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domingo, 17 de janeiro de 2016

Fisgas contra Canhões

Capas de jornais do dia 16-01-2016

Os sportinguistas têm razão de queixa da arbitragem do Sporting x Tondela?
Claro que não.
Então porquê esta gritaria?
Porque, no campeonato português, esta pressão contínua sobre os árbitros acaba, mais tarde ou mais cedo, por render pontos.
E o Sporting este ano começou cedo, quer a pressionar, quer a obter dividendos dessa pressão.

Logo na 1ª jornada, o Sporting ganhou ao Tondela (em Aveiro) por 1-2, com um golo de penalti ao minuto 90+8'. Foi, também, o jogo em que o João Pereira fez um lançamento lateral com os pés já dentro das 4 linhas.

Lançamento lateral de João Pereira

Na 5ª jornada, no Sporting x Nacional, um jogador do Nacional foi expulso ao minuto 32. O Sporting ganhou por 1-0, com um golo de Montero ao minuto 86.

No final desse jogo, o treinador do Nacional, Manuel Machado, disse o seguinte:
A minha equipa esteve muito bem defensivamente. Jogando uma hora em inferioridade (...) Os árbitros, não tendo claques, têm de ser protegidos e isso inibe-me de dizer o que penso, também por carácter e princípios. Hoje foi preciso mais do que o Sporting para que o Nacional saísse vencido

Na 9ª jornada, o Sporting ganhou por 1-0 ao Estoril, com o único golo a ser marcado de penalti.

No final desse jogo, o treinador do Estoril, Fabiano Soares, disse o seguinte:
Vocês viram. Perder assim é complicado. Eu erro, os jogadores erram e eles [árbitros] também. Vocês têm as imagens e elas são claras.

Na 10ª jornada, o Sporting ganhou em Arouca por 1-0, com o golo da vitória a ser marcado por Slimani, ao minuto 90’.

No final desse jogo, a propósito de uma grande penalidade clara não assinalada a favor da equipa da casa (ao minuto 84), o treinador adjunto do FC Arouca disse o seguinte:
Sabe que, infelizmente, quem semeia ventos não colhe tempestades. E as equipas pequenas sofrem essas tempestades. Há que refletir, toda a estrutura do futebol, sobre estas tempestades e ventos que estão a ser provocados de forma propositada

Penalti por assinalar no Arouca x Sporting

Mais tarde veio-se a saber, que o árbitro deste jogo, Cosme Machado, teve uma má avaliação (o árbitro da AF Braga foi classificado com 2,4), muito por causa da grande penalidade que ficou por assinalar a favor dos arouquenses.

Na 11ª jornada, o Sporting ganhou por 1-0 ao Belenenses, com o golo da vitória a ser marcado de penalti ao minuto 90+4'.
Foi o célebre jogo da mão do Manaca... perdão, do Tonel.

Na 17ª jornada, a perder em casa por 0-2, surgiu um penalti miraculoso (mais uma vez), decisivo para o Sporting inverter a tendência do jogo, dar à volta ao resultado e vencer o SC Braga por 3-2.


Obviamente, não foi por acaso que, logo no final deste Sporting x Tondela, primeiro o presidente e depois o treinador leonino, “apontaram e dispararam os canhões” contra o árbitro.
E, menos de 24 horas depois, o presidente da AG (Jaime Marta Soares) já veio ajudar à festa.
Falta apenas o Octávio Machado. Afinal, o “Palmelão” foi contratado para quê?

Ora, se os nossos rivais usam “canhões”, nós não podemos ir para uma “guerra” destas com “fisgas”, sem “generais” e com os nossos “soldados” a marcharem uns para cada lado.

E reagir 48 horas depois, quando ninguém nos está a ouvir, serve apenas para ocupar espaço na grelha do Porto Canal.

Já agora, alguém me diz quem é o nosso Octávio Machado?...


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Uma Muito Importante Efeméride: o Título de 1984/85




Completaram-se este ano trinta anos do nosso titulo de campeões nacionais em 1984/85, uma efeméride que passou praticamente despercebida. Mas esse título foi importantíssimo, a vários níveis.

No historial do F.C. Porto, bem como no imaginário dos adeptos que conhecem a história do clube, o título de 1977/78, quebrando o famoso jejum de dezanove anos, acabou por fazer esquecer o significado de outros títulos nacionais posteriores. Mas a vitória no campeonato de 1984/85 teve vários significados muito importantes:

1. A verdade é que, em 1984/85 quebrámos outro "mini-jejum", que já vinha de 1979, ano do segundo título de José Maria Pedroto;

2. Tratou-se do primeiro título de campeão nacional de Jorge Nuno Pinto da Costa como presidente, o que lhe permitiu cimentar a sua posição de líder e calar as últimas vozes que ainda não tinham digerido o "Verão Quente das Antas" de 1980;

3. Foi também o primeiro titulo de campeão nacional de Artur Jorge, à sua primeira tentativa, e quando muita gente ainda exibia dúvidas quanto à sua capacidade;

4. Provou-nos que podíamos ganhar sem Pedroto. O grande Zé do Boné partira deste mundo em Janeiro de 1985, a meio dessa época, portanto. Nos vinte cinco anos anteriores só ele tinha ganho alguma coisa no F.C. Porto: dois campeonatos e três Taças de Portugal;

5. Mostrou a nossa renovada capacidade de fazer das fraquezas forças: no defeso anterior a essa época, o Sporting, servindo-se de uma cláusula muito portuguesa no contrato colectivo dos futebolistas (ainda existe contratação colectiva para eles?) tinha desviado dois nossos fundamentais jogadores, António Sousa e Jaime Pacheco. Tivemos que lançar às feras duas recentes contratações, Quim e André, os quais responderam magnificamente. Mas, mais que isso, servindo-nos da mesma bizarra cláusula, retaliámos, subtraíndo ao Sporting um dos maiores talentos de sempre do futebol português, o nosso caro e sempre estimado Paulo Futre.

O título de 1984/85 tem vários "pais", claro: Pedroto, cujo trabalho estivera na base dessa grande equipa, Jorge Nuno Pinto da Costa, homem de sangue frio e galharda atitude nessas difíceis circunstâncias, Octávio Machado, treinador-adjunto de grande gabarito, mas, fundamentalmente, o homem do leme, o técnico que, dois anos depois, nos faria agarrar o "grande caneco" numa célebre noite em Viena: Artur Jorge.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Imitar Octávio

No arranque da época 2001/2002, o FC Porto recebeu os campeões suíços - Grasshoppers -, num jogo para a 3ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões.
Nesse jogo, disputado em 8 de Agosto de 2001, os dragões marcaram cedo e estiveram em vantagem durante 44 minutos, mas os gafanhotos conseguiram a proeza de marcar dois golos no Estádio das Antas e o resultado final foi um empate por 2-2.

Duas semanas depois, o FC Porto deslocou-se a Zurique (na zona germanófona da Suiça) e no Hardturm stadium impôs o seu futebol, a superior categoria dos seus jogadores, venceu com naturalidade e seguiu para a fase de grupos da Liga dos Campeões 2001/2002 (Grasshopper-FC Porto, crónica de José Luís Pereira, publicada em 23 agosto de 2001 | 02:55).

Ficha do jogo Grasshoppers x FC Porto (fonte: zerozero.pt)

Mesmo estando a atravessar um mau momento, custa-me a aceitar que o FC Porto 2013/2014 seja pior equipa que o atual 13º classificado do campeonato alemão (5 vitórias em 22 jogos na Bundesliga!).

Por isso, o que se pede a este FC Porto de Paulo Fonseca é que tenha atitude, honre a camisola azul-e-branca e, pelo menos, imite o FC Porto de Octávio Machado.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Treinador - Mudar ou não mudar, eis a questão!

É a primeira derrota para o campeonato. Quem cresceu com o FC Porto nos anos 80 e 90 sabe perfeitamente que os campeonatos ganham-se com vitórias, empates e também com derrotas. Todos as vivemos. Mas a geração pós-Gelsenkirchen cresceu noutro mundo. Para isso contribuiu, sobretudo, a anemia de qualidade do nosso futebol. Nos últimos anos dois clubes - FC Porto e SL Benfica - quase nunca perdem, raramente empatam e dominam a belo prazer o campeonato decidindo, quase sempre entre si, o título. A péssima situação do Sporting, a incapacidade do Braga de dar o salto e a ausência de uma versão real do Boavista entre 1992-2004 ajuda a explicar essa situação. Mas não só. A diferença de orçamentos exige, praticamente, que FC Porto e SL Benfica não percam. Nunca as diferenças com o resto foram tão grandes na qualidade individual, nos planteis disponíveis, nos ingressos e nos gastos. Por isso hoje, para um adepto do FC Porto, perder um jogo tornou-se num drama. Pode não haver margem de manobra.

Pessoalmente sou contra o despedimento de treinadores durante a temporada.
Acho que quem arranca o barco deve levá-lo até ao fim, passe o que passar. Sobretudo porque a responsabilidade é de muitos, não só sua. Num clube como o FC Porto, onde muitas das decisões são tomadas sem ter em conta (ou em muitos casos, apesar da opinião do) o que pensa o treinador. Mas o futebol é o que é e não sou eu quem o vai mudar e muitas vezes a mudança de um só homem tem o condão de despertar outros 25. No nosso caso com particular sucesso...no ano seguinte!

Remontando-me apenas à era Pinto da Costa, houve apenas 4 treinadores despedidos durante a época (não conto aqui, naturalmente, com Del Neri e Adriaanse porque estavamos no defeso em ambos casos). A primeira vez foi com Quinito. Despedido à 11º jornada em 1988, nesse ano o FC Porto foi treinado brevemente por Murça antes de confirmar-se o regresso do "rei Artur". O FC Porto não foi campeão (o título foi para o Benfica) mas preparou-se para mais um título na temporada seguinte com o nosso primeiro campeão europeu. Depois foi a vez de Ivic, em 1993. O sérvio, voltou ás Antas sem sucesso. Quando saiu o FC Porto era terceiro no campeonato e para o seu lugar chegou Bobby Robson, recém-despedido de um líder Sporting. Com o inglês não só se ultrapassou o Sporting como se desenhou a base do que seria o Penta. A terceira vez sucedeu com Octávio Machado. Conseguiu passar o Natal mas não sobreviveu a Janeiro e com ele vivemos outro ano negro, terminando a época em 3º apenas graças a um grande sprint liderado por...José Mourinho. Não é preciso explicar o resto. Só por uma vez, a última, o homem que substituiu o treinador despedido não funcionou na época seguinte. Porque não estava lá. Victor Fernandez foi campeão do Mundo mas os maus jogos no Dragão e a irregularidade de uma equipa de campeões europeus e contratações de luxo custou-lhe o lugar. José Couceiro não fez melhor, o titulo perdeu-se no último dia e o treinador foi-se embora abrindo caminho a um novo Tetra, conquistado entre Adriaanse e Jesualdo.

Quer isto dizer que mudar de treinador, no FC Porto, além de ser algo raro (Carlos Alberto Silva, Fernando Santos, Jesualdo Ferreira e Vitor Pereira sofreram contestação dos adeptos, tal como Paulo Fonseca, durante a época mas o presidente não os deixou cair e o resultado foi positivo, salvo com Fernando Santos!) só dá resultados à posteriori. Mudar hoje de treinador não garante, portanto, tendo em base a nossa experiência, um passaporte automático para o sucesso. Claro que há uma primeira vez para tudo.
O último campeão nacional português que chegou com a época a meio foi Augusto Inácio, com o Sporting, em 2000. É preciso recuar décadas para encontrar um exemplo similar. E não é por acaso.



Não acho que Paulo Fonseca tenha perfil de treinador para o FC Porto. Acho que é parte do problema, não o todo. E que centrar-nos exclusivamente na sua incompetência - que é evidente - não nos permite ver todo o problema em que estamos envolvidos. Mas isso fica para outro debate que trarei. Até porque o actual treinador do FC Porto é o primeiro em muito tempo que me faz pensar que mudar agora pode ser mais benéfico que prejudicial.

Em primeiro lugar porque não existe uma grande desvantagem com os rivais. Quem quer que chegue começará praticamente do zero em pontuação com Benfica e Sporting. Por outro lado, a paragem do Natal permitirá tempo para aclimatar-se ao clube, ao plantel e preparar os necessários ajustes - porque terá de haver algum ajuste - em Janeiro. E por último, olhando para o plantel - onde carecem figuras que inspiram liderança - não vejo força emocional para dar a volta à situação desde dentro como sucedeu no primeiro ano de Vitor Pereira, por exemplo. Há demasiados jovens, demasiadas caras novas e jogadores sem perfil para pensar que vão ser os jogadores a dar a cara e a salvar um treinador com o qual não estão cómodos. Os sinais da directiva, no final do jogo de Coimbra, também não são positivos. Quando Vitor Pereira esteve com a corda ao pescoço, a presença de Pinto da Costa ao seu lado calou os rumores e mandou uma mensagem ao balneário. Paulo Fonseca saiu sozinho do Municipal de Coimbra. É assim que ele está, apesar de ter sido uma aposta muito pessoal de Antero Henriques, que até há bem pouco tempo lhe deu todo o seu apoio.

Sabemos então que no FC Porto pouco se muda a meio da época e quando sucede os resultados só sucedem à posteriori. Sabemos também que o timing agora é o ideal e que o plantel e a direcção não parecem estar com o treinador. Mas que alternativas podemos manejar?

O FC Porto é um grande clube, mas é um clube dirigido desde dentro. Um clube que nunca se sentiu cómodo com a ideia de um treinador de personalidade forte. Mesmo Mourinho fez-se dentro do clube, não chegou como o "Special One" e Villas-Boas preferiu não ter de descobrir o que ia suceder num segundo ano depois de uma época perfeita. Portanto, toda a Europa sabe como o FC Porto se move e poucos são os treinadores de topo interessados nesse tipo de gestão. Sobram poucas opções, entre portugueses e estrangeiros.

Portugueses:
Marco Silva - Para muitos o homem que devia ter sucedido a Paulo Fonseca. É adepto confesso do Benfica, o que poderia ter jogado contra si, e com o Estoril tem feito um excelente trabalho. Continua a fazer a sua equipa jogar bem, mesmo com várias baixas, mas não parece apresentar nada de novo e há o receio, natural, que seja um Paulo Fonseca II.

Domingos Paciência - É um nome falado há muito tempo, não só pelo seu passado dragão mas pela excelente temporada que fez com o Braga. Desde então a sua carreira tem sido um desastre, tanto com o Sporting como com o Deportivo (onde foi colocado pela pressão de Jorge Mendes e onde se acabou por ir embora por não conseguir lidar com a pressão). Está sem clube.

Pedro Emanuel - Durante dois anos foi considerado por muitos como o próximo André Villas-Boas. Agora está no Arouca. Não é propriamente um grande cartão de visita e não tem demonstrado confirmar as suspeitas positivas que se tinha dele.

Leonardo Jardim - Para alguns adeptos seria a escolha ideal mas está comprometido com o Sporting e tem uma oportunidade histórica de recuperar o prestigio do leão. Não irá sair de Alvalade.

Nuno Capucho - Está a ser preparado pela direcção mas ninguém quer queimar etapas. Desde que tomou controlo das equipas de formação que muitos vêm nele o perfil ideal para liderar a primeira equipa e os resultados dão-lhe razão. Tem um perfil calmo, tranquilo e um conhecimento táctico surpreendente. Será treinador do FC Porto mas não quererá pegar numa equipa "queimada" tão cedo salvo se não existir outra opção.

André Villas-Boas - Tem a corda ao pescoço em Inglaterra mas, ao contrário de Artur Jorge, não acredito que queira voltar tão cedo ao seu clube, mesmo desempregado. Seria a escolha número 1 de todos os adeptos.

Estrangeiros
Marcelo Bielsa - Apenas o cito porque foi alvo de comentários no RP. Não é opção pura e simplesmente porque não é do perfil da direcção e não é o treinador que goste de ser controlado.

Mano Menezes - Paixão antiga da SAD, esteve desempregado até há poucas semanas, depois de uma má época com o Flamengo. Acabou de assinar pelo Corinthians e não vai abandonar o clube.

Muricy Ramalho - Na mesma situação de Menezes. Outra paixão antiga, foi muito questionado pelo São Paulo este ano e está ligeiramente acima da linha de despromoção. Contestado, poderia ser tentado por uma boa oferta.

Tite - Provavelmente o melhor treinador do futebol brasileiro nos últimos quatro anos. Acabou um ciclo memorável no Corinthinas, incluindo o título mundial, e está sem emprego. Hipótese interessante para os que querem uma conexão sul-americana.

Pepe Mel - Um dos melhores treinadores do futebol espanhol. Está com a corda ao pescoço no Real Bétis mas tem perfil para um clube de alto nível.



O cenário é este:
Mudar ou não mudar? 
A história do clube diz-nos que mudar não é habitual a opção da direcção e quando isso sucede o resultado só é visível na época seguinte. A situação actual no entanto dá a sensação de que Paulo Fonseca está só (sem plantel ao seu lado, sem o apoio da direcção e na mira dos adeptos) e que não tem capacidade para dar a volta por cima. O pior que pode suceder (perder o título) pode suceder com ele ou com qualquer outro treinador mas uma cara nova chegará com uma diferença pontual mínima e tempo para lutar pelo título até ao fim.

Se mudamos, quem ocupará o seu lugar?
Artur Jorge, Bobby Robson e José Mourinho foram três opções que tiveram resultados excelentes. José Couceiro a que correu mal. Actualmente só André Villas-Boas teria um perfil similar ao dos três primeiros. Todos os outros nomes despertam dúvidas, ora pela inexperiência e ausência de resultados sonantes (Pedro Emanuel, Marco Silva, Nuno Capucho, o passado recente de Domingos) ou porque despertam receio de uma conexão com o mercado brasileiro, quando muito raramente um treinador canarinho triunfa no futebol europeu.

O debate, na caixa de comentários!

PS: Não acredito que, actualmente, existam muitos adeptos do lado de Paulo Fonseca. O que não se admite é que uns meninos mal educados e que deviam ter passado uma noite nos calabouços recebam a equipa como receberam. Não sei se a manobra foi, oficialmente, dos SD ou iniciativa individual de quase 300 "adeptos". Nem me interessa. Há uma cultura de adeptos que só aceita a vitória. Que não entendo que o amor a um clube deve ser unidirecional. Se o clube devolve alegrias, tanto melhor. Se não, não se troca o amor por um soco só porque as coisas correm mal. Viveremos dias muito piores que estes, mais tarde ou mais cedo. Espero que muitos dos portistas de hoje sejam portistas então. Provavelmente os que receberam a equipa desta forma não estejam entre eles!

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Doping: as estórias de Casagrande

I. Casagrande e seus demónios: uma autobiografia

Há algumas semanas atrás, Walter Casagrande publicou uma autobiografia, em que fala da sua toxicodependência e das passagens por clínicas de desintoxicação.

«Walter Casagrande, antigo avançado brasileiro que passou pelo FC Porto, publicou um livro no qual relata um passado de drogas. “Casagrande e seus demónios” é o título da publicação, escrita em conjunto com um jornalista, e na qual também garante que se dopou num clube europeu, embora sem referir o nome.
Cansaço? Esquece. Se fosse preciso, dava para jogar três partidas seguidas”, conta o ex-jogador, a propósito do doping, citado pelo site brasileiro iG Esporte, que já leu o livro.
Cocaína, heroína, tequilha, doping: durante 20 anos joguei uma roleta russa, copiando o comportamento de autodestruição que vi nos meus ídolos do rock, Jim Morrison, Jimi Hendrix e Janis Joplin”, acrescenta Casagrande. (…)
Casão faz questão de contar o inferno que viveu quando era viciado em drogas e o seu internamento, pois para ele é fundamental seguir em frente, dividir as dores da dependência e alertar para os perigos de um vício frenético, sem preconceitos, desvios ou mentiras. (…)
Agora com 49 anos, Casagrande teve uma passagem sem sucesso em termos pessoais pelo FC Porto, em 1986/87, mas venceu o título europeu com Artur Jorge. Na temporada seguinte continuou no futebol europeu, ao serviço do Ascoli, seguindo-se o Torino, antes do regresso ao Brasil.»
09-04-2013


II. Casagrande no programa do Jô

«Walter Casagrande, avançado que trocou o Corinthians pelo FC Porto em 1986-87, admitiu numa entrevista ao Programa do Jô, talk-show brasileiro apresentado por Jô Soares, que se dopou quando representava os dragões.

“No dia em que me estreei na equipa, no FC Porto, eu não sabia que ia jogar. Um jogador avisou-me, porque o treinador não dava a escalação [constituição] da equipa, e disse-me: 'Você vai jogar, mas tem que usar um negócio lá'. Então eu fui e usei”.

(Casagrande no FC Porto x Vitória Guimarães, época 1986/87)

Usei umas quatro vezes… É uma situação que me envergonha, que me atrapalha muito mais do que pensar nas outras drogas que eu usei”, afirmou depois, revelando que a substância em questão “era injectável no músculo” e “dava uma disposição acima do normal”.

Questionado por Jô Soares sobre o controlo antidoping, Casagrande respondeu: “Não havia”.»
22-04-2013


Walter Casagrande estreou-se pelo FC Porto no dia 11 de janeiro de 1987, num desafio no Estádio das Antas contra o Vitória de Guimarães, o qual terminou empatado (2-2). O avançado brasileiro marcou o segundo golo do FC Porto, naquele que foi o único golo que marcou com a camisola azul-e-branca. Aliás, pode-se dizer que a sua passagem pelo Porto foi curta (menos de cinco meses) e mal sucedida.

Diz Casagrande no seu livro, na parte em que afirma ter-se dopado num clube europeu:
Cansaço? Esquece. Se fosse preciso, dava para jogar três partidas seguidas”.

Três partidas seguidas? No FC Porto?
Lendo isto, quem não souber até pode pensar que Casagrande disputou muitos jogos no FC Porto e que, para aguentar o intenso esforço que lhe era exigido, tinha que se dopar (quatro vezes, diz ele). Vejamos, então, a realidade dos factos.
Casagrande participou em apenas seis jogos do campeonato português (perfazendo um total de 318 minutos) e na Taça dos Campeões Europeus 1986/87 teve uma utilização residual (cerca de 60 minutos e na final nem sequer saiu do banco de suplentes).
Quanto a ter disputado três jogos seguidos num curto período de tempo, bem, isso é algo que nunca aconteceu, nem nada que se pareça. O mais seguido que Casagrande teve no FC Porto foram dois jogos, com um intervalo de seis dias (!), em que esteve em campo uma “enormidade” de 90 minutos (63+27).

Casagrande no FC Porto (fonte: zerozero)

Talvez no Ascoli (96 jogos entre 1987 e 1991), ou no Torino (47 jogos entre 1991 e 1993), os outros dois clubes europeus onde jogou, Casagrande tenha disputado três jogos numa semana, mas no FC Porto isso pura e simplesmente não aconteceu.

Quanto à afirmação de que em 1987 não havia controlo anti doping em Portugal é, também, uma afirmação falsa.
Em Setembro de 1979, foi publicada a primeira Legislação sobre o Controlo Anti Doping (Decreto-Lei n.º 374/79), regulamentada no início de 1980 (Portaria n.º 378/80).
A partir de 1982, as análises começaram a ser efetuadas no Laboratório de Análises de Doping, passando a ser controladas outras modalidades para além do ciclismo, com base na legislação publicada no final de 1979.

Para início de conversa, quem quisesse investigar a veracidade das afirmações de Casagrande, só nisto apanhava logo duas mentiras, mas há mais.


III. As reações do médico, treinador-adjunto e companheiros de equipa

São acusações falsas e graves. Essa prática nunca se efetuou no clube. As suas palavras [de Casagrande] são ofensivas à minha dignidade. As palavras de Casagrande também ofendem o FC Porto, que, se achar, deve accionar judicialmente o antigo jogador. Condeno em absoluto essas declarações. São falsas e ofendem a dignidade do departamento médico e do FC Porto. Lembro-me que Casagrande sofreu uma lesão grave num jogo em Brondby e que teve de ser operado. Depois disso foi eficiente e carinhosamente tratado no clube.”
Domingos Gomes (responsável pelo departamento médico do FC Porto em 1987), em declarações à Rádio Renascença


Isso [doping] é completamente falso. Ele é uma pessoa desequilibrada, com problemas mentais, teve problemas com drogas... O que é que ele disse? Que levava injeções no músculo? Injeções de quê? Podia ser um anti-inflamatório.
O FC Porto, por iniciativa própria, introduziu controlos anti doping internos regulares porque tinha uma grande preocupação com esse aspeto. Havia ainda controlos da UEFA e os controlos nacionais, como o próprio Dr. Luís Horta já referiu.”
Octávio Machado (treinador-adjunto na época em que Casagrande passou pelo FC Porto), em declarações ao site Maisfutebol

O FC Porto fazia controlos surpresa aos jogadores. Não foi por acaso que [Casagrande] foi mandado embora.”
Octávio Machado, em declarações ao jornal Diário Notícias

(Casagrande e Madjer, Viena, Maio de 1987)

O que eu acho é que o Casagrande ainda deve estar na ressaca. O que ele diz nem bate coisa com coisa. Dizer que soube por um colega que ia ser titular? Isso é mentira, só sabíamos pelo treinador. Aliás, diz que não havia controlo anti doping, mas eu fui ao controlo antes da final de Viena.”
Augusto Inácio (internacional português que jogou com Casagrande no FC Porto), em declarações à RTP


Estive seis anos no FC Porto e nunca vi, nunca ouvi falar disso e nunca ninguém me ofereceu nada. Durante os anos em que estive no clube fizemos vários exames antidoping. Tínhamos sempre estágio e concentração em hotéis. Era tudo controlado. Se existiu [doping], foi de forma particular, de iniciativa dele [Casagrande]. Dentro do FC Porto, não.
Tomávamos vitaminas, anti inflamatório, massagens, mas doping mesmo não. Se eu tomei, fui enganado, mas não acredito nisso.
Vinho sim, mas doping para jogar, nunca vi. Quando vi a entrevista até pensei que ele estava a falar de doping quando já jogava em Itália, porque sei que ele teve na altura problemas .”
Celso (jogador brasileiro que jogou com Casagrande no FC Porto), em declarações ao site Maisfutebol


Quase 30 anos depois vem dizer uma besteira destas. Não deve estar bom da cabeça. Mas trata-se de um rapaz que teve um percurso muito atribulado, meteu-se em coisas que não devia... Agora precisa de dinheiro e mentiu.”
Jaime Magalhães(internacional português que jogou com Casagrande no FC Porto), em declarações ao jornal A BOLA

O historial de Casagrande fala por ele. Só o conhecemos pelo uso de drogas e desintoxicações. Essa história só pode vir de uma pessoa que não está bem da cabeça.”
Jaime Magalhães, em declarações ao jornal Diário Notícias


IV. E nomes, factos ou provas, há?

Casagrande não apresentou qualquer nome, facto comprovável ou prova que sustente as suas afirmações. Pelo contrário, parte do que disse é comprovadamente falso. Mas, para além das mentiras referidas, Casagrande foi desmentido pelo responsável do departamento médico do FC Porto, pelos ex-companheiros de equipa que já se pronunciaram e pelo elemento da equipa técnica que mais de perto convivia com os jogadores e que era responsável por observar o comportamento dos atletas fora dos relvados (o treinador-adjunto Octávio Machado).
Chega?
Para mim, sim.

Como é óbvio, atribuo muito mais credibilidade ao Celso, ao Jaime Magalhães, ao Inácio e ao Octávio (que, ainda por cima, está de relações cortadas com o Pinto da Costa), do que a um individuo com o passado do Casagrande e que, qual ovni, teve uma curtíssima passagem pelo Porto há 26 anos atrás. Isto já para não falar no médico Domingos Gomes, pessoa que serviu o FC Porto e o futebol português durante muitos anos e que considero acima de qualquer suspeita.

Agora, para os jornalistas, adeptos e clubes que, à falta de melhor, vivem da suspeição e de sucessivas tentativas em denegrir o FC Porto, é evidente que estas declarações do Casagrande são um maná e irão tentar explorá-las o mais que puderem.
Por isso, sabendo do que são capazes (lembram-se dos ‘Donos da Bola’?), não ficaria surpreendido que os mesmos de sempre, já andassem à procura de mais algum ex-jogador do FC Porto, que estivesse disposto (a troco sabe-se lá de quê) a corroborar as afirmações de Casagrande.
E também fico à espera do dia em que o Casagrande vai dar (vender?) uma entrevista exclusiva à CM TV, Bola TV ou mesmo à benfica TV.

Aliás, e embora os casos e protagonistas tenham origens diferentes, eu comparo estas declarações/livro do Casagrande às declarações/livro da Carolina há uns anos atrás. Se virem bem, são dois casos com muitas semelhanças.
Falta apenas saber se a editora que irá comercializar o livro do Casagrande em Portugal é a mesma que editou o livro de Carolina Salgado.

(continuação em ‘Doping: estórias verdadeiras’)

Nota: Os destaques no texto a negrito são da minha responsabilidade.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O senhor que se segue para a cadeira de sonho

Ultimamente o tempo de vida estimado das cadeiras de sonho no Dragão tem sido bastante curto. Depois de Villas-Boas preferir o couro britânico antes de cumprir um ano de azul ao peito agora parece claro que Vítor Pereira não passará outro Verão como treinador principal do FC Porto. Nenhum adepto, nem os mais ferrenhos do técnico (ainda existem?) perspectivam uma sequela, mesmo que uma reviravolta surpreendente permita ao FCP revalidar o titulo de campeão nacional ou a própria Europe League.

Como SAD, treinador, jogador e adeptos já sabem que este filme tem data de caducidade marcada para Maio, é normal que arranque a especulação sobre qual será o próximo capitulo. Pinto da Costa tem sido um presidente bastante condescendente com os seus treinadores, especialmente os mais obedientes. Mesmo quando o público portista se mostrou farto de Jesualdo Ferreira ou Fernando Santos, por exemplo, estes mantiveram-se no seu lugar. Essencialmente porque a SAD – e o presidente – parece ter um especial apreço por treinadores que dão o corpo à bala, que se transformam no foco de contestação das massas e da imprensa e, por conseguinte, mantêm os focos distantes da gestão presidencial que nos casos de Fernando Santos (a partir de 2000), Jesualdo (o caso Apito Dourado) e Vítor Pereira (a péssima preparação da temporada) tem sido bastante criticável.


Mas até Pinto da Costa sabe que os seus homens de confiança e apostas pessoais (e os três foram-no) têm um limite e quando os resultados e as sensações deixam de acompanhá-los, tarde ou cedo a hora chega. Vítor Pereira sabe-o desde o principio, sente-o desde o empate com o Benfica e tem-no por garantido desde a eliminação da Champions. O despedimento de Domingos pode potenciar um cenário similar ao que ocorreu na troca de Octávio (outro adjunto que Pinto da Costa quis transformar em técnico ganhador) por José Mourinho (que esperava em Leiria pelo primeiro poiso livre). Mas apesar da velha glória do ataque portista ser um nome querido pelos adeptos, o seu péssimo ano em Alvalade, onde foi incapaz de produzir futebol e resultados, é um sério handicaap para quem quer dar um murro na mesa. Despedir um treinador que segue em segundo por um que é incapaz de saltar do quarto posto, por debaixo das expectativas do próprio clube, não parece ser o melhor dos sinais.

Quando Vítor Pereira foi eleito sucessor de Villas-Boas muitos adeptos torceram o nariz e pensaram em três nomes que, passado um ano, estão aí, disponíveis, mas com um historial distinto.

Á parte do tema Domingos, que promete levantar muitas suspeitas nas próximas semanas, estão na lista o seu herdeiro em Braga, Leonardo Jardim, há muito um protegido de Pinto da Costa e um técnico que tem feito um bom trabalho num clube que se tornou em viveiro dos grandes. Mas Jardim, é certo, ainda não deixou um destelho de genialidade que permita sentir que é “um treinador à Porto”.

Pedro Emanuel, filho adoptado da casa, passou o teste do ano de estreia com boa nota mas nem todos os treinadores que começam bem a sua carreira acabam por confirmar todo o potencial imaginado.


Depois há que manejar a opção Paulo Bento. Sempre se especulou sobre o seu futuro como treinador do FC Porto e tendo em perspectiva o fraco futuro de Portugal no “grupo da morte” do próximo Europeu, é bastante provável que o actual seleccionador esteja livre em Julho. Não será uma escolha consensual entre os adeptos face ao seu passado nos dois grandes da capital e o seu carácter conflictivo, mas analisando apenas o espectro de treinadores nacionais (pelos problemas de liquidez da SAD não os imagino a aventurar-se no caro mercado internacional) é dos técnicos que eventualmente estarão livres, o que mais curriculum tem.

Para o fim deixo a solução mais óbvia e, no entanto, mais complexa.
A péssima época de Villas-Boas com o Chelsea (a pior dos últimos dez anos a esta altura da temporada) parece deixar claro que os milhões de Abramovich vão procurar outro sucessor espiritual a Mourinho. Só uma inesperada vitória na Champions League salvaria a cabeça do técnico portuense que, provavelmente, em Junho procurará emprego. Desta vez nenhum grande da Europa vai obcecar-se com o seu talento e entre optar por um clube médio em Itália, Espanha e Inglaterra, e voltar ao Dragão, talvez AVB sinta saudade de um café nas esplanadas da Foz. Seria o regresso mais lógico, mas também o que provavelmente levantaria mais questões.

Com Pinto da Costa ao leme só dois treinadores voltaram a orientar o FC Porto. Tomislav Ivic foi um sucesso tremendo no seu primeiro ano, onde só faltou renovar a Taça dos Campeões, e um desastre no mandato de meio-ano em 1993/94. O outro nome é o de Artur Jorge. Com a subtil diferença de que o “rei Artur” saiu depois de três anos como treinador principal (e um par deles como homem de confiança de Pedroto), dois campeonatos, uma Taça dos Campeões europeus e que depois de fracassar no projecto Matra Racing, encontrou no regresso a casa uma forma de paliar o sofrimento do falecimento da sua esposa de então. Um regresso bem sucedido (mais um bicampeonato) e curto, antes que Portugal batesse à porta.


Villas-Boas seguramente iria ser bem recebido pelos adeptos mais saudosistas e mesmo aqueles que o tratam por “Libras Boas” são conscientes de que seria um técnico “right for the job”. Mas como reagiria o clube e, sobretudo os jogadores. Villas-Boas converteu-se em ídolo porque rompeu com os prognósticos e criou à sua volta uma aura de infalibilidade que o ano em Inglaterra ameaça destroçar. Voltaria como um técnico derrotado, incapaz de se impor numa liga mais exigente e isso pode deixar a sua marca como líder de um balneário que, já de por si, não anda propriamente de boa saúde. Tecnicamente seria uma opção desejável, psicologicamente é um enigma complexo de resolver.

Qualquer que suceda a Vítor Pereira terá um acolhimento caloroso, isso parece claro. Mas será isso suficiente para inverter a tendência suicida desta temporada?

domingo, 23 de outubro de 2011

Estamos em primeiro

Apesar das fracas exibições, o FC Porto está em primeiro lugar no campeonato e, por isso, não faz sequer sentido colocar a hipótese de substituição do treinador principal, certo?

Por aquilo que percebi, dando uma vista de olhos pela blogosfera azul-e-branca, é esta a opinião de muitos portistas. Ora, a mim, parece-me redutor tomar uma decisão baseada (quase) unicamente na posição que a equipa ocupa na tabela classificativa. Além disso, é muito diferente ser 1º com 10 pontos de avanço (e após várias exibições empolgantes), ou estar em 1º mas com os mesmos pontos do slb.

Já lá vão 10 anos, mas vale a pena recordar o que se passou em 2001/02, época em que o FC Porto chegou à liderança à 4ª jornada, posição que voltou a ocupar à 8ª jornada e, novamente, nas jornadas 12 e 13 (ver gráfico seguinte).


Será que estarmos em primeiro à 13ª jornada da época 2001/02, após quatro vitórias consecutivas (uau!), era sinónimo de que não havia problemas e que as coisas estavam bem encaminhadas? A resposta é conhecida. A partir daí foi sempre a descer e, após a derrota no Bessa à 19ª jornada, Octávio saiu mesmo e foi substituído por José Mourinho (que já só foi a tempo de garantir o 3º lugar final).

Continuando a centrar a análise nas lideranças, a época 2004/05 foi ainda mais sui generis. A equipa jogava pouquinho, mas esteve na frente do campeonato em 11 das 34 jornadas. Mais. No primeiro terço da prova, quando já eram notórios diversos problemas, o FC Porto alcançou uma série de seis vitórias e um empate (entre a 4ª e a 10ª jornada). Segundo estes indicadores, talvez não fosse preciso mudar de treinador...
Contudo, tal como em 2001/02, o treinador – Vítor Fernandez – foi substituído após uma derrota à 19ª jornada (1-3 em casa, contra o SC Braga de… Jesualdo Ferreira).


Fazendo uma análise fria e racional, que significado tinha estarmos em primeiro à 10ª, 11ª, 12ª, 13ª, 15ª, 18ª, 20ª, 21ª, 22ª, 23ª e 24ª jornada?

Moral da história: É bom estar em primeiro (candeia que vai à frente…), mas é preciso ver mais fundo e analisar o desempenho da equipa de forma global, bem como, a atitude dos jogadores dentro de campo (por exemplo, correm à mesma velocidade para a frente e para trás?) e a evolução da equipa ao longo das semanas de competição. Por isso, não me parece que ser líder à 7ª jornada sirva, por si só, para mascarar os problemas existentes e signifique que não há nada a mudar.

De resto, só espero que se tivermos de mudar de treinador não seja à 19ª jornada. É que, ainda por cima, os campeonatos agora têm 30 jornadas (em vez das 34 que existiam em 2001/02 e 2004/05), o que torna mais difícil qualquer recuperação.

P.S.1 Estamos em primeiro e espero que continuemos em primeiro até à última jornada. Para isso serão precisas vitórias, se possível acompanhadas de exibições convincentes. Já agora, seria óptimo se hoje devolvêssemos os 0-4 da época 2004/05...

P.S.2 Como é óbvio, nada me move contra o Vítor Pereira, que me parece ser um profissional sério, não masca chicletes e, ainda por cima, é portista. O único problema é que desejo o melhor possível para o FC Porto.

Fonte: Os quadros e gráficos anteriores foram obtidos no site zerozero (clicar nas imagens para as ampliar).

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Olha que dois...


... que o Record juntou no Estoril Open.


"O Benfica que não se preocupe com a água, pois já contratamos uma empresa de aspiradores para sugar a relva e, com um bocadinho de jeito, ainda pedimos emprestado um tapete de veludo vermelho ao Papa"

Sabem quem disse isto? Octávio Machado, em Abril de 1991, na véspera do FC Porto x slb de 1990/91 (o tal do balneário alegadamente com cheiro a bagaço, jogo "brilhantemente" arbitrado por um trio do "armazém de Setúbal" comandado por Carlos Valente).
Na altura, o "Palmelão" era o treinador-adjunto de Artur Jorge, sendo o segundo elemento do FC Porto mais odiado pelos benfiquistas.

20 anos depois, tão amigos que eles são. Até fico comovido...
Os inimigos dos meus inimigos meus amigos são. Será isso?

Foto: record.pt

sábado, 4 de dezembro de 2010

O Homem do Leme ideal não existe (II)

Por Miguel Lourenço Pereira

(1ª parte)

Nas Antas ainda se lembra com saudade o espirito gentleman e determinado do fleumático Bobby Robson, que também saiu a mal com o clube mas que deixou uma imagem imborrável de um técnico de ataque, comprometido e que deixou escola (Mourinho e Villas-Boas que o digam).

No lado oposto dessa devoção estão certamente Fernando Santos e Jesualdo Ferreira, a quem o sucesso não foi nunca suficiente para entrar na galeria dos grandes. Também porque, o passado ligado ao Benfica acabou por ser um lastro nunca perdoado pelos adeptos em ambos casos.
O actual técnico do Panatinaikhos cometeu o feito histórico de ser tricampeão, algo a que o seu talento não estará alheio, mas nem isso lhe permitiu o mais leve elogio dos adeptos, incapazes de entender a sua postura esfingica no banco e fora dele.
Pior sorte sofreu o engenheiro do Penta, que chegou a sofrer na pele o desagravo dos adeptos depois de uma derrota frente ao Torreense. Dois anos sem vitórias e todo o seu passado foi questionado e o nome borrado da memória de quem vibrou com uma das equipas mais eficazes do futebol português dos anos 90.

Nem os titulados e imensamente talentosos Tomislav Ivic e Carlos Alberto Pereira, técnicos campeões, simpáticos e populares à época sobreviveram ao passar do tempo e hoje são poucos os que se lembram deles à hora de compilar a galeria dos grandes monstros dos bancos azuis e brancos. Perfis apagados que costrastam com a imagem guerreira que os dragões gostam de relembrar nas suas gestas.

No lado oposto estão incluidos os ódios de estimação de muitos em que se tornaram Octávio Machado (um caso de regressão progressiva, de jogador a técnico principal) e o holandês Co Adriaanse (ódio à primeira vista, com agressão fisica incluida pelo sector ultra dos adeptos furiosos após uma derrota em Vila do Conde) e até Victor Fernandez, espanhol e velho amor de Pinto da Costa que se tornou talvez no técnico campeão do Mundo menos respeitado pelos próprios adeptos.

Caso à parte para os portistas merece António Oliveira, imensa e polémica glória dentro e fora dos relvados. Há quem fique com o seu estilo guerreiro e insubmisso ao estilo da velha guarda e os que não esquecem quando se ajoelhou na Luz ou as suas túrbias relações com a empresa do irmão e o mundo da noite do Porto.

Os adeptos azuis e brancos não são diferentes dos demais, por muito especial que o clube nos pareça. Todos querem um treinador competente, talentoso, ganhador e com atitude, capaz de criar empatia com os jogadores, com a massa adepta e de impor respeito aos rivais. Talvez por isso a chegada do jovem André Villas-Boas, filho da casa, discipulo avantajado de dois grandes professores e um homem forjado no mundo da alta competição tenha encontrado uma empatia nas bancadas do Dragão que há muito não se via. Mas muitos dos que agora elogiam AVB podem acabar por sofrer o mesmo efeito provocado por Mourinho há seis anos, que rapidamente passou de bestial a besta. Porque o adepto segue um ideário colectivo e reage mal à afirmação individual. Passou isso no passado com aquele que é, provavelmente, a maior figura da história do clube.

Os que hoje talvez vetariam a Mourinho, os que num futuro possam fazer o mesmo com AVB caso siga o mesmo caminho, talvez fossem os mesmos que vetaram um tal de José Maria Pedroto, quando o seu “eu” individual, directo e frontal entrou em choque com a mentalidade da direcção e massa adepta de 1967. O mesmo que teve de ver a suspensão revogada antes de dar inicio ao FC Porto, abrindo a escola dos reis Artur, Jorge e (se possível) André que se seguiram. É impossível agradar a todos, os adeptos são assim.

Haverá algum dia um técnico azul e branco que consiga ser lembrado apenas pelo seu talento e não tanto pela sua postura de vida, atitude fora do campo ou passado clubistico? Uma tarefa bem mais dificil do que podemos imaginar, afinal somos todos humanos.


Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao Miguel Lourenço Pereira a elaboração deste artigo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

As histórias de Octávio

No dia 6 de Fevereiro, o jornal i publicou uma entrevista de Octávio Machado, onde este aproveita para atacar alguns dos seus ódios de estimação (António Oliveira, Artur Jorge, Jorge Costa, Pinto da Costa, Norton de Matos, ...)

Contudo, na entrevista conta dois episódios, do tempo em que era treinador-adjunto do FC Porto, que vale a pena ler.

Sobre o Juary, na final da Taça dos Campeões:
"Ai o Juary. Bom rapaz mas caiu em algumas tentações. Fico feliz por o ver bem, e a treinar em Itália. Era o nosso Joker, aquele que entrava e desbloqueava um empate. Mas ele era danado para a brincadeira. Então quando o vi a descer as escadas de manhãzinha, no dia do jogo com o Bayern Munique, percebi logo que ia haver confusão. Fui atrás dele e apanhei-o na sauna, em animada conversa com um empregado do hotel, que também era brasileiro. Dei-lhe uma daquelas broncas. Ele ficou cá com uma azia. Na hora do almoço, ficou à minha espera à porta do restaurante e perguntou-me se o Artur Jorge sabia do desaparecimento dele naquela manhã. Disse-lhe que não, mas que se não fizesse a sua parte naquela noite, eu e ele [Juary] iríamos ter uma conversa séria e que lhe fazia a folha. Nessa noite, entrou e marcou o golo decisivo [2-1]."

Sobre o mito (ou verdade) de que controlava os jogadores do FC Porto:
"Ainda não havia telemóveis, senão... Ah, ah, ah! Verdade seja dita, nunca houve um jogador que fosse multado por mim no FC Porto. Nem sequer havia regulamento interno. Mas agora cabe na cabeça de alguém fazer uma lista com os dez mandamentos? As regras são do conhecimento público. A única vez que fui a casa de alguém foi à do Futre. Sabe, ele gostava muito de dormir e, uma vez, disse ao enfermeiro do FC Porto que não ia fazer o tratamento à tarde. Quando soube disso, arranquei para a casa dele, tirei-o da cama com o toque de campainha e disse-lhe muito simplesmente: "Olha Paulo, vou ali beber um cafezinho e quero ver-te nas Antas quando chegar lá, daqui a nada." Dito e feito. De resto, nunca fui um espião nem nada parecido."

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Vocês sabem do que estou a falar

Confesso. Li o livro do homem.

Há personagens no mundo do futebol, que estando mais ou menos distantes das minhas convicções, me fascinam. E uma delas é sem dúvida nenhuma: Octávio Machado.

O livro é uma súmula daquilo que durante anos, fomos ouvindo da boca do Octávio e de outras que se ouviam por aí, a algumas histórias deu nomes, a outras manteve-se no mesmo estilo de sempre.

A alergia que tenho a empresários (António Araújo à cabeça) deve-se em grande parte ao Octávio, e nesta luta estou ao lado dele. E por isso não deixa de ser delicioso o episódio com o Delane Vieira que tem este epílogo:

Numa das portas de acesso ao balneário, estou eu à conversa com o Amândio Alves, jornalista de A Bola. Para grande surpresa minha, vejo aproximar-se o Delane Vieira, preparando-se para entrar no balneário. Não me contive, disse ao Delane: «Não arranjes problemas, vai embora, o balneário é um templo sagrado, aqui dentro poucos são aqueles que têm o privilégio de usufruir deste espaço e tu não és um deles.» O Delane obedeceu, foi embora. Passados uns minutos, por uma outra porta que dava acesso ao túnel de entrada no estádio, surgiu o Pinto da Costa, que se pôs à conversa com o Luís César. Logo de seguida, pela mesma porta, entrou, todo pimpão, o Delane Vieira. Abri os olhos desmesuradamente e cravei-os no Delane, fitei-o durante algum tempo sem pestanejar. Perante o meu ar ameaçador, o Delane, com a língua expedita, disse ao Pinto da Costa: «Presidente, temos de resolver isto.» Não me tive em mim, à frente dos jogadores e demais responsáveis do FC Porto, ferrei uma estalada tal nas bochechas do Delane que este caiu redondo no chão. Não admitia que fosse desautorizado, amesquinhado perante os jogadores, aí alto! Caso contrário, perderia o respeito de todos eles. Os jogadores podiam gostar ou não gostar de mim, mas havia uma coisa que sempre tiveram por mim: um grande respeito. Eles sabiam que eu fazia tudo, mas mesmo tudo, em defesa daquilo que eu considerava sagrado, que era aquele grupo de trabalho. Eles sabiam que eu fazia tudo para os defender e não podia perder essa autoridade nem podia perder o respeito. Foi a maneira que eu encontrei de lhes dizer: «Desculpem tudo isto, eu possooaté ir embora, mas aqui ninguém brinca comigo nem me amesquinha.» Quando o Delane, embaraçado, se tentou levantar, pus-lhe um pé em cima, sentei-o outra vez e atalhei conversa: «Eu avisei-te para não te meteres comigo, disse-te que no dia em que te metesses comigo eu fazia-te a folha. Tu a mim não metes medo. E se começas a miar muito ainda te faço pior.» O Delane ficou-se.