Julen Lopetegui concedeu uma entrevista ao prestigioso jornal espanhol El
Pais. Uma entrevista onde coloca sobre "papel" aquilo para que foi contratado
e o que tem como objectivo aplicar. Parece evidente, pelo discurso do
treinador, que todos na estrutura do clube têm assumido que é um projecto a
médio prazo independentemente do que passe até Junho, pelo menos. Parece-me uma boa solução e ninguém poderá dizer que a SAD não é fiel a si mesma, com o relevante resultado final. Este treinador sabe que tem o
respaldo da direcção - coisa que faltou a Vitor Pereira, por exemplo, de forma clara - e que a aposta do Clube em renovar o clube de cima abaixo
obedece a esse desejo de mudar.
Realmente, para quem conhece o trabalho a fundo
de Villas Boas e Vitor Pereira, o rumo aplicado por Lopetegui é um regresso ao
que já se fazia. O que muda essencialmente são os interpretes. Cada vez mais
novos, cada vez mais preparados para os desafíos do futuro imediato. A idade
não é coincidência. Por um lado, Lopetegui é um treinador de formação. Sempre o
foi em todas as suas experiências prévias. Por outro está a velha filosofía de
que a aprendizagem é um largo processo e quanto antes se começar, melhor. Não é
o mesmo tirar “vícios” a veteranos que ensinar, quase desde os primeiros passos
profissionais, a jovens promessas.
Dessa entrevista, muito boa aliás, retiro algumas frases
chave que vale a pena reler para entender o que quer e o que planeia Lopetegui para o FC Porto nos próximos dois anos:
“Da-se por garantido que os jogadores entendem o
jogo e não é verdade”
A esmagadora maioria dos adeptos parte do principio que todo
o jogador tem, no seu interior, um Xavi Hernandez mas que só alguns poucos o
desenvolvem. Lopetegui pertence ao grupo (onde me incluo aliás) que pensa
precisamente o oposto. A maioria dos jogadores são, em termos tácticos, e para
usar o bom calão da minha “Invicta” “cepos”. E são-no porque a esmagadora
maioria dos clubes, na área da formação, não fomenta a aprendizagem do jogo
como tal mas sim o desenvolvimento físico e, eventualmente, o trabalho
posicional concreto. Quando um futebolista com 19 anos chega à primeira equipa
há muitos conceitos básicos que nem sequer explorou ainda e por isso o salto
para a elite custa tanto a muitos que tanto prometiam nas camadas jovens. Por
isso mesmo o trabalho do treinador é cada vez mais importante. Menos espaços,
ritmo mais intenso, maior necessidade de compreender o máximo número de
conceitos possíveis. Hoje em dia os futebolistas continuam a ser as estrelas
mas cada vez mais os jogos se decidem no trabalho diário dos treinadores.
“Quando recebi a oferta do FC Porto percebi que queriam
criar uma maneira de entender o jogo. Esta é a equipa mais jovem da história do
Porto e esse converte-a num projecto
muito atractivo.”
Lopetegui parte do principio com esta afirmação que nunca se
jogou como se joga agora no clube o que não é certo. Não é por acaso que ao
Porto de Villas-Boas se comparava em toda a Europa com o Barcelona de
Guardiola. O que sim está claro é que o ano de Paulo Fonseca deixou claro que
não deve haver novas derivas futuras e que o modelo deve ser aprofundado até ás
categorias base. A juventude do projecto também não deve enganar. Os problemas
financeiros do clube forçam-nos a recorrer cada vez mais a jogadores jovens
(comprados, emprestados, graças a fundos) com salarios mais baixos e potencial
de rentabilidade futura maior.
“Eu quero que os meus jogadores sejam capazes de entender o
jogo e acho que quando jogas entendes muito pouco e isso passava-me também a
mim. E a verdade é que a riqueza da tua equipa depende das soluções que te dão
os teus jogadores”.
Cada vez é mais importante ter jogadores de talento no
plantel. O espaço para haver futebolistas que apenas sabem cumprir uma função
(vide Fernando, por exemplo) vai diminuindo quando queres implementar um modelo
de jogo que exige uma constante adaptação do jogador. E isso leva-nos a Ruben
Neves. É um 6? É um 8? Não é bem nenhuma das coisas mas desempenha-se igualmente
bem em ambos lugares porque entende o jogo e sabe adaptar-se ás soluções que
tem para oferecer. Por isso Oliver pode jogar na ala em momentos pontuais ou
Brahimi. Jogadores uniposicionais funcionam cada vez menos em equipas dinâmicas
que querem ter a bola. A maior diferença? Cristiano Ronaldo é o melhor
rematador do mundo, joga bem em diagonal mas precisa de espaço para mexer-se e
aproveitar os seus recursos. No meio do meio-campo ou só na área perde muito. A
Messi podemos vê-lo em qualquer zona do terreno de jogo porque está preparado
desde a mais tenra idade a saber dar soluções para todos os problemas.
“Temos de ser muito agressivos quando perdemos a bola no
campo contrario. Esse roubo é uma arma, mas de ataque, não de defesa, porque o adversário está a preparar o seu ataque e se a recuperas encontras espaços livres”.
Uma das grandes armas do Porto de Villas-Boas (e do
Barcelona de Guardiola) era a pressão alta e o rápido roubo de bola, um
conceito recuperado do Milan de Sacchi e do Dinamo de Kiev de Lobanovsky. Essa
pressão alta obriga aos jogadores a um constante trabalho físico o que muitas
vezes choca com a juventude dos jogadores do plantel (o Ruben jogava 80 minutos
por jogo há poucos meses) e esse savoir faire de saber como dosificar-se (o
melhor exemplo do futebol actual é, sem dúvida, Tiago). Nesse puzzle um jogador
como Herrera seria válido – devido à sua boa capacidade de recuperação – se depois
a sua tomada de decisão não fosse habitualmente desastrosa. Essa dose de
agressividade pedida por Lopetegui tem faltado este ano em muitos jogos e deve-se,
sobretudo, à natureza dos jogadores disponíveis.
“A chave de tudo é que a posse de bola não seja uma arma
contra nós. É preciso saber dar-lhe uso.”
Os grandes profetas da possessão têm lidado com este problema
há bastante tempo. Ter a bola nos pés para atacar e também para defender (e
nesse capitulo a Espanha demonstrou que tanto pode ser uma máquina de ataque ao
bom estilo holandés como uma Itália com a bola a defender e evitar o desgaste físico e psicológico do jogo posicional sem esférico) e isso foi uma das grandes
queixas ao FC Porto de Vitor Pereira e agora também a este. Tinhamos a bola mas
raramente sabíamos transformar a posse em perigo real.
O caso mais exemplar dos
últimos anos talvez tenha sido o jogo contra o Malaga, no Dragão, onde o
domínio foi asfixiante mas as oportunidades (e o resultado) tão escasso que
acabamos eliminados no jogo da segunda mão. Naturalmente que ter a bola só
serve se esta for aplicada em criar desequilíbrios basculando o rival até
encontrar gretas. Para isso é preciso dois elementos fundamentais: um conjunto
de jogador que saiba fazê-lo de forma homogénea (e aí é onde entram as
habituais criticas a Quaresma, Tello ou Herrera que perdem o sentido grupal no
processo) mas também uma rotina que é difícil de aplicar num projecto renovado
quase de raiz e que se prolongará ad aeternum num clube que vive de vender os
seus melhores activos.
“Ás vezes podes correr menos e outras vezes mais porque o
rival também pode querer ter a iniciativa do jogo e o futebolista tem de estar
preparado para isso, para essa dupla dinâmica.”
O FC Porto disputa 90% dos jogos de uma temporada procurando
ter a iniciativa. Aliás, como ficou demonstrado na derrota com o Benfica, mesmo
na esmagadora maioria dos jogos contra os rivais pelo titulo, a iniciativa
cabe-nos a nós. Salvo algum jogo pontual de Champions League, a bola é nossa. O
grande problema é precisamente esse, que os jogadores se habituem tanto a ter a
bola que contra um rival distinto se vejam completamente descaracterizados e
perdidos em campo. É um tema importante mas não fundamental, ainda que esse 10%
de jogos se possam transformar rapidamente nos jogos mais importantes do ano.
No entanto acredito que face á nossa realidade é cada vez mais importante saber
pensar o jogo tendo a bola mas abrindo espaços nos habituais autocarros que
encontramos. Afinal, esse é o nosso cavalo de batalha.
“Os treinos devem ser explicados aos jogadores antes de que
se ponham a fazer os exercícios. É preciso que entendam o porquê porque assim
sabem melhor o que têm de fazer.”
Como disse ao principio o trabalho do treinador – e por isso
a escolha do treinador – é cada vez mais relevante. No FC Porto sempre se pensou o oposto, que o importante era ter um homem de estrutura (vide Fernando Santos, Jesualdo Ferreira) e bons jogadores. Ciclos curtos sempre e pouco poder ao treinador. Uma ideia extremamente desfasada da realidade. Houve uma altura do jogo, sim, onde os treinadores eram apenas responsáveis da condição física. Depois
passaram a ser, sobretudo, organizadores e motivadores. Hoje são o motor de
tudo. Os jogadores movem-se em espaços pre-determinados e a pesar do seu
talento, uma equipa só funciona se o seu treinador está a fazer bem o seu
trabalho. De aí que os treinos sejam cada vez mais relevantes. Não só nos
lances estudados de laboratório mas, sobretudo, na repetição de circunstancias de
jogo. É bom saber – não era difícil de imaginar – que o treinador do FC Porto é
consciente dessa situação mas também parece claro que apesar das suas boas
intenções há ainda muitos jogadores que não assumiram o seu papel como se
espera deles.
“O futebolista aprende por repetição e descobrimento espontâneo e por isso temos de automatizar movimentos mas sempre com cuidado,
não queremos matar a criatividade do jogador. Este tem de saber que nesse
momento chave, quando acaba o espaço para o automatismo e aparece o espaço para
a improvisação, o que fazer”.
Quaresma, Tello, jogadores de talento técnico superior mas
com problemas no jogo automatizado colectivo. Brahimi, Oliver, jogadores de
talento técnico superior e com total integração nos automatismos do grupo. Essa
é a grande diferença entre uns e outros. São os quatro virtuosos com a bola mas
apenas dois deles realmente sabem que naquele momento onde o treino acaba e a
realidade começa, que decisões tomar para beneficio do colectivo. Seguramente
haverá trivelas fantásticas de Quaresma e sprints com golo ou assistência de
Tello e é importante ter esses jogadores no plantel para desbloquear uma
equipa. Mas a realidade é cada vez mais outra e um treinador que tem um futebolista
como Pedro Rodriguez, por exemplo, tem uma mina de ouro. Só os grandes clubes
podem presumir de ter figuras mundiais tão grandes que saibam manobrar com igual
facilidade os dois componentes. Para clubes como o FC Porto, com as suas
limitações de mercado, é inevitável ter um Tello em vez de um Pedro Rodriguez
(para que entendam o abismo que há entre dois jogadores da mesma escola de
formação) porque o segundo é muito mais raro e portanto caro e o primeiro,
embora espectacular, aos treinadores mais exigentes não convence. O que terá de
saber fazer Lopetegui – e quem esteja no seu lugar – é reducir ao máximo as
debilidades individuais dos Tellos, transforma-los de melhor forma possível em
Pedros. Jogadores que sabem que a sua criatividade não desaparece com o
treino mas que, dominando ambas facetas, nos momentos da tomada de decisão,
raramente se enganam. E ele sabe bem isso!
Quem quiser a entrevista na integra pode fazê-lo
aqui.