Por isso mesmo o trabalho do treinador é cada vez mais importante. Menos espaços, ritmo mais intenso, maior necessidade de compreender o máximo número de conceitos possíveis. Hoje em dia os futebolistas continuam a ser as estrelas mas cada vez mais os jogos se decidem no trabalho diário dos treinadores.

“Quando recebi a oferta do FC Porto percebi que queriam criar uma maneira de entender o jogo. Esta é a equipa mais jovem da história do Porto  e esse converte-a num projecto muito atractivo.”


Lopetegui parte do principio com esta afirmação que nunca se jogou como se joga agora no clube o que não é certo. Não é por acaso que ao Porto de Villas-Boas se comparava em toda a Europa com o Barcelona de Guardiola. O que sim está claro é que o ano de Paulo Fonseca deixou claro que não deve haver novas derivas futuras e que o modelo deve ser aprofundado até ás categorias base. A juventude do projecto também não deve enganar. Os problemas financeiros do clube forçam-nos a recorrer cada vez mais a jogadores jovens (comprados, emprestados, graças a fundos) com salarios mais baixos e potencial de rentabilidade futura maior.

“Eu quero que os meus jogadores sejam capazes de entender o jogo e acho que quando jogas entendes muito pouco e isso passava-me também a mim. E a verdade é que a riqueza da tua equipa depende das soluções que te dão os teus jogadores”.


Cada vez é mais importante ter jogadores de talento no plantel. O espaço para haver futebolistas que apenas sabem cumprir uma função (vide Fernando, por exemplo) vai diminuindo quando queres implementar um modelo de jogo que exige uma constante adaptação do jogador. E isso leva-nos a Ruben Neves. É um 6? É um 8? Não é bem nenhuma das coisas mas desempenha-se igualmente bem em ambos lugares porque entende o jogo e sabe adaptar-se ás soluções que tem para oferecer. Por isso Oliver pode jogar na ala em momentos pontuais ou Brahimi. Jogadores uniposicionais funcionam cada vez menos em equipas dinâmicas que querem ter a bola. A maior diferença? Cristiano Ronaldo é o melhor rematador do mundo, joga bem em diagonal mas precisa de espaço para mexer-se e aproveitar os seus recursos. No meio do meio-campo ou só na área perde muito. A Messi podemos vê-lo em qualquer zona do terreno de jogo porque está preparado desde a mais tenra idade a saber dar soluções para todos os problemas.


“Temos de ser muito agressivos quando perdemos a bola no campo contrario. Esse roubo é uma arma, mas de ataque, não de defesa, porque o adversário está a preparar o seu ataque e se a recuperas encontras espaços livres”.


Uma das grandes armas do Porto de Villas-Boas (e do Barcelona de Guardiola) era a pressão alta e o rápido roubo de bola, um conceito recuperado do Milan de Sacchi e do Dinamo de Kiev de Lobanovsky. Essa pressão alta obriga aos jogadores a um constante trabalho físico o que muitas vezes choca com a juventude dos jogadores do plantel (o Ruben jogava 80 minutos por jogo há poucos meses) e esse savoir faire de saber como dosificar-se (o melhor exemplo do futebol actual é, sem dúvida, Tiago). Nesse puzzle um jogador como Herrera seria válido – devido à sua boa capacidade de recuperação – se depois a sua tomada de decisão não fosse habitualmente desastrosa. Essa dose de agressividade pedida por Lopetegui tem faltado este ano em muitos jogos e deve-se, sobretudo, à natureza dos jogadores disponíveis.

“A chave de tudo é que a posse de bola não seja uma arma contra nós. É preciso saber dar-lhe uso.”


Os grandes profetas da possessão têm lidado com este problema há bastante tempo. Ter a bola nos pés para atacar e também para defender (e nesse capitulo a Espanha demonstrou que tanto pode ser uma máquina de ataque ao bom estilo holandés como uma Itália com a bola a defender e evitar o desgaste físico e psicológico do jogo posicional sem esférico) e isso foi uma das grandes queixas ao FC Porto de Vitor Pereira e agora também a este. Tinhamos a bola mas raramente sabíamos transformar a posse em perigo real.
O caso mais exemplar dos últimos anos talvez tenha sido o jogo contra o Malaga, no Dragão, onde o domínio foi asfixiante mas as oportunidades (e o resultado) tão escasso que acabamos eliminados no jogo da segunda mão. Naturalmente que ter a bola só serve se esta for aplicada em criar desequilíbrios basculando o rival até encontrar gretas. Para isso é preciso dois elementos fundamentais: um conjunto de jogador que saiba fazê-lo de forma homogénea (e aí é onde entram as habituais criticas a Quaresma, Tello ou Herrera que perdem o sentido grupal no processo) mas também uma rotina que é difícil de aplicar num projecto renovado quase de raiz e que se prolongará ad aeternum num clube que vive de vender os seus melhores activos.

“Ás vezes podes correr menos e outras vezes mais porque o rival também pode querer ter a iniciativa do jogo e o futebolista tem de estar preparado para isso, para essa dupla dinâmica.”

O FC Porto disputa 90% dos jogos de uma temporada procurando ter a iniciativa. Aliás, como ficou demonstrado na derrota com o Benfica, mesmo na esmagadora maioria dos jogos contra os rivais pelo titulo, a iniciativa cabe-nos a nós. Salvo algum jogo pontual de Champions League, a bola é nossa. O grande problema é precisamente esse, que os jogadores se habituem tanto a ter a bola que contra um rival distinto se vejam completamente descaracterizados e perdidos em campo. É um tema importante mas não fundamental, ainda que esse 10% de jogos se possam transformar rapidamente nos jogos mais importantes do ano. No entanto acredito que face á nossa realidade é cada vez mais importante saber pensar o jogo tendo a bola mas abrindo espaços nos habituais autocarros que encontramos. Afinal, esse é o nosso cavalo de batalha.

“Os treinos devem ser explicados aos jogadores antes de que se ponham a fazer os exercícios. É preciso que entendam o porquê porque assim sabem melhor o que têm de fazer.”


Como disse ao principio o trabalho do treinador – e por isso a escolha do treinador – é cada vez mais relevante. No FC Porto sempre se pensou o oposto, que o importante era ter um homem de estrutura (vide Fernando Santos, Jesualdo Ferreira) e bons jogadores. Ciclos curtos sempre e pouco poder ao treinador. Uma ideia extremamente desfasada da realidade. Houve uma altura do jogo, sim, onde os treinadores eram apenas responsáveis da condição física. Depois passaram a ser, sobretudo, organizadores e motivadores. Hoje são o motor de tudo. Os jogadores movem-se em espaços pre-determinados e a pesar do seu talento, uma equipa só funciona se o seu treinador está a fazer bem o seu trabalho. De aí que os treinos sejam cada vez mais relevantes. Não só nos lances estudados de laboratório mas, sobretudo, na repetição de circunstancias de jogo. É bom saber – não era difícil de imaginar – que o treinador do FC Porto é consciente dessa situação mas também parece claro que apesar das suas boas intenções há ainda muitos jogadores que não assumiram o seu papel como se espera deles.

“O futebolista aprende por repetição e descobrimento espontâneo e por isso temos de automatizar movimentos mas sempre com cuidado, não queremos matar a criatividade do jogador. Este tem de saber que nesse momento chave, quando acaba o espaço para o automatismo e aparece o espaço para a improvisação, o que fazer”.

Quaresma, Tello, jogadores de talento técnico superior mas com problemas no jogo automatizado colectivo. Brahimi, Oliver, jogadores de talento técnico superior e com total integração nos automatismos do grupo. Essa é a grande diferença entre uns e outros. São os quatro virtuosos com a bola mas apenas dois deles realmente sabem que naquele momento onde o treino acaba e a realidade começa, que decisões tomar para beneficio do colectivo. Seguramente haverá trivelas fantásticas de Quaresma e sprints com golo ou assistência de Tello e é importante ter esses jogadores no plantel para desbloquear uma equipa. Mas a realidade é cada vez mais outra e um treinador que tem um futebolista como Pedro Rodriguez, por exemplo, tem uma mina de ouro. Só os grandes clubes podem presumir de ter figuras mundiais tão grandes que saibam manobrar com igual facilidade os dois componentes. Para clubes como o FC Porto, com as suas limitações de mercado, é inevitável ter um Tello em vez de um Pedro Rodriguez (para que entendam o abismo que há entre dois jogadores da mesma escola de formação) porque o segundo é muito mais raro e portanto caro e o primeiro, embora espectacular, aos treinadores mais exigentes não convence. O que terá de saber fazer Lopetegui – e quem esteja no seu lugar – é reducir ao máximo as debilidades individuais dos Tellos, transforma-los de melhor forma possível em Pedros. Jogadores que sabem que a sua criatividade não desaparece com o treino mas que, dominando ambas facetas, nos momentos da tomada de decisão, raramente se enganam. E ele sabe bem isso!

Quem quiser a entrevista na integra pode fazê-lo aqui.

domingo, 19 de janeiro de 2014

As mensagens de Pinto da Costa


O FC Porto foi eliminado da Liga dos Campeões. No campeonato, no final da 1ª volta, a equipa está no 3º lugar. Num cenário destes, qual o objetivo de uma entrevista de Pinto da Costa ao Porto Canal, imediatamente após uma derrota em casa do principal rival?

Se Pinto da Costa, um reconhecido expert em futebol, fosse um mero comentador, ou adepto portista (ele teve o cuidado de distinguir adeptos de sócios), talvez fosse de esperar uma análise fria, rigorosa e coerente ao momento atual da equipa portista, quiçá com a identificação de alguns erros cometidos. Mas Pinto da Costa é o máximo responsável do clube e da SAD e, por isso, optou por jogar ao ataque e usar o tempo de antena que teve à sua disposição para disparar em várias direções.

O que eu interpretei de algumas das mensagens que Pinto da Costa quis transmitir:

Paulo Fonseca – 100% de apoio ao treinador atual. Sinceramente, alguém esperava que, a meio do campeonato, Pinto da Costa dissesse outra coisa?

Nomeações / Rui Silva (árbitro do Estoril x FC Porto) – “fez lembrar os tempos do Inocêncio Calabote...”. Seria uma surpresa se, esta época, o árbitro de Vila Real voltasse a ser nomeado para jogos do FC Porto.

Nomeações / Artur Soares Dias (árbitro do slb x FC Porto) – Para além das fortes críticas, que deverão garantir um período de nojo na nomeação deste árbitro internacional para jogos do FC Porto, pareceu-me relevante Pinto da Costa dizer que a arbitragem do jogo da Luz foi para agradar a quem o pode projetar para a elite da arbitragem internacional (“pode ser por ter ficado deslumbrado com promessas da FIFA...”). Seria interessante que a comunicação social explorasse esta deixa.

Arbitragem em geral – Pela primeira vez, ouvi Pinto da Costa dizer que defende um lote de árbitros profissionais, mas a nível europeu e arbitrando em diferentes países, para não serem sujeitos a pressões. Desse lote de árbitros de elite (Pinto da Costa falou em cerca de 50 árbitros), sairiam os árbitros nomeados para diferentes campeonatos de países geograficamente perto (por exemplo, Portugal, Espanha, França, Itália, …).

Liga – A Liga de Clubes perdeu poder, perdeu credibilidade, perdeu patrocinadores e deixou de ter os clubes na Direção (“no executivo da associação que os clubes criaram não há presidentes de futebol, só há advogados…”). A Liga, com sede no Porto e “motor” do futebol português, morreu. Ou seja, o poder do futebol português regressou a Lisboa e está novamente centralizado na FPF. Outra deixa interessante para a comunicação social explorar.

Fernando Gomes – Tem muito boa imprensa, mas não é alguém que esteja na FPF com o apoio de Pinto da Costa (isso já sabíamos), bem pelo contrário. Fernando Gomes tem uma estratégia pessoal de poder e, para alcançar os seus objetivos, faz as alianças que forem necessárias (incluindo com Luís Filipe Vieira e Bruno Carvalho). Ex-atleta, ex-vice-presidente do clube e ex-administrador da SAD, cortou o cordão umbilical e não terá o apoio de Pinto da Costa para a sua sucessão.

António Oliveira – O maior acionista individual da FC Porto SAD, ex-jogador e ex-treinador do FC Porto, não está nas boas graças de Pinto da Costa. E, em termos de sucessão na presidência do clube, se António Oliveira avançar, Pinto da Costa deverá fazer-lhe o mesmo que Rui Rio fez a Luís Filipe Menezes, isto é, lançar e apoiar (implicitamente) outro candidato (tudo indica que será Antero) e dar as entrevistas necessárias, para que os sócios do FC Porto fiquem convencidos que o irmão de Joaquim Oliveira não serve para ocupar a cadeira do poder.

P.S. Claro que não é só por causa das arbitragens que o FC Porto passou de uma vantagem de 5 pontos para uma desvantagem de três. Contudo, quer no Estoril x FC Porto, quer no slb x FC Porto, as arbitragens prejudicaram objectivamente o FC Porto e Pinto da Costa teve razão nos cinco lances/erros desses jogos que referiu.